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O culto à carga, ou Como nascem os deuses

“À beira da pré história vivem esses homens nas montanhas da Nova Guiné” assim falou o inglês David Attenborough quando encontrou os habitantes das ilhas perdidas no Oceano Pacífico. Em meados dos anos 1970, ele se referia às tribos que ainda hoje habitam um mundo mágico, em que todas as atividades são ritualizadas, como devem ser, na crença de que os deuses serão generosos.

Eles não tem idade, não usam relógios. Vivem entre as às árvores, junto a vulcões em plena atividade. Colhendo, caçando, esperando navios e aviões. Exatamente, segundo eles, a bonança virá através de carregamentos do além. Mas não do além mar, em verdade, do Paraíso. Os deuses devem ser brancos, comunicam-se pelo rádio e são reverenciados com a bandeira americana. Aviões e navios cargueiros são a prova disso. Eles também aguardam o filho de Deus, de nome John Frum, o messias de uma das religiões mais jovens do mundo, a Carga (Cargo cult, em inglês). John Frum aparece para os mais crédulos, no meio da mata, à noite ou de dia, com sua cara pintada de branco, mensageiro de estranhas pronúncias, do outro mundo, provocando furor. Sua origem é desconhecida, as lendas transmitidas oralmente mudam de versão constantemente. John Frum às vezes é homem branco, de olhos azuis, outras vezes é um melanésio, aborígene do Pacífico Sul.

Ora, estes povos tiveram contato com o ocidente moderno há pouco mais de um século, quando ingleses, australianos, e depois americanos na segunda guerra mundial, fizeram pousos estratégicos naquelas ilhas. Com eles traziam suprimentos, comida enlatada, papel, tabaco, alguns eletrônicos e hábitos de uma sociedade longíqua, industrializada. A carga só poderia ser obtida por meio de magia mesmo! Que o homem branco sabe fazer muito bem. Sentam-se à mesa, bebem chá, falam inglês, marcham, estiram bandeiras. Todos esses rituais foram decodificados pelos locais como oferendas aos deuses. E assim o é transmitido para todas as gerações das várias ilhas de Tanna, em Vanuatu (a Nova Guiné é na realidade parte do território Indonésio). Os homens destas tribos marcham, constróem réplicas de armas, de aviões, de rádios, em palha; pintam “USA” no peito nu, na falta de verdadeiras insígnias e emblemas militares.

Durante os anos de 1950 o culto à carga foi reprimido pelos então colonizadores (sempre os ingleses!). Assim como reagiu o velho Attenborough, os ocidentais viam naqueles rituais sinais de doença, maluquice. Tentaram implementar o cristianismo. Alguns até se converteram. Mas não adiantou proibir, ou tentar explicar àquele povo que as mravalhas enlatadas custavam dinheiro e trabalho duro. O culto à carga apenas foi obscurecido, existindo sigilosamente nas vizinhanças mais afastadas. Pouco depois, uma vez livres dos britânicos, o estado local reconheceu a religião e estabeleceu o dia 15 de fevereiro como o dia de nascimento de John Frum, dia este em que os fiéis acordam antes do amanhecer, reúnem-se em estilho militar, para marchar e saldar o filho de Deus.

É fácil fazer troça deles, da interpretação que fizeram da tecnologia ocidental. Qual não foi o meu espanto também quando soube da existência deste culto. Fascinada, não podia imaginar que era mais ou menos assim que esta crença e todas as crenças são inventadas. Com todo o respeito a todas as religiões do mundo, sou ateia. E minha ideia sobre fé só se confirmou. A fé é humana, sim, é necessária para a continuação do nosso dia-a-dia. Mas é algo tão moldável quanto a nossa própria imaginação permitir. Estes homens nos dão uma lição de imaginação!

 

No Youtube você pode ve-los um pouco mais, como no antigo documentário do velhinho da BBC:

Botafogo fairy tale

Um pouco de ficção: Esta semana compartilho com os leitores do Trevous, pequeno conto escrito por mim. O texto foi originalmente publicado na seção Prosa do site literário Cronópios e posteriormente selecionado para publicação no livro-revista Arraia PajeúrBR nº4, lançado dia 17/07/2012 na sede da FUNARTE em São Paulo.

