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O Diabo veste Prada, mas a Jaqueline veste oncinha e salto

De primeira estranhei o porquê dela estar com a roupa inteirinha de estampa de onça em pleno aeroporto de Confins. De segunda me peguei indagando sobre o salto agulha (também de onça) que ela tinha nos pés. Mas, com um pequeno bate papo (e incontáveis reflexões que eu fazia enquanto ela falava com seu sotaque carregado), eu finalmente entendi: aquilo para Jaqueline era um evento.

Me pediu ajuda para plugar o carregador de seu celular numa daquelas tomadas compartilhadas de aeroporto, disse que “precisava carregar urgente o telefone porque já estava viajando há quase 24 horas e a bateria ia acabar” e, assim, começamos a conversar. Jaqueline me contou que morava no interior do Mato Grosso do Sul, que essa era a sua primeira vez viajando de avião e que havia passado o ano inteiro programando aquele passeio. Acho que ninguém na história fez tanto esforço para passear em Montes Claros.

Ela havia passado as últimas 24 horas pulando de aeroporto em aeroporto: depois de sair de sua cidade e ir de ônibus para Campo Grande, a nossa heroica onça já havia feito escala em Brasília, São Paulo, estava em Belo Horizonte e esperava o último dos voos antes de finalmente chegar ao seu mineiro destino. Quase uma música do César Menotti e Fabiano.

Ela confessou que nunca havia visto o mar e que gostaria que sua próxima viagem fosse para o Rio de Janeiro. Sonhava em conhecer a água salgada, o Cristo e talvez os arrastões. Me impressionei que, com menos de 10 minutos de conversa, ela deixou comigo a bolsa e o celular (agora corretamente conectado à tomada) para ir ao banheiro. Onde já se viu confiar seus documentos a um estranho? Com certeza ela não estava preparada para ir ao Rio. 5 minutos em Copacabana e a onça já teria virado tapete. Ó. Mais outro sucesso que posso vender pro César Menotti.

Cheguei a questionar se ela não era uma daquelas pessoas envolvidas no tráfico humano e estava puxando papo para me levar para a Turquia e protagonizar uma novela da Glória Perez. Já imaginava minha mãe gritando “Tu tá metida com droga, Morena?” Mas fui percebendo que ela estava mais para um Chico Bento de roupas chamativa do que para as traficantes de Salve Jorge.

O que me deu a certeza de que ela não iria me levar para dançar numa boate em Istambul foi quando anunciaram o embarque para Montes Claros e ela começou a tremer de nervosa pelo medo de entrar no avião. Disse que preferia sempre ir de carro, mas, como achou as passagens de avião tão baratas, resolveu encarar seu pavor de voar. E, no momento em que ela retocou a maquiagem e os calafrios pararam automaticamente, eu percebi que ela não estava arrumada para chamar a atenção dos outros viajantes e, sim, porque os apetrechos e as roupas a ajudavam a encarar seu medo.

Ao contrário do que eu pensava, para Jaqueline, o salão de embarque não era um Baile Fashion na Ilha de Caras. Ela via aquilo como um momento pré-pesadelo onde os únicos aliados eram a bolsinha de maquiagem e desconhecidos sentados próximos a tomadas. Ela se deu uma última olhada no espelho de bolso que carregava, me falou tchau com um sorriso rosa vibrante de orelha a orelha e, apesar do salto agulha, saiu correndo para a fila do embarque com medo do avião partir sem ela.

Tomara que ela não tenha pego turbulência. Não deve ser fácil retocar a maquiagem chacoalhando a 900km por hora. Nem mesmo para uma onça. Meu deus. Mais uma. Alguém tem o número do César Menotti?

* * *

Ilustradora convidada:

Luiza Alexander

Composta de versos musicais e referências visuais. buscando sempre converter emoção em imagem, através de seus trabalhos de ilustração e branding. lua crescente; em constante processo de criação.

 

 

👉  Conheça o trabalho da Luiza no instagram.

Manchester à Beira-Mar e a impossibilidade de viver com a culpa

Voltamos agora para falar de um filme espetacular, que chamou atenção das premiações no ano de 2017! Um filme simples, de baixo orçamento, sobre dilemas humanos. O filme da vez é Manchester à Beira-Mar.

O lugar desse filme é a desolação, a tristeza e a melancolia. Estamos falando de um homem silencioso, cheio de conflitos internos, que abandonou seu passado e não deseja se confrontar nunca mais com ele. A fuga das memórias norteiam a dramaturgia do longa vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator.

Pra começar, vamos deixar a trilha sonora tocando e entender a dimensão de todo o trabalho que Lesley Barber, a excelente e conceituada diretora musical canadense, teve ao compor a trilha original do filme.

Nesse trabalho, há a transferência dos sentimentos e da solidão de nosso protagonista. São evocados elementos diversos, como a presença do mar, das profundezas e os mistérios do oceano, assim como a sensação de imersão e abandono.

Temos também, assim como a geografia da cidade de Manchester à Beira-Mar, a presença do passado colonial e religioso dos Estados Unidos, através de alguns cantos sacros puritanos e hinos calvinistas.

A cidade, localizada no estado de Massachusetts, mesma unidade federativa de Salém, onde no final do século XVII, aconteceu o episódio de As Bruxas de Salém, uma sangrenta caça às bruxas com motivação religiosa. Para entender um pouco melhor sobre o caso, coloco aqui uma matéria da Revista Galileu (para acessar é só clicar) e, abaixo, uma entrevista com a historiadora Camila Maréga falando sobre o assunto.

Além disso, como dito no vídeo, esse evento histórico virou uma peça teatral de 1953, escrita por Arthur Miller, um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. No momento em que foi escrita, a peça representava a caça aos comunistas que o Estado americano fez aos profissionais que trabalhavam no campo das artes. Se você se interessou em ler a peça, que eu considero uma obra-prima, coloco o PDF aqui (basta clicar para lê-la).

Também, em 1996, a mesma peça foi adaptada para o cinema, com Winona Ryder e Daniel Day-Lewis como protagonistas. O trailer do filme está aqui abaixo.

Na trilha também temos a presença de Adágio em Sol Menor, música que já ficou muito conhecida por permear o imaginário popular em diversos filmes, como  O Ano Passado em Marienbad, de 1961, de Alain Resnais, um dos grandes clássicos da nouvelle vague francesa, e o musical pop romântico Flashdance de 1983.

A música nos traz toda a tristeza e desolação do personagem, ao ser revelado para o público o real motivo de sua melancolia e as dores irrecuperáveis de seu passado. Uma obra de arte que conduz nossa emoção de uma forma arrebatadora. A versão do filme, pela orquestra filarmônica de Londres, se encontra abaixo.

Toda a atmosfera sentimental do filme é pensada e representada por grandes nomes que compõem a equipe. Em primeiro lugar precisamos destacar a direção impecável, sensível e grandiosa em sua simplicidade de Kenneth Lonergan, um homem de teatro e mais reconhecido por seus roteiros do que propriamente por seu trabalho como diretor.

Por sua prévia experiência nos palcos, a preparação de elenco se deu em duas semanas de leitura e discussões de mesa sobre o conceito e atmosfera do filme. O trabalho da palavra e das emoções são os grandes destaques do longa. Alguns filmes de sua filmografia estão abaixo.

Casey Affleck tem um dos melhores desempenhos masculinos da década e nos entrega toda a dor e dimensão desse personagem perturbado e agressivo. Um homem que não sabe conviver com a culpa e as suas dores. Um homem que necessita de perdão e não o busca. A cena da delegacia e do acerto de contas com sua esposa no final são duas das grandes cenas do filme. Um espetáculo!

A maravilhosa Michelle Williams, na cena do perdão, nos proporciona uma das cenas mais lindas que eu já vi na vida. Impossível não se emocionar com a dor e o sentimento reprimido de pessoas que ficam anos sem se falar e apenas precisam de uma conversa. Toda a dimensão da atriz  está ali. É uma cena matadora. E abaixo alguns filmes em que ela também demonstra todo seu potencial e competência.

Por fim, temos Lucas Hedges, excelente revelação que despontou no final da década passada como um dos grandes nomes da geração jovem de Hollywood. O ator, que transita por momentos cômicos e extremamente dramáticos, redescobre a paternidade e filiação familiar com o tio, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e já pode ser visto em diversos outros longas aclamados dos últimos anos, como os que estão abaixo.

Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:

Então é isso, galera! Vamos com tudo em cima desse filme, que ele tem muito assunto e muitas ramificações! Lembrando que ele está disponível no streaming Globoplay

Grande abraço! Até a próxima!

