Hoje nós vamos falar sobre coleção.
– Quem trouxe a definição de coleção, que eu pedi na aula passada?
– Professora, li que é uma reunião de objetos da mesma natureza; reunião de objetos escolhidos por sua beleza, raridade, valor documentário ou preço: coleção de selos, coleção de quadros…
– Exato Pedro. Muito bem! E quem aqui tem ou já teve uma coleção?
Essa resposta pode ser dada por um número infinito de pessoas. A coleção está relacionada à moda, aos modos e às necessidades que as pessoas têm de estarem relacionadas a grupos, ou mesmo, de por seus desejos em prática. Colecionar é uma cadeia, que leva o indivíduo a dedicar parte da sua vida à prática e acaba influenciando outras pessoas.
Ao buscar no Google pelo nome “coleção”, além da música da cantora Ivete Sangalo (Sei que você gosta / De brincar / De amores / Mas, oh / Comigo não / Comigo não…), vemos notícias de coleções inverno, verão, e nesse caso o contexto já é um pouco diferente, está mais relacionado ao consumo e vaidade. Colecionar está inserido num contexto mais amplo do que apenas comprar.
Pam Barker possui a maior coleção de corujas da história. A coleção de Papais Noéis de Sharon Badgley demandou três semanas para estar completamente reunida.
Não há limites para os colecionadores. Sobra criatividade e dedicação. Ken Bannister começou sua coleção em 1972, hoje ele possui mais de 8 mil itens relacionados com bananas e continua a expandir. Tudo começou quando ele ganhou de um parente muitos adesivos de bananas e os distribuiu durante uma Feira de Negócios. Acabou sendo apelidado de “Top Banana” e como brincadeira, as pessoas começaram a lhe enviar coisas com a fruta. Com 52 anos, Kollektsionersha começou a colecionar bonecas, em 1993. Agora sua coleção de Barbie tem 15.000 itens diferentes. O sonho de consumo das meninas de todas as idades. Paul Mawhinney chegou ao marco de 300 mil CDs catalogados, por falta de espaço, quase perdeu a esposa e por motivos de saúde resolveu leiloar a sua coleção. Valley Hummer possui uma coleção de 2.469 patos de borracha. O chinês Wang Guohua recolheu em empresas de vários países, 30 mil maços de cigarros. Lisa Courtney entrou para o Guinness com a maior coleção de Pokemons da história. Já são 12.113 brinquedos. Pam Barker possui uma coleção de 18 mil corujas, Sharon Badgley cerca de 6 mil papais noéis e Heinrich Kath 20 mil canecas de cerveja.
Heinrich Cut possui 20 mil canecas de cerveja. Curiosamente, ele não bebe cerveja, mas as guarda desde 1997
Para você, quanto vale uma coleção? Lembro-me com muita nostalgia das minhas. Com 12 anos colecionava latas de alumínio (cervejas e refrigerantes), acho que o que “matou” essa prática foi a reciclagem, tudo bem. Antes disso com 10 anos de idade, a coleção era de cartões de crédito de orelhões públicos. Porém a coleção que mais me marcou foi a de potes de vidro para café com líquidos coloridos. Era nada mais, nada menos, experimentos de várias tintas e até temperos, que levassem a uma cor diferente das que já estavam na coleção. Era muito interessante descobrir cores com elementos da casa; da rua. Duro foi me desfazer dela, pois seria difícil carregar mais de 50 potes de vidro no caminhão de mudança.
Há quem diga que é coisa de louco, a verdade é que o colecionismo, além da ideia básica de entretenimento, é uma ciência que desenvolve o aprendizado, sendo uma atividade cultural por excelência. A própria história relata uma série de pessoas, em diferentes locais preocupadas em guardar objetos, de modo a preservá-los. Por meio dessa prática, hoje temos o conhecimento do nosso passado. Os grandes acervos em todo o mundo, quer particulares, quer de museus: Iniciaram-se, em sua maioria, por pequenas coleções particulares. É uma cadeia que não acaba e que enriquece de várias formas os indivíduos.
– Professora, eu tenho uma coleção!!
