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Gosto ruim na boca

Ontem ouvi tiros. Aliás, tenho os ouvido freqüentemente. Acordo meio assustado, boca seca, coração acelerado. Não foi pesadelo. O real motivo do meu sono picotado são rajadas intermitentes disparadas pelos traficantes da comunidade próxima a minha casa. Nesses tempos de pacificação, Copa do mundo e Olimpíadas, são muitos os recantos da cidade esquecidos. Nada de pânico, advertem moradores mais chegados: os tiros são para o alto.

Os rapazes estão apenas comemorando. Festejam o aniversário de um membro importante do grupo. A paz alcançada após a eliminação de seus rivais tornou-os mais confiantes. Não se importam com as viaturas da nova polícia que, munida de velhos hábitos, atua na região de forma eficiente: ouvem os tiros, disparam os seus a esmo, vez em quando matam acidentalmente alguém. Diferentemente de um passado recente, ônibus não são queimados, mães não choram copiosamente nos telejornais, afinal, temos um projeto para esta cidade. No mais, o mesmo protocolo: a média de idade dos traficantes vai de 17 a 25 anos, a acelerada marcha do controle demográfico movido a crack mantém seu curso.

De concreto temos uma ocupação com clara estratégia de mercado, visando o afastamento da mesma violência de sempre para os arrabaldes e cantões, bem longe da vista dos turistas e investidores. Numa vida quase sem alternativas, recheada de desigualdades já sabidas, comunidades outrora pacíficas, ou quase isso, ironicamente são dominadas por quadrilhas oriundas das regiões ocupadas. Talvez pelo baixo IDH, ou pela falta de força e vontade política, esses lugares foram escolhidos para acolher essa demanda de dependentes e criminosos. Obviamente, de tão esquecidos pelo Estado, estes bairros não se incomodam em receber os raquíticos e famélicos, e com disposição e esforço bíblico encontram nos títulos empregados por uma imprensa de frases sensacionalistas, a autoestima necessária para prosseguir, apesar de tudo. Em troca temos canções compostas sob medida exaltando as virtudes e atrativos da região em questão. Shows e outros agrados são apresentados em recém-inauguradas obras de cunho eleitoreiro, esforço recompensado no eco das urnas do povo fustigado por abandono.

“É claro que os regentes do concerto assistirão em full HD de seus guetos à prova de balas.”

A chaga aberta pelo tráfico de drogas, fruto da tolerância e conivência de anos do poder público, agora é remediada a base de band-aids úmidos ao som de Mc´s e pagodeiros. A internação compulsória levará o crack e seus dependentes a internação contra sua vontade, contra seus direitos e, principalmente, contra sua poluição visual e mau cheiro. Perseguição inquisitória que facilmente nos levará a um salve-se-quem-puder. É claro que os regentes do concerto assistirão em full HD de seus guetos à prova de balas. O curto cronograma a ser cumprido, promete. Pena não sermos nós os agraciados por esses rogativos.

Por aqui, ao longo da semana a cena se repete. O trânsito incessante dos dependentes, dos “cracudos”, recheia a madrugada de passos. Os eventuais estampidos rasgam o silêncio da madrugada, para em seguida sermos tranqüilizados:

– Tá tranqüilo, Tio!

Os tiros são para o alto, claro.

Para além da relação de causa e efeito

Passou a (não) fatídica data e o planeta não se foi, mas pelo jeito que continua parece não ter desistido da ideia. Enquanto isso, este é o último texto de 2012. Nessa época de reflexões sobre o ano que passou e desejos do novo ano, gostaria de fazer uma reflexão sobre uma construção de pensamento comum a todos as pessoas, mas que atrapalha muito nossa melhor compreensão do cotidiano.

O mundo sempre foi dos fortes. Era pela força que nos primórdios das organizações sociais lideres se sobrepujavam sobre liderados. Com o desenvolvimento dos sistemas de crenças passamos a dar crédito e poder a fala do outro, que convencia os incultos que a liderança era fruto da vontade divina. Esse dueto foi base para civilizações inteiras, Reinados surgiram em função desse binômio força x poder de persuasão.

A mística sobre a crença atingiu níveis alarmantes e deturpou durante séculos a capacidade humana de entender a própria existência. O obscurantismo fanático levou muito conhecimento para a fogueira. Célebres cérebros e muitos livros foram queimados fazendo virar cinzas uma riqueza incomensurável.

Civilizações inteiras foram dizimadas e junto com ela todo seu conhecimento que muito provavelmente ameaçava o método dominante estabelecido. Informação sempre foi e sempre será uma ameaça ao sistema estabelecido.

Para se livrar disso, o homem foi para o extremo oposto das crenças. O iluminismo trouxe as rédeas do intelecto de volta ao homem. Descartes com seu “Cogito ergo sum” coloca em primeiro plano o pensamento, mas traz com ele a noção de causa e efeito, de determinismo. O pensamento científico inteiro se baseia nisso até hoje. Metodologias de pesquisa acadêmica sempre criam conclusões sobre assuntos baseados no binômio isso-causa-aquilo. Junto com a revolução industrial, consumismo e produção em série formou a estrutura vigente nas relações psicossociais que conhecemos até hoje. O pensamento mecanicista influencia toda uma geração de pensadores e estão na base das chamadas ciências exatas. (onde o calculo impera soberano) e tem seu valor, construindo tecnologias em todas as áreas do conhecimento e nos fazendo evoluir em termos materiais.

