Você deve estar se perguntando “Who the fuck is Filipe Leon?”. Pois é, acredita que eu também estou? Então eu posso me apresentar rapidinho aqui dizendo que sou formado em Cinema e trabalho como assistente de direção. Mas escrevo, dirijo também…
Quer definir um millenium? Você se arriscaria?
Só que nessa quarentena, com tudo parado, comecei a falar muito sobre filmes com meus amigos mais próximos que sempre me questionavam: “Por que você não faz vídeos sobre cinema no seu Instagram?”
Aí eu fui lá, aproveitei que faço aulas de teatro desde os nove anos de idade e tomei coragem. Uma ajudinha do Adobe e “Voilà!”. E nessas andanças, o TREVOUSchegou até mim. Logo fiquei encantado com esse portal sobre audiovisual e com textos ótimos que me interessam bastante. Enfim, fui seduzido. E aqui estou pra me aprofundar mais em cima dos filmes que eu já falo lá no Instagram. Um espaço para algumas curiosidades, correlacionar alguns textos, algumas músicas… Será um espaço bem livre e quero você comigo nessa.
E aí? Já dá pra saber mais ou menos “Who the fuck I am”?
Então, deu pra ver pelo vídeo o quanto eu amo esse filme, né? Gostaria de compartilhar um material extra com vocês:
Para começar a trilha sonora que é um caso a parte! Uma beleza indescritível em sua sensibilidade. Ela nos conduz plenamente para a solidão da personagem principal e faz com que nós, espectadores, tenhamos as mesmas sensações de surpresas e descobertas que nosso protagonista.
Um adendo especial para a faixa “The Moon Song” ondeJoaquin Phoenixe Scarlett Johansson cantam juntos uma declaração de amor um pro outro! Um achado que concorreu ao Oscar de melhor canção original!
Abaixo a trilha instrumental composta originalmente para o filme. Além da trilha original, você pode conferir a playlist do Spotify com as canções que tocam no filme. Arcade Fire que eu amo está presente aqui também!
Se você se interessou muito pelo tema da relação homem/máquina, tem esse artigo científico ótimo (clique aqui para acessá-lo) da Universidade Federal de Pernambuco que dialoga com a poética do filme. Além disso, traz uma correlação com economia e ética científica.
Se você curtiu muito o tema e quer se aventurar por outros filmes que tenham a temática similar, indico esses clássicos também:
E se você, assim como eu, amou os diálogos e a condução do roteiro de “Ela”, que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original, não perca outros filmes desses mesmo roteirista e diretor Spike Jonze!
Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:
Então é isso, galera! Vamos com tudo em cima desse filme, que ele tem muito assunto e muitas ramificações! Lembrando que ele está disponível no streaming Globoplay!
Devido ao momento atual, tenho passado muito mais tempo trabalhando de home office. São horas e horas na frente do computador: entrando e saindo de reuniões por vídeo conferência, ligação por Whatsapp, respondendo e enviando e-mails e mensagens, compartilhando documentos e produzindo conteúdo através de ferramentas online. Resumindo, uma verdadeira loucura.
Um dia desses enquanto enviava um áudio, percebi que estava em pé andando em círculos enquanto falava. Em um primeiro momento fiquei assustado, mas passou rápido. Me senti em uma espécie de transe, parecia que durante alguns segundos não era eu que estava no controle das minhas ações. Reproduzi o áudio (sim, eu faço isso) e comecei a ouvir a minha própria voz. As palavras e frases pareciam ter sido escritas previamente, se encaixavam fazendo total sentido para aquele momento e isso me chamou a atenção.
Talvez uma das melhores respostas para quando me perguntam como tive uma determinada ideia seria a famosa frase do personagem Chicó: “Não sei, só sei que foi assim…”
Depois desse dia, passei a prestar mais atenção nos meus comportamentos involuntários relacionados à criação de conteúdo (principalmente audiovisuais). Comecei a me esforçar para entender o meu processo criativo, e tentar descobrir o meu “segredo” para aplicá-lo nos momentos em que precisasse muito ter uma “grande ideia”. Depois de longo período tentando encontrar a chave do meu “sucesso temporário”, cheguei a conclusão que: não existe uma fórmula, apenas flui.
Ao mesmo tempo que isso possa parecer bom, a sensação de não conseguir dominar meus estímulos criativos me tirou algumas noites de sono. No começo acreditava que era o “cara” da madrugada, pois o silêncio e a falsa sensação de que nada está acontecendo no mundo naquele momento me fazia ser mais produtivo. Mas essa hipótese caiu quando comecei a sair com uma certa frequência à noite e atravessar a madrugada não só bebendo com os meus amigos, mas anotando o tempo todo ideias aleatórias. Se tornou rotineiro me afastar da mesa de bar para enviar ideias em áudio e no dia seguinte acordar com um monte de interrogações ou com o pior feedback que um criador de conteúdo pode esperar: “Cara, sua ideia é uma merda”.
No meu caso, não se trata de tentativa e erro, é simples como tudo que você já deve ter ouvido falar sobre processos criativos. Não sou o “mestre da criação”, mas me considero apto o suficiente para me declarar como um criador de conteúdo. Sei que existem exercícios que podem despertar gatilhos criativos, mas na minha opinião o que mais ajuda em um processo criativo é você não querer entendê-lo e sim estar preparado para a sua aparição. Como em uma produção de pães, por exemplo, se você não tem pelo menos um forno para colocar os pães para assar, fica praticamente impossível produzi-los, não é verdade?
Continuando… digamos que uma ideia venha do “nada” na sua mente e você está no meio de um velório. O que você faria? Deixaria para lá, por não considerar o momento apropriado ou daria um jeito de registrá-la? Se você já tem uma forma de registrá-la, seja ela qual for (anotação em um bloco de papel, notas celular, envio de e-mail para si próprio ou até mesmo um grupo no whatsapp que só tenha você), com certeza você conseguirá uma brecha para registrar essa ideia. Agora se você só se permite criar pelo seu método padrão (sentado no seu escritório com a luz baixa, tomando um chá relaxante e ouvindo jazz), as chances das ideias aparecerem justamente nesse momento são bem menores, não acha?
No YouTube é possível encontrar muitas entrevistas onde Rodrigo Amarante fala sobre o processo criativo do disco “Cavalo”. Se você deseja entrar mais fundo nesse assunto recomendo essa entrevistaaqui. Destaque para o preparo do entrevistador, que chega a ser elogiado pelo próprio Amarante durante a entrevista.
Se você aprende a lidar com suas inspirações, sente elas, aceita que não pode as controlá-las, mas sim conduzi-las, acolhê-las para serem trabalhadas em seu tempo, você automaticamente tem um processo de criação estruturado que irá (e deve) se transformar com o passar do tempo e suas novas experiencias. Talvez não consiga descrevê-lo de forma clara ou replicá-lo para outras pessoas e isso é muito bom. Por que ao encontrar um criativo que possua um processo diferente do seu, você terá muitas chances de compreender ainda mais a si próprio.
Na minha opinião, nem tudo que existe precisa ter um propósito claro, afinal até hoje não entendemos o principal motivo de estarmos vivos e mesmo assim seguimos vivendo. Talvez a busca por esse entendimento seja o motivo principal que nos conduz a continuarmos vivos. Será?
A palavra“mockumentary”(aportuguesada para mocumentário) vem da junção do termo“mock”— zombar, em inglês — e“documentary”. A ideia do mocumentário é se apropriar de elementos estéticos visuais e narrativos do documentário, criando uma ficção que parece real. Dessa forma, a comédia se dá através da sátira, da auto ironia e da metalinguagem. Nesse contexto, faz sentido que The Office(2005) tenha se tornado um fenômeno dentro da minha geração, que cresceu na internet, mais especificamente dentro da cultura de memes, que perpassa exatamente por essas características de humor.