– Legal Pedro e qual é?
– Professora, eu coleciono os nomes das gatinhas que já “peguei”.
– É Pedro, cada um com a sua coleção.
Minhocas é o primeiro longa metragem em Stop Motion produzido no Brasil. O projeto de Paolo Conti e Artur Nunes, com orçamento de 10 milhões de reais, durou 5 anos e contou com uma equipe de 70 artistas para sua conclusão, com lançamento previsto para 20 de dezembro, foi apresentado durante o Anima Mundi 2013.
Confira o trailer:
A animação, inspirada no curta metragem de mesmo nome, conquistou o primeiro lugar no Anima Mundi 2006 na categoria “Curta Metragens de Juri Popular”. Desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, o longa contou com o uso de Impressoras 3D para a fabricação das mais de 1400 bocas dos personagens para a produção das sequências de animação.
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[item title=”Making of aqui”][vimeo 38585304 w=690&h=388][/item]
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E quem quiser conferir como o filme foi produzido, tem até o dia 15 de Setembro para visitar a exposição montada pela equipe de produção do filme.
Minhocas – O Filme
Local: Monumento Estácio de Sá
Endereço: Avenida Infante Dom Henrique, S/N, Flamengo
De 7 de Agosto à 15 de Setembro, de Terça a Domingo, das 10 às 17 hs.
Outro dia estava navegando pelos sites esportivos que acompanho e me deparei com esse vídeo, no mínimo inusitado.
Como seria se os personagens da série de jogos mais popular do mundo fossem reais? Dois atletas do parkour (esporte urbano que usa o aparato e arquitetura urbana para fazer manobras radicais) se juntaram a uma galeria de produção e salpicaram alguns efeitos de computação gráfica para recriar o mundo do Super Mario Brothers.
O fotógrafo londrino Carl Warner reuniu uma série de fotografias de corpos musculosos as transformando em paisagens desérticas. As fotos foram feitas por modelos nus e a cada montagem o voluntário tinha que se contorcer ao máximo para atender os pedidos de Warner, que buscava diferentes ângulos para conseguir composições mais complexas.
Warner descreve seu trabalho como “um retrato alternativo de um ser humano cujo corpo se torna uma paisagem de si e joga sobre a sensação de espaço em que habitam. A visão externa de nós mesmos, portanto, torna-se uma reflexão mais abstrata e talvez o mais íntimo do nosso ser interior, quando visto como uma paisagem ou dado um senso de lugar “.
O novo filme do francês Michel Gondry (de A Ciência dos Sonhos, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, Rebobine Por Favor, entre outros) é um convite à fantasia, com pitadas de alucinação. No melhor estilo que o cinema pode proporcionar. Transbordando inventividade, dos mínimos detalhes ao máximo dos delírios, que é a marca de Gondry, “A Espuma dos Dias” aborda a inocência da juventude, na história do casal protagonista e seu círculo de amigos.
A velocidade das cenas, das soluções técnicas e do texto, às vezes nos deixa sem fôlego (como no antigo “Zazie dans le metrô” de Louis Malle) mas o ritmo ganha novos rumos no desenrolar da história.
O trabalho quase artesanal de Gondry desafia a nossa própria capacidade de imaginação, como um retorno à infância, e ao mesmo tempo uma celebração da imagem em movimento. Para quem não conhece o nome do cineasta, deve pelo menos conhecer alguns de seus videoclipes que fizeram história, como “Around the World” do Daft Punk e “Star Guitar” dos Chemical Brothers. Se você não conhece nem estes, por favor assista já.
No dia 5 de agosto, semana passada, quem saía da estação cetral de Berlin, a Hauptbahnhof, dava de cara com um mar de pandas de papel machê. Foram 1600 figuras que representavam os 1600 sobreviventes da espécie em todo mundo.
Assim o WWF (World Wildlife Fund) comemorou seu 50º aniversário e chamou atenção para a situação real do animal que também é seu mascote. E os bichinhos continuam em tour pela Alemanha, ocupando diversas praças até outubro.
