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Demolições de conceitos, valores, paredes e cenários – Parte II

E assim eu vi…

A favela do Faz-quem-quer fica do outro lado do morro de Vaz-lobo, depois de Madureira, bairro vizinho e bem mais famoso que Rocha Miranda. Entre 2001 e 2013 Rocha Miranda que cresceu e possuiu hoje novos empreendimentos imobiliários sendo construídos. O morro do faz-quem-quer, ao contrário, foi simplesmente deixado de lado. Como se ali fosse um erro na matrix, um apêndice que não faz diferença, o poder público simplesmente esqueceu do logradouro. Assim, mudanças ocorreram na geo-política do lugar. Os traficantes expandiram o território encampando tanto toda a Rua Jataúba, paralela ao morro quanto o final das duas ruas perpendiculares. Nessas, eles construíram barricadas de concreto armado no meio da via pública e os moradores das casas adjacentes à essas barricadas expandiram suas casas para as calçadas até o meio-fio, ou seja, só é possível passar ali a pé ou de moto pelo meio das barricadas, pois não há mais calçadas.

“Ver a rua que passei minha infância como um retrato do total abandono do poder público foi chocante, porém inspirador. No mesmo instante que me choquei, comecei a “ler” os atores que ali compunham o cenário formado. “

No primeiro dia em que fui ver o estado do telhado, fui orientado a parar na rua de baixo, para conversar com o dono conhecido de uma oficina e ferro-velho que fica literalmente no meio da rua. Ali no diálogo ele me explicou que estava tudo tranquilo, que enquanto falávamos os “donos” do morro já sabiam que eu tinha chegado pois tem binóculos e informantes que monitoram as cercanias da entrada daquele pedaço ali.

Foi um turbilhão tão grande emoções que senti que eu resolvi gravar minhas impressões do momento com meu celular, das quais transcrevo abaixo:

Ver a rua que passei minha infância como um retrato do total abandono do poder público foi chocante, porém inspirador. No mesmo instante que me choquei, comecei a “ler” os atores que ali compunham o cenário formado. Tendo como fundo minha velha e desfigurada casa, constatei uma espécie de zona mista. Antigos moradores como a vizinha, que ainda é a mesma senhora quando da minha infância. Ela, numa espécie de homenagem ao seu falecido marido que vendia bolo, cuscuz e sonhos num carrinho pelas ruas do bairro, juntou-se com sua filha e construiu na frente de casa, ao lado da birosca, uma mini padaria para conseguir sobreviver. Moradores novos, filhos dos filhos e o movimento de motos que passam fazendo a vigilância para os chefões que ficam lá em cima se misturam no início da manhã.

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O trabalho dos soldados motorizados ocorre sincronizado. Através de rádios, eles se comunicam o tempo todo com o comando no alto do morro. De 10 em 10 minutos mais ou menos passam dois soldados numa moto simples em velocidade alta, sem capacete, sendo que o carona leva um fuzil ou uma metralhadora em punho, apontada para o alto. A naturalização dessa atitude me chocou a principio. Vindo dos bairros onde isso seria considerado absurdo, essa cena para os moradores tinha mesma importância de um carro ou moto qualquer. Eu e os pedreiros num espanto inicial comentamos e a resposta foi uníssona: “isso é comum, eles passam todo dia, estão vendo esse movimento aqui de vocês e querem saber o que é.”

As articulações sociais que se constroem aqui são muito interessantes. O pedreiro chefe tinha um conhecido que era dali, daquela comunidade. Pediu à ele para conseguir uma anuência com os donos do morro. E ele assim foi, na coragem e na garantia conhecer e falar que estaria ali pelos próximos dias fazendo a reforma. Ele foi recebido e “autorizado” a proceder e seu carro ficou liberado para subir a vontade até a rua.

Um silêncio servindo de amém

20 de Junho de 1970, um sábado tenso no Rio de Janeiro. Para alguns, a razão da angústia é a final da Copa no dia seguinte: Brasil e Itália, jogão, quem ganhar se torna o primeiro tricampeão mundial de futebol e leva pra casa a taça Jules Rimet. Para outros, a razão da angústia é o avanço da repressão do AI-5 no governo Médici: desde o começo do dia estão sendo cumpridos mandados de prisão para vários estudantes e ativistas envolvidos em passeatas e movimentos contra a ditadura militar. A polícia entra nas casas, revirando cada canto em busca de qualquer coisa que possa se tornar uma prova: bandeiras, jornais, panfletos, livros de capa vermelha, qualquer coisa que possa sugerir, mesmo que de forma esvaecida, um grupo terrorista, designação genérica para enquadrar os inconvenientes aos militares. Em uma das incursões, bingo!, encontram um revólver, tudo o que queriam para dar o mínimo respaldo à acusação de “grupo terrorista armado”. O revólver, velho, não pertence à nenhum dos indiciados, mas ao pai de uma das estudantes, e na verdade é uma arma legalizada, apenas com o registro vencido. Mas não tem problema, a imprensa não precisa comentar esse detalhe. No dia seguinte está estampado em caixa alta na capa de um dos jornais de maior circulação do país, apenas um pouco abaixo da manchete sobre a final da Copa: GRUPO TERRORISTA PRESO NO RIO. Na foto, a mesa da sala do DOPS com as “provas” (o revólver em destaque); na matéria, as palavras do chefe da polícia em negrito e entre aspas, afirmando que o grupo planejava atentados terroristas durante o jogo do Brasil. Alguns dos presos, no entanto, nem sequer se conhecem.

Assim eram os anos de chumbo da ditadura. Eram? Eram não… São. É com grande tristeza que vos revelo que o parágrafo anterior não é histórico e nem fictício: é um fato da atualidade. Tudo nele é real e atual, apenas adaptando datas e nomes para nossos dias.

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Uma imagem emblemática da ditadura instaurada em 1964 e a agressão sofrida por um documentarista canadense durante manifestação no dia 13 de julho desse ano: mórbida semelhança.

12 de Julho de 2014, sábado, véspera da final da Copa, Alemanha e Argentina, jogão, no Maracanã. A polícia civil do Rio cumpre uma série de mandados de prisão expedidos contra 26 manifestantes e ativistas. O motivo das prisões, segundo o texto do próprio mandado: “indícios suficientes de autoria do delito previsto no art. 288 (…), e sérios indícios de que está sendo planejada a realização de atos de extrema violência (…)”. O artigo 288 do código penal trata de “associação criminosa” (antes chamado de formação de quadrilha) que é a associação de três ou mais pessoas para a prática de crimes; alguns dos ativistas presos, no entanto, sequer se conheciam. Além disso, parece razoável a prisão de alguém devido à indícios do planejamento de atos de extrema violência? Isso tem algum cabimento lógico? Ou, ainda mais objetivamente, tem algum cabimento jurídico? Segundo a OAB, não. Um juiz carioca chegou a chamar a polícia do Rio de “polícia Mãe Dinah” por “prever” o futuro e prender pessoas por crimes que não aconteceram, mas que – jura essa polícia clarividente – vão acontecer! Afinal, como não confiar nos “sérios indícios do planejamento de atos de extrema violência”?

Provando a inconsistência e arbitrariedade das prisões, no dia seguinte, 13 de julho, dia da final da Copa, aconteceu uma manifestação na praça Saens Peña, a despeito de todos os “líderes” do movimento estarem presos. Curioso, não? Mais curioso ainda é que os “atos de extrema violência” ficaram (adivinhem?!) por conta da PM. Manifestantes e jornalistas agredidos, com vídeos e fotos das agressões rolando aos montes nas redes sociais, e a praça sitiada; até os moradores foram impedidos de circular. Na semana subsequente, as prisões seguiram repercutindo: Anistia Internacional, OAB e diversas universidades cariocas lançaram notas de repúdio à postura da polícia e do juiz que assinou o mandado. Um habeas corpus chegou a ser dado à maioria dos presos, mas em pouco tempo o Ministério Público lançou denúncia pedindo novamente a prisão deles, depois de receber o inquérito da polícia civil. A denúncia causou espanto geral, uma vez que foi apresentada apenas duas horas depois de recebido o inquérito gigante, de duas mil páginas. Duas opções: ou o Ministério Público possui funcionários mutantes capazes de ler e analisar dezesseis páginas por minuto, ou quase nada foi lido e a agilidade foi apenas uma forma arbitrária de manter na cadeia os “indesejáveis”. Em qual você aposta? Na segunda-feira, dia 21 de julho, a advogada Eloísa Samy, uma das indiciadas, “acusada” de defender manifestantes, foi ao consulado do Uruguai para pedir asilo político e ter a possibilidade de responder em liberdade. A atitude levou o caso para outra esfera, mas o asilo foi negado no mesmo dia pelo presidente Mujica. Paralelamente a isso, a grande mídia cumpria seu papelão de sempre, criminalizando ativistas e contando sua novela bastante conveniente aos seus interesses, mas que quase nunca corresponde à verdade dos fatos. Para se ter uma ideia, nem mesmo os advogados dos manifestantes presos tiveram acesso a algumas das informações do inquérito divulgadas pelo Jornal Nacional da rede Globo. Isso condiz com o princípio do amplo direito de defesa?