O grande erro é colocar esse pensamento dentro do comportamento humano. A saúde aprendida e ensinada nas faculdades de medicina, psicologia, nutrição e outras formam profissionais que se prendem a esse tipo de construção e produzindo “verdades” absolutas absolutamente falsas e/ou incompletas.

Tudo no universo é relativo

Depois de Einstein, a percepção de alguns mudou. Apesar do cartesianismo ainda imperar na nossa formação, bem como o pensamento religioso que se aproveita dessa forma para determinar que “tudo é do jeito que Deus quer”. Desde a pedagogia da primeira infância até o capitalismo mais vil, essa dualidade falsa impera. E por que ela é falsa? Porque ela distorce a realidade e desconsidera o conjunto de fatores que causam situações.

 

“A borboleta bate as asas no Brasil e provoca um vendaval no Japão” Essa frase está querendo dizer algo muito mais complexo e fica completamente sem sentido escrita dessa forma.

Após a teoria da relatividade, essas formas de pensar a existência humana de forma mais ampla, tomam forma, mas por falta de critério e cuidado e por ameaçar o modo implantado, são colocadas de lado, no saco do misticismo pobre e nas crendices. Pensar diferente é ser um romântico das ideias. E é justamente ao contrário.

E pra piorar, explicações sobre a maneira mais ampla de construir pensamentos reduzem o entendimento para uma forma dualística.

“A borboleta bate as asas no Brasil e provoca um vendaval no Japão” Essa frase está querendo dizer algo muito mais complexo e fica completamente sem sentido escrita dessa forma. Ou seja, ao invés de esclarecer, só afasta o humano de ampliar sua percepção para além da relação de causa e efeito.

Não há nada de crendice no holismo. Entender e enxergar o todo deve ser um exercício diário a ser aprendido desde a infância. A borboleta daqui quando bate asas provoca deslocamento de ar, que se soma a todos os outros eventos que deslocam ar no continente, que se unem as correntes de ar, aos ventos provocados pelas variações climáticas, que em sua expressão oceânica rodam o planeta inteiro chegando ao Japão. Dizer que a borboleta causa o vendaval é reduzir o assunto tão complexo a uma simplicidade não verdadeira.

Esse pensamento errôneo e dualístico quando aplicado a nossa saúde, faz tirar conclusões erradas em quase todas as áreas cuja relação de causa e efeito não se aplica. Nenhuma doença é igual em mais de uma pessoa. A alopatia generaliza diagnósticos, setoriza, limita e rotula as pessoas pelo diagnóstico médico dualístico. Temos uma necessidade aprendida de determinar logicamente a causa das coisas. E nunca é causado apenas por um fator. É sempre um conjunto de relações que se estabelecem tecendo uma rede de conexões. O abacaxi não causa afta, a azeitona não dá azia, dor na coluna não é só em função da postura, a depressão, angustia e ansiedades não são causadas apenas por conta do seu momento atual de vida… Existe um organismo complexo, que recebe influência do estresse cotidiano, de frustações emocionais, de alimentação ácida e desequilibrada, de fatores ambientais como água e ar de baixa qualidade, dentre outros fatores. Somados, provocam o sintoma manifestado. A afta, a azia, a dor são sintomas que a medicina insiste em tratar no binômio causa-efeito [azeitona -> azia (sintoma) ->alopatia] para diminuir sintoma, deixando de lado as causas, que exige reflexão para entendê-las e muda-las na origem.

Mudar essa forma de pensar instituída leva tempo e requer um exercício diário de reflexão. Mas o resultado vale a pena. Quando nos libertamos do pensamento dualístico, ficamos menos doentes, mais tolerantes, menos preconceituosos, mais coletivos e muito mais saudáveis porque nosso nível de estresse diminui drasticamente. E acima de tudo, passamos a perceber o sistema complexo e ainda cheio de mistério que conhecemos como vida.

O Natal na Holanda

Quase nenhum estrangeiro nas terras baixas consegue acreditar no rito de Natal que se passa por ali. Existe Papai Noel, o Santa Claus, que o mundo inteiro conhece e que os holandeses consideram uma novidade americanizada, sem nenhum significado. Porque existe também outro velhinho, o Sinter Klaas (Sint Nicolaas, ou São Nicolau), cujo nome é quase o mesmo, mas que chega no início do mês, de barco, da Espanha, vestido de bispo e acompanhado de centenas de negrinhos, conhecidos como Zwarte Pieten (ao pé da letra, “Pedros pretos”). E este Sinter Klaas é muito mais festejado e querido pelas crianças holandesas e belgas.

A origem do culto e as bizarrices sem par são um ingrediente a mais à magia deste ritual. Há três anos morando na Holanda, ninguém soube me explicar porque o velhinho vem da Espanha e nem se explica porque os seus auxiliares são maquiados de preto, qual um Al Jolson em The Jazz Singer – um dos maiores estigmas do racismo americano. Debates ferrenhos em torno da figura do Pedro Preto, de baton vermelho e olhos azuis, sugerem um racismo inconsciente perpetrado pelo povo nórdico. Muita gente acha também que discuti-lo é inútill, que ver racismo nesse carnaval é espécie de paranóia, e que os Pedros Pretos são personagens adorados e copiados por todas as crianças e adultos.

