Fã invade sala de cirurgia e grita: salve, salve! Meu ídolo, meu rei!


Amem com controle emocional…

Aconteceu em um hospital da minha memória, quando eu estava em um show antológico de Moraes Moreira e David Moraes, apresentação em que eles executam as canções de “Acabou Chorare”, segundo álbum de estúdio do grupo Novos Baianos. O disco foi lançado em LP (Long Play) em 1972 pela gravadora Som Livre e tem sucessos inesquecíveis como Brasil Pandeiro, Preta Pretinha, Besta é Tu e Tinindo Trincando. Eu estava em pleno êxtase musical, quando uma fã subiu ao palco e agarrou David Moraes, que nem na sua face olhou. Na sequência “jogou seu corpo” em Moraes Moreira, também sem muito sucesso. Segundos depois foi retirada do palco com um riso amarelo e a notável vontade de se meter em um buraco. Foi nesse exato momento em que me teletransportei para o hospital. Comecei a pensar nas diversas profissões do mundo. Das mais antigas, como a prostituição, até as contemporâneas que acontecem no meio digital. Grandes astros do rock, ícones da medicina, reis da arquitetura, deuses da física, anjos da literatura, muitos desses cativaram pessoas com o seu trabalho e se tornaram referência no mercado em que atuam. Alguns continuam trabalhando e outros deixaram o seu legado, que ainda hoje pode ser explorado.

“Nessa hora os enfermeiros correram para retirar a invasora dali, enquanto o paciente deu indícios que teria uma parada cardíaca.

Já dentro daquele “hospital” pude ver uma estudante de medicina invadir um bloco cirúrgico agarrar o médico e gritar: salve, salve! Meu ídolo, meu rei! Pelo linguajar perecia ser remanescente de algum bloco de axé do carnaval de Salvador, com jaleco customizado, faixa no cabelo contendo as iniciais do médico LUANSAN e lágrimas nos olhos. Nessa hora os enfermeiros correram para retirar a invasora dali, enquanto o paciente deu indícios que teria uma parada cardíaca. O médico voltou a focar na cirurgia e a menina foi colocada hospital a fora, agora já pelos seguranças. É claro (ou apenas acredito), que uma história como essa só pode acontecer na minha cabeça fértil, mas cabe uma reflexão. Alguns fãs são tão fissurados por seus ídolos e esquecem que eles estão ali pelo trabalho que fazem, ou seja, são profissionais como qualquer outro. Possuem conta para pagar, notas para acertar e tons para alcançar. O compromisso para bater metas é semelhante ao de um gerente de vendas de uma multinacional. Muda a moeda, mas a responsabilidade é igual, ou maior.

Foto: Wilson Filho
Bel Marques boquiaberto com a invasão da fã. Foto: Wilson Filho

Em pesquisa rápida pela internet pude encontrar diversos casos de fãs descontrolados. Em Dubaí, piano é derrubado por fã que corre para agarrar Justin Bieber. Demi Lovato precisou pausar um show no Paraguai até que um grupo decidisse descer do palco. Bel Marques teve a convicção de que a sua carreira continua “de vento em polpa” quando uma admiradora subiu no placo, dando-lhe um baita susto. No caso de Dubaí, por muito pouco o piano não caiu do palco em cima da plateia, o que acarretaria em grave acidente.

Fãs, amem com moderação, e mais que isso, amem com controle emocional. Músicos, atores, comediantes, modelos, figurantes… são gente como a gente. De carne e osso – por mais maquiagem e em alguns casos, mais carne e menos roupas que o de costume – que eles tenham, também choram, suam, brigam, se assustam, se concentram e no caso das mulheres, têm TPM igual. Agora deixem que eu assista o meu show em paz, porque nessa conversa eu já perdi foi quatro músicas. “Quando cheguei, tudo, tudo, tudo estava virado. Apenas viro, me viro, mas eu mesma, viro os olhinhos…”.

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