Precisei legalizar um documento no Ministério das Relações Exteriores. No Rio de Janeiro isto é feito no Palácio Itamaraty, um deslumbrante sítio arquitetônico esquecido no centro do Rio. Poucas pessoas que ali entram, no entanto, e modestamente percorrem os seus jardins, experimentam o que uma boa arquitetura tem a oferecer. Sob os olhares desconfiados dos seguranças, a maioria que ali se espreme na fila, está com pressa. Comunicam-se com os funcionários locais através de grades e são orientados a aguardar em pé até que gritem os seus respectivos nomes. Não estou exagerando, eu o vivi literalmente na semana passada. Esses visitantes então mergulham em seus telefones celulares, olham para o infinito, o chão. Ignoram as colunas onde se encostam, ou os desenhos da cerâmica em que pisam. A poucos metros dali, os cisnes se limpam ao sol, a luz é filtrada pelas palmeiras e pelas arcadas deste edifício neo clássico concebido com amor e precisão. Um funcionário passa pelo outro lado do lago, os seguranças permanecem sisudos e tristes (por quantas horas por dia?) e ninguém percebe o óbvio. Ninguém repara e nem quer saber que espaço é aquele. Na apreensão do dia a dia, quase ninguém tem o tempo de se admirar.
Ter esse ‘tempo’ não significa necessariamente ‘tomar tempo’, interromper um projeto ou um compromisso importante. Tem algo por trás disso que remete à formação da sensibilidade. Entrar num edifício como este deveria ser sempre um instante de arrebatamento. E se isso não acontece pode ser porque estejamos embrutecidos. A arquitetura clássica sempre foi pensada para enobrecer a experiência humana. A forma como os trajetos, a perspectiva, a presença da luz e as proporções da estrutura nos afetam, não é uma questão intelectual. É uma experiência estética que todos nós poderíamos ter, intuitivamente, se estivéssemos suficientemente porosos, sensibilizados. O edifício do Itamaraty pede para ser percorrido, tocado, explorado. Não falo por romantismo ou por um gosto elitizado, mas falo de uma sensibilização que se pode ser desenvolvida desde a infância. O corpo é equipado para ver, ouvir, cheirar, mover-se, sentir, de forma rica e prazerosa. Em casa, na escola e em toda a cidade, deveríamos nos desenvolver como seres sensíveis e sempre aprimorar nossos sentidos. Mas isso requer intenção e dedicação. Uma tomada de consciência que muitas vezes é tida como futilidade.
Existem prazeres que custam quase nada, uma fruta, um passeio a pé, dançar, mas nos acostumamos a reconhecer como prazer aquilo que nos é oferecido para consumir. Até porque uma cidade como o Rio hoje não nos permite fazer escolhas, para tal precisaríamos de uma consciência mais ou menos tranquila. Vivemos envoltos em tamanha hostilidade urbana, que sentir tornou-se um luxo. A administração da cidade do Rio de Janeiro é baseada na emergência e não tem uma intenção, uma missão. Ou se tem, deve ser a da distração. Somos tão oprimidos pela violência, a corrupção, o consumismo, que não percebemos que de fato estamos deprimidos. Tudo cansa e por isso buscamos nos distrair, na televisão, no futebol, porque é o que temos como identidade cultural. E porque pensar outras vivências não está em questão, aliás daria muito trabalho.
