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Cas Van de Pol: Um Novo Senso do Ridículo

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Se você não estiver morando em uma pedra nos últimos seis meses ou se a internet permitir ter furado a sua bolha, muito provavelmente você deve ter visto a animação ao lado. A versão caricata do personagem “Banguela“, do filme “Como Treinar Seu Dragão” (2010) cheio de requebrado foi replicado e parodiado centenas de vezes. Porém, na verdade, o vídeo não se trata de um meme original, mas sim uma rotoscopia feita pelo animador Cas Van De Pol de outro vídeo que já circulou bastante por ai.

Para aqueles que não se aprofundaram na pesquisa, Cas é um animador holandês conhecido por fazer um trabalho que brinca muito com o senso do ridículo. Seu canal publica vários episódios de Ultimate recaps“, que nada mais são resumos altamente duvidosos, de filmes, séries, jogos e desenhos animados. Seus vídeos, combinam um traço “fofo” e simples com memes de diferentes fontes, estilos de animação, itens 3D, escatologia e um pouquinho de sanguinolência.

Nessa pegada, filmes da Pixar, Dreamworks, Harry Potter, Shrek, Marvel, personagens de Super Mário entre vários outros ganharam resumos.

Para conhecer mais o trabalho de Cas, se inscreva em seu canal.

Não Vale Morrer

É possível que na presente resenha sintam algo jamais experimentado em um texto meu. “Talento, verdade, competência?” vocês devem estar se perguntando em um gerúndio corrosivo até para ouvidos treinados em dinâmicas de call center. Evidentemente que não! Trata-se tão somente de singela emoção. Portanto, afirmo que até o mais insensível dos canalhas sentirá as palavras úmidas pela minha comoção. Isso não será apenas uma peça crítica, mas sim uma espécie de tributo.

Nunca é fácil desenvencilhar o autor de sua obra, especialmente quando o sujeito é um amigo de infância, de adolescência, e sempre foi um símbolo, ou melhor, um norte literário. Um escritor de verdade, tangível, osso e vísceras, suor e cabelos desgrenhados… E não aqueles canastrões de filmes estadunidenses que vão para as montanhas rochosas do Colorado com seus laptops para escreverem os romances definitivos da língua inglesa. Não, esse definitivamente não é o Leonardo Marona.

Escrito basicamente na segunda pessoa, são vários focos narrativos para montar uma insana história com pé, sem um braço, mas com boa parte da cabeça. Misturando poesia modernista e um fluxo de consciência — que deixaria ruborizada as bochechas, já rosadas, de Chuck Palahniuk — Celestino nos insere em um mundo pós-apocalíptico cruel, embora bizarramente funcional. E quando utilizo o “bizarro” por aqui, faço na melhor acepção da palavra e não como um jovem empolgado com algo trivial. Pois bem, sem qualquer pudor, o autor parte de Fernando Pessoa, passa pelo canibalismo legalizado e inteligências artificiais psicopatas, até alcançar um tratado filosófico existencial que dá sentido ao Universo esmigalhado de sua obra. Imagine se David Lynch tivesse dirigido Vingador do Futuro, hein? Ou Glauber Rocha tesourando Blade Runner? Imaginou? Ótimo, fico muito feliz com vocês seguindo minhas orientações.

Mas, como tudo na vida é um escambo de partículas, agora irei responder suas perguntas, leitores. Sim, é claro que tem o genial Andy Kaufman para salvar o dia. Não, ele não lê Gatsby. Por óbvio que temos um milico-ianque histérico, um matadouro de gente, um Salvador com uma nova consubstanciação de carne, sangue e alma, e um sistema chamado “Pátria Amada”. É evidente que o protagonista mora em São Paulo, seu nome é Mário e eu me recuso a fazer piadinhas datadas como: “Que, Mário? Aquele que foi drenado pelo sistema sem chance de enrabar ninguém qualquer que fosse o lugar, armário ou não.” Não, não tem nenhum super-herói de capa nessa história, caras! Vocês precisam se acostumar com isso.

Por certo, agora, outro questionamento deve estar surgindo em um balãozinho de quadrinhos bem ao lado dessas suas magistrais cabeçonas hiperativas; “será que essa condição afetará as impressões desse idiota sobre o livro resenhado?”. Obviamente que sim, miseravis!

Sem mais delongas, apresento “Não vale Morrer” de Leonardo Marona publicado pela Editora Macondo.

“Hoje ninguém fala nisso porque concordamos em almejar misérias médias dos cidadãos de classe média e vida média que são os nossos escritores oficiais reverberados. Então fica parecendo que assim vivem os escritores. Como num grande consórcio literário de resultados”.

Vejam bem, esse livro não é um libelo em desfavor da coachlização literária, mas é sobretudo um choque vigoroso, inapelavelmente honesto, nessa turma canastrona de fanfarrões que desembarcaram de forma desavergonhada das agências de publicidade predatória, onde evidentemente a escrita é o que menos importa.

Portanto, acompanhamos o protagonista Leon Trapani, alter ego de Leonardo Marona (que na minha opinião já se junta ao seleto grupo de Bandini, Sal Paradise, Nathan Zuckerman,  Cadu do Reinaldo Moraes) um livreiro da mais prestigiada livraria do Rio de Janeiro, porém igualmente um literoperário, que percebe e lubrifica as engrenagens que estão passando por todos os lados. Como operário, escreve para não morrer de fome, de amor, de tédio, de indignação, para que não seja engolido pelo ordinário que adora beliscar nossos fígados de prometeu acorrentado, enquanto o mundo tenta empurrar sua papinha rubra e insossa em nossa garganta, para desespero de nosso olhos arregalados de Alex de Large, que nada podem fazer. Leon é um alcoólatra em franca recuperação e as reuniões do AA servem de porto seguro para sua jornada, assim como Eva, sua companheira fascinante e misteriosa.

