Amanhã vai ser maior

É bom estar de volta. Ainda que para este texto de retorno, um texto com gosto de redação de férias na volta às aulas, eu planejasse escrever sobre um tema, digamos, mais específico da blogosfera. Aquela coisa umbiguista, autoreferenciada, confessional e bem humorada, que no geral é a tônica dos blogs.  Ou costumava ser, na longínqua era em que estes não geravam renda, bem diferente dos altamente comerciais blogs e blogueiros profissionais dos dias de hoje. Minha despretensiosa ideia era compor algo sobre as datas comemorativas e seus desdobramentos sociais, muitos deles até engraçados, como a obrigação em ser caridoso e compassivo no natal, romântico no dias dos namorados e por aí vai. Ando meio empolgado com a descoberta de assuntos e autores – pra variar – e intentava compartilhá-los no único espaço que possuo voz e/ou leitores, enfim, aqui nestes breves caracteres do Trevous. Mas deu no que deu. Manifestações e protestos contra o aumento das passagens, iniciados em São Paulo, deflagraram-se por todo o território nacional e, graças à pressão do meu editor junto de minha inevitável vontade de pitaquear a respeito, tive o incentivo necessário para registrar minha impressão dos acontecimentos.

Como tem muita gente especializada comentando por aí, e sendo, inclusive, tema de piada dado o contrapé em que foram pegos – sociólogos, cientistas políticos, jornalistas, curiosos e até o Datena -, decidi ater-me ao que considero mais protuberante ao (meu) olhar. Estive em dois dos protestos ocorridos no Rio de Janeiro. O da concentração na Aldeia Maracanã, domingo, 16/06, que tinha como objetivo a passeata pacífica até os portões do Mário Filho reformado e devidamente anunciado nos classificados à privatização, onde foi realizado o jogo Espanha x México; e o da última segunda-feira, 17/06, data em que, apesar dos meus joanetes revolucionários estribilharem, infelizmente não posso considerar como a “mais emocionante da minha vida, cara” (#vemprarua). Claro que o caráter apartidário, jovem, individualizado e despersonalizado através dos anonymous faces, e as pedradas nos carros da Rede Globo são, de fato, motivos de orgulho para quem achava que essa geração só queria saber de postar fotos sempre do mesmo ângulo nas redes sociais. Claro. Agora, daí a comparação apressada com movimentos como os da Primavera Árabe há uma longa distância a ser percorrida.

Lembro-me do burburinho em torno do Occupy Wall Street, um dos mais marcantes eventos da crise capitalista e retrato da insatisfação dos milhares de excluídos do jogo do capital; à época, o otimismo insuflado pela ocupação ganhou projeção, atravessou oceanos, e materializou-se em eventos similares ao redor do globo. As grandes capitais brasileiras também produziram suas ocupações: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre contribuíram com sua cota de insatisfeitos. O que também lembro, foi que boa parte da população criticou duramente as ocupações, tidas como “desnecessárias”, “coisa de gente que não tem o que fazer”. Outros setores sequer se posicionaram. Talvez pelo rarefeito entendimento dos próprios participantes a respeito de seu pleito, já que eram contra “tudo o que está aí”, o movimento foi sumariamente ignorado pela mídia nacional, salvo gratas exceções de sites e jornais independentes – todos online, comprovadamente o mais útil veículo de articulação nestes casos. Dotado de um pré-requisito teórico por vezes intelectualizado demais como necessidade para participação, o Ocupa-RJ e demais movimentos, restringiram-se a esfera dos universitários e professores, aos anarquistas e comunistas de praxe, aos indignados e a poucos e esparsos representantes de movimentos sociais. Tivemos bons GTs, debates e algumas visitas ilustres, como o filósofo marxista Antonio Negri que deu um rolé no meio das barracas na Cinelândia. Zygmunt Bauman, o sábio polonês que atua como sociólogo, sinalizou o cuidado a ser tomado para que não fossemos tragados pela ebulição do momento, pois a “modernidade líquida” ferve, quase transborda, para em seguida resfriar, voltando a seu estado inicial, sem grandes alterações para a estrutura da leiteira que a contém.

Esse amálgama de sentimentos e emoções: raiva, frustração, medo, agressividade, ansiedade, humilhação e impotência, irrompe a partir dos imprescindíveis 0,20 centavos.

O que pude observar nos dois dias de participação é que tantos anos de descaso, corrupção, criminalização da pobreza, estado penal em vez de social, atos unilaterais atendendo ao setor privado e demais desmandos e improbidades por parte do Estado, ajudaram a fermentar essa mistura que mais uma vez ferve em nossa sociedade. Esse amálgama de sentimentos e emoções: raiva, frustração, medo, agressividade, ansiedade, humilhação e impotência, irrompe a partir dos imprescindíveis 0,20 centavos. Extrapolando o ambiente universitário, e afastando as lideranças partidárias oportunistas, desta vez o impulso juvenil encontrou eco e apoio em outros segmentos. O protesto realizado durante a abertura da Copa das Confederações, embora pacífico e de tamanho incomparavelmente reduzido ao de segunda-feira, foi impedido de seguir sua marcha em direção ao estádio. Por precaução, a Polícia Militar considerou que a melhor opção era nos tangenciar em direção ao Parque da Quinta da Boa Vista e lá nos manter. Em pleno domingo, centenas de famílias aproveitavam os gramados e atrações do parque, quando foram surpreendidas por uma horda de agressivos soldados que, seguindo o raciocínio inicial, elegeram como melhor medida disparar bombas e gás de pimenta por toda parte, após trancarem as portas do Parque, vale dizer.

Francamente, que tipo de treinamento essas pessoas recebem? Isso é um claro indicativo da política leiloada do governo do estado, defensora, sobretudo dos contratos de negócio afirmados. Na última passeata, a convocação foi maior. Houve mudança de discurso na cobertura efetuada pela grande mídia. O sentido pacífico, reivindicante do movimento, foi retratado, pulgas atrás de nossas orelhas à parte, havia luz no horizonte. Porém, mais uma vez, a força coercitiva mostrou-se renitente em permitir a livre manifestação e bloqueou o acesso ao prédio da ALERJ, a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Ora, ao tentarem impedir o acesso a uma edificação emblemática, símbolo de uma tomada de poder, ainda que temporária, a Polícia Militar usou de seu conhecimento repressivo e incendiou o rastilho desenrolado desde o início do trajeto lá na Candelária. Uma vez aceso foi, surpreendentemente, incapaz de conter a explosão. Aqui cabem uma ou mais perguntas: por que tão poucos policiais protegendo a ALERJ? Por que os reforços demoraram tanto a chegar? Essas dúvidas surgem quando se compara essa ação – policiais acuados e feridos, correndo para salvar as próprias vidas – às da Quinta da Boa Vista e seu desmesurado uso de força, a despeito das crianças e idosos envolvidos, além da pífia reportagem sobre o acontecido. Haveria a intenção de desqualificar o movimento, salvaguardados pela cobertura do quebra-quebra? Seria a “baderna” o ponto cego a ser explorado? São questões que se nos apresentam. Os protestos devem continuar. Nos vemos na Candelária!

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