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Ouroboros

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Dia desses alguém postou na internet: “Feliz ano novo”. Esse fato não aconteceu, obviamente, em 1° de janeiro (afinal Nothing changes on New Year’s Day) e sim logo após o encerramento do carnaval. É uma tradição! Digo, a tradição se dá tanto pelo carnaval, secular em sua ritualística sacro profana, quanto pelo fato de se declarar o réveillon após seu término. “No Brasil o ano só começa depois do carnaval”. Quantas vezes você já ouviu isso? E agora vamos refletir juntos, quantas vezes você ainda ouvirá?

Os rituais do calendário estavam, estão e estarão lá para nos permitir apascentar em segurança nossas vidas pequeninas, como um camponês medieval compreendendo da mudança lenta das constelações em sua vigília noturna, que tudo se repetirá agora. O Tempo passante talvez só exista em nossas saudades. O que vivenciamos, o que experimentamos é muito menos uma dança de entropia e muito mais algo próximo do bailado do eterno retorno. Somos maré, elipses, ressurgência. Estamos todos atados aos ciclos. Ciclos da natureza, da sociedade e da cultura, ciclos hormonais, psíquicos, espirituais.

Mudam as estações, a moda, a linguagem, os governos. Enrugam as faces, tombam as montanhas, desviam-se os rios, a techné cria novos meios, o mundo se convulsiona. Mas as aves continuam a regressar em seus processos migratórios, tal qual a fênix.

Os ciclos são padrões que identificamos e fazemos deles o feijão com arroz dos nossos dias. O genial músico e poeta Belchior cantou que “O novo sempre vem”, mas se ele, o novo, sempre vem, então cadê a novidade? Tudo que é inédito, em seu ineditismo é antigo. Um dos mais interessantes livros da Bíblia está no antigo testamento, o Eclesiastes, onde sábios hebreus já diziam: “Não há nada de novo sob o sol”. Pois é seu Agenor… O Tempo não passa!

Daqui até daqui a pouco você reencontrará o imposto de renda, as marcas do coelho da páscoa no chão da Dinda para alegria da criançada, o engarrafamento de domingo do almoço do dia das mães, as festas juninas do reinado do xadrez, o dia do saiu pra comprar cigarro e não voltou, o desfile cívico, o Halloween é o c. Aqui é saci! A promoção da metade do dobro, e antes que você possa correr pra rede dizer “já?” Alguém estará postando que é Natal na Leader Magazine.

Vejo um velho caminhão enguiçado em um posto de combustível abandonado, na lona do para-choque bem poderia estar escrito “Plus ça change, plus c’est la même chose”.
Feliz ano galera. Bora marcar um chopp. Quando? Um dia desses.

A nova geração de fotógrafos urbanos

A rotina ao longo do ano de 2020 pode se resumir a fazer muitas coisas, mas grande parte delas em frente a uma tela de computador ou celular. Por conta do isolamento social causado pela pandemia de Covid-19, o trabalho, as conversas com amigos e até mesmo o contato com a arte tiveram que ser digitalizados por tempo indefinido. Para mim, que já passava bom tempo em frente de uma tela foi uma oportunidade de descobrir trabalhos novos em diferentes áreas ou até mesmo explorar novas perspectivas nos meios que já conheço.

Foi nesse contexto pude conhecer alguns fotógrafos que tinham um trabalho notável (na minha humilde opinião) em diferentes estilos. Alguns deles conseguiram expandir bastante seu publico graças ao mercado de NFTs, a grande novidade tecnológica e artística do ano de 2020 e que se não fizeram eles mais ricos, pelo menos os deixaram mais famosos. Sendo assim, decidi separar alguns deles que se destacam no trabalho de Street photography, gênero no qual o urbano e o humano conversam muito dentro das composições:

Billy Dinh

Criado no Brooklyn, em Nova York, Billy Dinh é um fotografo de pouco mais de 5 anos de carreira. Seu trabalho consegue juntar o particular, o peculiar e o mundano sob a uma luz única e um enquadramento certeiro. Sempre formulando “imagens de um filme chamado vida”, como sua bio no Instagram descreve.

Por morar na cidade grande, muito de seu trabalho se resume as ruas dos diferentes bairros da cidade que adotou como playground. Sempre mostrando o encaixe entre as pessoas e os espaços. Porém Billy tem trabalhos feitos em outros ambientes, como Cuba e a Índia:

Para conhecer mais o trabalho de Billy siga-o no Instagram.

Monaris

Moradora da vizinha Nova Jersey, Paola Franqui, mais conhecida como Monaris é uma fotografa Porto-riquenha embaixadora da Sony e da Lightroom. Também com a cidade grande como ambiente de seu trabalho, Monaris se foca muito em tentar capturar o mais íntimo das pessoas em meio a paisagem que os cerca. Focando muito em expressões, gestos e posturas dos que estão presentes ao seu redor:

Mais recentemente, ela realizou um trabalho somente composto de “mãos atadas”, mostrando como poucos detalhes podem ilustrar muito bem uma pessoa:

Assim como Billy, Monaris não se limita a apenas a paisagem novaiorquina, tendo fotos feitas na India, Italia e até no Brasil:

Monaris também usa o Instagram para divulgar suas obras.

Alan Schaller

Morador de Londres, o britânico Alan Schaller é um fotografo e colunista, embaixador da Leica. Seu trabalho se baseia no Street para seguir por vertentes geométricas e até um pouco surrealistas. Sempre fotografando em preto e branco e, algumas vezes, em analógico suas obras conseguem usar o contraste de luz e sombra ao seu favor. Construindo um espaço novo, não antes imaginado a olho nu:

Além do seu trabalho próprio, Alan é co-fundador do Street Photography International – (Instagram aqui). Um coletivo de fotógrafos que promove prêmios e divulgações para diferentes fotógrafos ao redor do mundo.

Para conhecer mais o trabalho de Alan siga-o no Instagram.