A primeira parte é escrita na primeira pessoa. O que é muito bom porque você cola no narrador protagonista, tal qual garupa de motinha recebendo vento, chuva, fuligem e poeira estelar por todos os cantos. Já na segunda parte, temos a mudança para terceira pessoa que se justificará imprescindível ao final. Essa estrutura é tão bem desenhada, que na primeira parte, nessa ligação mais intima, temos um quadro bem real, com flertes com o absurdo, enquanto na segunda parte é justamente o contrário, somos arrebatados pelo absurdo com pequenos flashes de realidade. Outro destaque é poder saborear a ficção dos devaneios, a projeção dessa personalidade impagável, imparável, e as minucias do onírico do Leon, que o leitor já mais irá saber se é pura criatividade ou apenas transposição para o papel, sacou?

E apesar da melancolia que envolve o contexto histórico, há humor em profusão, um sarcasmo para deleite, inclusive “involuntário”, permeando as situações inusitadas, como o dia em que o protagonista possesso pelo resultado da eleição, causalmente vestindo uma camisa estampada com o rosto de Maiakovski, é interpelado por um rebanho de cidadãos de bem, bem fornidos, com seus óculos escuros. Em absoluta tensão, os cretinos param o carro e gritam de pleno intestinos, “viva o Moro”. Só então, o protagonista percebe que os idiotas confundiram o rosto na camisa dele com o marreco fascista. Ele ainda tenta retrucar, mas já é tarde demais. A bem da verdade, para aqueles sujeitos já era tarde demais há muito tempo.

Há também um episódio belíssimo com o Wagner Tiso, que ocorre após a “pequena” vitória do fascismo, em que os livreiros buscam de tudo para aplacar a dor do músico e, obviamente, suas próprias dores, e em meu egocentrismo de leitor, preciso revelar que minha vontade era só de estar lá também, para guardar algo de bom daquela tragédia. Sim, porque me recordo nitidamente que no dia seguinte da vitória do Bolsonaro, que só conseguia me arrastar no trabalho como um dinossauro consciente do poder arrasador do meteoro, sendo dirigido por um Lars Von Trier cruel e sussurrante, soprando no meu ouvido que era o fim. O que realmente foi de certa maneira.

No epílogo tem uma enorme virada de chave, uma espécie de cavalo de pau, automobilístico e não homérico, que faz uma grande amarração de toda a trama, algo de fazer inveja no Salman Rushdie, em “Bufo e Spallanzani”, Pamuk, no “Número Zero” do Eco e no Pardal lá do Pulp. Os personagens são únicos e fascinam pela sua indisciplina. Você acaba o livro e sente que perdeu amigos íntimos; Liakos, Cova, Lorena. Tudo é espantosamente original, tragicamente cômico e comovente por pura bruxaria. Tem algo de “bebê rena”, mas bem antes de “bebê rena”. A técnica é um primor, costura forma e conteúdo, não há uma palavra intrusa, uma frase esquecida, que por algum senso de empatia do autor tenha permitido seu asilo. Sabe aquele lance do Kerouac lendo em voz alta, melodia e ritmo. Eu não li em voz alta, mas… “A literatura precisa ser vida ou não será nada”.

É um livro escandalosamente corajoso, não é evidentemente um manual para escritores, porém é em algum aspecto uma espécie de bula para adictos que sentem prazer também em conhecer a fundo os efeitos adversos da escrita. Mas engana-se quem pensa que esses efeitos colaterais afastam, ao contrário, eles criam um sentimento de que há mais gente assim, com os mesmos anseios e as mesmas dores.

E por mais que sinta certo receio dessa biosfera vibrante e hostil desse livro, confesso que sinto mesmo é inveja, muita inveja, de não ter vivido isso. Como o garoto que dormiu no final de semana e perdeu a expedição na linha do trem para achar o corpo do “Conta Comigo” “When the night”… Às vezes me questiono porque nossa relação pós juventude não foi tão próxima, de todas as coisas que podiam ter sido e não foram.

Eu, sem falsas esperanças, provavelmente nadaria ali do lado, como um peixinho que come as sobras do tubarão. O que de fato poderia ser deletério, afinal, a ausência de talento certamente me transformaria em um fumante passivo que no final só recebe o câncer.

Por fim, cá pra nós, leitores, ao admitir que abandonei de vez a resenha do livro, escutem só, lembro-me que Léo e eu tivemos dois ou três encontro explosivos na vida adulta, cósmicos e perigosos, e foi como se ainda estivéssemos estudando juntos, todos os dias, sem melindres e interesses menores. Num desses conclaves que começam num lugar e terminam do outro lado da cidade, acordei 24 horas depois com uma perna fissurada porque tomei um tombo olímpico no metrô da glória ao meio-dia, numa quarta-feira, borracho com um cardeal. Mas a dura realidade é que hoje quase não caio, porque já quase não bebo. E, vez ou outra, em dias que toda quina é uma cama, recordo-me, que formávamos uma grande dupla de zaga. Talvez não a mais alta, ou a mais esbelta, mas certamente a mais perseverante e sanguínea.
Não sei até que ponto é relevante ou eficaz dizer, no entanto, “Não Vale Morrer”, meus amigos.

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

O bonequinho dá cambalhotas desengonçadas e chora sem parar diante do ponto final.

* * *


Título: Não Vale Morrer
Autor: Leonardo Marona
Editora: Macondo
Ano: 2021

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Amyl and The Sniffers, conhece?

Quando me deparei com o primeiro clipe do Man I Trust não fazia ideia que em tão pouco tempo essa banda dominaria meu coração, ao ponto de desbancar minha ex-banda preferida (agora em segundo lugar) Arcade Fire, mas aí pensando bem, percebi que antes do Arcade, curtia muito o The XX, antes do Camera Obscura, que veio antes da também Belle and Sebastian, e por aí vai (a lista é longa), mas pouparei você, caro leitor. Devo confessar que tenho uma preferência por vocal feminino (seria uma patologia?) e quando ouvi a voz da Amyl pensei: “Vem aí mais uma banda preferida…” e não deu outra, me rendi legal a Amyl and The Sniffers. Vai na minha, é sério mesmo! É muito boa, não tem como não gostar (afirmação forte essa, eu sei…rs), mas assim, mandei para alguns amigos que curtem trocar referências musicais e todos curtiram (e isso é bem incomum, minha galerinha é meio exigente…). Mas calma, tem todo um processo, segue o baile…

Amyl and The Sniffers
Amyl botando para foder.