A Princesa Prometida – versão quarentena

Que a quarentena atrapalhou bastante a indústria audiovisual, não é novidade. Todo mês somos lembrados de quantos filmes foram atrasados pela pandemia do Corona Vírus, só de ver trailers, imagens exclusivas, vídeos de bastidores que saem por aí, pensamos “caramba, esse filme ainda nem foi lançado, não é?”.

Além da distribuição, as gravações estão passando um perrengue enorme com a covid-19. Como a maior parte dos países do mundo já passaram pela dita “primeira onda”, muitas produções estão num dilema entre continuar ou não com seu schedule, tendo em vista a saúde e segurança do seu elenco e equipe. Alguns estão conseguindo resultados promissores por enquanto, como a adaptação de Uncharted, segunda temporada de Euphoria e até mesmo o filme de Zendaya e John David Washington, que conseguiu o feito de ser gravado inteiramente durante a quarentena. Mas alguns ainda assim estão tendo dificuldades, como The Batman, que na semana de volta aos trabalhos teve o ator que viverá o morcegão, Robert Pattinson, testando positivo para o “coronga vírus”.

Mas e se desse para fazer uma produção inteira durante a pandemia sem arriscar a saúde de ninguém? Nem dos atores, nem da produção? E, mesmo que ainda pudesse ter um probleminha aqui ou ali, conseguisse entregar um bom resultado que brincasse com a situação que vivemos agora? Foi com esse intuito que o cineasta Jason Reitman decidiu fazer uma adaptação de um clássico dos anos 80, “A Princesa Prometida”, numa ideia de produção bastante inusitada: Tudo gravado pelo telefone e produzido separadamente por cada membro do elenco em sua própria casa.

Já não parece uma ideia muito atrativa. Os efeitos especiais com certeza não vão ser dos melhores, a luz e fotografia podem ser toscas, e mesmo que feitas direito talvez a única salvação estaria na edição e pós produção (se houverem recursos pra isso). Mas isso nunca deve ter passado pela cabeça de Reitman, visto que o seu grande desejo era realizar um fan-filme que pudesse alegrar o público e ajudar nesse período complicado.

Cena do filme original

“Na semana em que a ordem de quarentena chegou na Califórnia, eu acabei acordando em uma das primeiras manhãs, acho que como a maioria das pessoas fez, sentindo como se, ‘Tudo bem, eu preciso ser capaz de fazer algo de valor’… Eu só pensei: podemos refazer um filme inteiro em casa? Eu até tinha visto que uma versão de Star Wars feito por um fã foi realizada. Eu apenas comecei a entrar em contato com atores que eu conhecia, dizendo: ‘Isso é algo que você gostaria de fazer?’ E a resposta foi meio que imediata e rápida. Foi como, ‘Ah, isso parece divertido’.” – Jason Reitman, para Vanity Fair

Batizado de “Home movie: Princess Bride” o projeto também serviu para promover o trabalho da ONG World Central Kicthen, que ajuda pequenos restaurantes a produzir alimentos aos mais necessitados. Dentre os atores que toparam participar do filme estão os indicados ao Oscar: Charlize Theron e J.K. Simmons; os indicados ao Emmy: Bryan Cranston, Jon Hamm e Sophie Turner; Os comediantes: Stephen Merchant, Jason Segel e Neil Patrick Harris (que contracenou com seu marido); Figuras inusitadas como: Jack Black, Joe Jonas (marido de Sophie), Shaquille O’Neal, além de Zazie Beetz, Pedro Pascal, Giancarlo Esposito entre vários e vários outros que interpretaram diferentes cenas do filme, dividindo os personagens entre si. Até mesmo Rob Reiner, diretor do filme original de 1987 fez parte do trabalho interpretando “o avô” em três episódios.

O resultado é simplesmente tosco, mas ainda assim consegue brincar com a fantasia e inocência que existia no filme original. A série foi lançada originalmente na plataforma Quibi, que infelizmente ainda não está disponível no Brasil, porém é possível ver o primeiro episódio completo e pequenos trechos das outras partes no canal do Youtube da plataforma.

Eu, eu mesmo e meus 4 webnamorados

A pandemia está aí, por mais que alguns duvidem. Sair de casa virou um risco. A vida teve que ser adaptada para uma versão recatada, nada bela e do lar. Até mesmo uma mera ida mercado virou uma chuva de exposição ao vírus.

E em tempos onde pegar uma simples beterraba na prateleira é uma ameaça à sua vida, quem dirá pegar um outro ser humano. Os contatos nada imediatos subiram do 3º para o 10º grau. Não havia outra solução que não transformar as relações (que já eram líquidas) em mais virtuais que nunca. Inclusive as amorosas.

Se antigamente nossos avós se cortejavam na janela um do outro, hoje, com o impedimento de ir para a janela alheia, o ser humano teve que aprender outras formas de conquistar seu pretendente. Assim, uma das tendências que tomou conta dos apaixonados-online é a de regar esse amor ao próximo com um tsunami de curtidas maliciosas nas fotos de seu pretendente. Quanto mais pele na foto curtida, mais clara a sua intenção.

E, caso a sorte bata à sua porta e você consiga uma reciprocidade na tsunami flertiva, é hora de dar o próximo passo: luz, câmera, nude! Arraste os móveis do quarto, pegue aquela luminária da sala e explore os infinitos ângulos que o corpo humano tem, o importante é lembrar sempre da máxima chinesa: quem vê cara não coração e quem vê bunda não vê cara!

Assim, precavendo-se na beleza do anonimato, mande seu corpo como ele veio ao mundo na melhor vibe Verdades Nada Secretas e torça para sua sorte não ter ido embora. É, meus amigos, quem disse que não existia emoção nos amores em tempo do corona?

O pior é que, aumentando ainda mais a adrenalina desse rito do webamor, a próxima etapa é nada mais nada menos que acompanhar a vida do quase-conje nos stories e puxar assunto SEMPRE QUE POSSÍVEL. Achou que fosse ser fácil né? Mas o webnamoro só é verdadeiro quando, além dos nudes, você também tem interesse na pessoa. Afinal, é uma relação como qualquer outra (só que sem preocupações quanto ao álcool em gel).

Aliás, tem também uma outra diferença entre o webnamoro-pandêmico e as relações cotidianas do mundo saudável. Pois, nesse universo de emojis maliciosos e likes com a língua, a única coisa que é certa é que (rufem os tambores): a monogamia não existe. Quer algo melhor que um mundo sem cornos?

Tornou-se impossível apenas uma pessoa preencher a outra em todos os sentidos. Lá quem manda é a lei Marisa Monte sou de todo mundo e todo mundo me quer bem. Quem adivinharia que a mpb que salientaria a essência visceral dos nossos jovens? Tinham tantos apostando que seria o funk… E assim percebemos que, no fim, naquela hora da calada da noite, só nos resta nós mesmos, nossos 4 webnamorados e, para quem tem sorte, a Marisa Monte.

* * *

Ilustradora convidada:

Ludmila Rodrigues

Artista carioca, multidisciplinar, Ludmila estudou em arquitetura na UFRJ, mas se enveredou para o mundo das artes plásticas, da dança e das artes marciais desde que se formou. Em 2009 ela foi estudar ArtScience, na Academia Real de Arte da Holanda (KABK, Haia), e desde então vem acumulando experiências como artista, cenógrafa, designer gráfica e às vezes performer. Seus trabalhos já foram expostos no Festival FILE (São Paulo, 2018), no Space Media Festival (Taipei, 2016), Cinekid (Amsterdã, 2016), na Ópera de Gotemburgo (Suécia, 2019), Schema Art Museum (Chengju, 2016), entre outros. Amiga e colaboradora do Trevous desde os primórdios, Ludmila contribui escrevendo, ilustrando e dando pitacos em diversos tópicos.

Foto de Autoria de Rodrigo Fonseca.

👉 Para mais obras e informações sobre Ludimilla acesse o seu site.

Os musicais da minha vida

Desde criança, sempre fui vidrada em musicais. Muitas vezes me apaixonei tanto pela trilha sonora dos filmes quanto pela obra cinematográfica em si. Cheguei até a cursar aulas de canto e teatro durante a pré-adolescência e acabei entrando em contato com o próprio fazer do musical. Ainda que a carreira de atriz-cantora certamente não seja pra mim, a experiência pôde me proporcionar um olhar particular acerca do gênero.

