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Feliz páscoa!

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Nós adoramos chocolate, mas não curtimos os preços abusivos e toda a apelação comercial gerada em torno da data (principalmente quando é direcionada a crianças). Em homenagem a essas empresas, selecionamos o vídeo “Chocolate Bunny” de Lernert & Sander. Feliz páscoa, pessoal!

Máscara de oxigênio

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Beatriz esteve durante cinco décadas cuidando das dores do mundo. Chorando frustrações alheias e enxugando lágrimas de amados. Economizou energia, fechou a torneira aos escovar os dentes e apanhou todas as fezes que Tobias fez nas ruas do Recife em cada passeio matinal. Ela era a irmã mais velha de outros cinco. A que ajudava a mãe nos afazeres domésticos, apartava a briga dos gêmeos caçulas e pagava a conta da bodega no final do mês com o seu salário de auxiliar de professora no colégio Liceu.
Desde a adolescência, se tornou a referência de ombro amigo para irmãs e colegas.

Ao completar vinte e cinco anos, Beatriz alugou um apartamento no edifício Olinda, na Avenida Mário Melo, onde do décimo terceiro andar via a Veneza Brasileira se colorir ao por do sol. De manhã, ela pegava o elevador para levar Tobias ao Parque Treze de Maio e lá eles contemplavam mais uma manhã. Pelo menos uma vez na semana, ela recebia uma visita inesperada, que já tocava o interfone perguntando se podia subir prometendo não demorar. Afogar as lágrimas ao som das doces palavras de Beatriz e com Elis Regina de fundo – esse com certeza era o programa predileto de muitas jovens daquela época. Às vezes eu penso que algumas nem sofriam tanto assim, queriam mesmo era se perder na voz de Beatriz, no vento da rua da Aurora e no chá de erva doce com hortelã, costume que ela aprendeu com sua tia avó Lucinda. Essa atmosfera ia madrugada adentro. O cobertor azul com borboletas amarelas ouvia tudo o que se passava naquele quarto e sala e, se fosse espremido, inundaria o Rio Capibaribe de lágrimas e histórias tristes com cheiro de pipoca de chocolate, que sempre eram oferecidas após o chá.

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Semanas antes de completar cinquenta anos, Beatriz resolveu ousar e marcou uma viagem para visitar sua prima Odete no interior de Alagoas, dessa vez ela não iria de carro. Todos sabiam do seu pavor em viajar de avião, mas ela disfarçava colocando mais chá na caneca. Ela era uma mulher muito prática, objetiva nas suas obrigações e sabia que seu lugar era com os pés firmes no chão.

“Todo esse tempo Beatriz veio se anulando e colocando primeiro a máscara de oxigênio nos outros e depois em si.”

Depois do check in, a dama das palavras agora estava gaguejando várias vírgulas e tentando disfarçar as mãos trêmulas. Durante décadas ela foi o porto seguro de muita gente e no fundo era infeliz. Beatriz tinha as palavras certas para todo mundo, mas nunca conseguiu acertar os ponteiros da sua vida. Ao pensar em como faria quando o avião subisse já estava no segundo comprimido de Rivotril com soda. Ao som das instruções dos comissários de bordo uma frase ficou presa entre um ouvido e outro e não parou de ecoar: primeiro coloque a sua máscara de oxigênio e só depois ajude a pessoa ao lado. Essa frase se repetia e um filme passava em sua cabeça. Quantas lágrimas foram enxugadas às pressas cada vez que o interfone tocou, quantas dores foram abafadas para poder curar os anseios das amigas. Todo esse tempo Beatriz veio se anulando e colocando primeiro a máscara de oxigênio nos outros e depois em si.

Quando Beatriz conseguiu dormir era hora de atacar novamente os cintos. Odete olhava ansiosamente o painel e entre tantos voos cancelados, o da sua prima tinha pousado no pátio. Minutos depois, entre malas e casacos, renasceu um abraço, aquele esperado por quase uma década, encontrou uma nova mulher. Decidida a nunca mais largar a máscara de oxigênio por nada, nem ninguém. Marcar a próxima viagem era só o começo. E abandonar o Rivotril o segundo voo.

