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Primo-Choro: guitarra com cavaco, violão e pandeiro

Um dos motivos que me fizeram ficar por quase dois anos sem escrever aqui no Trevous foi o fato de precisar de mais tempo para um trabalho muito importante, tanto no âmbito profissional como no pessoal: gravar meu primeiro álbum. Com avanço tecnológico que a gravação fonográfica conheceu de meados da década de 90 para cá e a facilidade que a internet proporciona na divulgação e distribuição de música, hoje podemos gravar um disco por custo relativamente baixo, eliminando a necessidade antes imperiosa de um contrato com uma gravadora para colocar a própria arte na praça. Então, em agosto de 2013 entrei no estúdio e comecei a gravar meu trabalho de forma totalmente independente, numa produção que durou três anos e onde me desdobrei como artista, músico, arranjador, arregimentador, diretor musical, assistente de mixagem, produtor musical, produtor executivo e investidor… Ufa! Foi um tempo de grande aprendizado e crescimento profissional, e depois de tanto esforço e trabalho, a sensação de ouvir gravados os sons que antes existiam apenas na minha imaginação é muitíssimo gratificante, dá vontade de gravar mais, mais e mais. Neste pequeno artigo compartilho com vocês um pouco desta jornada de nascimento do meu primeiro trabalho solo: Primo-Choro. Aperte o play e vamos nessa!

DAS IDEIAS PARA O ESTÚDIO

Olhe ao seu redor e veja todas as coisas criadas pelo ser humano. O prédio onde você está, a cadeira onde está sentado, o celular ou computador à sua frente, suas roupas, seus óculos, a lâmpada que te ilumina, etc., etc., etc. Tudo isso foi criado pelo gênio humano, e absolutamente tudo isso, um dia, não existia senão na imaginação de alguém. Este é o poder da criatividade, este é o poder da imaginação! Todos os objetos, instituições, filosofias, ciências e  religiões; dos cadarços dos seus sapatos até as pirâmides do Egito, das pinturas rupestres aos códigos de programação desta página, absolutamente tudo é fruto de nossa imaginação e tudo veio de lá. Já tinha parado pra pensar nisso? Com o perdão da rima, um álbum independente não é diferente: tudo começa com uma ideia. E, neste caso, termina num estúdio.

Era mais ou menos setembro de 2012 e eu acumulava composições de Choro desde 2005, todas na gaveta, e no ano anterior eu já havia experimentado a direção de alguns ensaios e gravações com um grupo do qual era integrante, me saindo muito bem na função, modéstia à parte. Daí veio o ímpeto de gravar minhas próprias composições e a construção de um conceito artístico que conduziria todo o trabalho: usar a guitarra como solista principal, instrumento menos comum no Choro, ao lado dos típicos cavaquinho, violão, pandeiro, bandolim, flauta, clarinete e trombone. E na sequencia do conceito vieram o planejamento e a pré-produção: elaboração do orçamento, arranjos, escolha dos músicos, escolha do estúdio, ensaios, ensaios, ensaios e mais ensaios… Como em quase todas as faixas gravei guitarra e violão de 7 cordas, meu trabalho como instrumentista foi dobrado!

Finalmente em agosto de 2013 fiz a primeira sessão de gravação no Estúdio Supernova, subúrbio do Rio. Foi a primeira de quase trinta sessões distribuídas ao longo de três anos. Na prática nem tudo funciona tão bem quanto no papel e as coisas obviamente não aconteceram perfeitamente de acordo com os planos: houveram gravações descartadas, gravações refeitas, troca de músicos e pausas inesperadas na produção, seja por falhas no planejamento, por falta de dinheiro, ou por ambos. Como eu disse, o trabalho foi totalmente independente e acumulei várias funções, no melhor estilo “faça-você-mesmo”, e esta sobrecarga foi complicada em alguns momentos. A produção chegou a ficar parada por mais de um ano por causa de arranjos que precisavam de finalização. É, meus amigos… Numa produção longa assim a lei de Murphy dá as caras todos os dias! Mas no fim das contas, com organização, boa vontade, perseverança, uma boa dose de jogo de cintura, o apoio dos grandes profissionais que trabalharam comigo e, sobretudo, a bênção dos meus Orixás e de São Pixinguinha, deu tudo certo. Em julho do ano passado Primo-Choro foi concluído, com dez músicas, sendo sete autorais (incluindo a faixa-título, o primeiro Choro que compus) e mais três clássicos que já faziam parte do meu repertório de estudo.

Alguns números da produção, para você ter ideia do que é gravar um álbum: as dez faixas produzidas totalizam 38 minutos e meio de música; foram mais de 150 horas de estúdio incluindo gravação, mixagem e masterização; média de 4 horas de estúdio para cada minuto de música finalizada; mais de 250 páginas de partituras e muitas horas gastas na edição das mesmas; além de mim, foram mais 12 profissionais envolvidos na produção, sendo 1o músicos, um técnico e uma fotógrafa.

Para conhecer melhor meu trabalho, além de dar o play na playlist ali em cima, você pode conhecer meus canais no SoundCloud e YouTube, além de curtir minha Página no Facebook. Lá você fica por dentro não apenas do meu trabalho solo, mas também da minha atuação como professor, meus cursos e oficinas, além de sempre fazer publicações de interesse geral relacionadas à música.

PRÊMIO PROFISSIONAIS DA MÚSICA 2017

Prêmio Profissionais da Música 2017

Enquanto finalizava este artigo recebi a ótima notícia de que sou um dos semifinalistas do Prêmio Profissionais da Música 2017, que premia os mais diversos profissionais e entidades envolvidas na produção e divulgação musical, desde técnicos até músicos, passando por rádios online e projetos educacionais. Estou concorrendo na modalidade “Criação”, categoria “Artista Choro”. Além da satisfação de ver um trabalho rendendo frutos, fica também a honra em participar de um prêmio onde concorrem vários artistas, grupos e iniciativas que admiro, como Hamilton de Holanda, Rogério Caetano, Déo Rian, Duo Gisbranco, Folakemi Quinteto e o programa Um Café Lá Em Casa, apresentado e produzido por Nelson Faria.

Até dia 19 de fevereiro a votação estará aberta ao público através da página do Prêmio Profissionais da Música. Se você conhece ou está conhecendo meu trabalho, conto com seu voto para me classificar para a grande final. Para participar não leva mais do que cinco minutos, basta entrar na página, cadastrar-se e votar, lembrando que são várias categorias e não é necessário votar em todas para validar sua participação (mas vale dar pelo menos uma olhada e conhecer o trabalho de um monte de gente boa que está concorrendo). E não esqueça a categoria na qual sou semifinalista: Criação > Artista Choro > Diego Cavalcanti.