Começando pelo meu grande favorito. “Across The Universe” (2007) é um musical que retrata a vida de um grupo de artistas durante a Guerra do Vietnã, no ápice do movimento hippie dos Estados Unidos — mais especificamente em Nova York. O musical traz releituras de músicas dos Beatles, com novos arranjos e adaptações até mesmo nos gêneros das canções originais. Todos os personagens levam um nome que aparece na discografia da banda. Desde Jude (“Hey Jude”) e Lucy (“Lucy in The Sky With Diamonds”) à Sadie (“Sexy Sadie”), Maxwell (“Maxwell’s Silver Hammer”) e Prudence (“Dear Prudence”), passando também por Mr. Kite (“Being for The Benefit of Mr Kite”) e Jo-Jo (“Get Back”), todo o núcleo principal é uma referência direta à obra dos Beatles.

musicais - Jude (Jim Sturgess), Lucy (Evan Rachel Wood), figurante, Prudence (T.V. Carpio), figurante, Jo-Jo (Marthin Luther McCoy), figurante, Max (Joe Anderson) e figurante.
Jude (Jim Sturgess), Lucy (Evan Rachel Wood), figurante, Prudence (T.V. Carpio), figurante, Jo-Jo (Marthin Luther McCoy), figurante, Max (Joe Anderson) e figurante.

Além da trilha sonora absolutamente incrível, com diversas músicas que — ouso dizer — são até melhores que as originais, o filme faz críticas importantes que começavam a ser levantadas na época. A guerra é questionada. A estrutura de poder é questionada. Até mesmo a oposição é questionada, apontando diferentes pontos de vista sobre como se deve lutar contra o poder hegemônico. A própria sociedade civil norte-americana é contestada em números como o de “Let It Be”, que se passa em dois funerais. O primeiro de uma criança negra que tem seu sangue nas mãos da policia de Detroid e do exército estado-unidense. O segundo, de um jovem branco que perdeu sua vida lutando uma guerra criada pelos interesses econômicos dos EUA. O número, com elementos extremamente simbólicos, propõe uma narrativa que atribui o significado de destruição a signos como o da bandeira norte-americana.

“Let it Be” – Across The Universe 

Um aspecto interessantíssimo do filme é entender como eles conseguem incluir todos os momentos de uma discografia tão diversa e evolutiva como a dos Beatles, conseguindo aplicar essas nuances de maneira delicada e profundamente representativa dentro do filme. Desde canções mais ‘conservadoras’ do início de carreira, passando pela psicodelia das drogas dos anos 70, até os rocks mais pesados do final da carreira da banda como “Helter Skelter” (White Album) e “Oh! Darling” (Abbey Road). Tudo é contemplado no filme de maneira muito inteligente.

Ainda na obra dos Beatles, vale citar também os trabalhos da própria banda dentro do audiovisual. Tenho especial afeição ao “Yellow Submarine” (1968), que é uma animação fantástica e extremamente marcante da minha infância. Além deste, outros dois álbuns dos Beatles ganharam seus filmes, “Help” (1965), um filme de comédia em que a banda é perseguida por conta de um anel de rubi que Ringo possui, e “The Magical Mistery Tour” (1968), uma espécie de mockumentary sobre uma turnê da banda.

musicais - Yellow Submarine
Yellow Submarine (1968)

Depois de “Across The Universe”, provavelmente o musical que mais me marcou na época em que foi lançado foi “Hairspray — Em Busca da Fama” (2007). O filme, que é um remake do original de 1988 (“Hairspray — E Éramos Todos Jovens”), traz uma narrativa política forte, falando sobre a segregação nos EUA nos anos 60. A protagonista, Tracy Turnblad, é uma mulher branca e gorda que sonha em aparecer no programa da TV local. Uma vez que não é aceita pelo padrão estético branco, Tracy acaba se tornando amiga dos alunos pretos de sua escola e se envolvendo com toda a cultura negra de periferia de sua cidade. O filme se passa em Baltimore, que foi palco de grandes manifestações antirracistas e, consequentemente, de uma população branca extremamente descontente com os movimentos de empoderamento preto.

“I Know Where I’ve Been” – Queen Latifah

“Hairspray” fala sobre o racismo histórico e estrutural, discute questões de representatividade e interracialidade, contesta padrões e pressões estéticas e, de quebra, nos dá de presente uma trilha sonora incrível — pessoalmente, minha favorita para faxinar a casa. Contando com presenças ilustres no elenco como John Travolta, que interpreta a mãe da protagonista, seu par, Christopher Walken, além de Queen Latifah e toda sua potência vocal absurda. Nikki Blonsky (Tracy) tem sua estreia no cinema de maneira espetacular, provando todo seu talento como cantora, atriz e dançarina. E é claro, ninguém menos do que minha ex-atriz-mirim (agora, atriz adulta) favorita: Amanda Bynes, responsável pelo alívio cômico do filme.

musicais - Prudy (Allison Janney) e Penny (Amanda Bynes) Pingleton
Prudy (Allison Janney) e Penny (Amanda Bynes) Pingleton

Seguindo essa linha de quebra de padrões normativos, “Billy Elliot” (2000), um musical que vi inúmeras vezes quando criança, foi um sucesso muito grande na época de seu lançamento. Eu tinha dois anos quando o filme foi lançado, então provavelmente não vi pela aclamação pública, mas alguns anos mais tarde, fui apresentada a obra. O filme protagonizado por um menino de 14 anos que é forçado pelo pai a lutar boxe, mas é secretamente incentivado a dançar. Billy (Jamie Bell) vive no interior da Inglaterra. É apaixonado por balé, e extremamente talentoso, mas as construções sociais se mostram como uma barreira constante para poder seguir seu sonho.

musicais - Billy (Jamie Bell) e Ms. Wilkinson (Julie Walters)
Billy (Jamie Bell) e Ms. Wilkinson (Julie Walters)

No departamento de atores e atrizes mirins, sem dúvidas “Escola de Rock” (2003) tem um lugar especial guardado no meu coração. O filme é uma comédia-musical, que não é tanto musical quanto é comédia, mas tem toda a cerne da sua narrativa no conceito do rock ‘n’ roll. Quando falo em conceito, quero dizer que se trata menos das melodias e inovações sonoras em si, e mais do comportamento e da contracultura que o rock propõe. Jack Black — um dos meus comediantes norte-americanos favoritos — protagoniza o filme. Ele faz o papel de um músico que é expulso de sua banda e acaba armando um esquema para conseguir dar aula numa renomada escola particular.

“Rock Got No Reason” – School of Rock

Jack Black também tem outra comédia-musical incrível — essa tão musical quanto comédia. “Tenacious D” (2006), filme homônimo da banda de metal que o ator tem com Kyle Gass, conta a história de uma dupla de músicos que entram em uma batalha de rock com o demônio para se livrar da morte. Trazendo uma estética própria do universo do metal, o musical tem parte da sua narrativa trazida pelas canções, que além de contarem a história funcionam perfeitamente como piadas.

“Belzeboss” – Tenacious D

Em uma narrativa similar a de “Escola de Rock”, “The Commitments” (1991) é outro musical que traz a história da formação de uma banda “despreparada”. No caso do primeiro, se tratam de crianças que não tem ligação nenhuma com o rock. No segundo, o líder da banda, Jimmy Rabbitte, decide criar uma banda de soul music em Dublin, propondo uma desafio musical e cultural para os envolvidos no projeto, que pouca relação têm com a música negra produzida no outro lado do oceano. Tenho um carinho especial por esse filme. Me lembro de tê-lo assistido com minha mãe quando era bem novinha e ter me apaixonado pelas músicas.

“Mustang Sally” – The Commitments

Um musical que merece uma citação especial nesse texto é “Rent” (2005). O longa é uma adaptação do clássico “La Bohème”, e fala sobre a juventude, suas relações presentes e possíveis em um contexto de pandemia da AIDS, abuso de drogas, prostituição e desemprego dos anos 90. Provavelmente por ser tão trágico, foi um filme de enorme impacto sobre mim. Metade dos personagens principais são soropositivo em uma época onde não era possível conviver com a doença sob controle. A questão da sexualidade também aparece como mais um desafio a ser enfrentado, dado que se tem uma realidade social muito mais homofóbica. E sobretudo, por serem artistas independentes, não conseguem se sustentar de sua arte e, por isso não podem pagar o aluguel (rent = aluguel em inglês).

“Seasons of Love” – Rent

“Rent” foi um marco não só para mim, mas também deixou seu legado no universo dos musicais, — a peça ficou em cartaz na Broadway por anos, e sua trilha foi regravado por diversos artistas. Possivelmente se tornará uma referência do gênero com o passar do tempo.

Na seção dos clássicos, a lista vai dar uma engordada porque são muitas obras importantes demais para não serem comentadas aqui. Começando, obviamente, por “Grease” (1978). A mais linda história de amor entre dois adultos interpretando adolescentes que Hollywood produziu. Dois jovens que vivem um romance de verão e acabam descobrindo que frequentam a mesma escola. Quando se reencontram, se deparam com diferenças abissais de grupos sociais e percebem que terão que ceder um pouco em ambas as personalidades para viverem seu amor. Uma espécie de Romeu & Julieta que termina em suicídio social.

musicais - Sandy (Olivia Newton-John) e Danny (John Travolta)
Sandy (Olivia Newton-John) e Danny (John Travolta)

“Grease” é um marco estético na moda dos anos 80 e também na carreira de John Travolta, que já vinha do sucesso de “Embalos de Sábado a Noite”(1977). O filme ganhou até uma releitura no famoso videoclipe de hip hop do Ja Rule, nos anos 00.