É claro que rememorando um pouco a história holandesa e belga, sabendo-se dos anos de dominação espanhola sobre a Holanda (creio que de 1549 a 1581, se verifiquei bem) pode-se imaginar como esta tradição nasceu por aqui. Este pequeno país se tornou a maior potência capitalista no século XVI. Enquanto nobres portugueses e espanhois se fartavam com as riquezas trazidas as Índias e das Américas, os burgueses flamengos estabeleciam uma economia forte e competitiva. Religião nenhuma impediu que judeus, islãos e cristãos fizessem negócio e convivessem pacificamente por aqui. Desta grande salada cultural que a Holanda sempre foi, saiu um bispo católico, num barco a vapor, trazendo presentes e centenas de mouros que por sua vez dominaram a Espanha outrora. Poderíamos ir mais fundo na história, mas o que fica como anedota para nós brasileiros, e leitores de Trevous, é esta fantástica encenação, acompanhada pela televisão holandesa, cheia de suspenses em torno da expedição do velhinho. Sinter Klaas é televisionado, passando terríveis aventuras em alto mar, só para causar mais sensação na criançada que o vai ver desfilar pela cidade, no 5 de dezembro – dia de seu aniversário.

Na Estrada!

Foster Huntington, o autor do projeto The Burning House  (livro que mostrava fotos de objetos que as pessoas levariam de suas casas em caso de incêndio), largou seu emprego de designer da Ralph Lauren em Nova York pra cair na estrada.

Foster constatou que havia juntado dinheiro suficiente para se manter durante um ano, comprou um Furgão velho e jogou dentro sua prancha de surf, algumas peças de roupa, sua máquina fotográfica,  botou seu Iphone no bolso, e se lançou na estrada desde 2011, e a viagem que estava planejada para durar um ano já passa dos 15 meses, e por conta disso ele conheceu mais da metade dos Estados Unidos, se apaixonou pelo Surf, e está coletando um material incrível de sua aventura.

Toda viagem está sendo documentada em seu Blog, e através da sua conta no Instagram (@fosterhunting), que já conta com mais de 300 mil seguidores.

 

 

 

 

 

Educação musical nas escolas: realidade ou ilusão?

A lei 11.769 de agosto de 2008 decreta obrigatoriedade do ensino de música na educação básica brasileira. Estabelece, ainda, prazos para a capacitação dos professores e preparação das escolas. A lei foi pleiteada por um grupo de músicos e pessoas ligadas à cultura, inclusive nomes famosos do meio artístico, e sua promulgação foi considerada uma grande vitória. Eu, entretanto, não sou tão otimista, e vou explicar porquê.

Pra começo de conversa, alguém aí é contra a educação musical em nossas escolas? E antes que algum professor de cursinho levante a mão e diga que música não é necessária porque não cai no vestibular, ou que algum Max Gehringer venha me falar das tendências do mercado de trabalho, já digo que não tô nem aí pra esse blá-blá-blá, porque o assunto aqui é formação de seres humanos, e não de apertadores de parafusos da máquina capitalista. Pois então, como a maioria das pessoas, eu sou a favor da educação musical, inclusive sou professor de música. Acredito que a música é uma linguagem tão importante quanto português ou matemática, e provavelmente mais importante do que um bocado de coisa que eu aprendi na escola. Ué, então porque eu não estou comemorando a lei 11.769, confraternizando com os colegas músicos que lutaram por essa causa? A resposta é simples: porque o buraco é mais embaixo.

Pergunte ao criador
Pergunte ao criador
Quem pintou essa aquarela?
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela 

 Os versos do samba-enredo da Mangueira no carnaval de 1988 resumem muito bem o problema da Lei Áurea, que a mais de cem anos decretou o fim da escravidão negra no Brasil; apesar de urgente e imprescindível, a lei era rasa, sem a profundidade necessária, pouco conectada à realidade de uma sociedade que durante séculos tratou o negro com uma mercadoria, e que obviamente não ia passar a tratá-lo com dignidade de uma hora pra outra, somente por uma assinatura da princesa Isabel. As atuais políticas de cotas em universidades são a justa correção de uma das deformações sociais geradas pela falta de profundidade da Lei Áurea. Ou seja, o buraco era mais embaixo.

Acredito que com a Lei 11.769 algo semelhante pode acontecer. O texto da lei (que na verdade acrescenta um parágrafo à Lei 9.394, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional), é muito vago, não define propostas, métodos ou metas dessa educação musical que deve ser implantada, resume-se apenas em dizer que a música deverá ser conteúdo obrigatório na educação básica e que os sistemas de ensino terão três anos letivos para se adaptarem às exigências, a partir da

A música é, muito antes que uma profissão, uma atividade humana natural e coletiva, uma brincadeira(…)

data de publicação da lei, ou seja, 2008. Os três anos já passaram e não vejo nenhuma mudança. Além disso a lei não explica o “porque” nem o “como” dessa educação musical. Ora, não é razoável pensar na possibilidade de que uma lei implantada sem a menor preparação, sem a profundidade de debate que exige, e sem o detalhamento de que necessita, acabe sendo prejudicial a quem deveria beneficiar, e conseqüentemente para toda a sociedade? Ou que acabe sendo apenas uma maquiagem para o problema que se propõe a resolver? A Lei Áurea, para citar apenas uma, está aí pra provar que sim. Por isso é preciso parar de legislar como se vivêssemos no país de papel, onde uma assinatura de presidente e uma publicação no diário oficial resolvem os problemas, e começar a levar em conta a realidade antes de sair propondo e aprovando projetos de lei “revolucionários”, ou a emenda pode sair pior que o soneto, como tantas vezes já aconteceu por aqui.

