O cheiro faz sentido


Dentre todos os nossos sentidos, aquele mais sutil e talvez mais negligenciado na cultura ocidental contemporânea, creio que todos vão concordar, é o olfato. Normalmente sabemos dizer o que para nós cheira bem e o que cheira mal. Nada muito além. Nossos padrões de higiene e de comportamento também determinam como devemos perceber o mundo, evitando ou preferindo odores, como se houvesse uma norma para esta experiência que é tão subjetiva. Um exemplo pronto seriam os nossos cheiros corporais. Suor, hálito, genitálias… Veículos de vergonha e de preconceito. Nossos cheiros devem ser devidamente neutralizados, dirfarçados ou exterminados o mais prontamente. Mas estes são valores que vêm de uma cultura muito mais recente do que se pensa.

Na Idade Média os cheiros eram um canal de comunicação tão importante quanto a fala. Os cheiros carregavam informação, valores, histórias. Imagens eram muitos mais perigosas. Aliás a visão é tão dominante hoje em dia que alguns autores falam de uma patologia visual, como o arquiteto finlandês Juhanni Palasmaa, no seu lindo ensaio “The Eyes of the skin” (“Os olhos da pele”). A overdose de estímulos óticos jorrada nas populações urbanas de hoje em dia pode e deve estar gerando vários efeitos colaterais. Mas esta discussão fica para um outro post. O que quero propor aqui é que podemos apreciar o mundo também pelas nossas duas narinas.

A norueguesa Sissel Tolaas, talvez seja o melhor exemplo no mundo da arte, trabalhando exatamente os tabus do olfato. Ela não só cria cheiros absolutamente novos, não só pesquisa tecnologias para aplica-los numa exposição, mas ela sintetiza cheiros considerados abomináveis. E ela testa todos em si mesma, ainda por cima em seus próprios vernissages. Leia mais neste excelente artigo do NY Times.

Com a obra “The Smell of Fear” (“O cheiro do medo”), Sissel coletou o suor de dezenas de homens que sofriam de síndrome do pânico, numerou-os e expôs os odores nas paredes da galeria do MIT, o List Visual Arts Center. Leia mais. Os visitantes tinham que literalmente deslizar pelas paredes da galeria, cheirando as áreas segundo a numeração criada. Reza a lenda que uma mulher se apaixonou por um cheiro de um homem exposto ali e voltou diversas vezes para cheirá-lo.

Quem conhece um pouco mais sobre a fabricação de perfumes, sabe que aromas desagradáveis também fazem parte das receitas. O amílscar, para citar apenas um dos ingredientes de nove entre dez perfumes comercializados, é originalmente uma secreção coletada de cervos, ratos, patos, escaravelhos, e por aí vai, dependendo do continente. Abre aspas para o wikipedia português:

Para obter-se o perfume do cervo-almiscarado, mata-se o animal e se extrai completamente a glândula, que é secada ao sol, sobre uma pedra quente ou submergindo-a em azeite quente. É comercializada sob duas formas: a glândula inteira ou o perfume extraído do seu receptáculo.

Claro que hoje em dia a maioria das moléculas são sintetizadas para recrirarem o aroma de todas as substâncias de outrora. O primeiro perfume 100% sintetizado na história foi, acreditem, o Chanel nº 5. Extrair aromas de flores, bestas, frutas exóticas significa muito mais custo. Em tempo: no mínimo 90% de conteúdo todos os perfumes do mundo constitui-se de álcool, a substância que permite manter a qualidade e ao mesmo tempo dissipar o perfume quando liberado no ar e na pele.

E Sissel Tolaas não está sozinha. O inglês James Auger, a holandesa Caro Verbeek, (que deu aula recentemente no meu curso em Haia), a crítica de arte americana Laura Marks, entre outros, estudam e divulgam o conhecimento olfativo através da arte. Com o trabalho “Blind Date” de 2009, James Auger propôs o casamento entre pessoas desconhecidas, através de um teste olfático. Sabendo que instintivamente escolhemos nossos parceiros de procriação pela diversidade genética (garantindo o sucesso de uma prole saudável), uma fungada nas axilas e no sexo do parceiro informaria o suficiente para uma união estável. Leia mais!

Enfim, os cheiros fazem muito mais parte do cotidiano do que a nossa vã consciência dirá. Sabemos que nossa experiência gustativa, acontece em grande parte pelo ar, o prazer de sentir o cheiro dos alimentos ao serem picados, cozidos, assados ou fritos. Está provado também que a memória olfativa é poderosíssima, capaz de auxiliar no tratamento de deficiências cerebrais e curar traumas guardados no fundo do inconsciente. A gente não escolhe o que cheira, os cheiros invadem a gente. E no entanto ignoramos este canal como fonte de conhecimento.


Dizem por aí que a teoria dos cinco sentidos é na verdade uma grosseira simplificação de todo o nosso aparelho perceptivo. Segundo Robert Marc, da Universidade de Utah, EUA, numa ágil apresentação de slides, disponível no, You Tube, nós, humanos, somos equipados de mais de vinte tipos de sensores, enquanto outros animais podem fazer uso  de vários outros sentidos, às vezes muito mais aperfeiçoados quanto a gente. Cobras que tem visão infra vermelha, podendo localizar prezas pelo calor; morcegos podem o espaço através de eco-localização… Se por exemplo considerarmos nossas sensações de equilíbrio, de gravidade, de movimento etc, onde você colocaria estas noções dentro das cinco categorias clássicas? Infelizmente a maioria das fontes na Internet ainda estão em inglês. Mas a conversa não acaba aqui. Aguardem notas sobre a exposição em cartaz no museu de história natural de Leiden, chamada “Os supersentidos”. Vou ali e volto já.

Ludmila Rodrigues é artista interdisciplinar, estudando na Artscience, na KABK, Holanda.

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