Mark Fearnley

Também Britânico, Mark Fearnley é um pintor que decidiu trocar as telas pela câmera como uma forma de expandir sua criatividade. Mesmo tendo diferentes abordagens, suas composições muitas vezes deixam de lado o elemento humano e se focam mais na parte do espaço. Usando pessoas como unidade de medida da escala e do desenho dos espaços arquitetônicos que os cercam. Além do trabalho notável como fotografo, Mark realiza constantes workshops em Londres, onde compartilha de sua experiência com street photography.

Para conhecer mais siga o Instagram de Mark.

Honra mais limpa

Esse desenho aí é uma nova versão, um remake, só um pouco mais bem acabado, de um outro que foi publicado no Pasquim nos anos 1980. Mas a ideia era a mesma. Os otimistas, como eu, sempre acham que um dia as coisas vão melhorar. Mas, daqueles tempos para cá, a única coisa que mudou foi que agora nós temos um novo nome (feminicídio) para um velho problema. E eu, na minha ingenuidade, achava que o desenho ia ficar obsoleto e datado. Também porque fazia referência a um tipo de publicidade antiga, muito comum no século passado, para vender sabão em pó. Mas, infelizmente, esse desenho de humor ainda está dentro do prazo de validade, porque a boçalidade contra as mulheres continua aí, na área. E os antigos anúncios de sabão em pó ainda estão na memória de muita gente.

Só mais um detalhe: Antes do Omo, aqui no Brasil existiu um outro sabão em pó, o Rinso, lançado no início dos anos 1950, e que já usava o mesmo tipo de anúncio.

sabão em pó Rinso

Apocalipse maceta o coração

Não sou muito afeito em inventar desafios, mas os pensamentos intrusos que me atormentam são. Não por outra razão, esses visigodos frenéticos sedentos por atenção me obrigaram a assistir novamente, e mais uma vez, o famigerado “Apocalypse Now”.

Livro Coração das Trevas

Como odeio ser manipulado por esses selvagens, cativo dos seus termos, resolvi acrescentar uma nova condição; ler o livro que serviu de inspiração para Coppola.

Trata-se de Coração das Trevas do Joseph Conrad, que narra a jornada de Marlowe pelo Congo “belga” (com aspas e minúscula, seus pilantras), até seu encontro com o Sr. Kurtz (uma espécie de Baby Consuelo bem menos fundamentalista), tão misterioso e fascinante quanto na obra cinematográfica. Ao reler o clássico e rever o filme, achei a narrativa bem menos enfadonha e plenamente justificável. Inclusive a viagem náutica demorada do Capitão Wilard interpretado por Martin Sheen.

Embora seja impossível, e desleal, descontextualizar as duas obras, creio que Francis Coppola deu um ritmo insano ao marasmo original e foi magistral nos seus “preenchimentos” dos tons lacônicos e hermético de Conrad. Basta notar a icônica cena da “Cavalgada das Valquírias” com seus helicópteros de guerra destruindo tudo que não seja surfistas alistados pelo Ten. Coronel. Kilgore.

Assista o trailer (se quiser), com uma pequena introdução do Copola sobre o “final cut”.

Martin Sheen pronto pra Macetar o Marlon Brando

Em suma, pega o “logline” de “Coração das Trevas” e cria uma odisseia original e criativa.
Ou seja, não é uma adaptação. É um impulso, uma referência, um explosivo estopim.
Portanto, são duas histórias distintas, mesmo que conservem semelhança em sua essência.
Por fim, ainda que tenha enorme apreço pelos inícios, por tudo que antecede uma maravilha…

Meu veredicto é: ainda prefiro “o cheiro de Napalm pela manhã.”

Desculpe-me, Ivete, mas aqui o Apocalipse macetou o Coração!

Brainless

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Um professor caminha pela sala entre os alunos do terceiro ano. “Galera, a parada é a seguinte, vou passar um trabalho de pesquisa pra subir essas notas fuleiras de vocês no diário. Cada um me traz um texto fichamento da internet com a biografia resumida de um político brasileiro. Você, Collor. Você aí, José Sarney. A senhorita, Getúlio Vargas…” Uma semana depois, cadernos na mesa, ritual de vistos e pontuação. Eis que então uma das folhas traz o título: Emílio Carrasco Azul Médici. “Fulano vem aqui!”, “Fala fessor”, “Ô abençoado, que desgraça é essa de Carrasco Azul?”, “Ué fessor, foi o tema que o senhor me passou”. “Garrastazu! Eu falei Garrastazu!”. E o mais interessante de tudo foi quando o professor verificou a fonte: ChatGPT.
A inteligência artificial à serviço do caos.

Imaginaríamos que Wintermute, a IA do profético livro Neuromancer lançado em 1984, cometeria esse tipo de vacilo? Em que linha do roteiro de Ghost in The Shell apareceria tamanha tosqueira?
É assim que as máquinas dominarão a humanidade? Espelhando nosso desconhecimento?
Adolescentes no ensino médio já entenderam há tempos que os caminhos para suas tarefas escolares passam por sites e aplicativos que não lhes fazem trabalhar para compreender aquilo que em tese deveriam pesquisar. O aplicativo Brainly, por exemplo, possui um recurso onde se pode fotografar a página e ele fornece a resposta, ou seja, nem as questões os jovens estão lendo mais.

Cabe também a autocrítica do profissional de educação que necessita entender a mudança drástica que estamos todos passando com a revolução na forma de se obter informação. Um desafio hercúleo se apresenta, e não está claro para onde caminhamos nessa nova era de inteligências artificiais e ignorâncias orgânicas, mas já foi dito que para nos encontrarmos, seja como indivíduos ou espécie, precisamos antes nos perder, parte dessa empreitada parece que estamos conseguindo com maestria.
Estejamos atentos e fortes para os novos dias, porque o novo, o novo sempre vem. E que nunca nos falte amor humor e coragem, caso um Carrasco Azul apareça pela frente.

* * *

Ilustrado por:

Paulo Ferreira

paulo_pb

Designer profissionalmente… porém é fotógrafo, ilustrador, mergulhador, montanhista, surfista, músico, mecânico e por ai vai nos fins de semana. Curte automobilismo, bicicletas, skates… E sofre de déficit de atenção!