“Mesmerize” – Ja Rule ft Ashanti

Seguindo a linha romântica de “Grease”, é importante falar de “Moulin Rouge” (2001). O filme de Baz Luhrmann tem não só uma direção de arte delicadamente trabalhada (vencedora dos dois prêmios no Oscar daquele ano: Direção de Arte e Figurino), mas escolhas de musicas e arranjos, coreografias e quadros absolutamente incríveis — e tudo isso num cenário de cabaré belíssimo. O filme conta a história de um dramaturgo (Christian) que se apaixona por uma dançarina do cabaré (Satine), que acaba sendo a protagonista de uma peça escrita por ele e patrocinada pelo grande vilão da trama. Diferente de “Grease”, o final não é tão recompensador, mas a história é linda.

“Come What May” – Christian (Ewan McGregor) e Satine (Nicole Kidman)

Vencedor de inúmeros prêmios, incluindo o Globo de Ouro de melhor filme. O longa brinca com a metalinguagem, na medida que seu enredo se dá na maior parte durante os ensaios da peça, que retrata basicamente a própria história de amor proibido vivida por Christian e Satine. E como evidência de seu marco estético, assim como “Grease”, “Moulin Rouge” também ganhou sua própria adaptação para os videoclipes dos anos 00, dessa vez um grande hit da obra de Christina Aguilera.

“Lady Marmalade” – Christina Aguilera, Lil’ Kim, Mýa, Pink

“Diamonds Are a Girl’s Best Friend/Material Girl” – Satine (Nicole Kidman)

Ainda na prateleira dos clássicos, não tem como deixar de falar de “Hair” (1979) de Milos Forman, especialmente quando o assunto é trilha sonora. “Aquarius” e “Let The Sunshine In” foram hits de uma geração. Assim como em “Across The Universe”, o filme se passa no contexto da Guerra do Vietnã e as consequências dela para a sociedade civil estado-unidense. O musical mostra a vida de um grupo de hippies, que conhecem um jovem soldado vindo do interior se preparando para ir à guerra. 

“Aquarius” – Hair

Assim como em “Hairspray”, “Hair” traz o cabelo como símbolo de uma época. Porém, na obra de Milos Forman, isso aparece de maneira mais icônica, dado que representa também uma ideologia, uma contracultura, um posicionamento político de um contexto histórico específico. Durante o filme é possível observar como o cabelo é um forte marcador de diferenças entre os personagens apresentados.

“Hair” – Hair

A crítica aos costumes e modelos tradicionais das famílias dos Estados Unidos é profundamente presente, trazendo ao debate muito mais do que apenas uma rejeição que deveria ser unanime à guerra. O que se discute é justamente cultura e contracultura, a oposição aos hábitos que garantem a supremacia do conservadorismo na sociedade. E essa crítica é feita de maneira brilhante, com o uso de signos icônicos e simbólicos, além de uma direção de arte, coreografia e música impecáveis.

“The Flesh Failures/Let The Sunshine In” – Hair

Bem diferente de “Hair”, outro clássico da minha infância certamente foi “A Noviça Rebelde” (1965), que conta a história de uma noviça (Maria) que não se adapta às normas do convento e acaba desistindo de ser freira para ser governanta em uma casa cheia de crianças e um capitão viúvo. A princípio, Maria (Julie Andrews) também não se entende com o Capitão, que vislumbra uma criação rigorosa para seus filhos. Mas à medida que ela vai ganhando não só o respeito das crianças, mas também trazendo a alegria de volta para uma casa que perdeu sua figura materna, os dois acabam se apaixonando.

“My Favorite Things” – The Sound Of Music

O filme se dá pouco antes da Segunda Guerra Mundial estourar, levantando questões acerca do contexto social vivido na época. A família se vê numa encruzilhada quando o pai é convocado a servir a Alemanha nazista, e decidem fugir.

musicais - Da esquerda para direita: Liesl (Charmian Carr), Gretl (Kym Karath), Louisa (Heather Menzies-Urich), Marta (Debbie Turner), Maria (Julie Andrews), Frederich (Nicholas Hammond), Brigitta (Angela Cartwright), Kurt (Duane Chase) e Captain Von Trapp (Christopher Plummer)
Da esquerda para direita: Liesl (Charmian Carr), Gretl (Kym Karath), Louisa (Heather Menzies-Urich), Marta (Debbie Turner), Maria (Julie Andrews), Frederich (Nicholas Hammond), Brigitta (Angela Cartwright), Kurt (Duane Chase) e Captain Von Trapp (Christopher Plummer)

No ano em que foi lançado, “A Noviça Rebelde” foi nomeado para 10 prêmios no Oscar e levou 5 — incluindo melhor filme e melhor direção. Também ganhou os prêmios de melhor filme e melhor atriz no Globo de Ouro. A obra de Robert Wise certamente ganhou a chancela de referência no gênero, com toda sua delicadeza na montagem, fotografia e direção de arte. É realmente um filme belíssimo.

Se tratando de clássicos da infância, não dá pra ignorar a importância e o impacto que os musicais da Disney possuem sobre diferentes gerações de crianças. Em um texto com um recorte tão pessoal, não poderiam faltar minhas obras “waldisnescas” favoritas. Em primeiro lugar, o filme que provavelmente mais assisti em minha vida. Me lembro de chegar na locadora e correr para os VHS infantis, já sabendo exatamente onde é que estava a fita de “A Bela Adormecida” (1959). Uma animação mais velha que minha mãe e com desenhos e efeitos muito inferiores ao que já se produzia na minha infância. Independente disso, a pequena eu desfilava pelas ruas do Rio de Janeiro com seu vestido cor-de-rosa da Aurora, se sentindo a mais bonita das princesas.

“An Unusual Prince/Once Upon a Dream” – A Bela Adormecida

Um verdadeira clássico da minha geração que também não merece ser deixado de fora devido a própria importância que teve em minha vida, foi “High School Musical”(2006). Cinematograficamente, o filme não traz grandes inovações, o roteiro é simplérrimo e a direção de arte funciona na medida do esperado — nada de especial. As coreografias, por outro lado, são excelentes. Provavelmente, pelo fato do diretor (Kenny Ortega) ser o coreógrafo. A verdadeira potência de “High School Musical” está de fato nos números musicais, cujas canções marcaram intensamente a pré-adolescência de diversas jovens que, como eu, ficaram absolutamente enlouquecidas com o musical, e todas as suas continuações.

“We’re All in This Together” – High School Musical

E para fechar com chave de ouro, um musical que é também a minha animação favorita de todos os tempos. “O Estranho Mundo de Jack” (1993) é um dos filmes mais bonitos do Tim Burton*, feito através de stop motion com massinha e bonecos de uma delicadeza ímpar. E se a beleza das imagens não fossem o suficiente, o roteiro também é extremamente poético. O filme conta a história de Jack Skellington, o rei do Halloween, que, cansado do seu universo festivo acaba se deparando com o mundo do natal e fica encantado com a possibilidade da alegria e felicidade no lugar do medo e do pavor.

“This is Halloween” – O Estranho Mundo de Jack

É claro que ficam faltando nessa lista grandes referências do gênero como “West Side Story” (1961), “Cantando na Chuva” (1952) ou “Cinderela em Paris” (1957), mas como apontado inúmeras vezes, o recorte foi feito baseado pura e simplesmente nos filmes que, de alguma forma, foram marcantes para mim. Sendo assim, os vínculos estabelecidos são totalmente pessoais e não pretendem apontar nenhum tipo de relação entre as obras escolhidas, para além de seu gênero cinematográfico. Ainda assim, se você chegou até aqui, espero que tenha gostado da seleção, que foi feita com muito carinho. Pode confiar.

*Esclarecendo uma confusão comum: “O Estranho Mundo de Jack”(1993) foi apenas roteirizado e produzido por Tim Burton. Já a direção ficou pelo seu ex-colega de trabalho Henry Selick que também foi responsável por “Coraline” (2009)

Jackbox Games

Se você gosta de jogos de festa e não conhece os pacotes de jogos digitais da Jackbox Games, não sabe o que tá perdendo. O primeiro Party Pack foi lançado em 2014 e depois disso vieram mais 5 outros pacotes, cada um com 5 jogos fáceis, criativos e divertidíssimos de jogar com um grupão ou grupinho de amigos.