***

Por volta de meio-dia, quinze para uma. Em frente ao prédio, ela de vestido florido, comendo biscoito araruta. Ela e o cachorro grande, dourado, de pêlo comprido. Estava com o ar dos que descansam o almoço, esperando que o mundo se acabe em barrancos para poder morrer encostada. O pensamento longe. O cachorro rosnava, babava, pulava de lado a outro, enrolava-se na coleira; girava, gastava forças para se libertar, correr o mundo, cheirar os cantos.
Bastou um pombo mais ousado para ter início uma confusão de penas, pêlos e manchas no vestido. Embolaram-se ela, o pombo e o cão.

Quando ele surgiu.

Não se sabe de onde nem quando, cavaleiro sem cavalo branco. E com nobreza de fato: Antônio Nobre de Souza, a seu dispor. Herança do avô, o sobrenome aristocrata de origem questionável fazia sucesso, principalmente nos jogos no campinho da rua E. Ponta-direita de primeira, o Nobre.

Prontificou-se a ajudá-la. Ela, de bom grado, retribuiu apresentando-se: Neuza.

O nome ribombou dentro de seu aparelho auditivo, sílaba por sílaba, neu-za, neu-za, ouvido adentro, neu-za, neu-za, orelha, martelo, bigorna, neu-za, neu-za, estribo, labirinto, cóclea, neeeeeu-zaaaaa…

O cachorro mordendo o vento, atrás de borboletas.

Tá tudo bem? Agora sim. Cachorro grande, né? Ô. Deve dá um trabalhão, né? Hã… Ah! Sei não… deve dar. Ué?! Que foi? Né meu não, é do patrão. E eu lá tenho dinheiro pra ter um bicho desses… imagina, eu hein… só de xampu é mais que meu salário. Te derrubou mesmo. Isso é um boi de pesado, ó o tamanho da pata. Pois é. Inda bem queu vinha passando. É. Bom mesmo. Trabalha aqui então? Neste prédio, desde anteontem, apartamento 504. Ui! Que foi? Hehehe… nariz gelado. Ah, tá. Todo cachorro é assim, acho. E você? Eu o quê? Faz o quê, ué?

Fazia o de sempre. Aliás, fazia há tanto tempo, que nem se dava conta mais. De família de retirantes, muitas bocas e pouco espaço, num primeiro momento trabalhou nas ruas vendendo bolo de aipim, cocada; depois, as construções, os andaimes da vida. Arriscando-se como pingente nos trens cheios, feijão com arroz e ovo na marmita, adquiriu profissão: pedreiro & marceneiro.

Ela, cor de jambo, pai do Ceará e mãe do Maranhão; adora comer açaí, mas o não o nosso, pura água-com-açúcar. Sonhava ser professora, na sua cidade não havia moça mais bonita, rainha da primavera; aqui, anda de cabeça baixa no corredor, só entra pelo elevador de serviço, sem viço nenhum.

Já passava de uma e meia. Rolava o capacete da mão daqui para mão de lá. O olhar vigilante, atento a qualquer pombo que se atrevesse aproximar. Ela apertava e afrouxava a guia do cão, liberando e reprimindo na medida certa, o olho procurando – sem achar – o de Antônio.

Olha… eu tenho que ir, tá quase acabando meu almoço. Uma pena. É. Tome cuidado com esse cão. Pódeixar, tomo sim. E muito obrigado, viu. Não há de quê. Como? Não precisa agradecer. Ah, sim… educação a gente traz de casa, minha mãe sempre disse. Verdade, verdade. Bom… O quê? Vou indo. Tá certo. Tchau. Tchau.

O cão girava e girava, correndo atrás do rabo.

Mas… Oi? É que… Diga. Pensei se… Fale. Eu trabalho aqui perto e… Hum. É pertinho mesmo, aqui ó, do outro lado da rua, na esquina. Certo. A gente, talvez, pudesse, sei lá, tomar um café com bolo e… Ih! Quase esqueci! Tenho que pegar o menino na escola, lavar roupa, um montão assim, nem posso mais papear. Ah, tá. Mas continuo gostando de café. É? Saio às seis. Eu durmo aqui, mas o patrão não liga não, deixa eu sair. Que bom. Então tá. Combinado? Combinado. Seis e meia aqui. Tudo bem, Antônio. Tchau. Beijo.