As "provas" dos crimes que não aconteceram. Jornais, bandeiras, panfletos e equipamento de proteção. A arma, legalizada, nem sequer constava do inquérito e pertence ao pai de uma menor indiciada. Num dos panfletos é possível ler "20/06 - FESTA JUNINA FIFA GO HOME". Formação de quadrilha junina é crime?
As “provas” dos crimes que não aconteceram. Jornais, bandeiras, panfletos e equipamento de proteção. A arma, legalizada, nem sequer constava do inquérito e pertence ao pai de uma menor indiciada. Num dos panfletos é possível ler “20/06 – FESTA JUNINA FIFA GO HOME”. Formação de quadrilha junina é crime?

A conclusão do caso, ao menos temporariamente, se deu através da atitude imparcial e exemplar do juiz Ciro Darlan, que já tinha expedido o primeiro e expediu o segundo e definitivo habeas corpus que libertou todos os manifestantes. Sua justificativa, que talvez tenha sido o choque de realidade para os que já tinham comprado o discurso reacionário da televisão, foi a seguinte: mesmo que venham a ser condenados, as penas seriam pequenas e os bons antecedentes permitiriam a todos os indiciados cumprir a sentença em liberdade, portanto não havia nenhum sentido em mantê-los sob prisão preventiva. E acrescento um detalhe que talvez tenha sido perdido de vista em meio a esse circo de absurdos: estamos falando de crimes que NÃO aconteceram. E, afinal, o que está sendo investigado? A agressão à qual policial, a destruição de qual vidraça, o incêndio de qual carro? Nada, absolutamente nada específico foi divulgado até agora, tudo muito genérico e subjetivo, de modo a poder enquadrar qualquer um que incomode. Enfim, como diria Caetano, tudo certo como dois e dois são cinco.

E por falar em Caetano…

Onde estão eles?

“Onde estão Chico, Caetano, Gil, artistas de imensa popularidade que tiveram que se exilar, tiveram que abandonar por um tempo sua terra natal por causa da antiga ditadura, onde estão?

Os músicos da minha geração cresceram fascinados com a música da chamada “geração dos festivais”. Chico, Caetano, Gil, entre outros, nos inspiravam não só pela música mas também pelo engajamento político durante os anos de chumbo da ditadura militar. Agora vivemos novamente à sombra de outra ditadura (o meu relato dos últimos dias no Rio não te convencem disso?!) mais dissimulada que aquela instaurada em 1964, mas que vem mostrando cada vez mais sua face desde junho de 2013. Uma ditadura que escancara o quanto são superficiais as diferenças entre os partidos, uma vez que ações de repressão earbitrariedade tem sido executadas por governos estaduais sob diferentes legendas. Uma ditadura em que o lucro de grandes empresas (concessionárias de serviços públicos, grandes empreiteiras, etc.) está acima do bem estar social, acima da dignidade humana. Uma ditadura onde a cidade é mero balcão de negócios, em vez do espaço comum e democrático ocupado pelo cidadão. E nesta conjuntura que dá margem a previsões muito tenebrosas, eu pergunto: onde estão eles? Onde estão Chico, Caetano, Gil, artistas de imensa popularidade que tiveram que se exilar, tiveram que abandonar por um tempo sua terra natal por causa da antiga ditadura, onde estão? E onde está a classe artística de nosso país, porque se cala sobre o absurdo que se desenrola ante nossos olhos?

Cláudia da Silva foi baleada e arrastada por um carro da polícia. Todos os PMs envolvidos na morte já voltaram a trabalhar e nenhum deles foi alvo de reportagem especial do Fantástico. O tratamento com manifestantes supostamente envolvidos em protestos violentos, no entanto, não tem sido tão complacente.

O país caminha triste e velozmente para os braços da tirania e tudo que se ouve da grande classe artística é um silêncio servindo de amém. Enquanto isso, em Brasília, a mulher que sentiu na pele as torturas de uma ditadura, tem contribuído (tanto pela ação como pela omissão) para a consolidação de outra. Eu poderia falar muito mais sobre este assunto, mas vou encerrando por aqui: já ouço os gritos histéricos dos tucanos que se aproximam como abutres e cinicamente se apresentam como “a” mudança. Mas a mudança não se encontra sob nenhuma sigla, sob nenhuma patente, sob nenhuma toga. A mudança se encontra dentro de nós.

[infobox bg=”black” color=”white” opacity=”on” subtitle=”O primeiro preso das manifestações que começaram em junho de 2013, Rafael Braga Vieira, segue preso há um ano. Seu crime: foi encontrado com uma garrafa de pinho sol e outra de água sanitária, com os quais iria fazer coquetéis molotov. A polícia Mãe Dinah não é nenhuma novidade.”]Em tempo:[/infobox]

São Pixinguinha – Parte 1

Há mais ou menos dois meses meu Facebook estava repleto de postagens como “Viva São Jorge!”, “Viva Ogum!”. Era dia 23 de abril, dia do santo católico mais popular do Rio de Janeiro, comemorado também por adeptos de religiões afro-brasileiras pelo sincretismo regional com o orixá guerreiro. Mas havia outro tipo de saudação nas redes sociais naquele dia: “Viva o Choro!”. Isso porque no 23 de abril também se comemora o Dia Nacional do Choro, que não por acaso é a data de nascimento do maior músico brasileiro de todos os tempos: Pixinguinha. Este artigo é a oferenda deste humilde devoto ao santo do sopro divino e das melodias milagrosas. Aperte o play e boa viagem!

Pixinguinha by Diego Cavalcanti on Grooveshark

Os primeiros anos

“Não demorou muito o menino Pixinguinha começou a fazer aulas com os músicos que frequentavam sua casa e foi se desenvolvendo rapidamente na flauta transversa.

Outro dia ouvi (ou li) em algum lugar que todos os grandes nomes da música brasileira são conhecidos por seus apelidos. Cartola, Tom, Chico, Guinga. É óbvio que esta afirmação está longe de ser cem por cento verdadeira, mas cai como uma luva para um certo Alfredo da Rocha Viana Filho. Nascido no dia 23 de abril de 1897, na cidade do Rio de Janeiro, Pixinguinha era filho de uma família numerosa e musical que morava num casarão de oito quartos e quatro salas (!) conhecido como “pensão Viana”, no bairro do Catumbi. Seu pai tinha o hábito de promover saraus e hospedar músicos em dificuldade financeira, e foi assim, nesse ambiente artisticamente estimulante que Pixinguinha, ainda muito criança, desenvolveu o gosto pela música. Segundo ele próprio em seu depoimento para o Museu da Imagem e Som em 1968: “Meu pai não era grande flautista, mas adorava tocar o instrumento. Ele gostava muito do Choro e eu acabei por acompanhar aquelas músicas executadas por grandes figuras da época, que se reuniam lá em casa. Eu, menorzinho, ficava apreciando… gostava de música. Por volta das 20 ou 21 horas, meu pai dizia, ‘menino, vai dormir!’ E eu, perfeitamente, ia para o quarto. Mas não dormia não, ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto.” Não demorou muito o menino Pixinguinha começou a fazer aulas com os músicos que frequentavam sua casa e foi se desenvolvendo rapidamente na flauta transversa. Aos catorze anos já estava tocando profissionalmente em bailes, cinemas, cabarés e casas de chope; seu irmão Otávio Viana, vulgo China, era violonista e foi quem o levou para tocar na noite carioca (nos primeiros anos de 1900 a Lapa já era um point!). Nessa mesma época Pixinguinha faz sua estreia em disco (na época uma tecnologia ainda incipiente, que existia no Brasil há menos de uma década) com o grupo Choro Carioca, liderado por seu professor Irineu de Almeida, que tocava oficleide, um instrumento de sopro grave, muito raro hoje em dia. Era um disco 78 rotações com gravação apenas em um lado e trazia a polca “Nhonhô em sarilho” (só cabia uma música em cada disco). O grupo Choro Carioca gravou vários discos entre 1911 e 1913, muitos deles com solos de flauta de Pixinguinha.

