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Liberdade, sociedade e experiência.

Em uma frase inspirada, Sartre disse que somos condenados a ser livres. No mundo contemporâneo, nos afastamos dessa “prisão” projetando nossas sensações e sentimentos nas coisas.

Ser livre é responder por si, em mais uma das milhares de definições sobre liberdade que existem. Nossos sentimentos e emoções são fruto dessa necessária liberdade. É ela que deve sempre nos moldar, torneando com precisão nosso eu. Quando coletivizamos ou indefinimos essas sensações, generalizamos uma realidade que como tudo no universo é relativo, ou seja pode mudar, pode construir-se diferente.

Caminhando pelos parques e ruas de Amsterdã, percebi o que descrevi acima. O medo e a desconfiança trazidas na bagagem de mão do Brasil, e passadas incólumes pelo raio-x da alfândega europeia ocuparam minhas primeiras impressões na cidade. Lugares ermos que tarde da noite no nosso querido e reclamado Rio de Janeiro são motivadores de medo e apreensão são usados para se estar e passar a qualquer hora do dia ou da noite e em segurança.

A entrega da responsabilidade da percepção individual para um “saber” coletivo é que produz essa discrepância existencial.

Nesse primeiro contato temi instantaneamente sobre meu bem estar ao me deparar com uma rua deserta e com muitas árvores, onde a claridade não mostrava muito a cara, caminhei apreensivo por uma calçada escolhida pela proximidade. Tão logo à frente eu vejo duas meninas de mais ou menos dez anos, passeando nessa rua com seu cachorro. Aquilo me desconcertou. A construção da ideia de coletivo de um lugar pode tomar as emoções e as conduzir para um outro lugar, que nada tem a ver com o lugar conhecido.

A entrega da responsabilidade da percepção individual para um “saber” coletivo é que produz essa discrepância existencial. Quando a percepção da liberdade como algo intrínseco ao ato de ser, de existir for regulada para conduzir nossa conduta, identificando “em tempo real” as sensações e sentimentos que sentimos (perdoem a redundância).

Como regulá-la? Exercitando-a. E é isso que a população de Amsterdã parece fazer. Em todo o momento, cada um cuida de si. Ninguém está prestando a atenção na vida do outro. O que o latino entende talvez como frieza. A sensação que dá é de que se pode sair de casa pintado todo de verde, dos pés a cabeça, que ninguém vai ficar apontando e dizendo: “olha ali o cara pintado todo de verde!”  Por  outro lado,  ao menor sinal de interpelação, eles são solícitos, simpáticos e falam inglês fluente e de fácil entendimento.

A liberdade se mostra coletivamente também no respeito à diferença e vontade do outro e do espaço múltiplo que cada um ocupa. Não é preciso dizer que isso começa na educação básica.

É um prato cheio para quem estuda ou gosta de entender de pessoas e sociedade. Para um existencialista é a certeza de que, como organismo coletivo, podemos maturar o respeito ao próximo e a prática da ética e assim caminharmos para um convívio bem mais aprazível.

Choro: mais underground que o underground

Um pequeno teste de conhecimento sobre o Choro: sabe dizer quem foi Joaquim Callado? Não? E Ernesto Nazareth, também não? Hmm, quem sabe Jacob do Bandolim, conhece? Tá bom, mais fácil impossível: Pixinguinha, já ouviu falar?

 Sabe dizer o nome de alguma música dele, ou pelo menos cantarolar um trecho?

Se você não foi bem nesse teste, não se preocupe você é mais um que, como a maioria de nossa população, sabe apenas que Choro é um gênero musical nascido aqui, e mais nada. Um monte de gente sabe um bocado de coisa sobre o cenário da música eletrônica na Europa, a nova bandinha de rock alternativo que surgiu na Escócia, as novas tendências do pop japonês, ou o mais recente álbum de uma banda escandinava de metal. Mas sobre o Choro… nada! É por isso que digo: o Choro é mais underground que o underground. É mais fácil saber sobre a música produzida muito longe daqui, por caras que vivem outra realidade, falam outra língua e respiram outros ares, do que aquela produzida por gente como a gente, que fala português, come arroz com feijão, não sabe o que é neve, e gosta (ou não…) de futebol.

Passados quase dois séculos desde o controverso grito de “independência ou morte”, nossa mentalidade ainda bastante colonizada continua tendo por hábito achar que o melhor é aquilo produzido fora daqui, pelas metrópoles do momento. Enquanto isso, a música genuinamente brasileira (Choro, Samba, Bossa-Nova, Baião, Xote, Frevo, Maracatu, e tantos outros gêneros) continua negligenciada pela grande mídia, quase sempre sendo diminuída de seu real valor, aquilatada a partir de parâmetros euro-americanos; quando muito, é colocada na estante sob o pomposo título de “patrimônio cultural brasileiro”, o que nem de longe significa que esteja mais presente nos i-pods, rádios FM e bancas de CDs pirata da Uruguaiana; fica lá na estante empoeirando, em vez de nos ouvidos, na boca e no coração do povo que a criou.