Para chegar ao Itamaraty, o pedestre precisa atravessar a barreira do mau cheiro e do abandono. Confesso ter tido medo de ser assaltada, cheguei de ônibus e fui praticamente correndo pela Av. Marechal Floreano. O estado de conservação do edifício também não é dos melhores. Além das fachadas deterioradas, veem-se instalações elétricas e encanamentos improvisados ou quebrados. Enfim, isso não importa, o cidadão não é bem vindo. Parece que o Itamaraty oferece visitas guiadas (oportunidade que nunca tirei) e volta e meia abriga conferências. Mas não encontramos informações concretas no seu website, só em sites sobre turismo no Rio. Como o do Rio de Janeiro Aqui:
Av. Marechal Floriano, 196 – Centro
Tel. 2253-2828 Fax. 2253-7691
Seg, Qua, Sex, 14h, 15h e 16h – Visitas guiadas
Visitas monitoradas com duração de 45 minutos
Entrada franca
Os indivíduos que vão por motivos burocráticos nos dias úteis e encontram este santuário perdido, deveriam no mínimo ter o direito de sentar-se ou aguardar seus processos de forma proporcional à beleza do edifício. Por que será que não existem assentos ou mesmo um salão inteiro para aguardarem à sombra? Por que não adotaram um sistema de senhas e não deixam o público aproveitar um pouco daquela espera, ao ar livre, usufruindo daquele jardim? Mas claro, na cidade partida isso não interessa. Vivemos a cultura do medo e da opressão. Somos todos ameaçados, somos todos suspeitos, somos vândalos. O Palácio Itamaraty, como edifício público e como legado arquitetônico, com todo o seu aparato de segurança, tinha o dever social de ser exposto e explorado para fins culturais e educacionais. Ele precisa ser descoberto por cariocas, brasileiros e estrangeiros que tenham dois olhos, dois ouvidos e uma pele de qualquer cor.
Em tempo: o neo clássico foi uma estilo adotado no século XIX para edifícios públicos então construídos nas grandes capitais do mundo, tendo como referência a arquitetura clássica (da Grécia e Roma antigas). São mais ou menos do mesmo período no Rio, a Biblioteca Nacional, a câmada dos vereadores, a assembleia legislativa, o Museu de Belas Artes, o Theatro Municipal etc. Muitos deles baseados em modelos franceses do mesmo período. O Palácio Itamaraty foi construído entre 1851 e 1855.
“Siga me”. Esse é o nome de uma série de fotos feitas pelo fotógrafo Murad Osmann em suas viagens pelo mundo. Narrando suas aventuras pelo Instagram, o fotógrafo russo compôs cada de forma similar, sempre com a paisagem do ponto de vista do fotógrafo, com a mão estendida segurando sua namorada na frente dele.
Um detalhe interessante sobre as fotos é o fato do rosto de sua amada nunca ser revelado, dando um tom de beleza e mistério em cada composição. Romântico, não?
O mês de junho de 2013 ficará marcado na história do Brasil. Manifestações iniciadas por conta de um indecente aumento no preço das passagens de ônibus em todo o país tomaram proporções gigantescas, e acabaram por abarcar demandas diversas (das mais legítimas às mais absurdas) e também pessoas diversas (das mais politizadas às mais alienadas). Passado quase um mês do momento de explosão nacional do movimento, o furor daqueles dias parece ter se acalmado um pouco, as manifestações prosseguem em muitos lugares, mas certamente têm sido menores em tamanho, ainda que maiores em foco político. Alguns bons frutos já foram colhidos imediatamente, e o maior e mais simbólico deles com certeza foi a revogação do aumento dos ônibus, razão inicial dos protestos, muito embora essa revogação tenha sido meio “Mandrake”, ao menos na cidade do Rio: o preço final não aumentou, mas o subsídio às empresas de ônibus, sim… Apesar dessa e outras traquinagens de Paes e Cabral (ah, danadinhos!), é inegável que a classe política recuou perante a revolta popular, e já não parece tão tranqüila e glamourosa a arte de roubar com nariz em pé e gravata no pescoço. Nesse complexo contexto político não faltaram críticas aos grandes eventos empresari… digo, aos grandes eventos esportivos que vão acontecer no Brasil nos próximos anos, e a Copa da Confederações que acontecia (com a bola rolando macia enquanto o gás lacrimogêneo ardia do lado de fora dos estádios superfaturados) foi um dos alvos do povo protestando nas ruas. E aí é que entra outra vitória nossa, além da revogação do aumento. Uma vitória na base da sorte, sejamos francos, mas ainda assim uma vitória. Então, caros amigos, pra quem ainda não sabia dessa, aqui vai o episódio que nos livros de História dos nossos filhos e netos será chamada de “a queda da caxirola”.