Até a próxima!

My Precious Plastic

Dave Hakkens é um designer dos países baixos, que desenvolveu um sistema caseiro para reciclagem de plástico. O projeto consiste em máquinas de fácil fabricação e baixo custo, com as quais qualquer um pode coletar plástico, triturar, derreter e produzir diversas coisas, desde filamentos para impressão 3D, até produtos de plástico injetado ou extrudados.

Os projetos estão disponíveis para download grátis, com vídeos explicativos no site: preciousplastic.com, e o autor estimula a divulgação do projeto para a redução do lixo no meio ambiente, e promover a inclusão, gerando núcleos de empreendedorismo para comunidades carentes no mundo.

Esse post é uma prévia de uma série que pretendo escrever sobre design social, capitalismo consciente e impacto social.

Para saber mais sobre o designer, acesse sua página pessoal: davehakkens.nl.

Coelhos, dragões e a nossa antiga imaginação

O coelho pequeno corria assustado, enquanto um maior espantava um gato. Ali perto, na mesma direção, um dragão cuspia sua língua de fogo para o ar. Ninguém viu. Andamos cada vez mais olhando para baixo, para os nossos umbigos, dedos e os queridos SmartPhones. Em meio ao espetáculo diário, o céu é  esquecido. Caiu na paisagem da paisagem, todos os dias recruta o sol, a lua, as estrelas e as nuvens para um grande espetáculo e estamos  presos ao mundo embaixo dos nossos pés. Ver desenho nas nuvens ficou no passado e estamos sempre querendo saber o aplicativo mais recente e aprender a lhe dar com a última atualização do Facebook. Enquanto isso no Instagram, a hashtags céu tem mais seiscentos e cinquenta e três mil menções, registrar ficou mais interessante do que contemplar. 

Havia uma época, não muito distante, em que as famílias se uniam à vizinhança para ouvir algumas histórias e criar outras olhando para cima. Os encontros das nuvens permitiam que o cérebro decodificasse a poesia enviada pelo céu. Estamos muito horizontais. As vias terrestres recebem as buzinas, pneus gastos e IPVAs. Sim, as nossas mentes estão focadas em passar de 60km/h já que andamos atrasados demais para esperar o sinal que acaba de ficar vermelho. Estamos apressados, focados em pagar esses mesmos IPVAs, IPTUs, IPIs, “PQPs” e o Google sempre querendo adivinhar o que vamos digitar para ‘autocompletar’ o nosso raciocínio, afinal, temos pressa. Estamos circulando em volta e cada vez mais redundantes feito os buracos nas vias. Nesse momento um pneu acaba de estourar.

Uma vez, uma senhora chamou a atenção do garoto. –“ Você vai cair”. Ele nāo ouviu, a intenção era alertá-lo de que andar e digitar são dois verbos, na concepção dela, incompatíveis. Quando era criança, foi tentar levar a sua boneca à praia e a perdeu. Para ela, há tempo para tudo nessa vida. Devemos mergulhar de cabeça no que estamos fazendo, se não o tempo, no caso dela o mar, vai levar tudo rapidamente. É, na atualidade estamos simultaneamente assistindo Orange is The New Black, jogando Farm Heroes Saga e “stalkeando” aquela amiga do Crush. Como já disse Caetano Veloso, um carinho, às vezes, cai bem. É que a gente esqueceu de fazer carinho… Estamos andando nas nuvens, mas esquecemos o céu. E enquanto isso, as estrelas só querem ser apontadas pelos casais apaixonados aguçando aquela imaginação esquecida.

Jason Momoa: Muito além do Khal Drogo

Jason Momoa é um ator nascido no Havaí que ficou mundialmente famoso pelo papel de Khal Drogo, na série Game of Thrones.

Ao contrário da imagem de personagens brutos interpretados pelo ator, a vida pessoal dele é dedicada à família e aos esportes, principalmente a escalada e o skate, de onde ele leva os conceitos para a sua vida e tenta passar para seus filhos.

Ele produziu um mini-documentário onde mostra esse lado oculto de sua vida. Vale a pena gastar 10 minutos para ver um grande exemplo de pai.

10 álbuns da música instrumental brasileira que eu não canso de ouvir

Depois de um hiato de quase dois anos, cá estou de volta ao Trevous! Recebi com muita emoção o convite para escrever nesta nova fase do site, e logo que consegui conter as lágrimas me veio a ideia de escrever o artigo de reestreia num formato que está muito em voga por estas bandas da internet: listas! Como prova de que não sou o diferentão, sigo a tendência mundial e apresento minha lista dos 10 álbuns da música instrumental brasileira que eu não canso de ouvir. Foi baseada em critérios absolutamente pessoais e subjetivos, composta por obras que fazem parte de minha humilde coleção, sem a menor pretensão de estabelecer referências didáticas ou históricas e com a descontração de quem recomenda um disco aos amigos numa mesa de bar. Divirta-se!

1. Quarteto Novo (1967)

Um grupo formado por Théo de Barros, Heraldo do Monte, Airto Moreira e o mítico Hermeto Pascoal, recém chegado aos 30 anos, quase irreconhecível sem a cabeleira e a barba que seriam a marca visual de sua extravagância. Este foi o Quarteto Novo, grupo instrumental de carreira curta mas cuja influência tem atravessado gerações. Ainda hoje, passados 40 anos desde o lançamento de seu único álbum, o Baião instrumental do quarteto continua a exalar frescor e descontração, em arranjos simples, arrojados e de criação coletiva. Com repertório formado majoritariamente por composições dos integrantes, o grupo apresentava uma sonoridade ao mesmo tempo regional e globalizada, certamente a semente daquilo que hoje Hermeto Pascoal chama de “música universal”.  Disco obrigatório para entender a música instrumental brasileira.

2. Radamés Gnattali Sexteto (1975)

De formação erudita mas demonstrando total intimidade com a música popular brasileira e flertando com elementos do Jazz, Radamés Gnattali foi um dos arranjadores e maestros mais importantes do Brasil, além de compositor e grande pianista. Na maturidade tornou-se o grande mentor de toda uma geração de músicos do Choro, justamente a geração responsável pela renovação que o gênero experimentou na década de 70 . A formação instrumental de seu sexteto era de guitarra, baixo, bateria, acordeom e dois pianos (!), sendo um deles tocado pelo próprio Radamés. Com repertório dividido entre Choros clássicos e composições autorais em arranjos inusitados e cheios de originalidade, este disco certamente foi influência direta ou indireta para pelo menos metade dos outros desta lista.

