Moleque abusado



O Brasil é um celeiro de fantásticos violonistas. Muitos deles já estão tangendo suas cordas em outras dimensões: João Pernambuco, Garoto, Meira, Dino Sete Cordas, Baden Powell. Outros tantos seguem por aqui nos encantando: Zé Menezes, Turíbio Santos, Maurício Carrilho, Marco Pereira, Yamandú Costa. Mas dentre todos esses, vivos ou mortos, existe um que para mim tem um carisma especial: Rafael Rabello. Talvez seja o fato de ter sido o pioneiro no uso do violão de 7 cordas como solista, ou sua técnica, exuberante e visceral, ou quem sabe seu estigma para a precocidade; não sei o quê é, mas algo no Rafael me chama atenção mais do que em qualquer outro violonista que já ouvi. À sua vida, sua obra e sua memória eu dedico este artigo. Aperte o play e boa leitura!

Os primeiros anos

Rafael Baptista Rabello nasceu na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1962. Era caçula de uma família numerosa e musical, vocação que duas de suas irmãs também seguiram profissionalmente: Luciana Rabello é cavaquinista e Amélia Rabello é cantora. Desde cedo Rafael demonstrou inclinação para o violão, e seu crescimento no instrumento foi vertiginoso. Rick Ventura (violonista falecido em 2008, professor da faculdade de música da Unirio) deu aulas informais à Rafael quando este era ainda uma criança de seus 10 anos de idade, e contou em uma entrevista que em poucos meses Rafael aprendeu vários de seus solos para violão e, confessava sem a menor vaidade, “já conseguia me superar visivelmente”. Era o estigma da precocidade. A estréia em disco veio aos 15 anos, em 1977, já tocando violão de sete cordas, com o grupo Os Carioquinhas, num LP chamado “Os Carioquinhas no choro”. Este grupo jovem e de curtíssima carreira (só gravou este disco) também contava com a irmã Luciana Rabello no cavaquinho e Maurício Carrilho no violão – dois dos maiores mestres do Choro da atualidade. A partir daí Rafael deu prosseguimento à sua trajetória, trabalhando como músico de estúdio e participando ativamente da formação e dos primeiros anos de um dos mais importantes grupos de Choro já surgidos, a Camerata Carioca. A primeiro disco como solista é lançado 1982, intitulado “Rafael Sete Cordas” – nome artístico que logo abandonaria. Vale neste ponto contar uma curiosidade: o nome de batismo é Rafael, com F, e esta é a grafia adotada nos primeiros discos, “Rafael Rabello”; mas a partir de 1989 começa também a aparecer em alguns trabalhos a grafia com PH, “Raphael Rabello”.

A importância da obra

O violão de Rafael impressiona não só pelo virtuosismo e altíssimo grau técnico, mas sobretudo pelo bom gosto e pela capacidade de sintetizar e levar adiante o legado de seus antecessores na escola do violão brasileiro –  músicos como João Pernambuco, Dilermando Reis e Dino Sete Cordas (seu maior ídolo, com quem viria a gravar um disco antológico em 1991). Como acompanhador ou como solista, Rafael demonstrava uma maturidade artística acima da média, sobretudo nos seus trabalhos a partir de 1989 (tinha então 27 anos). Com sua raiz no universo do Choro, o violão do Rafael era exuberante também no Samba, na Bossa-Nova (gravou em 1992 um disco inteiramente dedicado à Tom Jobim, chamado “Todos os tons”) e tinha também influência da música Flamenca, o que lhe conferiu uma “agressividade” na pegada que não é tão comum em violonistas brasileiros. Era, inclusive, amigo do violonista espanhol Paco de Lucía, mestre do gênero, que escreveu sobre Rafael na contracapa do LP “Rafael Rabello interpreta Radamés Gnatalli” (lançado em 1982 e dedicado à obra violonística do maestro): “me parece um dos melhores instrumentistas que ouço em muito tempo. Ele é um desses violonistas que te dá a impressão de ter superado a dependência técnica do instrumento, e por isso sua música vai diretamente de sua barriga ao coração da gente que o admira.”