Outros Brasis da ficção científica

Nota da Comunidade:

Tendo em vista que o tema dessa edição da revista Trevous é inteligência artificial, penso ser oportuno, e necessário, advertir que esse texto foi escrito por uma estupidez genuína, natural, que se alimenta de um banco de dados preguiçoso, ultrajante e com severa deficiência proteica. Ruim, mas bem original.

This is the end, my only friend, the end. Sim, todos sabem, ou deveriam saber que o mundo está muito próximo do fim. A Sibéria pega fogo, as calotas polares derretem e os jovens se comunicam por dancinhas sincronizadas. Sim, Nostradamus previu tudo, exceto o TikTok.
Mas nem tudo são meteoros incandescentes, oceanos revoltos e bilionários fugindo para espaço. Há esperança? Não. Mas há bom entretenimento para anestesiar os bem-aventurados nesse final inevitável. Dentre eles, o mais urgente: “Outros Brasis da Ficção Cientifica”, vencedor do Prêmio Argos de Ficção Científica na categoria Melhor Antologia, organizado por Davenir Viganon, uma espécie de Câmara Cascudo do gênero e criador do canal Diário de Anarres.

Nosso Organizador Charmoso
Nosso Organizador Charmoso
Segundo melhor canal de Resenhas Literárias do Youtube!
Segundo melhor canal de Resenhas Literárias do Youtube!

A capa belíssima é uma concepção original de Pedro Viana e a revisão é de Lucas Lira. A produção pertence a Caligo Editora, que em termos juventudicamente emojianos é a nossa Pixar!

A antologia é composta por 13 contos sensacionais e um mais ou menos, que não por acaso é de minha autoria. E antes que você feche essa página e comece a cantar “marmelada” para a tela do seu monitor, cumpre salientar que meu envio foi feito de forma anônima. Ou seja, se participo desta coleção é por mérito do Organizador, que sabiamente me escolheu pelo talento e não pelo meu enorme carisma.

O primeiro conto é “Atlantic” da Lady Sybilla. Nele o leitor desenvolve logo de cara aquela sensação de que “vai dar ruim”, e esse sentimento vai escalando em momentos cada vez mais tensos, juntando o insólito e o avanço tecnológico numa espécie de Tenet, só que bom! Na trama, os personagens são obrigados a acreditar no seu próprio “Eu consumidor do futuro”. Sem receio de estar equivocado, é possível dizer que ele tem cara de um ótimo episódio do longevo Twilight Zone ou do consagrado Black Mirror.

Twilight Zone e Black Mirror

“Álcool, formigas e um punhado de colhões”, desse idiota que vos escreve, traz um mundo devastado onde índios implacáveis, traficantes destiladores e mulheres audazes brigam por um espaço no livro dos vivos. É um conto singelo e ordinário em um universo repleto de especialistas no riscado. No entanto, imagine uma missão espacial para salvar a humanidade e, não por outra razão, resolvem chamar os maiores cientistas do mundo. Só que em determinado momento, esses gênios percebem que precisam de alguém para passar o cafezinho, trocar a pilha da lanterna ou lavar o banheiro. Em suma, como diria Rei Robert “esse cara sou eu”. O sujeito que sabe usar uma broca, tipo o Bruce Willis lá naquele filme, saca? I could stay awake just to hear you breathing”, só que eu não morro no final. Aliás, depende, pois não sei em que ano você está lendo essa proscrita resenha.

“O Bará de Marte” do Davenir Viganon, alterna suas narrativas em uma linguagem rápida nas ações, no ritmo do corre, das ruas, e outra mais sofisticada, apurada, que faz pequenas revelações com vagar misterioso. E, mesmo tendo um apelo forte do suspense marginal, aborda pontos de reflexão como o inevitável futuro da precarização das relações de trabalho, ocasião em que sai o motoboy e entra o droneboy. Razão pela qual é fácil constatar que nossos grandes problemas não são de ordem espacial, tampouco temporal, eles são frutos da exploração da mão-de-obra, que acompanha o tal progresso civilizatório. Há também uma sorte de referências da mitologia dos orixás, com especial destaque a chave do Bará, que contém uma profecia que poderia ser o estopim para uma revolução. Será? Espero que sim, porque eu não tô aguentando mais.

Agora peço que você, leitor, idealize um mundo no qual o sexo é proibido. Bom, se você é um padre, não é tão difícil imaginar. Mas o que um padre estaria fazendo aqui, não é mesmo, Caco? Enfim, deixando essas perguntas cretinas de lado, é muito importante dizer que “O Pênis de Apolo” da Romy Schinzare, é um total arraso. Para não facilitar nosso raciocínio, é óbvio que a primeira instituição a ser contra essa proibição seria justamente a Igreja. A autora parte de uma premissa Saramaguiana que parece absurda, mas, em seguida, constrói sua história bem plausível e lógica dentro deste universo. Há sim uma ótima mistura do insólito das obras do José português, como As intermitências da morte, aliada ao estilo despojado de Verissimo e a deliciosa sem-vergonhice de João Ubaldo Ribeiro.

Sexo na Cabeça, a casa dos budas ditosos e as intermitencias da morte

“Em busca do espaço perdido” do Fábio Fernandes, se passa no ano de 2039, período em que já é comum o uso das dobras do espaço. A narrativa é levemente conduzida pela relação de João e Maria, vizinhos cara metades, metades da laranja bem mais física do que Fábio Júnior gostaria de reconhecer, e possuem uma conexão que remonta a “Eduardo e Mônica”, em uma dinâmica em que João é mais pragmático e Maria mais sonhadora. Recheado de ótimos diálogos e muitas referências, que vão desde Glauber Rocha à Buñuel, o grande diretor de O Anjo Exterminador. Ah, dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo? Não sei. Mas acho que você merece descobrir.

El Angel Exterminador, Terra em Transe

Da mente de Maria Eduarda Amadeu surge “As Engrenagens do Coração” que talvez seja o conto menos espetaculoso desta coletânea, embora muito mais sensível do que os seus pares. Com singeleza, trata da efemeridade da vida, mesmo daquelas alongadas de forma artificial. Conduzida pela perspectiva de uma garota, traz em suas linhas o peso do mundo que todo jovem carrega em suas costas. Na parte técnica é importante ressaltar que linguagem e proposta se aninham perfeitamente.