Antes de começar é importante entender que o que vem por aí não é uma apenas uma performance para o clipe Some Mutts, se trata de uma marca da Amyl o que já deixa tudo bem original. Outra coisa que me pega e que não vejo com tanta frequência são as formações de banda punk “clássica” clichê: vocal, baixo, guitarra e bateria. Olha a harmonia: baterista no fundo, baixista e guitarrista nas laterais e o “band leader” no meio. Só para não parecer que estou inventando essa fórmula, segue uma listinha de bandas com 4 integrantes: The Beatles, Led Zeppelin, Queen, Metallica, Pink Floyd, U2, AC/DC, The Doors, Ramones e Green Day. Conhece alguma delas?

Linda formação "clássica" de 4 integrantes. (crédito: LIVE REVIEW & PHOTOS: Amyl and The Sniffers @ Variety Playhouse – Atlanta, GA 09-21-22)

Vamos lá: coloque o fone, tela cheia e dê o play abaixo:

Se ligou na guitarra? Bom demais Jesus…

Dando sequência, agora vamos com um clipe muito bem produzido com uma intensidade absurda, onde todos fazem sua parte deixando sua própria marca, não sei explicar, faz assim assiste os dois próximos e continuamos.

Vale lembrar que descobri “sozinho” essa banda e me orgulho sim disso, pois com esses algoritmos dos infernos a gente acaba sendo levado a lugares bons e ruins, mas para mim, só tem chegado bosta.

Vamos de mais performance?

Fala aí? Vai dizer que você não balançou a cabeça? Amyl and The Sniffers (ainda) não é a minha banda preferida, mas entrou na minha lista de bandas “perfeitas” que escuto pelo menos uma vez por semana. Espero que você tenha curtido o som deles.

Abaixo dois bons discos para você conhecer:

Destaques para: Got You e Some Mutts (Can’t Be Muzzled) – Álbum “Amyl and The Sniffers”.
Guided by Angels, Security e Hertz – Álbum “Comfort To Me”.

Tenho escutado muitos sons diferentes, graças as indicações dos meus amigos. Foi mal Spotify, mas eles acertam mais que você e todos os seus algoritmos dos infernos. Tenho pensado muito em compartilhar aqui na Zine essas minhas “descobertas”, quem sabe?

Eu te amo. Qual seu nome?

Sempre fui do tipo que se empolga facilmente. Uma ligação na terça feira para qualquer balada no fim de semana já é motivo para passar os próximos 5 dias feliz e imaginando como a noitada vai ser. Nunca falo não para um piquenique no inverno. Nem para pegar praia em dia nublado – às vezes até chuvoso. Isso não ia ser diferente na vida amorosa.

Saindo de casa naquela pressa que só quem acordou 10 minutos antes do expediente tem, peguei o 474 para ir para o trabalho. Naquela hora o ônibus não está vazio nem cheio: ainda tem assentos vagos, mas você tem que ir sentado ao lado de alguém. Algumas pessoas vão em pé por preferirem não sentar ao lado de um desconhecido. Eu sou “Algumas pessoas”. Apesar dos possíveis assentos, preferi ficar em pé e segurar a barra (literalmente).

O Spotify ligado no máximo. Ouvia uma música qualquer para me distrair do fato de estar indo para um trabalho que não amo nem odeio – assim como a lotação do ônibus. Acho que era MØ. Talvez Lorde. Era qualquer uma das atrações do Lolla que quase ninguém sabe o nome. Nessas horas de tédio todo estímulo é válido.

Sabia que algumas planilhas me esperavam no escritório. Talvez levasse um esporro por chegar atrasado. Tudo indicava que seria mais um dia normal. Nenhuma expectativa fora do normal para aquela quarta feira. Até que, alguns pontos depois da minha casa, subiu no ônibus um boy que não só despertou o meu interesse, como também aquela súbita vontade de subir no altar ali mesmo no meio do trânsito do Centro da cidade.

Eu vi que ele olhou. Ele viu que eu olhei. Não se importou em sentar ao lado de alguém que não conhecia. E, felizmente, não era tão longe de onde eu estava em pé. Olho para baixo. Olho para ele. Ele olha para a janela. Depois para mim.

Empolgado que sou, bastou a segunda olhada e já estava pensando no nome dos nossos filhos. Eu queria que fosse Max, mas ele não gostava de nomes curtos. Essa foi nossa primeira briga depois de casados. Minha mãe iria adorar ele. “Você é o genro que sempre sonhei” dizia Olivinha numa conversa em que nós três estávamos tendo na minha imaginação.

Será que ele estava indo para o trabalho também? Será que ele também está atrasado? Ninguém sai de casa nesse horário, com certeza ele também estava atrasado. Naquele momento já era óbvio que o destino queria a gente junto para sempre. Depois da terceira olhada estava mais que claro que nossas únicas opções eram: casar em Búzios ou casar em Angra.

“Não tenho coragem de falar com ele. É estranho abordar alguém assim do nada” eu gritava na minha cabeça depois de uma longa conversa comigo mesmo sobre servir cupcakes ou brigadeiros na cerimônia de casamento. Será que ele está pensando a mesma coisa? Por que não toma atitude? Olha minha cara de easy going, dá pra ver que sou do tipo de quem você pode chegar e puxar qualquer papo que vou dar conta de continuar o assunto.

Como eu queria saber o nome dele. Como dói seu marido não ter um nome, não ter um whatsapp, não te ligar todo dia perguntando como foi no trabalho. Naquele ponto não estava ouvindo mais nenhuma das músicas que o fone de ouvido insistindo em tocar. Ponto? Ponto??? Meu ponto!!! Tive que puxar a corda correndo.

Foi um término sofrido. Nunca mais nos ligamos. A Lua de mel nem chegou a acontecer. O Max deve estar esperando algum de nós dois ir lá no inglês buscá-lo – ele ia ser tão lindo se fosse real. Entrei no trabalho, liguei o computador e as planilhas estavam lá: prontas para me fazer esquecer o rosto do meu ex-marido.

* * *

Ilustrador Convidado:

Ygor Serravalle

Retrato de Ygor Serravalle, Ilustrador convidado.Prazer, eu sou um viciado em café completamente apaixonado pelas artes, principalmente animação que é o com o que eu trabalho. Tenho um grande desejo de ajudar a entregar para as outras pessoas algo que foi importante pra mim enquanto eu crescia.

