romeu e julieta

Romeu e Julieta no RJ: A Espada x O Chumbo Quente


As diferentes abordagens da famosa tragédia shakesperiana em “Era Uma Vez…” e “Maré, Nossa Historia de Amor”

Antes de ser uma grande história de amor ou referência romântica, como muitas vezes é entendida, a tragédia de Romeu e Julieta é uma crítica política às relações de poder e ódio dentro da sociedade. Ainda que a história tenha se tornado um dos principais símbolos do amor romântico, a dramaturgia de Romeu e Julieta discute de maneira primordial a questão da guerra civil e suas consequências mórbidas. Nesse sentido, a adaptação para o cenário carioca permite uma série de questionamentos e possibilidades que vão muito além de um debate raso sobre a paixão e suas impulsividades. 

Em “Maré, Nossa História de Amor” (2007), a releitura de R&J feita por Lúcia Murat se dá num contexto de guerra de facções no Complexo da Maré — comunidade historicamente dividida entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. No filme, uma escola de dança comunitária é refúgio para jovens dos dois lados do Complexo que buscam montar uma companhia de dança. Trata-se de um musical, com referências evidentes a “West Side Story” (1961), desde a direção e montagem até as coreografias e figurinos. 

Analídia (Cristina Lago) e Jonathan (Vinícius D’Black)
Analídia (Cristina Lago) e Jonathan (Vinícius D’Black)
Bernardo (George Chakiris) na cena de abertura de West Side Story
Bernardo (George Chakiris) na cena de abertura de West Side Story

Já no filme de Breno Silveira, “Era Uma Vez…” (2008), a crítica social já começa a aparecer secundariamente — ou pelo menos de maneira mais esvaziada — para dar lugar à narrativa da paixão. A história é contada sob o ponto de vista de Dé (“Romeu”), um jovem morador da favela do Cantagalo, que trabalha no quiosque da praia de Ipanema e se apaixona pela moradora do prédio da frente, Nina (“Julieta”). Sendo assim, a dialética se estabelece de maneira diferente, trazendo a proposta de: ricos x pobres — assim como em “Titanic” (1997). 

Carlão (Rocco Pitanga), Dé (Thiago Martins), Nina (Vitória Frate) e Cacau (Luana Shneider)
Carlão (Rocco Pitanga), Dé (Thiago Martins), Nina (Vitória Frate) e Cacau (Luana Shneider)

Originalmente, a tragédia ilustra uma disputa entre duas famílias com igual poder econômico e status quo, de forma a não propor se identificar nenhum dos lados como menos ou mais responsáveis pela guerra civil enfrentada, o que se dá acertadamente em “Maré, Nossa História de Amor” com a narrativa de facções rivais. Em “Era Uma Vez…”, a equiparação da violência praticada pelo Estado e pela classe dominante com a que é exercida pelo tráfico de drogas, além de equivocada, evidencia um posicionamento político profundamente elitista e conservador. 

É possível observar nas duas obras cinematográficas a influência estética e narrativa de “Cidade de Deus” (2002). Em “Era Uma Vez…” muito mais do que em “Maré, Nossa História de Amor”, a banalização da violência é presente em um grau alarmante. O filme, assim como no longa de Fernando Meirelles, começa com um narrador-protagonista, que só volta a falar no epílogo, apresentando sua vida. Logo na primeira sequência, vemos uma cena de violência abissal entre duas crianças do Cantagalo em um jogo de futebol. Motivado pela inveja e pela raiva após levar um drible, um menino de 12/13 anos, Beto, pega uma pistola e começa a atirar em direção a seu colega. É este evento que resulta em uma rivalidade violenta pelo resto das vidas de todos os personagens envolvidos e determina o caráter psicopático de Beto. Zé Pequeno mandou lembranças. 