Quando comecei a pesquisar sobre o surgimento e as raízes do mocumentário, que eu acreditava serem ligadas ao gênero de terror/horror – no estilo“found footage” – com nomes como Holocausto Canibal(1980),A Bruxa de Blair(1999) e até mesmo Atividade Paranormal(2007),descobri que já em 1983 o subgênero foi subvertido para a comédia, com os filmes Zelig, de Woody Allen e This Is Spinal Tap, de Rob Reiner. Woody Allen já experimentava com elementos do mocumentário em 1967, em seu filme Um Assaltante Bem Trapalhão, mas com Zelig ele se apropria do subgênero completamente. O filme é a história de um“homem-camaleão”, que sofre de uma doença que faz com que ele se pareça com as pessoas ao seu redor. A narrativa é apresentada como um estudo científico sobre o caso.
Zelig e uma breve história do Mockumentary
Nesse vídeo produzido pelo Cinemascope, assim como em algumas outras fontes, a origem do mocumentário é atribuída a transmissão de “A Guerra dos Mundos“, de Orson Welles, narrando uma invasão alienígena no rádio, em 1938. Como era habitual se ouvir notícias no rádio nessa época, a transmissão causou desespero em muitos que acreditavam se tratar de um fato. Em um paralelo similar, em 1957, no 1º de Abril, a BBC produziu uma matéria falsa sobre como italianos cultivavam“árvores de espaguete”, o que pode ser considerado também, um marco na experimentação da sátira através da linguagem científica, ou documental.
BBC: Spaghetti-Harvest in Ticino
Mas assim como na famosa transmissão de Orson Welles, no caso do filme This Is Final Tap, a receptividade não foi tão boa quanto em Zelig. O filme conta a história de uma banda que fez muito sucesso no passado, Spinal Tap, sendo acompanhada por uma equipe de documentaristas em uma turnê final, no momento de derrocada da carreira do grupo. A grande diferença entre Zelig e This Is Final Tap, é que enquanto o primeiro retrata um caso absurdo, e provavelmente mais identificável como irreal, o segundo é menos surreal e mais satírico, apresentando personagens que não existem, mas poderiam. Quando foi lançada, a obra foi criticada pelo público que não entendeu se tratar de uma sátira e que a banda era uma invenção de Rob Reiner, como ele mesmo conta em entrevista para o Emmy TV Legends.
Zelig e This Is Spinal Tap provavelmente foram umas das primeiras experiências de mocumentário na comédia e abriram caminhos em questão de linguagem, mas a maneira como The Office entendeu e utilizou o formato na televisão certamente revolucionou a forma como a comédia é feita em grandes estúdios de televisão hollywoodianos hoje. The Office(uma série originalmente inglesa) teve sua versão americana encabeçada por Greg Daniels que, se afastando um pouco da versão original, inovou o universo das sitcons.
Os principais elementos do mocumentário são a sua fotografia e a relação que se cria entre os personagens e a câmera— a quebra da quarta parede com o público e com a equipe de filmagem, de uma maneira geral é muito frequente. A câmera dá os tons da narrativa e acaba se tornando um personagem.
Karen (Rashida Jones) - The Office
Os movimentos, como em um documentário, capturam as emoções dos personagens e a verdade cênica das situações. Em um episódio da quinta temporada, quando estão namorando, Jan(MeloraHardin) liga para Michael(Steve Carell), e antes de começar a falar pergunta se está sendo filmada, Michael responde que não, sorrindo para a câmera. Jan desliga o telefone. Nessa cena, a piada não está só em Michael, mas no desconforto de Jan com a presença das câmeras, explicitando a vergonha que ela sente daquela relação.
Em um vídeo-ensaio, o youtuber Jesse Tribble fala sobre a fotografia como elemento principal no humor de The Office, destrinchando a importância dos movimentos para as propostas cômicas.
Filming The Office
Além disso, a metalinguagem é um artifício também muito presente, tanto em The Office quanto no subgênero como um todo. Nesse sentido, é inerente ao mocumentário, dado que o formato propõe justamente a falsa realização de uma obra documental. Em um episódio da terceira temporada, Michael inclusive cita o diretor documentarista Michael Moore em uma piada, se comparando a ele. Ademais, o fazer cinema é indiretamente discutido ao satirizar a forma como as pessoas se portam ao serem filmadas e também quando não percebem que estão.
Por fim, também é importante citar as talking heads, que são os quadros de entrevistas — elemento clássico do documentário — e que especificamente no caso do The Office tem uma carga cômica enorme, com os personagens e seus pontos de vistas singulares sobre as cenas ocorridas na trama. Inclusive uma das evidências do impacto do seriado na cultura pop e juventude como um todo é a quantidade absurda de screenshots de talking heads de The Office que circulam como forma de meme na internet.
Creed (Creed Bratton) - The Office
O que pode se observar hoje, é que devido ao sucesso desse formato de comédia, muitas produções bebem na fonte do mocumentário, sem assumir todos os seus aspectos, e utilizando dos elementos como ferramentas de humor. Em Modern Family, as talking heads e alguns movimentos de câmera são parte importante da narrativa, mas não quebram tanto a quarta parede ou reconhecem a câmera como personagem.
Alex Durphy - Modern Family
Em Brooklyn Nine Nine, novamente os movimentos da câmera se fazem presentes de forma a intensificar as emoções dos personagens, mas a série em si tem um formato clássico de sitcom. Até mesmo em Fleabag, é possível identificar a influência do subgênero quando a proposta de humor se dá quase exclusivamente através da relação entre a protagonista e a câmera, ou a protagonista e o público. A série se baseia em quebras de quarta parede para entendermos como a personagem se sente enquanto vive as situações de seu dia-a-dia.
Fleabag (Phoebe Waller-Bridge) e o Padre (Andrew Scott) - Fleabag
A utilização do mocumentário se tornou uma estética tão presente, que até mesmo para a animação ela se expandiu. Na nova animação da Netflix, Midnight Gospel, o protagonista viaja por diferentes universos gravando um programa de entrevistas com criaturas de diversos planetas. Os criadores tiveram a delicadeza de incluir no desenho câmeras em drones que seguem os personagens pelas suas aventuras, reafirmando a metalinguagem proposta.
Midnight Gospel ~ Fish Magic (Cat Captain, We Salute You)
Mas não foi apenas em The Office que o mocumentário apareceu como gênero, ou subgênero, principal na televisão. A série Parks and Recreation(2009) é outro perfeito exemplo de uma comédia que abraçou completamente o estilo com todos os seus elementos. O seriado se passa na sede de um órgão governamental que faz a administração de parques públicos, e assim como em The Office, os personagens, em especial os protagonistas de ambas as tramas, tem um tom absurdo que abre mais espaço para a sátira e a auto ironia, quase em um“realismo brutal”.
Leslie Knoppe (Amy Poehler) - Parks and Recreation
Esse ano, a Netflix lançou um mocumentário chamado #BlackAF(Black As Fuck, que é uma gíria que de maneira literal quer dizer“bem preto” ou“preto pra c*ralho”), onde a filha mais velha(Iman Benson) de uma família com seis irmãos resolve fazer um documentário sobre a própria família para usar de vídeo de aplicação para universidade. É uma família rica, então o pai(Kenya Barris) disponibiliza equipamento de ponta e uma equipe de audiovisual para a filha, o que torna a série um“documentário” de alta produção, e até mesmo hiper realista. Nesse sentido, beira a estética do reality show. #BlackAFtem uma abordagem menos cômica que The Office por também falar sobre outros assuntos– disfunções nas relações familiares, racismo estrutural e a relação com dinheiro de uma família negra rica – ainda que se trate de fato de uma comédia, com diversas quebras cômicas, agregando todos os pontos fundamentais do mocumentário.
#blackAF I Kenya Barris & Rashida Jones Talk Family Dysfunction in New Series I Netflix
Rashida Jones interpreta Joya Barris, a mãe, em#BlackAF, onde finalmente a atriz teve seu merecido protagonismo. Rashida tem um histórico considerável na produção mocumentários na comédia televisiva, tendo participado dos mais importantes programas aqui citados. A atriz foi Karen Filippelli em The Office, tendo participado de cerca de duas das nove temporadas. Em Parks and Recreation, Rashida foi Ann Perkins, pelas sete temporadas da série. Tornando-se assim, uma importante referência nesse formato de comédia.