O Club Lite e o êxtase da dança

Fui conferir a noite da dança extática no Club Lite em Amsterdam-West. O lance da dança extática (não confundir com ‘estática’, que significaria ficar parado) é liberar o êxtase de dentro de você (também não confundir com ‘ecstasy’ em pílulas). Esse clube é um espaço para malucos e yoga-freaks se reunirem numa variedade de eventos, em um edifício antigo nas franjas de Amsterdam (leia-se, no meio do nada, pois como eu vivo em Haia, não é fácil chegar lá. Se não há uma estação de trem ou de bonde próxima, é quase impossível encontrar. Só cheguei graças a um amigo local que me levou de carro até lá). Morando na Holanda há quase 6 anos, ainda me assombro com a civilidade holandesa, ou o easy-going-ness deste país em que tudo é normal e quase tudo é permitido.

O Club Lite é como declarado em seu próprio site, um oásis da liberdade. Além do foco na dança coletiva, terapêutica e extática, eles organizam uma série de eventos com yoga, meditação, incenso e tudo isso misturado, com entradas até 12 euros e chá incluído. Essa onda transcendental não é minha praia. Já tentei meditação e yoga antes, acho saudável, mas prefiro outras viagens.

Os benefícios da dança são unanimamente conhecidos. Combate à obesidade, à depressão, à chatice e a tantas outras mazelas humanas. Dançar em geral é divertido, criativo e despretencioso – é praticamente “natural” (e eu uso este termo com muita cautela). Por isso eu prefiro dançar a ter que ir malhar para compensar a vida sedentária. Dançar é uma afirmação da vida, como dizia Nietzsche. Ao passo que ficar malhando dentro de um ambiente fechado, seja ouvindo música ou assistindo à tv, é assumir-se o hamster de gaiola na minha opinião. E correr na rua ou no parque, requer também muita força de vontade e ruas mais seguras.

Mas eu ia falando das noites de terça feira no Club Lite. Se o leitor ou a leitora nunca foi lá, imagine uma boate onde as bolsas e os sapatos são deixados no chão perto da entrada. Ao se cruzar a barreira do chulé, a gente sente os perfumes dos incensos que notadamente são usados para balancear a situação dos cheiros ambientes. Ora, cheiro é cultural, um fato. E por exemplo, muitos holandeses não gostam de usar desodorante. Para completar, faz frio na Holanda. Mesmo numa boite, com todo mundo suando, se as janelas fossem abertas, todo mundo teria um choque térmico. Na maior parte do ano, a Holanda é para o bom brasileiro, uma geladeira do tamanho do mundo. Voltando ao Club Lite, a atmosfera dos muitos incensos é equilibrada pela iluminação de discoteca, com o devido pódio para o DJ e alguns sofás pelos cantos.

No bar, duas mulheres freneticamente lavam copos e preparam chá non-stop. Não se serve bebida alcóolica e nem é preciso dizer que não se pode fumar. Mas o melhor mesmo são as regras da casa. Um cartaz na entrada avisa: “Não é permitido falar. Não é permitido tirar fotos e filmar. Dance como quiser. Respeite a si e aos outros”. Em outras palavras, é um espaço em que você pode se soltar, viajar, dançar junto ou separado e queimar muitas calorias. E como as regras são claras, o clima é de harmonia, sem azaração e sem deboche.

A porta abre às 19:30 para o aquecimento. O público vai chegando, se soltando, se jogando, até o êxtase. Por volta das 21:00, a música já evoluiu das frequências mais moderadas para os 130 bpm, ao som do house ou do funk. Às dez da noite, começa o movimento contrário, ao som de um dub o dj prepara a gente para o alongamento final. Uma moça conduz esse momento, focando na respiração e produzindo sons sem sentido. Daqui a pouco todo mundo está respirando em uníssono, liberando as cordas vocais, como os monges tibetanos. Aliás uma experiência por si só fascinante, todo mundo entoando o canto gutural ao seu redor.

Mas o melhor dessa noite é mesmo liberar-se de si. Dançar sem preocupação, sem freios. E de vez em quando, observar o público também é delicioso. Tem gente jovem, gente velha, todo mundo feliz, todo mundo sorrindo. Tem gente que começa devagar, concentrada, de olhos fechados, invocando os espíritos dionisíacos da dança. Tem gente que começa a se espreguiçar pelo chão, junto ou separado, a rolarem ou a se roçarem uns nos outros. Alguns casais brincam de se balançarem, de se levantarem, pernas para o ar e quando se esbarram, tudo bem. Existe uma consciência do movimento que é compartilhada e cuidada, onde ninguém machuca ninguém. Alguns dançam com o pilar, se pendurando e jogando os cabelos pra lá e pra cá. Enfim, o clima amistoso, vence sobre a vergonha ou a sacanagem (aqui fala uma carioca). A tranquilidade das bolsas no chão do hall, do respeito (principalmente dos homens que não bolinam as mulheres desrespeitosamente ou vice versa), e o efeito de eqüidade geral, são maravilhosos de sentir. Duvido se essa experiência poderia ser reproduzida no Rio de Janeiro. Mas quem sabe.

