Deixar de ser normal foi o meu melhor presente dos últimos 25 anos


Para que ser normal quando a gente, pode simplesmente, ficar em paz?

Ontem, no dia que essa coluna devia ter sido publicada, completei 25 anos. Passei o dia inteiro falando que “alcancei metade da minha vida”, deixando todo mundo ao meu redor chocado. Recebi alguns “para de falar besteira, garoto” ou “todo mundo sabe que vaso ruim, não quebra… você vai viver até os 100, se der mole…”. O que ninguém acredita (ou não quer acreditar) é que encaro isso de uma maneira muito real. Não me interessa ser velhinho, entende? Não me vejo realizando coisas sem saúde. E, como já não tenho saúde agora… bem… dá pra entender, né?
Andei pensando ontem, no fim do dia, quando já estava com a temática desse texto pronto na cabeça e “o que pega” (e, sério, o que foi um dos melhores presentes que recebi nesses 25 anos) é que entendi cedo que o “normal” é completamente desnecessário. Pensar em não viver mais além dos 50 anos é assombroso na cabeça de muita gente, eu (e alguns da “minha geração”) já não encaramos mais assim.

Pode parecer que quero aparecer ou que “tô querendo ser o que não sou”, como dito por uma menina que me relacionei há pouco tempo e por pouco tempo (pois é, ela disse isso quando estava saindo comigo há menos de duas semanas).

Deixa eu te situar nisso.

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Conheci nesse aplicativos da vida. Like de cá. Like de lá. Match! Gotcha! Ou qualquer desses similares… saímos. Bebemos. Conversamos. No primeiro dia, transamos. Foi legal. Dois dias depois estávamos saindo de novo. Conversando horas e horas por dia. “Poxa, vamos ali tal dia? Quero muito ir!” … “VAMOS!”. Conversamos. Bebemos. Conhecemos amigos um do outro. Ciuminho bobo de cá. Ciuminho bobo de lá. Nada muito bizarro. Mas… Pera… “E quando será que ele vai me pedir em namoro? Ei, você não vai me pedir em namoro?” … esse foi o final de tudo. Não basta se doar, estar juntos todos os dias, passar horas se dedicando, fazer gestos bonitos, pensar em coisas legais… É preciso PROVAR pra todo mundo que se está junto como um rótulo.

Corta a cena.

Aniversário da vovó! Que data feliz! Ela nem lembrava, Alzheimer é triste… não liguei e nem mandei mensagem. Ela não lembra, pra que vou lembrar? É melhor guardar o carinho pra quando for visita-la, não? Bem, pros pais, não.

Mensagem de manhã, a primeira do dia: hoje é aniversário da sua avó, não vai mandar parabéns?

PARA. QUE?

Corta de novo a cena. Dessa vez pro passado. Flashback o nome disso, à propósito.

EU: eu quero, sim, amar uma menina trans! Um dia…
AMIGOS: você é maluco! Para de falar merda!

Eles pagaram pra ver… bem… olha o que armaram pra mim ontem (final do flashback)…

BEIJEI MERMU

Um vídeo publicado por @junysantana em


Sim, não levaram fé. Paciência. Luna, vou te levar pra sempre. Juro! Um dia volto aí, meu amor, me espera!

Corta mais uma vez a cena. Dessa vez a questão é grana. Um dos maiores problemas mundiais.

Cachorrada passou mal. Cinomose. Mãe disse que tinha que tratar. Mandei tratar. Mas… a grana tava curta, pindaíba total mesmo. Não tive como pagar a mãe. Mãe falou “só aparece aqui em casa quando tiver meu dinheiro”. E foi assim que ficamos quase seis meses sem nos falar.
“Nossa, como você é orgulhoso! Ela é sua mãe! Eles são seus pais! Você não pode fazer isso com eles!”.

Sempre me orgulhei de ser um pouco doido, na real. Pra mim isso nunca foi um problema.

Bem… por que? Eles falam o que querem e passam impunes por isso só pelo fato de serem pais? Por que? Isso é, de alguma forma, certo? Refletindo, vi que não. Não é! Não deve ser! As pessoas são iguais, bicho. Devo-os respeito assim como devo a qualquer um. Respeitei o desejo dela: assim que consegui o dinheiro, fui lá. Sério, quase seis meses depois. Aguentar situações só pra alegrar alguém? Sério?

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O que, de fato, todas essas atitudes ditas “normais” melhorariam minha vida ou a vida das pessoas que convivem comigo? Talvez o ego delas ficariam mais de bem com a vida. A que preço? De uma hipocrisia? Sérião, não é revolta. É só querer ficar em paz consigo mesmo. Sem querer demonstrar coisas irreais pra si e pros outros.

Sempre me orgulhei de ser um pouco doido, na real. Pra mim isso nunca foi um problema. Só fico feliz demais por entender que isso me ajudou com essa nova maneira de enxergar o mundo. Não é preciso quebrar nenhuma regra moral quando não existe uma regra moral. Eu entendo que devem existir regras, sim, pra que as pessoas possam viver em harmonia umas com as outras e que isso gere apenas um bem estar geral.

O dito normal é só um dos fatores existentes que fazem a gente ficar girando num círculo quase que infinito de chatice extrema. Só é importante entender que quem escolhe ficar assim é a gente, mesmo. Mais ninguém.

Pode ser divertido fazer esse infinito parar nos 50 e ficar bem com isso. Vai por mim…

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