De uma maneira geral, é possível afirmar que a linguagem do mocumentário estabeleceu algumas tendências dentro da comicidade e hoje é um formato muito mais aceito tanto pelo público, que se identifica com o humor proposto, como pelas próprias grandes produtoras, que entendem essa forma de narrativa como uma possibilidade a ser explorada. Diferentemente de outras obras que, fossem comédias ou de qualquer outro gênero que se utilizasse do formato, no passado não foram tão bem recebidas, The Office foi um marco para a ascensão desse subgênero no audiovisual e se tornou um fenômeno na cultura pop.
“Cidadão Kane”(1941) de Orson Welles é um clássico, não há muito o que se discutir quanto a isso, sem dúvidas é um filme que representa um momento de ruptura para a sétima arte, um dos muitos caminhos sem volta que, em algum momento, todas as expressões artísticas são forçadas a tomar. O filme já foi objeto de muitas análises, textos críticos e estudos acadêmicos; por isso, adoto uma outra estratégia, deixo aqui algo mais descompromissado, apenas devaneios e pensamentos dispersos. Sem dúvida, isso afastará muitos potenciais leitores, mas isso não me desanima, muito pelo contrário. Em que outras condições me sentiria livre para escrever tais bobagens sobre um filme que tantas coisas inteligentes já foram ditas.
Começo, então, esse texto tentando responder a seguinte pergunta: sobre o que é “Cidadão Kane”? Instintivamente, alguns poderiam responder “a busca de um jornalista para descobrir o significado da última palavra de Charles Kane: ‘Rosebud’”. Outros, mais prudentes poderiam responder “é um estudo de personagem”, mas que personagem? Nunca de fato vemos Kane por completo, mas apenas seu espectro, seu fantasma. Sganzerla em seu texto “Becos Sem Saída” cita o personagem como um “percursor e também protótipo” do que ele chama de herói fechado, que sempre se mostra indefinido, um mistério ao público. Como o próprio cineasta e crítico escreve:
Um repórter, incumbido de descobrir seu significado[“Rosebud”], entrevista os contemporâneos de Kane, mas nem estes personagens conseguem defini-lo. A crise interior do personagem está ligada a palavra, percebe-se claramente que há uma crise profunda. Mas esta é inacessível, impenetrável: sabe-se de sua existência, mas não de sua essência.
No texto — que vale muito a pena ser lido — ele prossegue escrevendo sobre o filme(e outros) e como ele traz inovações próprias do cinema moderno, mas a questão aqui é outra: a verdade é que nunca vemos Kane de forma“objetiva”, tal como ele é(o tanto que isso é possível dentro de um universo ficcional), mas apenas sua representação subjetiva. Apenas temos um vislumbre do“verdadeiro” Charles Kane na famosa sequencia inicial, onde em seu leito de morte ele pronunciará sua última palavra. Mesmo nesse momento, a sua imagem é fragmentada, não o vemos como um indivíduo completo, ele é decomposto em planos: sua mão, sua boca e sua silhueta. Depois disso, vemos Kane sempre sobre os olhos dos outros, seja na pequena peça jornalística sobre sua vida, seja nas lembranças daqueles que foram próximos a ele. Tudo que restou dele são projeções e ficionalizações, em uma obra que por si só já é uma projeção e uma ficção. É tudo um jogo de espelhos, como aquele que ocorre mais ao fim do filme.
“Cidadão Kane tem muito da aura de pesadelo do Expressionismo e do filme noir. A iluminação, os cenários, os ângulos inclinados, tudo parece abalar a fidelidade do relato.”
Kane parece ser uma representação do que é ser um indivíduo, ele é um mistério para todos além dele mesmo(alguns diriam que somos incompreensíveis até para nós mesmos). Assim como ele, nós somos um quebra-cabeça, uma cidade de experiências e memórias(representada, por exemplo, pela panorâmica sobre o espólio deixado por Kane, no final do longa). Tudo no filme, indica não só a limitações de entender um indivíduo em sua totalidade, mas nos lembra que estamos condenados ver o mundo segundo nossos próprios olhos. Por isso, no fim, viveremos de forma imprecisa nas memórias e projeções dos outros.
Essa oposição entre memória e real, entre acontecimentos e suas interpretações, pode ser observada em muitos aspectos formais do filme. Os longos planos parecem querer capturar os acontecimentos tal como ocorrem, em sua duração e nas ações e movimentos que o compõem(o realismo de Bazin); mas a forma como alguns planos são filmados — os ângulos de câmera e uso de lentes que deformam a imagem — dão um toque de irrealidade. “Cidadão Kane” tem muito da aura de pesadelo do Expressionismo e do filme noir: a iluminação, os cenários, os ângulos inclinados, tudo parece abalar a fidelidade do relato.
A face de Kane é ocultada pelo jogo de luz e sombras criado por Gregg Toland.
Outro ponto curioso é o uso quase excessivo da fusão, que muitas vezes parece reproduzir a lógica do rememorar/relembrar algo, onde uma imagem mental(memória) parece se dissolver em outra. Mas, neste filme, essa dissolução de uma imagem em outra, pode corresponder a algo para além disso. Parece representar a própria natureza do tempo como a experienciamos no dia a dia, um momento cede lugar ao outro e, quando nos damos conta, se passaram anos. E assim o tempo passa e decompõem as coisas. O antigo cede lugar ao mais novo, mas há sempre uma novidade adiante.
Isso é um ponto fundamental, que parece dar uma pista não de quem é Kane, mas o que ele busca. Kane busca ser ele próprio o novo(o futuro) e, para tanto, busca um novo território inexplorado que ele possa moldar segundo a sua vontade. Primeiro o mundo, depois o seu país, a vida de sua segunda esposa e, por fim, a sua realidade. Com o jornal, ele mudaria o mundo; como presidente, o país e como mecenas, a vida de sua segunda esposa. Sem conseguir nada disso, criou seu próprio mundo de sonhos, criou Xanadu. Porém o lugar lembra mais um pesadelo, pois é sombria e solitária.
O último plano antes dos créditos finais, ao longe se pode vislumbrar Xanadu.
O tempo somado as suas decisões, apenas trouxeram o fracasso a Kane; sem mais escolha, ele se volta ao passado, não há mais para onde ir, ele não pode moldar o presente, mas pode idealizar o passado: o paraíso perdido preso em um globo de neve e representado por um trenó. A nostalgia é seu refúgio final, a memória o único lugar onde ele pode recriar os fatos segundo a sua vontade, tal como ele tentara com o seu jornal. De certa forma, esse desejo de moldar o mundo pode se relacionar com a própria tarefa que Orson Welles se impôs(ser diretor). Isso é notado por André Bazin em seu livro sobre Welles, onde são apontadas algumas relações entre a vida e obra do cineasta(pelo menos parte dela, já que o crítico faleceu em 1958).
Um dos muitos contra-plongées presentes no filme.
Mas esse filme, como qualquer outra obra de arte, tem uma outra dimensão, um aspecto para além da pessoa que o criou ou de sua biografia. No caso deste filme, o“para além” parece ser a busca pela essência do que é ser“humano”. Arrisco dizer ainda que há algo mais do que essa indefinição do ser, o filme parece servir como uma ilustração a essência da arte(o Cinema incluso). A arte, tal como o repórter do filme, busca algo(a essência do ser humano?), mas essa busca está sempre condenada ao inconcluso. No entanto, essa indefinição não torna o fazer artístico um gesto inútil, apenas reflete — mais do que qualquer outra atividade humana — a própria condição humana: o buscar eterno por si. De certa forma, esse é um aspecto que parece faltar em muitos filmes atuais(talvez na arte em geral): o buscar algo. E assim concluo o texto, sem confiança na clareza das ideias expressas e em contradições com os pensamentos que tive ontem e os que me ocorrerão amanhã.
Essa quarentena não tá fácil pra ninguém, cada dia parece uma semana e cada semana um mês. A gente anda solitário, querendo interação social e buscando ferramentas para suprir essa carência. O primeiro passo dessa nova tentativa de contato com o mundo exterior foi a era das lives. Teve show pra agradar a todos: sertanejo, samba, pop, eletrônica, uma lista infinita. Mas ainda estava faltando interação de verdade (pelo menos para o meu gosto).