Em “Um taura e seu carma quântico” do Gilson Cunha, o entretenimento mostra sua cara. Numa espécie de episódio piloto de uma saga muito maior, Alfredo é um viajante do tempo, um protagonista marcante que participa de eventos históricos de modo muito casual e viaja em sua Kombi especial, Cremilda, que é tipo um DeLorean, meio máquina do tempo do Julio Verne, meio cabine telefônica do Bil e Ted, num esquema “eu nasci há dez mil anos atrás”, no entanto, bem menos contemplativo e com interferências significativas na jornada da humanidade. É um conto pipoca divertido e bem engendrado.

Ricardo Celestino, que já esteve por aqui, entrega uma história independente dentro do universo do Até que a brisa da manhã necrose teu sistema.  Escondido, ou melhor, atenuado sob o horror visceral do grotesco, emerge uma crítica sagaz ao capitalismo aniquilador de um futuro que já pode ser tocado. E o que você precisa saber para ingressar de cabeça nesse episódio chamado “Sobre a fé de um andante que teve a cara mastigada”? Que todo mundo é carne! Se você anda na linha, você é uma carne cidadã, com certos direitos, não tantos, com uma falsa segurança, digamos assim. Contudo, se você pisa na bola, dá mole, você vira bife, malandro. Seu horizonte inevitável é a transmutação da matéria, de corpo e mente para suculento pedaço de maminha, lagarto ou cupim distribuídos nos açougues de uma São Paulo esfomeada. Um lugar sanguinário onde protestar dívidas é um conto de fadas, enquanto mastigar sua cara para saldar os débitos é uma prática legitima. Aliás, essa é uma oportunidade ímpar para perguntar, você já considerou o vegetarianismo? Conto vencedor do Prêmio Argos de Ficção Cientifica.

“Flores de Marte” da Claudia Dugim é um grande acerto. Primeiramente em razão de sua imprevisibilidade, segundamente pela sua autenticidade e, terceiramente e não menos importante, pela sua condução desavergonhada, no melhor sentido da palavra. A história trata o sexo de forma natural, tal como deve ser. É imersivo, com formas e cores que impactam. Uma espécie de Wall-E só para adultos, como uma trilha supimpa do Marvin Gaye, do Barry White, ou do Wando, perfilada à psicodelia dos Besouros do “We all live in a yellow submarine”. Corajosamente trata de gêneros (que todo robô é um psicopata, já sabíamos graças ao Ricardo Gondim, mas qual é o seu gênero? O que ele quiser, oras!). Portanto, vamos parar de discutir o sexo dos anjos, para falarmos dos gêneros das máquinas. Afinal, as máquinas existem. Ou melhor, vamos fazer um grande acordo, com Supremo, com tudo, e deixar as pessoas e máquinas serem felizes como bem entenderem, fechou?

Daniel Borba, que não é gato e continua de pé, apresenta o seu “Reunião”. Um trágico relato destacando o que há de mais distópico e absurdo no mundo, tal qual um governo da extrema direita. Com uma linguagem rápida e teor anedótico provocante, sarcástico e necessário, o autor marca sua posição nessa antologia, lembrando que a realidade é, muitas das vezes, mais estúpida e assustadora do que a maioria das ficções.

O horror predatório da natureza está presente em “Solarys” da fera Luiz Brás. O enredo é construído ao redor de Iracema e sua missão. Na realidade, a fuga de um lugar onde flora e fauna se tornaram homicidas implacáveis. Nesse ambiente ricamente descrito, tudo evoluiu de forma hostil, criando uma atmosfera mendaz que busca absorver o que estiver dando sopa! Tem um jeitão de filme da Netflix, só que bem legal! Meu único “porém” vai para um trecho que demonstra talvez o motivo estratégico do fracasso das civilizações: “Na frente vão os adultos com os motosserras laser. Atrás vão os idosos com os sabres elétricos. No meio vão as crianças e os adolescentes com os facões de cerâmica.” Um grupamento com essa sorte de tecnologia não pode colocar um facão de argila na mão de um jovem destemido, peloamor!

Lu Ain-Zaila chega causando com seu “Seis Letras”, onde a protagonista já me ganhou no primeiro parágrafo quando surgiu com a blusa do Frantz Fanon. Na história há um encontro aparentemente fortuito, que depois se mostra parte de uma profecia reveladora, com tons de advertência, na qual estranhos insistentes fazem a personagem duvidar de sua sanidade. São duas camadas: uma voltada para a ação, e outra para simbologia e representações. Há um discurso periférico muito legal que amarra bem toda a trama. O final surpreende positivamente, embora tenha sentido falta de um “fogo nos racistas”, mas, como asseverava o ex-marido da Luciana Gimenez; you can’t always get what you want”.

E se você que chegou até aqui e estava preocupado com a falta uma história de amor em tempos do cólera e de cólera, apresento o conto mais fofo deste acervo: “Temos nosso próprio tempo” do Rubens Angelo, que cria um futuro de ruínas, um cyber-punk com uma pegada blockbuster, numa grande aventura de sobrevivência. Com uma protagonista forte e um plot inesperado. Espécie de Antes do Amanhecer no meio do caos “Insurgente”. Se você não for um velho bobão e chato tenho certeza que vai suspirar.

O derradeiro caso que fecha com tranca de diamante o “Outros Brasis da Ficção Cientifica” é o incrível “Remontagem” do Gabriel C. Correia. Preciso admitir que essa história foi uma das minhas preferidas, muito em razão dos traços de genialidade insana, que me lembrou Machadão, da violência explícita ao melhor estilo Laranja Mecânica e o nonsense harmonioso tipo Graça Infinita do David Foster Wallace, em menor escala, obviamente. Afinal é um conto, pombas! Provavelmente o melhor protagonista de todo este livro.

