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This is Us – Dá para lacrar sem ser chato?

Sempre que assisto This is Us fico querendo casar e ter um de monte filhos. Sonho com um marido maravilhoso tipo Jack e crianças crescendo bem traumatizadas assim como eu, você e os big three. Sério, tem como não amar a série?! A quinta temporada acabou de estrear em novembro desse ano e fãs ansiosos para entender os detalhes e caminhos da família Pearson estão por todos os cantos. Tentarei aqui desvendar algumas das razões de nossa paixão e de todo o sucesso da série. Já aviso que são muitas. Seu criador, Dan Folgeman, acumula acertos. Definitivamente o brilho da produção NBC não é em vão.

Começo pelo ponto principal: é uma estória de família. Não é difícil nos conectarmos. O nosso subconsciente está repleto de referências. Lembro, inclusive, de algo que ouvi numa palestra na Escola de Cinema Darcy Ribeiro que remete a aclamação da série. A professora Mônica Solon desvendou um enigma importante. Ressaltou que todas as estórias são de família, mesmo as que não aparentam ser. E são assim porque, possivelmente, entendemos o outro a partir de nós. E ninguém é filho de chocadeira, né? No fim, somos uma história de família.

This is Us é um dramão cheio de romance e acontecimentos. Aborda a relação de pais e filhos em diversas gerações, como os traumas de uns interferem nos outros e como eventos adversos podem mudar o curso da vida. A série é quase uma terapia de família prontinha para gente mergulhar.

Além do tema central, outro grande acerto é a forma como essa estória é contada. Como a narrativa é estruturada e como ela avança. Partindo de This is Us, eu poderia dar um curso inteirinho de roteiro. Como não temos todo esse tempo aqui, apresento os pontos principais. Primeiro de tudo, se você deseja se tornar um roteirista de sucesso crie mistério. Crie desejo no espectador de descobrir o que vem depois. O deixe obcecado. A verdade é que somos todos fofoqueiros. E essa série mexe com nosso desespero de descobrir as nuances da vida alheia.

A terceira temporada, por exemplo, já anunciava acontecimentos que nem a quinta ainda conseguiu explicar direito. Segurar o espectador pela curiosidade, definitivamente, é o jogo do criador e de sua equipe de roteiro. Logo, foram bem inventivos em explorar uma estrutura inédita – uma linha do tempo que apresenta (até o momento) cinco gerações de país e filhos com conflitos sendo explorados e aprofundados simultaneamente entre passado, futuro e presente.

Se você deseja ser um roteirista de sucesso número dois, desenhe muito bem a estória dos personagens, o chamado arco dramático. Pense nas características de personalidade e o porquê cada um as tem. This is Us é basicamente isso. Os defeitos e as qualidades de cada são sempre explicados por alguma razão, seja por um trauma ou evento. Principalmente os ligados a infância e a família. É pura psicologia sistêmica.

Ainda sobre o roteiro, o episódio piloto é genial. A forma como ele apresenta pedacinhos da estória de Jack (Milo Ventimiglia) e Rebecca (Mandy Moore), Kevin (Justin Hartley), Kate (Chrissy Metz), Toby (Chris Sullivan), Randall (Sterling K. Brown), Beth (Susan Kelechi Watson) e o pai biológico de Randall (Sterling K. Brown) para ir costurando e apresentado o ouro no final surpreende. A cena de fechamento que mostra um policial fumando na maternidade nos leva diretamente para tempos estranhos. Deve ser mais ou menos o ano de 1980. Essa foi a forma dos autores nos contarem que estávamos vendo dois tempos distintos. E um deles era um passado não tão distante assim.

E os babies lindinhos ali no berçário no fim do piloto? E o drama dos personagens que você já entendeu um pouquinho porque o conflito central já foi anunciado? A linha do tempo do primeiro episódio explora o mesmo dia, só que em anos diferentes. O do passado é o aniversário de Jack e o dia do nascimento dos filhos, o segundo é exatamente 36 anos depois. Já estou começando a lacrimejar aqui lembrando das descobertas porque acabei de rever o trailer do primeiro episódio acima. Alguém consegue assistir essa série sem chorar? Me conta aí nos comentários.

Agora vou te levar para outro ponto que é certeiro em todo esse sucesso. É um imenso gatilho mental no nosso subconsciente. A verdade é que This is Us é um grande conto de fadas. Mostra homens de caráter e apaixonados por suas mulheres. O príncipe encantado, incontestavelmente, é Jack (Milo Ventimiglia). Mas Randall (Sterling K. Brown) e Toby (Chris Sullivan) também abraçam esse papel. Portanto, as princesas que cresceram assistindo contos de fada da Disney e todos aqueles que gostariam ter tido um pai como Jack, naturalmente, se prendem a série. E é nesse ponto onde fico meio puta com a produção.

Por que, assim, eu adoraria encontrar uns boys legais por aí. Mas só tenho me deparado com uns Kevins não tão gatos, nada famosos e bem piores da cabecinha. Ou ainda uns mais malucos e abusivos tipo o namorado estranho de Kate (Chrissy Metz) que aparece na quarta temporada. Será que tenho dedo podre? Ou os homens de This is Us são mesmo eventos raros?

Por conta dessa construção, acredito que parte do sucesso da série reside justamente nos personagens masculinos. A gente fica bem apaixonada por eles. É uma grande novelinha. Mulheres foda também é algo que estamos mais habituadas a ver. Basta olhar para o lado, para nossas mães e avós. Agora homens como os do seriado, meio difícil… O mundo anda carente de homens foda e, talvez, a produção supra um pouco dessa necessidade na gente. O problema é ser na base da ilusão.

Nesse ponto, gostaria de reclamar da pouca profundidade nos arcos das personagens femininas. Os conflitos delas vão muito mais na direção do drama e não necessariamente da evolução. Pelo menos até o momento. Ainda não sabemos o que acontecerá daqui para frente. Se pensarmos na jornada do herói, possivelmente só Kate (Chrissy Metz) possa ser inserida ali. E ainda precisamos de mais informações para ter certeza. Rebeca (Mandy Moore) é construída como uma princesa linda, perfeita, sem defeitos, nunca errou. O que acaba a deixando insossa. Beth (Susan Kelechi Watson), talvez, assuma mais o papel de girl power. Mesmo assim, acaba cedendo muito para Randall (Sterling K. Brown). O que me deixa bastante irritada. Tess (Eris Baker), uma das três filhas do casal, já começa a apresentar sinais de fogo no parquinho. Ansiosa para ver se as mulheres serão mais revolucionárias daqui para frente.

Ainda sobre o arco dramático dos personagens, preciso dizer que o que mais me identifico é o de Kevin (Justin Hartley). Pobre menino lindo e popular que não tem a atenção dos pais (principalmente da mãe, alou Freud!). Por isso, faz de tudo para aparecer. Kevin (Justin Hartley), apesar de deus grego, é humano. Demasiadamente humano. Sua imperfeição e luta para vencer vícios e comportamentos egóicos geram muita empatia. No fim, a gente se identifica com o que é quebrado. Se enxerga nele. Pelo menos, foi o que rolou comigo. This is Us economiza horas de terapia, vai por mim.

As três atrizes que interpretam Kate Person

Agora a cereja do bolo, deixei o aspecto que considero ser o maior sucesso para o final. Tentei segurar o anunciado no título. Não sei se sou tão boa como Dan Folgeman, mas tentei. O mais foda de This is Us, além de tudo já mencionado, é a forma como a série vai fundo em dramas sociais, em temas sensíveis e necessários na atualidade. Racismo, machismo, gordofobia, traumas de guerra, vício em drogas e álcool, depressão, distúrbios de imagem, a questão da adoção e uma infinidade de coisas a mais. Cada episódio vai explorando alguns desses temas. E tenho certeza que cada personagem foi desenhado para entrar fundo neles.

E apesar de militar muito, This is Us nunca é pedante. Eu a incluiria This is Us no hall das narrativas da nova era, aquelas que tem como intenção nos despertar para aspectos cagados do mundo. Pessoalmente, acredito que as artes não devem fugir dessa tarefa.

Para mim, a série lacra sem ser chata por uma razão principal (mais uma informação que incluiria no meu curso de roteiro): a narrativa não coloca ninguém como o mocinho ou vilão. Não há dicotomia entre bem e mal. Os problemas sociais são abordados de modo complexo e tratados como problemas estruturais. A quinta temporada, muito acertadamente, faz um crossover com os tempos atuais, entrando fundo na questão da pandemia do coronavírus, na morte de George Floyd e no movimento black lives matter.

Ansiosa que sou, já assisti os quatro episódios divulgados da quinta temporada. Como as gravações estão ocorrendo em época de pandemia, houve uma pausa nos lançamentos. O quinto episódio da quinta temporada só irá estrear em 06 de janeiro de 2021. Até lá vou ficar roendo unhas e na abstinência. Para quem não está atualizado, adianto que tem uns babados pesados. Um deles tem haver com Randall (Sterling K. Brown), mas não vou contar.

As quatro temporadas estão disponíveis no Amazon Prime e a última só no Fox Premium. Inclusive, notaram como eu tentei não dar nenhum spoiler aqui? Me agradeçam! Fiz isso com uma intenção: quero conquistar aliados para ter com quem tagarelar sobre a série. Por isso, tenho um pedido: envia esse texto para as amigues que ainda não entraram – mas que podem entrar – nesse vício com a gente. É sempre bom ter com quem compartilhar lágrimas de sofrimento ou de emoção.

E me conta, tem algo a mais que você considere como razão de todo esse sucesso?

Sim, isso se trata de um anime de romance

“Toradora!” é divertido, não posso negar. Lembro como se fosse ontem, estava entediado procurando algo para assistir na Netflix. Foi então que me deparei com algumas letras coloridas e estilizadas — e um ponto de exclamação, não posso deixar de mencionar. Obviamente, essa combinação só podia significar uma coisa: alguma cor em um dia cinza. Foi com muita surpresa que me vi, alguns dias depois, assistindo o último episódio do anime — esqueci de mencionar, se trata de um “desenhinho japonês”. Sei que tem alguém, em algum lugar, torcendo o nariz nesse exato momento. Mas a animação é realmente bem legal.

Toradora! no app da Netflix.
Vai dizer que esse título não chama atenção

Enquanto acompanhava a história de Ryuji, Taiga (a tigre de bolso) e seu grupo de amigos, não conseguia parar de pensar que daria uma ótima Visual Novel. Pelo visto, não fui o único, já que, em 2009, foi lançado um jogo para PSP (PlayStation Portable). Mas não devemos perder o foco, voltemos ao tema principal.

Tatsuyuki Nagai e Mari Okada conversam em uma entrevista.
Tatsuyuki Nagai e Mari Okada, respectivamente diretor e roteirista do anime

Originalmente, “Toradora!” foi uma light novel de 2006 — publicada recentemente no Brasil pela NewPOP — escrita pela Yuyuko Takemiya. Em 2007 a série literária ganhou um mangá e, em 2008, ganhou sua versão animada, dirigida por Tatsuyuki Nagai e escrita por Mari Okada.

Você deve estar se perguntando: mas o que torna “Toradora!” tão interessante? Sem dúvidas, os personagens cativantes que, pouco a pouco, vão revelando os seus dilemas e complicações para o público. São os seus constantes quereres e desquereres e vais e vens da trama que tornam essa comédia romântica tão agradável e interessante.

Taiga dá uma voadora em Ryuji.
Taiga, a Tigre de Bolso Vs. Ryuji, o Dragão

Enfim, se você está procurando algo leve e rápido para assistir: recomendo este anime. “Toradora!”, em seus 25 episódios, não nos conta uma história sobre uma paixão, mas sobre o amor — em suas mais variadas formas. Esse sentimento está presente tanto na relação entre Ryuji e Taiga quanto naquelas que os dois cultivam com seus amigos e familiares. Ao fim da série, tudo que resta é um sentimento reconfortante, algo necessário nesses loucos tempos em que vivemos.

O que defendem os 7 de Chicago?

O recente lançamento da Netflix, “Os 7 de Chicago”, conta a história de um julgamento ocorrido em 1968 após uma grande manifestação na cidade de Chicago que se opunha à Guerra do Vietnã. De perseguição política à violência policial e abuso de autoridade, a obra levanta diferentes debates acerca do sistema judiciário. Além disso, busca também discutir organização coletiva com personagens cativantes e seus diferentes pontos de vista sobre a condução da luta que os move.

O filme se passa quase inteiro dentro de um tribunal — com muitos momentos de flashback que ilustram as histórias contadas na Corte. As personagens que representam as figuras do judiciário são: William Kunstler (Mark Rylance) e Leonard Weinglass (Ben Shenkman) — advogados de defesa —, Richard Schultz (Joseph Gordon-Levitt) — promotor do Estado — e o Juiz Hoffmann (Frank Langella). Ambos os lados do caso têm advogados profundamente determinados e debruçados em suas causas. Ao mesmo tempo que Kunstler e Weinglass se mostram completamente comprometidos com aquilo que acreditam e claramente motivados por um ideal, Richard Schultz não só é um profissional competente, mas também um homem legalista e pragmático. Quanto ao Juiz, não se pode dizer o mesmo.

O embate filosófico entre Abbie e Tom começa logo no início e se perpetua até uma das últimas cenas, ilustrando de maneira muito envolvente um dos maiores problemas que a esquerda organizada sempre enfrentou: as divergências políticas.

A história já começa evidenciando que a perseguição desse caso é antes uma jogada política do que de fato uma condenação justa e cabível ao Estado. O próprio promotor Schultz, quando é indicado para assumir o caso, explica que sob o ponto de vista legal seria praticamente impossível condenar os réus pelas acusações de formação de quadrilha interestadual que o Estado buscava lhes imputar. Porém, devido a uma disputa política interna, o novo departamento da Justiça insiste em perseguir a denúncia. Os réus parecem ter sido escolhidos a dedo em uma tentativa de condenar os líderes de diversos movimentos sociais que se formavam naquele momento. Toda a premissa do filme já é uma crítica direta ao sistema judiciário ou pelo menos à forma como ele opera.

