As desventuras de quem tem um cupido alcoólatra


Ilustradora convidada: Bruna Saddy

Será que meu cupido já foi ao oculista? Talvez ele tenha miopia ou astigmatismo. Nunca vi alguém com uma mira tão ruim como a dele. As flechas que o meu maldito anjo do amor atira acertam tudo ao redor, menos o alvo que eu pedi. A flecha vai na lata de lixo, no encanamento de esgoto, em Chernobyl, MENOS em quem eu falei para mirar.

Invado seu apartamento e, como eu já suspeitava, lá estava ele: com seu habitual fraldão geriátrico desmaiado em meio a diversas garrafas vazias. Talvez seja por isso que ele não encontra ninguém e só me arrasta pro bar. Vou ajudá-lo. O jeito é carregá-lo até o chuveiro e, entre uma vomitada e outra, percebo que ele está com uma estranha tremedeira.

Chego no consultório médico. Como assim meu plano não cobre cupido alcoólatra? Que tipo de plano é esse que não cuida de um mero problema do coração? Moça, me ajuda! Não aguento mais ouvir Marília Mendonça! Eu pago o que for, senhora! Qualquer coisa vai ser menos humilhante que gastar dinheiro com o Tinder Plus! Preciso de um remédio que cure essa dor. Pera, acho que isso é Gusttavo Lima.

Os seguranças nos arrastam para fora enquanto o safado do anjo tem a pachorra de cantarolar Amante Não Tem Lar. E, já no olho da rua, a primeira sugestão que sai daquela boca casamenteira é que bebamos em alguma balada ali por perto. Explico que são oito da manhã de quarta-feira e que não existem baladas abertas a essa hora. Ele, com olhos marejados, sugere então que eu mande um “Oi sumido” para qualquer um no Instagram. Como céus dão um cargo tão importante para alguém que trabalha de fralda?

De volta a seu apartamento, limpamos a sujeira que ele havia deixado com a bebedeira. Encontro vários poemas ruins escondidos embaixo da almofada e nada mais nada menos que um box de DVD’s com toda a coleção de filmes do Richard Gere na cabeceira da cama. Jogo tudo no lixo. Não sobra UM versinho de Carlos Drummond para contar história. O detox vai ser intenso.

As primeiras semanas são cheias de altos e baixos. Alguns dias eu via que ele estava mais irritado, rasgava pôsters da Avril Lavigne na parede e se recusava a curtir as fotos de cachorros fofinhos que ele tanto amava. E nos dias que a tristeza tomava conta, o desanimado cupido botava seu fraldão branco e saía num voo baixo de quem não se sente motivado a atirar flechas de amor. Teve até uma vez que peguei ele trancado no banheiro chorando enquanto lia Nicholas Sparks.

Passada a habitual turbulência de quem está sendo reintegrado à sociedade, eu e ele conseguimos reconstruir a relação pouco a pouco. Começamos assistindo Sempre Ao Seu Lado. Depois passamos a pedir sushi em casa com os amigos e, com o bom comportamento, voltei a levá-lo às festinhas, onde, mesmo bêbado de Catuaba, ele não atirou no primeiro alvo que viu pela frente. Por fim, ele já estava de bem consigo mesmo, comigo, e, o mais importante, com a sua mira. Mas ainda me pergunto: como céus dão um cargo tão importante para alguém que trabalha de fralda?

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Ilustradora convidada:

Bruna Saddy

Bruna Saddy é ilustradora, designer e traça de livros. Especialmente envolvida com aqueles do universo infanto-juvenil, tendo publicado em livros e revistas de ficção e não-ficção de editoras como SOMOS, Biblioteca Nacional e Nova Palavra.

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