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Três vezes Hong Kong… De novo

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Vocês absolutamente ninguém pediram, e aqui estou eu dando continuação a este post, que foi um verdadeiro fracasso sucesso. Assim, com esse humor vindo direto dos anos 2000, iniciamos mais uma giro de dicas de filmes de Hong Kong para você assistir no conforto do seu lar. Então peguem suas pistolas, bicicletas e preparem o coração para uma dose cavalar de adrenalina.

O Tempo e a Maré (2000)

O ator Nicholas Tse em uma cena "O Tempo e a Maré", um filme de Hong Kong. Nela ele está sentado, encostado em uma parede parede. Veste roupas sujas, com algumas manchas de sague e segura uma caixa de madeira. Ele aparenta estar cansado e ferido.
Pense num cara azarado, este é Nicholas Tse em “O Tempo e a Maré”

Ah, os anos 2000. Tempos mais simples, em que um belo dia você podia, bem no meio da narrativa da sua vida, descobrir que um amigo próximo é, na verdade, um assassino casca-grossa. E em consequência disso, você vai acabar tendo que proteger um bebê em meio a um tiroteio em um aeroporto cercado por policias. Se você se identificou com esta história, assista “O Tempo e a Maré”, de Tsui Hark, na Netflix. Caso contrário, assista de qualquer forma, pois o filme é realmente muito bom.

Once a Gangster (2010)

Em primeiro plano vemos os atores Ekin Cheng e Jordan Chan, que tem o rosto e camisa respingados de sangue. Já em segundo plano, um pouco desfocado, estão alguns outros homens, provavelmente membros de gangs. O local parece ser um túnel ou uma passarela subterrânea.
“O que que queremos!?”, “Não ser líderes da Tríade!”

Com certeza, você já assistiu muitos filmes de gangsters em que sujeitos disputam para saber quem vai ser o manda chuva, o poderoso chefão. Mas em quantos deles os principais candidatos a vaga não querem o título de capo di tutti capi e, estão dispostos a tudo para que isso não aconteça? Se não conhece nenhum, assista já “Once a Gangster”, de Felix Chong. Dessa forma, você poderá adicionar mais uma obra a sua lista de filmes com plot improváveis assistidos em 2021. Esta comédia, que conta com Jordan Chan, Ekin Cheng, Michelle Ye e cia, pode ser assistida também na Netflix.

To the Fore (2015)

Eddie Peng e Jeong Ji-Won, em cena do filme To the Fore. Nela, os dois estão montados em uma bicicleta e usam roupas azuis de uma equipe de ciclismo. Ao fundo mais três membros da equipe. AO longe ainda se pode ver, meio desfocada, uma montanha, eles parecem estar parados em um lugar alto, como uma serra ou a subida de uma colina
Este filme exala “bros before hoes”, mas é legal… dá uma chance

Se no post anterior eu indiquei um filme de bombeiros fazendo coisas de bombeiros, vem aí… Ciclistas fazendo coisas de ciclistas. Em “To the Fore”, de Dante Lam, vemos a história dos amigos e rivais Qiu Ming (Eddie Peng) e Jeong Ji-Won (Si Won Choi). Neste universo inusitado (o mundo do ciclismo competitivo), você irá se deparar com uma clássica história de ascensão, queda e redenção, mas ao melhor estilo de Hong Kong. Ah, novamente, filme disponível na Netflix.

Yuen Biao, Jackie Chan e Sammo Hung em uma cena de algum filme de Hong Kong. Os três parecem ter levado uma surra, estão sentados diante de um balcão de um bar, cada um com um copo de leite diante de si. Os três homens têm uma expressão de chateação e cansaço no rosto.
Acho que Yuen Biao, Jackie e Sammo Hung não aguentam mais esses posts

Este não é o cinema honconguês que vocês querem, mas aquele que vocês merecem. E não digo isso de forma pejorativa, de forma alguma. Estes são filmes bacanas, com muitas qualidades. Além, é claro, de serem divertidos pra caramba. Então, é isso. Quem sabe quando Yuen Biao, Jackie e Sammo Hung se recuperarem, eu faço uma parte três desta série.