Um belo dia, no twitter, vi uma blogueirinha que sigo falando sobre uma festa virtual. Fiquei meio sem entender, achei que era um aniversário de algum amigo, mas logo logo comecei a ver várias outras pessoas falando sobre as tais festas. E foi assim que entrei na segunda fase da quarentena.
Com venda de ingresso em plataformas como o Sympla, doações colaborativas ou link aberto divulgado nas redes sociais, os eventos virtuais geralmente rolam no Zoom e são limitados a 100 integrantes, as vezes até se forma uma fila de espera por uma vaga na transmissão. Só o Host, ou DJ, fica com o microfone aberto, compartilhando o áudio ou música, enquanto os participantes ficam mutados, curtindo e interagindo pelo chat.
Divulgação da festa que participei
Digitalmente influenciada pela minha blogueirinha, resolvi participar de uma, ver qual era, afinal, precisava saber do que estavam falando tanto pelo twitter. Não sabia nem por onde começar a procurar. Depois de uma pesquisa bem rápida, encontrei vários eventos, mas um em especial chamou mais minha atenção. Convidei uma amiga e “fomos”. Caímos de paraquedas em uma festa LGBTQI+ de Belo Horizonte.
Com meu drink preparado, entrei na transmissão bem tímida, com a câmera desligada e falando quase nada no chat. Aos pouquinhos fui me soltando e depois de algumas horas (e doses de vodka) eu, que já sou naturalmente saidinha, estava interagindo como se fossem todos meus amigos de infância e dançando como se não houvesse amanhã (SPOILER: houve). Conheci gente de todo canto do Brasil, que compartilharam comigo suas experiências em festas virtuais, mas isso eu conto em outro momento.
Pra mim, a grande sacada foi poder vestir o que quisesse, sem medo de ser barrada e não precisar gastar muito com bebidas, além de estar a dois passos da minha caminha confortável. Tem quem curta de pijama, tomando uma cerveja, e quem faça uma super produção com luzes coloridas, fundos virtuais e drinks diferentões.
Lá pelas duas da manhã, o host da festa anunciou que era hora de encerrar o evento, mas eu não podia deixar a maior diversão que tive em meses acabar tão rápido. Pedi pra ficar tocando no lugar dele, a galera animou e ele deixou. Toquei de tudo até 4 horas da manhã, criamos um grupo no whatsapp, “Inimigos do Fim”, e fui convidada para tocar na próxima edição da festa virtual.
Nada que eu pudesse imaginar chegaria perto do que realmente foi essa experiência. No dia seguinte a ressaca não foi nada virtual, nem a dor nas pernas, mas eu repetiria a dose um milhão de vezes. Quem sabe, quando isso tudo passar, eu não viaje pra Belo Horizonte só pra curtir a festa física e conhecer pessoalmente meus novos amigos virtuais. Até lá, seguirei curtindo todas as noitadas online possíveis e imagináveis. E a gente se esbarra digitalmente num festival ou até numa festa zoonina!
*AVISO SPOILERS DE BREAKING BAD E BETTER CALL SAUL ABAIXO*
Se você já assistiu algum episódio de Breaking Bad, com certeza já deve ter notado que um dos seus grandes diferenciais são suas aberturas. Seja em preto e branco ou em cores, simulando uma propaganda de Los Pollos Hermanos ou um clipe de música mexicana.Essas aberturas se tornaram tão icônicas, que as vezes são a parte mais memorável de um episódio.
O que muitos não sabem é que essas aberturas, ou teasers como são chamadas em inglês, são essencialmente ligadas a criação da narrativa do programa e eram um laboratório onde Vince Gilligan, criador da série, seus roteiristas e diretores brincavam montando cenas criativas, sem truques baratos e principalmente sem menosprezar a inteligência do público. Desta forma, conseguiam atrair ainda mais o espectador para o episódio.
Esses teasers, apesar de terem suas particularidades em cada episódio, geralmente seguiam uma construção nos seguintes estágios:
*cenas tiradas de Breaking Bad T01E01:“Piloto”:
1) Contemplação:Por alguns quadros se observa um objeto ou uma paisagem/ambiente relacionado a cena que irá acontecer, não necessariamente acrescentando ao espectador alguma informação relevante sobre ela, quebrando a regra que diz que mostrar o ambiente é uma ótima forma de contextualizar o público.
Observamos paisagens do deserto.
2) Uma ação ocorre: Nesse ponto em que o teaser começa a se desenvolver. É geralmente composto de ações simples, por exemplo: Uma calça cai… E um trailer sai acelerado. Elas servem para quebrar a monotonia da observação e começar a nos dar uma ideia do que está ocorrendo. Vale ressaltar também que muitas vezes ao longo da série, a forma em que tais ações são gravadas nos dão um ângulo diferenciado, quase como se tivéssemos um ponto de vista exclusivo sobre a ação e, por tanto, nos fazendo observar a cena mais um pouco.
Uma calça cai…
E um trailer sai acelerado.
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3) Contexto:Finalmente fica claro quem está agindo, o que está fazendo e em que contexto na história da temporada, visto que muitas vezes as ações de um teaser podem ser ligadas as últimas cenas do episódio anterior.
Walter (ao qual ainda não fomos apresentados) está dirigindo em fuga.
Pinkman (que ainda não conhecemos também) está apagado…
E o trailer está bagunçado com um homem também apagado no chão.
Walter bate com o Trailer.
Sai e fica em pânico ao ouvir sirenes de polícia.
Se veste, prende a respiração e entra no trailer novamente.
Pega uma pistola…
sua carteira e uma câmera.
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4) Trabalhando Ideias: Por último, a cena está aberta e assim é possível trabalhar as ideias antes da vinheta de abertura. É nesse momento em que o tom e a trama principal dos episódios podem ser ditados já deixando o espectador dentro da história.
Walter começa a gravar uma mensagem para sua mulher e filho.
(E é nesse ponto em que começamos a ter ideia de quem ele deve ser, e de que, pelo tom do vídeo e a sirene da policia deve ter um final trágico logo em seguida).
Ele vai para o meio da estrada…
Engatilha sua arma…
E aponta na (possível) direção de onde a policia está vindo.
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Até aí, esses estágios podem soar como uma estratégia banal, porém eles são uma ferramenta intrinsecamente ligada com um objetivo que a série tem com sua narrativa.
Tanto Breaking Bad quanto Better Call Saul, série derivada também criada por Gilligan, são estudos sobre o processo lento de decadência de dois homens. Ambos em diferentes circunstâncias e em diferentes condições, mas com um fim equivalentemente trágico (ou só para Walter White, visto que a ultima temporada de Better Call Saul está prevista pra ser lançada só no ano que vem).
Dessa forma, ao invés de nos jogar dentro da história e fazer com que somente ela seja o que nos prende para continuar a série(como muitos programas atualmente fazem), Vince Gilligan nos propõe e nos provoca a ficarmos no papel de observadores mais do que de espectadores. nos fazendo admirar e assistir cada aspecto de cada cena, como cada pequeno fator ao redor de seus protagonistas, Walter e Jimmy, e aos poucos nos tirando da ansiedade de simplesmente ter respostas sobre a trama o quanto antes.
Outra coisa interessante de se notar é que os teasers não só têm uma estrutura pensada como também um propósito: Um papel narrativo, definido em cada episódio. Com exceção daqueles que começam com a última cena do episódio anterior, essas aberturas geralmentese encaixam nas seguintes categorias:
1) Flashfowards:Geralmente usados para criar mistério, mostrando ao público algo que ainda deve acontecer na serie mas sem ter a minima noção de como.
*cenas tiradas de Breaking Bad T02E01:“Seven Thirty-Seven”:
1 – Contemplação: Olhamos para partes diferentes de uma casa.
2 – Ação: Ouve-se uma sirene…
um olho flutua na piscina…
…E é sugado pelo filtro.