A realidade da educação musical no Brasil é a mesma da educação como um todo: precária. No ensino básico são poucas as escolas, tanto na rede pública quanto na particular, que oferecem aulas de música, e quase sempre a qualidade da aula fica por conta do professor, pois não existe uma definição de metas, métodos ou atividades por parte dos órgãos públicos ligados à educação. Ou seja, a criança ser estimulada musicalmente da forma correta depende da sorte de ter um bom professor numa boa escola. Além disso a aula de música quase sempre é vista como uma atividade secundária, um extra oferecido pela escola. A aula de música é considerada artigo de luxo, algo supérfluo, desnecessário, e não o artigo essencial que na verdade é.

No âmbito do ensino superior a situação é um pouco melhor. As estruturas didáticas já estão organizadas, mas quase sempre direcionadas à música erudita. Já a nossa música popular, tão rica e plural, ainda não foi corretamente assimilada pelas universidades, e quase sempre é estudada e organizada a partir de métodos da música popular dos Estados Unidos, que com certeza podem ser úteis à nossa cultura, mas que não abrangem muitas (talvez a maioria) de nossas linguagens musicais. Além disso, os cursos de licenciatura são pouco adequados à realidade educacional que vivemos, e não prepara satisfatoriamente o professor de música. Isso quando o recém-formado consegue alguma colocação como professor, já que a maioria das escolas do ensino básico não oferece aula de música. Consegue enxergar o círculo vicioso

Villa-Lobos, um dos pilares da música brasileira, tinha ótimas ideias para a educação musical. Mas as falhas na aplicação dessas ideias fizeram fracassar o projeto nacional de educação musical implementado pelo governo Vargas na década de 1930.

Sou professor de música e não sou formado em universidade. Não levo o fato de não ser formado pelas vias tradicionais como vantagem ou desvantagem, apenas como um fato. E criei minha visão de educação a partir dessa trajetória não-acadêmica, muitas vezes na base da tentativa-e-erro, aprendendo com as experiências em sala de aula, e também através da observação da didática de grandes professores dos quais tive o privilégio de ser aluno; e diga-se de passagem, a maioria deles também formado de maneira não-acadêmica (mais um motivo para rever a eficiência dos métodos aplicados nas licenciaturas em música). Tenho uma ideia muito clara do que é uma boa aula de música para crianças/adolescentes, e que fica cada vez mais clara e apurada toda vez que guardo meu violão ao final de um dia lecionando. Citando Cláudio Bergamini, excelente didata e um dos meus maiores mestres: nas sociedades indígenas existe um líder político, o cacique, um líder religioso, o pajé, e há divisão de trabalho de acordo com a idade e o sexo. No entanto, não existe na tribo a figura do músico, pois a música não é tarefa/privilégio de alguns, mas uma atividade realizada e desfrutada por todos, indiscriminadamente. Em algum ponto de nossa trajetória a música deixou de ser um bem comum, e como quase tudo em nosso mundo industrializado, passou a ser mercantilizada, capitalizada, trocada e negociada como mercadoria, e a partir daí nasce a profissão de músico, e todo o misticismo protecionista criado em torno da prática musical. No entanto, durante a maior parte da história da humanidade a música foi uma atividade tão corriqueira e natural quanto andar e conversar, e não uma dádiva concedida a poucos que nasceram com um “dom” ou “talento”, ou algo em que seja preciso estudar até se especializar para finalmente estar “apto” a realizar (as duas ideias mais comuns atualmente). Por conta desse desvio de percurso, a educação em que acredito tem como ponto de partida a desmistificação da prática musical. A música é, muito antes que uma profissão, uma atividade humana natural e coletiva, uma brincadeira (no sentido mais nobre da palavra), uma forma de estar junto fazendo alguma coisa, compartilhando uma experiência. Por isso acredito ser necessário re-democratizar a música, dar novamente acesso a todos a essa prática, e com isso desenvolver o senso crítico, libertar a criatividade, apurar a sensibilidade, fortalecer o senso de grupo e de comunidade. E obviamente, fazer isso baseado nos nossos próprios valores, usando material já presente em nossa cultura, riquíssima, que está cheia de coisa boa pra nos ensinar enquanto continuamos a importar didáticas e procedimentos de outros países. Acredito que projetando e aplicando corretamente metodologias de ensino que visem colocar de volta o instrumento na mão e a canção na boca de todos, não precisaremos nos preocupar em formar bons músicos, pois eles virão espontaneamente, e o público igualmente educado será capaz de percebê-los e valorizá-los. Minhas aulas são norteadas por essas ideias, e tenho obtido sucesso ao aplicá-las. Pergunte aos meus alunos!