Beijo? Sim, beijo. Beijo ouvido adentro, beijo, beijo, orelha, martelo, bigorna, beijo, beijo, estribo, labirinto, cóclea, beijo, beijo, faringe, trompa de eustáquio……………………………………. coração.

Ficou ainda um tempo observando-o se afastar. Com certo esforço e boa vontade, seu capacete e ferramentas brilhando ao sol, poderiam passar por escudo, espada e armadura reluzentes.

Voltou-se em direção a portaria. Ao chegar aos degraus da entrada, suspirou. Nem reparava mais nos solavancos do cachorro. A cabeça girava, girava e girava. Em anjinhos, heróis e fadas.

Nice Day for a Picnic

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As pessoas tendem a buscar estabilidade para suas vidas. E uma característica desse movimento é a criação de um ciclo onde se passam dias, semanas, meses e anos em um ritual absurdo. Quando nos damos conta dessa repetição percebemos que parte da nossas vidas ficaram para trás.

Completamente tenso, o vídeo trata desta questão de uma forma dura. Lembro que quando assisti pela primeira vez fiquei um pouco impressionado e pensei no meu próprio ciclo diário com certo temor.

A animação foi escrita e dirigida pela inglesa Monica Gallab que conquistou diversos prêmios. O curta foi exibido aqui no Brasil no Anima Mundi 2009.

Mais? Conheça outros trabalhos de Monica Gallab

As Pinups de Renato Cunha

Renato Cunha é Designer, e desde cedo dedicava várias horas do seu dia desenhando e copiando super heróis de história em quadrinhos. Mais tarde veio a cursar Publicidade e Propaganda na Unisanta, e desde então atua no mercado publicitário e de design.

Um de seus projetos pessoas é a uma série de posters onde retrata artistas famosos como Amy Winehouse, Pitty, Adele entre outras. O grande diferencial de sua arte é o estilo Vintage dos posters, com fortes referências na Pop Arte de Roy Lichtenstein e de Alberto Vargas, repleto de cores e com um estilo bem característico.

 

Amy Winehouse

 

Adele

 

Pitty

 

Lady Gaga

Juliana Paes

 

Conheça mais sobre o trabalho de Renato no seu site.

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Malária

O publicitário paulista Edson Oda, que ganhou um concurso de curtas metragens do filme Django Livre do Tarantino para conhecer o Diretor no set de filmagens (veja o filme “The Writer aqui), fez uso de sua técnica que mistura origami, nankim, fotografia, tinta e até fogo para produzir o curta Malária, que conta a história de Fabiano, um assassino contratado para matar a morte.

Esse curta foi produzido originalmente para ser enviado para o concurso do filme Django, porém caiu na restrição devido à duração do filme.

Conheça mais do trabalho do publicitário visitando seu site, e veja a entrevista que Edson deu sobre seu papo com o diretor nesse link.

A vida precisa de internet

Talvez você concorde com esta afirmativa, ou não. Eu não posso imaginar minha existência sem Ela (e Ela como a conhecemos está serissimamente ameaçada, por parte de diversos mecanismos de poder mundo afora). De qualquer forma A vida precisa de Internet (“Life needs internet”) é um projeto de Jeroen van Loon sobre o impacto da Internet nas nossas vidas. Pouca gente sabe que da população mundial, apenas 38% usam Internet. Foi por isso que Jeroen, holandês, formado em mídia digital num país altamente tecnológico, começou o projeto em 2010, viajando às paradas mais longínquas da Holanda. Foi conferir tanto aquelas sociedades que vivem sem acesso a computador, quanto países onde a tecnologia domina ainda mais que no ocidente, a Cingapura, a Coréia do Sul, por exemplo. Uma vez na Papua ocidental, Indonésia, ele conheceu, entre muitos locais, este senhor de nome Izar, que não sabia sua idade, não tinha uma ocupação formal, e que perguntado “O senhor poderia explicar o que é a Internet?”  ele respondeu “Internet é cultura”. Vale a pena conferir o trajeto percorrido por Jeroen, desde Izar, até um cidadão ocidental, que só conheceu o mundo com computador.