Companhia Estadual de Jazz no Programa Passagem de Som

Se você acompanha a nossa página do Facebook já deve ter recebido algum compartilhamento ou postagem para o programa de Jazz apresentado por Reinaldo Figueiredo. No mês passado, o programa “Passagem de Som” exibido no SescTV levou sua banda, a CEJ – Companhia Estatual de Jazz – para conhecer um espaço onde grandes nomes da música estão reunidos: a discoteca da Fundação Padre Anchieta, na Tv Cultura. Entre as capas dos LPs, o pianista Sérgio Fayne relembra um episódio curioso entre ele, Tom Jobim e Frank Sinatra. Confira o vídeo.

Fã invade sala de cirurgia e grita: salve, salve! Meu ídolo, meu rei!

Aconteceu em um hospital da minha memória, quando eu estava em um show antológico de Moraes Moreira e David Moraes, apresentação em que eles executam as canções de “Acabou Chorare”, segundo álbum de estúdio do grupo Novos Baianos. O disco foi lançado em LP (Long Play) em 1972 pela gravadora Som Livre e tem sucessos inesquecíveis como Brasil Pandeiro, Preta Pretinha, Besta é Tu e Tinindo Trincando. Eu estava em pleno êxtase musical, quando uma fã subiu ao palco e agarrou David Moraes, que nem na sua face olhou. Na sequência “jogou seu corpo” em Moraes Moreira, também sem muito sucesso. Segundos depois foi retirada do palco com um riso amarelo e a notável vontade de se meter em um buraco. Foi nesse exato momento em que me teletransportei para o hospital. Comecei a pensar nas diversas profissões do mundo. Das mais antigas, como a prostituição, até as contemporâneas que acontecem no meio digital. Grandes astros do rock, ícones da medicina, reis da arquitetura, deuses da física, anjos da literatura, muitos desses cativaram pessoas com o seu trabalho e se tornaram referência no mercado em que atuam. Alguns continuam trabalhando e outros deixaram o seu legado, que ainda hoje pode ser explorado.

“Nessa hora os enfermeiros correram para retirar a invasora dali, enquanto o paciente deu indícios que teria uma parada cardíaca.

Já dentro daquele “hospital” pude ver uma estudante de medicina invadir um bloco cirúrgico agarrar o médico e gritar: salve, salve! Meu ídolo, meu rei! Pelo linguajar perecia ser remanescente de algum bloco de axé do carnaval de Salvador, com jaleco customizado, faixa no cabelo contendo as iniciais do médico LUANSAN e lágrimas nos olhos. Nessa hora os enfermeiros correram para retirar a invasora dali, enquanto o paciente deu indícios que teria uma parada cardíaca. O médico voltou a focar na cirurgia e a menina foi colocada hospital a fora, agora já pelos seguranças. É claro (ou apenas acredito), que uma história como essa só pode acontecer na minha cabeça fértil, mas cabe uma reflexão. Alguns fãs são tão fissurados por seus ídolos e esquecem que eles estão ali pelo trabalho que fazem, ou seja, são profissionais como qualquer outro. Possuem conta para pagar, notas para acertar e tons para alcançar. O compromisso para bater metas é semelhante ao de um gerente de vendas de uma multinacional. Muda a moeda, mas a responsabilidade é igual, ou maior.

Foto: Wilson Filho
Bel Marques boquiaberto com a invasão da fã. Foto: Wilson Filho

Em pesquisa rápida pela internet pude encontrar diversos casos de fãs descontrolados. Em Dubaí, piano é derrubado por fã que corre para agarrar Justin Bieber. Demi Lovato precisou pausar um show no Paraguai até que um grupo decidisse descer do palco. Bel Marques teve a convicção de que a sua carreira continua “de vento em polpa” quando uma admiradora subiu no placo, dando-lhe um baita susto. No caso de Dubaí, por muito pouco o piano não caiu do palco em cima da plateia, o que acarretaria em grave acidente.