Com o pretensioso (mas sincero) objetivo de diminuir o desconhecimento geral sobre a música que mais gosto e mais toco, venho compartilhar com vocês um pouco do que aprendi sobre o Choro ao longo dos anos que tenho como músico. Pra começar, vamos assistir um vídeo:

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“Carinhoso” eu tenho certeza que você conhece; sem dúvida é o Choro mais conhecido, e uma das canções mais gravadas de nossa história. Foi composto em 1917 por Pixinguinha (1897-1972), flautista, saxofonista, e o nome mais importante do Choro e da música popular brasileira. E antes que alguém ache que estou exagerando, saiba que esta opinião é compartilhada por vários pesquisadores, musicólogos, e por uns tais Tom Jobim e Villa-Lobos. Inicialmente o Carinhoso não tinha letra, e suas primeiras gravações foram instrumentais. Somente 20 anos depois, em 1937, é que recebeu os versos imortais de Braguinha, o quê com certeza ajudou a popularizar ainda mais a música.

Quando Carinhoso surgiu, o Choro já era um tipo de música com mais ou menos cinqüenta anos de existência. Como não foi um movimento artístico (como o Modernismo ou a Tropicália), e sim uma manifestação espontânea de uma nova classe social que se formava, é difícil definir uma data exata para o seu surgimento, mas é certo que começa a se desenvolver a partir da segunda metade do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Inicialmente o Choro era apenas uma maneira abrasileirada de tocar música européia, uma forma de interpretação.

Quando em 1808 Dom João e toda a corte portuguesa desembarcaram por aqui fugindo da invasão das tropas de Napoleão em Portugal, inicia-se no Rio de Janeiro a construção de  toda uma infra-estrutura de bancos, repartições públicas e estradas-de-ferro para atender às demandas dessa realeza, e com isso nasce uma nova classe média formada por mestiços que trabalhavam nessas repartições. Naquela época a elite carioca consumia em larga escala a música produzida na Europa, a metrópole do momento (e acho que não mudou muito desde então…); eram gêneros como a Polca, a Valsa, a Mazurca, o Schottish (pronunciado “Xótis”), entre outros. Impossibilitados de freqüentar os bailes e os saraus da alta sociedade, onde se tocava, se dançava e se ouvia essas músicas estrangeiras, os cidadãos da classe média passaram a tocá-las por conta própria, da maneira que sabiam e com os instrumentos à que tinham acesso: flauta, violão e cavaquinho. Dessa forma, animando festas e bailes populares, tirando a Polca dos salões aristocráticos e trazendo-a para as ruas, cortiços e quintais, aqueles músicos amadores acabaram dando um tempero afro-brasileiro à música européia. Daí nasce o Choro.

Inicialmente o Choro era apenas uma maneira abrasileirada de tocar música européia, uma forma de interpretação. Somente ao longo das décadas é que vai tomando feições próprias, se distanciando do modelo original estrangeiro e se tornando um gênero musical nosso de fato. Pixinguinha pode ser considerado um marco nesse processo de amadurecimento: suas composições, interpretações e arranjos elevaram o Choro e toda música brasileira a outro patamar de qualidade e originalidade.

Pixinguinha, maior nome do Choro.

Durante esse século e meio de história, o Choro desenvolveu algumas características que podem ser consideradas típicas: a maioria das músicas não tem letra, sendo apenas instrumental, com melodias  bastante movimentadas e marcantes; a formação instrumental básica dos grupos é de cavaquinho, violão, violão de 7 cordas, pandeiro e mais um instrumento solista, geralmente flauta ou bandolim; o violão de 7 cordas tem como função realizar frases na região grave, em contraponto ao instrumento solista, frases essas conhecidas como “baixarias”; é um gênero muito aberto à improvisação e de difícil execução, que exige alto grau técnico dos músicos. Obviamente essas características não são regras, e não é difícil encontrar Choros com letra, ou grupos que fogem da formação típica; da mesma forma, são inúmeros os instrumentos usados como solistas: além da flauta e bandolim, há gravações com solos de clarinete, saxofone, trombone, trompete, piano, cavaquinho, violão, entre outros.

(…) o Choro sobreviveu, e mais que isso, manteve-se em desenvolvimento contínuo.

Também é importante desfazer algumas idéias erradas e mitos que acabaram se ligando à esse gênero musical. Em primeiro lugar, o Choro não é um tipo de “Samba instrumental”: o Choro é bastante diferente do Samba, apesar das muitas afinidades entre eles; o Samba é uma música predominantemente vocal (com letras) e percussiva, muito rítmica, enquanto que o Choro tem o foco na melodia, com uma percussão bem mais leve. Menos ainda o Choro pode ser considerado como uma versão brasileira da música Jazz dos Estados Unidos; o Choro é mais antigo que o Jazz e traçou trajetória totalmente diversa deste; além disso, ao contrário do que muitos pensam, não há influência generalizada do Jazz no Choro: a influência, quando existe, é apenas pontual, aparecendo na obra de alguns músicos como Garoto, Paulo Moura e Severino Araújo.

