Demolições de conceitos, valores, paredes e cenários – Parte II

E assim eu vi…

A favela do Faz-quem-quer fica do outro lado do morro de Vaz-lobo, depois de Madureira, bairro vizinho e bem mais famoso que Rocha Miranda. Entre 2001 e 2013 Rocha Miranda que cresceu e possuiu hoje novos empreendimentos imobiliários sendo construídos. O morro do faz-quem-quer, ao contrário, foi simplesmente deixado de lado. Como se ali fosse um erro na matrix, um apêndice que não faz diferença, o poder público simplesmente esqueceu do logradouro. Assim, mudanças ocorreram na geo-política do lugar. Os traficantes expandiram o território encampando tanto toda a Rua Jataúba, paralela ao morro quanto o final das duas ruas perpendiculares. Nessas, eles construíram barricadas de concreto armado no meio da via pública e os moradores das casas adjacentes à essas barricadas expandiram suas casas para as calçadas até o meio-fio, ou seja, só é possível passar ali a pé ou de moto pelo meio das barricadas, pois não há mais calçadas.

“Ver a rua que passei minha infância como um retrato do total abandono do poder público foi chocante, porém inspirador. No mesmo instante que me choquei, comecei a “ler” os atores que ali compunham o cenário formado. “

No primeiro dia em que fui ver o estado do telhado, fui orientado a parar na rua de baixo, para conversar com o dono conhecido de uma oficina e ferro-velho que fica literalmente no meio da rua. Ali no diálogo ele me explicou que estava tudo tranquilo, que enquanto falávamos os “donos” do morro já sabiam que eu tinha chegado pois tem binóculos e informantes que monitoram as cercanias da entrada daquele pedaço ali.

Foi um turbilhão tão grande emoções que senti que eu resolvi gravar minhas impressões do momento com meu celular, das quais transcrevo abaixo:

Ver a rua que passei minha infância como um retrato do total abandono do poder público foi chocante, porém inspirador. No mesmo instante que me choquei, comecei a “ler” os atores que ali compunham o cenário formado. Tendo como fundo minha velha e desfigurada casa, constatei uma espécie de zona mista. Antigos moradores como a vizinha, que ainda é a mesma senhora quando da minha infância. Ela, numa espécie de homenagem ao seu falecido marido que vendia bolo, cuscuz e sonhos num carrinho pelas ruas do bairro, juntou-se com sua filha e construiu na frente de casa, ao lado da birosca, uma mini padaria para conseguir sobreviver. Moradores novos, filhos dos filhos e o movimento de motos que passam fazendo a vigilância para os chefões que ficam lá em cima se misturam no início da manhã.

jatauba2

O trabalho dos soldados motorizados ocorre sincronizado. Através de rádios, eles se comunicam o tempo todo com o comando no alto do morro. De 10 em 10 minutos mais ou menos passam dois soldados numa moto simples em velocidade alta, sem capacete, sendo que o carona leva um fuzil ou uma metralhadora em punho, apontada para o alto. A naturalização dessa atitude me chocou a principio. Vindo dos bairros onde isso seria considerado absurdo, essa cena para os moradores tinha mesma importância de um carro ou moto qualquer. Eu e os pedreiros num espanto inicial comentamos e a resposta foi uníssona: “isso é comum, eles passam todo dia, estão vendo esse movimento aqui de vocês e querem saber o que é.”

As articulações sociais que se constroem aqui são muito interessantes. O pedreiro chefe tinha um conhecido que era dali, daquela comunidade. Pediu à ele para conseguir uma anuência com os donos do morro. E ele assim foi, na coragem e na garantia conhecer e falar que estaria ali pelos próximos dias fazendo a reforma. Ele foi recebido e “autorizado” a proceder e seu carro ficou liberado para subir a vontade até a rua.

Compartilhe sua opinião