O Diabo veste Prada, mas a Jaqueline veste oncinha e salto


Ilustradora convidada: Luiza Alexander

De primeira estranhei o porquê dela estar com a roupa inteirinha de estampa de onça em pleno aeroporto de Confins. De segunda me peguei indagando sobre o salto agulha (também de onça) que ela tinha nos pés. Mas, com um pequeno bate papo (e incontáveis reflexões que eu fazia enquanto ela falava com seu sotaque carregado), eu finalmente entendi: aquilo para Jaqueline era um evento.

Me pediu ajuda para plugar o carregador de seu celular numa daquelas tomadas compartilhadas de aeroporto, disse que “precisava carregar urgente o telefone porque já estava viajando há quase 24 horas e a bateria ia acabar” e, assim, começamos a conversar. Jaqueline me contou que morava no interior do Mato Grosso do Sul, que essa era a sua primeira vez viajando de avião e que havia passado o ano inteiro programando aquele passeio. Acho que ninguém na história fez tanto esforço para passear em Montes Claros.

Ela havia passado as últimas 24 horas pulando de aeroporto em aeroporto: depois de sair de sua cidade e ir de ônibus para Campo Grande, a nossa heroica onça já havia feito escala em Brasília, São Paulo, estava em Belo Horizonte e esperava o último dos voos antes de finalmente chegar ao seu mineiro destino. Quase uma música do César Menotti e Fabiano.

Ela confessou que nunca havia visto o mar e que gostaria que sua próxima viagem fosse para o Rio de Janeiro. Sonhava em conhecer a água salgada, o Cristo e talvez os arrastões. Me impressionei que, com menos de 10 minutos de conversa, ela deixou comigo a bolsa e o celular (agora corretamente conectado à tomada) para ir ao banheiro. Onde já se viu confiar seus documentos a um estranho? Com certeza ela não estava preparada para ir ao Rio. 5 minutos em Copacabana e a onça já teria virado tapete. Ó. Mais outro sucesso que posso vender pro César Menotti.

Cheguei a questionar se ela não era uma daquelas pessoas envolvidas no tráfico humano e estava puxando papo para me levar para a Turquia e protagonizar uma novela da Glória Perez. Já imaginava minha mãe gritando “Tu tá metida com droga, Morena?” Mas fui percebendo que ela estava mais para um Chico Bento de roupas chamativa do que para as traficantes de Salve Jorge.

O que me deu a certeza de que ela não iria me levar para dançar numa boate em Istambul foi quando anunciaram o embarque para Montes Claros e ela começou a tremer de nervosa pelo medo de entrar no avião. Disse que preferia sempre ir de carro, mas, como achou as passagens de avião tão baratas, resolveu encarar seu pavor de voar. E, no momento em que ela retocou a maquiagem e os calafrios pararam automaticamente, eu percebi que ela não estava arrumada para chamar a atenção dos outros viajantes e, sim, porque os apetrechos e as roupas a ajudavam a encarar seu medo.

Ao contrário do que eu pensava, para Jaqueline, o salão de embarque não era um Baile Fashion na Ilha de Caras. Ela via aquilo como um momento pré-pesadelo onde os únicos aliados eram a bolsinha de maquiagem e desconhecidos sentados próximos a tomadas. Ela se deu uma última olhada no espelho de bolso que carregava, me falou tchau com um sorriso rosa vibrante de orelha a orelha e, apesar do salto agulha, saiu correndo para a fila do embarque com medo do avião partir sem ela.

Tomara que ela não tenha pego turbulência. Não deve ser fácil retocar a maquiagem chacoalhando a 900km por hora. Nem mesmo para uma onça. Meu deus. Mais uma. Alguém tem o número do César Menotti?

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Ilustradora convidada:

Luiza Alexander

Composta de versos musicais e referências visuais. buscando sempre converter emoção em imagem, através de seus trabalhos de ilustração e branding. lua crescente; em constante processo de criação.

 

 

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