Os Oito Batutas

Pixinguinha seguiu gravando e tocando com muito sucesso até que em 1919, já aos vinte e poucos anos, foi convidado a formar um grupo para tocar na sala de espera de um cinema. Assim se formou o primeiro grupo da música popular brasileira a fazer fama nacional e internacional: Os Oito Batutas. Além de Pixinguinha na flauta, participavam do grupo seu irmão China e seu amigo Donga (o autor de “Pelo telefone”, que é considerado o primeiro Samba gravado). A instrumentação era como dos grupos de Choro, com flauta, percussões e cordas (cavaquinho e violões) e seu repertório mesclava músicas instrumentais e cantadas.

Os Oito Batutas. Pixinguinha é o primeiro da direita para a esquerda, com a flauta na mão.
Os Oito Batutas. Pixinguinha é o primeiro da direita para a esquerda, com a flauta na mão.

Os Oito Batutas tocaram no Rio e em outros estados brasileiros com ótima repercussão até que em 1922 o empresário Arnaldo Guinle, que já havia patrocinado turnês nacionais do grupo, resolveu custear uma temporada internacional em Paris, a capital da moda. Muitos veículos de imprensa do Brasil (desde a época nas mãos de uma elite branca, racista e cheia de complexo de vira-lata) foram contra a viagem; motivo: os Oito Batutas eram, em sua maioria, negros ou mestiços, e tocavam música brasileira e, ainda por cima, popular. Um jornal pernambucano chegou a publicar o seguinte: “oito pardavascos que tocam violas, pandeiros e outros instrumentos rudimentares (…), lamento não haver uma polícia inexorável que, legalmente, os fisgasse pelo cós e os retirasse de bordo, impedindo-lhes a partida. (…) Impunemente, porém, os Oito Batutas lá vão rumo a Paris (…). E depois ainda nos queixamos quando chega por aqui um maroto estrangeiro que, de volta, se dá à divertida tarefa de contar das serpentes e da pretalhada que viu no Brasil.” Seriam os antepassados de Rachel Sheherazade? Quem sabe… O fato é que os Batutas fizeram sua temporada parisiense, onde tiveram contato com novidades como o saxofone e a bateria, e seis meses depois estavam de volta ao Brasil, tocando nas comemorações do centenário da Independência e participando da histórica primeira transmissão de rádio no país. No fim do mesmo ano fizeram outra excursão internacional, dessa vez para a Argentina, onde chegaram a gravar dez discos (que à essa altura já eram dubla-face e comportavam duas músicas: uma de cada lado) para a gravadora Victor de lá.

Maestro Pixinguinha

A partir do final da década de 1920 Pixinguinha intensifica seu trabalho como arranjador, regente e diretor de orquestras. Na época (como ainda hoje entre as majors, salvo algumas exceções), as gravadoras existentes no Brasil eram filiais ou ramificações de matrizes da Europa ou Estados Unidos; com isso, era muito comum que as orquestras dessas gravadoras fossem regidas e formadas por estrangeiros. Como esses músicos e maestros estavam pouco habituados ao sotaque de nossa música popular, tais orquestras nunca soavam brasileiras, mas algo estranho, como aquele gringo tentando sambar em visita à quadra da Portela. Vale lembrar que, comparadas com os dias atuais, as comunicações eram muito precárias, e métodos de ensino que abordassem a música popular (brasileira ou de qualquer outro país) simplesmente ainda não existiam; o que hoje um músico estrangeiro pode aprender sobre nossa música acessando o You tube ou com um songbook, sem sair do conforto de seu quarto, naquele tempo só era possível através do contato direto com o lugar e sua cultura. O trabalho de Pixinguinha como arranjador fez com que, finalmente, as orquestras que gravavam no Brasil soassem brasileiras; para alcançar tal resultado ele escolheu os melhores instrumentistas da época, a maioria deles ligados à linguagem do Choro, e deu papel relevante aos instrumentos de percussão, como nunca antes havia sido experimentado em acompanhamentos orquestrais. A qualidade de Pixinguinha como arranjador o garantiu destaque e trabalho em várias gravadoras, e ele nada sofreu da crise que se abateu sobre a classe musical no começo dos anos 1930: o advento do cinema falado tirou o emprego de muitos músicos que tocavam acompanhando as sessões mudas.

PIXINGUINHA ESCREVENDO

Aliás, o final da década de 1920 e a década de 1930 foram excelentes para Pixinguinha. Ele que já era renomado flautista passou a ter também esse destaque como arranjador. Além disso, nesse período foram gravadas várias músicas de sua autoria que se tornariam clássicos do repertório Choro: Carinhoso, Lamentos, Segura ele, Ainda me recordo, Naquele tempo. O Carinhoso, uma das maiores canções da musica brasileira, foi gravado originalmente em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, em versão instrumental; somente em 1937 teve sua primeira versão com letra, gravada pelo cantor Orlando Silva, o mais popular da época, entoando os versos imortais de Braguinha: “Meu coração, não sei porquê…”. No lado B do mesmo disco, a versão definitiva da valsa Rosa (cujo formato original gravado em 1917, em versão instrumental, foi abandonado), também por Orlando Silva, com os belíssimos versos do incógnito Otávio de Souza (segundo Pixinguinha era um mecânico do Engenho de Dentro): “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”.
Como nada dura para sempre, no ano de 1940 tem início uma fase de grande dificuldade na vida e na carreira de Pixinguinha, mas que foi superada de forma genial pelo mestre… aguarde a segunda parte do artigo semana que vem!

Demolições de conceitos, valores, paredes e cenários – Parte I

Esse ensaio visa tentar traduzir a minha percepção de uma realidade que poucos tem acesso: O cotidiano de uma comunidade que foi dragada pelo movimento de expansão dos traficantes que vivem nos morros do subúrbio mais distantes.

No Rio de janeiro, as castas sociais invisíveis parecem existir não só entre ricos e pobres mas também entre os pobres e os mais pobres. Há as favelas assistidas (minimamente é verdade), que se localizam em áreas de maior visibilidade econômica e social. O que quase ninguém conhece ou entra para conhecer são as comunidades mais afastadas, dos subúrbios da central, dos ramais de trem nem um pouco famosos e que ficam entregue as baratas, no caso, ao poder paralelo do tráfico ainda armado nos longínquos subúrbios cariocas.

Para mim, observador social curioso, me deparei com uma situação familiar que mais uma vez me levou a reflexão pessoal/social sobre esse modos de existência que acabo por encontrar nas andanças e desavisos do cotidiano.

Um pouco de (pré)história.

Quis o destino que eu fosse criado dos meus dois anos até os quatorze, numa rua muito próximo à favela do Faz-quem-quer, no subúrbio de Rocha Miranda. De 1977 até 1989 morei nessa, que era a última rua antes do morro propriamente dito. Era uma rua sem calçamento, pouco iluminada que só foi asfaltada anos depois que me mudei de lá para continuar meus estudos no segundo grau.

Essa rua tinha muitas casas de 2 andares idênticas e geminadas, fruto de uma ideia de projeto de habitação para trabalhadores fabris. Ao longo do tempo essas casas foram sendo descaracterizadas pelos próprios moradores. Quis o destino e às chuvas de um verão nos idos de 1985, que a nossa casa, “a mais bonita da rua” segundo minha mãe, fosse completamente inundada por águas muito fortes que destruíram e/ou levaram nossos móveis e pertences. Lembro-me bem de uma cena: eu sentado no que sobrou do sofá, vendo o desenho do pica-pau na tv que ficava numa mesinha de madeira com a água passando tal qual o leito de um rio caudaloso bem à minha frente.