Fãs, amem com moderação, e mais que isso, amem com controle emocional. Músicos, atores, comediantes, modelos, figurantes… são gente como a gente. De carne e osso – por mais maquiagem e em alguns casos, mais carne e menos roupas que o de costume – que eles tenham, também choram, suam, brigam, se assustam, se concentram e no caso das mulheres, têm TPM igual. Agora deixem que eu assista o meu show em paz, porque nessa conversa eu já perdi foi quatro músicas. “Quando cheguei, tudo, tudo, tudo estava virado. Apenas viro, me viro, mas eu mesma, viro os olhinhos…”.

O nascimento de um livro

Quando pegamos um livro na mão, podemos sentir seu peso, cheiro e a textura das páginas. Ao começar a lê-lo, nossa mente nos transporta para um outro lugar, onde todas as  palavras escritas em cada página passam a fazer sentido. Mas antes disso algo importante deve acontecer: a encadernação.

Neste vídeo curto, dirigido e editado  por Glen Milner, você irá se surpreender com todas as etapas realizadas  para a encadernação de um livro através de métodos tradicionais. O vídeo foi feito para uma vinheta do jornal britânico Daily Telegraph em 2012.

O livro impresso em questão é: “Mango and Mimosa”, escrito por Suzanne Marie Adele Beauclerk.

 

Em breve: Fragmentos e Cozinha Trevous

Antes do TREVOUS se tornar um blog colaborativo, eu já vinha postando desde 2005. Na época, o conteúdo publicado era composto basicamente de coisas que me interessavam em particular, como fotos, experimentos em vídeo e textos soltos. E agora em 2015, o TREVOUS irá abrigar dois novos projetos pessoais: o “Fragmentos” e a “Cozinha Trevous”.

Fragmentos – Hoje com o TREVOUS funcionando de forma coletiva, acredito que postagens pessoais como as que eu publicava no começo não sejam relevantes e, para não misturar os mundos, decidi criar um espaço mais pessoal e sem muita pretensão, pois sinto falta de publicar esse tipo de conteúdo. Esse espaço denominado de “Fragmentos” servirá não só para postagens pessoais, mas também para trabalhos que já fiz. Além de conteúdos em vídeo e fotografia (atualmente alguns encontram-se publicados no Lab).

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Patty, nossa eterna garota de pro… digo, garota propaganda!


Cozinha Trevous
– Se trata de um Canal do YouTube de culinária totalmente experimental. As gravações já começaram!
Além do canal, um blog está sendo feito para abrigar as receitas. O programa será apresentado por mim e contará com a participação da Patty, nossa “garota propaganda” que está em todas as nossas redes sociais.

Recado dado, pessoal! Em breve postarei mais novidades sobre esses projetos.

Abre alas 2015

Um feliz ano novo aos amigos do Trevous e à toda humanidade! Alguém disse que não adianta desejar um ano mais alegre e mais próspero. Pois para mudar as coisas não basta mudar o ano, deve-se mudar o sistema. Mesmo assim, a virada do ano sempre gera sensação de renovação e de progresso. E por que não começar de novo aquela série de exercícios e alongamento matinais? Por que não fazer uma lista de metas para o ano que entra? Por que não tentar balancear a alimentação e buscar aquele sonhado foco que a gente sempre posterga? A gente tem o direito (e eu diria o dever) de se reinventar todos os dias. A blogueira Maria Popova listou as 15 resoluções de Ano Novo que nos inspiram nessa direção. Vale a pena ler (o blog Brain Pickings é escrito em inglês).

Nossos sentimentos pela equipe da revista Charlie Hebdo que esta semana sofreu trágicas perdas. Esperamos que esse terrível atentado em Paris não seja estopim de mais terrorismo e nem de mais repressão. O mundo precisa de mais diálogo, mais tolerância e disseminar uma educação de qualidade para todos. Os suspeitos são jovens muçulmanos que se dizem trabalhar pela Al-Qaida. Mesmo que sejam provados culpados, devemos ter consciência de que hoje, muitos jovens sem emprego e sem perspectiva estão vulneráveis ao crime e à lavagem cerebral. A comunidade islâmica não aprova o ocorrido.

Enquanto escrevo, agora mesmo em Paris, acontence mais um atentado aparentemente relacionado. Hoje de manhã um homem abriu fogo a um supermercado judaico e no momento mantém 5 reféns no recinto. O fato destes atentados acontecerem em Paris gera uma exposição midiática global, e provoca reações diversas da comunidade internacional. Tomemos cuidado com a formação de opinião pública. Sim à abertura do diálogo e não ao preconceito.