3. Paulo Moura – Confusão urbana, suburbana e rural (1976)

Paulo Moura é um dos maiores músicos que o Brasil já conheceu e é minha maior referência de instrumentista fora do universo das cordas. Tudo neste disco emblemático parece fugir do óbvio, seja pelo ecletismo do repertório, pelos arranjos e mixagens ousadas, e até mesmo pelo time que reúne músicos com estilos tão diversos quanto Rosinha de Valença e Toninho Horta, ou ainda, Altamiro Carrilho e Mauro Senise. Em cada faixa fica muito clara a característica que fez de Paulo Moura um músico reconhecido e respeitado em todos os nichos da música instrumental: a capacidade de absorver e sintetizar as mais diversas influências, do Choro ao Jazz, do Forró à Black Music,  numa música ágil, inteligente e descontraída. Seja no clarinete ou no saxofone, a marca de Paulo Moura é tão forte que basta uma nota para reconhecê-lo. De quebra ainda tem a belíssima capa de Elifas Andreato, o grande artista gráfico dos LPs da MPB.

4. Camerata Carioca – Tocar (1983)

A Camerata Carioca foi um grupo que apresentava a instrumentação típica do Choro (bandolim, cavaquinho, violões e percussão) executando arranjos camerísticos que saíam totalmente do velho esquema solista + base. Teve em sua formação músicos que viriam a ser referência no Choro, como Joel Nascimento, Raphael Rabello, Maurício Carrilho, Henrique Cazes e meu querido mestre de violão Luiz Otávio Braga. O grupo teve duração relativamente curta e gravou poucos discos, dentre eles esta pérola relativamente pouco explorada da discografia instrumental brasileira. Com o perdão do trocadilho, “Tocar” é um disco irretocável em todos os aspectos, desde os arranjos até a execução, gravação e mixagem. E o repertório? Pixinguinha, Villa-Lobos, Piazzolla, Radamés Gnattali, Wagner Tiso, entre outros. Desta lista, este é sem sombra de dúvida o disco que mais ouvi e que mais me influenciou como artista.

5. Raphael Rabello e Dino 7 cordas (1991)

Quanta dificuldade em escolher apenas um disco do Raphael para a lista! Influência de dez entre dez violonistas brasileiros, inclusive deste que voz escreve, Raphael dispensa apresentações, mas se você não o conhece direito recomendo este artigo aqui, que escrevi para o Trevous em 2014. Dos tantos de que gosto, acabei escolhendo este disco de 1991 em parceria com Dino 7 cordas, o grande “inventor” da linguagem do violão de 7 cordas e certamente a maior influência musical de Raphael. Um álbum épico, com repertório de Choros clássicos, onde Dino faz o acompanhamento (e que acompanhamento!) para os solos de Raphael. Falando assim até parece que a sonoridade é trivial, mas cada faixa deste disco é uma conversa deslumbrante entre os maiores representantes de duas gerações do violão brasileiro, o mestre passando o bastão ao discípulo.

6. Trio Madeira Brasil (1997)

Formado pelos virtuoses Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas), o Trio Madeira Brasil é um dos pilares e precursores desta fase de grande efervescência que o Choro vive desde o começo dos anos 2000. Neste disco com repertório altamente diversificado (Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Manuel de Falla e até Scott Joplin!), o trio fica no limiar entre o popular e o erudito, em arranjos e mixagens que extraem todo o potencial desta formação instrumental tão típica do Choro. Na faixa “Loro”, Zé Paulo troca o violão pela viola caipira sem perder o brilho, e temos o arranjo mais bonito que já ouvi para esta famosa composição de Egberto Gismonti. Este disco segue claramente a linhagem iniciada pelo número quatro desta lista e reafirma a vocação da música popular brasileira e latino-americana para as formações reunindo variados instrumentos de corda.

7. Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e Banda Mantiqueira (2003)

Eu estava começando a estudar arranjo, pelos idos de 2005, quando ouvi este disco pela primeira vez. Pirei! Com repertório que vai de Villa-Lobos à Guinga, passando por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Moacir Santos, Tom Jobim e Chico Buarque, a sonoridade atingida neste álbum é de uma grandiloquência rara e de tirar o fôlego; não era pra menos, já que se trata do encontro de umas das maiores orquestras sinfônicas com uma das maiores big bands do Brasil. O medley de Choros é minha faixa preferida e traz em sequência “Naquele tempo”, “Um a zero” (ambas de Pixinguinha) e “O voo da mosca” (de Jacob do Bandolim) num arranjo espetacular do líder da Mantiqueira, o grande clarinetista e saxofonista Nailor Proveta. A parceria das orquestras rendeu mais dois álbuns, um com a participação da cantora Luciana Souza, e outro com a participação de Mônica Salmaso.

8. Hamilton de Holanda – 01 byte 10 cordas (2005)

Hamilton de Holanda é um dos músicos brasileiros mais relevantes e influentes da atualidade, e seu trabalho certamente  tem assinalado uma nova página na história da música instrumental, nacional e internacional. Para mim, 01 byte 10 cordas, álbum solo gravado ao vivo no Rio de Janeiro, foi o ponto de inflexão definitivo que Hamilton colocou na curva evolutiva da linguagem do bandolim. Tocando oito músicas (Ary Barroso, Pixinguinha, Geraldo Vandré, Piazzolla, além de quatro composições próprias), sozinho no palco, Hamilton faz, ao mesmo tempo, melodia, harmonia, ritmo e contraponto, por vezes dando a impressão de haverem dois instrumentos tocando. Já ouvi este disco inúmeras vezes e continua soando tão impressionante quanto da primeira vez. É Hamilton sendo Hamilton.

9. Quatro a Zero – Choro elétrico (2005)

Como soar original e autêntico dentro de um gênero musical com quase um século e meio de história? O grupo paulista Quatro a Zero respondeu a esta questão com muita criatividade em seu disco de estreia, oportunamente batizado de Choro elétrico. A utilização de instrumentos elétricos no Choro não é frequente, mas também não chega a ser uma novidade, vide a guitarra de Zé Menezes no disco número dois desta lista. Mas a sonoridade extraída da formação guitarra, baixo, piano e bateria pelo Quatro a Zero é de uma autenticidade acima da média. Com repertório de Choros conhecidos, mas não tão óbvios, e algumas composições autorais, arranjos pouco convencionais (vários com uma veia quase humorística) e performances impecáveis, Choro elétrico é um álbum interessantíssimo que abriu novas possibilidades dentro de um gênero que por vezes traz um ranço tradicionalista e conservador que freia a criatividade e a espontaneidade.

