Nas entrelinhas, os filmes de Alÿs examinam o passado, o presente e o futuro das sociedades retratadas. Podem-se notar danos ambientais, o impacto da urbanização, ou de guerras e da pobreza. Sem entrar explicitamente nestas questões, Alÿs encontra na inocência, a resiliência; e na catástrofe, a esperança; mostrando como as crianças criam um senso de normalidade em meio a ruínas e precariedade. Elas não têm tempo a perder. A alegria é contagiante. Children’s Games nos enche de fé, pois revela a potência lúdica humana, ainda que nos alerte sobre o impacto das novas tecnologias na formação psicossocial das crianças. Quantas crianças hoje ainda brincam fora de casa, com vizinhos e desconhecidos? Quantas ficam em casa, online, grudadas às telas do celular e do tablet? A exposição estimula um debate complexo, ainda que apresentada de forma leve, contemplando todas as idades.

O espaço de exposição na Wiels incorporava o espírito lúdico da obra, disponibilizando bancos com rodinha, que qualquer um podia escolher sentar e deslizar entre as telas. Algumas crianças aproveitavam para literalmente viajar pela exposição. E ainda, a descrição de cada jogo, acompanhando o filme, também era uma delícia de se ler. Em três línguas (Francês, Inglês e Holandês) e seguida de uma ilustração simples representando o jogo, Alÿs descreve as regras básicas e traduz o que se passa no inconsciente das crianças. Mas o artista lança mais perguntas do que respostas. Alguns jogos dispensam regras, sugerindo que as crianças possuem uma comunicação quase telepática – inventando o jogo na hora, num modo de improvisação que escapa à razão. Alguns textos transcendiam a prosa e beiravam a poesia, como o do filme das brincadeiras na neve, que são no fundo uma grande farra na floresta:
“O senso mais básico da diversão é criado pelo acaso, presenteado pelo meio ambiente. A alegria na neve é imediata demais para demandar regras. Um jogo instiga outro. Primeiro uma batalha caótica, com os lançadores de bola de neve espiando por trás das árvores, uma pequena colina de neve a ser conquistada… depois, todos se unem para deslizar por uma encosta maior, esfuziantes. Por fim, uma enorme bola de neve é criada em coletivo para rolar ladeira abaixo. A neve, tão maleável e resistente quando compacta, logo desaparecerá.”