Com o surgimento e desenvolvimento da personagem do Juiz Hoffmann, essa crítica fica ainda mais explícita. Ao longo do julgamento, diversos escândalos são cometidos por parte do juiz conservador, que se mostra determinado a impedir qualquer chance que os réus possam ter para se defender. Desde ajudar a promotoria a remover algumas pessoas simpáticas aos acusados do júri, a impedir o mesmo de ouvir o depoimento de uma testemunha crucial para o caso por não o considerar relevante. Dessa forma, o filme demonstra como é fácil promover uma condenação política dentro de um sistema que se baseia na manutenção dos poderes vigentes e privilégios de classe.

O debate se aprofunda quando toca no racismo que permeia a Justiça americana — e de todo país que passou por um processo de colonização, diga-se de passagem. Logo no início do julgamento, Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), um dos líderes dos Panteras Negras, denuncia que sua inclusão naquele banco de réus foi feita com o único propósito de fazer com que os acusados parecessem mais amedrontadores. Bobby nem sequer participou dos protestos. Durante todo o processo, Bobby teve seu direito a representação jurídica negado. E quando o presidente nacional dos Panteras Negras é assassinado, durante o período do julgamento, ele protesta na Corte e é amordaçado por ordem do juiz. Um homem negro tratado como um animal em um tribunal supostamente democrático.

Bobby Seale levanta questionamentos muito importantes no filme. Não apenas por sua acusação injusta, mas pela motivação de sua luta. Durante o julgamento, faz questão de se diferenciar dos outros réus. Ele não aceita ser representado por Kunstler, não por arrogância ou desdém, mas sim por entender suas motivações como completamente dissociadas daquelas do resto dos acusados. Os direitos pelo qual ele lutava, eram direitos que seus colegas brancos de esquerda já desfrutavam há gerações.

O que leva a uma das principais discussões na obra: as divergências e convergências de pensamento dentro da esquerda organizada. Dentre os principais acusados estão as personagens de Abbie Hoffmann (Sacha Baron Cohen) e Tom Hayden (Eddie Redmayne). Tom é um típico liberal de esquerda que acredita fielmente na possibilidade de transformação através das instituições democráticas. É o único réu que demonstra algum tipo de respeito pelo tribunal, pela autoridade do juiz e pelo processo legal. Enquanto isso, Abbie é um revolucionário da contracultura que não abandona nem por um segundo a importância do pensamento radical e insurgente. Certamente é a personagem com discurso mais imagético e bem construído, sempre com bastante dramaticidade. Quando é posto no palanque para depor, ele cita falas de figuras tradicionais como Abraham Lincoln e Jesus Cristo para corroborar suas ideias.

O embate filosófico entre Abbie e Tom começa logo no início e se perpetua até uma das últimas cenas, ilustrando de maneira muito envolvente um dos maiores problemas que a esquerda organizada sempre enfrentou: as divergências políticas. É claro que para a direita é muito mais fácil: se junta quem é a favor do extermínio. Do lado de cá, cada um tem uma solução e prioridades diferentes para os problemas da sociedade. Estamos todos indignados, rejeitamos todas as formas de exploração humana, mas pensamos de maneiras muito distintas a respeito da superação dessas questões.

Abbie e Tom protagonizam um debate delicado, mas também central para entendermos a luta pelas transformações das estruturas de poder. Tom defende a não-violência que acredita que será ferramenta de destruição da direita nas urnas. Ao mesmo tempo, Abbie argumenta que todas as outras coisas que faltam — fim da guerra, direitos civis, acesso à saúde, educação, segurança, moradia — são prioridade maior do que a eleição de um candidato de esquerda para presidência, e que na luta por essas conquistas, nem sempre é possível se manter pacífico. Um radicaliza o discurso na tentativa de botar em questão cada estrutura desigual de poder vigente na sociedade, enquanto o outro entende que essas estruturas só poderão ser transformadas pela via institucional. Talvez a lição que se deve tirar é que para se fazer política efetiva de mudança é necessário ter os dois.

Infelizmente, a pior parte do filme, para mim, mora na convergência. Há um discurso que se repete durante todo o filme, tanto por parte da direita quanto da própria esquerda, historicamente hegemônico e amplamente reproduzido nos EUA: o do heroísmo de seus soldados. É lógico que a direita se orgulha muito mais dos seus crimes de guerra do que a esquerda, mas o tempo todo o argumento antiguerra da esquerda transborda para o patriotismo. Não se questiona a motivação do governo estadunidense para iniciar e prosseguir essa guerra. Nem sequer se cita o genocídio do povo vietnamita. Seja pela direita ou pela esquerda, o discurso recai sobre americanos que estão sendo mandados para morrer no Vietnã.

A primeira cena do filme mostra de maneira crítica um pronunciamento de Richard Nixon falando sobre o aumento no recrutamento de soldados para sustentar sua guerra. Em uma sequência de imagens, ouvimos diferentes narrações de rádio anunciando o mesmo, cada vez com números maiores. Durante o desenrolar da narrativa, os acusados repetem em diferentes formas de discurso, críticas à tragédia que é terem seus irmãos americanos sendo recrutados para morrer numa guerra impopular.

Além do etnocentrismo que implica esse ponto de vista, o fato de nenhuma das personagens discutir as razões políticas do conflito armado ao qual se manifestavam contra, num contexto global de Guerra Fria, me soa como um certo apagamento histórico. Como se não fosse interessante abordar narrativas de pessoas que efetivamente travaram uma luta contra a Guerra do Vietnã através de um discurso verdadeiramente anticapitalista.

Na última cena, quando os sete são condenados e têm direito a suas considerações finais, Tom lê um documento contendo o nome dos mais de cinco mil soldados americanos mortos em combate desde que o julgamento havia se iniciado. Em respeito, o promotor Schultz se levanta. O que talvez possa indicar que ele pareça um ser humano mais íntegro. Para mim, só mostra que o discurso dos condenados pode ser um pouco mais parecido com o de seus inimigos do que se poderia antecipar.

A Forma da Água

Eu vou lhe contar uma história, uma história para adultos. Essa história aconteceu em uma grande cidade, dessas cidades grandes que flertam com o mar, onde a costa beija o oceano e todas as pessoas estão habituadas a bater areia dos sapatos e viver com poucas roupas sobre o corpo. Nesta cidade, vivia uma solitária mulher, que passou seus trinta e cinco anos vivendo perto das águas, apaixonada — desde a infância — pelas ondas arrebentando contra suas pernas nuas, lambendo seus cabelos, enchendo seus sonhos de areia. Enquanto parecia não levar jeito com as pessoas, como se fosse destinada a viver sendo enganada, magoada, usada, fodida mesmo, era o mar o único perigo que ela era capaz de amar. Todos os homens com quem se envolvia eram brutos e rudes, a faziam sentir como uma aberração e era incapazes de se igualar ao prazer que tinha quando estava na praia. Aos poucos, percebeu que não precisava de mais ninguém, desde que pudesse — antes dos expedientes do terrível trabalho — mergulhar seu corpo na água salgada, sentir o vento forte bater contra seu rosto, perceber a insignificância de toda dor daquela humanidade que sofria e fazia sofrer tanto.

Porém, o terrível se aproximou. Chegou o fatídico ano em que ela e todes os outres moradores da cidade foram obrigades a se trancar em seus apartamentos. Uma peste horrível tomou o mundo todo, fazendo com que as pessoas daquela enorme cidade, todas as pessoas apaixonadas pelo mar, fossem obrigadas a quase esquecer sobre tudo que existia do lado de fora de suas tristes casas. Assistindo ao mundo apenas por seus celulares e suas televisões. Apenas mediado através do olhar de outras pessoas. Crianças nasceram e cresceram sem nem saber o que era uma brisa, o céu aberto, um dia de sol, um rio ou um oceano. Uma enorme nuvem cinza cresceu acima dos prédios e das casas, como que para coroar a infelicidade daquele povo. E desde que a nuvem se formou, ela não mais saía. Os prédios começaram a desbotar. Flores não brotavam mais, nem nos vasos mais bem cuidados e fertilizados. Essa enorme sombra tomava tudo e novos sintomas da tristeza apareciam nas pessoas. E essa mulher, nossa solitária protagonista, a mulher que sabia nadar em fortes correntezas, se acalmar enquanto afundava os pés na areia, agora, estava privada da praia e da pouca chance que tinha de ficar de forma confortável perto de outres. E por maldição ou desuso, começou a perder, dia após dia, sua voz. Não podia nem cantarolar ou sussurrar nada. A sua voz, assim como o sol, se perdeu ou se escondeu, afugentando-se de toda aquela desgraça.

Nos primeiros meses, ela sonhava com as ondas todos os dias. Pensava que, por pior que fosse a praga, não deveria perdurar por muito tempo, pois o que as pessoas tinham de maldade, elas também tinham de inteligência e alguém iria rapidamente curar aquele mal terrível e libertar todos pra vida novamente. Mas mais meses se passaram e ninguém descobria nada sobre a peste. Os cemitérios ficavam lotados e o governo mais caótico e sem respostas. O seu trabalho, por um tempo suspenso, retornou podendo ser realizado duas vezes por mês, desde que vestisse enormes macacões que cobriam todo seu corpo e sua cara. Um pequeno ônibus buscava ela e outres empregades da empresa, e no caminho ela via um pedacinho da praia aparecer no horizonte. E só. Aquilo de início parecia bastar, mas depois se tornava apenas uma tortura. Não podia nem mesmo sentir a brisa através da máscara e do macacão. Passou a retornar pra casa cada vez mais exauta e deprimida. Sua pele desenvolveu pequenas alergias, como brotoejas, por falta de sol, por falta de areia, da água salgada, ou falta de alegria. As roupas novas e a quantidade de álcool gel só faziam piorar. Mais meses se passaram, a alergia deixou feridas e as feridas deixaram manchas irreversíveis. “Eu estou ficando doente, de qualquer jeito” ela pensava.

Um novo ano começou, a peste permanecia vigorosa e o governo tomava medidas mais e mais contraditórias. Permitia que pessoas, como ela, se expusessem cinco dias da semana nos seus empregos medíocres, afrouxava controle das máscaras e dos meios de transporte, mas lhes proibia em qualquer circunstância ir à praia. A rotina no trabalho voltou a ser mais frequente, o ônibus fretado cada vez mais lotado, e o mar cada vez mais distante. Tão distante que não conseguia nem mais sonhar com ele. E sua mudez era tanta, que tampouco conversar sobre ele com as outras pessoas ela conseguia. Até chegou a se perguntar se não estava se tornando também invisível, pois ninguém lhe dirigia nem mais cumprimentos ou olhares sequer. Vez ou outra, conversavam diante dela como se ela não estivesse lá. Sobre maridos bêbados, filhos desempregados, novelas novas gravadas à distância, transas fora do casamento. E assim, no meio do burburinho ocasional das vidas patéticas, ela ouviu alguém falar sobre uma ida clandestina à praia. Alguém que tinha saído com a amiga bem de madrugadinha, antes do sol nascer e conseguido dar um mergulho e ficar um bom tempo na areia antes das rondas militares se intensificarem. Ela não pôde acreditar, seu estômago se revirava, seu coração acelerou, era como ouvir detalhes sórdidos de uma transa deliciosa. Pôde, pela primeira vez em meses, vislumbrar o mar.

Naquele dia mesmo, ela voltou pra casa e se preparou para sair na madrugada, clandestina, excitada com a possibilidade de pôr os pés na água depois de tanto tempo. Mas o destino, ou o acaso, nos prega peças inimagináveis. E tinha preparado uma surpresa especial para ela naquela madrugada sombria.

Primeiro, se surpreendeu ao se enfiar no seu antigo e preferido maiô. Maiô que tinha ficado mais apertado, mostrando que seu corpo não era mais o mesmo desde o início daquela epidemia. Além de que, agora seminua diante do espelho, se deparava com sua pele repleta de feridas e manchas. Mas aquilo não a impediria. Seu compromisso com o mar era maior. Não seria o maiô ou sua pele que a fariam desistir. Penteou os cabelos num lindo e longo penteado, pintou as unhas, se preparou como quem se prepara para um primeiro e muito desejado encontro. Sentia-se úmida só de pensar no barulho das ondas arrebentando na areia. Saiu pelos fundos do prédio, mascarada e silenciosa. Caminhou apressada e determinada pelo escuro. Uma neblina tomava as ruas, os postes do seu bairro não davam conta de iluminar tudo, facilitando com que nossa ingênua protagonista avançasse corajosamente noite adentro sem ser vista. Uma noite propícia pro seu caso secreto, pra sua escapada. Cruzou com poucos carros de polícia, outros do exército, que pareciam muito mais preocupados em importunar moradores de rua e estabelecimentos comerciais do que em percebê-la. “Talvez não fosse invisível, mas apenas insignificante”, pensou. E isso, ali, lhe era uma vantagem.

