10 álbuns da música instrumental brasileira que eu não canso de ouvir


Uma lista despretensiosa para conhecer um pouquinho mais sobre nossa cultura.

Depois de um hiato de quase dois anos, cá estou de volta ao Trevous! Recebi com muita emoção o convite para escrever nesta nova fase do site, e logo que consegui conter as lágrimas me veio a ideia de escrever o artigo de reestreia num formato que está muito em voga por estas bandas da internet: listas! Como prova de que não sou o diferentão, sigo a tendência mundial e apresento minha lista dos 10 álbuns da música instrumental brasileira que eu não canso de ouvir. Foi baseada em critérios absolutamente pessoais e subjetivos, composta por obras que fazem parte de minha humilde coleção, sem a menor pretensão de estabelecer referências didáticas ou históricas e com a descontração de quem recomenda um disco aos amigos numa mesa de bar. Divirta-se!

1. Quarteto Novo (1967)

Um grupo formado por Théo de Barros, Heraldo do Monte, Airto Moreira e o mítico Hermeto Pascoal, recém chegado aos 30 anos, quase irreconhecível sem a cabeleira e a barba que seriam a marca visual de sua extravagância. Este foi o Quarteto Novo, grupo instrumental de carreira curta mas cuja influência tem atravessado gerações. Ainda hoje, passados 40 anos desde o lançamento de seu único álbum, o Baião instrumental do quarteto continua a exalar frescor e descontração, em arranjos simples, arrojados e de criação coletiva. Com repertório formado majoritariamente por composições dos integrantes, o grupo apresentava uma sonoridade ao mesmo tempo regional e globalizada, certamente a semente daquilo que hoje Hermeto Pascoal chama de “música universal”.  Disco obrigatório para entender a música instrumental brasileira.

2. Radamés Gnattali Sexteto (1975)

De formação erudita mas demonstrando total intimidade com a música popular brasileira e flertando com elementos do Jazz, Radamés Gnattali foi um dos arranjadores e maestros mais importantes do Brasil, além de compositor e grande pianista. Na maturidade tornou-se o grande mentor de toda uma geração de músicos do Choro, justamente a geração responsável pela renovação que o gênero experimentou na década de 70 . A formação instrumental de seu sexteto era de guitarra, baixo, bateria, acordeom e dois pianos (!), sendo um deles tocado pelo próprio Radamés. Com repertório dividido entre Choros clássicos e composições autorais em arranjos inusitados e cheios de originalidade, este disco certamente foi influência direta ou indireta para pelo menos metade dos outros desta lista.

3. Paulo Moura – Confusão urbana, suburbana e rural (1976)

Paulo Moura é um dos maiores músicos que o Brasil já conheceu e é minha maior referência de instrumentista fora do universo das cordas. Tudo neste disco emblemático parece fugir do óbvio, seja pelo ecletismo do repertório, pelos arranjos e mixagens ousadas, e até mesmo pelo time que reúne músicos com estilos tão diversos quanto Rosinha de Valença e Toninho Horta, ou ainda, Altamiro Carrilho e Mauro Senise. Em cada faixa fica muito clara a característica que fez de Paulo Moura um músico reconhecido e respeitado em todos os nichos da música instrumental: a capacidade de absorver e sintetizar as mais diversas influências, do Choro ao Jazz, do Forró à Black Music,  numa música ágil, inteligente e descontraída. Seja no clarinete ou no saxofone, a marca de Paulo Moura é tão forte que basta uma nota para reconhecê-lo. De quebra ainda tem a belíssima capa de Elifas Andreato, o grande artista gráfico dos LPs da MPB.

4. Camerata Carioca – Tocar (1983)

A Camerata Carioca foi um grupo que apresentava a instrumentação típica do Choro (bandolim, cavaquinho, violões e percussão) executando arranjos camerísticos que saíam totalmente do velho esquema solista + base. Teve em sua formação músicos que viriam a ser referência no Choro, como Joel Nascimento, Raphael Rabello, Maurício Carrilho, Henrique Cazes e meu querido mestre de violão Luiz Otávio Braga. O grupo teve duração relativamente curta e gravou poucos discos, dentre eles esta pérola relativamente pouco explorada da discografia instrumental brasileira. Com o perdão do trocadilho, “Tocar” é um disco irretocável em todos os aspectos, desde os arranjos até a execução, gravação e mixagem. E o repertório? Pixinguinha, Villa-Lobos, Piazzolla, Radamés Gnattali, Wagner Tiso, entre outros. Desta lista, este é sem sombra de dúvida o disco que mais ouvi e que mais me influenciou como artista.