E se engana redondamente quem acha que o Choro é um “som da antiga”, algo que se estagnou, se cristalizou, e virou uma peça de museu, muito valiosa mas que ninguém pode mexer. Apesar de ter vivido fases em que sofreu preconceito descarado da grande mídia, e foi jogado pra escanteio em favor de modismos e ondas promovidas pela indústria fonográfica, o Choro sobreviveu, e mais que isso, manteve-se em desenvolvimento contínuo. Felizmente, vivemos hoje uma das fases mais efervescentes e promissoras do gênero, muito por conta do trabalho do violonista Maurício Carrilho e da cavaquinista Luciana Rabello, que no ano 2000 fundaram uma gravadora especializada, a Acari Records, e juntamente com outros craques têm estado à frente da Escola Portátil de Música, um projeto de educação musical através da linguagem do Choro, que atrai cada vez mais alunos, muitos deles jovens, gente entre 15 e 25 anos. O cenário têm se consolidado na última década, e no Rio de Janeiro já são famosas algumas rodas de Choro, como a da Praça São Salvador, em Laranjeiras, além dos ensaios ao ar livre do Bandão da Escola Portátil, na Urca. Já despontam jovens instrumentistas que, se não tem no Choro sua principal vertente, demonstram claramente que beberam da fonte de Pixinguinha e companhia; isso sem falar dos já consagrados violonistas Yamandú Costa e Rogério Caetano, e dos bandolinistas Hamilton de Holanda e Danilo Brito, todos da nova geração, todos virtuoses, e determinantemente influenciados pelo Choro. Acredito que mais e melhores frutos ainda estão por vir; aguarde e confie!

As centenas de músicos que integram o Bandão da Escola Portátil.

Além do “Carinhoso”, de Pixinguinha, há outros Choros que são bem famosos e que quase todo mundo já ouviu ao menos uma vez: “Brasileirinho” de Waldir Azevedo, “Tico-tico no fubá” de Zequinha de Abreu, “Odeon” de Ernesto Nazareth, “Noites cariocas” de Jacob do Bandolim. Isso sem falar de outros menos famosos mas não menos geniais; o repertório é vastíssimo. Ficou curioso? Vai no Google, no You Tube, cate uns vídeos. Só não coloco tudo aqui pra não engordar demais o artigo. Outros Choros que você talvez já conheça: “Meu caro amigo” de Chico Buarque, “Sampa” de Caetano Veloso, “De mais ninguém” de Marisa Monte. Como se pode perceber, é uma linguagem que permeia toda a música brasileira.
E só pra não deixar o caro leitor muito curioso, eis a resposta do teste do início do artigo: Joaquim Callado (1848-1880), foi o maior flautista de sua época e um dos primeiros músicos de Choro, sendo conhecido como “o pai dos chorões”; Ernesto Nazareth (1863-1934) era pianista e é um dos mais importantes compositores de Choro; Jacob do Bandolim (1918-1969) era bandolinista (não diga!?…) e também importante compositor de Choro, talvez só perdendo em importância para Pixinguinha, que a essa altura você já sabe bem quem é!

O “incrível” Huck

Desde sua criação, dada as diversas tecnologias de instalação e transmissão, a TV a cabo, ou TV por assinatura, vem ganhando mercado e aceitação. Seus canais especializados e exclusivos conquistaram espaço obrigatório no velho altar da classe média, o centro da sala, local compartilhado durante os cultos do horário nobre. Com o crescimento econômico, milhares de pessoas ávidas pelos bens de consumo recentemente acessíveis, refestelam-se com a variada oferta de eventos. De esportes a viagens, passando por animais e natureza, vida doméstica de famosos e desfiles de moda, aos canais de notícias em idiomas exóticos, filmes europeus e asiáticos, até canais infantis, de lutas e de perseguições reais – a lista cresce periodicamente. O trabalhador, com poder de compra recém-adquirido, confunde-se com tantas alternativas de diversão e opções disponíveis.

Seria ótimo para todos, não fosse a conseqüência resultante deste estímulo. Uma vez que as grandes redes nacionais e internacionais concentram as produções mais esmeradas em seus canais por assinatura, a migração dos bons programas gera um desequilíbrio com a já escassa programação educativa e/ou “de qualidade”. De um lado, pouquíssimos canais velhos conhecidos e subsidiados por verbas locais ou federais emendam reprises atrás de reprises e batalham com documentários e produções independentes; de outro, nossas antenas recepcionam em alta definição os piores produtos desenvolvidos pelos gênios do entretenimento. Há então um efeito nocivo, contrapeso nesta balança desigual: o nivelamento por baixo, onde, na moenda da busca por audiência, o reino universal de pastores estridentes e a baixaria instituída em programas de auditório, são macerados junto de reality shows estrelados por subcelebridades (atuantes ou futuras), crianças cantoras e famosos dançantes, que, sem muito esforço, soterram a paciência do espectador. O que nos traz ao foco deste texto, o personagem que chamo de “apresentador-onipresente”. Filão aberto pelo folclórico Silvio Santos, o modelo, obviamente, foi copiado de programas estrangeiros. A bem sucedida mistura de exploração da miséria, apresentações musicais, humor pastelão, forte tino comercial, e extenuante duração de presença on air, fez escola. São vários os exemplos: desde seu discípulo melhor sucedido Gugu Liberato, a Fausto Silva e seu tirânico domínio dos domingos, aos menos expressivos como Raul Gil, Ratinho, e o póstumo Bolinha; caberia ainda neste elenco o célebre Abelardo Barbosa, o Chacrinha, mas seu pioneirismo e significante importância  para o audiovisual, o isentam; ademais, seu programa tinha como foco principal os musicais e o concurso de calouros, que junto das chacretes e de sua figura espalhafatosa, compunham  um tipo de cabaré televisionado. Nessa sala de aula mais técnica, o atual melhor aluno é o ambicioso Luciano Huck. Refiro-me a este cidadão com certa dose de respeito, afinal, seu talento é inegável, e é sem dúvida dos mais ardilosos que tenho conhecimento. Seu esquema cuidadoso no cultivo de sua auto-imagem, e o modo voraz como conduz seus projetos, dão fundamento aos meus preconceitos benéficos.