One Piece: os bons, os maus e os feios

Há certa dificuldade em se escrever sobre animes derivados de mangás e vice-versa, uma vez que, apesar de serem adaptações, as particularidades do sistema de produção dos estúdios de animação japoneses e de editoras de mangá podem resultar em diversos graus de distanciamento ou aproximação entre a adaptação e original. Os motivos são muitos: questões mercadológicas, escolhas artísticas, fatores externos etc.

Assim, existem casos, como os dos filmes de Ghost in the Shell, em que há tantas distinções estéticas e de tom entre obra original e animação que facilmente se pode abordar um sem se referir a outra. Porém há também casos como o de “One Piece”, que apesar de conter modificações em relação a história original, se mantém muito próximos aos mangás no que diz respeito a narrativa, temas e, em certa medida, estética. Dessa forma, a dificuldade que se coloca é que é muito complicado falar de um sem estar de alguma forma se referindo ao outro. Por isso, eu mencionarei o criador da obra original muito mais do que o recomendado. Pois o universo de “One Piece” parece “pertencer” mais ao seu mangaká do que os diferentes diretores que assumiram o controle da série ao longo dos anos.

Ao vermos um bando tão imperfeito, disfuncional e cômico derrotando tantos tiranos, corsários e autoridades, e outros inimigos ameaçadores, somos obrigados a ver o quão tolo é desejo destes pelo poder e pela riqueza, uma vez que são conquistas tão frágeis. Ou quando nos damos conta que os bufões podem ser mais justos, sábios e trágicos que reis, somos obrigados colocar em dúvidas certas certezas e verdades imutáveis.

Originalmente criado por Eiichiro Oda, “One Piece” começou a ser publicado em 1997, na Weekly Shonen Jump. A obra foi adaptada para animação pela Toei Animation e teve sua estreia em 1999. Como se pode deduzir pelo nome da revista na qual foi originalmente publicado, tanto o anime quanto o mangá se tratam de um shounen — uma categorização demográfica que tem implicações mercadológicas, estilísticas e narrativas. Porém, mesmo estando sujeito a certos lugares comum deste “gênero”, a história do “pirata que estica” é dotada de uma riqueza muito própria. É justamente sobres algumas destas particularidades que eu gostaria de me ater.

Em busca de One Piece

Antes de mais nada, do que se trata a história do mangá/anime. No princípio, tudo se apresenta de forma muito simples, Luffy quer ser o rei dos piratas e, para isso, ele deve encontrar o One Piece, o lendário tesouro, que foi escondido pelo antigo detentor do título, Gol D. Roger. Sem dúvida há certa megalomania neste objetivo, mas nada que se afaste das convenções dos shounen, onde frequentemente há uma busca por ser o “maior alguma coisa”. Outra característica compartilhada com outros exemplares do “gênero” é o apelo a valores, conceitos e sentimentos universais como a perseverança, a amizade e a justiça. É justamente sobre esta última que pretendo discutir.

Um navio navega em direção a um gigantesco portão, ao fundo uma construção é parcialmente ocultada pela névoa.
Um dos Portões da Justiça

Aqui está um ponto que torna a obra de Eiichiro Oda tão fascinante. Ao tomar como protagonistas um pirata e seu bando, o mangaká já nos coloca algumas questões. O fato dos heróis de Oda serem fora-da-lei é um dado digno de nota. Esta escolha não só coloca em cheque um ideal de uma justiça absoluta, como serve como ponto de partida para entender o quão complexos podem ser alguns aspectos do anime. Para entender melhor este ponto, tomemos como exemplos as sagas de Alabasta e Water 7.