3 – Contexto: o olho é de um urso de pelúcia…
4 – Trabalhando Ideias: Esse urso estava pegando fogo.
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2) Flashbacks:Servem geralmente de metáforas. Como as duas séries mostram um processo de transformação, intercalar sequências de diferentes épocas de um personagem nos fazem refletir sobre em que condições ele estava e em que condições ele se encontra.
*cenas tiradas de Breaking Bad T05E14:“Ozymandias”:
1 – Contemplação: vemos um vidro com um liquido…
2 – Ação: que começa a borbulhar.
Passamos por alguns vidros com produtos químicos.
3 – Contexto: Estamos vendo uma cena que não foi mostrada no primeiro episódio da série, com Walter e Pinkman cozinhando no Trailer.
Pinkman questiona o que fazer agora.
E Walter diz que eles devem aguardar a reação química.
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Walter sai do trailer…
Veste sua camisa e pega seu telefone,
Se afasta e liga…
Para Skyler.
Os dois conversam sobre o nome do bebê e planejam o que fazer a noite.
Após a ligação acabar, tudo começa a sumir aos poucos…
Como a estabilidade e segurança que Walter tinha naquela época…
E que nunca mais voltaria a ter.
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3) Fora de foco: Geralmente são as que mais tentam fugir da estrutura normal dos teasers.São formadas de ideias que focam no imagético e parecem nos tirar da narrativa da série, quando na verdade, estão nos dando informações sobre a trama sem que notemos.
*Cenas tiradas de Better Call Saul T05E03:“The Guy For This”:
1 – Contemplação: começamos com o que parece uma de pouca profundidade de campo.
2 – Ação: Uma formiga sobe no asfalto, e entendemos que estamos em uma visão muito aproximada do chão.
3 – Contexto: Ela se aproxima do sorvete que foi largado na calçada por Jimmy antes de entrar no carro de Nacho Varga.
Ela chega ao topo do cone…
Aos poucos mais formigas se juntam.
E mais formigas…
E mais…
Até que se forma um grupo enorme.
4 – Trabalhando Ideias: Pela quantidade de formigas juntas…
conseguimos entender que Jimmy…
Entrou no carro há muito tempo.
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É nessa parte em que Breaking Bad e Better Call Saul acertaram tanto. Independente de o quão forte uma premissa pode ser, as vezes o que é mais importante dentro de uma história é saber como contá-la, explorando cada recurso disponível de forma criativa. É assim que Vince Gilligan fez com sua direção criativa em suas obras, dando propósito narrativo para seus teasers, e se utilizando de cada recurso possível para nos fazer observar mais do que assistir cada aspecto de suas histórias.
No dia 24 de Março de 2020 a série The Office completou 15 anos. E se você é fã como eu, provavelmente percebeu que essa data não passou em branco na internet. Entre homenagens e memes, a cereja do bolo ficou para o dia 29 de março, quando John Krasinski(Jim Halpert) estreou seu canal no YouTube: Some Good News, com um convidado de peso: Steve Carell, o eterno Michael Scott.
A ideia é simples, um noticiário fictício feito em casa sem muitos recursos onde ele destaca notícias boas que estão acontecendo pelo mundo. Krasinski acertou em cheio e conseguiu alcançar milhões de visualizações em pouco mais de um mês e segue publicando novos episódios.
À esquerda o logo original e a direita uma tentativa frustada de naturalidade.
Parece que faltou um pouco de criatividade, não é mesmo?
Quem trabalha com audiovisual sabe o quanto é difícil emplacar um projeto. Não importa a fase em que ele esteja, sempre serão apresentadas as famosas“referências”. É comum você ver em apresentações, cenas de outros filmes(ou programas), figurino, estética, trilhas, etc. As referências são aliadas do autor na batalha da aprovação da ideia e podem servir como atrativo para as produtoras.
Falta de autenticidade
Enquanto John faz a abertura do programa trazendo a atmosfera do ambiente residencial, usando objetos do próprio escritório. Luciano prefere usar os recursos de videografismo da equipe da Rede Globo, não só na abertura, mas em todo o programa.
Pouco acolhedor
O cenário do SGN é de fato um canto da casa que parece ser habitado, trazendo assim elementos que vão de encontro com a alusão que o programa sugere: um programa feito em casa. Já o do nosso brasileirinho parece um fundo infinito e completamente sem vida.
Inspiração ou falta de noção?
Acredito que buscar inspiração naqueles que fazem algo bom é fundamental para o nosso crescimento interior, mas quando copiamos uma ideia e usamos para fins comerciais, temos que mencionar a inspiração ou comprar os direitos, e disso oLuciano Huck entende, pois já reproduziu ideias como: “Lar Doce Lar” e “Lata Velha”.
Abaixo a ficha técnica do programa na Globo Play:
Procurei informações sobre alguma menção ou declaração de inspiração, mas não achei.
Várias questões me deixam confuso em relação a motivação desse plágio. Qual a dificuldade de pelo menos mencionar o criador, como inspiração? Será que realmente o Luciano Huck acredita que teve essa ideia? Será que ele não dispõe de uma equipe de roteiristas e criativos para poder ajuda-lo a escrever algo original? Será que ele não tem amigos que possam dizer para ele que isso é uma cópia?
Já que os amigos não avisaram, o público fez esse papel nos comentários na Globoplay:
Parece que o público já viu esse filme, digo programa.
Confesso que apesar de parecer engraçado, esse tipo de atitude me preocupa, pois de certa forma reflete bem como as coisas funcionam nos bastidores da nossa área. Onde muitos profissionais que são“obrigados” a fazer vista grossa para ideias geniais, como essa. 🙄
Se você tem Globoplay, fica o convite para assistir e tirar suas próprias conclusões, ok?
“Nas suas constantes idas e voltas, teve, porém, Fernando o privilégio de exprimir o destino que lhe coube, o pintor é feito um livro que não tem fim.” (Nise da Silveira)
Hoje se elogia um certo tipo de documentário dizendo coisas como “é quase um filme”, “é tão cinematográfico”, “tão dinâmico”. Palavras que hoje parecem ser definidoras do que é cinema, mas a trilogia documental“Imagens do Inconsciente” (1986) de Leon Hirszman, para além de uma análise artística/psicológica é um documentário rico, que não busca o “divertir” ou “fazer chorar”, mas, ainda assim, é capaz de causar emoções legítimas e compaixão (nunca a pena)… Para além de uma defesa das ideias de Nise da Silveira, os três filmes tratam de conflito de indivíduos para se encontrar, pela unidade e pela cura.
A primeira parte dessa “série” documental – que será abordada neste texto – se foca emFernando Dinize funciona ora como um filme isolado, ora como uma introdução ao projeto como um todo. Podemos ver isso logo no início do documentário: depois dos créditos, a tela escura; aos poucos, como vindo de longe, uma voz feminina canta em forma de lamento. Lentamente, surge a imagem de uma grade, onde uma mulher se apoia, e entramos no universo que será abordado, o mundo das instituições psiquiátricas.
O primeiro plano do documentário, por trás da grade, dois internos observam a aproximação da câmera.
Em um determinado plano, a câmera acompanha (ou é acompanhada por) duas mulheres: a primeiro, com o rosto bem próximo da câmera lamenta algo que nem sempre podemos entender, a segunda parece entoar algo entre uma prece e uma pregação. Depois, em meio ao silêncio a câmera passeia pelo pátio da instituição, onde os internos vagam. Até o momento em que os internos atravessam um portão gradeado de volta para o interior da instituição psiquiátrica. Eles não estão livre: não só fisicamente, mas de outras formas, a câmera fica um tempo a mais sobre eles, o acompanham e, por fim, um fade.
“Hirszman, não só tesse uma defesa às ideias de Nise, mas também tenta nos revelar Fernando e o seu dilema particular e que de alguma forma toma aspectos universais.”
