O dia em que acordei sem Serotonina


Ilustradora convidada: Janaína Portella

Um dia acordei sem serotonina. Procurei a danada em todo canto e nada dela aparecer. Cheguei até a botar anúncio no jornal, mas também foi em vão. Desconfiei que algum dos amigos com quem moro a tivesse pego de sacanagem e, depois de revirar a gaveta de todos e não encontrá-la, me veio o remorso por suspeitar de pessoas queridas. Remorso e falta de serotonina formam uma combinação tão divertida quanto igreja e estado.

Na farmácia, a balconista me disse que o estoque havia acabado – e denunciou baixinho que só iriam repor no Carnaval (No Rio de Janeiro, é quando a nova remessa chega). O problema era que eu tinha várias festas nos próximos dias e, para piorar, em absolutamente todas, era obrigatório levar a sua própria serotonina. Nessas horas ninguém chama a gente para uma remoção de siso ou funeral de tia avó.

Quando contei do desaparecimento na mesa de bar, o choque foi total. Ainda mais por ser verão. Para os cariocas, essa é a época mais rigorosa quanto ao dress code da serotonina. “Vamos lá andar na orla, vai te fazer bem”. A pessoa ignorava a sensação térmica de 52 graus e que tinha acabado de acontecer um arrastão a duas quadras dali. Ainda fico impressionado que, com um sorriso no rosto e uma altinha no fim de tarde, o carioca encara qualquer infecção por água contaminada no maior bom humor.

Porém, apesar dos convites para me jogar no caos urbano, decidi ficar em casa até que a bendita da serotonina voltasse. Em um mix de calabouço escuro personalizado e Sibéria artificial, fiz da assinatura da Netflix a minha nova melhor amiga. Nossa relação era apimentada por pipocas amanteigadas e os dias se embolavam como um rocambole mal feito.

Outro ótimo companheiro-paliativo foi o celular. Entre fotos da dieta detox de 3 dias da Juliana e vídeos de uma blogueira comentando os casos de machismo no Big Brother, criamos ali uma área de descanso para quando surgia a tarja do Netflix dizendo que eu deveria dar uma volta. Nunca confie em plataformas de streaming.

Tudo estava indo bem nesse mundinho escuro até que CLAP CLAP CLAP. Arrombaram a porta da minha masmorra. Ó não. Quem veio ali. O famigerado. O temido. O incomparável… Tarja Preta. Com seus braços fortes e animadores, ele desligou o ar condicionado, me carregou para fora daquela dimensão apática e, dando tapinhas nas minhas costas, me jogou de volta ao extasiante universo das pessoas funcionais.

Foram alguns dias até eu me readaptar ao mundo nada hostil que nos cerca. Mas, quando dei por mim, já estava de volta ao posto 9, ignorando completamente a sensação térmica de 52 graus e abraçado na minha serotonina como se nunca a tivesse perdido. Alguém quer vir comigo tirar o siso na sexta-feira?

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Ilustradora convidada:

Janaína Portella

Janaína PortellaFotógrafa que desenha, faz uns vídeos, tenta uns beats e blusinhas, mas queria mesmo ser DJ.

 


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