Jeroen também queria testar como seria sua vida offline. Durante a viagem, começou a escrever o que ele chamou de “blog analógico”, com máquina de escrever, reproduzindo seus textos por mimeógrafo. Percebeu como o seu ritmo mudou de multi-tarefa-dispersivo para um estado mais concentrado e quieto. O projeto cresceu, envolveu muito mais gente e ganhou seu próprio site www.lifeneedsinternet.com onde cartas  vindas do mundo todo, e escritas de próprio punho por centenas de pessoas, são exibidas respondendo à pergunta: “Como você se sente com a importância de se ter um computador e Internet hoje em dia e como possuir ou não um computador influencia o seu cotidiano?”


Além da sinceridade dessas correspondências, a gente pode saborear alfabetos estranhos e a caligrafia de pessoas reais, que resolveram escrever para o projeto.  Qualquer um pode baixar o PDF, em diversas línguas, responder a mão, enviar por correio ou por email (a folha escaneada) se quiser participar. Também a idade, a localidade e a ocupação de quem escreve são dados relevantes para o autor. A ideia é pensar o comportamento digital, compartilhar experiências pessoais e gerar uma obra híbrida, entre a Internet e o mundo físico, que no momento está exposta online mas também no Museu da Comunicação de Haia, Holanda.

Jeroen van Loon continua pesquisando e criando trabalhos que discutem o mundo digital. Com “Life needs Internet” ele ganhou o prêmio Jovem Talento Europeu em 2012. E você pode conhece-lo no vídeo no top desse post, em uma apresentação de 5 minutos ao TEDtalentSearch.

Paperman

A disney lançou essa semana o curta Paperman, um curta em animação tradicional dirigido pelo Diretor estreante John Kahrs, que conta a história de um jovem trabalhado que encontra a garota dos seus sonhos.

O curta que conta com toda a magia sedução dos filmes da Disney, com personagens muito carismáticos, está sendo exibido antes do início do filme Detona Ralph, e vira nos extras das edições em DVD em Blue-Ray, que serão lançados dia 5 de março nos Estados Unidos. O curta foi indicado ao Oscar de Melhor Curta Animado.

Fé, Arte e Cultura popular: conheça o trabalho de Guy Veloso

O fotógrafo Guy Benchimol de Veloso nasceu em 1969 e trabalha em Belém-PA, metrópole amazônica com cerca de 1,5 milhão de habitantes. Advogado de formação, fotografa desde 1989 e possui diversas publicações nacionais e internacionais. Seus projetos, de cunho antropológico, demoram anos para serem apresentados ao público devido a extensa pesquisa e seu envolvimento com o objeto. O assunto “religião” é o mais recorrente, em especial, “o uso do corpo como transcendência”, além destes, conceitos como fé, arte e cultura popular estão presentes intimamente em seu trabalho.

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O que no início funcionava como exercício de expressão pessoal, foi ganhando espaço a partir da viagem do autor em 1993 por 37 dias a pé no Caminho de Santiago de Compostela, milenar rota espanhola de peregrinação. Sua profissionalização, porém, pode ser marcada, quando inicia no sertão do Nordeste brasileiro uma série de investigações sobre o catolicismo popular que vai resultar no Projeto “Entre a Fé e a Febre: Retratos”. Nascia aí sua paixão pelo tema.

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Convidado pelos curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, Guy Veloso exibiu o ensaio documental “Penitentes” na Bienal Internacional de São Paulo de 2010. As imagens escolhidas para a exposição são um recorte de um projeto maior e inédito iniciado em 2002, “Penitentes: dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo”, curado por Rosely Nakagawa, feito com equipamento analógico, com previsão de durar 13 anos.

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Em 2009, Veloso foi o primeiro pesquisador a levantar a teoria de que estas confrarias de tradição oral, grande parte de difícil acesso ou até sigilosas, poderiam ocorrer nas 5 regiões do Brasil. No ano seguinte provou e publicou sua teoria cobrindo o país inteiro com 117 grupos documentados.

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Em 2012, foi curador-geral de Fotografia Contemporânea Brasileira na 23ª Bienal Europalia, com a mostra Extremos, dedicada a Thomas Farkas: “Extremos traz um país divisado pelos contrastes, mas sem fronteiras de criação; investiga a própria atualidade, exercendo leituras de si e do mundo” – Guy Veloso.

