São Pixinguinha – Parte 1


Este artigo é a oferenda deste humilde devoto ao santo do sopro divino e das melodias milagrosas.

Há mais ou menos dois meses meu Facebook estava repleto de postagens como “Viva São Jorge!”, “Viva Ogum!”. Era dia 23 de abril, dia do santo católico mais popular do Rio de Janeiro, comemorado também por adeptos de religiões afro-brasileiras pelo sincretismo regional com o orixá guerreiro. Mas havia outro tipo de saudação nas redes sociais naquele dia: “Viva o Choro!”. Isso porque no 23 de abril também se comemora o Dia Nacional do Choro, que não por acaso é a data de nascimento do maior músico brasileiro de todos os tempos: Pixinguinha. Este artigo é a oferenda deste humilde devoto ao santo do sopro divino e das melodias milagrosas. Aperte o play e boa viagem!

Pixinguinha by Diego Cavalcanti on Grooveshark

Os primeiros anos

“Não demorou muito o menino Pixinguinha começou a fazer aulas com os músicos que frequentavam sua casa e foi se desenvolvendo rapidamente na flauta transversa.

Outro dia ouvi (ou li) em algum lugar que todos os grandes nomes da música brasileira são conhecidos por seus apelidos. Cartola, Tom, Chico, Guinga. É óbvio que esta afirmação está longe de ser cem por cento verdadeira, mas cai como uma luva para um certo Alfredo da Rocha Viana Filho. Nascido no dia 23 de abril de 1897, na cidade do Rio de Janeiro, Pixinguinha era filho de uma família numerosa e musical que morava num casarão de oito quartos e quatro salas (!) conhecido como “pensão Viana”, no bairro do Catumbi. Seu pai tinha o hábito de promover saraus e hospedar músicos em dificuldade financeira, e foi assim, nesse ambiente artisticamente estimulante que Pixinguinha, ainda muito criança, desenvolveu o gosto pela música. Segundo ele próprio em seu depoimento para o Museu da Imagem e Som em 1968: “Meu pai não era grande flautista, mas adorava tocar o instrumento. Ele gostava muito do Choro e eu acabei por acompanhar aquelas músicas executadas por grandes figuras da época, que se reuniam lá em casa. Eu, menorzinho, ficava apreciando… gostava de música. Por volta das 20 ou 21 horas, meu pai dizia, ‘menino, vai dormir!’ E eu, perfeitamente, ia para o quarto. Mas não dormia não, ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto.” Não demorou muito o menino Pixinguinha começou a fazer aulas com os músicos que frequentavam sua casa e foi se desenvolvendo rapidamente na flauta transversa. Aos catorze anos já estava tocando profissionalmente em bailes, cinemas, cabarés e casas de chope; seu irmão Otávio Viana, vulgo China, era violonista e foi quem o levou para tocar na noite carioca (nos primeiros anos de 1900 a Lapa já era um point!). Nessa mesma época Pixinguinha faz sua estreia em disco (na época uma tecnologia ainda incipiente, que existia no Brasil há menos de uma década) com o grupo Choro Carioca, liderado por seu professor Irineu de Almeida, que tocava oficleide, um instrumento de sopro grave, muito raro hoje em dia. Era um disco 78 rotações com gravação apenas em um lado e trazia a polca “Nhonhô em sarilho” (só cabia uma música em cada disco). O grupo Choro Carioca gravou vários discos entre 1911 e 1913, muitos deles com solos de flauta de Pixinguinha.

Os Oito Batutas

Pixinguinha seguiu gravando e tocando com muito sucesso até que em 1919, já aos vinte e poucos anos, foi convidado a formar um grupo para tocar na sala de espera de um cinema. Assim se formou o primeiro grupo da música popular brasileira a fazer fama nacional e internacional: Os Oito Batutas. Além de Pixinguinha na flauta, participavam do grupo seu irmão China e seu amigo Donga (o autor de “Pelo telefone”, que é considerado o primeiro Samba gravado). A instrumentação era como dos grupos de Choro, com flauta, percussões e cordas (cavaquinho e violões) e seu repertório mesclava músicas instrumentais e cantadas.

Os Oito Batutas. Pixinguinha é o primeiro da direita para a esquerda, com a flauta na mão.
Os Oito Batutas. Pixinguinha é o primeiro da direita para a esquerda, com a flauta na mão.