10. Spok Frevo Orquestra – Passo de anjo (2006)

Quando se fala em Frevo a primeira coisa que lembramos costuma ser o tema “Vassourinhas” (dá um google, tenho certeza que você conhece). Mas este gênero pernambucano vai muito além disso, e o disco de estreia da Spok Frevo Orquestra foi muito didático no sentido de mostrar as imensas possibilidades do Frevo aos ouvidos mais preguiçosos em ultrapassar fronteiras regionais. Com repertório majoritariamente de compositores contemporâneos e alguns medalhões como Levino Ferreira, Sivuca, Hermeto Pascoal e Maestro Duda, arranjos caprichadíssimos e uma orquestra afiada, Passo de anjo traz a rítmica e o contorno melódico típicos do Frevo misturados à harmonizações e formação instrumental típicas das big bands de Jazz. Não é a toa que o estilo da orquestra do maestro Spok (apelido do saxofonista e band leader Inaldo Cavalcante) já foi descrito várias vezes como “Frevo-Jazz”. Desde então a orquestra tem percorrido uma trajetória muito consistente e prolífica, e seguramente terá vida longa e próspera.

Aproveite, estamos na era da internet, se bateu a curiosidade será muito fácil achar qualquer um destes discos pra ouvir. Inclusive, alguns deles foram disponibilizados pelos próprios artistas em redes sociais como Soundcloud ou Facebook, procure e ouça. Até a próxima!

PICNIC BRASIL chega ao Rio de Janeiro

O PICNIC será um evento de 3 dias, que reunirá mentes criativas e empreendedoras para discutir questões importantes para pensar no desenvolvimento sustentável.

Serão diversas conferências e oficinas, com o intuito de promover a troca de conhecimento e experiências para inspirar o pensamento de soluções para um mundo melhor, usando a criatividade como a principal ferramenta.

O evento acontece de 3 a 5 de novembro no Parque Lage, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Imperdível!

Eugenia Loli e suas colagens

Fotos vintage, recortes e colagens. É assim que Eugenia Loli cria suas ilustrações repletas de surrealismo.

Apesar do trabalho da artista parecer “simples montagens”, Loli deixa claro que a simplicidade é fundamental para que a arte seja mais acessível.

A maioria das pessoas comuns na sociedade de hoje não gostam de trabalhos de arte complexos. Eles costumam encontrar essas peças de arte por 1 segundo de cada vez, enquanto eles olham o seu Tumblr ou Instagram ou Facebook, entre centenas de outras imagens semelhantes.” – Eugenia Loli

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Conheça mais sobre seus trabalhos CLICANDO AQUI.

Minha vida e minhas músicas… Quem controla sou eu!

Das canções da mãe para o seu filho ainda em seu ventre até a música irritante de espera no telefone, de forma direta ou indireta, a música tem uma papel fundamental em nossas vidas. No meu caso foi um pouco complicado. Quem me conhece sabe que costumo descobrir novas bandas e cantores alternativos. Pelo menos uma vez por mês estou ouvindo algum som diferente e o mais legal é que, as vezes a banda cai no gosto popular e eu faço aquela cara de sabichão e penso: “Já conheço essa banda faz tempo”. Esse meu interesse por novos sons está ligado diretamente ao meu antigo hobby de criar playlists musicais quando era adolescente. Já fiz listas no Winamp, Media Player, iTunes… Sem contar os CDs personalizados com listas que dou de presente para os amigos. No texto abaixo conto a minha luta em busca do controle para criar essas listas em uma época sem muitos recursos.

Meu contato com a música aconteceu de forma indireta. Meu coroa passava a maioria dos finais de semana ouvindo discos enquanto cozinhava ou tomava cerveja, me fazendo assim conhecer algumas músicas não tão conhecidas de artistas conhecidos, como Raul Seixas, por exemplo. Nesse período de descobertas musicais existia um problema em relação a forma de ouvir essas músicas com mais controle e liberdade. Achou confuso? Calma, já já eu explico.

“Eu necessitava de mais poder, queria criar meu próprio repertório para momentos específicos que estava vivendo naquela época.”

Naquele tempo o “Jabá” era muito comum nas rádios e, por conta disso, uma música de trabalho de um determinado cantor ou banda era reproduzida até ficar insuportável. Como não tinha controle sobre o que meu pai estava ouvindo, tentava as estações de rádio que tinham programas mais específicos, mas mesmo assim acabava me decepcionando quando, do nada, tocava o “hit” imposto pela rádio para me deixar mais uma vez frustrado. O que realmente me incomodava era falta de controle. Eu necessitava de mais poder, queria criar meu próprio repertório para momentos específicos que estava vivendo naquela época. Pensando nisso, fiquei meio focado em conseguir uma forma de obter esse controle sobre o que realmente gostaria de ouvir.giphydsds

Muitas pessoas enaltecem o vinil, mas eu nunca fui muito fã, pois, além de ser extremamente caro, exigia uma certa cerimônia e cuidado para reproduzi-lo. Hoje em dia esse “rito” ganhou admiração entre os amantes da música de qualidade sonora (tecnicamente falando), mas o meu problema com o vinil era a falta de praticidade. Era preciso levantar, trocar a faixa ou virar o disco, sem contar quando ele arranhava e você estava longe ou no banheiro. Imagina em um momento romântico?

Com a popularização do CD as coisas foram melhorando. Com um cd-player nas mãos era possível ouvir as músicas em ordem aleatória (mas confesso que esse modo de reprodução não era o meu preferido) e poder ouvir a faixa desejada selecionando com poucos cliques, mas eu queria mais. Era legal, mas não era o ideal. Por mais que um disco seja bom, chega uma hora que você quer ouvir algo diferente, não é mesmo?

E no meio de tantas frustrações, eis que recebo do meu pai o um dos melhores presentes que já recebi: Um aparelho de som 4 em 1. Sim, senhoras e senhores! Rádio, vitrola, cd-player (carrossel que tocava até 3 CDs) e para fechar com chave de ouro ele vinha equipado com um gravador de fitas K7 duplo deck.

A partir desse momento minha vida se transformou. Passei a criar minhas próprias seleções musicais. Entre tantas listas alternativas criei uma série chamada: “Só Rock, Porra!” (a mais famosa, a coleção). Como o próprio título descreve, era uma seleção musical composta apenas de rock. Hoje pode parecer bobo, mas naquela época me sentia extremamente poderoso, pois não dependia apenas das rádios ou ficar preso apenas em um álbum especifico, podia ir além. Durante muito tempo passava horas no meu quarto. Escrevia as músicas no papel e fazia as minhas próprias capas além de coleções especificas.

giphy_k7sTudo era maravilhoso, mas quando saia do meu quarto o mundo lá fora perdia a graça. Queria ficar em casa, voltava correndo depois da aula, já pensando em uma nova playlist e isso começou a mexer comigo, pois na minha cabeça cantarolava as músicas para cada momento longe do meu quarto. Precisava levar aquelas músicas comigo de alguma forma.