Luciano, que desde o berço voa em grandes altitudes, olha de cima, deseja as grandes glórias, as altas cifras e, vez em quando, publica notas indignado com o roubo de um de seus caros relógios.

Luciano pertence à elite judaico-paulistana, ou como disse meu amigo Pedro Albuquerque, ao “Jet Set nacional”. Filho de importante jurista e de uma conhecida arquiteta, nosso apresentador possui amigos poderosos, muitos deles parceiros e patrocinadores de seu programa. Contrariando os desejos de seu pai, o moço desistiu do curso de direito pelo de comunicação. Graduado, com certos empurrõezinhos da família trabalhou aqui e acolá, em locais como as rádios 89 rádio rock e Jovem Pan, e estagiou com nomes como Nizan Guanaes e Washington Olivetto. Após tanto trabalho duro, bem mais tarde, aos 23 anos, depois de breve passagem pelo jornalismo, conseguiu cavar espaço na televisão no comando de um quadro no programa de Otávio Mesquita. Tudo por seu mérito, claro. De forma impressionante, entre essas ocupações e os empreendimentos em sociedade com seus amigos da pelada no Hebraica, ainda encontrou tempo para iniciar uma relação duradoura com a TV. Na Band, apresentava o Programa H que, entre outros méritos, depilou adolescentes ao vivo e apresentou ao Brasil personalidades do quilate de Tiazinha e Feiticeira. Esperto, já percebia através de seu faro aguçado, que seu real potencial encontrava-se para além dos programas juvenis de cunho sexual-apelativo. Desistiu da cera quente ao vivo e foi aos poucos lapidando seu estilo. Com um círculo de relacionamentos bem amarrado, colocou-se no centro de uma rede maçônica de favorecimentos, e junto de sua família respeitada, formada por angelicais filhotes e esposa, foi construindo sua imagem de bom rapaz. Afinal, seu programa ajuda a muita gente. Ou vive de sustentar esta falácia. Ser bem-sucedido não é motivo de vergonha, a não ser no Brasil, este paisinho de invejosos e ressentidos. Diferentemente de Diogo Mainardi, bad playboy assumido, nosso narigudo das tardes de sábado veste os andrajos da filantropia. Espécie mista de caridade franciscana com oportunismo sionista, tudo o que nosso Midas toca, transforma-se em ouro. Sua ambição parece não ter fim. Na trilha de sua estratégia de marketing, faz negócios milionários e conquista cada vez maior audiência. Um olhar mais atento aos quadros de seu programa revela-nos um ego inflacionado. Procura disfarçar, diligentemente, a satisfação de ver os contemplados com suas premiações derramarem-se em chorosos agradecimentos e bênçãos e beijos. Perversão que leva, por exemplo, uma criança de cinco anos, por jamais ter visto a geladeira de sua – agora nova – casa tão cheia, a chorar copiosamente em rede nacional. Diante da opressora visão da linha completa de congelados Sadia, o menino não resistiu e caiu soluçando agarrado as pernas do responsável por tudo aquilo, o apresentador-messias, estrategicamente posicionado entre seus pais. Que a empresa citada tenha pagado por tudo isso (pela imagem assistencialista, pelo horário de merchandising, pela humilhação desnecessária do menor) não é conveniente se pensar sobre. Não vem ao caso.

Cores berrantes, projetos e paisagismos assinados,  conferem status diferenciado aos felizardos, que recebem um distintivo social

Não houve antes tão premeditada e bem arranjada manipulação em programas similares; programas antes de tudo, descompromissados com a qualidade de conteúdo, historicamente mais ocupados em ser um divertimento alienante, de fácil digestão. Nem mesmo os vexatórios aviõezinhos de Silvio, possuidores de certa honestidade, uma vez que as caravanas de donas-de-casa, alertadas em encontros prévios, estavam preparadas e instruídas sobre o que enfrentariam no auditório. O fator surpresa e a eficiente edição do quadro, no caso do menino, são os fatores que o tornam mais cruel, implacável, sem chance de defesa para seus retratados.  Huck é antes de tudo, mais sofisticado. Nada de panelas, potes de plástico ou perfumes duvidosos; a classe C, deslumbrada, vê estacionar em suas portas caminhões repletos de móveis de design de grandes redes. As casas e os carros reformados são símbolos da generosidade de seus benfeitores, materializados e concentrados na figura do apresentador, que tudo vê, tudo ouve e tudo faz, divindade digna de receber as oferendas e os louros. Cores berrantes, projetos e paisagismos assinados,  conferem status diferenciado aos felizardos, que recebem um distintivo social – seja na forma de placas penduradas em suas varandas, customizações, ou em prestígio e sentimento de exclusividade na vizinhança – a ser ostentado orgulhosamente pelo bairro ou conduzido pelas ruas da cidade, dando continuidade ao contrato com seus financiadores. Nada disso é grátis. Ainda que o custo seja pago pelos anunciantes, a indústria do ridículo, bufante, exige que os sorteados, para realmente serem considerados merecedores de suas recompensas, sejam obrigados a pagar prendas em troca. Em exibição nacional, macaqueiam cantores, exibem suas mazelas e feridas, reafirmam padrões excludentes e desenvolvem habilidades inúteis para vencer provas inúteis, com o objetivo maior de entreter seus pares: nós. Chega a nos fazer sentir saudades do apelo caricato, kitsch, proposital, de séries mexicanas mal dubladas, marca característica de seu predecessor. Sílvio não construiu seu império sendo ingênuo, obviamente, como todos os homens ricos, tomou atitudes que enojariam os estômagos mais sensíveis; seguiu com ganância, mas o fez de forma mais complacente, com certa dose de empatia, em voos rasantes de observação, talvez por ser oriundo de camadas mais próximas das de seu público. Na outra extremidade, Luciano, que desde o berço voa em grandes altitudes, olha de cima, deseja as grandes glórias, as altas cifras e, vez em quando, publica notas indignado com o roubo de um de seus caros relógios. Dado suas relações políticas, não me surpreenderia em nada uma futura candidatura a algum cargo público. Travestido de ação social, segue seu plano, passo a passo, lenta e gradualmente, rumo a sabe-se lá que objetivos. Insatisfeito, deseja sempre mais. Nos corredores das emissoras, os rumores de sua pretensão em adquirir uma rede de televisão ganham força. Segundo o que dizem, Luciano considera a grama do vizinho sempre mais verde. A nós, exilados de melhor programação, flutuando sem a segurança dos cabos, resta-nos aguardar os próximos a serem cozidos nos movimentos do caldeirão.

