A desconstrução do humor na internet

Da notícia simples ao escândalo mais complexo, tudo vira piada na internet, ou melhor, um dia virou. Nos últimos anos o humor alcançou seu apogeu e agora está em declínio, tentando sobreviver em montagens com frases de efeito manjadas ou dramas do cotidiano. Os humoristas, que antes eram vistos como protagonistas da revolução no modo de informar e interpretar um situação social não conseguiram manter o fôlego e sobreviver na internet.

Quem usa o Twitter há pelo menos cinco anos sabe que o site já foi um grande livro de piadas. O “humoristas de Twitter” acompanhavam de perto todas as notícias do mundo. Não era pelo clichê do “e o Sarney nada”, a procura pela piada perfeita ia além disso. Existia uma competição sadia pra ver quem faria a melhor e mais crítica piada. Nessa época, as intervenções humorísticas tinham um papel muito mais informativo e opinativo. Isso porque para fazer piadas sobre política, ele precisava ler sobre o país. No final, a piada por si só conseguia resumir ou questionar um acontecimento, além de manter o leitor informado.

humor 01  É claro que estou falando aqui sobre os últimos cinco anos por dois motivos. Primeiro porque neste tempo as piadas do tipo stand ups, geralmente com um curto prazo de validade, se tornaram mais populares, e segundo porque nos últimos anos o número de brasileiros com acesso à internet ultrapassou a marca de 100 milhões.

Voltando às piadas na rede. Além do político, o humor negro também ganhou espaço na rede. Apesar de mórbido e indigesto para muitos leitores, as piadas pesadas ou no senses também marcaram época. Esse sub-gênero, acima de tudo, marcou o grito pela liberdade de pensamento e expressão, além de ressaltou a síntese do humor: rir de uma desgraça. O pintinho que não tinha perna, a loira burra e até mesmo as vídeo cacetadas que fazem sucesso até hoje, a graça estava em ver um personagem se dando mal.

humor 02Então começou o declínio. Com a popularização das piadas autorais, sejam políticas, pesadas ou sem sentido, o público passou a opinar mais e se sentir ofendido também. Para os leitores, o humorista podia fazer piada com uma desgraça do Japão (por exemplo), mas de forma alguma falar do Brasil. Mesmo se a piada fosse crítica, ela era abominada pelos leitores. Onde já se viu! Com o tempo, nem as piadas com o Japão eram toleradas. E os humoristas passaram a ser vistos como abutres.

Neste tempo também ganharam espaço os resmungões, conhecidos na internet como “cagadores de regras”. Esses são os inimigos número um dos humoristas. Porque pra eles nada está bom: a piada com política não está boa. A piada com futebol não teve graça. E a sobre economia, menos ainda. E de tanto repetirem o discurso, os poucos humoristas que ficaram na internet hoje fazem piadas sobre si ou ainda arriscam criar piadas novas, mesmo sabendo que o retorno não terá feito o trabalho valer a pena.

humor 03 Eu confesso que não tenho mais vontade de publicar, depois de ler pela milionésima “esses humoristas de internet… blá blá blá”. O que me dói acima de tudo é ver que hoje é ver que as piadas com “e o Sarney nada” acabaram, e nós (toda a internet e você também) perdemos a oportunidade de criar uma didática capaz informar e incentivar o debate, de maneira leve e bem humorada.

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