O ciclo se concluiu com a compra de um toca fitas (genérico) amarelo. Demorei mais ou menos uns 3 meses juntando dinheiro, mas valeu cada centavo. Tinha nas minhas mãos (ou melhor na minha cintura) a liberdade de poder levar as minhas seleções musicais para qualquer lugar. Finalmente consegui o que sempre quis: olhar para fora da janela do ônibus, vendo as pessoas passarem e ao mesmo tempo ouvindo a música que eu escolhi que deveria tocar naquele momento.

E foi assim durante vários e vários anos. Trocando de modelo, comprando fones melhores, pilhas recarregáveis… Até que a fita K7 perdeu espaço para o disc-man (pois já era possível gravar músicas em CDs) e logo em seguida os MP3 players. Esse último especificamente me acompanhou até 2005. De lá pra cá o celular tomou conta dessa simples função e a minha evolução tecnológica com a música continuou para os fones de ouvido. Desde 2007 passei a fazer uso de fones Bluetooth (sem fio) e hoje em dia raramente uso fones convencionais. Uso o Spotify para ouvir minhas listas e as de outras pessoas e com alguns cliques consigo ouvir a maioria das músicas que desejo (e de fora legal). Muita coisa mudou, mas a minha vontade e admiração pela música continua com a mesma intensidade.

Continuo descobrindo novos sons, bandas e artistas, mas isso é papo para um outro post.

Impressões da Coreia

Meu primeiro pouso na Ásia, nesta viagem sonhada por muitos anos, foi a Coreia do Sul. País que todo mundo sabe ser partido ao meio, entre dois regimes diametralmente opostos: o Norte, território culturalmente mais isolado do mundo, resíduo das ditaduras comunistas da Guerra Fria; e o Sul, um país capitalista, rico, com forte influência norte-americana, tanto econômica quanto militar. Por motivos óbvios, estou visitando a Coreia do Sul, exibindo um trabalho no Museu Schema de Arte, em Cheongju (ao sul da capital). Cheguei aqui junto com um grupo de artistas holandeses, participando do mesmo evento. Fizemos todos os passeios e refeições, todos os dias, junto com a equipe do museum, inclusive o diretor e alguns artistas locais. Eles foram de uma generosidade incrível, nos mostrando o que há de melhor na terra deles, ensinando algumas palavras do idioma Hangul e nos alimentando como reis. A seguir listei as primeiras impressões sobre esse país lindíssimo e hospitaleiro. Escrevo em estado de puro deslumbramento pela Coreia.

1 – Geopolítica

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Os coreanos do Sul não se consideram “Coreia do Sul”, mas simplesmente “Coreia” (o país oficialmente também é chamado República da Coreia), não reconhecendo portanto o Norte como outro país, nem como qualquer coisa explicável. Os coreanos conhecidos meus preferem nem falar sobre o assunto.

2 – Higiene

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As cidades são limpas, em geral. Os restaurantes e banheiros, inclusive de beira de estrada, são bem decentes, às vezes impecáveis. Penso que higiene é um lance cultural, por isso não julgo muito um país pela higiene. Cada qual tem seus padrões de limpeza. Enfim, para os meus padrões subjetivos, achei os hábitos higiênicos na Coreia bem mais cuidadosos que na Europa.
Assim como em muitos países, eles sempre – sempre – tiram o sapato ao entrar em casa, ou em templos, e na maioria dos restaurantes, casas de chá etc. Banheiros devem ser ‘pisados’ com um chinelo ou pantufa específica para o banheiro e este não deve ser usado no resto da casa.
O mais engraçado de tudo, claro, são os vasos sanitários com várias opções de lavagem: feminina, masculina e também tem chuveirinho instalado pra limpar o próprio vaso em si se necessário. No hotel em que fiquei em Cheongju, o vaso era da Samsung (!).
Outro detalhe: nas mesas dos restaurantes eles sempre colocam lencinhos umedecidos para se limpar as mãos antes de se comer. Guardanapos também são postos numa caixinha de madeira que é muito mais bacana que a maioria dos porta-guardanapos que eu já vi.

3 – Culinária 1

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A comida é servida em vários pratinhos e tigelas que são trazidos continuamente, e vão ocupando quase toda a superfície da mesa. O arroz é servido individualmente numa tigela de metal. Tudo vem quentíssimo. O ‘kimchi’ (repolho marinado com muita pimenta, super tradicional) é sempre servido, em qualquer refeição, sem exceção. Come-se bastante, parece, mas ainda não descobri se é mais educado deixar alguns restos ou se deve-se comer até limpar os pratos. A sensação que dá é que se a gente come tudo, eles pensam que a gente não teve comida suficiente. E é comida demais. Mas eu fico com pena de jogar fora. Ainda não entendi a lógica. Nossos guias coreanos simplesmente pediam comida sem parar.

4 – Culinária 2

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O café da manhã é uma refeição como todas as outras. Pode-se tomar uma sopa com frutos do mar, ou com tofu e algas, ou noodles com carne etc. O ‘kimchi’ é servido em pequenas porções, acompanhado de outros pratinhos com verduras, feijões, sopinhas, tudo sem acréscimo de preço. Não é preciso dizer que a apresentação é maravilhosa, os pratos e tigelas são feitos em bons materiais, muitas vezes de cerâmica tradicional. E os ingredientes são coloridos, decorados com gergelim, cogumelos variados etc. Tudo altamente estimulante para os cinco sentidos.

5 – Gorjeta

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Não se dá gorjeta em restaurantes e em nenhuma transação comercial.

6 – Ficção e realidade

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Seul é uma cidade gigantesca, de 10 milhões de habitantes na área central e 25 milhões na região metropolitana. A modernidade e o antigo convivem na capital, onde vários palácios e arranha-céus compõem a paisagem urbana. Muita gente pensa que Seul é uma cidade futurística e organizadíssima. Mas depende muito de área para área. Ao chegar no nosso hotel, por exemplo, que fica numa área bastante turística, em processo de gentrificação (Insadong), passamos por vários becos, coroados por milhares de fios elétricos. Vimos pessoas sentadas à porta de casebres insalubres, catadores de papelão, gatos vadios etc etc. Qualquer semelhança com o Rio de Janeiro é mera coincidência. A diferença principal, é claro, no quesito segurança. A Coreia é extremamente segura. Roubos são raros. Assaltos provavelmente não existem. (Descobri mais uma verdades na vida, que ‘roubar’ também é cultural. Inevitavelmente voltamos a um tema recorrente, aquele de que muitos cariocas ainda não se deram conta, que o Rio é uma das cidades mais violentas do mundo e o Brasil em geral é um grande perdedor nas listas de educação, segurança e direitos humanos. É só sair do Brasil para se enxergar isso.)