Nossa casa ficou quase toda destruída nessa primeira de muitas águas que passaram por mim enquanto assistia desenho na tv preto e branco (talvez pela falta de antena ou de atualização tecnológica, não sei dizer). Mesmo com a pouca idade e com obras que nada resolviam feitas pelo meu pai, desisti de morar ali e no alto dos meus quatorze anos, me mudei para casa da minha avó com o pretexto de ter ido estudar no CEFET.

faz quem querMeus pais continuaram ali até 1994 quando se separaram. Minha mãe saiu com meu irmão e tia, mas meu pai ficou até também se mudar em 1998. Mas a casa ficou alugada e se tornou parte do “patrimônio familiar”. Nessa época a rua chegou no que poderia chamar de auge, já tinha sido resolvido o problema das enchentes e a rua recebido asfalto a casa continuava muito mal conservada.

Em 2001, quando da morte de meu pai, praticamente esquecemos dela. Minha mãe, que tem um vinculo afetivo forte com o local é que passou a cuidar de lá. Como proprietária, ela ia até lá ocasionalmente para falar com os vizinhos-amigos que deixou por lá e resolver pendências.

Por mais de uma década me afastei de lá, talvez pelas lembranças dolorosas. No máximo ouvia falar da Jataúba, Nome da rua que se tornou sinônimo para a minha família da casa de nossa infância. Rua que brinquei, soltei pipa, joguei futebol, bola de gude, me ralei inúmeras vezes andando de bicicleta. A essa altura, a inquilina já tinha descaracterizado completamente o que havia restado do imóvel original, fazendo um puxadinho para frente, até a calçada e abrindo ali uma birosca, que é, para quem não sabe, um pequeno comércio que vende de tudo. Serve comida, cachaça, cerveja, sabão em pó, doces e salgados industrializados num balcão com cadeiras doadas (sempre!) pelas cervejarias que abastecem o local.

No ano passado, em virtude das fortes chuvas (sempre elas!), o telhado da casa estava prestes a ruir. Minha mãe já cansada, não dava conta de resolver esse problema sozinha pediu para que eu intercedesse. Nas já conhecidas sincronicidades que percebo em minha parca existência, eu estava prestes a começar uma obra no meu apartamento atual. Adiei minha obra por 2 semanas para ir com os pedreiros lá resolver o problema do telhado.

O improviso (burla)[1] era uma marca que forte do legado deixado pelo meu pai. Não poderia ser diferente. No “conjunto arquitetônico” deixado por ele em nossa velha casa, paredes de 3 metros sem nenhuma sustentação, telhas apodrecidas, remanescias dos projetos mirabolantes que pareciam existir somente dentro da cabeça dele, ameaçavam desmoronar em segundos. Com urgência marcamos a demolição e a reconstrução do telhado.

[1] Conceito que desenvolvi em minha dissertação de mestrado: A prática da Burla na tecnologia da informação: seguindo seus atores e interações sociotécnicas, 2012

Hoje não tem “fada”, papai?

Começo o texto com a interrogação da pequena Laura, de 1 ano e 5 meses ao seu pai. João, soldado da polícia militar de Pernambuco, todos os dias acorda cedo e toma café com a sua família, depois veste a farda e vai para a rua proteger a sociedade. Laura ainda não sabe, mas a função do seu pai tem se tornado crucial para a sobrevivência da família, com um mísero salário ele vai tocando e salvando o mundo.

Mesmo sem entender direito, Laura percebe que “papai é fote”, “a fada do papai é do super-homem”, mas hoje ele trocou a farda por uma blusa branca e texto escrito em vermelho, que Laura não entende, mas diz: GREVE! E ela perguntou: Hoje não tem “fada”, papai?

João apenas beijou a sua filha na testa e se foi.

Do outro lado da cidade, outro João, o terceiro filho de uma família de classe média alta entra no carro e ouve o motorista comentar: Seu Paulo, a coisa tá feia. Tem gente saqueando todo o bairro que moro, já, já chega por aqui. E chegou. Mais na frente, bem na faixa de pedestres, um grupo de 20 homens e 7 mulheres está assaltando e saqueando o que ver pela frente.

João o pai de Laura está passando na hora e pelo instinto atira para o alto dispersando o movimento.
João não sabe, mas a bala atingiu alguém que ele nunca viu e nunca vai saber o nome.

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Essa é a situação do Brasil, estamos atirando uns nos outros, antes mesmo de saber a origem. Estamos brigando no trânsito, na fila, no estádio, na festa; estamos nos matando aos poucos, ou seria aos muitos? Hoje aqui no Recife estamos vivendo tempos de guerra. São pobres roubando pobres. Eu vi mulheres com crianças saqueando supermercados e saindo com sacos de rolo de papel higiênico nas mãos, ignorando a bosta que está fazendo em público.

Aí eu pergunto (de novo): que merda é essa? O país da Copa vai chegar dilacerado na competição e não terão pênaltis, nem prorrogação que o salve.

O apelo de Laura, de João, dos seus outros dois irmãos, do meu filho Lucca, e dos outros filhos é de que deixemos de ser egoístas. Enquanto o dinheiro e a corrupção vão domando os cidadãos, a bandeira brasileira vai ficando vermelha de sangue e vergonha.

Cada dia mais eu tenho vergonha de ser brasileira, na verdade, cada dia eu tenho mais medo. Acabou o contos de fadas e as fardas já não valem mais nada, também.

Matéria e memória

Em dois mil e catarse, afora todos os levantes, insatisfações, grandes eventos, crises e revoluções que nos acometem, tenho a sensação, certa percepção mesmo, de que há um clima nostálgico no ar. Começou devagar, como efeito contrário a específicos movimentos aqui e ali na cultura, na educação e, claro, na política. Sorrateiramente, o coro de vozes minguadas foi se avolumando e hoje ruge furiosamente onde encontra espaço. Muito me assusta o crescimento de determinadas opiniões nos meios de comunicação, em especial, nos mais utilizados por nós atualmente, as redes sociais. Bem, já gastei caracteres demais em outros posts movido pelas minhas próprias inquietações frente a esse mundo que convulsiona e, entre engasgos e engulhos, busca se livrar dessa infecção generalizada contraída por nosso imaginário, nossas instituições e nossa moral. Sem muita envergadura para tratar desses assuntos, tomado pelas emoções da mudança, segui o curso geral e descarreguei grande parte da tensão em desabafos e indignações que, se não me levaram à ação, encaminharam determinados questionamentos e tornaram outras reflexões mais complexas. É aquilo: nada se perde, tudo se recria. Hoje, diferentemente, decidi fazer uma escolha mais próxima, mais movida pelo afeto. Por isto, e porque, na real, só se é o que se é agora; e, agora, o que me toca é a memória. Curioso, não?

Tratar do presente a partir do passado é um recurso amplamente utilizado por nossas mentes; a idealização de um passado melhor, retrato mítico de quando a vida era mais leve, é um de nossos principais métodos de compensação frente às adversidades da vida. Quando as coisas não saem como desejamos, é comum que recorramos a esse artifício. Nossa memória é seletiva, escolhe o que ressaltar em meio aos variados tons do passado. Escolhe, elege, potencializa, interpreta. Nessa historicização de nossas biografias, costumeiramente, engrandecemos o já acontecido, negamos o presente e idealizamos o futuro. Em um movimento tipicamente humano, lembramos com saudade, sonhamos com dias melhores e lamentamos nossos dias atuais. Parece loucura e de fato é.

Spacetime_curvatureHá inúmeras teorias sobre os motivos de nossas mentes funcionarem desta maneira. As explicações perpassam desde o advento da sociedade industrial e a criação do “tempo do capital”, a indefinição e velocidade de nosso século que embaralharam a noção espaço-tempo, até perspectivas religiosas aliviadoras desta condição. Uma das que mais me agrada, supõe que esse estado disruptivo do tempo-presente teria sua raiz na descoberta da agricultura, pois em sua transição de caçador/coletor para agricultor, o Homem teria passado por sua primeira “alienação” e, talvez, esta tenha sido a sua queda do paraíso. Uma vez que nos demos conta dos ciclos da natureza e os dominamos, criaram-se novos processos cognitivos que nos possibilitaram a prospecção e, consequentemente, a retrospecção. Começou aí o problema.