Se você ama os livros

Quem passa pelo canal Prinsessegracht, estes dias em Haia, na Holanda, pode se assombrar com uma cascata de livros jorrando de uma janela aparentemente de um edifício qualquer – quando se chega perto é que o Museu Meermanno se revela ao lado daquele. É o museu dedicado a tudo que inclui design gráfico.

E a cascata é um site-specific que a espanhola Alicia Martin criou especialmente para a Bienal do Papel, em cartaz em Rijswijk e Haia, até 25 de outubro de 2012. A obra ficou pronta na semana passada para a “Noite dos Museus”. Nesse dia paga-se uma entrada só para  peregrinar de museu em museu, galerias etc até a meia noite. Leia mais!

Preppers de todo o mundo, levantai-vos!

Na urgência de sobreviver a crises econômicas, de energia, ao desemprego e ao aquecimento global, surgem pequenas e grandes revoluções mundo afora. Antes de adentrarmos em profecias apocalípticas pós-2012, vamos fazer um apanhado das diferentes posturas que existem por aí – das mais acessíveis (que podem fazer a sua vida mais criativa e mais barata) até as mais radicais, como por exemplo a dos “preppers” (“aqueles que estão se preparando” para um futuro sinistro; o termo vem do verbo preparar-se em  inglês, to prepare); grupo este que inspira um misto de fascínio e horror.

Um prepper exibe seu estoque de alimentos e itens de sobrevivência. Preparando-se para o Armagedom. Fonte: PressTV

Na ânsia por um futuro sustentável, há vários níveis de consciência. Socialistas, egoístas, paranóicos e realistas. Não dá pra botar todo mundo no mesmo saco – nem mesmo os preppers em si. São inúmeros os exemplos pelo planeta. O povo que sonha em abolir o automóvel (e eu me incluo aqui, buscando só andar de transporte público, bicicleta, canoa, teleférico…), as pessoas que evitam os produtos de proveniências muito distantes (preocupados com o impacto do comércio global sobre o planeta e sobre as economias locais) ou os que evitam os derivados animais, os vegans (acreditando que os animais merecem mais diginidade do que o senso comum acredita); existem também os grupos que estão buscando práticas e economias locais, criando moedas paralelas, em comunidades alternativas, vilas ecológicas etc. Sim, grupos que localmente escapam da moeda oficial do país para usarem suas próprias cédulas, numa correção de valores que preza o trabalho individual e não o consumo ou exploração do trabalho alheio (por exemplo, no wikipedia há uma página listando estas comunidades só nos EUA). E a primeira eco-vila que se tem notícia fica na Escócia, a Findhorn, criada nos anos 80.

Findhorn, Escócia, considerada a primeira eco-vila no mundo. Fonte: Findhorn.org

E como não poderia deixar de ser, é na economia (ainda hoje) mais poderosa do mundo, os Estados Unidos, que se encontram vários exemplos de todas estas tendências. Inovadores ou inacreditáveis, os preppers estão se preparando para o pior. Mudando-se para vizinhanças mais isoladas, eles tentam viver off the grid (fora do sistema), incomodando as as grandes corporações e autoridades federais. Estocam comida, primeiros socorros e animais para abate, praticam tiro ao alvo e sabe-se lá mais o que. Vários sites e documentários tratam sobre o tema (a maioria deles só em inglês). Um programa da National Geographic mostra como alguns americanos estão treinando a si e a seus filhos a defenderem suas casas e sua comida dos vizinhos (este capítulo é simplesmente as-sus-ta-dor).

“Doomsday preppers” pela Nat Geo

Até hoje, o que me identifiquei mais foi com as iniciativas das moedas locais, encontradas em diversos países do mundo. Aqui em Haia eu participo do Time/Bank (ou Banco do Tempo), um sistema de troca de favores e bens, baseado no tempo para realiza-lo. Ou seja, uma hora do meu tempo escrevendo, pode ser paga por alguém que deu uma hora de ioga, por exemplo, que por sua vez foi pago por outro que fez uma hora de tradução e por aí vai. O que parece estranho à primeira vista, se justifica na boa fé em equiparar diferentes trabalhos, porque no fundo somos todos iguais e queremos comer e habitar como qualquer um. Claro, conseguir fazer aquelas compras do mês com estas cédulas ainda está longe de se tornar realidade. Mas em vários eventos já realizados pela comunidade do Time/Bank a gente podia trocar: uma cédula de meia hora por um prato de comida! O importante é que estas ideias estão sendo implementadas e testadas em vários pontos do mundo. Contornando a dependência do dinheiro, seja o euro, o dólar, o real, buscam-se soluções locais a crises globais.

