Choro: mais underground que o underground



Um pequeno teste de conhecimento sobre o Choro: sabe dizer quem foi Joaquim Callado? Não? E Ernesto Nazareth, também não? Hmm, quem sabe Jacob do Bandolim, conhece? Tá bom, mais fácil impossível: Pixinguinha, já ouviu falar?

 Sabe dizer o nome de alguma música dele, ou pelo menos cantarolar um trecho?

Se você não foi bem nesse teste, não se preocupe você é mais um que, como a maioria de nossa população, sabe apenas que Choro é um gênero musical nascido aqui, e mais nada. Um monte de gente sabe um bocado de coisa sobre o cenário da música eletrônica na Europa, a nova bandinha de rock alternativo que surgiu na Escócia, as novas tendências do pop japonês, ou o mais recente álbum de uma banda escandinava de metal. Mas sobre o Choro… nada! É por isso que digo: o Choro é mais underground que o underground. É mais fácil saber sobre a música produzida muito longe daqui, por caras que vivem outra realidade, falam outra língua e respiram outros ares, do que aquela produzida por gente como a gente, que fala português, come arroz com feijão, não sabe o que é neve, e gosta (ou não…) de futebol.

Passados quase dois séculos desde o controverso grito de “independência ou morte”, nossa mentalidade ainda bastante colonizada continua tendo por hábito achar que o melhor é aquilo produzido fora daqui, pelas metrópoles do momento. Enquanto isso, a música genuinamente brasileira (Choro, Samba, Bossa-Nova, Baião, Xote, Frevo, Maracatu, e tantos outros gêneros) continua negligenciada pela grande mídia, quase sempre sendo diminuída de seu real valor, aquilatada a partir de parâmetros euro-americanos; quando muito, é colocada na estante sob o pomposo título de “patrimônio cultural brasileiro”, o que nem de longe significa que esteja mais presente nos i-pods, rádios FM e bancas de CDs pirata da Uruguaiana; fica lá na estante empoeirando, em vez de nos ouvidos, na boca e no coração do povo que a criou.

Com o pretensioso (mas sincero) objetivo de diminuir o desconhecimento geral sobre a música que mais gosto e mais toco, venho compartilhar com vocês um pouco do que aprendi sobre o Choro ao longo dos anos que tenho como músico. Pra começar, vamos assistir um vídeo:

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“Carinhoso” eu tenho certeza que você conhece; sem dúvida é o Choro mais conhecido, e uma das canções mais gravadas de nossa história. Foi composto em 1917 por Pixinguinha (1897-1972), flautista, saxofonista, e o nome mais importante do Choro e da música popular brasileira. E antes que alguém ache que estou exagerando, saiba que esta opinião é compartilhada por vários pesquisadores, musicólogos, e por uns tais Tom Jobim e Villa-Lobos. Inicialmente o Carinhoso não tinha letra, e suas primeiras gravações foram instrumentais. Somente 20 anos depois, em 1937, é que recebeu os versos imortais de Braguinha, o quê com certeza ajudou a popularizar ainda mais a música.

Quando Carinhoso surgiu, o Choro já era um tipo de música com mais ou menos cinqüenta anos de existência. Como não foi um movimento artístico (como o Modernismo ou a Tropicália), e sim uma manifestação espontânea de uma nova classe social que se formava, é difícil definir uma data exata para o seu surgimento, mas é certo que começa a se desenvolver a partir da segunda metade do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Inicialmente o Choro era apenas uma maneira abrasileirada de tocar música européia, uma forma de interpretação.

Quando em 1808 Dom João e toda a corte portuguesa desembarcaram por aqui fugindo da invasão das tropas de Napoleão em Portugal, inicia-se no Rio de Janeiro a construção de  toda uma infra-estrutura de bancos, repartições públicas e estradas-de-ferro para atender às demandas dessa realeza, e com isso nasce uma nova classe média formada por mestiços que trabalhavam nessas repartições. Naquela época a elite carioca consumia em larga escala a música produzida na Europa, a metrópole do momento (e acho que não mudou muito desde então…); eram gêneros como a Polca, a Valsa, a Mazurca, o Schottish (pronunciado “Xótis”), entre outros. Impossibilitados de freqüentar os bailes e os saraus da alta sociedade, onde se tocava, se dançava e se ouvia essas músicas estrangeiras, os cidadãos da classe média passaram a tocá-las por conta própria, da maneira que sabiam e com os instrumentos à que tinham acesso: flauta, violão e cavaquinho. Dessa forma, animando festas e bailes populares, tirando a Polca dos salões aristocráticos e trazendo-a para as ruas, cortiços e quintais, aqueles músicos amadores acabaram dando um tempero afro-brasileiro à música européia. Daí nasce o Choro.

Inicialmente o Choro era apenas uma maneira abrasileirada de tocar música européia, uma forma de interpretação. Somente ao longo das décadas é que vai tomando feições próprias, se distanciando do modelo original estrangeiro e se tornando um gênero musical nosso de fato. Pixinguinha pode ser considerado um marco nesse processo de amadurecimento: suas composições, interpretações e arranjos elevaram o Choro e toda música brasileira a outro patamar de qualidade e originalidade.

Pixinguinha, maior nome do Choro.