Ok, essa é a minha concepção de educação musical, mas não é a única (graças à Deus!). Existem várias formas de se pensar e ensinar música, e com certeza muitas delas são boas e perfeitamente aplicáveis à nossa realidade sócio-cultural. Mas cadê o debate? Cadê o confronto de ideias? Quem está pensando em como será aplicada a Lei 11.769? A educação musical é importante e disso ninguém duvida, mas o buraco é mais embaixo. Uma educação musical equivocada, falha ou ineficiente pode ser um tiro no pé, e afastar mais do que aproximar as pessoas da música. Um mau músico pode tornar a música uma experiência desagradável para algumas pessoas, mas um mau professor de música pode tornar a música uma experiência desagradável para muitas gerações, e o resultado disso é ter uma arte sublime (aliás, sublime como qualquer outra arte) transformada em mais uma ferramenta de alienação, servindo somente aos interesses dos donos do mundo do capital, quando na verdade deveria ser uma ferramenta de construção e libertação do gênio humano. Aí já viu, dá-lhe mediocridade, esperem por mais especialistas falando da incrível revolução artística da obra de Lady Gaga, mais prêmios para os virtuosos instrumentistas do Restart, e mais comentários técnicos da grande cantora Preta Gil em competições musicais domingueiras.

Então, caros colegas que estão pleiteando a causa da educação musical, não comemoremos antes do tempo, pois a lei 11.769 é apenas o primeiro passo; é necessário e urgente um debate amplo, profundo e detalhado no sentido de definir as metas e métodos dessa educação.

Não vamos esquecer: o buraco é mais embaixo! O célebre samba-enredo da Mangueira de 1988 chama-se “Cem anos de liberdade: realidade ou ilusão?”, é de autoria de Jurandir da Mangueira, Hélio Turco e Alvinho da Mangueira, e serviu de inspiração para o título deste artigo. E também devo mencionar meu professor Ian Guest, autor de uma frase genial que utilizei no texto: “Professor formar músico é paradoxo. Ensinar de verdade é pôr o instrumento na mão e a canção na boca de todos, e a música a todos pertencerá. Daí nasce o músico.”

O mundo anda complicado

Esse artigo foi originado de um fato ocorrido no Facebook, onde a foto abaixo foi comentada por um amigo meu em um mural de um amigo dele. Meu amigo responde o post como “grande bobagem” e o amigo que publicou a foto responde:

“-Sou hétero, foi mal…”

A partir daí, eu, como um bom intrometido, começo um diálogo com o postador e faço desse diálogo minha argumentação e reflexão sobre esse assunto tão complexo e tão simples… Essa é a minha visão, embasada pelo que a organização mundial de saúde apresenta sobre o tema e pelo que eu pude perceber na psicologia até hoje.
Citando Foucault: “Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.”
Ser hétero não é ser ignorante… Mas, assim como a orientação sexual, também pode ser escolhido.
Ninguém pede para nós héteros pararmos de exibir heterossexualidades… Homossexuais não se comportam assim como mostrado na foto. O cartaz é tendencioso, pobre de argumentos e tenta manipular a opinião de quem vê com uma falsa e generalista argumentação. O maior problema da sociedade é conseguir ter tolerância e aceitação do que é diferente, do que sai do padrão construído. Somos ensinados a cuidar demais da vida do outro. O outro não pode ser diferente, como se ser diferente é ser ruim.

Dizer que é errado é “homofobia”, pois conceitua algo que não diz respeito à ninguém mais a não ser a pessoa… como no caso do time.

O que essa foto mostra são exageros de exibição, tal qual no mundo hétero. E não precisa ir muito longe pra ver, é só olhar um baile funk ou o carnaval, programas de tv.
A pessoa homossexual não escolhe como a uma roupa ou comida sua própria sexualidade.
Pode-se até não concordar com essa “direção” para si mesmo, como se pode não concordar com o time de futebol do outro. Porém, não devemos criar um conceito prévio sobre a pessoa que “opta” por esse ou aquele caminho sexual.
Dizer que é errado é “homofobia”, pois conceitua algo que não diz respeito à ninguém mais a não ser a pessoa… como no caso do time.

Dizer que não concorda com a “escolha” do outro, sem defini-la como sendo certo ou errado, apenas respeitando e o deixando ser como quer ser é o bem viver em sociedade. A expressão do homossexual, sendo a mais afetada ou a mais enrrustida, não deve causar desconforto. Por ser diferente do padrão estabelecido, incomoda. E aí o pré-conceito reina. Se um cara for afeminado não necessariamente ele é homossexual. E um cara sério, de comportamento rude e masculinizado às vezes é homossexual.

O que se deve perguntar é por que isso ainda agride alguns? Por que isso soa tão mal? O movimento gay é uma luta para que o preconceito acabe, para que a igualdade de direitos exista.
Não existe liberdade Gay, existe liberdade. É inerente. Amor não tem sexo. Por que dois homens ou duas mulheres se beijando agride mais e o casal hétero não? Sugiro doses homéricas da série Modern Family para facilitar os caminhos da compreensão e aceitação, uma verdadeira aula de como conviver com as diferenças. E ainda é bem divertido enquanto seriado.
Curioso é que não há definição que englobe toda a extensão da homossexualidade. Particularmente sem ficar preso ao pensamento dualístico, a famosa relação de causa e efeito, acho que homossexualidade é SER. É o verbo intransitivo como ar, como paladar. Simples assim, é uma boa metáfora.