Rafael e Dino Sete Cordas, dois violões fundamentais em nossa música.
Rafael e Dino Sete Cordas, dois violões fundamentais em nossa música.

Foi dos pioneiros no uso do violão de sete cordas como solista (instrumento até então usado quase exclusivamente para acompanhamento) e em sua breve carreira lançou 14 discos com seu nome, alguns em parcerias inesquecíveis, como “Todo o sentimento”, de 1991, com a cantora Elizeth Cardoso, a divina, e “Dois irmãos”, de 1992, com o clarinetista e saxofonista Paulo Moura. Participou de centenas de gravações e shows com grandes nomes da música popular brasileira como Tom Jobim, João Nogueira, Clara Nunes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Toquinho, Ney Matogrosso, Gal Costa e Marisa Monte. Foram ainda lançados alguns discos com material inédito após sua morte: dois em parceria com o bandolinista e também virtuose Armandinho, um de voz e violão em parceria com a irmã Amélia Rabello, um com vários convidados e dedicado à obra do compositor Capiba, e o mais recente reunindo gravações feitas no curto tempo em que morou nos Estados Unidos, intitulado “Cry my guitar”, com repertório de Choros.

Um acidente muda a história

Em 1989 Rafael sofreu um acidente no Rio: o motorista do táxi onde estava furou um sinal de trânsito e o lado do passageiro acabou atingido por outro carro; Rafael sofreu fraturas múltiplas no braço direito. Levado para um hospital público, o médico que o atendeu queria amputar o membro (!) mas a família chegou a tempo de transferi-lo para uma clínica privada, onde foi submetido à uma delicada cirurgia onde recebeu vários pinos metálicos para reconstituir o braço. A previsão médica era que levasse um ano para que Rafael readquirisse plenamente a mobilidade geral e habilidade da mão direita ao violão, mas sua tenacidade e dedicação na recuperação o permitiram voltar a tocar em apenas quatro meses, e ─ dizem ─ ainda melhor do que antes. Curiosamente um drama semelhante (talvez menos intenso) ocorreu com outro mestre do Choro: no começo da década de 1970 o cavaquinista Waldir Azevedo (autor do Brasileirinho) perdeu a ponta do dedo anelar da mão esquerda num acidente com um cortador de grama. A ponta do dedo foi reimplantada cirurgicamente e Waldir pôde voltar a tocar, ainda melhor do que antes ─ também dizem.

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O drama de Rafael, porém, estava longe de terminar. Pelo contrário, o acidente foi o episódio que mudou de forma brusca sua trajetória, e que desencadeou os comportamentos que possivelmente encurtaram sua vida. Em 1991, quando buscava orientação para um regime de emagrecimento, o médico estranhou os resultados de seu hemograma e pediu novos exames onde foi diagnosticada contaminação pelo vírus HIV. Rafael estava com aids, certamente contraída nos primeiros socorros e transfusão de sangue que recebera quando do acidente, dois anos antes. Naquela época, muito mais  do que hoje, um atestado de soropositivo era uma sentença de morte: os medicamentos que atualmente converteram a aids numa “doença crônica” ainda não eram tão eficientes. Desesperado pela perspectiva de uma morte próxima, ainda que incerta, Rafael queria correr contra o tempo, colocar em prática todas as ideias artísticas que tinha; somado a isso todo o abalo psicológico que naturalmente sofreu, Rafael acabou caindo no vício das drogas, sobretudo anfetaminas e cocaína. Sua carreira prosseguiu com o mesmo brilho, mas sua saúde e vida pessoal começaram a declinar a partir daí. Segundo um de seus irmãos, o jornalista Ruy Fabiano, em matéria para o Correio Braziliense de dezembro de 1996, os dois últimos anos de Rafael foram os mais devastadores do seu vício. Chegou a ser internado para desintoxicação em maio de 1994, sem sucesso. Um mês depois apareceu a oportunidade para trabalhar nos Estados Unidos, através do violonista brasileiro Laurindo de Almeida. Rafael mudou-se, começou a tocar, gravar e lecionar num faculdade de música de Los Angeles, e deu início a um afastamento das drogas. No entanto, de volta ao Brasil no começo de 1995 para as gravações do trabalho sobre a o obra do compositor Capiba, Rafael voltou também ao ambiente de drogas que havia deixado: caiu de novo no vício. A família interveio, internando-o mais uma vez para desintoxicação, mas seu estado de saúde já estava muito deteriorado. Rafael morreu em 27 de abril de 1995, uma semana após a internação e, contraditoriamente, um dia após os médicos atestarem como “ótimo” seu processo de recuperação. O silêncio da família foi terreno fértil para boatos sobre a causa da morte: os mais comuns diziam que fora vítima de aids, de overdose, ou até que teria cometido suicídio. Na verdade a doença não chegou a se desenvolver, e Rafael até apresentava sobre-peso. Em sua matéria, Ruy Fabiano afirma que seu irmão sofreu um infarto no quarto da clínica onde estava internado, e mais adiante nos diz que também teria sofrido uma apnéia durante o sono, mal do qual sofria, dando a entender que os dois problemas associados teriam sido fatais.