No momento em que pudemos nos lembrar, também pudemos projetar. Não mais vulneráveis aos caprichos do planeta, iniciamos nossa campanha de des-envolvimento. Se por um lado criamos técnicas e tecnologias, por outro perdemos a qualidade essencial que nos mantinha integrados ao todo, perdemos o envolvimento com a unidade. Passamos a planejar, a ter a ilusão do controle. Correlata à nossa capacidade de planejamento, colhemos como fruto a imaginação, razão de grandes feitos humanos; entretanto, aprendemos também, através de duras lições ao longo do tempo, o peso da frustração. A não consecução de nossos desejos, quando levada ao limite, tanto na dimensão individual quanto na social, gera efeitos devastadores. Ansiedade, depressão, neuroses de todos os tipos nos atormentam. Na esfera do social, certos traumas são combatidos pela reinvenção da memória; eventos tidos como vexatórios, ou contrastantes demais com as identidades nacionais, por exemplo, não raro são ocultados, manipulados ou simplesmente negados. A autoidentificação sob ameaça é justificativa suficiente para manipulações de todo o tipo. A potência existente em reescrever o passado transforma o terreno das lembranças coletivas em solo movediço, constantemente revolvido, arado e semeado de acordo com as inclinações do momento. A memória, vejam só, é um espaço de disputas. Está imbricada aos processos políticos, aos interesses, ao desejo do mais “certo” a ser lembrado e do legado a ser deixado.

ckerÉ então com ressalvas que observo o sentimento de que “o país era melhor em outros tempos” se fortalecer no mundo virtual, espelho do real. Quando me pego em reflexões como essa, aciono minha própria memória de meus primeiros contatos com a obra de Vivekananda. O vigor que emana de suas palavras hoje, século XXI, é o mesmo que no final do século XIX encantou a plateia do Parlamento das Religiões na Chicago de 1893. O jovem Swami captou a atenção do público com sua introdução ao conhecimento da Vedanta. Não é meu interesse me alongar sobre isto, mas Vivekananda deu àquelas pessoas, e a mim 110 anos mais tarde, um frescor e alento sobre como estar no mundo. Grosso modo, o fundamento de seus ensinamentos, para além de seu pensamento progressista e ecumênico, nos sinalizou a relevância em se deter somente sobre o que de fato importa; não há porque se ocupar previamente do ainda por acontecer, ou lamentar e sentir falta do já acontecido. Sua fala simples, muito mais poderosa que minha inútil tentativa de reprodução, trouxe uma mensagem que se torna cada vez mais atual.

“Às tentativas de restituição do datado, somam-se a confusão dos sonhos interrompidos, dos desejos não realizados e das insatisfações difusas; a falta de direcionamento dessas paixões torna-se perigosa, pois serve como matéria para o renascimento de pensamentos extremamente autoritários.”

Portanto, em meu exercício de lembrança, recorro a ele ao perceber o crescimento da ideia da nostalgia do não vivido, como se fosse possível, num movimento do devaneio, preencher as ranhuras na superfície do atual com o que já não mais é. Nesse sentido, vale sublinhar o fato de que muitos dos que opinam a favor de uma intervenção militar no país sequer eram nascidos à época. Às tentativas de restituição do datado, somam-se a confusão dos sonhos interrompidos, dos desejos não realizados e das insatisfações difusas; a falta de direcionamento dessas paixões torna-se perigosa, pois serve como matéria para o renascimento de pensamentos extremamente autoritários. Então, em meio aos questionamentos sobre nossos modelos que começam a dar sinal de cansaço, adicionamos como bônus um sentimento antiminorias, responsabilizando-os por suas próprias mazelas.

O clima de criminalização da pobreza, de falta de empatia, serve como pano de fundo para que as identidades em xeque se ocultem atrás dos fakes, seres violentos do mundo virtual que marcam presença nos fóruns da grande imprensa, dos blogs e das mídias independentes. Protegidos pelo anonimato, esses indivíduos podem vociferar opiniões duras demais de assumir publicamente. A liberdade de expressão é contorcida para atender as justificativas dos que destilam ódio. São tempos difíceis. Contudo, é justamente durante as crises que podemos reavaliar e ressignificar determinados momentos de nossa trajetória. A memória é essa substância que nos possibilita interrogar o passado em busca de pistas que nos ajudem a elaborar melhor nossas perguntas. Mas esse movimento requer maturidade. Do contrário corre-se o risco da idealização e o equívoco da sedução pelas soluções historicamente ineficientes. Os novos tempos exigem novas soluções. Prescrever o mais “fácil”, embasado em teorias perigosas como os extremismos de todo o tipo, é uma via que leva ao fracasso. Esses discursos passam ao largo da beleza conciliadora de um Vivekananda, mas certamente encontram eco nos que creem na rigidez como sinônimo de estabilidade. Nas entrelinhas, seu texto expressa uma deturpação dos exemplos, uma vontade de apagar a memória. Não permitamos.

A velha a fiar

Durante a pequena pesquisa que fiz para checar alguns dados do meu post anterior, acabei me deparando com o vídeo de uma música que fez parte da minha infância e tenho certeza que fez parte da infância de muita gente.

O folclore é composto de vários elementos: músicas, danças, brincadeiras, lendas, artesanatos, etc. Dentro das músicas folclóricas existem várias classificações, e uma delas se chama “conto acumulativo cantado”, também conhecidos como “lenga-lenga”. Um conto acumulativo cantado nada mais é do que uma música onde a cada estrofe é adicionado um novo elemento à letra; esses elementos vão se acumulando, criando estrofes maiores a cada repetição, transformando a música num verdadeiro desafio à memória de quem canta (e, quem sabe, à paciência de quem ouve…).

Na época eu nem sabia que se tratava de um conto acumulativo, mas aprendi com minha mãe uma música chamada “a velha a fiar”. Ela não sabia a canção inteira de memória, mas certa vez, ainda na minha infância, assistimos na tevê (provavelmente num programa educativo) um vídeo em preto em branco para a música, e acabei conhecendo e decorando a letra inteira. Também mal sabia eu que aquele curta-metragem é considerado por alguns estudiosos como um dos primeiros videoclipes produzidos no mundo; dirigido por Humberto Mauro (um dos pioneiro do cinema brasileiro) e com a música cantada pelo Trio Irakitan (grupo vocal de muito sucesso nas décadas de 1950 e 1960), a “velha a fiar” foi produzido em 1964 e é uma pérola do audiovisual brasileiro, que eu tive o prazer de reencontrar, relembrando minha infância.

Boas recordações a todos!

O futebol está na merda

Em meados de 1999, os primos todos em casa decidiram ir ao jogo do Sport. Eu que não sou grande fã de nenhum time resolvi ir por conta da folia, e também por conta da folia vesti a camisa da TJS (Torcida Jovem do Sport), que o meu irmão guardava com muito carinho na prateleira principal do seu armário.

Olhando para os dias de hoje penso que vestir uma camisa de time mudou de conotação, por vezes é um ato corajoso e por outras um ato de guerra. Naquele 1999, aos 13 anos, eu nem consegui chegar ao jogo, desci no meio do caminho com uma forte enxaqueca. Mas quantos outros jovens de lá pra cá também não conseguiram chegar? Não por enxaqueca, ou coisa parecida, mas porque tiverem suas vidas interrompidas por marginais, que se vestem de organizados para acabarem com a torcida alheia.

A privada é uma coisa simbólica, que poderia ter sido uma cadeira, uma estante, um tiro…

O episódio da semana passada aqui no Recife, no jogo do Santa Cruz contra o Paraná, que acabou na morte de Paulo Ricardo Gomes da Silva, 26 anos, deixa claro em que lugar está o nosso futebol. A privada arremessada por um delinquente colocou de vez o nosso futebol na merda. A privada é uma coisa simbólica, que poderia ter sido uma cadeira, uma estante, um tiro, mas que veio à calhar, para que os cidadãos vejam a merda que está virando o nosso futebol.

A violência fala mais alto que os gritos das torcidas. Cansei de errar o caminho ao sair de casa em dias de domingo e me deparar com a cavalaria da polícia militar escoltando jovens torcedores. Mas que merda é essa? E me desculpem o uso da palavra, mas é revoltante ver o número de mães que perdem seus filhos por uma guerra que não é de ninguém. Cadê o futebol arte? Esses episódios são o reflexo de uma sociedade doente, que viu no futebol o cano de escape para seus problemas, e que vestem “o manto sagrado”, para atingirem seus adversários, adversários esses, que eles não sabem o nome.