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Inspiração dá e passa

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Nascida e criada com pai jornalista, e jornalista praticante feito crente que vai todo dia ao culto, a religião que aprendi com ele foi a de esclarecer. Logo, aos 10 anos, e com mais certeza ao 12 anos, eu sabia que quando crescesse mais um pouquinho, porque naquela época já tinha 1,70, seria jornalista. A ideia mudou um pouco na sétima série aos 14 anos, aí tive a certeza de que seria publicitária.

Então foi assim, a minha primeira inspiração veio dele. Não só do que ele escrevia, mas do que ele falava. A partir daí eu comecei a perceber que o indivíduo precisa ter conteúdo. A beleza está no conhecimento, e o conhecimento por sua vez está em todos os cantos do mundo. Está no mar que ensina o pescador, na terra para os agricultores, no céu para os aviadores e nos livros para todos os povos. Além de estar nas pessoas que buscam inspiração nas mesmas coisas que você.

A inspiração dá e passa. Ela dá em você, e depois passa para outra pessoa, dá em outra pessoa e depois passa pra você.

E é aí que minha segunda inspiração entra, por meio das crônicas. Ela vem de um cara que tem intensidade até no nome. Veríssimo é marcante até na hora em que lemos o nome dele: Luis Fernando Veríííííssimo. É a veracidade das coisas, das palavras em família que se unem e vão gerando filhos, filhos lindos, e netos, bisnetos… E quando você vê, já entrou pra a família, e quer ler ele o tempo todo, mastigar, engolir, aprender, e também, procriar.

A inspiração dá e passa. Ela dá em você, e depois passa para outra pessoa, dá em outra pessoa e depois passa pra você. É uma recíproca, mesmo que involuntária em algumas situações. Um vai e vem, uma troca que não cessa nunca. É o encontro de corpos que nunca se viram, nem se tocaram, mas procriam uns com os outros como verdadeiros casais em lua de mel. O melhor de toda essa troca é que esses filhos podem ser eternos.

Essa tal de inspiração aguça novamente quando pego aqueles livros ilustrados com xilogravura (técnica de gravura na qual se utiliza madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel), que costumam ter 32 páginas e cheiro singular chamados de Cordel. Eu adoro ler, escrever, comer e sonhar cordel. As poesias de cordel falam de fatos do nordeste e do mundo, reais ou fantasias. Encartados, costumam encantar e divertir desde a época da colonização do Brasil. Além do Brasil e de Portugal, a literatura de cordel também faz parte da cultura da Espanha, México, Argentina e Peru.

Inspiração é isso. Em todos os cantos e encantos do mundo tem o dedo da inspiração no meio. Ou muitos dedos, muitas mãos… Essas mãos se unem, somam, trocam, dão e passam estímulos, e minha inspiração de escrever me inspira a viver e a trocar sempre mais.

A inspiração dá e passa tornando a criatividade eterna.

Os verdadeiros poderes

Mil maneiras de se preparar Neston. Mil formas de se aprender algo. Isso elevado ao infinito pela internet. Porém um dos saberes mais interessantes que já recebi me foi passado da forma mais antiga utilizada: o papo informal, rico, temperado com personalidade.

Tomei a conversa de fim de noite, na prosa do mineiro do interior que fez do mundo seu quintal, com mais de cem países visitados em função da profissão. Era aquele engenheiro clássico, moldado na própria lida diária. Depois de uma aula que me ajudou a atenuar o medo (racional) de voar, explicando toda a “fisiologia” de uma asa de avião, ele me pergunta:

– Você sabe quais são os poderes? Os três poderes?

– Claro, Executivo, legislativo e judiciário!

– Não esses. Refiro-me aos poderes humanos, do ser.

– Não conheço não, quais são?

(a partir daqui, faço uma miscigenação da fala dele com minha percepção sobre o que aprendi. É mais ou menos a mesma coisa).

– Existem 3 poderes humanos: o da força, o da matéria e o da posição. Cada um com suas características que se conectam. Vamos lá:

O da força é o da brutalidade, da força física, o poder de destruir de sobrepujar o outro. É um poder visceral, reptiliano, que nos cega, mas também nos move, nos impulsiona à vida, Nos faz melhorar o mundo, nos dá prazer.

O poder da matéria hoje se tornou representado pelo dinheiro, ele tem poder, é vil, considerado por muitos como desonesto, desproporcional, desigual. Mas recheia todo o prazer que a força pode produzir e inegavelmente traz felicidade.

