Adeus Pop Rock

O ano era 2001.  Rock in Rio rolava afu no Rio de Janeiro, a internet se tornava cada vez mais popular, o Domingo Legal ganhava a audiência todos os domingos e eu era  uma adolescente entediada, no interior do Rio Grande do Sul. Nessa época tive uma grande surpresa ao ligar o rádio. (Pra quem tem menos de 20 anos, esclareço que era comum ouvir musica no rádio, antes do advento internet + MP3.) Não foi nenhuma banda nova, mas um amor radiofônico se revelou. Aquela era a primeira vez que eu ouvia um programa de humor (ou bem humorado, como eles preferiam ser qualificados) no rádio. Não era a TV, não tinha homem vestido de mulher, maquiagens ou efeitos especiais; eles apenas usavam a voz, e o resto a minha imaginação completava.

O programa se chamava Cafezinho e a rádio era a Pop Rock FM. Por que “era” Pop Rock?  Porque a partir do dia 20 de setembro de 2013, ela oficialmente se tornará uma afilhada da rede MIX FM.

Primeiro time de locutores, em 1997.

Sem a Pop Rock não existiria todo um conceito de comunicação no FM, que misturas, músicas + humor + informalidade + dinheiro e que hoje é usado por outras emissoras de rádio e TV.  Foram muitas cabeças pensantes que passaram por essa rádio que fizeram o jovem se sentir alvo de uma comunicação, e não coadjuvante de uma programação focada na classe A ou C. (É claro que a criatividade da Ipanema FM é maravilhosa, mas não teve o retorno comercial que a PR teve.) E claro, sem a Pop Rock não existiria a Deeercy, meu modesto ganha-pão há quatro anos.

Ta, Denise, mas onde tu quer chegar?

Eu não sei como funciona em todo o Brasil, mas o gaúcho é muito apegado à rádio. Ele sabe o nome do locutor, o time que ele torce e se deixar até convida o cara pra comer um “churras”. Se formos trazer pra um modelo geral, os locutores eram como as webcelebridades são hoje de hoje.

Grupo de ouvintes da Pop Rock que se encontram até hoje para fazer churrascos.

Com 14 anos eu já tinha 5 cadernos com praticamente todas as piadas que existiam. Naquela época o Stand Up não era famoso no Brasil, e todo mundo era feliz contando piadas de loira, papagaio e português. Sabia quem era o locutor do horário pela forma que ele mixava o final de uma musica com o início da outra.

Mas a devoção não parou por ai. Eram inúmeros tópicos no Orkut (sim) discutindo a programação. Um deles chegou a passar de 100 mil publicações. Acompanhamos de perto o primeiro final da Pop Rock, em 2007: a saída de Alexandre Fetter, a “arrevoada das marrecas” e a crise na ULBRA. Durante anos ela tentou se recuperar, agora foi a última pá de cal.

É muito triste falar como ouvinte, porque ainda lembro da primeira vez que entrei em um estúdio. A magia quase foi embora quando vi toda a burocracia pra entrar e no final ele  era um pouco maior que um banheiro.  Mas foi só o Fernando Machado ligar o microfone pra me deixar mais encantada do que uma criança de 7 anos na Disney.

Cresci decidida a ser radialista, mas foi o humor que me pegou e nove anos depois eu estava trabalhando no Rio de Janeiro com o Casseta &Planeta. Tudo isso porque um dia eu resolvi anotar uma piada, de um programa que um dia comecei a ouvir sem querer.

Agora estamos sepultamos aquele tio que te fez ouvir discos do Led Zeppelin, contava piadas durante o almoço e sempre te acompanhava quando ninguém mais queria ir com você.  Ficou um vazio que nenhuma MIX irá ocupar.

[infobox bg=”green” color=”white” opacity=”off” subtitle=”Nesse mês a MTV Brasil também encerra suas atividades. A emissora foi um ícone dos jovens alternativos até meados dos anos 2000. Bem, deixa isso pra lá…”]Adeus MTV[/infobox]

1 Comentário

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Roneida Rinaldiresponder
3 de setembro de 2013 em 3:08 PM

Denise me fez chorar..Estou me sentindo exatamente igual a ela, meio orfã…Texto muito comovente, para quem é fã do Cafezinho e da Pop Rock desde o século passado…

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