Apenas depois de 6 minutos e 19 minutos a voz de um dos narradores do filme (Ferreira Gular) resolve aparecer, junto ao plano contendo a placa de entrada do Museu de Imagens do Inconsciente. As imagens que se seguem fazem uma oposição óbvia ao que vimos antes, aqui internos dançam, pintam e desenham. Nesse momento o filme adota um ar de institucional até que, depois da câmera passear pelos corredores da instituição, chegamos ao personagem/indivíduo que será abordado no filme, seu nome é revelado por uma legenda: Fernando Diniz. Em seguida, o segundo narrador entra em ação, agora ouvimos uma voz feminina (Vanda Lacerda), uma forma de evocar a voz de Nise da Silveira. Ela nos apresentará ao histórico médico de Fernando e nos guiará pelo resto do percurso.
As constantes idas e vindas entre a abstração e o figurativo na arte de Fernando.
A partir daí, o filme se volta para Fernando, não apenas como um interno, mas como artista/interno com motivos, temáticas e estilo próprio. Em seguida, a narradora nos conta como a evolução ou trajetória de sua arte revela os seus conflitos internos, a sua luta pela unidade e pela ordem interna. Vale mencionar que a narração, volta e meio, dá lugar as próprias palavras de Fernando, que comenta alguns quadros, isso apenas nos aproxima mais a ele e a sua forma única de ver o mundo.
O documentário, porém, não se limita a mostrar e explorar as obras de Fernando, mas, também, o registra o seu “presente” (momento da filmagem) e evoca o seu passado, que volta e meia se tornam concretos, ou por imagens de arquivo ou pela reconstituição/encenação dos locais e do próprio Fernando do passado. Por exemplo, quando a Narradora aborda a diferença entre o lar em que Fernando vivia quando criança e as casas ricas onde sua mãe trabalhava, Hirszman, por meio do visual, nos mostra “concretamente” as duas residências e as opõem, duas realidades que refletem o conflito de Fernando.
Um dos muitos quadros de Fernando onde instrumentos musicais estão presentes. Foto: Marcos Tristão, Jornal do Brasil.
Ao que diz respeito ao “presente” de Fernando, se pode observar que ele ou é filmando caminhando pelos corredores da instituição ou trabalhando em suas obras, estes são momentos de concentração total por parte do artista. Um momento específico mostra, sem dúvida, como a articulação entre imagem e narração feita por Hirszman é forte em certo sentido: quando nos planos finais do filme, ouvimos a epígrafe desse texto dita pela narradora, ao mesmo tempo em que vemos Fernando lutando para manter uma de suas criações em pé, a câmera está bem próxima de forma que vemos a as mudanças as expressões faciais de Fernando, vemos suas mãos tentado salvar a estrutura. Em determinado momento, a voz se cala, mas a luta de Fernando continua. Essa cena parece mostrar uma distinção muito específica de certos documentários convencionais e o de Hirszman, este não se resume a contar uma história, mas sim uma busca por revelar algo mais.
Fernando se esforça para manter sua escultura de pé.
Neste filme, pelo menos assim me parece, o diretor se propõem, por um lado, mostrar um conflito propriamente humano, por outro, a busca de um momento de “verdade” que vai além do concreto (o inconsciente?). Mesmo nos momentos em que os locais da memória de Fernando se materializam em forma de imagem, há algo por se revelar, um mistério próprio, não há gente neles (com exceção de Fernando em alguns poucos momentos), os espaços são etéreos e concretos ao mesmo tempo, tal como em um sonho. Há uma tentativa de conciliação entre o objetivo e o subjetivo, entre o material e o poético.
Antiga casa de Fernando materializada em imagem.
Em oposição, a representação visual das casas onde a mãe de Fernando trabalhava.
Mas apesar de usar esses artifícios, junto com imagens de arquivo, a estrela do documentário é a obra de Fernando que ora parece revelá-lo, ora parece torná-lo um mistério. Por meio da observação do universo artístico, Hirszman, não só tece uma defesa às ideias de Nise, mas também tenta nos revelar Fernando e o seu dilema particular que, de alguma forma, toma aspectos universais. E ele faz isso, quase que totalmente, por meio daquilo que poderia ser considerado – pelo menos no senso geral – não cinematográfico: pinturas e esculturas (objetos). Mas, estes quadros e esculturas contêm na sua própria feitura, na sua própria matéria, as marcas de um conflito.
Em 1994, Chico Science e Nação Zumbi lançavam um de seus grandes sucessos, intitulado “Banditismo por uma questão de classe”. Com essa música, retratavam a lógica anti-sistema por trás de ações ilegais praticadas como forma de subsistência e ato de rebeldia contra um status-quo imposto de cima para baixo. Assim como a música da Nação Zumbi, a nova produção da O2 filmes para a Netflix, Irmandade, também se passa em 1994 e traz à tona algumas realidades pouco contadas na história da sociedade brasileira.
A série estabelece sua trama com a história de Edson Ferreira (Seu Jorge), preso em um presídio em São Paulo por um crime menor — fumar maconha. Após anos na prisão e cansado de sofrer injustiças nas mãos dos guardas, Edson lidera um grupo de detentos que fundam uma facção criminosa, a Irmandade. Este nome nos indica outra trama da obra: a relação de Edson e Cristina, sua irmã mais nova. Para contar este enredo, já um tanto cliché nas telas de cinema e televisão, o criador Pedro Morelli utiliza de uma ferramenta um tanto quanto engenhosa.
Escapando do cliché, Irmandade segue a trilha de Cristina Ferreira (Naruna Costa), advogada e funcionária do Ministério Público que, ao descobrir o que o irmão passa no presídio, resolve mudar toda a sua vida para poder ajudá-lo.
“Quando a gente decidiu falar sobre facções, havia abordagens dramatúrgicas possíveis. A mais esperada e a menos bacana seria por meio de um policial investigando uma facção. A segunda era colocar o líder da facção no centro da trama. Até que surgiu a ideia de fazer a série tendo uma mulher protagonista, que é a Cristina, e abordar esse universo das facções através da ótica da mulher”, diz Morelli em entrevista dada ao site do Correio Brasiliense.
Em meio às tentativas de salvar o irmão, Cristina acaba sendo forçada a colaborar com o detetive Andrade, que investiga o caso. A personagem então segue trabalhando tanto para a polícia quanto para a Irmandade, o que nos permite assistir a toda a história do irmão e da construção da facção pelos olhos dela. Ao optar por esse caminho, a série se torna a primeira produção nacional da Netflix protagonizada por dois negros, sendo uma mulher e um homem.
“Me sinto muito honrada de poder estar ocupando esse papel com uma personagem que tem uma complexidade, que vai além da figura social que ela pode imprimir. Ela não está grudada em estereótipos de uma visão sobre a negritude no Brasil. Ela tem subjetividade, complexidade, dilemas profundos”, diz Naruna Costa em uma matéria do site de notícias Uol.
Cristina Ferreira (Naruna Costa) e Edson Ferreira (Seu Jorge)
Tratando de diferentes facetas do crime organizado nos anos 90 em São Paulo, em alguns momentos somos levados a acreditar que a história contada faz analogia ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Pedro Morelli, que dirigiu alguns dos episódios da série afirma o contrário, dizendo não haver relação direta com nenhuma facção específica, já que a série foi construída se baseando em diferentes pesquisas de diversas organizações criminosas na época.
A primeira metade da série, constituída de oito episódios, escolhe uma linguagem exageradamente simplificada, o que torna a narrativa um pouco fraca. Quem assiste apenas aos primeiros episódios sai com a sensação de que há algo de mal trabalhado na produção. Isso se dá pela vontade dos criadores de, ao tentar falar sobre uma realidade com pouca ou nenhuma visibilidade, alcançar o maior número de espectadores possível, buscando atingir diferentes públicos.
Porém, com a direção alternada, os quatro últimos episódios trazem um ritmo totalmente diferente dos anteriores. Aly Muritiba, diretor de três destes episódios, parece alcançar maior coesão na história e intensifica bem a construção do universo, indo mais à fundo no que a linguagem cinematográfica pode proporcionar para a narrativa.
Para que ambos os estilos funcionem bem e dialoguem entre si, não pense que o trabalho foi pouco. As direções de arte e fotografia trabalham muito bem durante toda a série para garantir um certo nível de qualidade que amarra todos os episódios de forma menos discrepante. Na atuação, que também não deixa a desejar, a aposta em rostos conhecidos como Seu Jorge também contribui para prender a atenção do público.