O poder que produz e harmoniza todas as relações é o poder da posição. É através dele que se educa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não produz nenhum atrito (ou praticamente nenhum) quando aplicado sem o uso da força, usando apenas a comunicação como forma de contato. Os pais produzem essa primeira relação ao apoiar suas crianças em seguir na direção que elas apontem,  dando suporte para que elas caminhem sem julgá-las ou impondo valores pessoais, deixando-as livres. Assim, outras relações de poder se estabelecem inclusive em suas brincadeiras (a tal da ludicidade) e com o resto do mundo.

“Como todas nossas posições são dinâmicas, a relação do poder da posição, se vivida com o necessário respeito à individualidade, cria uma sociedade melhor, em qualquer lugar do mundo.”

É necessário dizer que a partir desses poderes, vários outros se sucedem, criando sub-sistemas relacionais em todas as esferas de convívio. Podem (e deveriam) continuar harmônicos, se essa liberdade fosse respeitada.

A partir dessa conversa, em 2005, ratificou-se a forma de criar minha filha (já com 3 anos), oferecendo a ela o máximo de informação possível sobre tudo e respeitando toda a construção de realidade que ela defina. Sem impor a ela nenhum sistema de crença sobre absolutamente nada. Sempre convidando a ela pensar por si só. Respondendo de forma descritiva (e por que não cartográfica) todas as (muitas) perguntas dela. Quase oito anos se passaram, o resultado está altamente satisfatório.

Reafirmo que a solução para todas as mazelas que vivemos nesse mundo, vasto mundo, está na educação plena, livre de dogmas (todos!) respeitando a individualidade.

Os centenários da música popular brasileira

Um dos acontecimentos artísticos mais marcantes de 2012 foram as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião foi justamente homenageado, e durante todo o ano foi fácil ouvir, ver e ler sobre sua vida e sua obra na grande mídia, que — como em raras ocasiões acontece — cumpriu seu dever social de formar e informar. No Rio de Janeiro, cidade onde vivo, aconteceram séries de shows, musicais e peças de teatro inspiradas na trajetória do artista. A cereja do bolo foi o bom filme de Breno Silveira, “Gonzaga – de pai para filho”, que tendo como fio condutor a conturbada relação entre Gonzagão e Gonzaguinha, presenteou o público com a história de dois grandes compositores em uma só tacada. Para um músico e entusiasta de nossa cultura como eu, foi bonito ver um artista da importância de Luiz Gonzaga ser celebrado e apresentado às novas gerações.

“…muitos outros centenários de nossa música popular já aconteceram, e a maioria deles foi lembrada apenas discretamente, ou mesmo passou em branco.”

Tenho certeza que muita gente conheceu melhor sua obra com todo esse movimento em razão do centenário, e é pra isso que servem tais homenagens: manter viva a obra de artistas que fizeram de nossa música a maior e mais plural música popular do mundo.

No entanto, muitos outros centenários de nossa música popular já aconteceram, e a maioria deles foi lembrada apenas discretamente, ou mesmo passou em branco. Pois é, dizem que o brasileiro tem memória fraca… Seja essa amnésia uma condição endêmica de nosso país ou simplesmente uma frase de efeito inventada pelo Arnaldo Jabor, aqui vai uma pequena  lista de artistas que já completaram cem anos de nascimento, pra refrescar nossa memória.

Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Nascida há 166 anos.

Pianista, regente e compositora. Destacou-se não somente pela sua arte, mas por sua postura libertária diante de uma sociedade machista e conservadora, participando intensamente das lutas políticas de sua época. “Abre-alas” (“Ó abre-alas, que eu quero passar…”) é sua música mais famosa, e continua na boca do povo mais de cem anos depois de composta.

Ernesto Nazareth (1863-1934). Nascido há 150 anos.

Pianista e compositor. Um dos maiores nomes do piano brasileiro, traduziu para seu instrumento o balanço e a malícia da então incipiente música do chorões, e é um dos principais nomes do gênero. Dentre suas composições destacam-se os choros “Odeon”, “Brejeiro” e “Apanhei-te cavaquinho”. 2013 é o ano de sesquicentenário de Nazareth, e já está no ar desde o ano passado o site “Ernesto Nazareth 150 anos” que disponibiliza partituras de todas as composições do pianista, além de vasto material como fotos, textos e muito mais sobre o artista, tudo muito bem editado e organizado, um trabalho primoroso. Tomara que as homenagens não se limitem ao site.