7 – História

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A história da Coreia remonta à China antiga e foi se desenvolvendo durante séculos pelas dinastias locais. Não conheço toda a história. Mas é importante saber que os japoneses ocuparam a Coreia mais de uma vez, pilhando bens e até sequestrando profissionais importantes, como os mestres de porcelana de outrora. A porcelana japonesa deve muito à técnica coreana por exemplo. O trauma mais recente com o vizinho japonês é sem dúvida a ocupação na Segunda Guerra Mundial e que ainda está por ser desculpada (coisa que o governo japonês se recusa a fazer), que foi o abuso sexual de centenas de mulheres pelos soldados japoneses. Conhecidas como ‘comfort women’, essas mulheres perderam suas vidas depois da guerra e sobreviveram marginalizadas ou se retirando do convívio social, pela vergonha que terem sido usadas pelos inimigos. Hoje elas são poucas, já velhinhas, na faixa dos 93 anos. Semana que vem vamos visitar o museu sobre o tema. Portanto, falar no Japão com os nossos amigos coreanos é tocar numa ferida aberta. E o pior é que meu próximo destino é exatamente o Japão – daqui a duas semanas. Portanto estou contente de ter vindo à Coreia primeiro, para descobrir as semelhanças e diferenças, e entender melhor os dois países. Acredito haverem muito mais aspectos em comum, mais do que eu e muita gente pensa. Veremos.

8 – Cultura

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Das muitas semelhanças com o Japão (país que ainda não visitei) são os inúmeros templos budistas espalhados de norte a sul. Grande parte deles é patrimônio histórico internacional e portanto muitíssimo bem conservados. Outra semelhança pitoresca é a cultura ‘cosplay’, os notórios grupos de jovens que saem fantasiados pelas ruas, também são vistos por aqui em Seul, todo dia pelo centro histórico. Eles saem para tomar um café, um sorvete, com seus selfie-sticks, registrando tudo, na maior placidez. Os coreanos também apreciam tomar chá sentadinhos numa esteira no chão, cercados de jarras e copinhos de cerâmica lindíssimos, sem dever nada às famosas cerimônias japonesas.

9 – Paisagem

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Você viaja a Coreia do Sul inteirinha e vê montanhas ad infinitum, 360º de floresta temperada, com algumas plantações de arros e algumas fábricas.

10 – Triste constatação 1

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Algumas grandes corporações dominam diversos setores comerciais. Por exemplo, a Hyundai, a LG, a Kia, etc são também empreendedoras imobiliárias, possuem canais de TV, times de basebol etc. A Samsung também constrói prédios e fabrica vasos sanitários eletrônicos. A Hyundai ainda por cima tem postos de gasolina. Toda essa promiscuidade empresarial assusta. Grandes conglomerados como estes são uma ameaça à autodefesa da sociedade. Eles formam uma força política muito poderosa. Além deste perigoso cenário, pelo país todo se veem torres residenciais, aos moldes das cidades mais novas da China e também do Brasil. O modelo de condomínios fechados estilo Barra da Tijuca não foi inventado por nós. Foi a lógica neoliberal, que esvazia a vida pública, em sociedade, e promove a privatização do espaço público. E este processo acontece no Brasil hoje também, infelizmente.

11 – Triste constatação 2

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Eu não poderia deixar de mencionar a minha profunda dó em ver a condição dos animais em geral na Coreia. Vi muitos cães presos pelo pescoço, na coleira, em quintais, lojas e até em oficinas de carro. Cachorros de médio porte são usados para vigilância e não tem qualquer vida social. Os cães de pequeno porte são mais comuns como animais de estimação e gozam de um pouco mais de carinho. Mas ainda assim estes são vendidos como brinquedos, em vitrines, desde a mais tenra idade. A gente passou por uma rua onde os filhotinhos pulavam, dentro das gaiolas de vidro, desesperados por um pouco de atenção e de socialização. Eu não quis fotografá-los pois sei que as imagens tem um poder de impregnar nossas emoções.
Já os mercados de peixe também não me enganam. Todo mundo, inclusive eu, adora comer frutos do mar e, claro, estando na Ásia, todo mundo quer se esbaldar em todas as possibilidades gastronômicas possíveis. Há muitos anos que eu busco não comer animais, ainda que gostando de carne e peixes, exercito um equilíbrio entre o autocontrole e a tolerância. Se os nossos guias coreanos faziam questão de pedir um prato com peixe ou carne, eu acabava comendo um tanto e provando um pouco de tudo. Mas quando posso escolher, não peço animais. Se a gente para pra calcular o holocausto que se pratica todos os dias, a todas as formas de vida consideradas ‘comestíveis’, aí sim a gente consegue fazer uma reflexão. Não tem como curtir nenhum mercado de peixes hoje em dia, sabendo que a vida marinha está se esvaindo dos oceanos. É claro que são criaturas fascinantes, exóticas, e saborosas. Mas quero um mundo mais responsável, menos egoísta. Vamos repensar urgentemente a ideia de ‘cultura’ para incluir todos os seres viventes num mundo mais harmonioso. E assistir a todos aqueles seres se debatendo, sufocados em bacias abarrotadas, sendo cortados e comidos vivos, no banquete sinistro de todo dia, é praticamente sadismo ao meu ver. Sim, é possível modificar a cultura. Os peixes estão desaparecendo a olhos nus, galera. Não tem vazão para tanto prazer gastronômico. Pense nisso.

12 – O povo

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Não gosto de generalizar, mas com a minha experiência de dois meses convivendo com coreanos e conhecendo alguns há mais tempo, permito-me generalizar aqui e agora: este é um baita de um povo gentil, divertido, educado e lindo!

© Fotos: Ludmila Rodrigues

Mais amor e menos lixo, por favor

É uma vitória contra a produção mundial de lixo, e pra todos nós, que os cidadãos de Hamburgo, na Alemanha, tenham banido o cafézinho feito com cápsulas individuais ­ em outras palavras, o método do Nespresso e afins.Os danos ecológicos que esse modismo criou, não compensam nenhum prazer cafeínico. Existem dezenas de maneiras de se preparar um café e nenhuma delas precisa gerar ainda mais lixo, hoje em dia. Por mais que os fabricantes digam que as cápsulas “sejam recicláveis”, não faz sentido produzir tanto lixo por xícara de café no século XXI. Não se justifica descartar aquele copinho de plástico e sua vedação metálica, enquanto que o bom e velho filtro, seja de pano ou de papel, é muito mais biodegradável.