Cédulas do Time/Bank, válidas em várias cidades na Europa

Na minha última estada no Rio, recentemente, vi uma pequena tendência, anônima, até mesmo irrisória, de alguns indivíduos que só se locomovem de bicicleta. Um amigo arquiteto, um outro designer/DJ e outro dono de um pequeno restaurante. Pessoas que nem se conhecem, e muitas vezes estão em sintonia, fazendo suas pequenas revoluções, sem qualquer bandeira. Na substituição da gasolina pelas calorias – especialmente se pensarmos na insanidade que é o trânsito carioca – eles estão ganham tempo e ainda ficando em forma. Eu fiquei comovida em ouvir suas histórias, de como cruzam da zona sul à Tijuca, em condições adversas e sempre arriscadas, quase que todos os dias – eles já são sobreviventes! Sim, existe muita gente batalhando pra isso no Brasil. Mas sabemos que a luta pelo ciclismo no país caminha mal e lentamente, existe muita ignorância, preguiça e resistência em relação à criação de ciclovias, ao reconhecimento da bicicleta como um verdadeiro meio de transporte e não só de lazer. A instalação das bicicletas compartilhadas no Rio demonstrou uma enorme demanda de um público carente de ciclovias. Alguns podem argumentar também que as temperaturas e distâncias cariocas são as vezes muito maiores do que a referência holandesa por exemplo. Mas quem experimenta a praticidade de pedalar para ir ao trabalho ou pra estudar, não quer outra vida. Liberdade não se compra, se descobre, se inventa!

As bicicletas laranjas no Rio, que não são operadas pelo banco que nelas anuncia! Fonte: blog bike-sharing

Ok, vivendo na Holanda há três anos, eu me tornei mais consciente da demanda de energia a que o homem chegou, da insanidade do comércio global, do insustentável padrão de consumo vigente. Às vezes eu me vejo virando uma prepper também (já comecei a plantar tomates, cebola e várias ervas aqui em casa!). Mas paranóias a parte, não fique esperando o futuro, invente-o! Reflita sobre de onde vem a sua comida, os objetos a sua volta ou a roupa que você está vestindo e imagine quanto trabalho foi aplicado para produzi-los (pois é, os chineses estão aí!). Esta é uma longa discussão.

E fique alerta com os preppers! Leia mais: What is a prepper.

Homenagem aos Beatles – Mattias Adolfsson

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O artista sueco Mattias Adolfsson, fez um poster em homenagem aos Beatles. Com seu estilo bem característico, ele retratou diversas músicas da banda em seu cartaz. Veja quantas vocês conseguem achar!
Mattias Adolfsson, é um artista Sueco que vive na cidade de Estocolmo com sua família. Formado em Design Gráfico e Mestre em Fin Arts pela HDK Escola de Artes e Ofícios de Gothenburg, trabalho como artista 3D, animador,  ilustrador para games e outros. A partir de 2006 começou a dar ênfase a seus sketchbooks, e vem se firmando através de seus trabalhos ao longo dos anos.

Seus trabalhos impressionam pelos detalhes, pelo traço simples e pela escolha da paleta de cores, e já ilustraram diversas revistas, e ele disponibiliza um review de seus sketchbooks em vídeo no seu canal do Youtube.

A História do Lego: 80 Anos

Vocês lembram do Lego? Este ano a Lego Group, uma das fábricas de brinquedos mais famosas do mundo, completa 80 anos. E como parte da ação de comemoração, eles lançaram um curta metragem em animação, contando toda a história da empresa que desde a década de 30, vem fazendo a alegria da criançada. E de muito marmanjo também!

17 minutos bem gastos de pura nostalgia!!

Desenho de patente da do bloco de lego.

No site tem uma timeline onde da pra conferir a história da fábrica com fotos e resumos a cada década.

O Turning Point

Em certos momentos, a vida parece nos colocar numa curva inesperada e sem sinalização prévia, na qual, ao percebê-la, temos o tempo mínimo de apenas tentar controlar a relação velocidade/direção/derrapagem para tentar manter o carro dentro dos limites da pista. Esses momentos geram uma descarga de adrenalina forte, nos acordam, nos deixam atentos.

Gosto muito da espressão Turning Point (algo como ponto de mudança ou na tradução do livro/filme, o espetacular “ponto de mutação” do Fritjof Kapra). E, assim como na natureza, em nossas vidas, temos pontos em que devemos e podemos mudar algo que não está direito, algo que queremos mudar e até então não conseguíamos. O Turning Point ocorre quando chegamos ao limite, a fronteira, quando a situação se torna insustentável ou acaba por si só.

Claro que não deveríamos deixar chegar até esse momento. Mas, nossa existência é um jogo de vetores de força, onde resultamos em direções e percepções que são embaçadas por estarmos atuando no nosso próprio filme. É muito difícil enxergar “em terceira pessoa” nossa própria história enquanto estamos vivendo-a.

