Para além da relação de causa e efeito

Passou a (não) fatídica data e o planeta não se foi, mas pelo jeito que continua parece não ter desistido da ideia. Enquanto isso, este é o último texto de 2012. Nessa época de reflexões sobre o ano que passou e desejos do novo ano, gostaria de fazer uma reflexão sobre uma construção de pensamento comum a todos as pessoas, mas que atrapalha muito nossa melhor compreensão do cotidiano.

O mundo sempre foi dos fortes. Era pela força que nos primórdios das organizações sociais lideres se sobrepujavam sobre liderados. Com o desenvolvimento dos sistemas de crenças passamos a dar crédito e poder a fala do outro, que convencia os incultos que a liderança era fruto da vontade divina. Esse dueto foi base para civilizações inteiras, Reinados surgiram em função desse binômio força x poder de persuasão.

A mística sobre a crença atingiu níveis alarmantes e deturpou durante séculos a capacidade humana de entender a própria existência. O obscurantismo fanático levou muito conhecimento para a fogueira. Célebres cérebros e muitos livros foram queimados fazendo virar cinzas uma riqueza incomensurável.

Civilizações inteiras foram dizimadas e junto com ela todo seu conhecimento que muito provavelmente ameaçava o método dominante estabelecido. Informação sempre foi e sempre será uma ameaça ao sistema estabelecido.

Para se livrar disso, o homem foi para o extremo oposto das crenças. O iluminismo trouxe as rédeas do intelecto de volta ao homem. Descartes com seu “Cogito ergo sum” coloca em primeiro plano o pensamento, mas traz com ele a noção de causa e efeito, de determinismo. O pensamento científico inteiro se baseia nisso até hoje. Metodologias de pesquisa acadêmica sempre criam conclusões sobre assuntos baseados no binômio isso-causa-aquilo. Junto com a revolução industrial, consumismo e produção em série formou a estrutura vigente nas relações psicossociais que conhecemos até hoje. O pensamento mecanicista influencia toda uma geração de pensadores e estão na base das chamadas ciências exatas. (onde o calculo impera soberano) e tem seu valor, construindo tecnologias em todas as áreas do conhecimento e nos fazendo evoluir em termos materiais.

O grande erro é colocar esse pensamento dentro do comportamento humano. A saúde aprendida e ensinada nas faculdades de medicina, psicologia, nutrição e outras formam profissionais que se prendem a esse tipo de construção e produzindo “verdades” absolutas absolutamente falsas e/ou incompletas.

Tudo no universo é relativo

 

Depois de Einstein, a percepção de alguns mudou. Apesar do cartesianismo ainda imperar na nossa formação, bem como o pensamento religioso que se aproveita dessa forma para determinar que “tudo é do jeito que Deus quer”. Desde a pedagogia da primeira infância até o capitalismo mais vil, essa dualidade falsa impera. E por que ela é falsa? Porque ela distorce a realidade e desconsidera o conjunto de fatores que causam situações.


“A borboleta bate as asas no Brasil e provoca um vendaval no Japão” Essa frase está querendo dizer algo muito mais complexo e fica completamente sem sentido escrita dessa forma.

Após a teoria da relatividade, essas formas de pensar a existência humana de forma mais ampla, tomam forma, mas por falta de critério e cuidado e por ameaçar o modo implantado, são colocadas de lado, no saco do misticismo pobre e nas crendices. Pensar diferente é ser um romântico das ideias. E é justamente ao contrário.

E pra piorar, explicações sobre a maneira mais ampla de construir pensamentos reduzem o entendimento para uma forma dualística.

“A borboleta bate as asas no Brasil e provoca um vendaval no Japão” Essa frase está querendo dizer algo muito mais complexo e fica completamente sem sentido escrita dessa forma. Ou seja, ao invés de esclarecer, só afasta o humano de ampliar sua percepção para além da relação de causa e efeito.

Não há nada de crendice no holismo. Entender e enxergar o todo deve ser um exercício diário a ser aprendido desde a infância. A borboleta daqui quando bate asas provoca deslocamento de ar, que se soma a todos os outros eventos que deslocam ar no continente, que se unem as correntes de ar, aos ventos provocados pelas variações climáticas, que em sua expressão oceânica rodam o planeta inteiro chegando ao Japão. Dizer que a borboleta causa o vendaval é reduzir o assunto tão complexo a uma simplicidade não verdadeira.

Esse pensamento errôneo e dualístico quando aplicado a nossa saúde, faz tirar conclusões erradas em quase todas as áreas cuja relação de causa e efeito não se aplica. Nenhuma doença é igual em mais de uma pessoa. A alopatia generaliza diagnósticos, setoriza, limita e rotula as pessoas pelo diagnóstico médico dualístico. Temos uma necessidade aprendida de determinar logicamente a causa das coisas. E nunca é causado apenas por um fator. É sempre um conjunto de relações que se estabelecem tecendo uma rede de conexões. O abacaxi não causa afta, a azeitona não dá azia, dor na coluna não é só em função da postura, a depressão, angustia e ansiedades não são causadas apenas por conta do seu momento atual de vida… Existe um organismo complexo, que recebe influência do estresse cotidiano, de frustações emocionais, de alimentação ácida e desequilibrada, de fatores ambientais como água e ar de baixa qualidade, dentre outros fatores. Somados, provocam o sintoma manifestado. A afta, a azia, a dor são sintomas que a medicina insiste em tratar no binômio causa-efeito [azeitona -> azia (sintoma) ->alopatia] para diminuir sintoma, deixando de lado as causas, que exige reflexão para entendê-las e muda-las na origem.

Mudar essa forma de pensar instituída leva tempo e requer um exercício diário de reflexão. Mas o resultado vale a pena. Quando nos libertamos do pensamento dualístico, ficamos menos doentes, mais tolerantes, menos preconceituosos, mais coletivos e muito mais saudáveis porque nosso nível de estresse diminui drasticamente. E acima de tudo, passamos a perceber o sistema complexo e ainda cheio de mistério que conhecemos como vida.

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