Para você que chegou até aqui e com muita fé chegará ao final por lá também, leia a nota da editora Bia Machado, que encarna o mecenato moderno e impulsiona a literatura como missão de vida e, talvez, faça do mundo um lugar menos distópico. Quem sabe, faça até o mais canalha dos homens renovar sua fé na humanidade. Tá bom, não é para tanto, confesso.
Sim, permaneço um grande cretino.

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

Em uma escala de quilotons, não tenho medo em afirmar que esse livro tem a potência para exterminar as coisas mais nocivas desse mundo; como os parques da Disney, os institutos neoliberais e o imenso ego do Luciabo Huck.

* * *

Capa do livro "Outros Brasis da Ficção Científica"Título: Outros Brasis da Ficção Científica
Autor:  Davenir Viganon
Editora:  Caligo Editora
Ano: 2021

Compre o livro do Devanir Viganon

Stay With Me ganha clipe dirigido por dupla brasileira

Não sei se isso é uma prática comum, mas a minha forma de uso do YouTube é basicamente: ouvir/assistir clipes. Mas nem sempre existe um clipe “oficial” com qualidade da música em questão, principalmente se for muito antigo, daí e acabo assistindo apresentações em shows, participações em programas como o Tiny Desk Concert na NPR Music ou em alguma playlist tocada pelos convidados do My Analog Journal (inclusive em breve vou fazer um post sobre esse canal).

E numa dessas minhas pesquisas para assistir “Stay With Me” (não atoa foi uma das minhas músicas mais tocadas em 2023), me deparo entre os dois clipes: o original e uma outra versão (que eu curto mais), e um pouco mais abaixo na pesquisa, um clipe produzido em 2023! Não perdi tempo e já coloquei para assistir e fiquei de bobeira com a fotografia e atmosfera criada. E como sou do audiovisual, fui explorar os créditos para saber quem produziu. Em um primeiro momento não me toquei, mas ao ler a descrição do vídeo me surpreendi com a palavra: “The Brazilian duo” e pensei: “Será?”. Continuei a minha pesquisa de alguns cliques e descobri que as diretoras eram as brasileiras Maira e Lina, que assinaram a direção como Fridman Sisters.

Confira o clipe:

Pesquisando mais um pouco cheguei no site da Stink Filmes e vi que eles assinaram muitas produções publicitárias aqui no Brasil. Também encontrei o perfil dos dançarinos do clipe, Miyu e Boxer que estão em uma sincronia incrível. Fiquei animado de ver um clipe de uma música que eu gosto tanto produzido por brasileiras.

PS: Entrei contato com elas para entender melhor como foi produzir esse clipe. Quem sabe não rola uma entrevista aqui na Zine, será? 👀

BLTA

Você conhece o BLTA? BLTA é uma abreviação (em inglês) que representa um tipo específico de sanduíche, com quatro ingredientes principais: bacon (B – bacon), alface (L – lettuce), tomate (Tomato) e abacate (Avocado). Este sanduíche combina a crocância do bacon, a frescura da alface e do tomate, com a cremosidade do abacate. A adição desses ingredientes cria uma combinação de sabores e texturas diferenciada. Lembrando que o BLTA é uma variação saborosa do clássico BLT (bacon, alface e tomate), adicionando o toque único do abacate. Essa versão acaba dando ao sanduíche um toque light, quase eliminando a culpa de estar comendo bacon. 😎

BLT by tasteatlas
BLT tradicional por Taste Atlas

Antes de conhecer o “avocado“, para mim só existia um tipo de abacate. É verdade, eu tinha uma visão bem limitada das formas de comer: com açúcar ou batido com leite e as vezes um sacolé de abacate, mas é bem raro encontrar um bom a venda hoje em dia. E vamos combinar, pelo menos aqui no Brasil, nem para uma salada de frutas o verdão é convidado, concordam? Diz aí, você já viu algum doce de abacate? Ou sei lá, torta de abacate? Bolo de abacate? Pois é… Mas quando viajei para o Chile, tudo mudou. Ao contrário da maioria das pessoas que descobre o abacate como uma comida salgada através do guacamole, fui apresentado ao avocado lá pela primeira vez ao experimentar um cachorro quente conhecido como “completo“, que leva basicamente: pão, salsicha, tomate, maionese e avocado (catchup e mostarda a gosto) em sua versão mais básica. Se você rodar pelo Chile vai encontrar versões diferentes, com mais ingredientes (tem versão até com chucrute), mas a base sempre será a mesma.

Hamburgers do Chile, um local e outro mais industrializado do Mc Donalds.
Depois de experimentar o completo, não parei mais! Experimentei um hamburger local e outro do Mc Donalds.

Hoje você encontra o avocado em muitas receitas aqui no brasil além do famoso guacamole, principalmente em bowls, pokes, saladas e na comida japonesa. Eu mesmo me amarro em adicionar avocado quando faço pratos com arroz japonês e salmão (quem me acompanha na @cozinhatrevous sabe do que estou falando).

Uma tentativa de fazer a receita do completo do Chile
E claro tentei fazer um em casa, mas os ingredientes não eram tão bons e não ficou tão parecido, apesar de ter ficado bem gostoso.

Se você tem algum tipo de resistência ou nunca experimentou (que eu acho bem difícil) chegou a hora de você dar essa chance para o avocado! Prepare a minha receita de BLTA e desbloqueie o sabor e textura do nosso amigo verdinho. 🥑

BTLA

Bom, agora vamos ao que interessa, né? Siga os passos abaixo da minha receita e tire você mesmo suas conclusões. Ah, não esqueça de deixar seus comentários aqui lá no final desse post e caso você faça a receita, não esqueça de tirar uma foto e marcar a gente usando a #cozinhatrevous no instagram para que eu possa compartilhar. 🙃

Ingredientes do BLTA

  • 1/2 Baguete francesa
  • 3 Fatias de bacon
  • 1 Tomate
  • 100g de alface (americana fresca)
  • 1 Abacate pequeno (avocado)
  • 2 colheres de maionese

Preparo

Recheio

Frite as fatias de bacon em uma frigideira até ficarem crocantes. Reserve.

