Mergulhando no desconhecido



Uma das lições que a música vem me ensinando no meu tempo como músico é que mergulhar no desconhecido é necessário à vida. O segundo antes das cortinas do palco se abrirem, o breve instante de profundo silêncio entre o “gravando!” e a primeira nota tocada num estúdio, são momentos em que um abismo negro se abre um passo à frente de nossos pés, e esse abismo nos convida a nele mergulhar e experimentar o desconhecido, o insondável, aquilo que está além do nosso controle e muitas vezes de nossa compreensão.

Os canalhas nos ensinam a ter medo, e os idiotas levam a mensagem adiante

A cultura ocidental, industrial e consumista que vivemos nos adestrou e domesticou nossos ímpetos, impulsos e desejos. Ou deturpou esses ímpetos, impulsos e desejos em atitudes e modos de vida alienantes ou autodestrutivos. Aprendemos a ter medo do desconhecido, do diferente, do novo, fomos convencidos que precisamos de segurança para viver, quando muitas vezes, de uma hora pra outra, essa segurança ilusória que compramos nos é tirada pelos mesmos que nos convenceram que precisamos dela. E esses mesmos vão nos vender uma nova segurança, uma nova tábua de salvação, pra dali há um tempo tirá-la de novo, e vender outra no lugar dela, e assim infinitamente enquanto nos neguemos a enxergar que a vida é instável, é movimento e é imprevisível. Nada nos trará uma segurança completa e infalível.

mergulhando no desconhecidoProcuramos criar uma zona de conforto, um caminho seguro, uma fórmula milagrosa de bem-estar e felicidade, uma estrada constantemente aberta, sem imprevistos ou sobressaltos. Mas a vida não é assim, e no fim das contas, qualquer busca por segurança ou tranquilidade permanente será apenas uma forma de se anestesiar e de abdicar da maravilha de viver, e das dores, dissabores, erros, tombos e lágrimas que a vida acarreta e que são tão valiosos. Os canalhas nos ensinam a ter medo, e os idiotas levam a mensagem adiante; através desse medo somos sugestionados a nos acovardar, a nos amesquinhar e a recusar a própria vida, ficando sempre na periferia de nossa essência e de nossa verdade. A propaganda inventa problemas, alardeia perigos que não existem e fomenta o medo, para em seguida nos vender a segurança, o emprego estável, o relacionamento perfeito, o seguro de vida, a garantia de felicidade e riqueza; e o entretenimento-anestesia, alienante e idiotizante, é a precaução dos canalhas para que o ser humano patético resultante deste sistema não acorde do coma induzido e arranque os tubos que sugam sua vida.

Paz e tranquilidade constante e imperturbável virá, quem sabe, na morte. A vida é vertiginosa, rebelde, imprevisível. Viver é dolorido e desconfortável; viver é lutar, chorar e sangrar; viver é um constante partir em busca da ilha desconhecida. Em vez de nos sentarmos sobre a ilusão das respostas irrefutáveis, deveríamos mergulhar no maravilhoso e desconhecido abismo das perguntas e incertezas.

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