Só uma pessoa precisa ter o jogo pra até 8 pessoas jogarem e 10.000 (sim, DEZ MIL) participarem como espectadores ativos. Funciona assim: o jogo rola na televisão, e os jogadores interagem pelo celular ou tablet, se conectando usando o código da sala no site jackbox.tv. Muito fácil.

O meu Party Pack preferido é o 3, que vem com os games:

Quiplash 2: todos preenchem as lacunas e respondem perguntas com o que a imaginação inventar, depois os jogadores votam na mais engraçada;

Trivia Murder Party: se passa num hotel assombrado por fantasmas obcecados por trívias. Cheio de mini games, é competitivo e bem dinâmico;

Fakin’ It: Todos os jogadores, menos um, recebem uma instrução tipo “levante a mão se já continuou comendo depois de encontrar um cabelo na comida”. O “faker”, que não recebeu a instrução, tem que fingir que sabe o que está acontecendo e enganar todo mundo, enquanto os outros tentam adivinhar quem é o “mentiroso”;

Guesspionage: Um jogo de perguntas que testa sua capacidade de chute e conhecimento sobre coisas idiotas e seres humanos.

E Tee K.O.: Todos os jogadores criam desenhos e slogans que são embaralhados. Cada jogador combina desenho e slogan para formar camisetas loucas. No final, uma votação decide qual camisa é a melhor e qual vai ser queimada para sempre .

Tem preço acessível e é muuuito fácil de jogar, inclusive a distância, usando zoom ou outra ferramenta de vide chamada que deixe você compartilhar sua tela. Os party packs estão disponíveis em várias plataformas, como Playstation, Xbox, Nintendo Switch, PC/Mac/Linux (Steam ou Epic Games), Apple Tv e muitas outras.

Ex Machina e o mito do criador e da criatura

Saindo de um neoterror e chegando a uma ficção científica da maior qualidade, Ex Machina é o filme desta postagem. Filmado em um hotel na Noruega, com belíssimas paisagens naturais, o filme disserta sobre a relação entre homem, máquina e consciência.

Pra começar, vamos falar um pouco do diretor Alex Garland, que tem um trabalho já reconhecido dentro do gênero ficção científica por ter escrito o romance que originou o sucesso A Praia, protagonizado por Leonardo DiCaprio. A trama é sobre jovens que buscam uma praia na Tailândia sem a presença de turistas. Um paraíso na Terra. Mas logo depois descobrem mistérios e perigos envolvendo o local. Se você quer conhecer ou relembrar o filme, disponibilizarei o link abaixo:

A partir dessa adaptação, Garland ficou muito seduzido pela escrita de roteiro de cinema, o que diferencia de sua carreira literária, e se arriscou em seu primeiro roteiro 28 Days Later, que fala de uma sociedade inglesa destruída por um vírus que desperta o lado assassino das pessoas. Seus filmes subsequentes e toda sua filmografia transitam entre a distopia e a ficção científica. Seu interesse é expor seus personagens a um modo diferente do habitual para os expectadores, onde sua relação com a tecnologia e instinto de sobrevivência aflorem.

O filme ainda conta com um elenco espetacular com os queridinhos de meados da década passada, os geniais: Domhnall Gleeson, Alicia Vikander e Oscar Isaac. Domhnall, ator irlandês, ganhou enorme popularidade ao interpretar Gui Weasley nos dois últimos longas da saga Harry Potter e já tinha trabalhado em dois longas anteriores com Alex Garland, são eles: Não me Abandone Jamais e Dredd. Ele ainda ficou mais famoso pelos ótimos desempenhos em Anna Karenina, Questão de Tempo e Frank. Seu trabalho no episódio Be Right Back de Black Mirror, onde a esposa viúva tenta reconstruir o marido morto via robótica, é um dos mais lindos e intensos da série.

Alicia Vikander também despontou em Anna Karenina, filme inspirado no clássico de Liev Tolstoi, e continuou se destacando em O Agente da U.N.C.L.E. e A Garota Dinamarquesa, filme pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2016.

Oscar Isaac, que interpreta o cientista Caleb, ficou famoso pelo filme Che e em seguida com os clássicos independentes Drive e Inside Llewyn Davis. Depois de Ex Machina, entrou nas sagas X-Men e Star Wars, ganhando enorme popularidade. Além disso, realizou o filme Dune, de Dennis Villeneuve, uma das maiores apostas e esperas do cinema para o final do ano.

O diretor do filme, Alex Garland, como dito no vídeo, leu muitos livros sobre diversos temas relacionados a ciência, ética e vida. Alguns dos autores que ajudaram a sua formação intelectual são:

Murray Shanahan, professor de cognição robótica em Londres.

Adam Rutherford, um geneticista britânico, famoso por suas contribuições na revista científica Nature e por seu programa de rádio na BBC. Além de outros livros sobre origem da vida e genética que publicou.

Ludwig Wittgenstein, um filósofo austríaco, referência na escrita sobre filosofia da mente, da matemática e da linguagem.

Ray Kurzweil, um inventor americano, que trabalhou em diversas áreas da robótica e escreveu sobre saúde, inteligência artificial, transumanismo e futurismo.

Lendo todos esses autores, as temáticas de filosofia da mente que mais fascinaram Garland a escrever o roteiro do filme foram: O Quarto Chinês e A Sala de Mary. São dois argumentos sobre conhecimento envolvendo tecnologia sobre os quais você tem mais conhecimento, clicando nos links acima!

Além dos livros e da leitura em geral, outros dois filmes influenciaram a formação do diretor, são eles: Viagens Alucinantes, de 1980, um filme sobre um cientista que ao investigar estados de consciência e mudanças psicológicas, vai perdendo o controle de acordo com suas experiências; e 2001: Uma Odisseia no Espaço, esse sim, a maior ficção científica de todos os tempos. Abaixo coloco o trailer de ambos os filmes:

Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:

Então é isso, galera! Vamos com tudo em cima desse filme, que ele tem muito assunto e muitas ramificações! Lembrando que ele está disponível no streaming Globoplay e TeleCinePlay

Grande abraço! Até a próxima!

Os que sabem morrer

Samuel Fuller uma vez cunhou seis mandamentos para se fazer um filme de guerra, apesar de não terem sido talhados em pedra, eles têm o seu valor. Tais “leis” parecem se opor categoricamente a uma visão romantizada da guerra, até porque Fuller lutou em uma. Um filme que parece estar de acordo com essas prescrições é “Os Que Sabem Morrer” (1957) de Anthony Mann.

No filme, que se passa durante a Guerra da Coreia, Mann e seus roteiristas Ben Maddow (não creditado*) e Philip Yordan parecem se afastar de uma idealização da guerra, embora ainda sujeitos a convenções de gênero e as limitações impostas pela própria natureza industrial do cinema de Hollywood. Mesmo com aparentes concessões, o exército norte-americano se recusou prestar qualquer apoio à produção do filme. Nada muito surpreendente, já que para os soldados de “Os que Sabem Morrer” o que importa é sobreviver e não patentes.

Pôster de “Os que Sabem Morrer”, onde podemos ver dois soldados aliados em conflito.

Aliás essa supremacia da sobrevivência sobre qualquer outro valor, parece permear todo filme. Por se tratar de um filme norte-americano da década de 50 — ainda faltava muito para a Guerra do Vietnã —, aos soldados representados nas telas ainda era obrigatório ter algum senso de justiça, mesmo que mínimo. Vale mencionar o embate entre o Lt. Benson (Robert Ryan) e Montana (Aldo Ray) por um jipe (algo fundamental para a sobrevivência tanto para o tenente e seu pelotão quanto a sobrevivência do segundo e seu superior); embora o fogo amigo não se concretize durante toda a cena, era algo possível de acontecer. Momentos como estes estão presentes em todo o longa e parecem remeter as carreiras pregressas tanto de Mann quanto de Maddow e Yordan. Os três haviam trabalhado em filmes noirs de baixo orçamento, por isso essa ambiguidade moral e constante jogo de poder (perceptível tanto nos diálogos quanto no mise en scène) podem ter origem nas intricadas tramas e relações dos filmes de crime, onde predomina uma atmosfera geral de desconfiança.

Em “Os Que Sabem Morrer”, também existe uma aura similar, porém esta suspeição parece se estender ao ambiente que cerca os personagens. Os soldados inimigos estão sempre espreitando, quase que em uma simbiose total com o território que, afinal, lhes pertence. Alguns enxergarão nisso uma tentativa de impor uma imagem de traiçoeiros aos “inimigos da América”, outros que isso reforçaria a condição de invasores das tropas norte-americanas; já eu não me contento em interpretar as partes, mas também ver o todo, de qualquer forma isso não é um assunto para agora.