Beto (Fernando Brito) mais velho

No que diz respeito a (não) banalização da violência no filme de Lúcia Murat, em uma das primeiras sequências de estranhamento entre o lado A e o lado B em um baile, a quadra se divide em duas com várias armas para o alto e a situação se resolve através de uma batalha de passinho. Tratando-se de um musical que bebe no lúdico muito mais do que no realismo, a força que a cena ganha é realmente incrível. São poucos os momentos de violência explícita, que também aparecem como uma forma de questionamento. 

É incrível perceber como “Maré” tem um trabalho especial no que diz respeito à valorização da arte e da cultura local. Por se tratar de um musical, o filme é todo coreografado com danças que variam entre o street dance, o funk e a dança contemporânea. Assim como em “West Side Story”, que também é um musical que remonta Romeu e Julieta em um contexto mais atual, todas as coreografias são cuidadosamente pensadas para explorar diferentes emoções vividas na narrativa da história e as potências dos corpos dos jovens em movimento.

Nesse sentindo, um personagem que Lúcia Murat subverte do original é o Frei Lourenço, trazendo uma provocação simbólica e potente através da substituição de uma figura clériga misericordiosa, por uma artista. Em “Maré”, o Frei Lourenço é uma professora de dança (Marisa Orth) que busca levar arte, e não Deus, para a vida dos jovens. Não só a dança, mas o hip hop em suas diferentes instâncias artísticas, são abraçados pelo filme, e o roteiro muito criativamente adiciona um coro que é feito através de rap, algo que nem sequer existe na tragédia original de Shakespeare, fazendo referência direta ao formato trágico grego. 

Um aspecto curioso sobre o ponto de vista narrativo, no filme de Breno Silveira, é a história ser contada pela perspectiva de Romeu. Na peça, o foco dramático se dá muito mais em cima dos Capuleto (família de Julieta) do que dos Montechio (família de Romeu), não só em razão do exílio de Romeu após o assassinato de Teobaldo, mas justamente pelo fato de Julieta estar apaixonada pelo homem que matou seu primo. Além disso, Julieta é a principal agente dramática em todo o plano de fuga do casal. É ela quem decide se casar escondida com Romeu às pressas para não ser casada com outro homem por seu pai. É ela quem se propõe a tomar uma poção para parecer morta por um dia inteiro no intuito de escapar com Romeu e, com isso, aceita se dar por falecida para toda sua família. Ambos são protagonistas, mas é Julieta quem move a trama da tragédia. A centralização da história no personagem masculino em “Era Uma Vez…” resulta num conflito final em que nos deparamos com uma Julieta indefesa e em perigo, que precisa ser salva pelo príncipe. Abandonou a tragédia e foi direto para o conto de fadas — como já prevê o título do filme.

Evandro (Paulo César Grande) e Dé (Thiago Martins)
Evandro (Paulo César Grande) e Dé (Thiago Martins)

Em contraponto, na obra de Lúcia Murat existe uma inversão de gêneros nos papéis clássicos. Analídia é Romeu e Jonathan é Julieta. Leitura que começa a ficar perceptível na similaridade que Anjo, da facção do pai de Analídia, tem de Mercucio, amigo de Romeu. Em uma das cenas mais importantes da peça (e do filme), Mercucio é assassinado em uma briga contra os Capuleto — ainda que não fosse um Montechio. Assim como Anjo, que é executado por conta da guerra entre as facções — mesmo que já tivesse abandonado o tráfico.

Além de Anjo, Babu Santana, no papel de Dudu (“Senhor Capuleto”), tem momentos marcantes de releitura do personagem. Aparecendo como o dono da festa, no baile onde Romeu e Julieta se conhecem, tentando impedir a união do casal; numa cena mais à frente na história. No filme, Dudu é irmão de Jonathan, não pai — como o Senhor Capuleto é de Julieta. 

Em “Era Uma Vez…”, Babu também atua como parte do esquema do tráfico, dessa vez ao lado dos Montechio — parte da facção do irmão de Dé (“Romeu”). Em “Maré”, o personagem de Babu ainda é explorado com alguma tridimensionalidade, sendo caracterizado por um homem que, mesmo agressivo, incentiva a cultura e arte dentro da favela. E apesar de cumprir seu papel de maneira primorosa, é realmente uma lástima ver um ator tão talentoso e experiente sendo convidado quase exclusivamente para cumprir um estereótipo de homem negro criminoso nas telas do cinema nacional contemporâneo. 

