Eu só queria seu sorriso


Ninguém é igual. Nem o seu “eu” de amanhã.

As pessoas, definitivamente, não se parecem. Eu sou diferente de você. Por mais que possam ser gêmeos, tenham o mesmo signo (ou até aquele negócio de ascendente, que ninguém entende, mas aceita), por mais que haja um implante de qualquer coisa onde, por acaso, trejeitos possam se passar de corpo pra corpo… ninguém é igual. As pessoas só convergem em um único aspecto: elas têm problemas.

Uns têm problemas pra acordar, outros precisam de ajuda pra dormir. Uns conseguem sobreviver com barras de cereal e café o dia inteiro, outros, se não comerem religiosamente a cada três horas, passam mal… é difícil ENTENDER o ser humano.

Mas ainda vale a tentativa.

“Não sou dos melhores exemplos. Você, que está lendo isso, talvez não se importe, talvez desista de ler até o fim… ou talvez persista, não sei. De uma vez por todas, você não é como eu.”

Gosto de sorrir. Não gratuitamente, não tenho probleminhas mentais. Gosto de dar motivos para as pessoas sorrirem e, ao presenciar (não só ao vivo, é bom que fique claro) alguma forma de tristeza, mesmo não conhecendo o triste, procuro saber o porquê. Por mais invasivo que isso possa parecer.

Mas tem alguns “porquês” que estão na cara.

Há umas semanas minha vida estava um caos. O dinheiro do aluguel estava contado e se eu almoçasse duas semanas em um lugar legal, com certeza as outras duas seriam em lugares mal vistos pela vigilância sanitária. Daqueles meses que a gente torce pra acabar mais do que quando a Alemanha já tinha feito o quarto gol e a gente sentia lá dentro que tinha muito mais pra vir. Esses tempos são difíceis pra todo mundo. Mas não baixei a cabeça. Eu sou o único responsável pelos meus problemas, não?

Então, aproveitei que estava na semana de comer bem, e fui com os colegas de trabalho até uma sorveteria. Chegando lá, vi a atendente, ela era bonita à sua maneira, tinha uns olhos bem pretos, sua pele era de um negro brilhoso e as covas na sua bochecha denunciavam que ela tinha um sorriso estupendo. Aqueles que a gente gosta de parar pra admirar, sabe?

Pois é, mas ele, ali, não existia. Pelo contrário, o mau humor exalava, sabe? Dava pra sentir o cheiro. Pior… se respirasse pela boca, dava pra sentir o gosto. Azedo. Amargo. Algo detestável.

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Meu lado invasivo logo se ouriçou, pra variar. Quis saber o que acontecia, por que ela estava daquele jeito, saber se eu comprasse toda a sorveteria ela poderia ganhar uma comissão gorda e ir pra Disney ou qualquer relativo a isso. Mas não foi o que fiz. Não daquela vez.

Pedi meu sorvete e sentei no banco do lado de fora da sorveteria com meus colegas. Ela, após me atender, ficou com sua impassividade. Encarando o horizonte de pessoas felizes passando de um lado pro outro. Cercada de felicidade que não podia alcançar. Não ali. Não agora.

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Não sei o que aconteceu depois que fui embora. Só queria que ela desse um sorrisinho, mesmo que amarelo, antes de eu ir. Não aconteceu.

No dia seguinte, vindo pro trabalho, passei lá em frente a sorveteria. Ela estava lá. Gargalhando.

Sorri e segui meu rumo.

Consegui.

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