O medo real só bateu quando chegou diante da enorme costa. Percebeu os prédios sumirem atrás de sua cabeça e o oceano negro e onipotente tomar o horizonte. O luar aparecia refletindo nas águas escuras, talvez o único lugar em que a nuvem dava trégua e a lua podia dar as caras. Mas não deixava de ser o lugar perfeito para que alguém a agredisse sem nunca ser pego. A adrenalina era grande, mas o espanto diante daquela visão deslumbrante era maior. Viu um pequeno posto de guarda há alguns metros de distância, com barulho de música e silhuetas femininas dançando seminuas. Sentiu-se mais segura enquanto caminhava para o extremo mais afastado e escuro da praia. Tirou ansiosa o sobretudo, deixando a luz do luar tocar sua pele machucada. Correu para beira da água. Seus pés sendo beijados pela espuma. Calafrios subindo sua coluna. A água batia nos joelhos, um sorriso largo tomava seu rosto, uma alegria imbatível sacudia sua alma — então o viu. O susto rompeu aquela pequena vitória. Percebeu o corpo caído na beira, agarrado a uma pedra. Poderia ter ido embora, se afastado de pavor. Mas algo lhe dizia que não podia ser o tipo de pessoa que larga alguém daquela forma. Se aproximou, pensando que poderia se tratar de uma pessoa ferida ou afogada. Alguém que precisasse do seu socorro. E ser necessária lhe atraía. No entanto, de perto, o horror crescia ao perceber que não era bem humano. Era como um enorme monstro, uma espécie de peixe-humanoide. A pele escamosa, as mãos pegajosas, as guelras, os olhos redondos e escuros. A lua iluminava sua estranha pele, parecia ferido, gotejando um sangue espesso. Ali, próxima dele, apesar do seu porte enorme, parecia indefeso, machucado. O medo deu lugar à uma estranha piedade. Tentou erguê-lo para arrastá-lo de volta pra dentro da água, mas ao tocar sua pele fria, ele se mexeu, agarrando-se a ela. Os braços gélidos pareciam grudar em sua pele. Ele a olhou, os estranhos olhos doces e apavorados. Precisava de ajuda. Ela o arrastou mais pra perto da parte rasa, onde os dois corpos podiam ser banhados na água até a cintura. Ele se virou, revelando o tronco quase humano e o enorme falo, esguio, ereto. Não exatamente um pau, mas semelhante. Ela se assustou, o soltando na água. Tentou se afastar, porém o ser se ergueu de pé diante dela e tocou delicado com as mãos aquosas no seu braço, passando os assombrosos e longos dedos por suas feridas. Ela ficou paralisada, nem conseguia dar ao mar muita atenção. Chorou copiosamente ao perceber que os dedos dele, tocando uma a uma suas feridas, as faziam desaparecer delicadamente. Sem nenhum ruído, ou dor. Apenas uma leve cócegas. Seu braço cada vez mais liso, sua pele mais macia. Teve o impulso então de abraçá-lo, agarrando o corpo dele entre seus braços como agradecimento. Seu rosto pousou sobre seu peito ferido, ouvindo bater forte o coração do monstro. Ele a envolveu também. Ela sentia todas as feridas cicatrizando, toda sua pele tornando a ficar lisa e macia no contato com a pele dele. No entanto, bruscamente, o coração dele enfraqueceu e seu corpo pendeu pra trás. “Toda cura tem um custo” ela pensou. Curá-la estava o matando. Aquele ato de bondade a encantou. Como podia um ser grotesco como ele decidir ajudar uma mulher desconhecida como ela? Sentiu que precisava retribuir a ajuda. Deixá-lo ali era perigoso demais, afinal o dia já ia raiar e os homens o encontrariam. E vai saber o que esses homens do governo fariam com uma figura como ele, poderiam matá-lo ou prendê-lo num zoológico, torturá-lo. Ela bem sabia o que se fazia com ditas “aberrações”. O sofrimento que ele poderia passar a dava nos nervos. Precisava tirá-lo de lá até que ele estivesse forte e curado. Até que pudesse nadar embora pra longe daquele mundo cruel e tosco, que não merecia tão mágico curandeiro. Salvá-lo era sua sina, ela podia sentir.

O retirou da água e o envolveu no sobretudo. Percebeu que ele retomava aos poucos o ânimo. Apoiou seu corpo sobre os seus ombros e começou a caminhar para fora da praia, arrastando-o, apoiado sobre ela. Ele cambaleava, quase inconsciente, confiando cegamente no rumo em que aquela forte mulher o levava. Atravessaram como um casal de bêbados pela noite escura, até chegar nos fundos do apartamento. Entrando no elevador, ele entrou em desespero. Começou a se sacudir e debater, respingando nas paredes, no chão e no espelho. Emitia um estranho gemido, apavorado. Ela tentou acalmá-lo, acariciando seu rosto, segurando firme em sua mão, tentando fazê-lo entender que deveria ficar quieto, que estavam quase chegando. De algum modo a ternura dela o acalmou e ela seguiu carregando-o até seu apartamento.

Sem acreditar no inesperado sucesso daquele salvamento esdrúxulo, encheu sua velha banheira de água e virou todo o sal que tinha lá dentro. Ele rapidamente se livrou do sobretudo entrando na água e ficando submerso. Imóvel. Os olhos cerrados. As guelras abrindo e fechando. Ela aproveitou para limpar a bagunça no elevador e nos corredores, com medo de que alguém tivesse percebido, que alguém a denunciasse. Quando finalmente terminou, a mulher retornou ao banheiro em que repousava a criatura.

Ao abrir a porta, um cheiro forte de mar impregnou suas narinas. O chão parecia repleto de areia molhada e a água salgada da banheira transbordava pra fora, volumosa. O ser ficou de pé, agora embaixo da iluminação amarelada do banheiro, eles podiam se ver melhor. A pele dele, em parte lisa, outras escamosa, reluzia um tom azul esverdeado, vibrante. As longas pernas de pé, com forma feito caudas. O estranho sexo, grande e longo, agora mole, mas ainda exposto. Os olhos dele brilharam diante dela. Hipnotizantes. “Você é lindo”, ela queria lhe dizer. Podia sentir a doçura em seu olhar. As águas da banheira se agitaram, em pequenas ondas. Como se ele entendesse. Palavras não lhe eram necessárias. Ele abriu uma das mãos, ou seriam patas, revelando uma enorme pérola negra. Ela se aproximou devagar e ele entregou a pérola em suas mãos. Como um precioso presente. Ela tremia, fitou a pérola, encantada, mas sem saber muito que uso dar a ela. O ser sorriu, gentil. Ela então percebeu os arranhões em seu corpo, pequenos pedaços de plástico presos a sua pele. Começou a tirar um por um, com carinho. Tirando os plásticos, os dois enamorados de tanta ternura, sentia as águas se agitando. Estar com ele era como estar com o próprio mar encarnado, sua praia. Tudo que ela viveu parecia ter a preparado para aquele momento. Era preciso não temer, ter coragem pra seguir a correnteza. Ela entrou na banheira.

Com os pés na água, ao lado dele, inesperadamente, ele tocou com os longos dedos a alça do seu maiô, retirando-a. O peito dela exposto, sua barriga, até cair totalmente e expor sua buceta. Uma onda da banheira bateu contra ela, sua pele arrepiou, seus pelos arrepiaram. Ainda agarrava a pérola negra firme em sua mão. Algo novo relampejava em seu peito, um sentimento tão salgado e carinhoso, que ela nunca teve oportunidade de experimentar. Um tipo de presença que não tinha nem antes, quando todos se viam o tempo todo, com nenhum homem com quem se deitou, com nenhuma alma no mundo. Sua buceta latejava. Seu mamilo ficou duro. Um dos braços dele se enroscou em sua perna. Ela iria ser amada. Provar do amor assim, em uma circunstância tão estranha e absurda. Mas era melhor do que nunca prová-lo. Abriu as pernas, ainda em pé e deixou o dedo longo, gelado e aquoso tocá-la. Era diferente de qualquer toque que seu clitóris já tivesse recebido. Era pegajoso e firme. Ora fazia pequenas sucções, ora sacudia-se em ritmo acelerado. Como mão e língua ao mesmo tempo. Alternando-se. As pernas dela foram ficando moles. Sentou na banheira. Sua bunda tocando o fundo arenoso, a buceta agora submersa. Os dedos dele, embaixo da água, eram ainda mais ágeis e ardilosos. Percebeu que ao masturbá-la, ele ia ficando duro, ereto. O membro esguio e firme aparecendo. Ele estava gostando, aquilo o excitava. Vê-lo se excitar, a excitava mais ainda. As pernas agora totalmente abertas, o corpo apoiado na borda da banheira. Sentindo ondas batendo suaves contra seu peito. Então a água começou a esquentar, assim como ele. Seu toque de gélido, foi ficando cada vez mais quente. Com uma das mãos ele a tocava, com a outra, começou a penetrá-la, fazendo novos movimentos dentro dela. Um gosto de mar veio em sua boca. Ela arfava e arfava de prazer, se contorcendo. As paredes do banheiro pareciam suar com eles. A atmosfera úmida os envolvia. Ela quis beijá-lo, aproximando seu rosto do dele. Ele então tocou seus estranhos lábios em sua boca, colando um corpo no outro e a puxou pra baixo da água. Ela, de início debateu-se. Depois se acalmou e percebeu que conseguia aguentar mais do que imaginava submersa. Se fechasse os olhos, era como se o oceano a acolhesse. Um oceano sereno e quente. Ele encaixou-se nela e meteu o longo falo em sua buceta. Primeiro a cabeça, depois o corpo esguio do membro. Quando entrou completamente, toda pele dele reluziu. Um brilho forte irradiava de suas escamas, de seus olhos. Começou a meter, entrando e saindo, entrando e saindo, de dentro dela embaixo da água. Mais e mais radiante a cada metida. Então, empolgado, começou a meter mais rápido e o falo, dentro dela, girava e vibrava em igual empolgação. Suas pernas principiaram a tremer, depois sua barriga, seus braços, todo seu corpo. O prazer era quase sufocante. Precisava de ar. Esticou o rosto para fora a água, ao abrir a boca, quase em desespero, percebeu ele tomar a pérola de sua mão e colocar em sua língua. Ela sentiu a pérola negra, fria e aveludada em sua boca. Chupou a pérola, enquanto retomava o ar e acalmava sua respiração. Teve a sensação de que ia desfazendo em sua língua. Um gosto doce e espesso. Ele cruzou suas caudas com as pernas dela, quase sentando-a em seu colo, os dois de frente um para o outro. Com a pérola em sua boca, sentiu ele voltando a penetrá-la. Agora fitando fundo em seus olhos. Ela rebolava, sentando nele. A pérola quase não mais existia. Ele envolveu o corpo da mulher em seus longos braços, escamas contra pele. Meteu mais forte e firme, vibrando sem parar. Ele fechou os olhos, um gemido baixo e pesado saiu de sua boca entreaberta. Ela pode ver fileiras de pequenos e finos dentes. A água se agitou novamente, o chão do banheiro todo molhado. A pérola dissolveu, escorrendo por sua garganta. Ondas mais fortes batendo contra suas costas. O barulho do próprio mar tomando o banheiro. O orgasmo vindo para os dois. A pele dela começou a brilhar também. Sentia como cócegas em seus interiores. O membro pareceu crescer ainda mais, metendo mais fundo dentro dela. Ela gemeu. Sua voz ecoou no banheiro, como que ecoando em uma gruta. O orgasmo a tomou e arrancou de volta sua voz.

Lágrimas escorriam dos seus olhos. Ela o agradecia e o agradecia, sem ao menos saber se ele podia entender. Beijava e beijava o pescoço, o tronco dele, suas feridas. Se pudesse, lhe curaria também. Mas podia amá-lo, como quer que fosse. Tudo serenou outra vez. O cheiro de mar foi se dissipando. Ficando apenas areia e poças por todo cômodo. O falo foi se encolhendo até sair de dentro dela. Ele se aquietou, afundando novamente. A água ficou morna e depois fria. Quando ela percebeu, seus dedos estavam enrugados, sua boca roxa. Levantou-se e se envolveu em sua toalha. A mulher olhou-se no espelho. Os cabelos molhados e emaranhados, cheios de areia, a pele radiante, o enorme e incontrolável sorriso. Nunca se sentiu tão bonita. Seu coração estava quente. Se a vida é apenas o afogamento de nossos planos, em algum momento precisamos aprender a aproveitar o mergulho. Estranhas e extraordinárias coisas acontecem nos períodos mais mórbidos e violentos. Às vezes, há o amor. Uma pequena flor irá nascer, depois de um longo ano, no jardim de alguém A esperança pode começar assim.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

👉  Conheça o trabalho da Carol no instagram.

E quando não tem vida, a arte imita o quê?

Os mais desavisados podem até ter a impressão de que o caos que se alastrou pelo mundo nos últimos meses foi bom para quem trabalha com a escrita. “Menos paz na alma, mais inspiração”. Se esquecendo de que não vivem na época de Lord Byron, mas, sim, de La La Land.

A ideia de que os autores agora vão ficar mais tempo em casa também tende ao pensamento de que o apocalipse que vivemos é positivo para os criativos por aí. Mas, infelizmente, em terra de olho, quem tem cego. Errei.

Eu até acreditava no caos como uma ótima força motriz da criatividade, inclusive porque muitos dos meus textos foram catalisados por ele. Só que isso era antigamente: quando o caos era estímulo, não pavor. Inspiração momentânea, não status quo. Hoje esse desalinho é o próprio sistema, ou, como dizem os internautas, o “novo normal”.

Principalmente porque agora ninguém mais tem vida, apenas “lives”. Então, com caos, sem vida; e, sem vida, sem assunto. Aliás, na verdade, assunto é o que mais tem. As notícias não param de chegar. E olha que tinha muita gente dizendo que a coisa estava difícil era para os jornalistas.

Porém, se esquecem de que eles trabalham com fatos – e se tem uma coisa que está acontecendo esse ano são os fatos, fazem parte do caos (agora nomeado “dia a dia”). A cada 20 minutos tem alguma novidade, mais escandalizante que a de 20 minutos atrás. São várias jóias brutas só esperando para serem lapidadas pelas redações de todo globo.

Eu até podia tentar falar de algo político também. Por exemplo, a Flordelis, o caso dela mexe comigo. Falso moralismo é um assunto legal de falar. Mas também… Vamos ser sinceros… Já está todo mundo fazendo isso.

O Instagram, aplicativo onde os escritores têm passado 90% do tempo (assim como o resto da população), está cheio de debates sobre a deputada-pastora. Não tem muito como inovar. E tampouco acho que o mundo precisa de mais um comentarista online.

E até por isso acho que eu deveria ter sido contador, não contador de histórias. Contador de contabilidade mesmo. Porque, se parar para pensar, os contadores são os mais necessários hoje, o PIB caiu 10%. Está todo mundo desesperado.

E, como eu disse lá em cima, o desespero (filho primogênito do caos) também não é um cenário ideal para criar. Até pode ser para uns autores que gostam de sofrer, mas, com o já deu para perceber, eu sou mais do caô que do caos. Escrever em Pasárgada é melhor que no Palácio da Guanabara.