Quem quiser se aprofundar, leia também “como o Ocidente criou o estado islâmico“. Ou “Por que não somos todos Charlie” (textos em inglês)

E finalmente, para quem quiser descontrair, confira essas senhoras que nasceram ainda no século XIX.

A entrevista que saiu pela culatra

Mensagens de repúdio ao recente filme ‘A Entrevista’ chegaram a Hollywood por meio de ações de hackers auto entitulados ‘Guardiães da Paz’. Como bons hackers, ninguém sabe quem são e a que vêm. O fato é que depois de alguns emails violados e algumas mensagens espalhando terror nos EUA, o filme acabou não estreiando. De um lado a  Sony Pictures é pressionada por hackers, aparentemente (mas não oficialmente) apoiados pela Coreia do Norte, que são contra a exibição do filme, e por outro lado, a mega produtora é pressionada pela opinião pública – leia-se majoriamente americanda e britânica – a favor da tal ‘liberdade de expressão’, alegando que o cinema não pode sucumbir a ameaças terroristas.

‘A Entrevista’ seria a fictícia história de como a CIA encarrega dois repórteres americanos a caminho da Coreia do Norte de assassinarem o seu líder político, Kim Jong Un, que para a população local, é tratado como um Deus, entidade absoluta caminhando sobre  terra.

Ora todo mundo sabe que a Coreia do Norte é o país mais isolado do globo. Que sua população é feita prisioneira há décadas, de uma tirania comunista, que tortura e pratica lavagem cerebral. Que é a ditadura mais cruel e lunática ainda vigente. As parcas notícias que chegam de lá, são apenas aquelas permitidas pela propaganda política local.

Sim, o mundo deve ficar atento e tentar as vias diplomáticas necessárias pela defesa dos direitos humanos daquele povo. Mas daí aos ‘libertadores’ norte-americanos escancaradamente criarem uma ficção tragicômica sobre a morte do todo poderoso norte-coreano, premeditada pela CIA, vai muito além do bom senso.

O burburinho de ‘A Entrevista’ que não saiu, não é caso de ‘liberdade de expressão’ contra o ‘terrorismo’ apenas, mas de geo-política internacional. Assim como o 11 de Setembro foi orquestrado como um espetáculo audio visual, nenhuma questão bélica hoje passa despercebida pela indústria do entretenimento. Como é que Hollywood não imaginou atos de coerção como resposta? É como mexer com a onça e achar que vai ficar tudo bem.

Penso que qualquer abordagem da Coreia do Norte, especialmente vinda dos EUA, é de extrema delicadeza. A Rússia e grande parte do Oriente Médio estão contra Obama… A Guerra Fria passou, mas não tem como não lembrar do nosso passado bi-polarizado. Parece que os americanos sentem saudades daquele tempo.

Não surpreende que os recentes hackers invocaram o 9/11, anunciando ataques ainda piores para estreia do polêmico filme, que estava programada para este Natal. As ameaças, reais ou fictícias, geraram diversas reações na comunidade americana. A maioria anda pregando a “liberdade contra o terrorismo”. George Clooney, revoltado, quer ver ‘A Entrevista’ ser lançada a qualquer custo. E hoje a mídia internacional amanheceu anunciando a retaliação do líder norte-coreano, que acostumado a unanimidades e obviamente ofendido, questiona o Washington pela obra de ficção. Enfim, quantas verdades e quantas mentiras são publicadas todos os dias? Leia de tudo, dúvide de tudo e forme a sua própria visão.

O filme, ainda que saia em dvd, depois de toda a polêmica, provavelmente não merecia essa discussão toda. Eu não estava interessada em ver mesmo. Só queria ressaltar a petulância americana, em brincar com uma situação tão séria. Como sempre fazendo o que querem da diplomacia internacional. Mais fascinante mesmo é descobrir que além de tudo a Coreia do Norte produz filmes e que seu atual grande líder ama o basquete americano através de um documentário da Vice magazine.

E leia mais: no Globo ou no The Guardian.