Lá pelos idos de 2012, quando a Copa do Mundo não estava tão próxima, e as obras dos estádios estavam longe de terminar, Carlinhos Brown mostrou ao mundo, com as bênçãos da presidente Dilma e dos cartolas da Fifa, seu novo invento musical. O genial cantor, percussionista, compositor, jurado de programa de calouros, representante da Bahia no Oscar e genro de Chico Buarque, tinha durante meses e meses se enclausurado em seu estúdio para criar o instrumento musical que seria a marca de seu povo nos jogos da Copa. Com a colaboração de técnicos especializados, engenheiros de áudio, físicos e publicitários (não podemos esquecer deles!), Carlinhos chegou ao formato final de seu novo e originalíssimo instrumento: a caxirola! A voz do povo brasileiro, um instrumento que toca as raízes afro-indígenas do nosso país, a síntese perfeita da nossa música cabendo na palma da mão de nossas crianças.
“Como se não bastasse, pirateou até o nome, de “caxixi” para “caxirola” e ainda teve a cara-de-pau de dizer que seu “invento” causa menos impacto ao meio-ambiente do que o caxixi. Um objeto de plástico é mais sustentável que palha e sementes secas?! Ah, sei…
A caxirola foi apresentada como o equivalente brasileiro das vuvuzelas sul-africanas que tanto irritaram na Copa de 2010, mas o detalhe que a maioria esmagadora da grande imprensa esqueceu de mencionar (ô, memória ingrata!) é que o “invento” de Carlinhos Brown não tinha absolutamente nada de original, nem mesmo o nome. Qualquer pessoa que tem o mínimo contato com instrumentos de percussão conhece o caxixi, um chocalho de palha trançada em forma de cestinha, com uma alça e recheado com sementes secas. É um instrumento sem patente, de domínio público, não é invenção de ninguém porque é invenção do povo, pertence a todos, e é tocado por músicos brasileiros desde tempos imemoriais. Quando você vai a uma loja de instrumentos musicais e compra um caxixi, não paga direitos de patente à ninguém, porque não existe patente. Obviamente seria diferente com a caxirola: licenciado pela Fifa como produto oficial da Copa, as vendas renderiam uma boa grana (e bota boa nisso…) para seu “inventor”. Ou seja, Carlinhos Brown foi pilantra o suficiente para se apossar de um instrumento que já existe, colocou umas alças a mais e pintou de verde pra legitimá-lo como seu invento e com isso entrar na seleta fila pra pegar uma fatia do bolo de dinheiro que a Copa do Mundo no Brasil representa. Como se não bastasse, pirateou até o nome, de “caxixi” para “caxirola” e ainda teve a cara-de-pau de dizer que seu “invento” causa menos impacto ao meio-ambiente do que o caxixi. Um objeto de plástico é mais sustentável que palha e sementes secas?! Ah, sei…
O caxixi e sua versão pirata, a caxirola. Me responda você: as “inovações” no instrumento são significativas o suficiente para considerá-lo algo novo?
Estava tudo certo para o assalto à cultura, e os dedos de Carlinhos, calejados de tocar timbau, já estavam preparados para contar o dinheiro das vendas da caxirola, pirataria oficial assinada em baixo pela Dilma e com o consentimento silencioso da maioria dos veículos da grande imprensa. Mas o destino foi irônico, sábio, e sobretudo, foi debochado demais, como se uma entidade de rua tivesse se incumbido da causa e prometido “Ah, isso não vai ficar assim não!”. Durante a reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, Bahia, num domingo dia 7 de abril desse ano, um Exú-caxixi começou a fazer seus truques pra acabar com a palhaçada; o jogo foi um clássico regional, Bahia e Vitória, Ba-Vi, evento-teste para o estádio e para a caxirola, que fez sua estreia na mão dos torcedores. No segundo tempo da partida, irritados com a apresentação pífia do seu time, os torcedores do Bahia começaram a demonstrar sua revolta atirando em campo as caxirolas, uma chuva delas, só comparável à chuva de garrafinhas plásticas que Carlinhos levou no Rock in Rio 2001, quando criou caso com o público. As caxirolas inundaram o gramado e por conta do episódio a dona Fifa — que gosta muito de dinheiro mas não admite bagunça sob os holofotes e lentes das câmeras de TV — resolveu proibir a entrada do objeto nos estádios durante a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. De um modo inusitado parecia que a justiça estava sendo feita, e diga-se de passagem, pelas mãos do povo baiano, para dar um tapa com luva de pelica no bairrismo idiota de Carlinhos, bairrismo esse muito comum entre alguns artistas cujo maior mérito artístico é o de serem baianos, e disso se gabam, como se isso por si só fosse sinal de alguma qualidade, e também presente entre alguns cariocas. Exú-caxixi deve ter assistido tudo de camarote, gargalhando satisfeito.