E, se você não entendeu essa última piada, sinto em lhe informar que você está perdendo a segunda melhor confusão-da-política-atual (depois da Flordelis-gate). Há duas semanas o governador do Rio foi afastado por corrupção. E seu vice iria substituí-lo. Mas o vice também foi afastado (pelo mesmo motivo). Então o presidente da Alerj iria assumir o governo do estado. Mas… Adivinhe… Ele também foi afastado. E pasme: pelo mesmo motivo. Aí eu te pergunto: tem como ser mais criativo que isso? House Of Cards até tentou, mas, assim como os governadores do Rio, também foi afastada. Vou ter que voltar para as lives.

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Ilustradora convidada:

Luiza Montezuma

Cresceu desenhando e cresce ao desenhar. Estuda Relações Internacionais e a tensão do estudo da política é aliviada pela catarse das matizes e dos pincéis. Sempre criando sem buscar a perfeição, apenas com o intuito de ser curada!

👉  Conheça o trabalho da Luiza no instagram.

Beatles a Granel

Gosto dos Beatles (de Rolling Stones, nem tanto) e também gosto de passar um tempo assistindo e ouvido covers, versões e releituras de músicas no YouTube. Então, o que se seguirá são algumas coisas que encontrei em minhas andanças virtuais. No entanto, os vídeos aqui listados contêm um tempero especial, já que eles vão além da estética de uma pessoa, um violão e uma parede bonita e enfeitada atrás (uma escolha que não é pior nem melhor, apenas diferente). Todos podem ser encarados como clipes de “verdade”… muitos são caseiros ou sem tanta produção, mas ainda assim, clipes. Vamos lá, então.

Ob-La-Di, Ob-La-Da por Gabriela Bee

Quem diria, alguém conseguiria tornar chatérrima, mas grudenta Ob-La-Di, Ob-La-Da — uma atrocidade cometida por McCartney — em algo suportável. Nada sei do canal de Gabriela Bee, a responsável por esse divertido vídeo. Porém ela merece algum mérito por fazer algo tão legal com uma música tão insuportavelmente chata.

In My Life por MonaLisa Twins

Esse cover é antigo, assim como o canal MonaLisa Twins de —adivinhem — Mona e Lisa. O canal atualmente tem uma produção muito maior e melhor, mas nada que supere a simplicidade e sinceridade desse vídeo. Na mescla de imagens das andanças das duas por Liverpool com fotos antigas dos Fab Four, o clipe consegue exprimir o sentimento de nostalgia tão presente na letra da música original.

While My Guitar Gently Weeps por House of Hamill

Sei que versões de músicas famosas no violino são um pouco batidas, e justamente por isso não podia deixar de colocar uma nesta lista. A música é “While My Guitar Gently Weeps” composta por George e é interpretado pelo duo House of Hamill, formado por Rose Baldino e Brian Buchanan. Já o clipe é de 2019 e foi filmado em uma escola abandonada da Filadélfia, cenário que traz certa beleza e estranheza ao vídeo.

Help! por Bloco do Sargento Pimenta

É claro que não poderia deixar de mencionar uma versão brasileira. Neste clipe vemos o Sargento Pimenta, um bem conhecido Bloco aqui do Rio, fazendo uma versão de carnaval de “Help!”. O vídeo foi postado em 3 de julho, quando o isolamento social e seus efeitos no psicológico estavam a todo vapor. Há nele uma mistura de trechos gravados pelos músicos em suas respectivas casas (uma solução bem comum na época) com imagens de shows ao vivo do grupo. Sem dúvidas, o nome da música, “Help!”, parecia (e ainda parece) refletir bem a sensação que muitos de nós sentíamos naquele momento.

Girl por soYmartino

Eu não poderia deixar de enfiar a música “Girl” nessa lista, já que é uma de minhas músicas favoritas, não falo só dos Beatles. Essa versão instrumental de Soy Martino, apesar de não contar com a letra composta por Lennon, mantêm muito da beleza instrumental da música original. Neste clipe em específico, as imagens parecem trazer um novo sentido para a música. Criando uma atmosfera menos melancólica, mais leve e good vibe.

Não sei se o Ringo curtiu muito a lista…

Esses são apenas alguns vídeos que encontrei, há ainda todo um mundo de covers das canções dos Beatles. Talvez eles não sejam obras-primas do audiovisual, mas não podemos negar que são criativos, interessantes ou, ao menos, divertidos de se assistir. Então, é isso. Não sei bem o que me motivou escrever esse texto, talvez seja porque “I woke up this morning singing an old, old Beatles song”.

O Mar Mais Silencioso Daquele Verão

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Na obra de Takeshi Kitano, seja nos seus filmes de Yakuza seja em suas comédias e dramas, parece haver algo que não é dito, mas intuído. Seus protagonistas têm uma vida interior muito intensa, mas que apenas pode ser deduzida por suas ações, gestos e expressões. Sorrisos, lágrimas e arquear de sobrancelhas raramente aparecem, mas quando dão as caras parecem romper a impassibilidade desses personagens sempre fechados em si mesmos. Aparentemente eles não conseguem externar pela fala algo de muito profundo, belo, angustiante ou desesperador.

“O Mar Mais Silencioso Daquele Verão” (1991) é um exemplo perfeito disso. Os pensamentos e anseios de Shigeru (Claude Maki), o personagem principal, e sua namorada Takako (Hiroko Oshima), são quase que inacessíveis para nós, já que além de surdos, não ouvimos as suas vozes durante todo o filme — em determinado momento ela chega a falar com uma atendente de uma loja, mas pela forma como a cena é filmada, não conseguimos escutá-la. Tudo que sabemos de seus mundos interiores nos é dado pelas suas reações e interações com o externo.

cada plano — tanto nos mais longos e distanciados, quanto nos mais fechados e curtos — é dotado de um significado aparentemente muito claro, mas que de que certo modo preserva mistério próprio, algo que se conecta da alguma forma com um ciclo natural que não podemos compreender.

Já na cena de abertura do longa, descobrimos uma informação — se não a informação — essencial sobre Shigeru: ele é fascinado pelo mar. O quando, o onde e o porquê desse sentimento não sabemos, já que as imagens do filme não nos dizem nada sobre isso. Ainda assim, é justamente esse encanto que o levará a se aventurar no surf. Mas agora voltemos ao ponto anterior. nesta obra, como em outras do diretor, as imagens não parecem estar preocupadas em nos explicar, mas nos mostrar. Isso é algo interessante, a câmera —muitas vezes fixa ou que se move sempre de forma suave e sutil — em conjunto com a profundidade de campo e planos longos, muitas vezes parece estar limitada a contemplar momentos cotidianos, que parecem conter uma poesia própria. Obviamente, isso é algo muito presente não só no trabalho de Kitano, mas também na obra de outros cineastas japoneses.

Um plano do filme “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão” onde vemos o mar.

Shigaru, o protagonista de "O Mar Mais Silencioso Daquele Verão", e outro homem olham pela janela do caminhão de um caminhão de lixo. Os dois usam uniforme de garis.

Close no rosto de Shigeru, protagonista de "O Mar Mais Silencioso Daquele Verão".
Shigeru e seu fascínio pelo mar

Esse cotidiano ou mundano de “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão”, se revela não só pela forma como os acontecimentos são filmados, mas também por meio de certas repetições e padrões: personagens coadjuvantes recorrentes, gags e gestos que reaparecem ao longo do filme, as recorrentes caminhadas silenciosas de Shigeru e Takako, as coletas de lixo feitas pelo mesmo junto a Takoh (Sabu Kawahara) etc. No entanto, esses momentos vão se apresentando sempre de forma diferente, seja pela mise en scène pela presença ou ausência de um ou mais personagem, ou simplesmente pequenas variações gestuais. Os detalhes parecem dotar esses momentos tão similares de sentidos diferentes.

Plano detalhe de um formulário de inscrição; que é preenchido por Shigaru.

Shigaru, em primeiro plano, sentado diante na mesa preenche um formulário, em segundo plano Takako faz algo na cozinha.

Takako, agora está em primeiro plano, sentada diante da mesa, lê o formulário de Shigaru sorrindo. Ao lado dela, Shigaru está deitado no chão de costas para a câmera.

Close de Takako que corrige séria o formulário.
Um momento singelo, onde Takako acaba o ajudando Shigeru a preencher uma ficha para um campeonato de surf

Dessa forma, cada plano — tanto nos mais longos e distanciados, quanto nos mais fechados e curtos — é dotado de um significado aparentemente muito claro, mas que de que certo modo preserva um mistério próprio, algo que se conecta da alguma forma com um ciclo ou ordem natural que não podemos compreender. Isso está a emanar na concisão e composição dos planos, nos cortes, no ritmo que atravessa todo filme, no tempo dado para que as coisas aconteçam na cena, a quase ausência dos diálogos etc. Durante todo o longa ficamos, assim como o protagonista, fascinados por algo que não entendemos muito bem.

Shigaru e Takako observam o mar em um navio,
Shigeru e Takako observam o mar, praticamente um personagem no filme

Essa ordem natural parece se concretizar quando, depois de ir surfar em um dia chuvoso, Shigeru desaparece. Não vemos o que acontecido de fato. O que Kitano nos permite ver é, primeiro, o protagonista fazendo o mesmo caminho de sempre em direção a praia, mas agora, um detalhe importante, ele está sozinho. Depois do corte, em vez de assistirmos o seu retorno, é Takako que surge na tela, fazendo o mesmo trajeto, no mesmo sentido e em um plano muito similar. Ela está a procura de seu namorado. No entanto, ao chegar ao seu destino, tudo que ela encontra é a praia deserta e uma prancha abandonada no mar.

Shigaru caminha com roupa de surf e uma prancha em meio a chuva.
Shigeru vai em direção a praia
Takako caminha em meio a chuva om um guarda-chuva azul.
Takako vai procurar o namorado

Sem dúvidas, outro momento que parece sintetizar todas as escolhas formais, estéticas e temáticas no filme parecem estar na sequência do funeral simbólico realizado por Takako. Neste ritual existe — entre o não dito dos plano longo, o se deslocar da profundidade de campo e a captura do momento — algo de poético e enigmático.

Momentos finais de "O Mar Mais Silencioso Daquele Verão", no plano vemos um close de Takako que sorri enquanto segura a pancha de Shiguro.
Um sorriso antes do último adeus

Plano detalhe da prancha de Shigaru, nela há uma colada dele com Takako.

Um dos planos finais de "O Mar Mais Silencioso Daquele Verão", onde vemos a prancha de Shigaru flutuando no mar.
O funeral simbólico Shigeru

Ao fim de “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão”, embora a vida continue aparentemente indiferente à morte do protagonista. Kitano nos mostra de forma sutil como um momento de epifania de Shigeru — quando ao ver uma prancha quebrada no lixo, decide aprender a surfar por conta própria — pôde afetar, não só sua vida, mas a de outros.

Um Lugar Silencioso

Existia um mundo. Existiam pessoas emaranhadas em um concerto, existiam multidões ocupando ruas em grandes passeatas com frentes de bateria e megafones, existiam carnavais com grandes carros brilhantes e mil e uma comissões entoando o mesmo festejo. Todes nós nos amontoávamos feito formigas histéricas. Vivenciávamos um tipo de prazer em ser parte de um coro enorme e suado, de poder por alguns minutos ser menos um indivíduo, menos uma singularidade, de se fundir pra ser totalmente – inteiramente – plural, coletivo. Eu e ele não sabíamos o quanto éramos, não apenas habituades, mas afeiçoades ao barulho, à muvuca, à aglomeração. Hoje, sonhamos com o som e as cores, com as pessoas emaranhadas umas nas outras, as bocas abertas se lambendo, coxas contra coxas, gente gritando, gente uivando, e acordamos desesperados. Num sobressalto, abrimos os olhos no meio da noite, suando frio, mordendo o travesseiro para não soltar nenhum grito, nenhum soluço, chorando silenciosamente por não poder viver sonhando, profundamente submerses nessas lembranças. Flashbacks de uma outra vida, que se tornam mais e mais desfocados e disformes. Confinades, nosso único contato com esse mundo é por uma ou outra música, que ouvimos grudades no fone de ouvido, muito baixinho, para não arriscar nenhum alarde. Não podemos nem sequer trocar meia palavra sobre os sonhos ou as memórias. Apenas sabemos, pelo olhar cúmplice, que a saudade devastadora que nos acorda não poderia ser de outra coisa. Nunca fomos muito amades por ninguém, a família não foi a parte mais difícil de abandonar. Era um rompimento inevitável de relações já muito desgastadas e humilhantes. Quando demos as mãos, carregando toda nossa vida em duas enormes mochilas e algumas sacolas, ainda tínhamos esperança que fosse para iniciar uma nova e revigorante vida. Uma oportunidade única de ser cuspides pra fora do mundo que já não queríamos. Ser exilade de uma pátria que você despreza, e que despreza você, não deveria ser algo tão doloroso. Não era exatamente como se quiséssemos aquela vida. Mas, com toda certeza, não queríamos essa.

As cidades são zonas proibidas, cruzadas apenas em extrema urgência, pois são demais perigosas. Seja pelas bestas, seja pelas poucas pessoas que sobreviveram nelas sacrificando tudo que tinham de humanidades. Tivemos sorte de encontrar um terreno abandonado, com uma velha casa, no meio de enormes plantações mortas, que deveria ser um tipo de latifúndio que aos poucos apodreceu. Ninguém veio reclamar aquela terra, ou se tentaram, talvez tenham morrido no caminho. Saímos muito cedo, prevenides, apavorades. Nos matariam primeiro, se pudessem. Seríamos jogadores como voluntáries para aplacar a sede dessas novas bestas que devoravam cidades. Já nos viam como banquete pro ódio, seríamos também ratos para aquelas feras. Fugimos, enquanto o governo ainda nem tinha declarado calamidade. Ainda havia governo, ou o simulacro de um. Ao longo do tempo, conseguimos plantar alguma coisa num punhado de terra perto da casa e arrumar alguns cômodos, vedar portas, janelas. Parecia que poderíamos simular uma vida, uma normalidade. Algo que nunca nos foi dado facilmente, e que nunca desejamos tanto. Tentamos nos habituar ao silêncio, à distância, à não confiar em ninguém. Medidas preventivas. Escrevemos quando queremos conversar. Nos abraçamos e choramos muito. Mas, ainda hoje, é impossível se habituar à solidão. Ela prevalece. Mesmo juntes. Mesmo dividindo nossa cama. Eu e ele. Não podemos nem mentir que não nos sentimos terrivelmente sozinhes. Incapazes de nos sentir satisfeites, abastades, com o convívio desse matrimônio às pressas. Mal sabíamos que uma estranha benção iria nos acontecer.