Lucia Murat e Cristina Lago
Lucia Murat e Cristina Lago

Por fim, ainda na troca de gêneros, torna-se evidente o lugar de Jonathan como Julieta no momento final da tragédia, quando é ele quem finge a própria morte, enquanto Analídia se mata ao descobrir a (falsa) morte de seu amado. 

Uma das releituras mais importantes da obra de Lúcia Murat é a cena da morte de Anjo (“Mercucio”), botando em questão o ódio que perpetua a guerra. Jonathan implora para que Dudu não mate Anjo, informando ao irmão que o colega havia abandonado o tráfico e dançava em sua companhia. Dudu aponta para a tatuagem “do outro lado” na canela de Anjo e o alveja com tiros, marcando o foco da narrativa no questionamento da guerra civil acima da história de amor. A cena, inclusive, faz uma crítica direta à atuação da polícia no meio dessa disputa, mostrando Anjo sendo levado pela própria PM para Dudu, em troca de dinheiro. 

Em paralelo, no filme de Breno Silveira, a principal releitura parece ser a cena do balcão — onde Romeu se declara para Julieta pela primeira vez. O filme já começa com Dé (“Romeu”) olhando do quiosque para cima e admirando Nina (“Julieta”) em sua janela. A cena se repete algumas vezes em diferentes momentos, trazendo mais uma vez a importância da narrativa do amor romântico para essa adaptação. 

Dé e Nina
Dé e Nina
Jonathan e Analídia
Jonathan e Analídia

A questão da interracialidade é pouco ou nada discutida em ambas as obras, apesar da escolha de casais interraciais como protagonistas e mesmo se tratando de uma tragédia que fala sobre o ódio que destrói o amor. Em “Maré”, logo no primeiro ato do filme, Analídia tem uma discussão que ameaça levantar esse debate, criticando a postura da filha branca com a mãe preta, mas a questão acaba ficando solta e não é mais retomada.

Analídia (Cristina Lago) e Dona Maria (Elisa Lucinda)

Em “Era Uma Vez…” ao passo que a questão política aparentemente se apresente como burguesia vs proletariado, toda a violência do filme é praticada quase unicamente no ambiente da favela, seja ela realizada por policiais ou traficantes. Mesmo a violência moral sofrida por Dé por parte do pai de Nina, logo depois é posta de lado, com um discurso humanizado do pai que apenas quer proteger sua filha e não vê mal nenhum em um genro pobre. A questão central (pobres x ricos) entre o Romeu e a Julieta de “Era Uma Vez…” não responsabiliza a violência sistemática à existência de uma classe dominante, apenas a usa como argumento para a separação dos protagonistas. O final praticamente justifica todo o discurso elitista e classista do pai de Nina, botando o irmão de Dé como sequestrador da cunhada. É uma crítica não-feita.

“Maré, Nossa História de Amor” faz críticas muito mais simbólicas do que diretas, mas com um refino artístico fortíssimo. É incrível como mesmo em um filme que retrata o ódio, a favela não precisou ser ilustrada como um ambiente feio, hostil e perigoso, mas como um espaço de potências, pluralidades e muitas cores. Certamente o apelo visual da estética do musical tem um impacto grande nesse sentido, mas as propostas narrativas também buscam fugir de estereótipos óbvios, trazendo nuances importantes para a construção dos personagens. 

“Romeu e Julieta da Cultura Hip Hop” – cena de “Maré, Nossa História de Amor”

A tragédia de Shakespeare fala sobre um amor interrompido que não pôde ser por conta da violência produzida dentro de um cenário de guerra. Dessa maneira, ilustra a morte como última instância de resistência em nome do direito de amar. Romeu e Julieta nos deixa a simbologia de que o amor não consegue florescer em um solo de ódio.

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