Identidade panamenha em lentes norte-americanas

Rachelle Mozman, criada em Nova York de mãe panamenha, sabe bem o que é ser imigrante. Desde cedo as questões que envolvem os trabalhadores que saem de seus territórios em busca de trabalho, fizeram a cabeça da artista. Sua prática em fotografia e vídeo transita entre o documentário e a narrativa ficcional. Mozman é fortemente influenciada pelas técnicas etnográficas e seu trabalho aborda temas como família, classe e identidade. Interessada também em economia, vive hoje entre o Brooklyn e o Panamá. Na série Casa de Mujeres apresenta um cruzamento de performance, fotografia documental e fotonovela. Ela constrói uma narrativa que retrata sua mãe no papel de três personagens: duas gêmeas, uma com a pele mais escura que a da outra, e a empregada delas. Explora as relações raciais de hierarquia que são muito predominantes na América Central.

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Nas palavras da artista:

“Na minha série mais recente, minha mãe desempenha o papel de três mulheres em uma típica casa latino-americana de ficção. Estas fotografias podem ser lidas como retratos de minha mãe em um self variado – como uma boneca ali colocada – ou como imagens que revelam o conflito de vaidade, raça e classe que vive dentro de uma mulher, assim como em uma família. Nestas fotografias as três mulheres, duas irmãs gêmeas, uma de cor mais clara a pele e uma empregada, compõem uma família que possui, em igual medida, amor e desprezo um pelo outro, mas representam também esse amor e desprezo alojados em uma única mulher. Meu fascínio com a identidade do self, e minha relação pessoal com minha mãe, moveu-me a fazer este ensaio, um ato que, através da fotografia e da performance permite que o real alcance a superfície.”

Mais do seu trabalho pode ser conferido aqui: www.rachellemozman.com

São Pixinguinha – Parte 2

Acabou demorando mais do que o esperado, mas aqui está o segunda parte do meu artigo sobre Pixinguinha. Se não leu a primeira, leia aqui. Aperte o play e boa viagem!

Pixinguinha by Diego Cavalcanti on Grooveshark

A dupla com Benedito Lacerda

No ano de 1940 começa uma fase de grande dificuldade na vida e na carreira de Pixinguinha. Primeiro ele sofreu duas grandes perdas: em maio morreu seu amigo de longa data, o trompetista Bonfiglio de Oliveira (autor dos choros “O bom filho à casa torna” e “Flamengo”) e em junho morreu sua mãe, Raimunda Viana. Os trabalhos como arranjador já estavam mais escassos devido ao surgimento de outros maestros que arranjavam à moda das big bands americanas, de estética bem diferente da escrita de Pixinguinha: o estilo do mestre resistia gentilmente aos modismos. Além disso, mergulhado no alcoolismo (segundo ele próprio, chegava a tomar uma garrafa de cachaça por dia!), acabou perdendo seu emprego na Rádio Mayrink Veiga, e os consequentes percalços financeiros o fizeram atrasar as prestações da casa que estava comprando. Como se não bastasse, abandonou a flauta e passou a tocar apenas o saxofone, que já conhecia desde a viagem dos Batutas à Paris. Não há uma explicação definitiva para o abandono da flauta, uma vez que Pixinguinha nunca falou nada sobre isso; as versões mais difundidas são a de que teria perdido o controle pleno das mãos com os tremores causados pelo alcoolismo, ou que a embocadura para a flauta teria sido seriamente prejudicada por problemas dentários. O fato é que Pixinguinha não tocava mais flauta, estava sem trabalho, refém do alcoolismo, e prestes a perder a casa onde morava com a esposa, Béti, e o filho adotivo, Alfredinho. Tempos difíceis… Mas a tempestade acabou indo embora, através de uma parceria que até hoje gera alguma controvérsia em relação à ética.

Pixinguinha trocou a flauta pelo sax e continuou genial.
Pixinguinha trocou a flauta pelo sax e continuou genial.

O grande flautista Benedito Lacerda, líder do mais importante grupo de Choro de sua época, propôs uma parceria que tirou Pixinguinha do ostracismo artístico e do buraco financeiro. O trato era o seguinte: os dois gravariam, em dupla, 25 discos pela RCA Victor e cada música teria também a partitura lançada pela editora de música Vitale, com a condição de que Pixinguinha tocaria apenas saxofone e de que em todas as músicas de sua autoria gravadas pela dupla, constaria, dali em diante, também a autoria de Benedito Lacerda. Muita gente diz até hoje que, dados os termos do acordo, Benedito teria se aproveitado de Pixinguinha, que foi mercenário, que agiu de má-fé, etc., etc., etc. Bem, duas coisas podemos afirmar: primeiro, Pixinguinha voltou a trabalhar e quitou devidamente as prestações de sua casa; segundo, a música brasileira teve um de seus mais valiosos e relevantes episódios.