A copa vem aí, e junto a ela virão os protestos, os suplícios, as palavras de ordem e a guerra, mas não esqueçam, que muito além do futebol, das chuteiras e dos cofres públicos, estão as vidas dos torcedores e essas são as mais importantes.

Na minha época de escola eu sempre pratiquei esportes, e sei a energia que uma boa torcida dá. Continuo admirando alguns jogadores, pois outros já se venderam à corrupção faz tempo, mas eu nunca pensei que diria isso: parem de escolher time para o meu filho. Hoje eu odeio futebol e também quero que ele odeie. Me desculpem os grandes atletas, mas odiar hoje significa preservar o bem que você tem de melhor: a vida.
E a vocês que continuam amando o futebol fica a dica: façam a faxina, tirem o racismo, a corrupção e a violência, antes que eles acabem dando descarga na vida e na paz de vocês.

Feche os olhos

O ser humano é um animal visual, e isto não é um fato cultural, mas biológico e evolutivo. Nossa visão sobrepuja todos os nossos outros sentidos e testes científicos demonstram que ao receber informações conflitantes de diferentes órgãos sensoriais, nosso cérebro tem tendência a privilegiar o que vemos (e não o que ouvimos, cheiramos, provamos ou tocamos) e interpretar a imagem como sendo a “realidade”. Com isso não é de se espantar que nós humanos tenhamos criado ao longo dos milênios uma cultura visual que reflete justamente esse fato biológico; se nosso sentido mais desenvolvido fosse a audição ou o olfato, por exemplo, certamente teríamos construído sociedades completamente diferentes.

Ok, desculpas evolutivas à parte, as sociedades humanas contemporâneas têm sistematicamente supervalorizado a visão, a imagem, e negligenciado os outros sentidos. Somos desde cedo treinados a diferenciar formas e cores, mas não sons, cheiros, sabores ou texturas. Para a maioria das pessoas no gozo pleno de sua faculdades visuais (sorry, daltônicos…) será muito óbvio perceber que dois objetos possuem cores ou formas diferentes, mas ao mesmo tempo teremos a impressão de que são necessárias habilidades excepcionais para distinguir e classificar dois sons diferentes. A maioria das pessoas quando instigadas a distinguir e classificar os sons que ouvem, sentem grande dificuldade em constatar mesmo as coisas que parecem mais óbvias a ouvidos minimamente adestrados; por outro lado, aqueles que tiveram contato relevante com a música e desenvolveram sua acuidade auditiva são colocados como “especiais”, portadores de um “dom”, quando na verdade são simplesmente pessoas que em algum momento de suas vidas tiveram a oportunidade de desenvolver a audição e a musicalidade. Vivemos uma verdadeira endemia de “atrofia auditiva” por falta do uso da faculdade de ouvir, consequência triste de uma sociedade dominada pela monocultura sensorial (Ludmila Rodrigues já falou disso aqui no Trevous, mas puxando brasa pro olfato); em nosso mundo existe um verdadeiro monopólio da imagem, e negligenciamos os sons, cheiros, sabores e texturas ─ reflexo de outras monoculturas e monopólios aos quais somos submetidos, e que os mais canalhas ou os menos inteligentes chamarão de “globalização”, esse eufemismo infame e capcioso para o assassinato da diversidade humana e natural.

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Houve um tempo em que o primeiro contato de um cantor com seu público era através do som, e não da imagem.

No vácuo dessa atrofia vem uma indústria fonográfica, selvagem e temente da ferrugem da ganância a lhe corroer as engrenagens, nos empurrando goela abaixo artistas que nada tem a oferecer musicalmente, cuja sobrevivência se apoia exclusivamente em marketing pesado e investimento na “imagem”. Nesse contexto, os mais bonitos segundo o padrão vigente chegam mais longe. Beyoncé ou Shakira teriam alcançado o status de estrelas pop globais se não fossem bonitas? Alguém acredita mesmo que suas famas são diretamente proporcionais aos seus dotes como cantoras? Não se trata aqui de um ode ao desprezo da imagem em favor do som, mas da busca de um equilíbrio entre os dois. O gestual e a imagem de certos artistas é, de fato, hipnotizante: Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Yamandú Costa, Freddie Mercury, Jimi Hendrix, Elis Regina, são exemplos de extremo carisma em sua misancene, só para citar alguns. Mas nesses artistas há um ponto fundamental: a música está ali, sempre em primeiro plano, a música é a essência, e a música é boa demais! A imagem é, sim, atraente, é bom vê-los, mas é melhor ainda ouvi-los. Suas performances no palco são apenas o acabamento visual caprichado a uma música de alta qualidade, que tem valor por si própria, que se sustenta e fala por si própria. Mas isso não é verdade para todos, infelizmente; tire a superprodução, os palcos gigantes com dezenas de bailarinos e efeitos pirotécnicos, os videoclipes com orçamentos milionários e carregados de apelo visual e sexual, tire isso tudo e o que restará de certos nomes da música pop? Pouquíssima coisa, eu garanto.

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Britney Spears nunca cantou bem, mas era a maior estrela pop no fim da década de 1990 e começo de 2000. Mas aí se envolveu em “escândalos”, envelheceu e ganhou peso; estragou a “imagem” e virou carta fora do baralho da indústria fonográfica.

A partir da década de 1980 o videoclipe se tornou um veículo obrigatório para a divulgação da música pop americana e inglesa, e o resto do mundo não teve alternativa a não ser seguir o mesmo caminho dos donos da máquina da indústria fonográfica. O advento da MTV e os clipes superproduzidos de Michael Jackson (com seu milionário “Thriller” estabelecendo um novo patamar de produção) provavelmente foram o impulso inicial da tendência que atualmente faz da música uma refém da imagem, tendência essa que contaminou também os palcos, com shows que parecem cada vez mais um espetáculo do Cirque du Soleil e cada vez menos um concerto musical. No centro dessa “arte” não está a música, a criação do artista, mas uma imagem fabricada pela indústria; Beyoncé, Shakira, Rihanna, Kate Perry… todas facilmente substituíveis, todas filhas da mesma fórmula: pegue uma menina bonita que tenha uma mínima qualidade vocal e aptidão para a dança, encontre sua fatia do mercado baseado em pesquisas, invista pesado na produção, faça um clipe cheio de apelo sexual e imagens vibrantes, um show com dezenas de coisas acontecendo ao mesmo tempo no palco e pimba! Nasce mais uma estrela fabricada, com sua arte estéril e vazia, sem essência nem sabor. A chamada música pop é o exemplo máximo dessa “linha de montagem” de “artistas”, mas a mesma metodologia, com maior ou menor flexibilidade, é usada na fabricação de nomes em outros gêneros, inclusive na atual MPB (que de “brasileira” só tem o nome); os artistas transgênicos estão por toda parte! Como um livro ruim que precisa de uma edição luxuosa para conseguir alguma atenção, a música pop e a indústria do entretenimento seguem adiante; a música não é mais a musa, o centro das atenções, a essência do espetáculo, mas apenas um plano de fundo para uma apresentação circense erótica. E nós seguimos cada vez mais surdos, olhos vidrados, ouvidos atrofiados, a coreografia é mais importante que os acordes do refrão, o clipe pode ser visto com ou sem som, tanto faz…

Então fica meu apelo: feche um poucos os olhos. Apenas ouça. A verdadeira música independe da imagem.

Manifesto do homem sensível

Existe um tipo de homem, heterossexual, que pode ser de qualquer etnia, credo e classe social, que sofre muito com a forma do mundo ser por não se encaixar em nenhum modelo. Por ser mais comedido em suas ações, o homem sensível muitas vezes passa despercebido, em outras tem sua sexualidade contestada, por não ter o gestual mais enrijecido como os héteros convencionais. Esse tipo raro sofre com a desadaptação da forma. É difícil pra ele cortejar uma mulher, pois ele a respeita muito e não quer ser grosseiro. Ele se interessa em silêncio. É comum esse homem ser tímido, o que piora essa aproximação. Dentro de sua cabeça há uma realidade construída própria, onde ele se vê com a pretendida (que é sempre uma escolhida por apresentar um conjunto de características que lhe completa, em teoria).

