Não sei, só sei que foi assim


O processo criativo e a saga de tentar entender o que não precisa ser entendido

Devido ao momento atual, tenho passado muito mais tempo trabalhando de home office. São horas e horas na frente do computador: entrando e saindo de reuniões por vídeo conferência, ligação por Whatsapp, respondendo e enviando e-mails e mensagens, compartilhando documentos e produzindo conteúdo através de ferramentas online. Resumindo, uma verdadeira loucura. 

Um dia desses enquanto enviava um áudio, percebi que estava em pé andando em círculos enquanto falava. Em um primeiro momento fiquei assustado, mas passou rápido. Me senti em uma espécie de transe, parecia que durante alguns segundos não era eu que estava no controle das minhas ações. Reproduzi o áudio (sim, eu faço isso) e comecei a ouvir a minha própria voz. As palavras e frases pareciam ter sido escritas previamente, se encaixavam fazendo total sentido para aquele momento e isso me chamou a atenção.

Talvez uma das melhores respostas para quando me perguntam como tive uma determinada ideia seria a famosa frase do personagem Chicó: “Não sei, só sei que foi assim…”

Depois desse dia, passei a prestar mais atenção nos meus comportamentos involuntários relacionados à criação de conteúdo (principalmente audiovisuais). Comecei a me esforçar para entender o meu processo criativo, e tentar descobrir o meu “segredo” para aplicá-lo nos momentos em que precisasse muito ter uma “grande ideia”. Depois de longo período tentando encontrar a chave do meu “sucesso temporário”, cheguei a conclusão que: não existe uma fórmula, apenas flui.

Ao mesmo tempo que isso possa parecer bom, a sensação de não conseguir dominar meus estímulos criativos me tirou algumas noites de sono. No começo acreditava que era o “cara” da madrugada, pois o silêncio e a falsa sensação de que nada está acontecendo no mundo naquele momento me fazia ser mais produtivo. Mas essa hipótese caiu quando comecei a sair com uma certa frequência à noite e atravessar a madrugada não só bebendo com os meus amigos, mas anotando o tempo todo ideias aleatórias. Se tornou rotineiro me afastar da mesa de bar para enviar ideias em áudio e no dia seguinte acordar com um monte de interrogações ou com o pior feedback que um criador de conteúdo pode esperar: “Cara, sua ideia é uma merda”.

Episódio em que Jerry Seinfeld anota uma ideia no meio da noite e no dia seguinte não faz o menor sentido.

No meu caso, não se trata de tentativa e erro, é simples como tudo que você já deve ter ouvido falar sobre processos criativos. Não sou o “mestre da criação”, mas me considero apto o suficiente para me declarar como um criador de conteúdo. Sei que existem exercícios que podem despertar gatilhos criativos, mas na minha opinião o que mais ajuda em um processo criativo é você não querer entendê-lo e sim estar preparado para a sua aparição. Como em uma produção de pães, por exemplo, se você não tem pelo menos um forno para colocar os pães para assar, fica praticamente impossível produzi-los, não é verdade?

Continuando… digamos que uma ideia venha do “nada” na sua mente e você está no meio de um velório. O que você faria? Deixaria para lá, por não considerar o momento apropriado ou daria um jeito de registrá-la? Se você já tem uma forma de registrá-la, seja ela qual for (anotação em um bloco de papel, notas celular, envio de e-mail para si próprio ou até mesmo um grupo no whatsapp que só tenha você), com certeza você conseguirá uma brecha para registrar essa ideia. Agora se você só se permite criar pelo seu método padrão (sentado no seu escritório com a luz baixa, tomando um chá relaxante e ouvindo jazz), as chances das ideias aparecerem justamente nesse momento são bem menores, não acha?

Rodrigo Amarante e as férias

Em uma entrevista para Cláudia Marques Santos do canal “If You Walk The Galaxies”, Rodrigo Amarante fala sobre seu processo de criação e chega a uma conclusão bem interessante sobre o sentido das “férias”, confira o trecho abaixo:

No YouTube é possível encontrar muitas entrevistas onde Rodrigo Amarante fala sobre o processo criativo do disco “Cavalo”. Se você deseja entrar mais fundo nesse assunto recomendo essa entrevista aqui. Destaque para o preparo do entrevistador, que chega a ser elogiado pelo próprio Amarante durante a entrevista.

Se você aprende a lidar com suas inspirações, sente elas, aceita que não pode as controlá-las, mas sim conduzi-las, acolhê-las para serem trabalhadas em seu tempo, você automaticamente tem um processo de criação estruturado que irá (e deve) se transformar com o passar do tempo e suas novas experiencias. Talvez não consiga descrevê-lo de forma clara ou replicá-lo para outras pessoas e isso é muito bom. Por que ao encontrar um criativo que possua um processo diferente do seu, você terá muitas chances de compreender ainda mais a si próprio.

Na minha opinião, nem tudo que existe precisa ter um propósito claro, afinal até hoje não entendemos o principal motivo de estarmos vivos e mesmo assim seguimos vivendo. Talvez a busca por esse entendimento seja o motivo principal que nos conduz a continuarmos vivos. Será?

1 Comentário

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Daniella Burleresponder
22 de julho de 2020 em 10:15 PM

Vini, amei tua reflexão e as associações. Massa mesmo! E já disse que gosto muito da tua escrita, né?!

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