Edson Ferreira (Seu Jorge)
Independentemente de todas as críticas aos fatores técnicos e cinematográficos é importante ressaltar que, assim como toda obra, Irmandade traz seus pontos positivos e negativos. Sabendo da escolha dos criadores em optar por uma construção mais simplificada e, a princípio, menos elaborada, o blog do Correio Brasiliense traz 5 motivos para assistir a série. Dá uma olhada!
A obra, que teve lançamento em 2019, cumpre um papel importante no momento em que estamos vivendo. A série traz, em seus temas principais, questionamentos éticos e morais sobre as relações raciais históricas que construíram e constroem até hoje grande parte da sociedade brasileira, com críticas ao racismo institucional encorporado pelo sistema carcerário, legislativo e judiciário. Em tempos de “Bandido bom é bandido morto”, Irmandade nos faz perguntar: por quem e para quem são feitas as leis?
Quadro em Branco é um canal no YouTube que traz um conteúdo extremamente informativo apresentado sempre pela perspectiva do autor do canal, trazendo intertextualidades, referências e diferentes interpretações em cima de obras de arte em suas variadas formas. Os vídeos normalmente abordam os campos da literatura, da música e do cinema e trazem muito da cultura popular e suas influências.
De maneira extremamente criativa, diversos vídeos fazem correlações interessantíssimas entre diferentes obras de arte, em formato e até mesmo gênero. Em um de seus episódios, o Quadro em Branco propõe um paralelismo entre o rapper Don L, o músico clássico Mozart e o personagem Lúcifer, do quadrinho Sandman. Evidenciando a irreverência presente na personalidade e, consequentemente, nas obras desses artistas.
Em um episódio mais recente, o Quadro em Branco ranqueia seus capítulos favoritos de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dessa forma, levando para o público da internet um contato com uma literatura considerada clássica ou erudita, e desmistificando as dificuldades de compreensão que supostamente acercam esse tipo de leitura.
Em um episódio mais recente, o Quadro em Branco ranqueia seus capítulos favoritos de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dessa forma, levando para o público da internet um contato com uma literatura considerada clássica ou erudita, e desmistificando as dificuldades de compreensão que supostamente acercam esse tipo de leitura.
Além de sugerir novas interpretações sobre obras conhecidas, o Quadro em Branco também apresenta muito conteúdo para o público, difundindo outros trabalhos igualmente interessantes. Ademais, tem uma perspectiva crítica muito presente e responsável, apontando problematizações em cima das criações e dos criadores.
Se ainda não conhece, vale a pena conferir!
Siga o Quadro em Branco no Youtube!
Feitos seis anos desde que Felina, episódio final da famosa série Breaking Bad foi ao ar, somos presenteados por mais uma parte da história, até então oculta aos fãs. Lançado pela Netflix, em co-produção com a emissora norte americana AMC, o filme se propõe como uma continuação dos últimos momentos da série, retratando o que acontece com Jesse Pinkman (Aaron Paul), após ser resgatado por Walter White (Bryan Cranston) no capítulo que encerra sua estória. Até então.
[SPOILER ALERT!]
Se você não terminou de assistir a série, ou ainda nem começou, prossiga até a SPOILER FREE ZONE para que você possa continuar sua leitura em segurança. Afim de ver um pouco antes da leitura? A série inteira se encontra disponível na Netflix e você pode assistir aqui!
Jesse Pinkman (Aaron Paul) no carro, enquanto deixa Walter White (Bryan Cranston).
Com a mesma angústia que o seriado termina, o filme começa. Após meses preso em cativeiro pelas mãos de uma gangue neo-nazista, Jesse é salvo por Walter White, que consegue libertá-lo, mas acaba morrendo por isso. Agora sem seu mentor, a personagem de Aaron precisa buscar uma forma de sobreviver sozinho, na tentativa de resgatar a vida que lhe foi tomada.
Jesse Pinkman em seus últimos momentos de Breaking Bad, logo após se libertar
Traumatizado pelos meses de tortura e trabalho forçado, o Jesse Pinkman que encontramos está mais cru do que nunca. Com o objetivo de encontrar paz e se recompor das consequências de uma vida que não gostaria de ter tido, e procurado pela polícia, ele se vê lutando para se manter fora do radar. Ao sair de seu papel secundário, imposto pela presença de Walter, o protagonista da vez toma as rédeas de sua própria história e enfrenta demônios internos e externos enquanto repensa toda a caminhada que o levou até ali. Tudo o que ganhou e o que deixou para trás.
Jesse Pinkman, de cabeça raspada, em sua jornada durante El Camino
Durante todo o filme, o roteirista e diretor Vince Gilligan brinca com as diversas semelhanças e diferenças entre o Sr. White e seu aprendiz rebelde. Em um desses momentos, vemos Jesse raspando a cabeça como forma de se recompor. Esse ato, extremamente sutil, nos revela muito mais do que sua nova aparência. É de cabeça raspada que ele se sente pronto para seguir seu caminho em direção ao destino uma vez escolhido por seu antecessor: a imensidão solitária do Alaska. Nessa trajetória, fica claro que, não importa pelo que tenha passado, ou quão parecidos possam ser, Jesse jamais se transformará em Heisenberg.
Jesse Pinkman e Heisenberg (pseudônimo assumido por Walter White)
[SPOILER FREE ZONE]
Para além da manutenção de uma linguagem cinematográfica que já distinguia Breaking Bad de praticamente qualquer outro produto televisivo, a obra traz uma continuação sem qualquer defeito – o que é realmente impressionante. Mesmo com o intervalo de seis anos desde o ocorrido retratado, a equipe de continuidade dá um banho em qualquer sequência com a qual possamos comparar.
Intitulado “El Camino: A Breaking Bad film”, o filme cobre um campo de visão anteriormente inacessível para quem acompanhava a série. Se liga no trailer!
Em “A estrada de El Camino – Bastidores de El Camino: A Breaking Bad film” (título nem um pouco longo), também disponível na Netflix, somos apresentados à toda a equipe que participou da produção do filme, assim como a todos os desafios que tiveram de ser ultrapassados.
Entre todo o trabalho que a equipe enfrentou, é importante ressaltar alguns pontos-chave que fazem de El Camino uma obra bem-sucedida em todas as suas pretensões:
Trabalho em equipe
Uma curiosidade que, com certeza, contribuiu muito para um trabalho em sincronia, é que a produção contou, basicamente, com as mesmas pessoas que já faziam parte da construção do universo de Breaking Bad. Por já ter repetido a equipe na obra original e em Better Call Saul, spin-off da série, o diretor pôde organizá-la de forma orgânica, garantindo o entrosamento pessoal e profissional dentro do set.
Continuidade
Além da reconstrução de todos os cenários com os posicionamentos idênticos àqueles com os quais somos deixados anos atrás, a equipe da figurinista Louise Frogley também teve um grande trabalho. Para manter a fidelidade aos acontecimentos da série e manter o espectador dentro do mundo de Jesse, foi necessária a reconstituição de roupas que, em muitos casos, nem existem mais. O Making of mostra como a equipe teve de misturar diferentes modelos de roupas atuais para recriar aquelas usadas pela personagem, tanto em seus momentos de fuga, quanto nos flashbacks que nos introduzem à experiência de Pinkman durante os meses em que esteve preso.
Fotografia
Outro ponto importante de ser mencionado é a excelência da direção de fotografia. Assim como na série, que mantém um alto nível na qualidade de suas composições, o trabalho do fotógrafo Marshall Adams no filme não deixa a desejar. Ângulo, movimentação, iluminação, fotometria e construção da mise en scène, trabalhada em conjunto com a direção de arte, ajudam a formar o mundo em que imergimos para acompanhar Jesse em busca de sua liberdade.
Transmitindo os sentimentos e as sensações de Pinkman, esses elementos combinados são muito bem trabalhados para que o espectador aproxime-se cada vez mais da realidade experienciada pelo protagonista. Ao assistir El Camino, podemos dizer, sem medo de errar, que aqui está um produto audiovisual que soube realmente fazer bom uso da linguagem cinematográfica.