Segundo o site Science Alert, para cada cápsula, de 6 gramas de café, são utilizados 3 gramas de plástico e alumínio, que dificilmente serão separados no processo de reciclagem, mesmo nas mais avançadas usinas europeias. A matemática é clara. É uma questão de tempo para que a cafeteirinha da Nespressocaia em desuso, quando todo mundo se tocar e quando outras cidades do mundo fizerem boas escolhas quanto ao destino do seu lixo. Falando nisso, dizer “seu” lixo é uma incoerência. Temos que começar a dizer “nosso lixo”, nos tornando autores e atores do processo. E não dá para se enganar com algumas ideias criativas de reutilização das cápsulas descartadas pra fazer bijuteria ou escultura. Não dá pra engolir.

Não me engano com nada que venha da Nestlé. A imagem da empresa já estava moribundando há anos. E desde que seu presidente deu pra falar que o ar não deveria ser gratuito, mas privatizado, a reputação da mesma piorou. Por outro lado serviu pra manter a Nestlé na mídia. Ano passado a empresa tentou o inacreditável acordo de ser a exclusiva operadora de “purificação de ar” em Redding, na Califórnia. Supostamente a partir de março de 2016, seriam acrescidos U$0,53 aos impostos diários ao município. Simplesmente, os cidadãos de Redding teriam que pagar aproximadamente 15 dólares por mês pelo ar que respiram! Parece que o plano não vingou. Mas eu não ia falar da Nestlé, queria falar do lixo.

Aliás, o conceito de lixo, o próprio termo ‘lixo’, tem que ser urgentemente revisto. Para o planeta não existe “jogar fora”, então temos que zerar o lixo. Zerar mesmo, não só comprando menos e descartando menos, mas investir mais em embalagens biodegradáveis, reinventando usos e implementando mais coerência no ciclo dos materiais. Por exemplo novos materiais podem ser criados a partir de elementos descartados na indústria.

“É urgente que a gente aprenda a questionar, antes de comprar ou pagar qualquer novidade. Temos que nos perguntar: de onde veio isso? Quanto lixo vou gerar?”

Minha avó me contou uma vez que, quando pequena, na fazenda dos avós dela, eles costumavam desfazer os sacos de arroz (que vinham em tamanhos muito maiores que hoje em dia), e reutilizar os fios daquela fibra para amarrar e atar mil coisas, da cozinha ao quintal e à oficina. Existia um senso de continuidade, e até de criatividade, que não terminava na lata do lixo. Enfim, era outro tempo, onde se tinha menos pressa, menos stress também. Depois o plástico tomou conta de nossas prateleiras, nossa infância, nossas vidas como um todo. O plástico está intimamente ligado à hegemonia do petróleo também. Um resíduo industrial de fácil manipulação e de óbvio baixo custo, ideal para um mundo em que tudo é medido pelo retorno econômico. Mas hoje o plástico toma também continentes, oceanos, indo parar dentro de nós e nos estômagos de quantos seres vivos?

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Recentemente fui a uma feira de novos materiais e novos métodos de Design na Holanda ­ a Materia Xperience, em Rotterdam ­ que exibe por exemplo várias aplicações novas para borra de café, fibra de coco, caco de vidro, de tijolo etc. Pois todo processo industrial descarta quantidades astronômicas de certos ingrediente, que em geral vão direto para o meio ambiente. Quando um engenheiro esperto ou um designer tem aquele insight de sagacidade, ele vai planejar e integrar um novo destino para aquele material, que invariavelmente terminaria criando um dano monumental ao meio ambiente, graças às quantidades diárias que nossa civilização produz. Vários designers estão atentos para isso hoje, buscando métodos novos, com ingredientes que ainda são considerados ‘lixo’ e portanto são baratos ou até mesmo gratuitos.

Mais uma vez foram os alemães que aqueceram o debate ecológico, iniciado mais ou menos na década de 1970. A Alemanha desde então foi um dos líderes mundiais não só em coleta seletiva, mas em gestão de resíduos, gerando energia a partir da queima de lixo. A geração de energia a partir do lixo é uma em infinitas maneiras de lidar com as nossas montanhas de descarte diárias. O ciclo vicioso é claro, se compramos mais, descartamos mais.

É urgente que a gente aprenda a questionar, antes de comprar ou pagar qualquer novidade. Temos que nos perguntar: de onde veio isso? Quanto lixo vou gerar? Até mesmo ao se comprar uma garrafa d’água, coisa que não faço mais, só em caso de extrema necessidade. Levar consigo uma garrafa consigo é uma questão básica hoje.

É quase impossível comprar algo sem embalagem plástica, de fato. Mas a consciência deve estar alerta sempre. O mesmo vale para os alimentos, orgânicos e orgânicos. Por mais que seja tentador pagar mais barato, podemos nos perguntar se aquilo é realmente honesto e saudável. O gesto de responsabilidade, por pequeno que seja numa escala global, vale como uma mudança de paradigma, que começa dentro da gente.

É difícil também evitar o bombardeio de anúncios, provocando a nossa id consumista. É preciso um grande esforço aliás, para se livrar de propaganda em geral. Mas é possível reduzi-­lo. Eu não vejo televisão, por exemplo, porque prefiro escolher a minha programação eu mesma. Com meu computador, assisto, leio e encontro tudo que busco online. E desde que instalei o Adblock não sou mais assediada por pop­ups ou aquelas propagandas irritantes antes dos vídeos do Youtube. Não abro revistas em salas de espera, de lugar nenhum, pois a maioria delas vai me inundar de informações que não servem para mim. Quero filtrar ao máximo a avalanche de imagens em movimento, de imagens de “felicidade”, de “beleza” ou de “prazer”. Elas matam nossa imaginação.

Para mais inspiração e menos descarte, recomendo com a maior alegria a página ‘Um Ano Sem Lixo’ para todos os Facebookers de plantão. Pois também não sou de ferro, acabo entrando no Facebook várias vezes ao dia! Curta também: https://www.facebook.com/umanosemlixo. E viva o cafézinho filtrado!

Mais sobre gestão de lixo AQUI.
Não deixe de visitar: Um Ano Sem Lixo (que devia se chamar ‘Uma Vida Sem Lixo).

Júnior SQL e seu “Coração de Mãe”

As portas se abrem enquanto o som do cavaquinho de Altair Barbosa ecoa pelos corredores do casarão. O local é a ocupação Edith Stain na Lapa e as histórias dos 8 moradores começam a ser contadas em tons de cinza, preto e branco. Os mais críticos podem até achar que falta alguma coisa ou que é mais do mesmo, mas para mim, não.

“Coração de Mãe” revela as histórias dos moradores, mas tão importante quanto o próprio documentário em si, é o grande potencial de FAZER do Júnior SQL. Não falo isso por falar. Escuto as ideias do Júnior faz um tempo e parece que agora o cara está levando a coisa a sério e isso é muito bom para mim e para todos aqueles que pensam em produzir algo áudio visual, pois serve como grande incentivo.