Apesar de já termos conseguido desenvolver alguma rotina, as bestas ainda nos rondam. Podemos ouvi-las do lado de fora à noite, algumas vezes até mesmo durante o dia. Colam suas bocas horrendas nas janelas, grudam as orelhas nas paredes, como que verificando se há alguém. Aprendemos a manejar o susto e o pavor, sem nem respirar muito forte, contendo todo ruído. Eventualmente, elas se afastam. Sabemos que nossa quietude, nosso silêncio, não é exatamente uma fortaleza sólida. É uma proteção que pode ser rompida no menor descuido. É preciso viver quase como fantasmas, despercebides, sem ambições, sem festejos, sem alarde. Um tropeço, um copo que se quebra, um gemido, de prazer ou dor, pode ser nossa sentença de morte.

Naquele dia, pensamos que deveria ser apenas uma besta que parava diante de nossa porta. O sol já se punha, não tínhamos mais nada a fazer do lado de fora. Eu preparava cuidadosamente a janta quando percebi os dois pés na soleira da porta. Chamei discretamente a atenção do meu companheiro, peguei uma faca, ele uma velha arma e caminhamos na direção da entrada. Seja quem fosse, permaneceu muitos minutos em completa mudez do outro lado. Não podíamos ouvir nem mesmo sua respiração. Ficamos uma hora esperando que fosse embora, até percebermos a mão girando lentamente a maçaneta. Eu rezei e rezei dentro de minha cabeça. Que não fosse nosso fim, que não fosse alguém que viesse trazer o nosso fim, que não nos ameaçasse, que não nos abusasse, e acima de tudo, que não fizesse nenhum barulho.

Quando ela abriu a porta, senti sua pele arrepiar diante de nós. Os olhos arregalados. Apavorada. Segurava um papel, um pedido de abrigo, onde lia-se um pedido implorando para que não a matassem. Havia algo doce e um tanto indefeso. Tinha os braços cobertos de arranhões. Seus cabelos eram curtos e estavam imundos, assim como seu rosto. Lama e sangue seco cobriam sua pele. Mas não tinha nada de ameaçadora, muito menos carregava nenhuma arma. Como tinha conseguido chegar até nós, não sabíamos. Abaixamos as armas, fiz com as mãos um sinal pra que ela entrasse. Ela tirou delicadamente os sapatos, apoiou cuidadosa sua pequena mochila surrada no chão. Ela se movia graciosa e delicada, atenta a cada passo. Trocamos mensagens enquanto dividimos a janta. Eu mantive a faca por perto, por precaução. Era estranho, depois de tanto tempo, estar com outra pessoa. Em algum lugar, pedi muito que ela fosse gentil, que fosse boa, que permanecesse. Tinha algo, ao mesmo tempo apavorante e por outro lado tão esperançoso na presença dela ali. Estar com outra pessoa, na nossa intimidade, em nossa casa. Ofereci de preparar um banho, na banheira dos fundos. Passei os procedimentos que usávamos, lhe entreguei toalhas limpas. Pude ver as lágrimas escorrendo no seu rosto. Tem mulher que vive o diabo, a gente sabe bem. E a história toda, era bem crível. Dos homens que enlouqueceram no confinamento e fizeram miséria de suas esposas. Como se o mundo já não fosse miserável o suficiente. E era menos perigoso vagar entre bestas, do que dormir com ele. E nós só soubemos nos compadecer e nos afeiçoar a ela, ainda que um tanto receoses. E ela não parecia ter nada por nós além de uma profunda gratidão.

Ao sair do banho é que nos demos conta, eu e ele, da beleza dela. Por baixo da lama e do sangue, encontramos agora uma mulher radiante. Saiu com roupas limpas, segurando uma garrafa de vinho nas mãos. Como um artefato precisos. Não víamos uma mulher tão linda há muito tempo, assim como não víamos uma garrafa de vinho há milênios. Primeiro, sentíamos como uma fascinação inocente de crianças admirando um personagem de desenho. Quando sentamos no sofá, ela nos ofereceu a garrafa como presente pela acolhida. Ali, sentada, perto de nós é que percebemos, realmente. As bochechas redondas, os pequenos olhos castanhos, os peitos fartos contra a nova – agora limpa- camisa. Nos sentimos constrangides, parecia um tipo de perversão, olhá-la daquele jeito. Depois de recebê-la tão machucada e vulnerável, parecia um tanto abusivo que nos excitasse tanto o semblante dela. Nos convencemos que deveria ser a longuíssima ausência de outra pessoa no nosso convívio. Nada que devêssemos dar muita atenção. Por pudor, e por termos ainda alguma desconfiança, guardamos o vinho para algum outro momento. Queríamos dizer para que fossemos dormir, mas a excitação e ansiedade daquele novo e tão inesperado encontro impedia qualquer iniciativa de se retirar. Ninguém, de nós três, foi capaz de evitar o desejo de ficar naquele frenesi por mais tempo. Apenas sentades no sofá, escrevendo incessantemente coisas uns para os outres. Rindo silenciosamente. Querendo dividir sobre a vida, as poucas memórias do mundo anterior a esse, das paixões, das multidões, dos empregos, dos sonhos. Nos inflamamos, os olhos brilhando, incandescentes, por poder dividir a saudade por aquele falecido mundo. Um tipo novo de intimidade crescia, pela cumplicidade de ter visto nossa vida ser sepultada de forma tão seca, de ter sobrevivido em tempos sombrios e dolorosos. Imaginávamos como seria se nos encontrássemos em outras circunstâncias, como deveriam soar nossas risadas, se ouviríamos música, se dançaríamos, se encheríamos a cara.

Alta noite já se ia, o escuro rodeava a casa e nós nos rodeamos de velas para iluminar nosso entorno na pequena sala. Não percebi ao certo quando paramos de nos escrever e passamos a ficar apenas nos olhando. Confortáveis em estar unicamente presentes. Foi então que ela, lentamente, se aproximou de nós. Parou diante do pequeno sofá e com movimentos delicados, nos tocou pela primeira vez segurando – em cada mão – uma de nossas mãos. Meu coração acelerou. Minha pele ficou quente. Ela tão próxima agora, sua mão colada na minha, na dele. Eu e ele trocamos olhares, cúmplices. Completamente seduzides por aquela mulher em nossa sala, agarrada à nós. Ela sorria. Devia saber. Podia sentir. Minhas palmas, com certeza, estavam suando. Ela se sentou entre eu e ele, nos apertando no sofá. Suas coxas tocando nas nossas. Eu quase nem consegui respirar de tão excitade. O corpo dela tocava a lateral do meu. Há muito tempo eu não ficava com uma mulher. E justo aquela mulher, com sua aparição misteriosa em nossa porta. Como uma oferta de passado, de chegar perto do que um tivemos. Queríamos ter cautela, preservar algum decoro, mas estávamos quase petrificades com a desenvoltura dela. Eu não podia acreditar naquilo que estava prestes a acontecer. No meio de todo o terror lá fora, de tanto medo, aquela oferta irrecusável. A intimidade, o prazer. Assim tão inusitado e tão provocativo. Como costumam ser as melhores ofertas. Ainda que com um risco alto para todes nós.

Ela beijou nossas mãos, delicada. Em seguida, acariciou o meu rosto e passou as mãos pelo cabelo dele. Ele se desvencilhou e nos escreveu: “Não podemos arriscar nenhum barulho”. Eu e ela concordamos com a cabeça. Ele tornou pra perto. Ela beijou minha boca. Seus lábios contra os meus, nossas línguas. Beijá-la era como ser transportade para outro lugar. Eu estava molhade. Nos beijamos suavemente. Senti minha língua em sua boca. Só quando ela se afastou, cogitei se ele teria ciúmes. Mas a forma com que ele nos olhava denunciava que estava se deliciando. Ela então o beijou também. Eu pude vê-los, grudados, as bocas coladas. Seus corpos próximos. Salivei. Eu o entendia. Estava além de qualquer ciúmes, era a chance única de nos sentir parte de algo. Algo maior. Algo menos solitário para nós três. Tentamos um beijo triplo, sem muito sucesso ou maestria. Batendo cabeças e dentes um contra o outro, desengonçades. Mas entre sorrisos, prosseguimos. Cada passo, uma nova cautela. Levantamos e tiramos as roupas, com serenidade. Deixando peça por peça repousar com parcimônia sobre o chão. O corpo dele se revelou pra ela primeiro. Nu, ele era estonteante. Seu pau grosso e duro diante de nós. Ela se revelou em seguida. Tinha uma longa cicatriz abaixo dos fartos peitos, sua barriga tinha pequenas marcas e abaixo víamos sua linda e carnuda buceta. Os dois lado a lado, eram algo completamente alucinante. Eu os segui, revelando também minha nudez. Pude sentir seus olhares sedentos, apaixonados. Nunca tinha experienciado tamanha sintonia. Nós nos movíamos como se cada gesto fosse coreografado para harmonia perfeita do silêncio. Eu peguei um punhado de toalhas, que esticamos pelo chão para garantir ainda menos ruído. Apesar da ansiedade, palpitando em meu peito, a situação demandava um enorme controle. Afinal qualquer descuido, um barulhinho sequer, poderia custar nossas vidas. Mas o tesão entre nós era tamanho, que não conseguimos resistir. Eu o beijei, como não nos beijávamos fazia muito tempo. Senti ela me abraçar por trás e percebi que ela começou a se masturbar. Os dedos em seu clitóris, subindo e descendo. Enquanto a boca dele roçava na minha, sentia a boca dela em minhas costas, eu bem no meio, podendo sentir o pau duro dele em minha frente e a buceta dela roçando por trás da minha perna. Eu me deitei no chão sobre as toalhas, até agora tudo sob o controle. Ele foi beijando meu peito, descendo por minha barriga. Via seu rosto através da penumbra, enfiado entre as minhas pernas. Ele começou soprando devagar, meus pentelhos arrepiaram. Em seguida, se lançou me chupar. Minhas pernas tremiam, ele as imobilizou firme com suas mãos. Eu respirava pesado, quando ela introduziu o dedo indicador e o médio em minha boca, ainda molhados da buceta dela. Seu gosto azedo na minha língua. Os chupei, da ponta até talo. Sem demora, ela os tirou, sentando sua xota em minha cara. Eu queria gemer. Melhor era manter minha boca ocupada. Lambi seus lábios, quanto mais úmida e quente ela ficava, mais me aproximava do clitóris. Ela acima de mim, suada, os peitos balançando. Dava gosto. Eu quase me esquecia das bestas, das cidades, da dor. Ele parou de me chupar para olhá-la rebolando contra meu rosto. Ao percebê-lo, ela rebolou mais forte. Ele subiu por cima de mim, abriu a boca e passou a língua pela cicatriz abaixo dos peitos dela. Ela estremeceu, mordendo os lábios. Ele colocou o peito dela em sua boca. Eu continuei a chupar seu clitóris, mas agora bem devagar e com uma das minhas mãos, segurei o pau dele, subindo e descendo. Nossas respirações ficavam cada vez mais fortes. Vimos ela tapar a boca com a mão. Paramos. Assustades.

Ela respirou fundo, sentando-se ao meu lado. Ele tornou pra mim, abriu novamente minhas pernas, metendo fundo. Senti seu pau me penetrar. Ela acariciando meu cabelo, depois beijando minha cara. Devagar. Ele metendo fundo, com calma, sereno. Fechei meus olhos. Era como um sonho. Cores vibrantes tomando minha cabeça, frentes de bateria soando, um coro cantando, um festejo em meu peito. Ele meteu mais rápido, ela o beijando na boca, a mão dele em seu peito, ela me beijando na boca, a bunda dela em cima de mim, ele metendo mais e mais, a mão dele enfiada na buceta dela, flashes passando, rápidos, intensos, como um filme. Como se fôssemos levades, arrastades pra dentro e dentro uns de outres. Transportades, pra um lugar quente e seguro. Eu vou gozar, pensei. Eu estava quase. Eu gemi. Foi curto e rápido. Um gemido baixo, entre dentes. Mas ainda sim um gemido. E depois novamente o silêncio. A adrenalina subiu. Pensei que iria enfartar, os olhos arregalados. Um brutal silêncio. Ninguém veio. Ele não parou. Ela ficou de quatro por cima de mim, eu podia chupar seus peitos enquanto ele metia nela. Eu podia ver os dois, chupava o mamilo dela, beijava seu pescoço, sua boca. Parecia um ato de bravura, seguir, não interromper, permanecer até o orgasmo. Ele penetrava ela cada vez mais forte, via ela se mordendo. Dei minha mão para abafar seu som. Ela mordeu tão forte, pensei que iria arrancar um pedaço. Eu podia sentir, iam gozar. Era como se brilhássemos, como se acendêssemos o cômodo. Iam gozar agora. E soltaram, fraco, talvez ainda mais fraco que o meu, um som, nem podia ser um gemido, algo como uma arfada ou um grunhido. O pavor tornou. Ouvimos ruídos do lado de fora. Nos erguemos. Os corpos nus. Em seguida, o barulho da porta abrindo, violentamente. A besta no corredor. Demos as mãos. A besta entrou na sala. Nos abraçamos. A besta diante de nós. Fechamos os olhos.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho Camila no Instagram.

