As últimas semanas de Ary Barroso

No meu último post aqui no Trevous falei sobre alguns dos nomes centenários de nossa música, entre eles, Ary Barroso, um dos maiores compositores brasileiros. Aproveitando a curiosidade despertada pela pequena pesquisa que fiz para o artigo, decidi assistir ao musical “Ary Barroso –  do princípio ao fim”, escrito, dirigido e estrelado por Diogo Vilela, em suas últimas semanas em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Então cá estou para, modestamente, compartilhar com vocês minhas impressões sobre o espetáculo e também para trocar um dedo de prosa com Alan Rocha, um dos integrantes do elenco.

Quando decidi escrever este artigo, pensei em iniciá-lo falando um pouco sobre a vida de Ary. No entanto, mudei de ideia logo que terminou o espetáculo: escrever uma pequena nota biográfica sobre o homenageado tornar-se-ia uma tarefa inglória, e também redundante, uma vez que o musical já conta (e canta) sua vida e obra de forma encantadora e singela, na medida certa; tudo mais que eu viesse a comentar seria inútil, além de tirar um pouco do gosto de quem ainda quer assisti-lo no teatro. Nas palavras do próprio Diogo: “Nosso espetáculo apresenta, além das múltiplas facetas do grande compositor, suas mágoas, desafetos e músicas com grande teor de romantismo, como nos mostra seu legado, banhado de canções que habitam, sem que saibamos, o inconsciente brasileiro.”

Além de Diogo Vilela, fazem parte do elenco Ana Baird, Alan Rocha, Esdras de Lucia, Mariana Baltar, Reynaldo Machado, Carlos Leça, Marcos Sacramento e Tânia Alves. A música (e que música!) fica por conta de Josimar Carneiro (direção musical, violão e guitarra), Henrique Band (saxofone e flauta), Gabriel Geszti (piano e acordeom), André Boxexa (bateria e percussão), além de Roberto Bahal (pianista acompanhador).

O espetáculo de cerca de duas horas e meia, dividido em dois atos, mostra Ary no seu último dia de vida, um domingo de Carnaval no ano de 1964. Na cama do hospital, ele recebe a visita de sambistas do Império Serrano, que o convidam para o desfile da escola, com enredo em sua homenagem, prestes a entrar na avenida. Trata-se de “Aquarela brasileira”, enredo cujo samba, de autoria de Silas de Oliveira, é um dos mais famosos sambas-enredo de todos os tempos, cantado à exaustão ano após ano em cada carnaval: “Vejam, essa maravilha de cenário / É um episódio relicário…” (aliás, confesso que só recentemente, pesquisando para o artigo, é que descobri que este enredo foi uma homenagem à Ary Barroso). A partir daí, misturando memórias e delírios, em conversa com os sambista que o homenageiam, Ary vai contando sua vida, lembrando suas músicas, seu trabalho como pianista de cinema, como apresentador de programas de rádio e locutor esportivo. Ao citar grandes nomes de nossa música com quem Ary conviveu e trabalhou, o espetáculo acaba fazendo uma série de pequenas e belas homenagens: vemos em cena Lamartine Babo, Aracy Cortes, Linda Batista, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e até Tião Macalé (comediante do famoso bordão “Nojento! Tchã!” no programa Os Trapalhões) que era responsável por tocar o gongo, ao comando de Ary, indicando a eliminação dos pobres calouros no programa de rádio. Ao todo são apresentadas 25 músicas, a maioria de autoria do próprio Ary, além de outras, que de uma forma ou outra ajudam a contar a vida do personagem central. Destaque também para a série de “causos” (todos reais!) da vida de Ary que o texto relembra, como a aposta que fez sobre um jogo Fla-Flu, o motivo de ter recusado o convite de Walt Disney para ser diretor musical de sua produtora, e as pérolas cantadas pelos calouros em seu programa.

Entrevista com o ator Alan Rocha

Em 2008 fui um dos arranjadores do álbum “Bonde Folia” da Orquestra Popular Céu na Terra, grupo carioca com um repertório muito brasileiro e diversificado, que inclui sambas, marchinhas, maxixes, frevos, cirandas e maracatus, além de ser um dos blocos mais populares do carnaval de rua do Rio. Na ocasião conheci Alan Rocha, cavaquinista e um dos cantores do grupo, e hoje tenho o prazer de entrevistá-lo para conhecer um pouco mais sobre seu trabalho e sobre a produção de “Ary Barroso – do princípio ao fim”.

Eu já conhecia o Alan Rocha cantor e cavaquinista, mas o Alan Rocha ator foi uma grata surpresa. Esta é sua primeira experiência no teatro? Fale um pouco de sua trajetória.

Alan: A música me levou ao teatro e acho que no fundo eu já tinha essa vontade de atuar. A primeira peça que fiz foi no Retiro dos Artistas, eu era músico e tocava percussão. A outra peça foi da Cia. dos Comuns, que precisava de músicos negros que tocassem instrumentos de harmonia ou melodia, eu fiz o teste e passei; depois de tanto dar sugestões, virei assistente do diretor musical Jarbas Bittencourt.