Já tivemos a Copa da Confederações, em um ano teremos a Copa do Mundo, e as implicações práticas e negativas desses eventos antidemocráticos no cotidiano da população já se fazem sentir. Além disso, cada vez mais fica claro que quem ganha e ganhará com os eventos são os mesmos de sempre: os donos do dinheiro. O apoio popular (ou seria melhor dizer consentimento?) angariado com a falsa promessa de oportunidades de ganhos com o turismo, com a igualmente falsa promessa do “legado” de bem-feitorias que um evento de porte mundial deixa para os países-sede ou na base do apelo publicitário ao patriotismo alienado, já começa a cair por terra, e os protestos recentes nas proximidades dos estádios deixam claros a insatisfação de uma parcela significativa da população com tais jogos. Aqui no Rio tenho acompanhado as movimentações em torno da Copa, e a verdade é que a cidade virou um balcão de negócios, o bem-estar da população está descaradamente em segundo plano. Se apoiando numa questionável “ordem pública” o governo não hesita em usar força policial para fazer valer os interesses particulares dos empresários envolvidos direta ou indiretamente nos negócios da Copa.
Nesse contexto de roubalheira engravatada, onde reformar um estádio sai mais caro que construir um novo, a lógica de exploração de muitos por poucos é reafirmada e aperfeiçoada. No que diz respeito à classe musical, circulam notícias de que a Fifa cadastrará músicos voluntários para tocar durante a Copa, sem cachê, obviamente, em palcos montados nas cidades-sede; ou seja, o bolo é grande, mas só as cartas marcadas receberão sua fatia. Carlinhos Brown podia aproveitar sua fama e visibilidade para levantar a voz contra esse abuso, mas fez exatamente o contrário: com muito oportunismo e nenhuma ética, roubou um instrumento popular e entrou na fila do bolo. Quis o destino que ele ficasse com cara de bobo, o prato e o garfinho de plástico na mão, vazios. Mas não se engane: ele (e outros) vai dar um jeito de pelo menos malocar uns brigadeiros na cabaça do seu berimbau, porque festa grande assim não acontece todo dia.
Diria Chico Buarque na graciosa toada Paratodos: “Para um coração mesquinho / contra a solidão agreste / Luiz Gonzaga é tiro certo / Pixinguinha, inconteste.”
Então, Carlinhos, seguindo a receita do seu ilustre sogro, para curar seu coração mesquinho deixo aqui o “Um a zero”, choro imortal de Pixinguinha, para lembrá-lo do um a zero do caxixi sobre a caxirola, o um a zero do Brasil sobre a caxirola, da cultura artesanal sobre a cultura industrializada, do ser humano sobre o dinheiro, com meus sinceros votos de mais luz, criatividade e generosidade nos seus dias de agora em diante. Um abraço!
A piura, uma aparente rocha encontrada no litoral chileno, e consumida como iguaria no mesmo país, assombrou muitos leitores da Scientific American no ano passado. Fora do ambiente científico, porém, pouca gente ouviu falar e por isso sua fama continua discreta na web. As imagens são de embrulhar o estômago. Quando seccionada, o seu interior molhado e de coloração avermelhada, sugere as entranhas de um mamífero. Seria aquela pedra então um ser vivo ou apenas um mineral de estranhíssima variação?
