Gosto ruim na boca



Ontem ouvi tiros. Aliás, tenho os ouvido freqüentemente. Acordo meio assustado, boca seca, coração acelerado. Não foi pesadelo. O real motivo do meu sono picotado são rajadas intermitentes disparadas pelos traficantes da comunidade próxima a minha casa. Nesses tempos de pacificação, Copa do mundo e Olimpíadas, são muitos os recantos da cidade esquecidos. Nada de pânico, advertem moradores mais chegados: os tiros são para o alto.

Os rapazes estão apenas comemorando. Festejam o aniversário de um membro importante do grupo. A paz alcançada após a eliminação de seus rivais tornou-os mais confiantes. Não se importam com as viaturas da nova polícia que, munida de velhos hábitos, atua na região de forma eficiente: ouvem os tiros, disparam os seus a esmo, vez em quando matam acidentalmente alguém. Diferentemente de um passado recente, ônibus não são queimados, mães não choram copiosamente nos telejornais, afinal, temos um projeto para esta cidade. No mais, o mesmo protocolo: a média de idade dos traficantes vai de 17 a 25 anos, a acelerada marcha do controle demográfico movido a crack mantém seu curso.

De concreto temos uma ocupação com clara estratégia de mercado, visando o afastamento da mesma violência de sempre para os arrabaldes e cantões, bem longe da vista dos turistas e investidores. Numa vida quase sem alternativas, recheada de desigualdades já sabidas, comunidades outrora pacíficas, ou quase isso, ironicamente são dominadas por quadrilhas oriundas das regiões ocupadas. Talvez pelo baixo IDH, ou pela falta de força e vontade política, esses lugares foram escolhidos para acolher essa demanda de dependentes e criminosos. Obviamente, de tão esquecidos pelo Estado, estes bairros não se incomodam em receber os raquíticos e famélicos, e com disposição e esforço bíblico encontram nos títulos empregados por uma imprensa de frases sensacionalistas, a autoestima necessária para prosseguir, apesar de tudo. Em troca temos canções compostas sob medida exaltando as virtudes e atrativos da região em questão. Shows e outros agrados são apresentados em recém-inauguradas obras de cunho eleitoreiro, esforço recompensado no eco das urnas do povo fustigado por abandono.

“É claro que os regentes do concerto assistirão em full HD de seus guetos à prova de balas.”

A chaga aberta pelo tráfico de drogas, fruto da tolerância e conivência de anos do poder público, agora é remediada a base de band-aids úmidos ao som de Mc´s e pagodeiros. A internação compulsória levará o crack e seus dependentes a internação contra sua vontade, contra seus direitos e, principalmente, contra sua poluição visual e mau cheiro. Perseguição inquisitória que facilmente nos levará a um salve-se-quem-puder. É claro que os regentes do concerto assistirão em full HD de seus guetos à prova de balas. O curto cronograma a ser cumprido, promete. Pena não sermos nós os agraciados por esses rogativos.

Por aqui, ao longo da semana a cena se repete. O trânsito incessante dos dependentes, dos “cracudos”, recheia a madrugada de passos. Os eventuais estampidos rasgam o silêncio da madrugada, para em seguida sermos tranqüilizados:

– Tá tranqüilo, Tio!

Os tiros são para o alto, claro.

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