Madames

Já dizia o ditado: a grama do vizinho é sempre mais verde. Entretanto, na história de Carmélia, o mais preciso seria que os colares das outras são sempre mais luxuosos, que a bolsa da amiga era sempre mais bonita e que suas vizinhas eram sempre mais magras, não importa quantas refeições ela coloque para fora.

Na infância, enquanto sorria para as ilustres visitas de seus pais, Carmélia cuspia na cara dos funcionários que não lhe agradavam. E, para a surpresa da high society, quando adolescente, os pais da nossa heroína faliram — mas, como boa heroína, ela não se desapegou do dinheiro.

Casou-se com um ricaço, que, seis anos depois, morreu engasgado misteriosamente nas próprias aflições e deixou Carmélia sozinha, apenas com seu dinheiro. Coitada.

A pedacinho-de-céu (assim que era vista pela sociedade) se mudou para um condomínio fechado de luxo, reservado apenas para viúvas que herdaram milhares de milhões de seus falecidos ricaços. O problema é que nesse condomínio todas eram iguais a ela e isso não podia ser assim.

Carmélia decidiu reformar sua casa e torná-la não apenas a maior do condomínio, como também a com a arquitetura mais sofisticada já criada pelo homem. O conceito Vazio nunca foi tão bem executado. E, quando a reforma ficou pronta, ela deu uma super festa para todas da vizinhança. Foi o evento mais elegante que qualquer uma ali já havia participado. Isso saciou a fome de atenção de Carmélia, mas deixou a das outras com água na boca.

Não passou muito para que todas do condomínio mudassem os tetos das casas e a decoração-vazia-clean de Carmélia virasse moda. Porém, uma delas foi mais ousada, Rosa era seu nome, essa mulher detestava nossa pedacinho-de-céu e construiu uma casa de três andares, só que com uma decoração rústica que ia contra tudo o que Carmélia chamara de tendência.

Rosa deu uma festa finíssima e garantiu que Carmélia fosse e ficasse morrendo de inveja. Isso foi um golpe fatal no ego da nossa pobre viúva, fato que levou ela a sair de lá no telefone com o mestre de obras para reconstruir sua casa mais uma vez.

Agora com quatro andares e decoração abstrata, Carmélia se debruçou no Non Sense para a festa de casa nova extremamente luxuosa que ela deu. Se a de Rosa foi um golpe, pode-se dizer que essa celebração de Carmélia foi um nocaute.

Rosa retrucou transformando sua casa em uma torre com decoração francesa iluminista e convidando todas do condomínio para passar uma semana nela. Foi a semana mais difícil da vida da pedacinho-de-céu. Ego e inveja se alimentam como dois seres vivos nervosos enquanto não se saciam por completo.

As duas invertiam quem era a caçadora e quem era a presa a cada semana. As casas delas se transformaram em arranha-céus e, por nenhuma saber sobre engenharia, esses prédios eram bambos, sem estabilidade.

Carmélia e Rosa conseguiram se sustentar nas alturas cheias de balanço por alguns dias, mas, como diziam seus cirurgiões plásticos: chega uma hora que a gravidade pesa. Era a semana da nossa pedacinho-de-céu dar a sua festa e, quando todas do condomínio estavam reunidas no top o do prédio, ele desabou.

Não foram apenas as várias dondocas que lá estavam que pararam mortas nos escombros, inclusive Rosa, mas também todo ódio que elas sentiam umas pelas outras — e por si mesmas. O mundo dormiu sem saber dos lindos posts sobre amizade que perdeu no Instagram.

* * *

Ilustrador convidado:

Jovan Ferreira

Jovan Ferreira é ator e artista visual da zona oeste do Rio de Janeiro. Experimenta a integração entre as artes na concepção de cenários-instalações para o Teatro. Trabalha também com ilustração e colagem a partir de material reciclável (@atelievoara), além de outras técnicas e linguagens como fotografia e vídeo-performance.

👉  Conheça o trabalho do Jovan instagram.

Dust: sua dose semanal de ficção cientifica

Desde o princípio desse gênero, nos livros e quadrinhos, a ficção cientifica tem o objetivo de buscar e explorar as questões mais profundas da humanidade. E para fazer isso, ela sempre busca ângulos e abordagens bastante diferentes, com o intuito de buscar interpretações diferenciadas sobre nossas maiores questões.

Seja por meio de monstros criados em laboratório, descobertas absurdas, sociedades distópicas e utópicas, entre outras ideias mirabolantes, esse gênero sempre procurou usar a ciência como base para criar recursos que expandem a discussão sobre o que é possível acontecer futuramente com a humanidade.

Seguindo o intuito de divulgar esse gênero, em 2016 foi lançado o Dust, um selo que promove curtas, longas, web séries de Ficção Cientifica em diferentes plataformas. Atualmente eles contam com mais de 400 filmes, dos quais grande parte se encontram no seu canal no Youtube. Lá você pode encontrar…

Abordagens experimentais:

Animações:

Filmes ricos em efeitos visuais:

Além disso, é possível encontrar alguns atores e atrizes conhecidos em alguns curtas exibidos no canal, como: Daniel Kaluuya (Corra!), Natalia Dyer (Stranger Things) e Frankie Shaw (Mr. Robot):

Por ser uma coletânea, o canal recebe filmes de diferentes países — Reino Unido, México e mais recentemente o Brasil, com o curta “Arzok” do diretor Ian SBF sendo (re)lançado:

Com essas diferentes abordagens e visões, o canal publica vídeos semanalmente ininterruptamente desde 2016. E para os cineastas que ficaram interessados e tenham um trabalho que se encaixe no perfil do selo é possível submeter seu curta no site do DUST.

Comentários sobre a juventude: a trilha sonora de Euphoria

Não se esqueça de checar a trilha completa da primeira temporada no nosso Spotify.

A segunda metade essencial de uma obra audiovisual é o som. Composto de barulhos, diálogos e música. Essa camada tem grande importância na experiência que temos ao assistir um filme ou uma série. Podendo em alguns casos criar uma relação tão forte com a história quanto outros elementos visuais.

Dessa maneira, já que abordamos como o trabalho de criação de imagens (Fotografia) tem um papel importante na série Euphoria (2019-) anteriormente, neste texto vamos destacar o outro lado dessa moeda e falar sobre sua trilha sonora.

Primeiramente, é importante falar que a série tem um trabalho muito consistente na parte musical. Existe um equilíbrio entre as trilhas originais e não originais, instrumentais e letradas. Existe um respeito tão grande por essas músicas que o timing de edição da série muitas vezes dá preferência ao timing da música, ao invés da cena em si e, consequentemente, a torna o destaque principal da cena. O exemplo disso se dá nos créditos de abertura da série, que variam de duração de acordo com a música.

Trilha não-original:

A criação do ‘revestimento musical’ da série foi um trabalho conduzido primariamente pela supervisora de música Jen Malone, que junto do criador da série Sam Levinson criou uma ‘playlist ideal’ de como o programa deveria soar. Em um primeiro pensamento, a ideia era que fosse uma trilha ampla e diversa que funcionasse como um personagem em si, mas essa proposta foi se dissolvendo em meio a uma sugestão mais ousada: fazer com que as músicas tivessem um significado próprio pra cada cena.

“Claro que, eles são adolescentes, então vai haver música vindo de todos os lugares, mas nós queríamos estar aptos a fazer algumas escolhas interessantes, e ir fundo no catálogo” – Jen Malone ao Deadline

Aos poucos essa playlist foi acumulando cada vez mais e mais faixas, tendo um resultado final de uma média de vinte músicas por episódio. O que é mais interessante é que apesar da quantidade de alternativas, muitas das escolhas foram bastante acertadas para suas cenas. Escolhas que as vezes puderam sair da possibilidade de uma trilha não diegética comum, que só serve como música de fundo, para uma que realmente construísse uma relação direta com o texto da série. O segredo para isso foi não se prender à uma escolha ainda na criação do roteiro, mas sim estar aberto as possibilidades e, aos poucos, peneirar as opções.

“Minhas opções estão por toda a parte. Tem sempre uma doida, esquisita, deixada de lado, meio que ‘Okay, essa é minha opção doida’. O que é ótimo sobre o Sam é que ele está aberto a ouvir ideias doidas. ‘Eu não tenho a mínima ideia porquê eu estou pondo isso aqui, mas eu tenho um pressentimento sobre isso’ – e então funciona.” – Jen Malone ao Deadline

Vejamos alguns exemplos dessas escolhas acertadas:

No último episódio da temporada, And Salt The Earth Behind You, acompanhamos a sequência que transita entre duas situações diferentes de Cassie Howard (Sydney Sweeney): Uma na qual ela realiza um procedimento de aborto em uma clínica, e outra onde ela patina no gelo. Ambas são acompanhadas pelo som de My Body is a Cage, da banda canadense Arcade Fire:

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key
My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key
I’m standing on a stage
Of fear and self-doubt
It’s a hollow play
But they’ll clap anyway
Meu corpo é uma gaiola, que me impede
De dançar com aquele que eu amo
Mas minha mente tem a chave
Meu corpo é uma gaiola, que me impede
De dançar com aquele que eu amo
Mas minha mente tem a chave
Eu estou de pé em um palco
De medo e dúvida
É uma peça vazia
Mas eles aplaudirão de qualquer jeito

Uma letra que não só reflete a questão de Cassie (Sydney Sweeney) quanto a sua gravidez, como também aborda a insegurança e nervosismo vivido por sua geração, nessa e em outras situações.

Outra aplicação interessante é da musica A Song for You, de Donny Hathaway, também na season finale da primeira temporada. Nesse momento, que chegou a tocar pessoalmente Sam Levinson, acompanhamos uma montagem de diferentes momentos da vida de Rue (Zendaya). Assim, nos fazendo refletir sobre a relação dela com a família:

I know your image of me
Is what I hoped to be
I treated you unkindly
But darling, can’t you see?
There’s no one more important to me
Baby, can’t you see through me?
‘Cause we’re alone now
And I’m singing this song to you
Eu sei que a sua imagem de mim
É algo que eu esperava me tornar
Eu te tratei de forma cruel
Mas querida, você não consegue ver?
Não há nada mais importante para mim
Baby, você não consegue ver através de mim?
Pois estamos sozinhos agora
E eu canto está canção para você

Trecho a partir de: -1:04

E sobre sua relação com Jules (Hunter Schafer):

Trecho a partir de: -1:40

You taught me precious secrets
Of a true love while holding nothing
You came out in front when I was hiding
But now I’m so much better
And if my words don’t come together
Listen to the melody
‘Cause my love is in there hiding
Você me ensinou segredos preciosos
De um amor verdadeiro sem guardar nada
Você tomou a frente quando eu estava me escondendo
Mas agora eu estou bem melhor
E se minhas palavras não se encaixarem
Escute a melodia
Pois meu amor está la se escondendo

Para montar essas mais de vinte faixas por episódio, o supervisor de edição e também contribuidor de boa parte da trilha, Julio Perez IV, pensou numa ideia que valorizasse bem as músicas dependendo do seu ritmo e contexto de aplicação (algo que comentamos no texto sobre fotografia). Todos os exemplos dados acima são de músicas que tocam quase que por completo e que criam uma relação atípica para uma trilha: onde ela se utiliza das imagens como preenchimento das músicas, e não o contrário. Porém essas são situações pontuais, e boa parte da trilha é construída de uma forma diferente. Muitas vezes as músicas são parte diegética da cena, ou seja, estão presentes no mundo da história. Elas vêm de caixas de som em festas, tocando em alto-falante de telefones, nos fones de ouvido e até em aparelhos de rádio nos carros. Para realizar o encaixe dessas, Julio regulou o tempo de troca entre elas, cena por cena, de um jeito bastante ‘Scorcesiano’ (Algo pra outro texto): No qual a trilha troca de faixa como alguém indeciso troca de estação de rádio, ou pra ser mais moderno, troca de música numa playlist.

Note que a troca entre as musicas não é regular.

Trilha Original:

Quando abordamos a fotografia, chegamos a comentar de que apesar de chamativo, todo o trabalho de luz e câmeras da série tinha um intuito de mostrar o mundo sobre o ponto de vista turvo porém realista que a juventude traz. Se utilizando de ideias como: não glamorizar cenas de sexo, sempre dar foco a um personagem por vez e sempre tentar expressar a influência dos sentimentos no exterior por meio de cores, movimentos de câmeras e etc.

Enquanto a imagem tenta conectar o público com sua juventude, a trilha original (no geral) serve para dar sentimento e comentar sobre essa mesma juventude. Misturando diferentes estilos musicais, com letras que criam uma relação mais precisa com as cenas e uma conexão própria com os personagens e temas da série.