Se vivo, Rafael completaria 52 anos neste ano, decerto ainda hábil para a música, atividade onde a longevidade costuma trazer mais vantagens que desvantagens. O quê ele estaria fazendo, aonde teria chegado, o quê mais teria nos mostrado se o destino fosse diferente? Rafael está no grupo de gênios que partiram cedo e deixaram o doloroso vazio do que nem chegaram a fazer. Noel Rosa, Garoto, Clara Nunes, Elis Regina. O que mais teriam feito? Nunca saberemos… Nos resta o consolo das coisas lindas que nos trouxeram. Obrigado, Rafa!

Discografia
– Os Carioquinhas no choro – Os Carioquinhas (1977).
– Tributo a Jacob do Bandolim – Radamés Gnatalli, Joel Nascimento e Camerata Carioca (1979).
– Rafael Sete Cordas (1982).
– Tributo a Garoto – Radamés Gnatalli e Rafael Rabello (1982).
– Rafael Rabello interpreta Radamés Gnatalli (1987).
– Rafael Rabello (1988) (álbum conhecido como “Lamentos do morro”)
– A voz e o violão ao vivo – Nelson Gonçalves e Rafael Rabello (1989).
– Retratos, Radamés Gnatalli – Chiquinho do Acordeon, Rafael Rabello e Orquestra de Cordas Brasileira (1990).
– À flor da pele – Ney Matogrosso e Rafael Rabello (1990).
– Rafael Rabello e Dino Sete Cordas (1991).
– Todo o sentimento – Elizeth Cardoso e Rafael Rabello (1991).
– Shades of Rio – Romero Lubambo e Rafael Rabello (1992).
– Todos os tons – Rafael Rabello (1992).
– Dois irmãos – Paulo Moura e Rafael Rabello (1992).
– Delicatesse – Rafael Rabello e Déo Rian (1993).
– Relendo Dilermando Reis – Rafael Rabello (1994).
 
Lançamentos póstumos:
– Brasil musical, série viva música – Armandinho e Rafael Rabello (1996).
– Rafael Rabello e Armandinho em concerto (1997)
– Todas as canções – Rafael Rabello e Amélia Rabello (2001).
– Mestre Capiba – Rafael Rabello e convidados (2002).
– Cry my guitar – Rafael Rabello (2005).
 

E mais centenas de participações em álbuns de outros artistas…

[infobox bg=”green” color=”white” opacity=”off” subtitle=”O título deste artigo é uma forma de homenagear, por tabela, o violonista Luiz Otávio Braga, meu mestre querido, contemporâneo e companheiro de Rafael na primeira formação da Camerata Carioca. Numa aula em que conversávamos sobre Rafael, Luiz disse em tom saudoso e admirado: ‘ O moleque era abusado… ‘ “]Em tempo:[/infobox]

1 Comentário

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10 álbuns da música instrumental brasileira que eu não canso de ouvir – TREVOUSresponder
16 de janeiro de 2017 em 12:01 PM

[…] Raphael dispensa apresentações, mas se você não o conhece direito recomendo este artigo aqui, que escrevi para o Trevous em 2014. Dos tantos de que gosto, acabei escolhendo este disco de 1991 […]

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