Não sou crítico de cinema, não entendo nada de curta metragens, mas gostei muito do que vi. Talvez por imaginar o trabalho que deu, por pensar na montagem, não sei. Sou muito suspeito para falar, não pela amizade/afinidade que temos, mas sim pela iniciativa do CARA.

Assistam com calma e atenção e se gostarem compartilhem, pois é dessa forma que podemos ajudar e agradecer.

 

Sentimentos digitais

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Aldo, um remanescente oriundo da internet a cabo, precisou aprender a lidar com tanto poder. Antes eram horas jogando paciência à espera dos ponteiros do relógio que custavam a dar meia noite, ou a temida semana que não passava até chegar ao seu final trazendo, após o meio dia do sábado, liberdade para acessar o mundo on-line por custo de apenas um pulso. MIRC, Messenger; mais um mundo para descobrir que ia além daquela sua solidão por trás dos óculos. O Aldo digital era carismático, popular, entendia de sexo, política, drogas, rock and roll, tocava guitarra e tomava absinto. Era de longe muito mais interessante ser digital.

A internet banda larga ampliou os seus horizontes. Deixou mais largo e mais curto o caminho que dava acesso à felicidade. Ele digitalizava as suas fotos e dava mais RGB ao seu rosto. Conversava, aos domingos, 20 horas por dia, comia pouco e abria um vinho. As 4 horas de sono eram mais do que suficientes, porque o melhor sonho era realizado entre duas telas. O nome dela era Gabriela. Rafaela… Maristela… Cada dia ele falava com uma garota, o maior pegador no raio de 100 metros.

“As conversas, os encontros, a música, o cheiro de café, as notícias, os jogos de tabuleiro, estão cada vez mais digitais.

O seu vizinho Magno amava fotografia, então em cada viagem que fazia ele levava um filme de 36 “poses” para selecionar os melhores ângulos, momentos, pessoas e acontecimentos. A volta para casa era sempre alimentada pela curiosidade de saber como as fotos tinham ficado. O tempo entre deixar o filme no laboratório e chegar em casa cheirando aqueles papéis cheios de momentos registrados e cheiro de tiossulfato de sódio – produto químico que fixa a imagem no papel – para Magno era uma eternidade. Para amenizar a ansiedade criou o hábito de visitar o Portinari Café. Localizado em um casarão do século XIX, onde um amigo espanhol servia um café cremoso que mais parecia um mousse de chocolate. Tá aí, se o cheiro das fotos reveladas era marcante, ele estava no mesmo grau de importância que o aroma do café que Adamastor aprendeu a fazer com o seu avô.

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Em um quarto do mesmo casarão do Portinari moravam dois irmãos universitários vindos do interior, que estavam na cidade para “tentar a sorte”, “ser alguém na vida”. João cursava o 4º período de Letras e Paulo estava começando Educação Física. Nas horas vagas gostavam de ouvir música, mas com a “grana curta” não havia nem como cogitar a possiblidade de ter internet a cabo em casa e ir à lan house só era possível por 3 horas semanais. O rádio toca fitas que o pai dos garotos os presenteou era a salvação. Na época a música mais tocada era “Não Uso Sapato”, da banda Charlie Brown Jr e os rapazes ficavam atentos à programação afim de apertar o REC e gravar para a posteridade. A expectativa era grande, às vezes uma ida ao sanitário era decisiva, mas quando conseguiam gravar ouviam e curtiam diversas vezes.

O latido do Aladim, o cachorro da casa vizinha, avisava que o jornal tinha acabado de chegar. Seu Tom e Dona Bela moravam ao lado do Portinari e sempre liam sentindo o aroma de café. Era o momento em que se conectavam às notícias do mundo. Depois, como outros donos de cachorros, colocavam as folhas para Aladim poder fazer xixi. Terminavam o dia conversando com os vizinhos na Praça Aurora. Tom era o melhor jogador de dominó daquela geração.

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E aqui estou. Escrevendo essas histórias que vi há alguns anos. O meu notebook está com a bateria baixa, então não posso me demorar. Escrevo enquanto ouço a minha música predileta da semana no letras.mus.br. Gosto desse site porque tem o “botão mágico” que clico e ele repete a música infinitas vezes, enquanto faço Selfie e apago até finalmente gostar de uma para postar no meu Instagram, após usar o filtro certo, é claro. Geralmente uso o Valência, ou o Mayfair, quando quero deixar a foto com um Q de enigmático. Inclusive, esse final de semana foi o aniversário da minha filha, então daqui a pouco vou imprimir as fotos que coloquei no meu HD Externo. Não sei se vocês conhecem, mas adoro usar o Quiosque Kodak que tem no mercado aqui perto de casa. A sensação é de estou em um Self Service. Escolho o papel, o efeito, a moldura e o formato. Posso até fazer um livro, coloco tudo no “prato” e imprimo as fotos em segundos.

AMU2_Era-of-Digital1Oi, meu notebook acabou descarregando. Nesse tempo eu pude perceber como Mel cresceu. Nas fotos ela ainda parece aquele bebê de um ano atrás. Vi também uma queimadura no rosto da minha mãe, ela disse que faz cinco dias, mas acho que exagerou. Nesse intervalo entre pegar o carregador e plugar no computador eu me senti igual a Aldo, Magno, João, Paulo, Seu Tom e Dona Bela, naquele intervalo precioso entre um desejo e outro, a espera da realização. Foi como viver a experiência de esperar por um café, sentindo o aroma e poder contemplar o mundo off-line, ou melhor, o mundo real. Perdi as contas de quantas refeições eu solicitei pelo aplicativo do iFood, perdendo de visitar algum restaurante interessante e até conhecer um padrasto para Mel.

Nesse pequeno intervalo, percebi também, que a velocidade tem criado cada vez mais pessoas ansiosas e egoístas. Pessoas que não podem esperar a sua vez numa fila, ou mesmo no trânsito. Tudo é para ontem e na velocidade “banda larga”. O tempo está voando e quando o sinal fica um pouco ruim nos estressamos e reiniciamos o IPhone para voltar tudo ao “normal”. As conversas, os encontros, a música, o cheiro de café, as notícias, os jogos de tabuleiro, estão cada vez mais digitais. Os sentimentos estão nas nuvens, junto com as informações guardadas por senhas. As pessoas têm senhas e para acessá-las você precisa estar em algum grupo no Whatsapp. E pasmem, eu me toquei, mas não mudei. Mel está com sono, louca para dormir e eu não consigo largar esse texto. A verdade é que os meus, os seus e os nossos sentimentos estão cada vez mais digitais.