Esse homem também tem poucos e fiéis amigos, pessoas que ele conseguiu construir laços de amizade que se solidificaram com o tempo e a conquista da confiança. Com esses, ele consegue estar mais a vontade para desmontar a armadura que veste todos os dias para enfrentar a vida como ela é. Assim ele pode expressar suas emoções e gostos. Não precisa se preocupar em não “dar pinta” daquilo que ele não é. Pode produzir hipérboles e exageros de expressão, porque afinal ele é sensível, logo muito emotivo. Inteligência e cultura bem desenvolvida são características comuns deles. Quando se interessam por uma mulher, buscam a aproximação através da amizade e da convivência, pois sonham em tudo fluir naturalmente para uma relação. Porém, normalmente caem na “friendzone” e acabam por escutar histórias da “amiga” sobre seus rolos com homens convencionais.

Eles são confusos, muitas vezes difíceis de lidar por já estarem meio azedados com as decepções da vida. Acabam por não conseguir da continuidade nos relacionamentos que não caem na zona de amizade, pois sua sensibilidade não é dura o suficiente para suportar o emocional feminino.

Muitas vezes eles se questionam sobre sua orientação sexual, tamanha a dificuldade que tem a rotulação que sofrem. São muitas vezes confundidos com homossexuais que ainda não se assumiram para si mesmos. A pressão é grande, mas o gatilho do desejo é hétero, logo acabam por viver consumindo às vezes mais pornografia que os homens convencionais. A pornografia acaba se tornando um território seguro, onde a sexualidade pode ser exercida sem o risco do sofrimento afetivo, mas é sempre solitária, produzindo um vazio afetivo enorme no pós-sexo.

São capazes de escrever poesia para a amada, mandar flores, sempre com a intenção de agradar e conquistar o coração da mulher, o corpo e o sexo são consequência dessa conquista.

Esses homens, se bem entendidos, são verdadeiras joias para mulheres que querem um relacionamento duradouro construído com respeito. Eles não traem, jamais. São capazes de resistir à investida de uma sex simbol que ele já pode ter fantasiado várias vezes, mas estando em um relacionamento, sua ética e moral são mais fortes que a tentação física, não traem porque simplesmente acham que podem ferir sua parceira. O que não significa que não se sentem atraídos. Trair para eles é como pegar dinheiro em uma carteira de alguém.

Eles ligam no dia seguinte e ficam inseguros sobre o que dizer e a que horas devem ligar. Nunca se interessam por relações fugazes sem compromisso ou de uma noite só. São capazes de escrever poesia para a amada, mandar flores, sempre com a intenção de agradar e conquistar o coração da mulher, o corpo e o sexo são consequência dessa conquista.

São grandes amigos (tenho dois exemplares desses), os melhores na verdade. Sempre estão dispostos, dão valor a amizade, são excelentes ouvintes, pouco julgam o outro com seus próprios valores e possuem uma capacidade incrível de se colocar no lugar do outro para entender as coisas.

Tentam muitas vezes serem diferentes e ensaiam se tornar mais convencionais, durões, menos confusos. Mas em 99,9 % das vezes se machucam e se recolhem com a experiência mal sucedida.

Eternamente questionam como os convencionais e os chamados cafajestes sempre conseguem o que querem. Até entendem a relação de desejo e falta como base da sociedade e das relações, mas não concordam com ela. Não são caçadores, são agricultores calmos e veem em cada mulher idealizada uma semente com potência de futuro.

A esses poucos e bons, que são uma espécie de efeito colateral do mundo materialista e ligado à forma e não ao conteúdo em que vivemos, deixo meu abraço (eles adoram carinho!) e a força para continuar na luta. Desistir não é um caminho, pois se perde a identidade. Não é fácil ser a tanta exceção de um mundo cheio de regras e formalidades. E que outros homens se espelhem nesses para ao menos se livrar de conceitos e regras datadas e totalmente questionáveis. Que o cisco no olho se transforme em lágrima verdadeira. Homem chora sim e não é menos hétero por isso.

Moleque abusado

O Brasil é um celeiro de fantásticos violonistas. Muitos deles já estão tangendo suas cordas em outras dimensões: João Pernambuco, Garoto, Meira, Dino Sete Cordas, Baden Powell. Outros tantos seguem por aqui nos encantando: Zé Menezes, Turíbio Santos, Maurício Carrilho, Marco Pereira, Yamandú Costa. Mas dentre todos esses, vivos ou mortos, existe um que para mim tem um carisma especial: Rafael Rabello. Talvez seja o fato de ter sido o pioneiro no uso do violão de 7 cordas como solista, ou sua técnica, exuberante e visceral, ou quem sabe seu estigma para a precocidade; não sei o quê é, mas algo no Rafael me chama atenção mais do que em qualquer outro violonista que já ouvi. À sua vida, sua obra e sua memória eu dedico este artigo. Aperte o play e boa leitura!

Os primeiros anos

Rafael Baptista Rabello nasceu na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1962. Era caçula de uma família numerosa e musical, vocação que duas de suas irmãs também seguiram profissionalmente: Luciana Rabello é cavaquinista e Amélia Rabello é cantora. Desde cedo Rafael demonstrou inclinação para o violão, e seu crescimento no instrumento foi vertiginoso. Rick Ventura (violonista falecido em 2008, professor da faculdade de música da Unirio) deu aulas informais à Rafael quando este era ainda uma criança de seus 10 anos de idade, e contou em uma entrevista que em poucos meses Rafael aprendeu vários de seus solos para violão e, confessava sem a menor vaidade, “já conseguia me superar visivelmente”. Era o estigma da precocidade. A estréia em disco veio aos 15 anos, em 1977, já tocando violão de sete cordas, com o grupo Os Carioquinhas, num LP chamado “Os Carioquinhas no choro”. Este grupo jovem e de curtíssima carreira (só gravou este disco) também contava com a irmã Luciana Rabello no cavaquinho e Maurício Carrilho no violão – dois dos maiores mestres do Choro da atualidade. A partir daí Rafael deu prosseguimento à sua trajetória, trabalhando como músico de estúdio e participando ativamente da formação e dos primeiros anos de um dos mais importantes grupos de Choro já surgidos, a Camerata Carioca. A primeiro disco como solista é lançado 1982, intitulado “Rafael Sete Cordas” – nome artístico que logo abandonaria. Vale neste ponto contar uma curiosidade: o nome de batismo é Rafael, com F, e esta é a grafia adotada nos primeiros discos, “Rafael Rabello”; mas a partir de 1989 começa também a aparecer em alguns trabalhos a grafia com PH, “Raphael Rabello”.

A importância da obra

O violão de Rafael impressiona não só pelo virtuosismo e altíssimo grau técnico, mas sobretudo pelo bom gosto e pela capacidade de sintetizar e levar adiante o legado de seus antecessores na escola do violão brasileiro –  músicos como João Pernambuco, Dilermando Reis e Dino Sete Cordas (seu maior ídolo, com quem viria a gravar um disco antológico em 1991). Como acompanhador ou como solista, Rafael demonstrava uma maturidade artística acima da média, sobretudo nos seus trabalhos a partir de 1989 (tinha então 27 anos). Com sua raiz no universo do Choro, o violão do Rafael era exuberante também no Samba, na Bossa-Nova (gravou em 1992 um disco inteiramente dedicado à Tom Jobim, chamado “Todos os tons”) e tinha também influência da música Flamenca, o que lhe conferiu uma “agressividade” na pegada que não é tão comum em violonistas brasileiros. Era, inclusive, amigo do violonista espanhol Paco de Lucía, mestre do gênero, que escreveu sobre Rafael na contracapa do LP “Rafael Rabello interpreta Radamés Gnatalli” (lançado em 1982 e dedicado à obra violonística do maestro): “me parece um dos melhores instrumentistas que ouço em muito tempo. Ele é um desses violonistas que te dá a impressão de ter superado a dependência técnica do instrumento, e por isso sua música vai diretamente de sua barriga ao coração da gente que o admira.”

Rafael e Dino Sete Cordas, dois violões fundamentais em nossa música.
Rafael e Dino Sete Cordas, dois violões fundamentais em nossa música.