Dos 25 discos previstos acabaram saindo 17, lançados esporadicamente entre 1946 e 1951. Nas 34 músicas gravadas a dupla de flauta e saxofone tenor dá um espetáculo de interpretação e virtuosismo em clássicos do repertório do Choro. Benedito Lacerda executava na flauta a maioria dos solos, enquanto Pixinguinha realizava no sax o contraponto, melodia de caráter secundário mas em constante atividade, dialogando com o solista e preenchendo os espaços vazios da música. Sem dúvida Pixinguinha se inspirou nas gravações que fizera muitos anos antes, na década de 1910, com o grupo Choro Carioca, onde ele, ainda garoto, tocava os solos na flauta e seu professor Irineu de Almeida, os contrapontos no oficleide. O mais curioso é que a dupla Benedito e Pixinguinha desperta interesse até hoje muito mais pelos contrapontos do saxofone do que pelos solos de flauta. De coadjuvante a protagonista, o sax de Pixinguinha desenvolveu e fixou na linguagem do Choro o belíssimo recurso do contraponto, que na música erudita encontra em Bach seu maior expoente. Quando a dupla se desfez, o contraponto no Choro foi levado adiante sobretudo pelos violonistas de sete cordas, que têm como “pai” o genial Dino Sete Cordas; Dino traduziu para seu instrumento tudo que Pixinguinha fez no sax, criando uma escola violonística que influencia até hoje o trabalho de vários músicos, inclusive deste que agora vos escreve.

Um a Zero, composto por Pixinguinha em 1919, ficou na gaveta até 1946, quando foi gravado em dupla com Benedito Lacerda e recebeu coautoria deste (trato é trato!). Repare na atividade constante da flauta (mais aguda, em primeiro plano) e do sax. As duas linhas melódicas estão sempre dialogando, ainda que cada uma conserve sua identidade e independência: isso é o quê chamamos contraponto.

Os últimos anos

A meu ver a dupla com Benedito Lacerda foi a último ponto de inflexão que o gênio de Pixinguinha colocou na linha evolutiva da música brasileira; não que depois disso ele tenha parado, mas seu trabalho foi seguindo de forma, digamos assim, menos revolucionária, mais mansa, me parece. Em seus últimos vinte anos, a carreira e a vida do mestre foi paulatinamente se aquietando, como que se preparando para partir, e dando espaço à outros nomes na continuidade da história de nossa música: Tom Jobim e a Bossa-Nova, Chico Buarque e a geração dos festivais, e daí em diante. Além disso sua saúde começou a dar alguns sinais do desgaste que a vida boêmia proporciona.

“… à benção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor.” Vinícius de Moraes
“… à benção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor.” Vinícius de Moraes

 

À medida em que foi adentrando a terceira idade as homenagens à Pixinguinha foram se multiplicando, e sua figura parecia evocar uma aura de beatitude, daí a alcunha São Pixinguinha, o primeiro “santo” homenageado no emocionado Samba da Benção de Vinícius de Moraes: “… à benção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor.” Em 1956, pouco depois de completar 59 anos, foi homenageado pelo prefeitura do Rio, e a rua onde morava no bairro de Ramos recebeu seu nome, “Rua Pixinguinha”. Alguns anos depois, em 1963, o bar Gouveia, na Travessa do Ouvidor no centro do Rio, o homenageou com uma placa e uma cadeira cativa, pelos 10 anos de freguesia. Nesta charmosa travessa carioca, existe hoje uma estátua de Pixinguinha, em frente ao Gouveia. No mesmo ano Pixinguinha fica 50 dias internado por conta de seu primeiro enfarto; durante o período acabo compondo, entre outras, “Chorando baixinho”, com letra de Hermínio Bello de Carvalho, seu último grande sucesso. Em 1968 é realizado um grande concerto no Teatro Municipal em comemoração aos seus 70 anos, onde Pixinguinha trocou o palco pelo camarote principal, e assistiu sua obra pela interpretação de vários artistas, com destaque para Radamés Gnatalli e Jacob do Bandolim. Na época ainda existia uma confusão sobre sua data de nascimento: pensava-se ser 1898; apenas mais tarde foi constatado que a data correta é 1897, através da descoberta de sua certidão de batismo no arquivo da Igreja de Santana; seus 70 anos na verdade foram comemorados com um ano de atraso!