O Turning Point é o despertar, é o estalo para que uma nova realidade ocorra. Nutre-se da constatação da realidade, da necessidade urgente da mudança e da motivação da sensação de estar “ajeitando as coisas”, começando uma nova fase…

Não devemos entanto, viver no “vício da tentativa”, ficar achando sempre que “agora a coisa vai!” esse comportamento só faz andar em círculos. Para dar certo, concentre, medite sobre o momento atual, arrume suas coisas, faxine seu armário, gavetas, jogue fora tudo q não é necessário. Organize-se, planeje os passos para descolar sua iniciativa da preguiça e realmente iniciar um processo de realização pessoal e felicidade.

Mude! Mute! Gire! Mesmo que esse não seja seu jeito de fazer as coisas, faça as coisas desse jeito.

RIP – Celso Blues Boy

Hoje faleceu em Joinville – SC, Celso Ricardo Furtado de Carvalho (mais popularmente conhecido como Celso Blues Boy).

Celso foi um guitarrista, cantor e compositor, que tocou com Raul Seixas na década de 70, e foi o primeiro músico a cantar Blues em português.  Ficou conhecido a partir de 1980 quando enviou uma fita para a extinta Rádio Fluminense (a Maldita!) com um repertório voltado para o Rock, e em 1986 gravou o seu primeiro álbum, que contava com sua música de maior sucesso: “Aumenta Que Isso Ai é Rock n’ Roll”.

Uma curiosidade é que seu nome foi uma homenagem e B.B. King, com quem teve a oportunidade tocar uma música durante um show dele em 1986 no Rio de Janeiro e posteriormente gravaram uma música e um clipe juntos (Mississipi).

Outro fato curioso foi a vez em que Celso solou o Hino do Vasco (seu time de coração), em comemoração aos 113 anos do Clube.

Celso lutava contra um câncer de garganta, e faleceu em sua casa em Joinville – SC.

Descanse em paz grande mestre!

Música: talento ou dedicação?

“Sempre gostei de música e tenho vontade de aprender a tocar violão, mas acho que não tenho o dom…”

Por várias vezes ouvi essa frase. Há muitas pessoas que deixam de se dedicar ao aprendizado de um instrumento musical porque acreditam que não possuem o dom, talento, facilidade, predisposição e tantas outras denominações que sustentam a mesma ideia: a de que a habilidade de fazer música é uma dádiva concedida alguns poucos eleitos, alguns poucos que já nasceram com algo mais que os diferencia dos reles mortais.

Seria essa ideia verdadeira? Afinal de contas, a música é somente uma questão de talento?

É preciso desmistificar o aprendizado musical. Fico estarrecido ao perceber que tantas pessoas deixam de desfrutar do prazer de tocar um instrumento por acreditarem que não têm talento; e mais estarrecido ainda quando vejo que muitas dessas pessoas não almejam a música como carreira profissional, mas apenas como diversão, pra fazer uma banda de fim-de-semana com amigos, tocar na igreja, ou simplesmente ficar no quarto relaxando, cantando e tocando suas músicas preferidas.

Para mim, mais que uma profissão, a música é uma atividade espiritual…

Nunca ouvi alguém dizer: “Gosto de andar de carro, queria aprender a dirigir, mas acho que não tenho talento”. Dirigir, assim como tocar um instrumento, requer coordenação motora, atenção, reflexo; mas ninguém se acha incapaz, as pessoas simplesmente entram numa auto-escola, praticam a direção, e saem por aí dirigindo. Porém (ái, porém), na hora de pegar um violãozinho e aprender a tocar uma música, começa a paranóia: “Não tenho talento!”… e olha que com o violão não se pode matar ninguém atropelado! Música, como dirigir, ou qualquer outra  atividade, é uma simples questão de prática.

Você conhece um pianista chamado Lang Lang? Ele é chinês, tocou na abertura dos jogos olímpicos de 2008 em Pequim, tem vinte e tantos anos e é um dos maiores nomes da música erudita da atualidade. Recentemente vi uma entrevista onde Lang Lang contava que quando tinha menos de 15 anos entrou num conservatório de música, e acabou sendo reprovado logos nos primeiros meses; sua professora lhe disse para desistir do piano, pois não tinha talento. Ainda bem que ele não acreditou, continuou praticando, começou a estudar com outro professor, e hoje é um dos maiores músicos do mundo. O quê o levou a essa posição? Seu talento não percebido pela professora, ou a dedicação que continuou tendo mesmo quando desencorajado a seguir o aprendizado?

Outro caso: Rafael Rabello, violonista brasileiro, precocemente falecido em 1995, com trinta e poucos anos, mas que na sua breve trajetória produziu o suficiente para se tornar um dos maiores violonista do Brasil (só não digo “o maior” pra não criar polêmica…) e do mundo. É conhecida (e verdadeira) a história de que Rafael, ainda adolescente, era tão fissurado no violão que, na impossibilidade de fazer aulas com seu maior ídolo, o violonista Dino 7 cordas, tirou de ouvido dezenas de gravações deste, dezenas literalmente, e era capaz de tocar de cór vários discos de Cartola, João Nogueira, e outros onde o acompanhamento de violão ficou por conta do Dino. Imaginem quantas horas, semanas, meses, o jovem Rafael passou no quarto, sentado com violão na mão, ao lado da vitrola, tirando e colocando a agulha no disco repetidamente, ouvindo várias vezes cada pequeno trecho até conseguir catar no instrumento as notas que ouvia na gravação.