Os Oito Batutas tocaram no Rio e em outros estados brasileiros com ótima repercussão até que em 1922 o empresário Arnaldo Guinle, que já havia patrocinado turnês nacionais do grupo, resolveu custear uma temporada internacional em Paris, a capital da moda. Muitos veículos de imprensa do Brasil (desde a época nas mãos de uma elite branca, racista e cheia de complexo de vira-lata) foram contra a viagem; motivo: os Oito Batutas eram, em sua maioria, negros ou mestiços, e tocavam música brasileira e, ainda por cima, popular. Um jornal pernambucano chegou a publicar o seguinte: “oito pardavascos que tocam violas, pandeiros e outros instrumentos rudimentares (…), lamento não haver uma polícia inexorável que, legalmente, os fisgasse pelo cós e os retirasse de bordo, impedindo-lhes a partida. (…) Impunemente, porém, os Oito Batutas lá vão rumo a Paris (…). E depois ainda nos queixamos quando chega por aqui um maroto estrangeiro que, de volta, se dá à divertida tarefa de contar das serpentes e da pretalhada que viu no Brasil.” Seriam os antepassados de Rachel Sheherazade? Quem sabe… O fato é que os Batutas fizeram sua temporada parisiense, onde tiveram contato com novidades como o saxofone e a bateria, e seis meses depois estavam de volta ao Brasil, tocando nas comemorações do centenário da Independência e participando da histórica primeira transmissão de rádio no país. No fim do mesmo ano fizeram outra excursão internacional, dessa vez para a Argentina, onde chegaram a gravar dez discos (que à essa altura já eram dubla-face e comportavam duas músicas: uma de cada lado) para a gravadora Victor de lá.

Maestro Pixinguinha

A partir do final da década de 1920 Pixinguinha intensifica seu trabalho como arranjador, regente e diretor de orquestras. Na época (como ainda hoje entre as majors, salvo algumas exceções), as gravadoras existentes no Brasil eram filiais ou ramificações de matrizes da Europa ou Estados Unidos; com isso, era muito comum que as orquestras dessas gravadoras fossem regidas e formadas por estrangeiros. Como esses músicos e maestros estavam pouco habituados ao sotaque de nossa música popular, tais orquestras nunca soavam brasileiras, mas algo estranho, como aquele gringo tentando sambar em visita à quadra da Portela. Vale lembrar que, comparadas com os dias atuais, as comunicações eram muito precárias, e métodos de ensino que abordassem a música popular (brasileira ou de qualquer outro país) simplesmente ainda não existiam; o que hoje um músico estrangeiro pode aprender sobre nossa música acessando o You tube ou com um songbook, sem sair do conforto de seu quarto, naquele tempo só era possível através do contato direto com o lugar e sua cultura. O trabalho de Pixinguinha como arranjador fez com que, finalmente, as orquestras que gravavam no Brasil soassem brasileiras; para alcançar tal resultado ele escolheu os melhores instrumentistas da época, a maioria deles ligados à linguagem do Choro, e deu papel relevante aos instrumentos de percussão, como nunca antes havia sido experimentado em acompanhamentos orquestrais. A qualidade de Pixinguinha como arranjador o garantiu destaque e trabalho em várias gravadoras, e ele nada sofreu da crise que se abateu sobre a classe musical no começo dos anos 1930: o advento do cinema falado tirou o emprego de muitos músicos que tocavam acompanhando as sessões mudas.

PIXINGUINHA ESCREVENDO

Aliás, o final da década de 1920 e a década de 1930 foram excelentes para Pixinguinha. Ele que já era renomado flautista passou a ter também esse destaque como arranjador. Além disso, nesse período foram gravadas várias músicas de sua autoria que se tornariam clássicos do repertório Choro: Carinhoso, Lamentos, Segura ele, Ainda me recordo, Naquele tempo. O Carinhoso, uma das maiores canções da musica brasileira, foi gravado originalmente em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, em versão instrumental; somente em 1937 teve sua primeira versão com letra, gravada pelo cantor Orlando Silva, o mais popular da época, entoando os versos imortais de Braguinha: “Meu coração, não sei porquê…”. No lado B do mesmo disco, a versão definitiva da valsa Rosa (cujo formato original gravado em 1917, em versão instrumental, foi abandonado), também por Orlando Silva, com os belíssimos versos do incógnito Otávio de Souza (segundo Pixinguinha era um mecânico do Engenho de Dentro): “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”.
Como nada dura para sempre, no ano de 1940 tem início uma fase de grande dificuldade na vida e na carreira de Pixinguinha, mas que foi superada de forma genial pelo mestre… aguarde a segunda parte do artigo semana que vem!

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