Encerro este texto com uma frase perfeita de Boaventura de Souza:

“Devemos lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem e lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize.”

Reanimaram o gif

Dizem que graças ao Tumblr, que aqueles antigos gifs animados mofando nos confins da Internet, ganharam vida nova. E também só porque a maioria das redes sociais hoje não permite a postagem destas imagens em movimento, muita gente esqueceu deles. Mas o charme desses pixels se alternando em loops de pouquíssimos segundos, sem qualquer necessidade de interação, ou de plugins, não tem igual.

Segundo o Mashable, não só o Tumblr, mas o Reddit e outras iniciativas mais especilizadas, são responsáveis pela recuperação dos gifs. O duo de fotógrafos Jamie Beck e Kevin Burg mistura a técnica surrada dos gifs com imagens bem produzidas para moda, atingindo um nível muito além do comum. O resultado deste trabalho passou a ser chamado de “cinemagraphs“, devido à qualidade cinematográfica dos arquivos .gif.

Os gifs (abreviação de Graphics Interchange Format) começaram a circular na WWW em 1987 com uma taxa de compressão mais eficiente que a das antigas imagens para web, e que foi a patenteada como LZW, pelos seus criadores Abraham Lempel, Jacob Ziv, e Terry Welch. Em 1989 o formato ganhou capacidade de animação e aí não teve outra, roubou a cena em quase todos os sites. Foi assim que mais tarde o Flash pegou tão bem, marcou uma época em que toda página tinha que ter uma introdução com arrojadas formas em movimento, botões que reagiam com barulhinhos, se requebrando diante do cursor. Muita gente fez carreira nesse período, incluindo eu mesma, apesar de não ter feito muita grana. Pouco depois, nos cansamos daquelas páginas carnavalescas, clicávamos em “pular intro” e íamos direto a informação que se procurava. Com o tempo também, novos formatos de vídeos pra web tornaram-se mais difundidos, surgiu o Youtube, o javascript e tantos outros tipos de interação dinâmica. Até que um dia a Apple decidiu matar o .swf, quando lançou o iPhone e o iPod touch sem suporte para Flash. Mas esta conversa pode ficar pra outro post.

Boneco que animei no Flash, a partir de um desenho pela minha prima de 7 anos

No Brasil eu só fui começar a usar a Internet, e mesmo assim de leve, em 1998. Criei um email, não me lembro em qual domínio. Em poucos anos, todos nós, uns mais cedo, outros bem mais tarde, abraçaram a web. Depois do advento do Google e seus incontáveis recursos, dos blogs, das redes sociais, ninguém mais imagina existir fora a teia do tamanho do mundo. Como foram rápidas as mudanças de hábitos e as interfaces! Lembro de quando podíamos a postar gifs no Orkut (há quantos anos atrás?), era a maior diversão. E deve ter causado verdadeiros pandemônios nas conexões da época. Cada página cintilava em vermelho, verde e azul, RGB, numa frequência frenética. O Orkut morreu (morreu?), e como as mudanças tecnológicas são galopantes, as possibilidades de video e áudio evoluem mais rápido do que a gente pensa acompanhar. E por isso que os gifs, na sua simplicidade possuem uma certa graça, com ares de antiguidade digital.

Adoro entrar no ffffound de vez em quando e descobrir as animações mais fofas, ou mais lindas, ou as mais esdrúxulas possíveis.

Carros Abandonados | Eduardo Fialho

O Diretor de Arte e Fotógrafo argentino Eduardo Fialho, em seus estudos para propagandas pelas ruas de Palermo Viejo (um bairro nobre de Buenos Aires na Argentina), capturou diversas fotografias de carros antigos abandonados e fez uma coleção fotográfica. O trabalho revelou diversos carros, como Dodges, Volkswagens, Fords, entre outros bólidos bem raros e cobiçados por colecionadores e entusiastas mundo afora.

Veja o projeto completo e mais outros trabalhos realizados por esse talentoso diretor de arte argentino no seu portfólio online.

 

Dadá Maravilha ou “da insuficiência do pesar”


“Todos vocês estão acusados: Levantem-se!
De pé, como fariam para ouvir a
Marselhesa ou Deus Salve o Rei…
Dadá, sozinho, não cheira a nada;
Não é nada, nada.
É como as suas esperanças: Nada.
Como o seu paraíso: Nada
Como os seus ídolos: Nada
Como os seus políticos: Nada
Como os seus heróis: Nada
Como os seus artistas: Nada
Como as suas religiões: Nada
Vaiem, gritem, esmurrem meus dentes, e daí ?
Continuarei dizendo que vocês são uns
Débeis-mentais. Daqui a três meses, meus amigos
E eu lhes estarei vendendo os seus retratos,
por uns poucos francos.”

Manifesto Canibal Dadá
, de Francis Picabia, lido na noite Dadá do Théatre de la Maison de L’Oeuvre, Paris, 27 de março de 1920 

 

O primeiro enrolou-lhe a língua, engasgou, não esperava por essa, nessas horas não se espera por nada, quem espera algo chorando? Choro só sai, assim, jorro. Uma imagem batida, mas é essa explosão mesmo que tento retratar.