Foi dos pioneiros no uso do violão de sete cordas como solista (instrumento até então usado quase exclusivamente para acompanhamento) e em sua breve carreira lançou 14 discos com seu nome, alguns em parcerias inesquecíveis, como “Todo o sentimento”, de 1991, com a cantora Elizeth Cardoso, a divina, e “Dois irmãos”, de 1992, com o clarinetista e saxofonista Paulo Moura. Participou de centenas de gravações e shows com grandes nomes da música popular brasileira como Tom Jobim, João Nogueira, Clara Nunes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Toquinho, Ney Matogrosso, Gal Costa e Marisa Monte. Foram ainda lançados alguns discos com material inédito após sua morte: dois em parceria com o bandolinista e também virtuose Armandinho, um de voz e violão em parceria com a irmã Amélia Rabello, um com vários convidados e dedicado à obra do compositor Capiba, e o mais recente reunindo gravações feitas no curto tempo em que morou nos Estados Unidos, intitulado “Cry my guitar”, com repertório de Choros.

Um acidente muda a história

Em 1989 Rafael sofreu um acidente no Rio: o motorista do táxi onde estava furou um sinal de trânsito e o lado do passageiro acabou atingido por outro carro; Rafael sofreu fraturas múltiplas no braço direito. Levado para um hospital público, o médico que o atendeu queria amputar o membro (!) mas a família chegou a tempo de transferi-lo para uma clínica privada, onde foi submetido à uma delicada cirurgia onde recebeu vários pinos metálicos para reconstituir o braço. A previsão médica era que levasse um ano para que Rafael readquirisse plenamente a mobilidade geral e habilidade da mão direita ao violão, mas sua tenacidade e dedicação na recuperação o permitiram voltar a tocar em apenas quatro meses, e ─ dizem ─ ainda melhor do que antes. Curiosamente um drama semelhante (talvez menos intenso) ocorreu com outro mestre do Choro: no começo da década de 1970 o cavaquinista Waldir Azevedo (autor do Brasileirinho) perdeu a ponta do dedo anelar da mão esquerda num acidente com um cortador de grama. A ponta do dedo foi reimplantada cirurgicamente e Waldir pôde voltar a tocar, ainda melhor do que antes ─ também dizem.

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O drama de Rafael, porém, estava longe de terminar. Pelo contrário, o acidente foi o episódio que mudou de forma brusca sua trajetória, e que desencadeou os comportamentos que possivelmente encurtaram sua vida. Em 1991, quando buscava orientação para um regime de emagrecimento, o médico estranhou os resultados de seu hemograma e pediu novos exames onde foi diagnosticada contaminação pelo vírus HIV. Rafael estava com aids, certamente contraída nos primeiros socorros e transfusão de sangue que recebera quando do acidente, dois anos antes. Naquela época, muito mais  do que hoje, um atestado de soropositivo era uma sentença de morte: os medicamentos que atualmente converteram a aids numa “doença crônica” ainda não eram tão eficientes. Desesperado pela perspectiva de uma morte próxima, ainda que incerta, Rafael queria correr contra o tempo, colocar em prática todas as ideias artísticas que tinha; somado a isso todo o abalo psicológico que naturalmente sofreu, Rafael acabou caindo no vício das drogas, sobretudo anfetaminas e cocaína. Sua carreira prosseguiu com o mesmo brilho, mas sua saúde e vida pessoal começaram a declinar a partir daí. Segundo um de seus irmãos, o jornalista Ruy Fabiano, em matéria para o Correio Braziliense de dezembro de 1996, os dois últimos anos de Rafael foram os mais devastadores do seu vício. Chegou a ser internado para desintoxicação em maio de 1994, sem sucesso. Um mês depois apareceu a oportunidade para trabalhar nos Estados Unidos, através do violonista brasileiro Laurindo de Almeida. Rafael mudou-se, começou a tocar, gravar e lecionar num faculdade de música de Los Angeles, e deu início a um afastamento das drogas. No entanto, de volta ao Brasil no começo de 1995 para as gravações do trabalho sobre a o obra do compositor Capiba, Rafael voltou também ao ambiente de drogas que havia deixado: caiu de novo no vício. A família interveio, internando-o mais uma vez para desintoxicação, mas seu estado de saúde já estava muito deteriorado. Rafael morreu em 27 de abril de 1995, uma semana após a internação e, contraditoriamente, um dia após os médicos atestarem como “ótimo” seu processo de recuperação. O silêncio da família foi terreno fértil para boatos sobre a causa da morte: os mais comuns diziam que fora vítima de aids, de overdose, ou até que teria cometido suicídio. Na verdade a doença não chegou a se desenvolver, e Rafael até apresentava sobre-peso. Em sua matéria, Ruy Fabiano afirma que seu irmão sofreu um infarto no quarto da clínica onde estava internado, e mais adiante nos diz que também teria sofrido uma apnéia durante o sono, mal do qual sofria, dando a entender que os dois problemas associados teriam sido fatais.

Se vivo, Rafael completaria 52 anos neste ano, decerto ainda hábil para a música, atividade onde a longevidade costuma trazer mais vantagens que desvantagens. O quê ele estaria fazendo, aonde teria chegado, o quê mais teria nos mostrado se o destino fosse diferente? Rafael está no grupo de gênios que partiram cedo e deixaram o doloroso vazio do que nem chegaram a fazer. Noel Rosa, Garoto, Clara Nunes, Elis Regina. O que mais teriam feito? Nunca saberemos… Nos resta o consolo das coisas lindas que nos trouxeram. Obrigado, Rafa!

Discografia
– Os Carioquinhas no choro – Os Carioquinhas (1977).
– Tributo a Jacob do Bandolim – Radamés Gnatalli, Joel Nascimento e Camerata Carioca (1979).
– Rafael Sete Cordas (1982).
– Tributo a Garoto – Radamés Gnatalli e Rafael Rabello (1982).
– Rafael Rabello interpreta Radamés Gnatalli (1987).
– Rafael Rabello (1988) (álbum conhecido como “Lamentos do morro”)
– A voz e o violão ao vivo – Nelson Gonçalves e Rafael Rabello (1989).
– Retratos, Radamés Gnatalli – Chiquinho do Acordeon, Rafael Rabello e Orquestra de Cordas Brasileira (1990).
– À flor da pele – Ney Matogrosso e Rafael Rabello (1990).
– Rafael Rabello e Dino Sete Cordas (1991).
– Todo o sentimento – Elizeth Cardoso e Rafael Rabello (1991).
– Shades of Rio – Romero Lubambo e Rafael Rabello (1992).
– Todos os tons – Rafael Rabello (1992).
– Dois irmãos – Paulo Moura e Rafael Rabello (1992).
– Delicatesse – Rafael Rabello e Déo Rian (1993).
– Relendo Dilermando Reis – Rafael Rabello (1994).
 
Lançamentos póstumos:
– Brasil musical, série viva música – Armandinho e Rafael Rabello (1996).
– Rafael Rabello e Armandinho em concerto (1997)
– Todas as canções – Rafael Rabello e Amélia Rabello (2001).
– Mestre Capiba – Rafael Rabello e convidados (2002).
– Cry my guitar – Rafael Rabello (2005).
 

E mais centenas de participações em álbuns de outros artistas…

[infobox bg=”green” color=”white” opacity=”off” subtitle=”O título deste artigo é uma forma de homenagear, por tabela, o violonista Luiz Otávio Braga, meu mestre querido, contemporâneo e companheiro de Rafael na primeira formação da Camerata Carioca. Numa aula em que conversávamos sobre Rafael, Luiz disse em tom saudoso e admirado: ‘ O moleque era abusado… ‘ “]Em tempo:[/infobox]

French Film Festival

Gosta de filme francês? Então essa dica é pra você! Está acontecendo a 4ª edição do My French Film Festival. Onde? Na sua casa! O festival acontece online e é gratuito para o Brasil. Há 10 longas-metragens e 10 curtas-metragens em competição, e também dois longas-metragens e um curta-metragem fora de competição (de todos, somente dois não tiveram direitos de difusão para o Brasil). Os filmes estarão disponíveis até o dia 17 de fevereiro, e com legenda em português.

A ideia do festival é promover a produção cinematográfica francesa e o também o ensino do francês como língua estrangeira. Como minha obsessão pela França não tem limites, estou adorando! Não esqueça de dar sua nota para os filmes, um dos prêmios é o Prêmio do Público.

www.myfrenchfilmfestival.com