Pique todos os ingredientes e coloque em um bowl para misturar. Adicione a maionese no final e misture tudo até que vire uma pasta.

Pão

Utilize um pão fresco, de preferência uma baguete de fermentação natural. Corte os bicos e depois abra a baguete ao meio.

Finalização

Você já sabe, né? É só entupir a baguete com o recheio e mandar para dentro!

Dica: Se seu sanduíche estiver muito recheado e for difícil de morder, é só enrolar em um papel manteiga ou papel alumínio e cortar ao meio. Notem que no vídeo, mesmo fazendo isso, o recheio da Julia caiu na mesa… 🥲

Quem disse que extrovertido não sofre?

Quando você muda de cidade, a primeira semana é sempre a mais difícil, principalmente para quem é comunicativo (ou tagarela). Você já está num lugar que não é o seu habitat natural, que não sabe como é a rotina por lá e, ainda por cima, não tem ninguém para escoar a sua extroversão. Então, os desafios não são apenas geográficos do tipo “Quais ruas posso andar sem ser esfaqueado” ou “Como encontrar o supermercado mais barato da região”, mas também sociais, de como fazer amizade num lugar onde você não conhece ninguém.

Minha mudança para o Rio de Janeiro foi exatamente assim. Eu havia faltado a semana de trotes por medo, na época noticiavam bastante a violência envolvida nas recepções dos calouros. E faltar essa “inauguração da vida universitária” foi um grandíssimo erro. Todos da sala ficaram amigos durante o trote e, quando eu cheguei, eles já estavam entrosados e eu não conhecia ninguém.

O primeiro dia foi o pior. Eu achei que a aula começava às treze e trinta, mas na verdade era às treze. Então fui o último a chegar e, quando entrei na sala, só tinha uma carteira vaga. Depois da vergonha de todos me olhando entrar no ambiente tão tardiamente, não consegui falar com ninguém ali. Afinal, a cada intervalo os meus colegas se dirigiam a quem já conheciam da semana dos trotes.

E, para piorar, no fim da aula ainda estava chovendo muito. E eu não sabia onde era o ponto de ônibus para voltar para casa. Liguei para o meu pai perguntando se podia pegar um táxi (na época não existia Uber e o táxi era caro) e ele liberou. Cheguei em casa chorando, havia passado uma tarde inteira sem falar com ninguém. Logo eu, que cursava uma faculdade de Comunicação.

Meu pai até sugeriu que, se eu quisesse desistir da faculdade logo ali, poderia. Só que com as lágrimas já secas, eu concluí: “Amanhã eu faço um amigo, de qualquer jeito”. Acordei no dia seguinte, fui para a faculdade e, já no começo da aula, pedi uma caneta emprestada para a menina que estava sentada à minha frente. Puxei papo sobre materiais necessários para a aula, fiz piada sobre ter chegado atrasado e, no fim, ficamos amigos.

No dia seguinte, fiz mais uma amiga. No outro, mais dois. Na quinta, me voluntariei para participar da gincana entre as turmas e, na sexta, eu já era o próprio Roberto Carlos cantando “Eu quero ter um milhão de amigos”. Meus impulsos de extroversão estavam salvos.

E ainda bem! Porque assim eu consegui me jogar na vida universitária carioca, que foi uma experiência completamente transformadora. Ainda continuo falando pelos cotovelos e conversando com qualquer um que vejo pela frente, mas aprendi tanta coisa que essa crônica precisaria ocupar o jornal inteiro se eu fosse falar sobre o que veio com essa mudança de vida. Mas a maior lição de todas foi de que um dia ruim é só um dia ruim, ele não tem o poder de estragar todos os outros dias. Muito menos quando você sabe fingir que esqueceu a caneta em casa para fazer uma amiga. Um salve para os tagarelas!

* * *

Ilustradora Convidada:

Letícia Cabral

Olá, meu nome é Letícia Cabral, tenho 23 anos e sou formada em Design de Animação. Sempre fui conectada com tudo que envolva a arte. Gosto de contar histórias bem doidas e as vezes, meio sinistras…

👉  Conheça o trabalho da Letícia no instagram: @ficticiart

Desenho feito com IN

Vou explicar aqui como é o processo de elaboração de um desenho gerado por IN, Inteligência Natural. O desenho foi feito durante uma reunião, com lápis, numa folha de papel A4 que estava na mesa. No caso, não houve “prompt”. A coisa foi sendo rabiscada aos poucos, no modo “piloto automático”, meio sem pensar, e não tinha nada a ver com o assunto da reunião. A primeira coisa que risquei foi aquela espiral que está no alto da folha, e que um pouco depois se transformou num quepe de militar. Em seguida, rabisquei a cara do sujeito e o corpo, vestindo um uniforme todo engalanado, cheio de enfeites, que sempre são bons de desenhar. Enquanto esses rabiscos iam acontecendo, eu continuava a participar da reunião. A figura do militar ficou ali sozinha mas, depois de um tempo, me deu vontade de desenhar outro personagem para participar da cena e preencher o espaço vazio no papel. Então apareceu a figura de um velho hippie, com o punho fechado, em sinal de protesto. Mais uma vez, o desenho foi deixado de lado durante um tempo. E aí, de repente, do nada, apareceu na minha cabeça a imagem de uma cenoura sendo usada como punhal. Só tive que encaixar a cenoura no punho fechado do velho hippie. Aí “aconteceu a mágica”, como dizem os palestrantes especializados em criatividade… A imagem finalizada se tornou um retrato tragicômico dos embates entre o pacifismo e a boçalidade militarista. Nada disso foi pensado naquela hora, mas é claro que, no fundo, eu sou esse cara que empunha a cenoura.

4 casos sobre inteligência artificial e a arte

Nos últimos anos foi possível notar um boom surpreendente da inteligência artificial em vários seguimentos, principalmente em relação a arte. A tecnologia que antes ameaçava os empregos de serviço apenas, pegou a classe artística de surpresa ao mostrar habilidades em “criar” imagens, desenhos, músicas e até vídeos.