  Conheça o trabalho de Ygor Serravalle no seu Artstation.

Thaumazein

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A vida é uma oscilação entre o tédio e o espanto. No tédio repousamos nossos esqueletos cansados, mas é no espanto que o chacoalhamos, é quando nosso olhar de repente se admira, se assombra, há o impacto de um pensamento ou de uma imagem, uma ideia ou experiência inédita. E somos arrebatados de nós mesmos, de quem éramos, e somos levados alhures em nossa jornada.

Esses momentos podem ser de beleza inigualável. E entre exemplos desse “thauma”, dessa profunda admiração espontânea, me ocorreu contar um causo:

Há alguns bons anos tocou o telefone de uma casa do subúrbio carioca. Do outro lado da linha, uma voz masculina se apresentou como o marido de uma prima de segundo grau por parte de um ramo afastado da família que há muito havia migrado para o interior do estado do Pará. Ou seja, um parente literalmente distante. Seu nome era Nelson, tinha acabado de se aposentar e estava pra chegar ao Rio em questão de três dias, levaria um afilhado seu, o Charles, de quatorze anos. Ficariam menos de uma semana, muito obrigado, até. Assim, desse jeito.

A matriarca reuniu os moradores, um filho e sobrinhas, e tratou de explicar: “Não conheço, não sei quem é, mas vamos recebê-los da melhor forma, você Paulo libere o quarto uns dias e fique dormindo no sofá da sala”. Sr. Nelson chegou. Um paraense conversador com muitos anos de trabalho pesado nas mãos. Seu afilhado Charles era um adolescente magrelo com um fenótipo indígena acentuado, cabelos muito lisos e escuros e pele de uma tonalidade curiosa de jambo. Quase não falava de tanta timidez.

Muito proseou Sr. Nelson sobre os acontecimentos recentes das vidas de todas aquelas pessoas de quem a matriarca desconhecia mais da metade. Agradeceu por demais a recepção e já foi logo fazendo um pedido apontado para fora da janela “Quero muito andar naquele viaduto, é bonito não é Charles?”

A casa da matriarca possuía uma vista concreta para o Viaduto Negrão de Lima. Uma obra viária setentista que cobre pistas e linhas férreas e onde, por hoje em dia sob suas vigas, ocorre o famoso Baile Charme de Madureira. Paulo os levou até lá, e cada passo deles era seguido de comentários sobre a força de toda aquela engenharia. Paulo, então com cerca de vinte e poucos anos, sentia por eles um afeto bom como quem vê no outro a ingenuidade atrelada à sinceridade pueril.

E assim os dias passavam com os dois viajantes descobrindo estupefatos as maravilhas de Madureira. A quadra da Portela, o Mercadão, o comércio pujante do bairro.

“Agora Paulo, eu vim mesmo pra cá pra realizar um sonho”

“Diga, Sr. Nelson”

“Eu gostaria de conhecer o mar”.

Paulo entendeu a poesia de tudo aquilo. Sr. Nelson e Charles eram do interior, tinham relações com grandes rios, com a floresta tropical, com o Brasil profundo. E por isso o mar era sua utopia imagética. Combinaram de ir no dia seguinte, pegaram cedo um ônibus da linha 701, Madureira x Alvorada. Paulo estava pensando em como seria a reação deles quando vissem o oceano. Porque se o viaduto de Madureira já tinha feito tanto estrago…

Desceram do ônibus, atravessaram a Av. Sernambetiba, dia de semana praia vazia, céu claro, pisaram na calçada da orla e estancaram. Sr. Nelson emudeceu, seus olhos se arregalaram, Charles sorria mil dentes como se estivesse sob efeito de ferozes psicoativos. Os dois apopléticos de frente para o Atlântico, Paulo de costas para a água olhando fascinado para eles. Todos tendo um momento de satori. O assombro.

“É fundo? A gente pode entrar?”

Paulo explicou sorrindo, “Sim, Sr. Nelson, podem entrar, hoje não está agitado, só não vão muito lá pra dentro que tá tudo certo”. Correram ensandecidos, arrancavam as camisas gritando “É lindo! É lindo!” . Paulo sentiu uma estranha vontade de chorar. Ia atrás deles hipnotizado por suas euforias. Entraram na água desajeitados, lutando contra a maré em suas canelas, se equilibravam, gargalhavam, de repente Sr. Nelson mergulhou. Passaram poucos segundos, para Paulo tudo aquilo era cinema em câmera lenta. Então emergiu.

“CHARLES! É SALGADA!!!”

Referências, citações e homenagens

Na edição de março deste Zine eu falei de um cartum que tinha como referência um velho anúncio de sabão em pó. E agora a coisa é parecida: me lembrei de uma cena de uma HQ que publiquei em 2016 no Globo, em forma de seriado. A parada se chamava “ET de Varginha vs Chupacabra”. No episódio 11 apareceu esta imagem:

Referências: Uma charge do ET de Varginha VS Chupacabra

Até hoje não sei se os leitores perceberam a referência, citação ou homenagem a uma gravura erótica japonesa do século 19, que é esta aqui:

Referências: The Dream of the Fishermans Wife

O autor é Hokusai, o mesmo daquela célebre gravura “A Onda”. Só que ele, e outros artistas da época, também faziam gravuras eróticas, além das séries sobre assuntos mais triviais, como paisagens, cenas urbanas, retratos de famosos atores de teatro kabuki, essa coisa toda… Esse estilo era chamado de Ukiyo-e. E eram xilogravuras muito baratas, porque podiam ser reproduzidas centenas de vezes. Mal comparando, eram mais ou menos o que viriam a ser as histórias em quadrinhos no século 20. E, se você reparar bem, vai ver que no fundo da imagem tem um texto em japonês. Esse texto são os diálogos entre os personagens da cena: o polvo grande, o polvo menor e a mulher, que é uma mergulhadora, pescadora de pérolas, que está gostando muito desse ménage à trois com as criaturas marinhas.

Se a tradução for confiável, o diálogo é tórrido, com altas doses de sensualidade, e tem até onomatopeias imitando gemidos de prazer, como numa revistinha de sacanagem. Isso poderia ser considerado um antepassado dos mangás eróticos de hoje. E é um caso de acasalamento perfeito entre figuras e palavras.