Os soldados coreanos e a sua fusão a sua terra

Ainda sobre o terreno e o ambiente em que se passa o filme, vale mencionar como de alguma forma a sua beleza está associada à morte. As flores e a natureza muitas vezes servem como um disfarce para uma realidade cruel ou um prenúncio de morte; há um mundo além do mundo aparente. Não é por menos que o Sgt. Killian (James Edwards) é atraído, como um marinheiro perdido no canto de uma sereia, pela beleza de algumas flores até o local de sua morte.

Alguns planos da sequência da morte do Sgt. Killigan, interessante notar que a sequencia termina com um movimento da câmera sobre o campo indiferente, com uma certa simetria cruel com o início da sequência.

Toda esta sequência é feita por meio da montagem paralela, onde Mann e o montador Richard C. Meyer intercalam os momentos de aparente tranquilidade de Killian com os de aproximação do soldado inimigo. O sargento é morto sem nem ao menos saber por quem e por qual motivo (no longa, não há qualquer menção as motivações da guerra), seu corpo desaparecerá, tragado pela natureza do local, que parece ter poupado apenas o seu capacete como uma forma de aviso.

O capacete enfeitado com flores que será adotado por outro soldado

A montagem de Meyer parece ao mesmo tempo jogar com a distensão do tempo proposta pelos longos planos de Mann, com uma montagem mais rápida em alguns poucos momentos. Porém, o que chama mais atenção é justamente a longa duração de certos planos, que parecem esconder uma motivação para além do puramente estético/formal. Assim como em outros filmes de guerra, mais do que os tiroteios, o ato de caminhar ou de atravessar algo é uma constante. Durante toda a duração de “Os Que Sabem Morrer”, a ideia de travessia (muito reforçada pelo uso da profundidade de campo) está muito presente imageticamente.

A profundidade de campo e noção de eterno caminho.

Os soldados no filme estão sempre indo adiante rumo a um destino incerto. Seguir a missão e ir até a colina 465 representa uma esperança de sair da situação precária em que se encontram e conseguir se reunir com o batalhão, assim, o que os move é novamente a sobrevivência. Esses homens estão isolados, a comunicação está comprometida, eles estão cercados pelos inimigos e qualquer erro pode ser fatal. Mais do que criar tensão, os longos planos parecem nos dar a sensação de que cada minuto naquele lugar dura séculos, além de reforçar o cansaço e o desgaste físico e mental aos quais os personagens estão sujeitos. Como dito antes, a guerra não é uma coisa bonita nem um bang bang desenfreado, mas um martírio ao qual alguns desafortunados foram sujeitados.

Lt. Benson no início do filme
Lt. Benson junto com Montana no final do filme

Ligado a essa ideia, há uma noção no filme do aqui e agora, tudo o que há é o presente (algo que me remete a alguns aspectos deste texto de Francis Vogner dos Reis). Seja nos diálogos ou nas imagens, há apenas pinceladas sobre a história dos soldados. De alguma forma, esses personagens parecem estar ligados ao conceito de personagem fechado ou circular de Sganzerla (algo já mencionando por mim em um texto anterior). Em “Os que Sabem Morrer”, há apenas esboços das questões psicológicas que afligem estes personagens ou menção às suas marcas de guerra, mas nunca as entendemos por completo. Na sequência de abertura, algo análogo parece acontecer, só que no plano visual e narrativo, ficamos sabemos de um acontecimento pelas suas consequências — o que não significa a suspensão total das leis de “ação e reação” neste universo ficcional, mas sim que parte do panorama completo nos é negado.

Início do filme, onde a câmera passeia no cenário devastado.

Esse mistério que cerca o passado e o futuro, e esse constante agora apenas refletem e reforçam o sentimento de isolamento da guerra. Seguindo os mandamentos de Fuller, Mann faz da guerra um limbo, onde tudo que existe é ou o mero conceito de um mundo para além da guerra (onde se fundem o passado e o futuro, onde memórias e expectativas parecem habitar uma mesma ideia), ou a morte e o esquecimento (vale lembrar as vezes em que Lt. Benson anota os nomes de seus soldados mortos ou quando ele chama o nome de algum que já havia morrido).

Lt. Benson acha uma foto no corpo de um soldado inimigo.
O mesmo Lt. Benson olha para uma foto guardada dentro de seu capacete.

Essa ideia de limbo é reforçada em alguns momentos, por exemplo, nesse trecho de um diálogo entre Benson e Riordan (Phillip Pine):

Benson: Riordan.
Riordan: Sim, Senhor.
Benson: Jogue Isso fora.
Riordan: Achei que pudéssemos concertar, senhor. Achar alguma linha. Poderia ligar para o batalhão.
Benson: Batalhão? O batalhão não existe, o regimento não existe, o QG de comando não existe, os EUA não existem. Não existem, Riordan. Nunca mais os veremos.
Riordan: Não diga isso, senhor.
Benson: É a verdade.
Riordan: Sei que é, mas me assusta quando diz.

Como dito antes, em “Os Que Sabem Morrer”, Mann tinha certas convenções de gênero a seguir, assim como algumas concessões a fazer. Isso pode ser observado na parte final do filme, quando finalmente o pelotão de Benson chega à colina 465 e descobre que ela está sob o controle das forças adversárias. É aqui que os soldados norte-americanos são apresentados quase como heróis (embora seria melhor dizer anti-heróis), no sentido de que o que eles fazem é praticamente impossível: alguns poucos soldados tomarem uma colina. Porém mesmo esse ato parece estar ligado às duas ideias já apresentadas nesse texto: a necessidade de sobrevivência e o presente constante. Sem poder voltar (geograficamente e temporalmente), para sobreviver eles precisam avançar, esta é a sina desses indivíduos. Sem mais esperanças de retornar para casa de outra forma, eles seguem as ordens, não por qualquer querer, porém por necessidade. Como o próprio tenente diz em determinado momento, eles não têm escolha nem para onde ir.

“Conte-me a história de um soldado de infantaria e contarei a história de todas as guerras”.

Como resultado dessa missão suicida, o pelotão fica reduzido a três soldados, que no topo da colina prestam homenagem aos mortos. Todo momento é ambíguo, ao fundo ouve-se uma música edificante louvando a bravura daqueles que caíram no campo de batalha, porém na cena os nomes dos mortos são lidos em uma caderneta, enquanto medalhas (que seriam destinadas a outros soldados que também acabaram mortos em combate) são lançados displicentemente em direção a planície, como uma forma de compensação simbólica. Imagem e música parecem estar em completo desacordo, mas no caso as imagens parecem falar mais alto.

Imagens do último plano do filme, onde lentamente a câmera se aproxima para capturar um gesto de revolta, que não tem destinatário definido nem forma de concretização. 

Ao fim de “Os Que Sabem Morrer”, o que temos é um filme guerra que revela o não significado inerente da guerra, e por mais que se possa querer identificar heróis e vilões, tudo o que há são indivíduos (dos dois lados) tentando se manter vivos. Qualquer referência às instituições como Exército, Estado, Nação… são esparsas e circunstanciais. O que vemos encenado na tela é apenas a mais pura vontade de sobrevivência a um presente hostil.

Nota: o roteirista Ben Maddow não foi creditado, pois seu nome está na lista negra de Hollywood, consequência direta do macarthismo. Por outro lado, Philip Yordan muitas vezes assinava no lugar de Maddow e de outros profissionais que se encontravam nesta mesma situação, sendo até hoje suas reais contribuições aos roteiros a ele creditados motivo de muitas controversas. 

Curiosidades da comédia para curiosos

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Ei, Você! Você mesmo… Gosta de comédia? Então talvez você curta o canal do comediante carioca Havoc Miranda, nele você encontra uma série de vídeos chamada “Curiosidades da Comédia”. Apesar do nome um tanto humilde, os vídeos apresentam um conteúdo muito enriquecedor. Resumindo, o “Curiosidades” fala um pouco sobre a história e temas relacionados ao universo do stand-up americano, em suas duas temporadas (e uma terceira que já está rolando) vemos um lado não muito comentado desse meio: os bastidores. Temos traições, golpes baixos, máfia e, o pior, heckles (assista esse episódio e entenda), mas também greves de comediantes, solidariedade, atos generosidade e, obviamente, pessoas engraçadas.

Uma imagem de Connan O’Brian. Por que? Porque ele é foda. Assistam a série e saberão o motivo.

A série contém um material muito bem embasado, sempre contextualizando e detalhando os eventos que aborda. Logo no primeiro episódio, Havoc, nos apresenta um comediante não tão conhecido aqui no Brasil: Dick Gregory. Que além de seu trabalho na comédia, se envolveu ativamente em muitas questões políticas de sua época, como por exemplo, o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Aliás, mencionei ele e outros comediantes nesse meu texto sobre stand-up.

