Por que as pessoas anulam suas vidas por ideais?

Moro fora da casa dos meus pais há alguns meses e, no último fim de semana, fui visita-los. Ao pegar o coletivo com meus fones de ouvido (estava ouvindo música no volume mais alto como gosto e minha quase surdez permite) e óculos escuros (estava pensando na letra da música e fitando o nada). Uma senhora apareceu na minha frente, gesticulando com um livreto na mão. Ela vestia um saião florido e, com a cabecinha pra fora da bolsa dela, havia um guarda-chuva. Ela tinha uma companhia, também. Outra senhora, provavelmente da mesma idade. Já dava pra perceber com duas piscadas que se tratava de uma Testemunha de Jeová. Eu não estava prestando atenção em nada do que ela dizia, mesmo. Ela ficou falando comigo (porque não tinha mais ninguém atrás de mim ou dos meus lados) por uns três ou quatro minutos, comigo não dando a mínima. Percebeu, torceu o beicinho, pegou no braço da mulher que estava ao lado dela, sua companhia, e foi embora parar outra pessoa.

Cheguei na casa dos meus pais. Clima nostálgico. Olho pra uma tatuagem que ele tem no braço, um yin-yang verde mal feito. Alguns cortes verticais embaixo dele. por-que-as-pessoas-anulam-suas-vidas-por-ideais_junysantana_trevous_2No outro braço, as iniciais do nome dele. SB. Só o “S” aparece. Verde. Lembro da história que ele me contou há alguns muitos anos sobre essas tatuagens. Envolvido com candomblé. Disse jamais ter sido “possuído”. Pisava em caco de vidro, dançando, e nada sentia. Acordava de madrugada pra ir à cemitérios fazer “trabalhos”. Num desses, teve de fazer as tatuagens.

Hoje ele tá “liberto”.

Pastor evangélico. A mãe também é quase isso, missionária. Ambos devotíssimos. Domingo à noite? Culto! Faustão não os vê há pouco mais de dez anos, acredito. Não estão perdendo muita coisa. Ambos. O Faustão e meus pais. Ah, não só domingo. Ok, segunda tem uma folguinha. Mas terça tem estudo. Quarta, culto. Quinta, culto em outra igreja. Sexta, ensaio. Sábado, mais culto. Esse, de manhã e à noite. Depois vem domingo. Mais culto.

Não dá pra mim.

Venho pra minha casa. Olho pro chão do meu quarto, embaixo da minha cama… meu case de pratos. Lembro de quando era mais garoto, na época da escola. Matar aula pra ir pra estúdio ensaiar era bom demais. Meus pais nunca souberam disso. Eles não vão ler isso aqui, também. Jamais me pegarão. Mas a onda era querer ser rockstar. Tocar cover. Fazer as meninas olharem pra gente. Pra uns deu certo, até. Pra mim, não. Muito provavelmente tem a ver com o fato de eu ter sido bastante esquisito na época do colégio. Não posso provar. Mas tocar era bom demais! Ver as pessoas olhando pra gente. Falando nosso nome na festa da escola. Os “uhuuulll” eram nossos pagamentos.

Mas a gente sabe que não levou a nada.

Saio pra comer algo, vejo uma plaquinha de candidato pendurada em um poste. Excetuando a possibilidade de um crime eleitoral que é colocar plaquinhas em postes alheios, por que uma pessoa em sã consciência deixa alguém colocar plaquinhas nos seus postes MESMO SABENDO que quando (ou se) esse candidato ganhar esse pleito, ele jamais vai aparecer ali pra perguntar se tá tudo bem ou se o dono do poste precisa de alguma coisa? Por que “ajudar” alguém que é (ou vai ser) um canalha?

Pedi meu lanche.

Lanche dado. Agradeci com um sorrisinho. Falso. Não recebi sequer um “de nada”. Nem falso. Reparei, também, que não era a primeira vez que isso acontecia. Apesar de não esperar isso.

Comi o lanche e fiquei pensando em tudo isso. Ou na maior parte disso tudo.

“Será que a fé é o que anda estragando a gente?”

Por que aquela senhora despendeu seu domingo pra apregoar uma causa utópica e sem sentido (minha questão não é ofender nenhum tipo de religião ou seita, é que realmente o livretinho com pessoas acariciando leões é algo que não tem o menor sentido)?

Por que meu pai teve que se mutilar por algo que não tem, hoje, pra ele, a menor explicação?