Só um esclarecimento: no ocidente, essa imagem, que não tem título, ficou conhecida como “O sonho da mulher do pescador”. Mas os especialistas em arte japonesa explicam que esse título é equivocado, porque a imagem faz referência, ou é uma paródia da personagem de uma tradicional lenda japonesa que fala de uma humilde mergulhadora e pescadora de pérolas que se casou com um poderoso membro da corte imperial, etc, etc. E aí temos mais uma referência dentro da referência dentro da referência…É um jogo sem fim.

*Nota de rodapé 1 – Para entender melhor como o meu extraterrestre foi parar nessa situação, olha aí o episódio 7 da série:

Referências: Charge Et de varginha vs chupacabra

*Nota de rodapé 2 – Ao longo dos anos, a gravura de Hokusai continuou aparecendo em muitos contextos diferentes, até mesmo numa das temporadas da série Mad Men”. Essa e outras informações sobre a obra estão num verbete da Wikipedia (em inglês), incluindo a tradução dos diálogos dos polvos com a mergulhadora.

A Natureza do Jogo

Em janeiro visitei a exposição individual de Francis Alÿs, The Nature of the Game, série monumental sobre jogos infantis, exposta originalmente na Bienal de Veneza de 2022 e dessa vez no centro cultural Wiels, em Bruxelas. Alÿs é sem dúvida um dos maiores artistas contemporâneos vivos. Nascido na Bélgica em 1959, ele se mudou para o México em 1986 e lá realizou seus trabalhos mais importantes. Conhecido pelas suas performances em espaço público, intervenções, filmes, e também pinturas (aparentemente um suporte clássico, mas Alÿs usa uma abordagem documental, quase jornalística) talvez o interesse principal do artista seja o de entrar em diálogo com o meio ambiente e seus habitantes, interferindo muito pouco no contexto social e ao mesmo tempo sendo altamente político.

‘The Nature of the Game’ é um apanhado de Children’s Games, projeto de longa data em que Alÿs mergulha no universo das brincadeiras infantis, viajando por todos os continentes, captando a dinâmica do jogo, das relações e expressões infantis, sem qualquer presença adulta. Em mais de vinte anos nessa jornada, Alÿs foi do México a vilarejos remotos no Afeganistão, a uma praia na França, a um condomínio de Hong Kong, às ruas do Equador, filmando crianças absortas, quase em transe. A maioria dos jogos documentados são muito simples, dispensam meios materiais, e empregam basicamente o corpo, a rua e o agora. A câmera parece não estar presente, elas jogam, se escondem, riem, entram em disputas; vivem ali seus primeiros embates éticos e decidem elas mesmas o resultado do jogo.

Pulando corda, soltando pipa, apostando corrida de caracol, deslizando na neve, algumas cenas parecem vir de um tempo passado. Quantos jogos ainda são inventados hoje em dia? Além da beleza das brincadeiras, ao retratar crianças correndo, rindo e competindo, o trabalho revela um pouco de cada lugar, de cada comunidade, sua condição histórica e ambiental, como pano de fundo – mas sem empregar uma narrativa pessoal. Alÿs não intervém com sua opinião, e nem informa mais do que o nome do jogo, suas regras e o local onde foi filmado. O domínio é o das crianças e nada mais existe. Concentradas, física e emocionalmente, elas vivem uma realidade suspensa e lúdica.

Um dos vídeos mais impressionantes da exposição, na minha opinião, foi “Imbu“, filmado no Congo. Apresentado em formato vertical, numa tela gigantesca no hall de exposições, o filme retrata em grupo de crianças se reunindo ao anoitecer para entoar um zumbido que atrai o mosquito transmissor da malária. O jogo é muito simples, sussurrando o tom certo, eles invocam uma nuvem de mosquitos que vem pairar em cima deles. Enquanto entoam, eles então tentam caçar o máximo número com as próprias mãos. Para além da brincadeira, o ar de mistério criado pelo som e pela imagem das crianças amontoadas, o filme transforma uma cena provavelmente corriqueira em uma performance potente. Segundo Lorna Scott Fox, em texto que acompanha o filme, as fêmeas não-grávidas são atraídas pelo tom produzido pelas crianças, as quais se divertem matando o mosquito que se prolifera na região.

“Embora os mosquitos tenham quase tantas células auditivas quanto nós, sua audição tem o único propósito de encontrar um parceiro. Os machos, que produzem mais batidas de asa por segundo (portanto de frequência mais alta) e as fêmeas, cujas batidas são mais lentas (de frequência mais baixa), ajustam seus tons de voo até que a harmonia ideal seja alcançada para a reprodução. As crianças, buscando este tom irresistível para um dos sexos, torcem para atrair as fêmeas. Pois são as fêmeas grávidas que picam os seres humanos. Para os mosquitos, Eros e Thanatos; para as crianças, uma breve mas divertida batalha contra a horda de pernilongos.” – Lorna Scott Fox

Nas entrelinhas, os filmes de Alÿs examinam o passado, o presente e o futuro das sociedades retratadas. Podem-se notar danos ambientais, o impacto da urbanização, ou de guerras e da pobreza. Sem entrar explicitamente nestas questões, Alÿs encontra na inocência, a resiliência; e na catástrofe, a esperança; mostrando como as crianças criam um senso de normalidade em meio a ruínas e precariedade. Elas não têm tempo a perder. A alegria é contagiante. Children’s Games nos enche de fé, pois revela a potência lúdica humana, ainda que nos alerte sobre o impacto das novas tecnologias na formação psicossocial das crianças. Quantas crianças hoje ainda brincam fora de casa, com vizinhos e desconhecidos? Quantas ficam em casa, online, grudadas às telas do celular e do tablet? A exposição estimula um debate complexo, ainda que apresentada de forma leve, contemplando todas as idades.