Tendo isso em vista, antes de montar suas plaquinhas e marchar pelas ruas pedindo a regulação de mais um artifício que o diabo criou, é importante tentar entender a situação. Sim, inteligências artificias e suas tecnologias trazem certo risco pra forma tradicional de criação de arte e mídia. Porém as possibilidades do seu uso atual criam questões que antes eram inimagináveis para a sociedade. Algo que torna o cenário atual meio caótico e confuso para usuários, políticos e até mesmo os próprios artistas.

Sendo assim, trago aqui 4 casos que levantam questionamentos sobre o uso de AIs na criação de arte e mídia:

Caso 1: Frankenstein e o prêmio Jabuti

Além da autenticidade, o uso de AI na criação de artes levantou bastante questionamentos sobre o valor do trabalho produzido. Sobre isso, no começo de novembro do ano passado o cartunista André Dahmer relatou uma situação curiosa que perpassa justamente sobre essa questão.

Ao ser convidado para ser juiz da categoria de “ilustrações” do Prêmio Jabuti, maior prêmio de literatura do país, André foi incumbido de dar sua opinião sobre uma nova edição de Frankenstein. O clássico de Mary Shelley tinha ganhado uma roupagem soturna e pálida que já tinham passado pelo crivo inicial da Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do evento, e agora seguia para o julgamento de Dahmer e mais dois jurados.

Frankenstein por Mary Shelley e a inteligência artificial
Frankenstein por Mary Shelley

 

A questão começa quando foi descoberto que toda a arte da obra fora feita com o auxilio do Midjourney, plataforma digital que gera imagens a partir de inteligência artificial. André, que não conhecia o site até então, refletiu sobre o assunto e decidiu notificar a Câmara e ao seus colegas jurados. Como relatou num fio no Twitter/X, ele entendeu que não se tratava de um caso de má fé, visto que o ilustrador, Vicente Pessôa, havia grifado tanto ele quanto a ferramenta como “coautores” das ilustrações.

Da mesma forma, Dahmer não desvalorizou o trabalho apresentado. Ressaltou as questões éticas e jurídicas que isso implicava, mas também elogiou de certa forma a obra, chegando a sugerir a criação de uma classificação nova para o prêmio que acomodasse tal “tipo de arte”. Também não quis levantar polêmica ao postar seu relato, disse que essa questão necessita de um debate mais aprofundado. A Câmara analisou o caso e no dia 10 de novembro decidiu suspender a obra da competição. Em entrevista ao jornal O Globo, Vicente acusou a pressão pública sobre o assunto como principal causa da sua desclassificação. Destacando, ainda, que não usar AI em artes se trata de um atraso.

Caso 2: George RR Martin vs Open Ai

O processo criativo, independente de qual seja o meio, envolve muita inspiração. Ler livros, ouvir musicas, ver filmes. Tudo isso faz parte de um procedimento natural que o cérebro humano faz de colher informação, gerar conhecimento e fazer novas associações que resultam em uma criação. Porém, será que o mesmo pode ser dito de uma maquina?

George R.R. Martin x inteligência artificial
George R.R. Martin x IA

 

Foi seguindo esse princípio que o escritor George R.R. Martin (As Crônicas de Gelo e Fogo, Wild Cards) junto de outros 16 colegas do Sindicato dos Autores decidiu mover um processo contra a OpenAi, empresa responsável pelo ChatGPT. A alegação do grupo, que na época fora inédita, diz que ao alimentar a IA do Chat com livros de tais autores, a empresa não só estaria quebrando o copyright deles, como abrindo a possibilidade de “plágio” gerado pela própria máquina.

Com o estabelecimento da plataforma de geração de textos, nota-se certo movimento de comercialização de obras geradas por inteligência artificial. Como citado pela organização do sindicato em matéria à Variety, é possível achar exemplos de livros escritos em “estilo” semelhantes a escritores conhecidos sendo vendidos em grandes e-comerces, como a Amazon.

Esse processo, mesmo que ainda não concluído, já garantiu que a classe dos roteiristas dos Estados Unidos se precavesse. No acordo que deu fim a greve dos Sindicato dos Roteiristas (WGA) aprovado em 26 de setembro, existe uma clausula que protege roteiros de serem utilizados no treinamento de inteligências artificiais.

Caso 3: Dublagens de presidentes e artistas

O interessante do surgimento de novas tecnologias, é como elas podem mexer com aspectos de diferentes áreas de uma mesma indústria. No caso do audiovisual, um dos primeiros setores a sentir a presença das inteligências artificiais é o da dublagem.

Além de tecnologias cognitivas de texto (ChatGPT) e imagem (Midjourney e etc), agora também existem softwares que permitem se utilizar de uma “cópia” da voz de uma pessoa para que ela leia algum texto disso. O uso mais banal disso está presente por exemplo no TikTok, no qual é possível ter uma narração feita pelo Galvão Bueno, por exemplo. Porém, com a facilidade de gerar narrações com vozes de outras pessoas, surge um risco para a classe dos atores dubladores.

Galvão BuenoUm dos primeiros a questionar sobre esse assunto foi o Youtuber Felipe Castanhari. Em entrevista ao Podpah, ele apontou para o possível risco visto a facilidade de acesso de tais recursos entre criadores de conteúdo. Como citado pelo mesmo, o canal Manual do Mundo, já usa uma ferramenta do tipo, disponibilizada pelo próprio Youtube. Além disso, já existem serviços de vídeo que permitem você gravar uma voz, e utiliza-la para dublar em outras línguas, como é o caso da plataforma Captions.

Uma outra questão sobre o assunto se trata dos direitos das pessoas pelas próprias vozes e sobre problemas o uso não autorizado pode infligir. Isso se dá porque tais plataformas não tem um mecanismos que julgue o uso autorizado ou não de uma voz. Assim já é possível ver diferentes exemplos que vão desde dublagens de memes brasileiros em outras línguas, até o caso de jogos falsos sendo “divulgados” por personalidades, como: Anitta, Virgínia Fonseca e o jornalista Cesar Tralli.

