Aquele troca-troca de roupa até enfim escolher uma. Descolore, estira, encaracola; raspa o cabelo. Quadrado, redondo, vermelho, verde, colorido; cada dia uma armação diferente é colocada em frente aos olhos. Nos pés, no joelho, na polpa da bunda; uma sainha sempre cai bem. Feita, mal feita, fechada, por fazer; hoje as barbas estão em foco. Essas são algumas das formas que escrevemos na gente. Realmente não para por aí. Somos textos esperando que alguém nos leia. Somos textos ambulantes, por vezes poliglotas, prontos para comunicar algo.

A cada dia o nosso humor influencia na forma em que vamos escrever. Podemos acordar uma comédia e fazer rir até o mais sisudo dos mortais, ou um suspense que nem a gente consegue entender e por vezes um drama, para desestabilizar qualquer plateia. O local que estamos também influencia. No emprego geralmente somos um misto de argumentação e injunção, com os amigos somos uma narração, aos inimigos dedicamos a nossa descrição, que por vezes, é equivocada.

Por melhores escritores que sejamos sempre terá um analfabeto que irá ignorar todas as regras gramaticais e lerá como bem entender. Esses são os analfabetos sentimentais. Estão em todas as partes do planeta, e por se acharem diretores da cena, ignoram o lápis e já escrevem de caneta, para depois ficarem passando corretivo em tudo. Nesses casos é melhor virarmos a página.

“Por melhores escritores que sejamos sempre terá um analfabeto que irá ignorar todas as regras gramaticais e lerá como bem entender.”

Inúmeras vezes também não conseguimos decifrar alguns textos que antes eram tão familiares a nós. Seja um amigo, um primo, um vizinho, ou um irmão, parece que tudo o que tinha escrito neles hoje se apagou. Ou foi nós que mudamos a referência bibliográfica? Em meio a tantas indagações que passam a surgir tropeçamos em um novo texto e nos empolgamos tanto na leitura, que dessa vez mudamos mesmo é o capítulo todo.

Viramos uma novela mexicana quando nos expomos, lemos em voz alta e escrevemos dedicatória, mas quem mais admiramos não nos lê, nem se quer entende a nossa língua. Ô, gramática complicada! Depois disso ignoramos qualquer concordância, focamos em adjetivos, rasgamos o verbo e tudo mais que aparece na nossa frente. A verdade é que, por mais sociáveis que sejamos, sempre existirão os textos que não vamos conseguir interagir.  Essa é a grande riqueza do mundo e assim é afirmada a diversidade cultural, ou seria textual?