Pyura chilensis
Essa bizarra rocha, por incrível que pareça, é mesmo do reino animal. A piura, como conhecida no idioma espanhol, é uma ascídia, uma classe de cordados, que não se locomove, apenas no estágio larval e é hermafrodita quando adulto (lança seus ovos e esperma no ambiente ao seu redor, o fundo do mar). Porém o mais chocante para nós é mesmo a sua semelhança com a carne animal. Tanto, que sua visão pode ser mais angustiante que olhar para um corte de carne no mercado, a que estamos muito mais acostumados (os vegans me perdoem, pois estou com eles! Só como carne umas parcas vezes por ano e sou contra o consumo de leite).
A P.chilensis foi primeiramente estudada por biólogos chilenos e documentada num artigo de 2005. Eles focaram-se na reprodução peculiar deste animal, isolando-os em tanques no laboratório da Pontifícia Universidad Católica de Chile. Os cientistas viram como o animal nasce macho e torna-se bissexual na fase adulta, fecundando a si mesmo, principalmente quando encontrado sozinho no mar (eles podem ser também vistos em em grandes grupos, cruzando uns com os outros, sem distinção de gênero e assim aumentando o sucesso da espécie).
” Uma homenagem aos maus profissionais, que veem na área da saúde e comportamento uma fonte de renda fácil, usando a necessidade das pessoas como forma de se dar bem com muito gogó e pouca profundidade…
A vida tinha sido boa. Vendia felicidade em prestações, suas palavras tinham poder. Ele ajudava as pessoas a serem mais felizes. Para isso não podia deixar de ser feliz. Nada o abalava, estava sempre pronto a ver o lado bom da estória, tirando lição de folha de árvore caindo.
Depois de fazer um “glass walking” com pedaços de acrílico, continuou projetando desafios pra si mesmo. Foi andar por cima do caminho de brasas, mas sem querer soltou um espirro. Foi o suficiente pra produzir uma queimadura de segundo grau nos 2 pés. Mas nem assim ele se entregou. “pés para alto e pensamento mais ainda”, bradava como o desafio novo a ser vencido. Não deu. Uma baita infecção na queimadura se alastrou para resto do corpo. Septicemia. A imunidade estava baixa em função das desintoxicações e purificações que tinha feito desde sua última viagem ao Nepal em função dos whiskys noturnos que ajudavam a dormir. Como estava sempre limpo, em lugares assépticos, ultra-arrumados e estéreis, pois isso era sinônimo de organização e controle, não conseguiu resistir.
Mesmo morto não dava sua vida por encerrada. Queria mais, sempre mais. Foi assim, vagando por becos nos umbrais e nos parquinhos infantis, que ele encontrou aquele lugar. Havia uma fila na porta e isso lhe chamou a atenção. Várias entidades estranhavam aquele sujeito de terno azul marinho, bem cortado, camisa branca e gravata violeta, pois eles estavam acostumados com os Zés, de branco e vermelho ou no branco e preto. Muito confiante e simpático, ele chegou cumprimentando a todos, distribuindo cartões com seu website onde se via sua foto classicamente inspirada no tio Sam. Rodou por aqui e ali, e notou um médium desocupado. Encostou nele e se apresentou.
O médium estranhou, achou que fosse uma tentativa de sedução das forças do mal. Mas com uma frase de efeito fez o médium dar um sorriso complacente e acenar em concordância com a cabeça. Disse-lhe que não mais seria incorporado e sim, a partir de agora Ancorado. Ele não quis trabalhar montado, fez o termo cavalo cair em desuso naquele centro. Queria a posição de consultor. Sentado ali, ao lado do médium, iria soprar no ouvido e o médium repetiria. A primeira vez não deu certo. O médium não tinha expressão corporal bem desenvolvida. Como bom apaixonado por desafios, ele não se deu por vencido. Fez o médium procurar seus colegas de profissão ainda vivos e com a ajuda da PNL, hipnose e muita técnica de dança xamânica do círculo sagrado mudou o jeito natural do médium. O levou na loja de ternos que pareciam caros e explicou que o poder tá na gravata. As mudanças surtiram efeito. O centro passou a ter um letreiro em neon, citações dos livros coladas nas paredes deram lugar a frases de incentivo e de pensamento positivo, as palestras de evangelização todas eram agora feitas em Power Point e vídeos motivacionais, sempre com prática no final.