O espaço de exposição na Wiels incorporava o espírito lúdico da obra, disponibilizando bancos com rodinha, que qualquer um podia escolher sentar e deslizar entre as telas. Algumas crianças aproveitavam para literalmente viajar pela exposição. E ainda, a descrição de cada jogo, acompanhando o filme, também era uma delícia de se ler. Em três línguas (Francês, Inglês e Holandês) e seguida de uma ilustração simples representando o jogo, Alÿs descreve as regras básicas e traduz o que se passa no inconsciente das crianças. Mas o artista lança mais perguntas do que respostas. Alguns jogos dispensam regras, sugerindo que as crianças possuem uma comunicação quase telepática – inventando o jogo na hora, num modo de improvisação que escapa à razão. Alguns textos transcendiam a prosa e beiravam a poesia, como o do filme das brincadeiras na neve, que são no fundo uma grande farra na floresta:

“O senso mais básico da diversão é criado pelo acaso, presenteado pelo meio ambiente. A alegria na neve é imediata demais para demandar regras. Um jogo instiga outro. Primeiro uma batalha caótica, com os lançadores de bola de neve espiando por trás das árvores, uma pequena colina de neve a ser conquistada… depois, todos se unem para deslizar por uma encosta maior, esfuziantes. Por fim, uma enorme bola de neve é criada em coletivo para rolar ladeira abaixo. A neve, tão maleável e resistente quando compacta, logo desaparecerá.”

Segundo Francis Alÿs, o aspecto mágico da brincadeira infantil é “que ela não guarda segredos, é tudo o que existe. Nós, adultos, devemos ser fiéis às crianças que fomos; lembrar e confiar naquele momento, o mais precioso de nossa existência”. A exposição foi encerrada, mas o artista disponibiliza os filmes no seu site, de forma totalmente gratuita: www.francisalys.com

Gobelins School

No coração de Paris, existe um lugar “escondido”, digo isso, pois descobri por acaso através do curta “LOUISE” que encontrei no YouTube enquanto buscava referências para um projeto de animação que estávamos produzindo no TRVS Filmes (em breve vamos divulgar aqui na Zine). Ao assistir acabei me empolgando e vi “LAST SUMMER” e “MEMO” na sequência. Daí, comecei minha pesquisa, principalmente pelo nome: “Gobelins” (como assim? Que nome doido…), descobri que se tratava de uma das maiores instituições de educação artística, conhecida mundialmente por transformar estudantes em animadores. Confesso que fiquei bem frustrado de só conhecer, tem tanta coisa boa no canal deles… A internet às vezes nos esconde obras-primas às custas de satisfazer o algoritmo midiático, um saco!

Fundada em 1929, em Paris, ao longo dos anos a escola tem mantido sua reputação como uma das principais instituições de arte do mundo. A Gobelins rapidamente se estabeleceu como uma força dominante na educação para o meio, com cursos que vão desde design gráfico até fotografia, a escola oferece uma série de programas para jovens criativos, mas é o Departamento de Animação do Cinema que realmente colocou escola no mapa. Criado em 1975, este departamento tem sido a base de desenvolvimento de talentos que hoje trabalham nos maiores estúdios do mundo, como Disney, Universal, Hanna Barbera, Pixar, DreamWorks e Warner Bros. Estudar em uma escola que te encaminha para trabalhar nos maiores estúdios do mundo, é realmente um diferencial.

LOUISE, 2021

LAST SUMMER, 2022

Se você der uma pesquisada no canal deles no YouTube, encontrará diversos trabalhos de alunos, cada um com seu traço e estilo próprio. Uma dica é pesquisar os vídeos ativando o filtro: do “mais antigo” e assim acompanhar o avanço das técnicas com o passar dos anos.

MEMO, 2017

A escola também é conhecida por conquistar premiações, com filmes e curtas-metragens, reconhecidos em festivais de cinema internacionais. Essa excelência é reforçada pelas parcerias estratégicas com empresas e estúdios de animação, garantindo que os alunos tenham acesso a estágios e oportunidades de emprego após a graduação.

A Gobelins realmente influencia a produção de animações no mundo todo. Para quem sonha em estudar em uma escola de excelência, é o lugar certo, porém… é uma realidade distante para nós brasileiros. De qualquer forma é sempre bom ficar ligado em programas de intercâmbio e possibilidades de bolsas de estudo, quem sabe você não consegue uma oportunidade?

Do fígado, com amor

Nunca neguei que é difícil te esquecer, mas agora a situação está totalmente insustentável. Não falo nem por mim, mas sim por um pequeno amigo que carrego dentro do meu corpo que não aguenta mais apanhar tanto: meu fígado. Achou que era o meu coração, né? Esse aí tá distraído ouvindo músicas da Adele e batendo por outras pessoas. O que realmente está sofrendo desde que você saiu pela porta é o meu pequeno e amado filtro que carrego logo atrás da costela.

Tenho que admitir que no fundo no fundo eu já sabia que aquela relação que vocês dois tinham fosse acabar em algum momento, onde você dava para ele só uma cervejinha num bar da Tijuca e tudo ficava bem. Mas não esperava que fosse virar essa guerra fria – sempre ponho gelo na bebida – entre você e ele. O que torna a batalha totalmente injusta é que de um lado estão os mísseis de Cuba – velhos e acabados – e do outro os shots de Tequila da Fosfobox, mais potentes que qualquer bomba atômica e mais perigosos que qualquer reação nuclear.

Eu já tentei de todas as maneiras possíveis apaziguar essa situação: voltar para as semanais cervejas-de-fim-do-dia não é mais eficaz. As tão queridas balas do final de semana levaram ele para cama de hospital mais rápido do que previ. E partir para os antidepressivos é algo que o chefão dele, aquele bigodudo do andar de cima que atende pelo nome de Sr. Cérebro, nunca o permitiria fazer.

Cheguei a achar que precisava encontrar o ralo secreto para que toda aquela água turva escoasse. Mas, depois de dias com minhas tralhas de mergulho procurando o buraco que magicamente resolveria meus problemas, vi que ele não passava de uma ilusão. Esse alagamento não estava para peixe.

Essa cartinha é um pedido de clemência para que vocês fiquem em paz. Juro que nem falo por mim, quem me pediu para te escrever isso foi ele. A bandeira branca já está erguida aqui no meu abdômen, quando fico com fome dá pra vê-la direitinho. Então pelo amor de deus: tratem de ficar de bem antes que aconteça uma Chernobyl dentro de mim.

Com amor, do fígado.