Pixinguinha (1897-1972). Nascido há 116 anos.

Flautista, saxofonista, arranjador, regente e compositor. Simplesmente o maior artista já surgido na música popular brasileira. Sua obra consolidou a identidade de nossa música e permitiu o seu desenvolvimento. Se não houvesse Pixinguinha não haveria Cartola, Tom Jobim ou Chico Buarque. Sua importância pode ser bem resumida pela frase do historiador e musicólogo Ary Vasconcelos: “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco; mas, se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido: escreva depressa, Pixinguinha.” Autor de centenas de choros, sua música mais famosa é o “Carinhoso” (“Meu coração/ Não sei porque/ Bate feliz/ Quando te vê…”), com versos de Braguinha, uma das canções mais gravadas do Brasil.

Ary Barroso (1903-1964). Nascido há 110 anos.

Pianista e compositor. O principal nome do chamado “Samba-exaltação” (samba de cunho nacionalista e ufanista, muito comum no período do Estado-Novo de Vargas), Ary Barroso foi um dos mais famosos compositores de sua época, e manteve intensa carreira no rádio, inclusive como apresentador de programas e até locutor esportivo. Sua música mais famosa é “Aquarela do Brasil” (“Brasil, meu Brasil brasileiro/ Meu mulato inzoneiro/ Vou cantar-te nos meus versos…”). Atualmente está em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, um musical sobre a vida de Ary, estrelado por Diogo Vilela.

Lamartine Babo (1904-1963). Nascido há 109 anos.

Compositor. O maior autor de marchinhas de carnaval. Compôs hinos para os onze times de futebol que participaram do Campeonato Carioca de 1949 (reza a lenda que escreveu todos num só dia…): Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, América, e outros; muito embora alguns clubes tenham seus hinos “oficiais”, os hinos de Lamartine ficaram gravados no coração do torcedor de tal forma que se tornaram os definitivos do futebol do Rio.

Cartola (1908-1980). Nascido há 105 anos.

Cantor e compositor. O maior nome do Samba. Um dos fundadores da Mangueira, teve vários de seus sambas gravados na década de 1930, mas acabou sumindo do cenário musical carioca, somente reaparecendo na década de 1960. O fim de sua vida foi a fase em que teve maior reconhecimento artístico, gravando seu primeiro disco solo em 1974, já sexagenário. “As rosas não falam” (“Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem as rosas não falam…”) é sua obra mais conhecida.


Noel Rosa(1910-1937). Nascido há 103 anos.

Compositor, cantor e violonista. Um dos responsáveis pela consolidação do samba urbano carioca, seus versos foram verdadeiras crônicas da vida boêmia do Rio de Janeiro da década de 1930. Morreu muito jovem, antes mesmo de completar 27 anos, vítima de tuberculose, e deixou mais de 200 músicas. “Com que roupa?” (“Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou…”) é sua canção mais famosa.

Adoniran Barbosa (1910-1982). Nascido há 103 anos

Compositor, cantor e ator. Se Noel Rosa foi o cronista do Rio de sua época, Adoniran fez o mesmo com a sua São Paulo, e é o principal representante do samba paulistano. Retratou sobretudo o trabalhador de origem italiana e morador da periferia, seja em suas músicas ou em suas participações como ator em rádio-novelas. “Trem das onze” (“Não posso ficar, nem mais um minuto com você…”) é o seu maior sucesso.

Chiquinha Gonzaga já passou dos cem faz tempo. No entanto, a maioria dos artistas listados neste artigo chegou ao centenário na última década apenas. Você se lembra de alguma comemoração? Eu não…

Na pequena pesquisa que fiz para este artigo, apurei alguns outros nomes centenários: Donga (1890-1974), Francisco Alves (1898-1952), Clementina de Jesus (1901-1987), Ismael Silva (1905-1978), Radamés Gnatalli (1906-1988), Braguinha (1907-2006), Carmen Miranda (1909-1955), Assis Valente (1911-1958), Nelson Cavaquinho (1911-1986). Uma pesquisa mais aprofundada certamente revelaria muitos outros nomes, cada qual com sua contribuição ímpar para nossa cultura. Infelizmente, lendo a lista é fácil perceber que as homenagens a Luiz Gonzaga foram uma exceção, num país onde o que não falta é gênio pra ser exaltado.