Articulou-se nos bastidores do mundo não físico. Fechou parcerias, tirou fotos com gente (morta) importante. Conseguiu convencer os escritores desencarnados a estudar PNL e tomá-la como princípio e não como meio. Assim novas versões de livros clássicos foram reescritos para serem relançados. Com uma roupagem moderna e capas holográficas, foi lançado primeiro “o Livro dos espíritos realizados” logo depois “O evangelho segundo pensamento positivo” e completando o que foi promulgado como trilogia o “Livro dos médiuns felizes e eficazes” que ensinava técnicas de escrita mediúnica rápida e já em Word. “Pra que garranchos e tantas folhas de papel? Temos que pensar na natureza, sermos sustentáveis”. Ele também pensava na ecologia. Só pensava na imagem a ser passada. A imagem era tudo.
Ele conseguiu, se realizou na terra como no céu. Foi o responsável criativo e executivo da mudança do termo “entidade” Para “coaching espiritual”. Seus cursos de formação fomentavam uma multidão de novas almas, num mercado que nunca para de ter novos fregueses chegando. Está tentando uma parceria com a maior referência em produção de vida (boa ou ruim) que já existiu, mas infelizmente até agora não conseguiu contato. Parece que esse outro tá sempre ocupado ouvindo seus clientes da terra pedindo coisas…
O recente lançamento do Daft Punk trouxe de tabela, e mais uma vez, a nostalgia da Disco music – época que eles sempre reavivaram em seus álbuns. Dia desses alguém mixou a nova ‘Get Lucky‘ com imagens de um programa antigo da tv americana. Na telinha de ontem, ao som dos robôs franceses de hoje, dezenas de pessoas se requebram diante de uma câmera que desliza em linha reta, num desfile de dança e de calor humano. Era o Soul Train, palco da música negra dos anos 70, e de outros gêneros futuros, que pra nossa felicidade pode ser revisto em milhares de vídeos online.
O Soul Train foi ao ar pela primeira vez em 1971 e só saiu de cartaz em 2006. Isso mesmo, 35 anos de discoteca. É considerado o programa mais duradouro da história da televisão aberta, com mais de 1.1000 episódios. Marvin Gaye, Jackson 5, Diana Ross, todos estiveram lá, repetidas vezes. Além de testemunhar a evolução da música e da cultura pop, o telespectador pode se deliciar com a expressividade, a energia e também com a moda que vestia aquele povo cheio de graça. Movidos pelo som, pelas drogas ou por pura adrenalina, esses moços dão a impressão de que o mundo, pelo menos pela televisão, era muito mais feliz antigamente. Antes dos faustões, das xuxas, dos hucks e seus prováveis equivalentes americanos, o estúdio era tomado de Música, no mais verdadeiro sentido do termo. (Falando nisso, quantos anos a MTV durou mesmo? Praticamente hoje em dia “MTV” é apenas o nome de um canal como outro qualquer.)
Sempre em dupla, os dançarinos iam entrando em cena, exibindo seus dotes rítmicos e corporais, num clima de celebração total. Alinhados ao trilho do trem, os convivas aguardavam a vez, ovacionando os colegas ao centro. Os bailarinos eram ao mesmo tempo o próprio público, sem distinção de palco-plateia. Estavam ali os passinhos nascidos nas ruas de Chicago, sinais da break dance, e de tantos estilos que iriam influenciar as danças urbanas de hoje – inclusive o funk carioca. O apresentador-produtor Don Cornelius, sempre em cena, introduzia a festa televisionada, que ia ao ar toda semana, e trazia também artistas de peso. Convidados para cantar e conversar com o público, eles eram entrevistados abertamente por membros da plateia. Ainda que com os famosos convidados, as estrelas mesmo eram os participantes, dançarinos, homens e mulheres comuns, pés de valsa, como eu e você.