Novas crianças, velhos brinquedos

Bem, é ano novo e, para decepção dos adeptos de cultos Nova Era, o mundo não acabou. Boa notícia pra maioria, fato. Talvez não pra África Subsaariana, mas, cá entre nós, quem tá ligando? No Alto Leblon e no Jardim Oceânico as coisas seguem seu inexorável curso. Por aqui vai tudo bem, apesar de grande parte da riqueza mundial – notem o esforço em evitar os 99% vs 01% – estar nas mãos de tão poucos. Nada mudou. Nem o tema óbvio para posts de início de ano. A floresta queima, o óleo idem, a ambição ferve.  Ventos de transformação contradizem minhas afirmações, diria o mais otimista dos formadores de opinião.

Claro, afinal, tivemos a Primavera árabe, o movimento Occupy, a crise da Europa, o calote dos EUA, a eterna safra de filmes ruins baseados em livros ruins, a saída de Fátima Bernardes, um Faustão magro e o mala do Michel Teló. De tudo o que li, assisti e fui exposto neste último ano, e não me considero o cara ávido por novidades e “cultura” de antes, pois a gente cresce, infelizmente, digo-lhes que o que mais me chamou atenção foi o ressurgimento de brinquedos de minha infância. Tomei contato com os tais ao enfrentar as lojas neste natal. Listo aqui dois dos principais vilões do nocivo movimento de perversão das diversões infantis:

Os caras fizeram uma releitura futurista do bom e velho pião. Substituiram a madeira sustentável do brinquedinho por muito plástico, personagens, acessórios e toda uma linha de produtos por trás.

Beyblade – não imaginam o que é? Eu também não até ter um sobrinho de sete anos. É a velha história de séries japonesas que não deveriam ter saído de seu arquipélago. Magicamente, leia-se um puta trabalho de marketing, essas coisas saem e caem no gosto da molecada ao redor do mundo. Malditos japas e seus desenhos com olhões. Os caras fizeram uma releitura futurista do bom e velho pião. Substituiram a madeira sustentável do brinquedinho por muito plástico, personagens, acessórios e toda uma linha de produtos por trás. Os consagrados animes e mangás inclusos, claro. Um comercial a cada cinco minutos durante os intervalos de desenhos em todos os canais a cabo, 50 pratas a menos no bolso de pais e tios desavisados, voilá: vende mais que picolé na praia. Simples assim.

Super Banco Imobiliário – esse merecia um post à parte. Cara, vou te dizer, esse deu uma vontadezinha de matar esses gênios da publicidade; aliás, eles sempre vão figurar minha lista de assassinatos altamente justificáveis. Muito bem. A fabricante do tradicional brinquedo que “estrelava” – pegaram essa? – as minhas tardes em São Cristóvão, saudosas tardes de férias, em que eu e meu primo jogávamos a versão nacional do Monopoly engordurando as cédulas com manteiga escorrida de nossos biscoitos, tardes regadas a mate com bastante açúcar, falta de zelo por pertences alheios (dei sumiço em algumas notas ao escondê-las para ter mais grana) e estímulo a competição – enfim, a empresa brasileira responsável por um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos do mundo, decidiu, numa estratégia contra a concorrência de produtos mais baratos da China, anabolizar o Banco Imobiliário, transformando-o na bizarrice mor, versão Super. Megalomanias dispensáveis no tocante ao prefixo do título, a nova versão tem alto teor de purulência. No lugar das fictícias e anônimas empresas de aviação, ferroviária e navegação adquiridas através do negócio honesto de compra e venda de imóveis, nossas crianças podem agora adquirir ações de empresas como Vivo, Itaú, TAM e Ipiranga. Ações? Aham. Não temos mais cédulas no novo jogo. A brincadeira agora é virtual. Wall Street na veia. A Estrela uniu-se as empresas supracitadas para “subsidiar o investimento tecnológico necessário para criar o brinquedo”. Então, coube a Mastercard criar uma maquininha de mentirinha para os pimpolhos brincarem de especulação e, de quebra, serem adestrados mais cedo na vida de consumidor. Vamos lá. A versão antiga não era totalmente inocente, longe disso, vide a ganância e avareza maculadoras de minha pureza infantil; mas também não pegava tão pesado ao intrometer bancos e empresas reais, estas nada inocentes, no lazer das crianças. Não bastasse a agressiva intervenção em todos os âmbitos de nossa formatada vida, é de uma super cara-de-pau utilizar-se de um espaço vital como o das sadias brincadeiras em grupo para fazer marketing. É, no mínimo, criminoso. Enfim. Cabem muitas leituras aqui, sobre diversos e profundos aspectos da coisa toda em si, mas se nos ativermos só ao mau caratismo, sobram sopapos pruma meia-dúzia de três ou quatro. Pior ainda são as justificativas dos babilônicos envolvidos. Finalizo transcrevendo as pérolas. Feliz ano novo!

“A gente usou um modelo de máquina real para fazer o molde da maquininha de brinquedo. Só que de maneira mais simplificada para a criança” – Cristina Paslar, diretora de marketing da MasterCard, que diz ser o jogo uma oportunidade da marca se comunicar com consumidores diferentes do seu alvo costumeiro, que são jovens acima de 18 anos. – Proponho a criação de cartões infantis da Barbie e do Homem-aranha. Avacalha de uma vez, Cris.

“Fomos conversar com a MasterCard para dar à maquininha um cunho mais próximo da realidade. Chamamos também outras empresas que têm público infanto-juvenil como alvo para que suas ‘ações’ pudessem ser compradas pelas crianças” – Carlos Tilkian, presidente da Estrela. – Mamãe deve estar orgulhosa de você Carlinhos.

“Agregamos tecnologia ao jogo para ambientar a criança com situações do dia-a-dia dela. Hoje quando ela sai com seus pais o que ela vê são os cartões de crédito e débito”, diz Carlos Tilkian, presidente da Estrela. – É ou não é um filhodaputa? Vou te contar…

2 Comentários

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Brunoresponder
19 de janeiro de 2012 em 11:53 PM

Fantástico texto! Tenho 27, porém pai de um guri de 3. Quando tiramos fotos, o moleque já corre pra trás da câmera pra ver como ficou… É aí que o saudosismo reascende e as recordações do velho peão de madeira, do antigo Banco Imobiliário e até mesmo a boa e velha câmera de fotos para revelar (só tirávamos fotos se o botãozinho de girar chegasse ao fim..!) me fazem crer que o tempo está passando (sem falar daquelas fotinhas que ficavam dentro de “mini-binóculos” que só eram visíveis se postos contra a luz).. Bom demais relembrar a infância! Abraços!

Douglas Evangelistaresponder
20 de janeiro de 2012 em 11:20 AM
– Em resposta a: Bruno

Pode crer, Bruno. E ó: olho nos brinquedos do guri, leia o manual e as letras pequenas. Dá mole não.
Abração!

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