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Ilustrador Convidado:

João Vieira

Pintor digital, ilustrador e Concept artist. Amante de livros de terror, ficção e desenhos infantis. Desenhando sempre. Em breve internacional.

👉  Conheça o trabalho de João no seu Artstation e Behance.

Fotógrafos cinematográficos

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Além do enquadramento e da composição, a fotografia muitas vezes se utiliza das cores pra expressar ideias. Como já comentamos no texto sobre a cinematografia de Euphoria, a combinação de apenas duas cores já podem criar expressões bastante notáveis num trabalho audiovisual. Combinações as quais podem construir: os cenários da dramaturgia, o tom, os sentimentos de personagens e, principalmente, a atmosfera de uma história.

Dentro dessa pegada, existe uma linha de fotógrafos que tem aproveitado novos recursos de edição para usar as cores como um dos principais recursos pra construir a sua arte. São comumente referidos por fazerem fotos “cinematográficas“, algo que, alguns usam até como elogio para um trabalho bem feito. Sendo assim aqui vai mais uma coletâneazinha de alguns artistas que conheci nos últimos anos e que se destacam nesse gênero:

Ana Alves

Mineira, Ana Alves é uma fotógrafa que consegue transformar qualquer ambiente em um espaço onírico. Seja de dia ou de noite, o trabalho de cores em sua fotografia é bastante consistente: Usando qualquer fonte de luz presente para fazer a imagem saltar da realidade. É difícil ver suas fotos e não ter a impressão de estar em um sonho, ou em uma memória:

Além das fotografias de paisagem e um pouco de street, Ana tem trabalhos de ensaios, retratos e cobertura de eventos:

Para conhecer mais do trabalho de Ana:

Daniel Monteiro

Também mineiro, o fotógrafo autodidata Daniel Monteiro tem um trabalho que circula entre diferentes estilos: do Street photography à montagem. Todos porém, com um elemento em comum: a forte presença das cores. Sempre buscando diferentes formas de expressão, Daniel usa a luz presente como base para explorar possibilidades, seja ela natural, ou artificial. No amplo ou no próximo:

Vale destacar que Daniel também faz trabalhos de ensaio, retratos e cobertura de eventos:

Para conhecer mais do trabalho de Daniel:

Karel Chladek

Apesar do nicho especifico, e da locação parecer repetida, a fotografia de Karel Chladek traz uma proposta bem interessante: Tentar recortar diferentes momentos que podem acontecer dentro de uma balada ou show. Dando maior enfoque às pequenas expressões e afetos que eventualmente ocorrem nesses locais, dessa forma o trabalho de Karel consegue trazer fotos que expressam bem suas ideias. Contornando as variantes, que em uma boate estão completamente fora do controle do fotógrafo e ainda assim imprimindo fragmentos da “intimidade pública” das pessoas.

Para conhecer mais o trabalho de Karel:

Breezeh

Indo um pouco na contra mão dos nomes mencionados anteriormente, Breezeh é um artista que gosta de montar a própria luz na maior parte de suas obras. Fotógrafo de paisagens e de “encenações”, seu trabalho de cores é fundamental para a construção da narrativa presente em suas coleções. À noite, os locais vazios podem se tornar ambientes fantasmagóricos ou até diabólicos sob o olhar de sua câmera, enquanto de dia seu tratamento engrandece a vida de certos lugares, fazendo-os parecer um cenário de um filme de Wes Anderson.

Breezeh parou de publicar novos trabalhos em outubro de 2023, porém ainda é possível ver suas obras em:

Para fechar, é importante dizer que esse estilo é apenas uma das tendências que vêm crescendo nos últimos anos. Outras abordagens e visões ficam pra um próximo texto. Para saber mais sobre fotografia e suas novas vertentes, siga o TREVOUS.

Contra-filé de Pedro Iuá

Quando o meu filho João Pedro, me indicou o curta: “Contra-filé” de Pedro Iuá, ele foi categórico e disse: “Pai, assiste com atenção!”. Isso foi o suficiente para ativar um gatilho, que eu já estava monitorando: minha plena atenção. De fato, qualquer tarefa repetitiva fica mais leve quando o celular e fones de ouvido estão presentes. Vai dizer que não é bom lavar uma louça ouvindo um podcast? Então, de um tempo para cá tenho passado praticamente o tempo todo com fones de ouvindo e não é só para ouvir, passo muito tempo “assistindo” vídeos enquanto estou fazendo alguma outra atividade. Não importa a distância, o tempo de deslocamento, estou sempre com fones de ouvido. Chegou ao ponto de só conseguir pegar no sono se tiver ouvindo alguma coisa para conseguir dormir. E sabe o que é o pior? Se você me perguntar detalhes sobre o que estava ouvindo ou assistindo, certamente terei dificuldades em lembrar.

Confesso que o toque do João, foi fundamental para mergulhar nos quatorze minutos e quatro segundos do curta pois seria uma falta de respeito com o trabalho impecável do Pedro. Não só pelo roteiro, finalização, atuação dos dubladores, trilha e principalmente o trabalho de iluminação. Sério, é absurdo o que o artista faz. Não vou falar mais nada sobre esse curta para te convencer a assistir, siga apenas o conselho do João: “Assista com atenção!”

Bom, se você continuou lendo esse texto, mas não assistiu o curta, faça isso antes de continuar, pois o que vem a seguir fará mais sentido para você, ok?

Claro que eu fiquei chocado com o curta e não foi por conta da história, e sim por não conhecer absolutamente nada sobre o autor, Pedro Iuá. A internet é tão estranha as vezes, me entrega um monte de coisa desnecessária (não aguento mais ser indicado para comprar itens de material de construção, só por estar passando por uma obra em casa). Dá um tempo Google! Mas continuando, Pedro Iuá, né? Procurei saber mais sobre ele e olha só, tem muita coisa boa. Vamos começar pela apresentação de um curso sobre stop motion, onde ele explica através da interação da obra com o autor (gênio) dá uma olhada:

A fluidez da animação do Pedro é bem refinada e isso impacta diretamente no resultado final, o personagem parece realmente estar vivo, como se fosse um ator de carne e osso. Olha só o making of e me diz se não é lindo:

Agora voltando ao Contra-filé… (sua última chance de assistir, abaixo tem SPOILER, ok?) Se você achava que ele só teve trabalho em animar, vai ficar impressionado com o processo de pesquisa e gravação das vozes dos personagens. Sério, como não gostar disso? (sou muito fascinado por processos criativos).