E quando cair a ficha, pros meus pais, de que a maioria absoluta dos líderes evangélicos só querem, mesmo, o dinheiro das pessoas e que se exploda todo resto?

Bandas começam e terminam aos milhares, por que eu ainda acredito que posso dar certo como músico mesmo vendo todos os dias que existem milhões de outro incrivelmente melhores que eu, ainda sem sucesso?

A política vem se mostrando cada dia mais um antro da mais perfeita podridão, mas ainda assim tem gente que vai pra rua levantar bandeira de um lado que tá completamente nem aí pra ela e só visa seus próprios interesses. Por que ainda fazer isso?

É esperar “um futuro melhor”. Não “fazer um mundo melhor”. Talvez esse seja o maior dos problemas em todos esses casos. Confiar que tudo, um dia, vai se acalmar ou melhorar é o que, de fato, fode.

As coisas não vão melhorar e quanto mais cedo a gente entender isso, melhor. A melhora nunca vai existir. Ela vai passar pela gente um tempinho e dar espaço pra mais problemas e loucuras. Isso é a vida, infelizmente.

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Anular isso e tentar remediar com “boas ações” baseadas em fé é quase que se automedicar. Eu queria e muito que fosse um “papo de quem não acredita em nada, hohoho”, mas não é. Viver é a consequência das ações e escolhas que a gente toma e, quanto mais a gente arrisca, mais as chances da gente se dar bem ou mal. Estagnar num pensamento de que “fazendo isso aqui eu vou pro céu” ou “vou continuar esmurrando esse mesmo ponto que nunca cedeu mas vai ceder um dia com meus mesmos movimentos que me machucam desde sempre” não faz bem. Não é sadio. Chega a ser, serio, irreal.

Vale realmente a pena acreditar em um futuro que a gente nem sabe qual é? Por que não viver um diazinho de cada vez, tomando uma decisãozinha de cada vez, e ver no que isso vai dar?

Talvez essa seja a resposta da pergunta inicial.

Bom, pelo menos faz muito mais sentido. E, pra mim, vale muito mais a pena. Juro!

1 Comentário

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Anonimatoresponder
23 de dezembro de 2016 em 12:01 PM

As ações sociais são atitudes que são tomadas para tentar achar um ponto de equilíbrio dentro da sociedade. Uma pessoa que segue uma religião, ou que vai atrás do desejo de ser um ser reconhecido socialmente, de alguma forma não está anulando sua vida, apenas redirecionou o foco dela para algo que ela provavelmente se sentiu mais confortável em seguir.

Talvez seja mais válido acreditar em um futuro que não se sabe qual é, pois ao menos a pessoa pode seguir a vida dela de forma que não incomode o outro. Senão, o foco dela poderia ser diferente. Ela poderia usar de violência para acabar com qualquer um contrário ao ideal dela – e isso era comum em grande parte do mundo há ao menos uns 150 anos atrás. Vide que hoje ainda há guerras pois justamente as pessoas anularam suas vidas e viram que era melhor ir atrás de fazer seu lugar por sangue do que por respeito.

Seguir uma religião ou ter uma definição melhor de futuro ajuda a pessoa a justamente não anular sua vida. Senão pode ser que ela se sinta vazia.

Ser um político não é ser podre. Podre são as pessoas, interesseiras, interessadas. Não é culpa de um político sua corrupção, mas sim da população que permite esta corrupção. Nisso justamente vai de encontro ao ponto das pessoas mais “esperarem um mundo melhor” do que “fazer um mundo melhor”.

Se as pessoas refletissem sobre o que fazem e onde focam seu feito, talvez entenderam por exemplo que um dos problemas é a ganância, que no final as pessoas criam mais porque seguem uma motivação, tal como um jogo (e nisso temo a figura do dinheiro) do que por simplesmente fazer algo e ajudar o outro.

Todo mundo de alguma forma pensa no seu dia-a-dia. Isso é vida básica. Mas “pensar no futuro”, “ter fé”, “desejar algo diferente para si” muda os parâmetros. No fundo provavelmente você fez este texto com o intuito de ser reconhecida como pessoa futuramente por ter feito este texto e mudado a vida de alguém por exemplo. Senão você nem teria escrito este texto e o publicado, imagino.

Talvez você também tenha um ideal – que os outros sigam o seu ideal. Senão você não escreveria aqui.

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