Para realizar esse trabalho, Sam convocou o cantor, compositor e produtor britânico Labrinth, que tem como grande característica uma sonoridade bastante particular. Apesar de fazer carreira desde 2009, Labrinth era pouco conhecido no cenário musical até pouco tempo atrás. Chegou a trabalhar como produtor a maior parte do tempo, tendo como principal parceria o músico Tinie Tempah, porém no ano passado sua carreira estourou com diversos projetos: Lançou seu segundo álbum solo, fez um disco com Sia e Diplo, ajudou Beyoncé a compor a música Spirit para o filme Rei Leão e claro, compôs a trilha sonora de Euphoria. Desde pequeno, Lab foi influenciado por diferentes membros da família e cresceu ouvindo diversos gêneros e estilos musicais:

“Na minha casa, minhas irmãs no andar de cima ouviam Jodeci e 112 e Aaliyah, e todo aqueles artistas de R&B e grandes cantores. No andar de baixo estaria meu irmão, que curtia mais hip-hop, então ouviria Wu-Tang [Clan], Jurassic 5, A Tribe Called Quest. E no outro cômodo meu irmão ouviria jazz, como Weather Report e Yellow Jackets. Meus oito irmãos tinham amigos que traziam musica como David Bowie, Prince, e gêneros que me inspirariam a ouvir música. Eu era essa criança de 12 anos sendo uma esponja pra todas essas energias.” – Labrinth à Rolling Stone

Energia é algo fundamental pro trabalho de Labrinth. Se pudermos observar só pela trilha sonora da série, é possível notar que o trabalho musical consegue elevar bem os altos e diminuir os baixos de cada episódio. Aumentando a tensão e pânico como em Euphoria Funfair no episódio Shook One: Pt.II:

Rue andando em meio ao foguetório do festival

Ou ressaltando a solidão, o medo e a frustração como em We All Knew, que aparece no episódio Made You Look:

Kat entrando no corredor do colégio

“Se você pode entender a perspectiva da energia de uma música, você pode achar formas de incorporar ela. Em ‘Pass Out’ [Música que Labrinth produziu com Tinie Tempah], era um hip-hop eletrônico com energia de trap; tinha uma energia de reggea também. Eu estava usando baixo e bateria, como no gênero jungle. Era eu jogando a minha infância dentro da música. Muitas dessas influências entraram na minha música. Eu ouvia Nina Simone, a qual eu amo; Ray Charles, ao qual eu amo; E Kraftwerk, e então funk do Parliament-Funkadelic. Então é como se fosse um pacote de Skittles quando eu crio música. Eu espero que isso faça sentido.” – Labrinth à Rolling Stone

Entendendo esse grande catálogo de influências, se prestarmos atenção na trilha sonora instrumental da série, é quase impossível ligá-la a apenas um gênero musical. É possível ouvir diferentes estilos, misturados de forma bastante harmônica, quase soando como um gênero próprio. Quando perguntado se reconhecia isso, Labrinth disse:

“Sim! Eu me lembro que Bruce Lee falava que o seu estilo era basicamente como água. Para mim, o estilo de Bruce Lee basicamente combina todos os estilos dos mestres antes dele. E para mim quanto a musica, eu não sinto como se nenhum deles [gêneros] estão separados; Eu sinto que você pode mesclar diferentes gêneros ao não colocar nenhum deles em um pedestal. Eu não ponho nenhum gênero em um pedestal.” – Labrinh à Rolling Stone

Para mérito de comparação, em um material promocional da série, Sam disse que ouviu muito Danny Elfman, Yeezus (álbum de Kayne West) e Gospel enquanto escrevia a série. Era algo esquisito, que não combinava, mas que só fez sentido na cabeça dele depois de conhecer o trabalho de Labrinth e poder compartilhar essas ideias com ele. Se formos ver essas influências na trilha de Euphoria:

“Uma vez, ele [Sam Levinson] falou tipo, ‘Lab, eu quero uma trilha influenciada por hip-hop, gospel orquestral,’ como a trilha sonora de Edward Mãos de Tesoura. [E] Muito do que aconteceu na trilha já era algo que eu fazia naturalmente. Então, Sam… não era como ele não me quisesse lá, mas as vezes ele agia como, ‘Quando eu escutar a musica fora do álbum, [vai ser] exatamente o que eu quero ouvir. Você já está indo na direção certa. Você não precisa de nenhuma inspiração além de assistir o visual.” – Labrinth à Rolling Stone

Além do trabalho de uma trilha convencional apenas instrumental, Labrinth teve uma liberdade maior e pode compor e agregar musicas letradas para a trilha sonora da série. Assim, não só dando a energia e o sentimento com a sonoridade, mas agora também comentando sobre a sua história em forma de letra.

“Eu quero que isso pareça quase místico, porque parece mesmo quando você é um adolescente. Toda sua existência está investida numa bolha na qual você está, e a bolha é tão importante. Quando você olha para trás, de volta aos seus dias de adolescente, parece semi-mágico, mas semi-doido e semi-psicótico. Eu queria deixar claro que a música parecesse essas coisas.” – Labrinth à Rolling Stone

Vejamos alguns exemplos:

Um dos principais comentários da série é justamente sobre a fonte de euforia da juventude que ela retrata. Vide que uma de suas protagonistas tem um histórico de uso de remédios. Nesse sentido When I R.I.P. é uma das trilhas que reflete isso abordando a rotina de festas dos adolescentes da série.

Sejam elas sob efeito de drogas, como na cena de Rue (Zendaya) indo para festas:

Rue bebendo e usando drogas em diferentes momentos de uma festa

Feel the morning on my face
Ain’t a pill that I didn’t take
Just alive tryin’ ‘cause it’s been a long day
‘Cause I’ma sleep when I R.I.P
Sinto a manhã no meu rosto
Não ha pílula que eu não tenha tomado
Apenas vivo, tentando, pois tem sido um dia longo
Pois eu dormirei quando eu descansar em paz

Ou não, como na cena de Jules (Hunter Schaffer) se encontrando com seu amigo em Los Angeles:

Jules e seu colega subindo as escadas de um prédio de forma apressada

Flashbacks, relapses, camera flash
And don’t forget your hashtag
Rucksack, white stacks
You’re a dead man, had better rid of that gat
Flashbacks, relapsos, flashes de camera
E não esqueça sua hastag
mochila, pilhas brancas
Você é um homem morto, melhor se livrar dessa arma

Seguindo o comentário sobre as paixões da adolescência, Still Don’t Know My Name serve de trilha para o amor de Rue (Zendaya) por Jules (Hunter Schaffer). E isso inclui a fase platônica da relação das duas:

Rue e Jules andando de bicicleta de forma eufórica a noite

Trecho a partir de: -0:37

Still don’t know my name
You still don’t know my name
(Woo)
And I would die your slave
Baby, right now
But you still don’t know my name
Yeah
Ainda não sei meu nome*
Você ainda não sabe meu nome
(Woo)
E eu morreria seu escravo
Baby, nesse momento
Mas você não sabe meu nome
Yeah

Além desses exemplos, duas músicas compostas para o segundo álbum solo de Labrinth, Imagination & the Mistif Kid foram inclusas na trilha a pedido de Sam. Dentre elas estão Mount Everest, que claramente se encaixa como um comentário sobre a arrogância e o egoísmo que existem na adolescência:

uma bola de boliche surge, Nate a lança e marca um strike e Maddy aponta os dois dedos do meio para ele

Mount Everest ain’t got shit on me
Mount Everest ain’t got shit on me
‘Cause I’m on top of the world
I’m on top of the world, yeah
Burj Dubai ain’t got shit on me
You could touch the sky but you ain’t got shit on me
‘Cause I’m on top of the world
I’m on top of the world, yeah
Monte Everest não tem chances contra mim
Monte Everest não tem chances contra mim
Pois eu estou no topo do mundo
Eu estou no topo do mundo, yeah
Burj Dubai não tem chances contra mim
Você pode tocar o céu, mas você tem chances contra mim
Pois eu estou no topo do mundo,
Eu estou no topo do mundo, yeah

E por último All for Us, musica que se tornou referência da série (mesmo que não tendo sido feita para ela) e se encaixa perfeitamente ao comentar sobre a situação familiar de Rue (Zendaya):

Rue abraçando sua irmã distraída sentada na mesa, quando ela é puxada por seu pai que dança com ela e a beija na testa

Trecho a partir de: -0:53

Too much in my system (Famine, famine)
Money MIA* (Pockets hella empty)
Mama making ends meet* (Making ends meet)
Working like a slave (Mississippi, ayy, ayy)
Daddy ain’t at home, no (Father, Father)
Gotta be a man (Michael Corleone)
Do it for my homegrowns* (Sisters, brothers)
Do it for the fam (Yeah, so tell ‘em, Labby)
Muito no meu sistema (fome, fome)
Dinheiro perdido em combate (Bolsos muito vazios)
Mamãe encarando as despesas (encarando as despesas)
Trabalhando como uma escrava (Mississippi ayy, ayy)
Papai não está em casa, não (Pai, Pai)
Tenho que ser um homem (Michael Corleone)
Faça pelos cultivados em casa (Irmãs, irmãos)
Faça pela família (Yeah, então diga-os Labby)

Sobre Jules (Hunter Schaffer) e boa parte da juventude:

Rue subindo se arrastando num morro de pessoas cujos braços a auxiliam

Trecho a partir de: -2:20

Guess you figured my two times two always equates to one
Dreamers are selfish
When it all comes down to it
Acho que você entendeu que meu dois vezes dois sempre se iguala a um
Sonhadores são egoístas
No fim das contas

E sobre Rue (Zendaya) voltando a usar drogas:

Rue se erguendo num morro de pessoas e caindo no pico dele

Trecho a partir de: -2:33

I hope one of you come back to remind me of who I was
When I go disappear
Into that good night*, good night, good night, good night, good night
Eu espero que um de vocês voltem para me lembrar de quem eu era
Quando eu for desaparecer
Nessa noite acolhedora, noite acolhedora, noite acolhedora, noite acolhedora, noite acolhedora, noite acolhedora

Para balancear os dois tipos de trilha, Julio Perez pensou em uma montagem semelhante a da trilha não original (trocando de estação de rádio) e aplicou boa parte da trilha em forma de uma grande remix. Nesse caso, as transições entre diferentes faixas da trilha ficariam mais turvas, além de você ter trechos de músicas tocando isoladamente em diferentes momentos. O que também permite que certos partes das letras entrem em certos momentos da série, assim dando comentários mais pontuais e precisos.

Note como trechos de Mount Everest tocam enquanto Jules e Rue estão chapadas.

No geral, trilhas sonoras têm a função de nos balançar emocionalmente quanto aquilo que assistimos: seja amplificando, destoando ou até mesmo diminuindo o sentimento que temos. Muitas trilhas conseguem isso, criando composições poderosas que atingem o público. Porém poucas delas se propõem a criar uma conversação com a história a qual elas complementam, e menos ainda conseguem realizar isso.

Dessa maneira a trilha sonora de Euphoria é um grande feito. Não só por “soar bem”, mas por conseguir se encaixar com a série e, mesmo que aos poucos, chamar a atenção para seu roteiro. Quem assiste logo é convidado a ouvi-la e, portanto, dar mais atenção as ideias e aos sentimentos que envolvem sua história.

Todas as traduções foram feitas de forma livre e isso abriu possibilidades para algumas interpretações adaptações dependendo do contexto: 1. Como qualquer verbo da língua inglesa tem a mesma conjugação na primeira e na terceira pessoa, Still don’t know my name pode ser tanto lido como “(Eu) ainda não sei meu nome”, quanto “(Você) ainda não sabe meu nome”. Dessa forma pode ser tanto interpretado como uma mensagem para Rue (sobre Jules), quanto para Jules (sobre si mesma); 2. MIA é um termo militar que significa Missing In Action algo que pode ser traduzido como “perdido (ou desaparecido) em combate”; 3. Making ends meet é uma expressão que literalmente significa conseguir lidar com as despesas, sendo o ends uma referência ao fim do prazo dos pagamentos. Assim “indo de encontro aos prazos”; 4. Homegrowns significa cultivado em casa, e geralmente é usado para se referir a plantas num jardim; 5. A frase Into the good night é uma referência ao poema da língua inglesa Do Not Go Gentle Into That Good Night (Não Entres Nessa Noite Acolhedora) do Galês Dylan Thomas. Em respeito a obra e sua tradução, Good Night foi traduzido como Noite Acolhedora, sendo uma referência à morte.

NÓS (US)

Você já teve a sensação de que alguém está vivendo a sua vida? De que em algum lugar, em um apartamento, em algum canto do mundo, tem alguém que poderia ser como você, ter suas aptidões, sua estranheza, seus sonhos, seus traumas, até traços como os seus, mas que – por alguma razão estúpida do destino – vive infinitamente melhor do que você jamais poderá viver. Que come melhor, que transa melhor, que fala melhor, que se dá melhor com seus pais, com seus filhos, em seus relacionamentos, em seu trabalho. Que é mais compreendida, realizada, valorizada. E enquanto você come sua comida infestada de agrotóxicos, enquanto você deita em sua cama dura e áspera, enquanto você transa casualmente com pessoas e pessoas que só sabem meter e não te perguntar nada, você só pensa que existe essa outra pessoa que faz – cada uma dessas coisas, cada minucioso detalhe – melhor do que você. E a sua vida começa a parecer, cada vez mais, uma versão fracassada, de baixo orçamento, da vida de alguém. E não importa o que você faça, não importa que pacote novo você assine, que podcast você escute, o quanto você se esforce no emprego, nos relacionamentos, você nunca parece chegar mais perto de onde você merecia estar. A cadeira sonhada na mesa do banquete dourado, da fartura, da bonança, o seu bilhete premiado já foi pego. Você ficou do lado de fora, na fila, ao lado de inúmeras e inúmeras pessoas medíocres e frustradas. Que procuram estupidamente uma oportunidade de mudar de lado, de ascender, mesmo sabendo que é como perseguir o final de um arco íris, algo que nunca se pode de fato alcançar. Aprisionades em uma progressão aritmética invencível. Onde sempre se deparam com alguém mais apte, mais brilhante, mais bonite, mais excepcional para tomar o seu lugar. E você fica, dia após dia, apenas mais cansada, rancorosa, mortificada.

Cada filme, cada comercial, cada influencer, parece injetar em você esse rancor, essa raiva colossal por todes que são funcionais e bem sucedides. Por todes que diferente de você não são obrigades a suportar o labor mortificante e cansativo das relações medíocres, dos empregos exploratórios, da violência vívida e histérica que você foi, desde pequena, submetida. E você, sua imagem, suas ideias, não podem nem competir, não se classificam nem pra segunda divisão. Uma rivalidade profunda cresce em você e cresce de modo que você nem mais consegue ocultar, fakear. Você não pode estar feliz por algo que pra você é impossível. Você não aguenta mais brindar por uma vida que lhe foi negada. Pelo amor que lhe foi impedido. Você quer gozar com outres, mas todes parecem que só gozam de você. E todo esse ódio, volta também contra você mesma. Por se sentir tão gozável, por se sentir tão inferior àquele mundo que você almeja. Por se sentir tão pouco merecedora do sucesso, do orgulho, do afeto. “Eles que se fodam” você queria gritar. Mas a única pessoa se fodendo é você.