Estátua de Pixinguinha na Travessa do Ouvidor, Rio de Janeiro, em frente ao bar do qual era freguês.
Estátua de Pixinguinha na Travessa do Ouvidor, Rio de Janeiro, em frente ao bar do qual era freguês.

Em 1972 sua esposa Béti é internada com problemas de saúde. Abaladíssimo, o coração de Pixinguinha acaba sentindo o baque e ele também precisa ser internado. Preocupado em não prejudicar o humor e o tratamento da mulher, Pixinguinha não a deixa saber de seu estado de saúde, e num gesto que demonstrava a grandeza de sua alma, ele vestia seu terno e seu chapéu, como se estivesse saindo de casa e se dirigia ao quarto de Béti nos horários de visita, para depois voltar ao próprio leito hospitalar. Béti acabou falecendo cerca de um mês depois, e Pixinguinha não demoraria também a partir para outros planos e reencontrá-la. Num sábado de carnaval, 17 de fevereiro de 1973, Pixinguinha foi com o filho Alfredinho para a igreja Nossa Senhora da Paz em Ipanema, onde batizaria uma criança, filho de um amigo. Antes que pudesse assinar a certidão de batismo, sofreu o segundo enfarto e partiu. Do lado de fora desabou um temporal e a Banda de Ipanema, tradicional Bloco de Carnaval do Rio, que desfilava naquele momento, se desfez ao adentrar a rua da igreja e receber a notícia da morte.

 

O Dia Nacional do Choro e a importância da obra de Pixinguinha

Outro dia assisti à uma entrevista de Marília Gabriela com Tom Jobim, em 1987. Em dado momento Marília diz, “… a identidade, mesmo, do músico brasileiro, começa a partir da Bossa-Nova, não é? Porque que surgiu a Bossa-Nova?” Tom deu uma profunda tragada no charuto, e do seu jeito meio elegante meio displicente de falar, foi se esquivando da pergunta um tanto boba, comentando que havia uma efervescência que acabou culminando na Bossa-Nova, e foi logo tratando de corrigir um engano da entrevistadora: “… eu acho que antes da Bossa-Nova o Brasil já tinha grandes músicos, né? A começar pelo nosso incrível Villa-Lobos, e também Pixinguinha, Ary Barroso, Custódio Mesquita, Zequinha de Abreu, tantos músicos notáveis, né?”. Felizmente, enganos como este são cada vez mais raros, e ainda que haja muito a se conquistar em termos de formação de público, o Choro vem desde o começo do século XXI numa fase muito bonita de valorização, com muitos lançamentos, sobretudo na bibliografia didática voltada ao gênero. Parte significante dessa valorização pode ser creditada ao decreto em 2000 do Dia Nacional de Choro, no dia natalício de seu maior mestre. A comemoração foi ideia de Hamilton de Holanda e de seus alunos da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, em Brasília, e transformada em projeto de lei pelo falecido deputado Artur da Távola.

A foto emblemática de Walter Firmo é a mais famosa imagem de Pixinguinha.
A foto emblemática de Walter Firmo é a mais famosa imagem de Pixinguinha.

O Choro foi a linguagem que forjou boa parte dos instrumentistas e muitos compositores populares do final do século XIX, como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, e outros, época em que se estruturaram os alicerces da música brasileira, sua instrumentação, seus caminhos harmônicos e melódicos. E dentro do Choro, Pixinguinha é, sem dúvida, o maior nome. Sua maior contribuição é ter unido definitivamente a influência europeia e a influência africana que já delineavam os caminhos ainda recentes de nossa música. Pixinguinha levou o pandeiro à sala de visitas e a flauta ao terreiro. Além disso foi virtuose na flauta e no saxofone, e seu trabalho como compositor e arranjador é até hoje uma referência, uma fonte onde todos bebem. Sua importância é como a de outros gênios: extrapola as definições de cada gênero musical. Villa-Lobos extrapola o Erudito, Luiz Gonzaga extrapola o Baião, Cartola extrapola o Samba, Tom Jobim extrapola a Bossa-Nova e Pixinguinha extrapola o Choro.

Com um pouco atenção e sensibilidade é possível ouvir o sopro e sentir a presença serena de Pixinguinha em tudo que é música brasileira. Permaneça atento e ouvirá.

À benção, São Pixinguinha!