No me dejes

Rio de Janeiro, Brasil, 2001. Eu tinha um gato que se chamava “Mingau”. Como todo gato, ele era independente: comia por conta própria, fazia suas necessidades, dormia e, no máximo, pedia carinho. Até que um dia meu irmão apareceu em casa com um cachorro tão pequeno que parecia um filhote de raposa. Devo confessar que fui o primeiro a negar a permanência do bicho, afinal já tínhamos um gato. Meu pai, assim como eu, também era contra, mas os poderes do meu irmão caçula junto com os argumentos da minha mãe foram suficientes para que a “Tchutchuca” ficasse.

No começo, meu irmão cumpriu o combinado: brincava, comprava a ração, dava banho e levava para passear. Com o passar dos anos a cadela foi crescendo e deixando de ser tão legal (pelo menos para ele) e, com a morte do Mingau, acabei me apegando a ela, que acabou se tornando minha companhia mais tarde, quando fui morar sozinho.

Passamos por poucas e boas juntos. Dividimos um cômodo alugado que servia de laboratório para a minha loja de informática, moramos em uma casa com quintal em Madureira e depois fomos para o Grajaú. Como o apartamento era pequeno o comportamento dela começou a mudar, e ela passou a ser uma “filha” problemática. Logo depois, com o nascimento do meu filho, não tivemos escolha e passamos a “bola” para o meu pai.

Anos passaram e a relação dos dois se transformou em um relacionamento sério. Meu pai tinha se separado e a Tchutchuca, passou a ser sua companheira. Eles se entendiam tão bem que quando ele tinha que ir trabalhar ligava para um vizinho para saber como ela estava.

Santiago, Chile, 2013. Eu e Roberta tínhamos acabado de sair para conhecer a cidade e nos deparamos com a seguinte cena: dois cachorros grandes correndo em direção a um chafariz. Enquanto se banhavam e bebiam água, latiam sem parar. Cheguei pensar que tivessem donos, pois pareciam bem cuidados. Achei a cena interessante e fiz um vídeo com o meu celular.

Seguimos em direção a Plaza de Armas e no caminho, quase que invisível no meio de uma manifestação, outro cachorro…

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Fomos para o ponto de encontro do Free Tour e antes mesmo de perguntar sobre os animais um dos turistas foi abordado por um cão. O guia então nos explicou que existem milhares de cachorros abandonados pelas ruas, não só em Santiago como em outras cidades. Em 2010 o jornal PrensAnimalista, afirmou que várias comunas do Chile maltratam e sacrificaram animais. Uma delas é Hualpén, na província de Concepción, na região de Biobío, ao sul do país.

Como um gato esse aí foi logo se esfregando para conseguir um cafuné...
Como um gato esse aí foi logo se esfregando para conseguir um cafuné…

No Chile cada bairro (comuna) funciona de forma independente. Santiago por exemplo tem uma campanha de conscientização  sobre o abandono. Existe também um controle de vacinação dos animais que os identificam com uma coleira informando quando o animal foi vacinado.

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Pesquisando na internet sobre esse problema encontrei um vídeo muito interessante criado por Violeta Caro Pinda e Felipe Carrasco Guzman, que usaram a criatividade para chamar a atenção da população amarrando fitas e balões com mensagens como “brinque comigo” e “não me abandone” no pescoço dos cães. O vídeo é uma intervenção urbana e foi intitulado como “Estoy Aquí” (Estou Aqui).

Essa pequena experiência em Santiago reforçou ainda mais a minha ideia sobre ter animais, sem medir as consequências. Quando vemos aquele filhote fofo fazendo graça esquecemos a responsabilidade e os cuidados que devemos ter com o animal. Não falo apenas de catar as fezes ou alimentá-lo, falo de espaço, atenção e respeito. A Tchutchuca não sofreu e nunca foi abandonada, mas devo admitir que ela só permaneceu na casa por conta de um mimo de mãe para filho e não por uma decisão sensata. Não imaginávamos que tantas coisas iam mudar nas nossas vidas, mesmo assim ela permaneceu ao nosso lado, em cada momento de dificuldade e sempre estará nos nossos corações.

Tchutchuca viveu de 2001 à 2012. Morreu ao lado do meu pai um pouco depois que ele operou o coração.

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