Vale ressaltar que existem poucas bases legais sobre o assunto. O exemplo mais concreto até então está no acordo de conclusão da greve dos Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (SAG-AFTRA), que prevê autorização prévia e remuneração pelo uso de replicas de voz e imagem de seus filiados. Porém, enquanto não houver uma regulação mais ampla, ficamos com os memes inusitados (e meio assustadores) de ex-presidentes jogando Minecraft:

@joerizzington TRUMP, OBAMA, AND Biden Discover the OTHERS #aivoices #ai #minecraft #funny #obama ♬ original sound – Joe Rizzington

Caso 4: Beatles e a sua nova música

Não necessariamente, o uso de automatização pode significar a substituição total de uma pessoa no processo de trabalho. Fora da arte, várias industrias já se utilizam de maquinas com o principio de complementar e auxiliar o ser humano. No final do ano passado, o uso simples de uma inteligência artificial ajudou os Beatles a lançar sua ultima música.

O quarteto que era formado por Paul McCartney, John Lennon, Ringo Star e George Harrison teve tamanha fama na década de 1960 que não conseguiu se desprender da imagem que criaram. Mesmo após a sua separação em 1970, muito se especulou durante anos sobre a possível volta da “maior banda de todos os tempos”. Tal evento, infelizmente não ocorreu como o esperado. Após o assassinato de Lennon em 1980, os outros três membros acharam que era o momento de por as desavenças de lado e tentar se unir para preservar seu legado. O resultado disso se deu no “Anthology” que contava com as ultimas gravações inéditas da banda. As últimas, com exceção de uma: “Now and Then”:

Com a ajuda do diretor Peter Jackson (cujo trabalho com inteligência artificial vale um texto a parte), foi utilizada uma das AIs treinadas para a parte de som do filme Get Back. Isolando a voz de John do restante dos ruídos da gravação de uma gravação em fita K7 que o mesmo tinha feito pouco antes de morrer. Tendo vocal separado e remasterizado, Paul e Ringo o juntaram com a gravação de guitarra de George, feita ainda na época do Anthology, fizeram o resto da instrumentação e voilà: Nasceu uma música. Uma obra completamente nova que não fora gerada do zero de uma maquina, mas que não seria possível sem um inteligência artificial.

Pão com mortadela e queijo

Faz um certo tempo que parei de postar na Cozinha TREVOUS. O motivo poderia ser o de sempre: “me falta tempo e não sei o que lá…”, mas sinceramente, essa coisa de não ter tempo não cola, né? É tudo sobre o que você prioriza. E nesses últimos meses estava priorizando outras coisas, mas confesso que não deixei de cozinhar e de comer bem (comer bem = cozinhar a própria comida, e valorizar o alimento). Então pensei: “Por que não voltar a postar o que estou comendo e cozinhando, afinal eu já tenho um projeto, né?”. Fiquei com isso na cabeça por algum tempo, mas como sempre, fiquei só no planejamento, organização e tal… Desculpas esfarrapadas? Não. Isso é sobre aquela coisa que disse acima de priorizar outras coisas (outras coisas = ganhar dinheiro para pagar contas).

Com a volta da Zine e os incentivos da Julia de “vamos gravar, postar e foda-se!”, acabei priorizando a Cozinha TREVOUS. Marcamos e gravamos um “piloto”. Pois é, também acho burocrático, mas tem coisas que ainda preciso fazer do meu jeito. Ajustamos a nossa forma de captar e entre algumas versões de edição, chegamos no vídeo que acompanha essa publicação.

Diferente da Cozinha TREVOUS lá do canal do YouTube, não pretendo aparecer tanto, o foco agora é a comida. O processo de cozinhar me encanta e quero compartilhar essa minha relação com a comida com os meus amigos e o público aqui da Zine. A ideia é que todo domingo uma receita seja publicada aqui, neste formato: uma introdução explicando a minha motivação, o passo a passo da receita com fotos e às vezes vídeos.

Apesar de ser um vídeo curto, gostei do resultado. Esse formato foi pensado para ter um desempenho melhor em redes como TikTok, Instagram e Shorts do YouTube, mas a nossa ideia é gravar também no formato convencional (16:9, formato padrão para vídeos do YouTube) no futuro, mas, por enquanto, serão vídeos assim, curtos e de “pé”. Vamos publicar vídeos de sanduíches em um primeiro momento, mas já estamos nos organizando para expandir nosso “menu”. Além de sanduíches, em breve teremos:

  • Receitas de refeições completas
  • Vídeos de reviews de restaurantes
  • Vídeos de receitas da minha familia
  • Vídeos de processos de restaurantes tradicionais

Para acompanhar minhas aventuras gastronômicas, siga a @cozinhatrevous no TikTok, Instagram e assine o nosso canal no YouTube clicando aqui.

Agora, sem cócócó, vamos ao que interessa! Assista o nosso vídeo curtinho e veja como um simples pão com mortadela e queijo pode ser preparado de uma forma simples e rápida e que com certeza irá matar sua fome e ainda te fazer economizar alguns trocados.

Pão com mortadela e queijo

Para alguns, mortadela é coisa de pobre, para outros um alimento que tem muito sódio e gordura, mas cá entre nós, quando o cheiro da mortadela grelhada na frigideira subir e o queijo começar a derreter, vai me dizer que você não cairia de boca? Hein? Como resistir a um sanduíche desses? Ah, já sei! Sendo vegano ou vegetariano, né? 🙃

Ingredientes

  • 1 Pão frances (Quanto mais fresco, mais gostoso e crocante)
  • 1 colher de Manteiga
  • 100 gramas Mortadela defumada (Aproximadamente 4 fatias)
  • 100 gramas Queijo prato (Aproximadamente 4 fatias)

Preparo

Pão

Corte o pão francês ao meio. Derreta a manteiga em uma frigideira anti aderente e toste o pão até que fique dourado.

Recheio

Usando a mesma frigideira, espalhe as fatias de mortadela para grelha-las. Após 1 minuto, adicione as fatias de queijo por cima e espere derreter.

Com uma espátula, de forma que envolva o queijo para caber no tamanho do pão.

Finalização

Coloque o recheio ainda quente dentro do pão tostado. Corte ao meio se preferir.