5. Raphael Rabello e Dino 7 cordas (1991)

Quanta dificuldade em escolher apenas um disco do Raphael para a lista! Influência de dez entre dez violonistas brasileiros, inclusive deste que voz escreve, Raphael dispensa apresentações, mas se você não o conhece direito recomendo este artigo aqui, que escrevi para o Trevous em 2014. Dos tantos de que gosto, acabei escolhendo este disco de 1991 em parceria com Dino 7 cordas, o grande “inventor” da linguagem do violão de 7 cordas e certamente a maior influência musical de Raphael. Um álbum épico, com repertório de Choros clássicos, onde Dino faz o acompanhamento (e que acompanhamento!) para os solos de Raphael. Falando assim até parece que a sonoridade é trivial, mas cada faixa deste disco é uma conversa deslumbrante entre os maiores representantes de duas gerações do violão brasileiro, o mestre passando o bastão ao discípulo.

6. Trio Madeira Brasil (1997)

Formado pelos virtuoses Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas), o Trio Madeira Brasil é um dos pilares e precursores desta fase de grande efervescência que o Choro vive desde o começo dos anos 2000. Neste disco com repertório altamente diversificado (Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Manuel de Falla e até Scott Joplin!), o trio fica no limiar entre o popular e o erudito, em arranjos e mixagens que extraem todo o potencial desta formação instrumental tão típica do Choro. Na faixa “Loro”, Zé Paulo troca o violão pela viola caipira sem perder o brilho, e temos o arranjo mais bonito que já ouvi para esta famosa composição de Egberto Gismonti. Este disco segue claramente a linhagem iniciada pelo número quatro desta lista e reafirma a vocação da música popular brasileira e latino-americana para as formações reunindo variados instrumentos de corda.

7. Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e Banda Mantiqueira (2003)

Eu estava começando a estudar arranjo, pelos idos de 2005, quando ouvi este disco pela primeira vez. Pirei! Com repertório que vai de Villa-Lobos à Guinga, passando por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Moacir Santos, Tom Jobim e Chico Buarque, a sonoridade atingida neste álbum é de uma grandiloquência rara e de tirar o fôlego; não era pra menos, já que se trata do encontro de umas das maiores orquestras sinfônicas com uma das maiores big bands do Brasil. O medley de Choros é minha faixa preferida e traz em sequência “Naquele tempo”, “Um a zero” (ambas de Pixinguinha) e “O voo da mosca” (de Jacob do Bandolim) num arranjo espetacular do líder da Mantiqueira, o grande clarinetista e saxofonista Nailor Proveta. A parceria das orquestras rendeu mais dois álbuns, um com a participação da cantora Luciana Souza, e outro com a participação de Mônica Salmaso.

8. Hamilton de Holanda – 01 byte 10 cordas (2005)

Hamilton de Holanda é um dos músicos brasileiros mais relevantes e influentes da atualidade, e seu trabalho certamente  tem assinalado uma nova página na história da música instrumental, nacional e internacional. Para mim, 01 byte 10 cordas, álbum solo gravado ao vivo no Rio de Janeiro, foi o ponto de inflexão definitivo que Hamilton colocou na curva evolutiva da linguagem do bandolim. Tocando oito músicas (Ary Barroso, Pixinguinha, Geraldo Vandré, Piazzolla, além de quatro composições próprias), sozinho no palco, Hamilton faz, ao mesmo tempo, melodia, harmonia, ritmo e contraponto, por vezes dando a impressão de haverem dois instrumentos tocando. Já ouvi este disco inúmeras vezes e continua soando tão impressionante quanto da primeira vez. É Hamilton sendo Hamilton.