Em 2006 minha visão de teatro mudou bastante. Minha professora de cavaquinho Luciana Rabello me convidou para ser músico do espetáculo “Besouro Cordão de Ouro”, de Paulo César Pinheiro. Nessa peça havia dois músicos fantásticos de Minas Gerais, Maurício Tizumba e Sérgio Perere, que também atuavam no espetáculo; com isso pensei que poderia dar certo fazer as duas coisas. Nessa peça já tinha umas falas com todos juntos e em 2008 eu tive a oportunidade de substituir um ator que não pôde fazer o Besouro [personagem principal do espetáculo]… Daí por diante fiz umas oficinas de teatro e continuei a substituí-lo. Passei no teste da peça “É samba na veia – Candeia” com direção de André Paes Leme e direção musical de Fábio Nin, onde fui músico e ator, em 2008. Depois vieram testes pra comerciais, e fiz alguns, e agora o “Ary Barroso”.

Como foi o trabalho de preparação para o musical? Os ensaios continuam após a estreia?

Alan: Foi bem intenso, pois começamos os ensaios dois meses antes da estréia; tínhamos um dia de folga na semana. Além do texto, temos dança e música, aí é necessário muita concentração e preparo corporal. Após a estréia só ensaiamos algumas mudanças rápidas e os ensaios acabaram.

E no palco, como acontece a interação dos atores/cantores com o músicos? Vocês trabalham com algum tipo de retorno ou algo como uma gravação-guia para não perder o momento exato de cantar?

Alan: Nossa interação acontece mais fora do palco, pois uma tela nos separa dos músicos [Uma tela translúcida no fundo do palco, fazendo um efeito muito bonito: no primeiro plano os atores, e no plano de fundo os músicos com iluminação difusa]. Nossa interação é através da audição, diferente da interação dos atores, com olhares e toques, por exemplo. É na hora do samba-enredo, no início e no fim do espetáculo, onde todos nós [músicos e atores] simbolizamos os sambistas e componentes do Império Serrano, que sinto maior essa unidade.

Os músicos e o diretor musical têm um fone de retorno, e as frases do texto estão escritas na partitura, e o diretor faz a contagem pros músicos. Nós [atores] temos um retorno no palco para ouvir a banda.

Como é a experiência de trabalhar com nomes consagrados como Diogo Vilela e Tânia Alves?

Alan: Como diz a música do Ary, “é luxo só”. Estou numa faculdade onde só tem excelentes mestres, e ainda tem o grande Amir Haddad [supervisor artístico]. O Diogo é craque, jogando em várias posições, dirigindo, atuando e escrevendo, está sempre buscando o melhor de nós, sabe exatamente o quê podemos acrescentar ao espetáculo, e tudo vai fluindo; eu lanço umas coisas e depois vou conversar com ele pra saber se é o caminho. E a Tânia é uma querida, estou sempre perguntando alguma coisa pra saber o quê ela acha. Ela sempre sorridente vem dar umas dicas, incentivar… E eu entrei nessa faculdade gostando e buscando aprender em todas as aulas.

Você e Reynaldo Machado roubam a cena no início do segundo ato, com a interpretação da música “Boneca de pixe”, num dos momentos mais engraçados do musical. Além deste, que outro(s) momento(s) do espetáculo você destacaria?

Alan: Poxa, que isso, obrigado! Tem outros momentos de outros atores que adoro. Ana Baird cantando “Risque”, Marcos Sacramento cantando “Três lágrimas”, os sambistas do Bando da Lua com Carmem Miranda interpretada por Mariana Baltar… Tem um texto em que o Diogo diz que devemos valorizar nossa música, e que relembra Zezé Gonzaga, Mário Lago, Orlando Silva e outros… Ah, e a parte do programa de auditório é demais! (risos)

Em que mais você tem trabalhado, em quais outras produções está envolvido atualmente? Continua na Orquestra Popular Céu na Terra?

Alan: Sim, ainda estou na Orquestra, e ano passado criei um novo show que foi aprovado pelo SESI, e realizamos um show chamado “Brasileirando”, onde foram abordados vários gêneros musicais, com uns momentos reservados para intervenções com danças, textos, ou cenas. Também fui convidado para fazer o filme “Pixinguinha”, onde meu personagem é de grande importância na história do nosso Santo Pixinguinha: é o China, violão de 7 cordas dos Batutas [Os Oito Batutas foi um famoso grupo do qual Pixinguinha fez parte, por volta de 1920] e quem leva o irmão para a vida boêmia da noite. Além disso estou pensando muito num trabalho solo para este ano… Quem sabe transformar o show que faço em homenagem ao mestre Candeia em CD… Vamos ver, meu camarada! (risos)

***

“Ary Barroso – do princípio ao fim” é a prova de que não são necessárias superproduções para se fazer um trabalho de alto nível. Com um elenco e um grupo musical modestos em quantidade mas ricos em qualidade, o espetáculo faz uma bela e justa homenagem à um dos maiores pilares de nossa música. É divertido, leve, emocionante, despretensioso e delicioso de assistir. Um programa mais do que recomendado para uma noite de verão carioca, pois além de tudo faz reverberar um pouco mais em nosso peito o carnaval recém-acabado, o misto de alegria e tristeza dessa festa, a escola à beira da avenida, o gênio à beira da morte.

[box type=”info” size=”medium” ]Em cartaz no Teatro Municipal Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, Centro do Rio, de quinta à domingo, às 19:30hs, até 31 de março (ainda dá tempo!). As sessões de quinta têm preços populares e os ingressos esgotam mais rápido, portanto é necessário comprar com alguns dias de antecedência. Mais informações em www.facebook.com/AryBarrosoDiogoVilela[/box]

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