Um episódio que particularmente gosto é “A Batalha Pelo Tonight Show”. Dividido em duas partes, nele acompanhamos uma trama um tanto quanto shakespeariana: a disputa nada saudável pela cadeira de apresentador do Talk Show mais famoso dos Estados Unidos. Depois de conhecer a história, caso você ainda não odeie Jay Leno como pessoa, acredite você odiará (a não ser que você seja um “empreendedor”, nesse caso talvez você meio que goste dele).

Recomendo ainda um outro vídeo muito informativo, que fala um pouco sobre como Eddie Murphy, nos anos 80 e 90, abriu as portas para toda uma nova geração de jovens comediantes negros — como Chris Rock, Tracy Morgan, Dave Chappelle, etc — que conquistaram e mudaram o cenário da comédia mainstream nos Estados Unidos.

Resumo da ópera, recomendo muito “Curiosidades da Comédia” e o canal de Havoc Miranda, não só para aqueles que curtem Stand-up, mas também para todos que gostam de comédia em geral e/ou tretas.

As desventuras de quem tem um cupido alcoólatra

Será que meu cupido já foi ao oculista? Talvez ele tenha miopia ou astigmatismo. Nunca vi alguém com uma mira tão ruim como a dele. As flechas que o meu maldito anjo do amor atira acertam tudo ao redor, menos o alvo que eu pedi. A flecha vai na lata de lixo, no encanamento de esgoto, em Chernobyl, MENOS em quem eu falei para mirar.

Invado seu apartamento e, como eu já suspeitava, lá estava ele: com seu habitual fraldão geriátrico desmaiado em meio a diversas garrafas vazias. Talvez seja por isso que ele não encontra ninguém e só me arrasta pro bar. Vou ajudá-lo. O jeito é carregá-lo até o chuveiro e, entre uma vomitada e outra, percebo que ele está com uma estranha tremedeira.

Chego no consultório médico. Como assim meu plano não cobre cupido alcoólatra? Que tipo de plano é esse que não cuida de um mero problema do coração? Moça, me ajuda! Não aguento mais ouvir Marília Mendonça! Eu pago o que for, senhora! Qualquer coisa vai ser menos humilhante que gastar dinheiro com o Tinder Plus! Preciso de um remédio que cure essa dor. Pera, acho que isso é Gusttavo Lima.

Os seguranças nos arrastam para fora enquanto o safado do anjo tem a pachorra de cantarolar Amante Não Tem Lar. E, já no olho da rua, a primeira sugestão que sai daquela boca casamenteira é que bebamos em alguma balada ali por perto. Explico que são oito da manhã de quarta-feira e que não existem baladas abertas a essa hora. Ele, com olhos marejados, sugere então que eu mande um “Oi sumido” para qualquer um no Instagram. Como céus dão um cargo tão importante para alguém que trabalha de fralda?

De volta a seu apartamento, limpamos a sujeira que ele havia deixado com a bebedeira. Encontro vários poemas ruins escondidos embaixo da almofada e nada mais nada menos que um box de DVD’s com toda a coleção de filmes do Richard Gere na cabeceira da cama. Jogo tudo no lixo. Não sobra UM versinho de Carlos Drummond para contar história. O detox vai ser intenso.

As primeiras semanas são cheias de altos e baixos. Alguns dias eu via que ele estava mais irritado, rasgava pôsters da Avril Lavigne na parede e se recusava a curtir as fotos de cachorros fofinhos que ele tanto amava. E nos dias que a tristeza tomava conta, o desanimado cupido botava seu fraldão branco e saía num voo baixo de quem não se sente motivado a atirar flechas de amor. Teve até uma vez que peguei ele trancado no banheiro chorando enquanto lia Nicholas Sparks.

Passada a habitual turbulência de quem está sendo reintegrado à sociedade, eu e ele conseguimos reconstruir a relação pouco a pouco. Começamos assistindo Sempre Ao Seu Lado. Depois passamos a pedir sushi em casa com os amigos e, com o bom comportamento, voltei a levá-lo às festinhas, onde, mesmo bêbado de Catuaba, ele não atirou no primeiro alvo que viu pela frente. Por fim, ele já estava de bem consigo mesmo, comigo, e, o mais importante, com a sua mira. Mas ainda me pergunto: como céus dão um cargo tão importante para alguém que trabalha de fralda?

* * *

Ilustradora convidada:

Bruna Saddy

Bruna Saddy é ilustradora, designer e traça de livros. Especialmente envolvida com aqueles do universo infanto-juvenil, tendo publicado em livros e revistas de ficção e não-ficção de editoras como SOMOS, Biblioteca Nacional e Nova Palavra.

👉 Para desenhos, tirinhas e reclamações sobre o atual governo siga Bruna no Instagram e Twitter.

Barry: profundamente humano

Toda história que nos contam, seja ela uma longa jornada ou uma pequena anedota, é um retrato de acontecimentos ocorridos com uma pessoa e sob o ponto de vista dessa pessoa apenas. Claro que pode haver exceções, sempre vão haver, porém, para refletir melhor sobre uma história a qual somos apresentados, é importante pensar que estamos sendo conduzidos sob a visão de uma (ou mais) pessoa(s) e que a ligação entre ela e a construção da história é inegável.

Pensando nessa relação, podemos imaginar quais seriam os requisitos básicos para compor essa pessoa, ou, no caso, esse personagem principal. Bem, primeiro temos o Backstory, um elemento importante para entendermos as origens desse personagem, antes do período em que sua história começa; existe a caracterização, algo que nos ajuda entender boa parte do personagem só pelo que vemos, como sua altura, sua inteligência, sua sexualidade, seu jeito de falar e etc.; e temos também o verdadeiro personagem, aquele que existe dentro da caracterização e que somente se revela quando necessário, mostrando quem ele é além de tudo que podemos ver.

Para fazer esse “recheio” são utilizado alguns requisitos que nos ajudam a entender o personagem melhor e que, quando combinados da forma certa, podem sustentar uma história por bastante tempo. Não é necessário ideias muito mirabolantes, a simplicidade de algumas características pode falar mais alto do que as mais complexas. Para demonstrar isso, Barry (2018-), série da HBO criada pelo roteirista Alec Berg e pelo comediante Bill Hader, traz um caso interessante de como usando ideias simples é possível construir personagens fortes e, consequentemente, histórias com grande potencial.

’Achando o meu propósito’:

Para explicar melhor como esses elementos são mostrados na série, é importante fazer um breve resumo do primeiro episódio “Make your Mark”:

Barry Berkman (Bill Hader) é um ex militar que lutou na guerra do Afeganistão e atualmente vive uma vida mediana em um apartamento pequeno em Cleveland, meio oeste estadunidense. Para se sustentar, ele utiliza de sua habilidade com armas como assassino profissional, sendo gerenciado pelo colega de seu pai, Monroe Fuches (Stephen Root). Um certo dia, Barry é contratado pela máfia chechena de Los Angeles para se livrar de Ryan Madison (Tyler Jacob Moore), um personal trainer que estaria saindo com a mulher do chefe da organização. Barry aceita o contrato, vai à cidade e, ao começar o seu reconhecimento, descobre que além de personal, Ryan também é aluno de uma pequena companhia de teatro. Barry chega a entrar em uma aula, mas antes que possa localizar Ryan, se encanta pela arte da interpretação e automaticamente se apaixona pelo teatro. Ele então é deflagrado pelo seu alvo que o convida para contracenar com ele em um exercício, e pelo som da salva de palmas ele se convence que encontrou um novo propósito em sua vida.

Barry em cima do palco surpreso com os aplausos

Nesse momento fica estabelecido o Objetivo de Barry de ser ator.

Mais tarde, ele acaba conhecendo outros membros da companhia e é convencido pelo próprio Ryan a seguir com o curso, que o aconselha a adotar o nome artístico de Barry Block. Barry promete tentar e acaba sendo visto por membros da máfia dando um abraço naquele que deveria ser morto por ele. No dia seguinte, ele conversa com seu parceiro de negócios, sobre seu propósito de vida e, sem considerar o lado de Barry, Fuches reenforça que ele tem que continuar no ramo de hitman.

Fuches dando uma bronca em Barry
Fuches (Stephen Root) e Barry (Bill Hader)

Nesse momento fica estabelecido o Desejo* de Barry de achar um novo propósito de vida.