9. Quatro a Zero – Choro elétrico (2005)

Como soar original e autêntico dentro de um gênero musical com quase um século e meio de história? O grupo paulista Quatro a Zero respondeu a esta questão com muita criatividade em seu disco de estreia, oportunamente batizado de Choro elétrico. A utilização de instrumentos elétricos no Choro não é frequente, mas também não chega a ser uma novidade, vide a guitarra de Zé Menezes no disco número dois desta lista. Mas a sonoridade extraída da formação guitarra, baixo, piano e bateria pelo Quatro a Zero é de uma autenticidade acima da média. Com repertório de Choros conhecidos, mas não tão óbvios, e algumas composições autorais, arranjos pouco convencionais (vários com uma veia quase humorística) e performances impecáveis, Choro elétrico é um álbum interessantíssimo que abriu novas possibilidades dentro de um gênero que por vezes traz um ranço tradicionalista e conservador que freia a criatividade e a espontaneidade.

10. Spok Frevo Orquestra – Passo de anjo (2006)

Quando se fala em Frevo a primeira coisa que lembramos costuma ser o tema “Vassourinhas” (dá um google, tenho certeza que você conhece). Mas este gênero pernambucano vai muito além disso, e o disco de estreia da Spok Frevo Orquestra foi muito didático no sentido de mostrar as imensas possibilidades do Frevo aos ouvidos mais preguiçosos em ultrapassar fronteiras regionais. Com repertório majoritariamente de compositores contemporâneos e alguns medalhões como Levino Ferreira, Sivuca, Hermeto Pascoal e Maestro Duda, arranjos caprichadíssimos e uma orquestra afiada, Passo de anjo traz a rítmica e o contorno melódico típicos do Frevo misturados à harmonizações e formação instrumental típicas das big bands de Jazz. Não é a toa que o estilo da orquestra do maestro Spok (apelido do saxofonista e band leader Inaldo Cavalcante) já foi descrito várias vezes como “Frevo-Jazz”. Desde então a orquestra tem percorrido uma trajetória muito consistente e prolífica, e seguramente terá vida longa e próspera.

Aproveite, estamos na era da internet, se bateu a curiosidade será muito fácil achar qualquer um destes discos pra ouvir. Inclusive, alguns deles foram disponibilizados pelos próprios artistas em redes sociais como Soundcloud ou Facebook, procure e ouça. Até a próxima!

5 Comentários

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Leila Perciresponder
17 de janeiro de 2017 em 8:23 PM

Uau! Mil vezes uau! Obrigada pela aula de história da nata da música, e também, por me fazer relembrar canções que amo. Esse último aí, do meu conterrâneo e amigo Spok, tem Direção do meu amado tio e grande músico Zé da Flauta. Inclusive ouça Psicoativo, o cd (foda) instrumental dele: https://www.youtube.com/watch?v=67d8-EltEU8. Valeu Diego!!

Diego Cavalcantiresponder
18 de janeiro de 2017 em 11:57 PM
– Em resposta a: Leila Perci

Que comentário carinhoso, Leila, muito obrigado! 😀 E que legal a coincidência de seu tio ter produzido o disco! Vou ouvir o trabalho sim, um beijo!

Leila Perciresponder
19 de janeiro de 2017 em 1:01 PM
– Em resposta a: Diego Cavalcanti

É sim. A música une mundos. 😉 Depois de ouvir me fala. Beijo!

Maria Gabriela Saldanharesponder
10 de fevereiro de 2017 em 1:37 AM

Começa o texto com aquela humildade de quem vai dar uma dica para um amigo e a cada álbum vai envolvendo o leitor com um conhecimento ímpar, seduzindo-o para pesquisar cada obra e instigando-o a notar os aspectos que foram ressaltados em cada análise. Amei! Não tem como ficar na mesma depois desse texto. É nossa obrigação ouvir tudo e pesquisar muito mais a partir desse material. Obrigada pela generosidade em dividir esse conhecimento.

Um beijão!

Edilzaresponder
16 de fevereiro de 2017 em 9:15 PM

Ainda bem que hoje existe o Spotify pra não invejar a coleção. Uma boa parte de suas indicações de encontrei por lá. Valeu! Rsrs.

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