O segundo foi um soluço interrompido, faltou-lhe ar, sentiu refluxo, desejava expelir aquele estrago, arrebentar. Não sentiu nada ao ouvi-la, curiosamente; apesar de toda sensibilidade por ele auto-idealizada, cínica, racionalizada. Como se fosse possível também isso: ter razão e sentimentos.

Ou se fala ou se sente, não há dicotomias ou divergências (é preciso desejar muito a ausência pra se invocar palavras que impressionem, na melhor das desculpas, que “traduzam” realmente o sentido, pensado). Pois daí que é impossível sentir e pensar ao mesmo tempo. Façam o exame, acompanhem o esquema, experimentem, pois foi desta forma, que se encontrou. E nunca foi cartesiano.

Então, no primeiro engulho, um choro catarse, soltou bem os ombros, o pescoço levemente jogado pra trás, um toque de drama, pois no fundo, doía-lhe antes a planejada esquiva daquele instante; como se não sentir, ou pensar, fosse a última agressão. Frio, ele foi frio. Mas lutou contra isso. Junto dos ombros balançantes e do pescoço pra trás, voltou em um abraço tímido, recebido por outro desesperado, que resvalou em alguma protuberância que, na falta de melhor termo, chamou de “sentimento”. Tentou em vão, através de fru-frus e não-me-toques, alçar dignidade ao evento.

Esse abraço o fudeu.

Aí abortou outro soluço e irrompeu em uma convulsionante cena de viúva em funeral, e se abraçaram verdadeiramente – talvez a única verdade daquele dia, valendo até um termo em latim – caso soubesse latim -, arriscou: instantus veritas.

Ou se pensa ou se sente.

O pai-de-santo o indagava: “procure o sensível”. O sensível, experiência táctil (meu preferido) vem dos sentidos, certo? Daí em diante, logo em seguida, sendo o tempo uma abstração irreal, e o em seguida na verdade simultâneo, somos insetos apressados na parede. A tal busca de referências que permitem que vivenciemos a experiência em si em sua plenitude – sendo tudo isso variável e parcial, claro. Fez sua parte, esforçou-se, apesar de tudo. Mas é difícil. Há sempre a necessidade de se esquadrinhar possibilidades, motivos, sinais. De repente, fica todo mundo especialista. E essa porrada é doída demais. Não tem preparação, meu nego. Já esteve do outro lado. Secou as lágrimas, afinal, de que adiantavam?

All I Own – Tudo que eu tenho

A fotógrafa sueca Sannah Kvist, fez um ensaio com jovens suecos, onde ela critica o consumismo exagerado.

Ela selecionou 8 jovens nascidos nos anos 80, e os mesmos fizeram esculturas com seus pertences, onde mostra que a geração deles (incluindo ela), vive de forma um pouco diferente das críticas feitas pela sociedade da Suécia, que taxa seus jovens como egoístas, materialistas e excessivamente consumistas, e faz uma crítica ao supérfluo.

O cheiro faz sentido

Dentre todos os nossos sentidos, aquele mais sutil e talvez mais negligenciado na cultura ocidental contemporânea, creio que todos vão concordar, é o olfato. Normalmente sabemos dizer o que para nós cheira bem e o que cheira mal. Nada muito além. Nossos padrões de higiene e de comportamento também determinam como devemos perceber o mundo, evitando ou preferindo odores, como se houvesse uma norma para esta experiência que é tão subjetiva. Um exemplo pronto seriam os nossos cheiros corporais. Suor, hálito, genitálias… Veículos de vergonha e de preconceito. Nossos cheiros devem ser devidamente neutralizados, dirfarçados ou exterminados o mais prontamente. Mas estes são valores que vêm de uma cultura muito mais recente do que se pensa.

Na Idade Média os cheiros eram um canal de comunicação tão importante quanto a fala. Os cheiros carregavam informação, valores, histórias. Imagens eram muitos mais perigosas. Aliás a visão é tão dominante hoje em dia que alguns autores falam de uma patologia visual, como o arquiteto finlandês Juhanni Palasmaa, no seu lindo ensaio “The Eyes of the skin” (“Os olhos da pele”). A overdose de estímulos óticos jorrada nas populações urbanas de hoje em dia pode e deve estar gerando vários efeitos colaterais. Mas esta discussão fica para um outro post. O que quero propor aqui é que podemos apreciar o mundo também pelas nossas duas narinas.

A norueguesa Sissel Tolaas, talvez seja o melhor exemplo no mundo da arte, trabalhando exatamente os tabus do olfato. Ela não só cria cheiros absolutamente novos, não só pesquisa tecnologias para aplica-los numa exposição, mas ela sintetiza cheiros considerados abomináveis. E ela testa todos em si mesma, ainda por cima em seus próprios vernissages. Leia mais neste excelente artigo do NY Times.

Com a obra “The Smell of Fear” (“O cheiro do medo”), Sissel coletou o suor de dezenas de homens que sofriam de síndrome do pânico, numerou-os e expôs os odores nas paredes da galeria do MIT, o List Visual Arts Center. Leia mais. Os visitantes tinham que literalmente deslizar pelas paredes da galeria, cheirando as áreas segundo a numeração criada. Reza a lenda que uma mulher se apaixonou por um cheiro de um homem exposto ali e voltou diversas vezes para cheirá-lo.