Nesse ano de 2013 há pelo menos dois centenários: o de Wilson Batista (1913-1968), grande nome do Samba, contemporâneo de Noel Rosa, e o de Vinícius de Moraes (1913-1980), o “poetinha”, principal letrista da Bossa Nova, parceiro de Tom Jobim em “Chega de saudade”, “Garota de Ipanema” e outras. Será que a mídia e o povo vão explorar (no melhor sentido da palavra) esses nomes com o devido respeito e profundidade? Ou estaremos mais preocupados em saber quais estrelas estrangeiras estarão no Rock in Rio?

Scott Winn e Jay Davis: ninjas da criatividade

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Se você curte jogos de celular, provavelmente já jogou ou ouviu falar em um jogo chamado “Fruit Ninja” (disponível para IOS, Android, Google Play, Windows Phone e Kinect). Esse divertido game consiste em uma tarefa simples: fatiar diversas frutas atiradas para o ar de forma rápida e tomando muito cuidado para não acertar as bombas, claro. Inspirado pelo game, o canal do You Tube scottdw criou uma versão bem humorada de como seria o destemido ninja na vida real, que, apesar de estar acima do peso, demonstra bastante destreza em hits incríveis! O vídeo atingiu mais de 18 milhões de views no Youtube em menos de dois meses.

O canal é formado pelos americanos Scott Winn e Jay Davis que produzem vídeos que exploram slow motion e música. O projeto foi apoiado pela Halfbrick Studios (empresa criadora do jogo). O TREVOUS entrou em contato com Scott e Jay, e eles nos contaram de onde surgiu a ideia e como foi processo de produção, confira:

Jay e Scott

Quem são vocês e que tipo de trabalho vocês fazem?

Scott Winn e Jay Davis são os criadores do canal scottdw no YouTube (youtube.com/scottdw). Scott dirige/ filma/ edita os vídeos e também compõe a música. Jay produz os vídeos e gerencia os negócios. Scott também filma vídeos de música e longas-metragens quando não está trabalhando no canal do YouTube. Jay é consultor criativo de diversas empresas.

De onde surgiu a ideia de adaptar o jogo Fruit Ninja para o mundo real?

Nós queríamos fazer um vídeo sobre um ninja, mas não tínhamos nenhuma ideia concreta. Desenvolvemos uma ideia em torno de um ninja obeso andando de cavalo e cortando objetos aleatórios que voassem em cima dele. Um amigo sugeriu que trabalhássemos com frutas e tentássemos ligar de alguma forma ao fruit ninja. Nós adoramos a ideia e decidimos entrar em contato com a Halfbrick Studios e ver se eles queriam fazer uma parceria conosco.

Qual foi a reação da Halfbrick Studios sobre a idéia do vídeo?

A Halfbrick adorou a ideia. Eles adoraram os outros vídeos que havíamos feito e nós estavam confiantes que o nosso video do Fruit Ninja seria bom. Eles entraram a bordo com suporte total, mas queriam deixar o controle criativo conosco. Foi a parceria perfeita!

O vídeo chegou a 18 milhões de visualizações em menos de dois meses. Vocês esperavam esse sucesso?

Nós definitivamente achávamos que o vídeo faria sucesso, mas nenhum de nós esperava 18 milhões de visualizações. Foi uma supresa enorme! Nós trabalhamos muito para ter certeza que tínhamos elementos “virais” no vídeo e sabíamos que a produção seria de alta qualidade. Mas mesmo assim poderia ser um risco.

Que tipo de equipamento foi usado para a produção do vídeo e quanto tempo levou para ficar pronto?

Nós filmamos o vídeo com 3 câmeras diferentes: Canon 5D MkII, Photron Fastcam, e a Red Epic. Levamos mais ou menos 3 semanas para planejar o vídeo, 3 dias para gravar e depois 1 semana para pós-produção.

Quais são os seus próximos projetos?

Estamos trabalhando em vários novos projetos. Você pode sempre esperar slow motion e comédia! Também estamos trabalhando em mais algumas colaborações com a Halfbrick!

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