E aí, talento ou dedicação?

Por outro lado, não posso ser hipócrita. No meu trabalho como professor, lidando diariamente com estudantes de violão, muitos dos quais nunca tiveram o mínimo contato com o instrumento, percebo que alguns alunos precisam se esforçar menos que outros para se desenvolver, ou – pra usar essa expressão bastante comum e que eu detesto – alguns “tem o dom”. Sim, isso existe; assim como uma pessoa precisa usar óculos e outra não, uma tem alergia e outra não, algumas pessoas têm mais facilidade do que outras para a música. Esse fato, no entanto, não é garantia de nada: no fim das contas, os alunos que se destacam não são aqueles que possuem essa facilidade, e sim aqueles que mais se dedicaram à prática do instrumento.

A dedicação acaba sendo mais importante que o talento, seja na música ou fora dela. Como torcedor de futebol e bom rubro-negro que sou (me desculpe se isso decepcionou alguém, galera da “elite”…), me sinto à vontade pra citar um exemplo de que talento sem dedicação não resolve: quem vê o Ronaldinho Gaúcho jogar percebe a imensa facilidade que ele tem pra dominar e conduzir a bola; parece que fica grudada no pé dele! Mas aí, a vida de farras e marias-chuteiras, incompatíveis com a disciplina exigida pela vida de atleta, esvaziou seu “dom” pro futebol, e suas últimas apresentações pelo Flamengo foram sofríveis, e toda sua passagem pelo clube um fiasco, com alguns bons momentos sim, mas muito abaixo da expectativa criada pelo seu flagrante talento, mesmo quando se leva em conta o fato de não apresentar o mesmo vigor físico de atletas mais jovens. Já o sérvio Petkovic, o querido Pet, em 2009, jogando em posição parecida e mais velho que Ronaldinho, foi muito mais valioso pro time, uma peça chave pra conquista do Brasileirão daquele ano. Claramente com menos talento que o Gaúcho, porém (ái, porém) muito mais dedicado.

Quando pego uma turma de iniciantes que nunca teve nenhum contato com o violão, estão começando o instrumento do zero, ao final da primeira aula, quando eles já aprenderam dois acordes simples e deram o primeiro passo, eu costumo dizer: “Pense no melhor violonista que você já viu” – e após uma pausa dramática, concluo – “Em algum dia da vida dele, esse violonista tocou menos do que você está tocando agora”. A gente nasce sabendo muito pouca coisa; até a andar a gente precisa aprender. Se existe uma diferença entre os grandes gênios da música (ou de qualquer área) e as outras pessoas, a diferença é que esses gênios dedicaram uma boa parte das suas vidas a estudar e praticar a arte em que acabaram por se destacar. Muito mais do que um “dom”, “talento” ou “facilidade”, conceitos altamente subjetivos e carregados de dogma e ingenuidade, fazer bem uma coisa requer esforço, trabalho, prática, ou pra resumir numa palavra, dedicação; e os mais dedicados sempre serão os que tem vocação, ou seja, os que são apaixonados, os que sentem uma atração magnética pela atividade em si, independente dos resultados ou recompensas.

Para mim, mais que uma profissão, a música é uma atividade espiritual, e com ela me conecto a mim mesmo e ao que eu chamo Deus (com a licença dos ateus, agnósticos, materialistas e argentinos). Acredito que essa conexão é uma capacidade que todas as pessoas possuem, contanto que estejam dispostas a desenvolvê-la. Portanto, se você pretende ser um grande nome da música, ou simplesmente deseja tocar numa banda com amigos, esqueça essa história de talento, apenas procure um bom professor e dedique-se. Como diria Ian Guest, nome fundamental na didática voltada para o ensino de música popular no Brasil: “Deitar a mão no instrumento impunemente e se arriscar é o começo de tudo… e a linha de chegada.”

Manifesto CG Sphere

O manifesto CG Sphere de computação gráfica busca criar imagens com uma cena pré definida. A proposta consiste em criar elementos, objetos, cenas com base em um arquivo de cena pré definido, e as regras limitam ao posicionamento da câmera e do objeto central (a esfera).

A esfera é um elemento caoticamente espalhado pela natureza (elementos atômicos, frutas, órgãos, etc), e versátil para o estudo da arte 3D, pois se comporta de formas bem diferentes quando trabalhadas com materiais reflexivos, transparentes entre outros.

A proposta do projeto é incentivar o estudo da ilustração e uso dos softwares  de uma forma divertida e diferente, utilizando a esfera para cativar o avanço do design da esfera técnica e criativa no 3D, e pessoas com qualquer nível de de habilidade e com expertise em qualquer software são incentivadas a participar.

Revista Arraia PajeúrBR nº4

Pois é, dormi e passei do ponto, mas a vida é um ônibus circular. Ontem rolou o lançamento nacional do livro e da revista Arraia PajéurBR em São Paulo e como estou sem internet, só descobri hoje pela manhã. Na revista você encontra diversos poemas e contos assinados por novos autores. Se você adquiriu o livro/revista, não se espante ao encontrar um conto assinado por Douglas Evangelista, leia e deixe suas impressões aqui nos comentários. O conto foi enviado faz um tempo para o portal de literatura  “Cronópios“. Boa leitura, espero que curtam.


PS: Se alguém conseguir uma máquina para voltar no tempo, entre em contato.