Todd e Lydia (Madrigal) eternizados em globo de neve
Production Design (Direção de Arte)
Por último, mas não menos importante, temos o trabalho minucioso e dedicado da equipe de arte, que construiu desde objetos cênicos e detalhes da cenografia, até cenários inteiros. Liderados pela diretora Judy Rhee, os profissionais tiveram, definitivamente, um dos maiores desafios de toda a produção. Podemos perceber os melhores exemplos desse trabalho na cena do apartamento de Todd Alquist (Jesse Plemons), onde as duas situações ocorrem. Em entrevista exclusiva à Casa Vogue, Rhee fala um pouco sobre todos esses desafios. Confira o conteúdo na íntegraaqui!
Ainda na casa de Todd, encontramos um grande elemento narrativo de Breaking Bad: o próprio cenário, que é apresentado em camadas para demonstrar a profundidade da perturbação que jaz na mente do vilão nazista. Percebemos também que ali que se estabelecem alguns dos maiores easter eggs do filme. O site da revista Super Interessante traz 9 referências escondidas em pequenos detalhes e grandes cenários, que provavelmente passaram despercebidos por olhos desatentos. Os níveis são muitos. Dá uma olhada!
Jane Margolis (Krysten Ritter) e Jesse Pinkman
Se você ainda não conseguiu parar para ver o filme, ou quer revê-lo depois de toda essa informação, pode encontrá-lo na Netflix ou através das transmissões da AMC. Se prepare, preste atenção e clique aqui para assistir!
Se você nunca ouviu falar de Pose, não sabe o que tá perdendo! A série da FX se passa nos anos 80 e traz para as telas todo o glamour e drama do universo dos ballrooms. Em meio a uma epidemia de HIV negligenciada por uma sociedade transfóbica, homofóbica e ignorante, os personagens da série batalham por uma vida com dignidade e pelo direito de fazerem o que amam.
Para quem não conhece, os ballrooms eram grandes bailes com competições de dança, figurino, desfile e performance. Em um contexto profundamente marginalizado, muitas pessoas LGBT eram expulsas de casa e desde muito cedo viviam na rua. Por conta disso, eram criadas casas onde mães LGBT um pouco mais velhas abrigavam alguns desses jovens abandonados. Essas casas competiam entre si nos bailes, e essa é a história ilustrada por Pose.
A série conta com muitos qualitativos fortíssimos. Em primeiro plano, as atrizes. Muito se vê no mundo das artes, pessoas cisgênero interpretando travestis e transexuais. É impressionante a força que a série tem, e muito devido a verdade das atrizes. Todas elas brilham. Nesse sentido, é muito fácil acreditar e embarcar na vida daquelas personagens, que têm narrativas tão brutas e vivas. A relação das mulheres com seus corpos é discutida em diversas nuances, trazendo também conflitos de raça e classe, sempre com respeito e seriedade.
Ainda que se passe a quarenta anos atrás, infelizmente a série traz questionamentos muito atuais. No Brasil, por exemplo, pessoas morrem de doenças que já foram erradicadas em regiões mais desenvolvidas do país, uma vez que não se investe na profilaxia necessária pra que isso diminua ou pare de acontecer. Não há interesse econômico da parte de quem produz medicação, nem de quem teoricamente deveria garantir a saúde pública. Em Pose, isso se dá muito dramaticamente com a epidemia da HIV. As personagens se desesperam pelo descaso da sociedade e do Poder Público. Nada se fazia para curar uma doença que, erroneamente, se acreditava afetar apenas gays. A comunidade LGBT ia perdendo seus afetos quase que diariamente. Uma realidade de profunda tristeza e agonia. A série levanta muitas questões sobre amor. A angústia de não poder amar, ou de amar sabendo que pode ou vai perder quem ama.
Pray Tell (Billy Porter)
O personagem de Billy Porter vive esse sufoco intensamente. E é também responsável pela mudança de posicionamento e engajamento político das personagens na trama. Depois de perder muitas pessoas que ama, Pray Tell começa a se movimentar junto a Blanca(Mj Rodriguez) para contestar justamente a negligência estatal e social que assola a questão da HIV. Pouco a pouco, outros membros da comunidade também se engajam na luta com uma união muito firme e resistente.
Além disso, é claro que a série também fala sobre a violência direta sentida por essas personagens. Se não todas, a maioria das mulheres ali viveu, ou vive no presente da trama, de prostituição. Não por escolha, mas por oportunidade, ou pela falta dela. O que é uma realidade presente até hoje. O Brasil, por exemplo, é o país que mais mata transsexuais no mundo, e muito se dá pelo universo reservado a essas pessoas. A dificuldade de encontrar empregos que aceitem pessoas transexuais é enorme, tornando qualquer possibilidade de dignidade fora da prostituição muito distante. E, por consequência, vulnerabilizando profundamente esse grupo de pessoas.
Ainda sim, acredito que a questão da prostituição é tratada com bastante delicadeza. Há uma preocupação em não romantizá-la, ao mesmo passo que mostrá-la como concreta, passando por muitas variáveis desse tipo de relação interpessoal. Desde mulheres que tem seus“namorados” ricos até a violência e brutalidade que esse contato muitas vezes pode desencadear.
House of Evangelista: Papi Evangelista (Angel Bismark Curiel), Angel Evangelista (Indya Moore), Blanca Evangelista (Mj Rodriguez) e Damon Evangelista (Ryan Jamaal Swain) da esquerda para a direita
A trama também levanta debates importantes sobre senso de comunidade. Primeiramente pelo próprio baile em si, que nada mais é do que a celebração de um corpo social. Mas também pelas casas. A ideia da relação familiar que é estabelecida entre essas personagens é emocionante, e cada mãe, à sua maneira, tem um papel muito influente na vida e entendimento dos filhos da casa. E de uma maneira geral, como uma comunidade em si, ainda que diversa de opiniões e posturas, quando atacada por alguém de fora, se mostra muito íntegra em apoiar os seus.
Dessa forma, a série traz alguns paradoxos interessantes de serem compreendidos. As supostas famílias de Deus são as que abandonam seus filhos, netos e irmãos nas ruas por conta sua orientação sexual ou identificação de gênero. Ao mesmo passo que as pessoas marginalizadas por terem “comportamento subversivo” são as que acolhem esses jovens desamparados e vulnerabilizados. Os homens brancos e ricos de Wall Street procuram nessas mulheres – em sua maioria, negras – todo o amparo proveniente das não-relações dentro de seus casamentos. A hipocrisia da sociedade burguesa é revoltante.
Em contraponto, a afetividade existente na vida dessas personagens só é encontrada entre pessoas do seu meio. E por muitas vezes passa muito mais pela forma de cuidado do que necessariamente por uma idealização romântica do carinho. O que é muito bonito, e fundamental nos dias de hoje, em tempos de tanto egoísmo. Mas também é importante que haja uma indignação acerca da necessidade de tamanho cuidado. Isso só se dá pelo simples fato da existência desses corpos já botá-los em perigo, e não há nada de bonito nisso. É simplesmente inaceitável. Ninguém jamais deveria temer por viver.
Elektra Wintour (Dominique Jackson)
Por fim, é indispensável ressaltar a direção de arte, em especial os figurinos. Um trabalho absolutamente espetacular, como logicamente deveria ser, dada a estética dos ballrooms. Os figurinos fazem parte das competições, portanto representam uma parte significativa das performances. Cada episódio traz uma proposta mais esplêndida do que a outra. O trabalho é deslumbrante.
Os questionamentos que Pose traz são fundamentais para quem busca viver em uma sociedade mais justa para todos. É uma série de drama e entretenimento, mas também tem um valor político simbólico muito importante. Pela primeira vez pessoas transexuais estão ganhando espaço para se representarem na grande mídia e é urgente que sigamos dando esse espaço como consumidores e como cidadãos.
Para quem ainda não assistiu, a primeira temporada de Pose está disponível no Netflix e a série já está confirmada para uma terceira temporada.