Você até tenta jogar o jogo deles. Re-harmoniza os poucos móveis do seu pequeno e fétido apartamento de acordo com as regras deles para “boas vibrações”, faz meditações guiadas com seus gurus, compra cremes e produtos pra mudar seu rosto, seu cabelo, se enche de dívidas para comer o que elus comem, beber o que elus bebem. Até que você desiste disso também. A impotência e a insatisfação parecem que vão lhe comer viva. Te mantém acordada durante a noite. Sabotam todas as suas aspirações, toda sua esperança. No dia em que você pensa em desistir, em aceitar que talvez seja melhor ser só mais uma figurante no mundo, nesse momento – como uma ironia do destino – você a encontra.

Nesse dia, você está sentada no ponto de ônibus, uma chuva torrencial cai sobre sua cabeça, encharca sua roupa, sua mochila, molha seu velho celular, seus documentos. O ônibus não passa há duas horas e a chuva parece apenas apertar. Você decide caminhar até seu apartamento, atravessando poças, antes que elas se tornem ruas alagadas. Você desbrava o percurso até chegar no seu bairro e, no entanto, não está mais chovendo e todos os prédios estão mudados. Você segue até onde seria sua casa e se depara com um portão novo e luxuoso no lugar das antigas grades, velhas e enferrujadas. Um porteiro – que você nunca viu em toda sua vida – lhe recebe sorridente segurando a porta do elevador. Você sobe, naquele elevador estranhamente bonito e perfumado, até o seu andar. No corredor, flores ornam com um papel de parede novo. Você pára diante da sua porta, agora lustrosa e nova. Você tenta encaixar sua chave, mas a porta não abre. Então você ouve passos e pela primeira vez, você a vê.

Ela abre a porta e fica diante de você incrédula. Seus olhos arregalados de horror, suas mãos tremem, você sente que ela irá gritar e por algum motivo estranho, você tem o impulso violento de tapar sua boca e entrar no apartamento. Vocês cambaleiam pra dentro, a porta se fecha. Você está grudada nela e quando a solta, ali tão de pertinho, você percebe que ela é exatamente igual a você. Não igual como são alguns parentes, ou irmãs gêmeas idênticas, mas igual como uma espécie de clone, uma espécie de duplo aprimorado de você. Você a olha por um tempo. É como olhar no fundo de um estranho espelho. Um espelho desses de distorção. Mas você é que é o reflexo tortuoso e disforme dela, a monstra, sua sombra. A pele dela é macia e lisa, sem nenhuma marca ou cicatriz. Os dentes dela são alinhados e radiantemente brancos. Os olhos dela brilham misteriosos, apesar do espanto profundo. Os cabelos dela são armados e bem cuidados, como uma juba poderosa de rainha, que faz tudo em você parecer defeituoso, ralo e sem vida. Ela não consegue olhar diretamente nos seus olhos, de tamanho horror. Logo começa a soluçar: “Eu sabia que esse dia viria, eu sabia”, ela repete baixinho. Sua voz é limpa e encorpada, mesmo que nitidamente embargada. Mas ela não consegue lhe encarar, e isso lhe deixa repugnada. Queria ao menos que ela tivesse um pouco mais de coragem, cortesia. Não deveria ser tão doloroso assim estar diante de alguém como você. “Por favor não me mate”, ela pede. “Eu não vou”, você responde, mas sua voz parece ainda mais fraca e estridente. Você observa o cômodo, todos os móveis que parecem tanto com os seus antigos móveis, porém reformados com cores extravagantes. Vê roupas e roupas que você sempre sonhou em ter, caídas sobre poltronas, quase como num descaso, em fútil abundância. As paredes da sala são cheias de espelhos grandes e dourados acompanhados de quadros modernos, ora abstratos, ora de dançarinas de ballet. Sua mesma maldita fixação com ballet. Um deles, o maior quadro, que ocupa o centro da sala, tem uma dançarina que parece muito com você, ou melhor, com ela. É como se o sonho que você teve, tantas e tantas vezes, estivesse ganhando vida diante dos seus olhos. “Eu posso lhe oferecer alguma coisa? Um chá?” ela diz, ainda assustada, ofertando uma trégua. Você faz que não com a cabeça, fazendo um esforço para não gerar mais alarde, pra ser menos ameaçadora. Ainda que saiba que apenas existir ali, diante dela, é motivo suficiente para ambas enlouquecerem. Vocês se sentam, tensas e vigilantes, no macio sofá de couro que ocupa o centro da sala, abaixo do grande quadro dela, que olhando dali parece lhe encarar. Ela puxa uma pequena garrafa, dessas de whisky que cabem numa pequena bolsa, e bebe nervosa vários goles, sem parar. Do sofá, você pode ver o longo corredor que leva a inúmeras outras portas que nunca sequer existiam no seu verdadeiro apartamento. Ela percebe seu olhar e fica envergonhada. Depois de um longo e embaraçoso silêncio, ela lhe pergunta – no que parece ser o tom mais firme que ela é capaz de conseguir: “O que você quer?”

Um milhão de respostas surgem em sua cabeça. Primeiro você sente a raiva. Quer ser violenta mesmo, espancá-la, humilhá-la, quebrar os quadros, os espelhos, os móveis, rasgar suas roupas. Quer poder arrancá-la daquela vida, pedir sua fatia daquele mundo que você tanto desejou. Despejar sobre ela toda a merda que você já viu e viveu, toda a dor e angústia que deixou marcas terríveis na sua pele, na sua alma. Explicar cada ferida, cada ressentimento, cada trauma. Perguntar quem deu o direito de que ela pudesse viver assim no seu lugar? Vocês são iguais, merda! Mas você só consegue responder uma coisa. Uma única coisa. Pra sua surpresa. Pro seu profundo espanto. Tudo se silencia em sua cabeça, e a única coisa que pode fazer, diante daquela imagem tão semelhante a você, é desejá-la. “Você”, você responde, “Eu quero você”.

Um novo fogo arde dentro de você. Você precisa devorá-la. Você abre um estranho sorriso. Pela primeira vez, ela olha no fundo dos seus olhos. Suas retinas, idênticas, refletindo uma a outra. Você percebe que ela começa a respirar mais devagar, com a boca aberta. Sua boca nunca foi tão carnuda e bonita. Ela passa os olhos pelo seu corpo, por sua boca, seu pescoço, seus peitos, sua barriga, suas mãos. Ela toca uma cicatriz em seu braço, franzindo a testa tristemente, como se pudesse sentir em si sua ferida. “Não tenha pena de mim, não é para isso que eu estou aqui”, você diz. Ela sorri pra você, você toca seu rosto macio com suas mãos ásperas, acariciando suas bochechas. Ela desce do sofá, se ajoelha. Tira os sapatos molhados que você usa, seca seus pés no próprio vestido, sujando-o, e os beija delicadamente. Sua boca é quente contra seu pé gelado. Você fecha os olhos para sentir aquele carinho tão delicado. Ela massageia sua sola, seus dedos, seu calcanhar, intercalando com beijos quentes e aveludados. Ela faz que vai começar a subir por sua perna e você a interrompe: “Eu me sinto suja”, você diz, “Eu peguei muita chuva no caminho até aqui”. “Tudo bem, vem comigo”, ela responde. Segura sua mão e te leva pelo longo corredor cheio de inúmeras portas. Você passa por diversos retratos, vê seus pais – estranhamente sorridentes e abraçados um no outro, vê sua infância – cercada de brinquedos bonitos e professoras de ballet; fotos e mais fotos familiares e, ao mesmo tempo, assustadoramente agradáveis e perfeitas. Param diante de uma porta azul turquesa que dá em um enorme banheiro de mármore – como que saído de uma revista – com uma grande banheira e uma enorme parede de espelhos. A água quente e límpida jorra pra dentro da banheira, enchendo o banheiro de uma névoa cheirosa e doce. Ela tem dificuldades de abrir o vestido justo que usa e pede sua ajuda. Você desliza o zíper por suas costas, podendo passar os dedos por sua coluna até tocar sua bunda. Ela rapidamente deixa o vestido pender no chão, seu corpo nu se revela diante de você. Por baixo da roupa, os mesmos peitos ligeiramente tortos, a mesma barriga, a mesma buceta com os mesmos pelos, as mesmíssimas coxas. Você tira rapidamente seu macacão, ficando nua também. Ela percebe a semelhança, deslumbrada. Um novo encantamento, menos perigoso, mais prazeroso, cresce em vocês. Como uma paixão narcísica esquisita. Vocês duas se olham no espelho, são uma espécie de par. Há em vocês um tipo de pertencimento.

Ela pede que você entre na banheira primeiro, a água quente toca seu corpo, aquecendo cada pedacinho de você. Você poderia ficar apenas ali, submersa, relaxada. Ela começa com uma esponja, esfregando delicadamente suas costas. Depois, com suas mãos macias, acaricia seu cabelo, massageando seu couro cabeludo. Uma espuma cheirosa escorre por seu pescoço até seus peitos. Então ela entra na banheira, sentando-se atrás de você. Encaixada em você. Você pode apoiar suas costas contra o corpo dela, sentir os bicos duros dela roçando em você. Sentir a buceta dela contra sua bunda. Relaxar seu peso nela. Por trás, ela começa descendo a mão até o seu peito. Tocando-o, segurando seu mamilo entre os dedos, apertando-o devagar. E depois com um pouco mais de força. Tudo fica cada vez mais quente, seu mamilo endurece. A outra mão dela acaricia delicada suas costas, passa pra sua barriga, a lateral da sua bunda, o interior de sua coxa, desce até sua buceta. Seus dedos tem um toque aveludado. Ela primeiro sente toda sua buceta com a palma de sua mão. Depois, dedilha devagar a entrada do canal, seus lábios, até subir pro seu clitóris. Você sente a língua dela na sua nuca, no seu pescoço, subindo pro seu ouvido. Sua boca abre devagar, um gemido tímido escapa de sua garganta. Ela fica um bom tempo no seu clitóris, tocando e tocando você de um jeito que até então apenas você sabia se tocar. Você se treme e se agita, derrubando água pra fora da banheira. Roçando sua bunda nela. Ela começa a te dedar com a outra mão. A mão no seu clitóris agora fica mais intensa, parece vibrar debaixo da água. Você vai escorregando do peito dela, seu corpo mais e mais pra dentro da água. Pode vê-la agora, quase acima de você, molhada, os cabelos escorridos, não sabe se suando ou apenas gotejando água da banheira. “Se ela quiser pode me afogar”, você pensa por terrível segundo. E se ergue. Quer encará-la de frente.

Você sobe em cima dela na banheira. Agora seu corpo está fora, sentindo o vento frio, enquanto o dela está submerso na água quente. Você chupa os seios dela, ávida, sedenta. Sentindo o mamilo molhado dela contra sua língua. Sentindo seus peitos contra seu rosto. Ela geme, geme o seu gemido. Você então mete seus dedos na buceta dela. Ali embaixo, vocês são iguaizinhas, você pode reconhecê-la como se fosse sua. Ela lhe puxa pra mais perto e beija violentamente sua boca. As línguas se batem. Você quase sufoca nela. Ela se afasta, você dá um chupão em seu pescoço deixando uma enorme marca. Ela arranha suas costas. Você a ergue, sentando-a na borda da banheira. Segura nos seus joelhos e abre as pernas dela pra você. Estão encharcadas, as duas. Você se abaixa na banheira para encaixar o seu rosto entre as pernas dela. A buceta, linda, aberta diante da sua boca. Começa a chupar sua xota quente e úmida, sente sua língua no grelo dela, seus dedos a penetram. Chupa como você sempre quis que fizessem com você. Como ela sempre quis ser chupada, amada, devorada. Você sabe. Pode sentir. Vocês querem a mesma coisa. São parte da mesma coisa, do mesmo sonho. Então mete e lambe seu clitóris, cada vez mais pulsante. Mete acariciando o interior dela, tocando seu ponto g. Ela grita de prazer. E é um pouco como se você gritasse também. Você se levanta outra vez, continuando apenas a com a mão metida nela. Ela se agarra no seu corpo, trêmula, gemendo incessantemente. Principia a dedar você, enquanto você a deda. Suas bucetas quase roçando uma na outra, quase encaixadas de frente uma pra outra. Ela te deda e toca seu grelo, você a dedando e tocando o dela. Agora ambas em pé na banheira. Sentindo o calor do próprio corpo, da própria pele. Gemem em uníssono. O mesmo som, o mesmo rosto, o mesmo prazer. Uma o eco da outra. Não são mais uma sombra, ou um clone, são metades da mesma coisa, do mesmo jarro, da mesma obra. O orgasmo arrebata as duas, num último e forte grito. Um gozo em dobro. Um alívio duplicado.

Ofegante, agora começando a sentir frio, você volta pra dentro da banheira. Ela se encaixa novamente por trás de você, retomando a acariciar seus cabelos. Você apoia a cabeça em seu peito e se permite fechar os olhos. Nunca nada foi tão doce, tão delicioso, tão íntimo. Você está quase adormecendo nos carinhos dela quando sente como se escorregasse pro fundo da banheira, batendo a cabeça na borda. Você abre os olhos, o banheiro está coberto de um vapor espesso, que dificulta sua visão. Você se levanta, puxa uma toalha. Ouve um barulho na porta. Enrola-se na toalha e cruza o corredor até a sala. Nenhum sinal dela. O grande quadro da bailarina lhe encara. O barulho fica mais alto. Algo está estranho. Você se olha no espelho, você está exatamente igual a ela. Seu cabelo mais brilhoso, sua pele mais macia, seus dentes mais brancos. Ouve batidas violentas na porta. Você abre. Vê a mulher de macacão, encharcada de chuva, os olhos cheios de raiva. É você, igual a você, só que um tanto distorcida, assustadora. Você quer gritar horrorizada, ela tapa sua boca com a mão e força a entrada no apartamento. Você quer se explicar e percebe que ela tem uma tesoura em uma das mãos. “Bem, isso é novo”, você pensa.

* * *

Ilustradora:

Rayane Damasceno

Estudante de pintura na UFRJ, artista e pesquisadora, envolvida com experimentações de diferentes materiais dentro e fora do universo artístico e agora se envolvendo com o ramo da ilustração.

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