 

Durante esse século e meio de história, o Choro desenvolveu algumas características que podem ser consideradas típicas: a maioria das músicas não tem letra, sendo apenas instrumental, com melodias  bastante movimentadas e marcantes; a formação instrumental básica dos grupos é de cavaquinho, violão, violão de 7 cordas, pandeiro e mais um instrumento solista, geralmente flauta ou bandolim; o violão de 7 cordas tem como função realizar frases na região grave, em contraponto ao instrumento solista, frases essas conhecidas como “baixarias”; é um gênero muito aberto à improvisação e de difícil execução, que exige alto grau técnico dos músicos. Obviamente essas características não são regras, e não é difícil encontrar Choros com letra, ou grupos que fogem da formação típica; da mesma forma, são inúmeros os instrumentos usados como solistas: além da flauta e bandolim, há gravações com solos de clarinete, saxofone, trombone, trompete, piano, cavaquinho, violão, entre outros.

(…) o Choro sobreviveu, e mais que isso, manteve-se em desenvolvimento contínuo.

Também é importante desfazer algumas idéias erradas e mitos que acabaram se ligando à esse gênero musical. Em primeiro lugar, o Choro não é um tipo de “Samba instrumental”: o Choro é bastante diferente do Samba, apesar das muitas afinidades entre eles; o Samba é uma música predominantemente vocal (com letras) e percussiva, muito rítmica, enquanto que o Choro tem o foco na melodia, com uma percussão bem mais leve. Menos ainda o Choro pode ser considerado como uma versão brasileira da música Jazz dos Estados Unidos; o Choro é mais antigo que o Jazz e traçou trajetória totalmente diversa deste; além disso, ao contrário do que muitos pensam, não há influência generalizada do Jazz no Choro: a influência, quando existe, é apenas pontual, aparecendo na obra de alguns músicos como Garoto, Paulo Moura e Severino Araújo.

E se engana redondamente quem acha que o Choro é um “som da antiga”, algo que se estagnou, se cristalizou, e virou uma peça de museu, muito valiosa mas que ninguém pode mexer. Apesar de ter vivido fases em que sofreu preconceito descarado da grande mídia, e foi jogado pra escanteio em favor de modismos e ondas promovidas pela indústria fonográfica, o Choro sobreviveu, e mais que isso, manteve-se em desenvolvimento contínuo. Felizmente, vivemos hoje uma das fases mais efervescentes e promissoras do gênero, muito por conta do trabalho do violonista Maurício Carrilho e da cavaquinista Luciana Rabello, que no ano 2000 fundaram uma gravadora especializada, a Acari Records, e juntamente com outros craques têm estado à frente da Escola Portátil de Música, um projeto de educação musical através da linguagem do Choro, que atrai cada vez mais alunos, muitos deles jovens, gente entre 15 e 25 anos. O cenário têm se consolidado na última década, e no Rio de Janeiro já são famosas algumas rodas de Choro, como a da Praça São Salvador, em Laranjeiras, além dos ensaios ao ar livre do Bandão da Escola Portátil, na Urca. Já despontam jovens instrumentistas que, se não tem no Choro sua principal vertente, demonstram claramente que beberam da fonte de Pixinguinha e companhia; isso sem falar dos já consagrados violonistas Yamandú Costa e Rogério Caetano, e dos bandolinistas Hamilton de Holanda e Danilo Brito, todos da nova geração, todos virtuoses, e determinantemente influenciados pelo Choro. Acredito que mais e melhores frutos ainda estão por vir; aguarde e confie!

As centenas de músicos que integram o Bandão da Escola Portátil.

 

Além do “Carinhoso”, de Pixinguinha, há outros Choros que são bem famosos e que quase todo mundo já ouviu ao menos uma vez: “Brasileirinho” de Waldir Azevedo, “Tico-tico no fubá” de Zequinha de Abreu, “Odeon” de Ernesto Nazareth, “Noites cariocas” de Jacob do Bandolim. Isso sem falar de outros menos famosos mas não menos geniais; o repertório é vastíssimo. Ficou curioso? Vai no Google, no You Tube, cate uns vídeos. Só não coloco tudo aqui pra não engordar demais o artigo. Outros Choros que você talvez já conheça: “Meu caro amigo” de Chico Buarque, “Sampa” de Caetano Veloso, “De mais ninguém” de Marisa Monte. Como se pode perceber, é uma linguagem que permeia toda a música brasileira.
E só pra não deixar o caro leitor muito curioso, eis a resposta do teste do início do artigo: Joaquim Callado (1848-1880), foi o maior flautista de sua época e um dos primeiros músicos de Choro, sendo conhecido como “o pai dos chorões”; Ernesto Nazareth (1863-1934) era pianista e é um dos mais importantes compositores de Choro; Jacob do Bandolim (1918-1969) era bandolinista (não diga!?…) e também importante compositor de Choro, talvez só perdendo em importância para Pixinguinha, que a essa altura você já sabe bem quem é!

1 Comentário

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Douglas Evangelistaresponder
14 de setembro de 2012 em 5:43 PM

Dando luz a quem precisa, meu amigo. Mais que merecido elogio ao choro. Aquele papo nosso: transgressão de verdade, hoje em dia, é ser careta.

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