Curtiu? Então, recomendo não só assistir o canal no YouTube (tá um pouco parado), mas tem muita coisa boa lá, principalmente relacionado aos bastidores do Contra-filé (que delícia ) e recomendo também acompanha-lo no Instagram, onde ele divide com o público os processos de produção dos seus personagens (sim, ele produz TUDO NA MÃO!).

Quer mais? Então acesse o site do clicando no link abaixo. Lá você encontrará mais curtas em stop motion, uma loja online com os produtos relacionados ao Contra-filé. Além disso, o Pedro também tem um curso de Stop Motion que parece ser bem maneiro!

Refletindo sobre o viver o agora, tenho minhas dúvidas em já ter “esbarrado” com alguma indicação ou divulgação do curta, não sei… Só sei que agora preciso ir, tenho uma louça para lavar e mais um podcast para escutar enquanto espero um anúncio de revestimentos para cozinha ser exibido para mim, será? (socorro!).

PS: Essa publicação não é uma propaganda, ok? A melhor forma de ajudar um artista é comprando seus produtos e serviços! ❤️

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Acesse o site do Pedro Iuá 👆

Schopenhauer e o Kung Fu

Nota da comunidade: Recomenda-se fechar essa crítica agora mesmo, sério! Mas caso tenha algum complexo de mártir ou especial apreço por um chute nos bagos, leia esse texto ao som de “Kung Fu Fighting” do inigualável Carl Douglas. Em época do ano que sempre surge o falso dilema “ver BBB ou ler um livro” recomendo fortemente um leve afogamento voluntário em uma praia lotada para contemplar, e sentir, nossa pequenez existencial. Deste modo, é muito provável que não volte a inventar embates fictícios sobre literatura e programas de televisão. Ou seja, menos lacre, mais látex.

Mas se você realmente prefere ler um livro, quem sabe essa resenha não tenha sido escrita pensando em sua gigantesca existência… Quem sabe? Sem mais introduções caóticas e despropositadas; o que o filósofo mais rabugento da história da humanidade tem a ver com uma milenar arte marcial chinesa?

Schopenhauer e o Kung Fu do Caléu Moraes. Sim, o autor que já havia surpreendido com “Guia literário para Machos” com um narrador cretino e misógino que parece ter saído de um conto do Bukowski ou de um congresso do MBL, e também com “Satíricon: Livro I”, que simula (ou não, há quem afirme se tratar do Santo Graal literário) de forma espetacular o clássico de Petrônio e apresenta um novo, empolgante e divertido capítulo na história de Encólpio e do jovem Gitão. Enfim, ou melhor, em meio, você por um acaso sabe o que é um Caquesseitão? Não é isso que você está pensado. E não, isso não é um teaser pouco inspirado de uma matéria do “Casseta e Planeta.” Eu falei de “látex”, mas me recuso a fazer piadas com seringueiros.

Calma seus puritanos, é apenas um animal mitológico, talvez real. Tão estranho que deixaria envergonhado o engenheiro axial que produziu o ornitorrinco, certamente. O Temido e Fofo Caquesseitão. Saca só nessa figura abaixo, ou ao lado, eu nunca sei qual é a desse editor, e sente o naipe do querido. Ah, e por qual razão estou ofertando tão bela criatura aos seus olhos? Apenas porque o tal caquesseitão está presente nesse romance, ora. Se por alguma razão que me foge a compreensão, se esse bichinho superlativo não foi suficiente para despertar sua curiosidade, talvez esses outros destaques consigam;

Um caquesseitão prateado

Sim, uma mistura de sarau poético e lupanário, uma face do empreendedorismo que finalmente consigo respeitar; um encontro com o sempre simpático Jackie Chan, que para fins de tradução cinematográfica é uma espécie de Renato Aragão chinês; a possível história do Haddouken, o famigerado golpe fatal reproduzido em milhares de fliperamas ao redor do Globo; a saga psicológica e fascinante por trás da busca de uma estatueta de um buda que ri e inúmeros outros episódios improváveis e deliciosos.

Em suas 154 páginas Caléu exibe com grande perícia um bordel literário. Ah, por óbvio que temos um capítulo sobre vampiros.  Essas figuras encantadoras que quando comedidas representam o que há de mais sustentável no planeta terra. Não é segredo, quem não gosta de vampiro, bom da cabeça não é. Exceto quem foi mordido e teve que tomar 57 vacinas antirrábicas na barriga, por óbvio.

Dentro da narrativa, o autor nos ensina as diferenças de como escrever uma história policial, o detetivesco e a novela negra. Explica as características do romance policial chinês, onde não importa muito quem é o criminoso, mas sim a investigação, tal qual o próprio rebento do autor, onde o título entrega os “criminosos”, mas não a jornada. As subtramas encantam pela premissa e não pelo resultado. E elas se confundem pela própria estrutura do livro. Esse caquesseitão literário. E há dentro de tudo isso, a história principal que é a do narrador, em especial o seu modo de encarar o luto. Sem a melancolia do Cristovão Tezza e a prolixidade do Karl Ove, mas com uma coreografia marcial etérea.

Capas dos livros O Filho Eterno de Cristovão Tezza, A Morte do Pai de Karl Ove e Schopenhauer e o Kung Fu de Caléu Moraes

Enfim, o que posso dizer é que o autor é um alquimista dos absurdos. Há uma ironia fina durante toda a história, mas o que mais impressiona é que mesmo diante de toda a insensatez, as improbabilidades, as extravagâncias dos episódios narrados, tudo parece verdade. Há um lastro de realidade. Se Caléu ganhasse dinheiro como teórico da conspiração estaria rico, porque sabe arquitetar as ideias, por mais improváveis que elas pareçam. Nossa sorte é que hoje ele provavelmente está algemado no porão da editora Nauta!

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

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Capa do livro schopenhauer e kung fu.Título: Schopenhauer e o Kung Fu
Autor:  Caléu Moraes
Editora:  Nauta
Ano: 2023

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