Com a cabeça ainda dividida, Barry vai até a companhia de teatro atrás de Ryan, porém muda de ideia de última hora e decide ter uma conversa com Gene Cousineau (Henry Winkler), professor do curso. Quando perguntado sobre seu desempenho no palco, Gene não poupa papas na língua pra falar mal do seu papel, e sobre como aquilo não era o propósito dele. Cansado de toda a situação, Barry desabafa sobre sua vida de assassino: diz que teve depressão depois de ser dispensado e que só começou a fazer isso depois de que foi convencido por Fuches que era uma boa utilização de seu talentos e um bem a se fazer para a sociedade. Porém, mais recentemente, a depressão voltou e não consegue sair do seu pensamento de que ele pode fazer mais do que aquilo e de que aquele não é único propósito dele. Gene encara aquilo como um monologo inventado e se convence de que Barry pode entrar em sua turma.

Barry se abrindo para Gene Cousineau

Nesse momento fica estabelecido a Motivação de Barry: Ele quer mudar de vida já que está passando por uma depressão provocada pela sua experiência na guerra.

Mesmo sendo aceito por Gene, Barry segue com seu plano e se prepara para matar Ryan. Ele chega no carro do personal e descobre que a máfia chechena já havia feito o trabalho pouco tempo antes. De frente para os capangas e sem hesitar, ele entra em confronto, mata todos eles, se livra de possíveis sinais e sai. Barry então entra em uma cafeteria próxima da cena do crime convencido de seu desejo de virar ator e de que acabara de se meter em um grande quiproquó.

Barry pedindo olhando o menu da cafeteria perto do local do tiroteio

Nesse momento fica estabelecido o Conflito da história e a Superação que Barry terá ao longo da série: O seu passado (assassino) vai sempre perseguir seu futuro (ator), mas mesmo que isso ocorra, ele fará de tudo para não perder a estabilidade de sua vida, custe a violência que custar.

Em pouco tempo de tela, já conseguimos entender como deve ser boa parte da história de Barry. Ele quer abandonar sua vida passada para seguir em um novo propósito e está disposto a fazer de tudo para conseguir isso. Todos esses elementos que nos ajudam a construir Barry formam o que chamamos de Carga ou Necessidade dramática de um personagem, sendo eles: a Motivação (o evento que faz com que justifique a busca de seu personagem), o Objetivo (em termos práticos: o que o seu personagem quer), o Sacrifício (o que ele pode perder ao longo de sua jornada), o Desejo (o que realmente seu personagem quer com seu objetivo) e a Superação (o que seu personagem está disposto a fazer para alcançar seu objetivo).

Cada um desses elementos nos ajuda a dar a base que precisamos para um personagem e, como pode se notar, a apresentá-lo ao espectador. Depois que isso é criado, é montado o Arco do Personagem, que determinará cada passo e cada escolha feita por ele até o fim da série. Até aí parece que temos tudo pronto, porém nem tudo se resume a esses elementos. Como consequência de suas ações vão haver reações e, para ir de frente a elas, um personagem pode acabar revelando seu verdadeiro personagem e uma faceta que nunca vimos antes.

“O Verdadeiro Personagem só se expressa em um dilema de escolha. Como a pessoa age sob pressão é quem ela é – quanto maior a pressão, mais verdadeira e profunda é a escolha do personagem” – Robert Mckee em Story

‘Berkman vs Block’:

Essa faceta revela uma característica contraditória a tudo que conhecíamos sobre esse personagem e, mesmo que não pareça que se encaixa nele, nada mais é uma parte que nunca vimos até então.

Imagine, por exemplo, um personagem extremamente calmo e centrado. Alguém que não se estressa por nada, nem com problemas mundanos, muito menos com problemas pessoais. É uma pessoa bastante “zen”. Porém, um dia ela acorda com um certo problema de pele e, ao invés de ir com calma a um médico, ela entra em pânico e fica paranoica imaginando que possa estar com um problema sério de saúde.

O lado calmo dessa pessoa era tudo que sabíamos até então e agora vemos ela numa faceta que nunca imaginamos. Não podemos dizer que ela se tornou outra pessoa, já que mesmo que esteja agindo diferente continua sendo a mesma. Não podemos dizer também que a partir de agora ela será paranoica para sempre, pensando que se virmos ela num dia sem problema de pele, ela provavelmente voltaria a ser ‘zen’ com a vida.

Cada faceta dessa é o que chamamos de Dimensão de um personagem, sendo essa uma característica contraditória a outra, que faz parte da essência do personagem e que justamente se revela quando escolhas são tomadas.

Barry como militar em sua campanha no afeganistão

Barry caracterizado como jornalista para uma peça da companhia

“Dimensão significa contradição: ou dentro do Personagem Verdadeiro (ambição culpada) ou entre a caracterização e o Personagem Verdadeiro (um ladrão charmoso). – Robert Mckee em Story”

Por ser protagonista, Barry passa por muitas situações de risco ao longo das duas temporadas e, como consequência, revela uma dimensão diferente a cada escolha que faz. Cada faceta dele mostra o quão contraditória é a relação entre o teatro e a vida de assassinatos, chegando ao ponto dele ser caloroso e acolhedor com seu colegas de palco, e frio e focado em suas operações no mesmo episódio. Essa relação entre os dois lados não só mostram o alcance do seu personagem, mas também revelam um forte Conflito interno de Barry.

Além de histórias, personagens também podem trazer um conflito dentro de si, que é justamente o que nos ajuda a criar essas dimensões e por consequência as suas ações em sua história. Ao longo da série, Barry toma escolhas que revelam facetas dele e o fazem rumar para um caminho diferente. Porém, aos poucos ele vai cada vez mais se arrependendo de suas escolhas e de suas consequências.

Barry escondendo o choro com uma das mãos sujas de sangue

“É impossível ter a complexidade de personagem necessária para segurar uma narrativa de oitenta, noventa, cem horas [no total] sem contradição moral… Pessoas boas contra pessoas más, isso não dura muito, isso dá num filme… Então qualquer personagem com um conflito interno tremendo, e existem vários tipos de conflitos internos, mas os mais convincentes são conflitos morais com certeza…” – Robert Mckee
fonte: London Real

Esse conflito tem também um lado psicológico, que mostra que não só se trata de uma questão moral, como também uma questão intrinsecamente ligada ao comportamento humano, como é mostrado pelo biólogo e pesquisador Atila Iamarino em seu vídeo:

*Aviso de spoilers da série no vídeo.

Com uma base de personagens bem feita, uma trama que vai do suspense à comédia e à tragédia e um conflito preciso, série surpreende pois conseguiu criar um protagonista tão forte e cheio de potencial, com pouco tempo de estrada (16 episódios divididos em 2 temporadas) e pouco tempo de tela (30 minutos por episódio) em comparação a outras grandes séries dramáticas (Breaking Bad, por exemplo tem 62 episódios divididos em 5 temporadas e 50 minutos por episódio).

O que faz isso possível não é só o fato do conflito moral/psicológico de Barry ser uma questão naturalmente humana, mas como também tudo o que gira em torno do texto da série serem questões profundamente humanas, como por exemplo medo do julgamento, raiva, mudança, amor entre outros.

Barry tendo uma conversa emotiva com Gene Cousineau.

Barry: Você acha que eu sou uma má pessoa, Sr. Cousineau?
Gene Cousineau: Acho que você é profundamente humano. Você fez uma coisa horrível, mas se eu acho que isso o define? Não! – T02E04: “What?!”

* O desejo do personagem é algo que tem que estar determinado desde o começo pra quem escreve a série, mas que pode mudar de acordo com a percepção de quem assiste ao longo das temporadas.

Deksorkrao

Deksorkrao é um grupo formado por quatro meninas tailandesas apaixonadas por K-pop, especialmente pelo grupo Blackpink. Kungten, Mommaem, Som e Kwang, que têm entre 10 e 13 anos, postaram o primeiro cover há 3 anos e hoje são uma sensação na internet, com mais de 1.6 milhões de inscritos no canal do Youtube e 67 milhões de visualizações no vídeo mais popular.

Nos vídeos postados no Youtube e que viralizam nas outras redes sociais, a gente vê lado a lado o cover e o clipe oficial. Mesmo com um orçamento baixíssimo, ainda mais quando comparado com os originais, as produções são impressionantes. As meninas usam acessórios, cenários e looks improvisados com objetos do dia a dia, e entregam performances impecáveis das coreografias replicadas.

Impressionante também é o trabalho do irmão mais velho de Kungten, Sitthichai, que grava e edita os vídeos. Ele tem uma habilidade inegável com a câmera e captura os movimentos das meninas quase exatamente como os das integrantes do Blackpink. No resultado final, a gente mal nota que elas estão performando com coisas comuns numa cidadezinha da Tailândia.

Agora, assim como suas ídolas, as meninas têm fãs por todo o mundo. Com todo esse sucesso e talento, é difícil imaginar que tudo começou sem querer, quando Sitthichai postou no Facebook um vídeo “bobinho” de sua irmã e sobrinha dançando e cantando em casa.