Quem conhece um pouco mais sobre a fabricação de perfumes, sabe que aromas desagradáveis também fazem parte das receitas. O amílscar, para citar apenas um dos ingredientes de nove entre dez perfumes comercializados, é originalmente uma secreção coletada de cervos, ratos, patos, escaravelhos, e por aí vai, dependendo do continente. Abre aspas para o wikipedia português:

Para obter-se o perfume do cervo-almiscarado, mata-se o animal e se extrai completamente a glândula, que é secada ao sol, sobre uma pedra quente ou submergindo-a em azeite quente. É comercializada sob duas formas: a glândula inteira ou o perfume extraído do seu receptáculo.

Claro que hoje em dia a maioria das moléculas são sintetizadas para recrirarem o aroma de todas as substâncias de outrora. O primeiro perfume 100% sintetizado na história foi, acreditem, o Chanel nº 5. Extrair aromas de flores, bestas, frutas exóticas significa muito mais custo. Em tempo: no mínimo 90% de conteúdo todos os perfumes do mundo constitui-se de álcool, a substância que permite manter a qualidade e ao mesmo tempo dissipar o perfume quando liberado no ar e na pele.

E Sissel Tolaas não está sozinha. O inglês James Auger, a holandesa Caro Verbeek, (que deu aula recentemente no meu curso em Haia), a crítica de arte americana Laura Marks, entre outros, estudam e divulgam o conhecimento olfativo através da arte. Com o trabalho “Blind Date” de 2009, James Auger propôs o casamento entre pessoas desconhecidas, através de um teste olfático. Sabendo que instintivamente escolhemos nossos parceiros de procriação pela diversidade genética (garantindo o sucesso de uma prole saudável), uma fungada nas axilas e no sexo do parceiro informaria o suficiente para uma união estável. Leia mais!

Enfim, os cheiros fazem muito mais parte do cotidiano do que a nossa vã consciência dirá. Sabemos que nossa experiência gustativa, acontece em grande parte pelo ar, o prazer de sentir o cheiro dos alimentos ao serem picados, cozidos, assados ou fritos. Está provado também que a memória olfativa é poderosíssima, capaz de auxiliar no tratamento de deficiências cerebrais e curar traumas guardados no fundo do inconsciente. A gente não escolhe o que cheira, os cheiros invadem a gente. E no entanto ignoramos este canal como fonte de conhecimento.


Dizem por aí que a teoria dos cinco sentidos é na verdade uma grosseira simplificação de todo o nosso aparelho perceptivo. Segundo Robert Marc, da Universidade de Utah, EUA, numa ágil apresentação de slides, disponível no, You Tube, nós, humanos, somos equipados de mais de vinte tipos de sensores, enquanto outros animais podem fazer uso  de vários outros sentidos, às vezes muito mais aperfeiçoados quanto a gente. Cobras que tem visão infra vermelha, podendo localizar prezas pelo calor; morcegos podem o espaço através de eco-localização… Se por exemplo considerarmos nossas sensações de equilíbrio, de gravidade, de movimento etc, onde você colocaria estas noções dentro das cinco categorias clássicas? Infelizmente a maioria das fontes na Internet ainda estão em inglês. Mas a conversa não acaba aqui. Aguardem notas sobre a exposição em cartaz no museu de história natural de Leiden, chamada “Os supersentidos”. Vou ali e volto já.

Ludmila Rodrigues é artista interdisciplinar, estudando na Artscience, na KABK, Holanda.

Sobre o prazer de viajar

Há muito tempo penso em compartilhar minhas experiências mundo afora. Pensei em criar um blog, mas as atribulações do dia-a-dia nunca me permitiram. O Vinícius então me chamou para escrever aqui sobre as minhas aventuras.

Viajo muito, ao menos 2 vezes por ano me dou de presente uma viagem internacional. Vivo de trabalhar e economizar dinheiro para minhas viagens. Porque internacional? Custo-benefício. Viajar pra fora me faz ver um mundo completamente diferente. Ao pesquisar o preço de passagens e hotéis pelo Brasil, prefiro pagar um pouco mais e alçar destinos mais longínquos. Isso não quer dizer que não tenha feito ótimas viagens pelo Brasil.

O prazer de uma viagem pra mim começa bem antes de a viagem começar. A pesquisa sobre onde ir, o que visitar, comidas típicas, passeios interessantes já te faz se sentir no local de destino. E esse passo é extremamente importante para você aproveitar ao máximo sua viagem. Guias de viagem são legais, mas o melhor mesmo é pesquisar blogs de viagem. As informações são mais atualizadas e, muitas vezes, menos turísticas. Pense nos locais turísticos que você pretende visitar, veja como chegar e horários de funcionamento. Pense também em passeios que você gostaria de fazer, é importante separar um tempinho para fazer passeios sem pressa, caminhar sem muito compromisso e observar os hábitos dos locais. Não deixe de pesquisar sobre a gastronomia local. Antes de ir, saiba quais os pratos típicos você quer experimentar. Muitas vezes, você não vai saber o que significam os nomes dos pratos locais, e pode deixar de comer comidas maravilhosas se não souber de antemão o que elas são. Por fim, aprenda algumas frases básicas na língua local. É importante e simpático saber dizer oi, por favor e obrigado a língua local quando precisar pedir informação.

Não tenho um blog de viagem (ainda) mas virei aqui trazer minhas dicas pessoais sobre viagem. Até breve!