Alabasta

Logo no começo de Alabasta, somos apresentados ao Baroque Works uma organização secreta formada por caçadores de recompensa, todos especializados em capturar (vivos ou mortos) criminosos procurados pela marinha. Porém no decorrer dos episódios, descobrimos que, na verdade, tudo não passa de uma fachada para atividades ilegais de seu misterioso líder, Mister 0. Mas este na verdade é Crocodile, um shichibukai (algo bem próximo dos corsários históricos) e herói para a população de Alabasta. Esta vida dupla, este jogo de máscaras não é uma exclusividade deste personagem, mas uma constante na obra e está ligada a uma outra ideia central de “One Piece”: a farsa.

Um homem alto, que segura um charuto, no lugar de sua outra mão há um grande gancho dourado. Ele tem um cicatriz horizontal que que atravessa toda a sua face e veste roupas finas sob um sobretudo longo e pomposo.
Crocodile
Uma mulher jovem de cabelos azuis, ela tem a mão apoiada sob o queixo de forma pensativa
Nefertari Vivi
Todos os 11 principais integrantes do Barroque Works. Crocodile incluso.
Os membros mais poderosos do Baroque Works

Tomar alguém por outra pessoa, falhas de comunicação, erros de interpretação e mentiras têm consequências tanto cômicas quanto trágicas nesta saga e na obra como um todo. É um engano que causou a guerra civil que ameaça a unidade do reino de Alabasta. É como Miss Wednesday que a princesa Vivi consegue se infiltrar na Baroque Works. Até mesmo o poder de Mister 2 de se transformar em qualquer pessoa obedece a esta lógica de parecer algo que não é. Graças a essas confusões o “mau” pode ser passar por “bom”, e o “bom” ser confundido com o “mau”. Mas se em “One Piece” o erro e o engano são a causa de todo o mal, a verdade e o esclarecer se tornam poderosas armas. Isso fica claro em Water 7.

Water 7

Em Water 7, descobrimos mais do passado de Nico Robin — que entrou no bando dos Chapéu de Palha justamente na saga de Alabasta. Conhecida pela alcunha de “Demônio de Ohara”, ela é perseguida desde os oito anos pelo governo, não por algum crime que tenha cometido, mas por saber demais. No universo do anime, parte da História daquele mundo é desconhecido, e qualquer tentativa de decifrá-lo é considerada um crime pelo Governo Mundial. Como arqueóloga, Robin é uma ameaça em potencial.

Uma mulher de cabelos pretos, olhos amendoados e nariz fino e um pouco pontudo. Seus traços remetem a uma figura egípcia.
Nico Robin, arqueóloga

Assim, em Water 7, o conhecimento é mostrado como uma arma de uma forma quase que literal — não tem como assistir a esta parte do anime sem fazer algumas conexões com as bombas atômicas. De qualquer forma, aqui também há procedimentos narrativos relacionados a troca de indenidade, enganos etc. Mas é a verdade que resolve (provisoriamente) os conflitos. Novamente há a atuação de um grupo secreto, mas agora relacionados ao governo. O CP9 é formado por agentes do governo que têm permissão para matar — sim, igual a certo espião britânico. Isto está relacionado a um outro ponto que gostaria de mencionar, a relação de “One Piece” com gêneros e arquétipos de personagens preexistentes.

Alguns procedimentos de One Piece

Como já havia mencionado, Alabasta e Water 7 apresentam algumas semelhanças com filmes, livros e mangás de espionagem. Em ambas as sagas, se pode observar a existência de traidores, agentes duplos, infiltrados, planos mirabolantes e, principalmente, de uma conspiração. No anime como um todo, estas conspirações estão relacionadas a uma tentativa de tomada de poder ou a uma forma manter uma coletividade sob uma autoridade despótica.

Vivi e Karoo, um pato de proporções quase humanas, estendem os punhos cerrados para em direção a um navio que se afasta no horizonte. No céu, em uma imagem sobreposta, temos a imagem de Zoro, Chopper, Usopp, Luffy, Nami e Sanji de costas fazendo o mesmo gesto. No braço e na asa do pato se vê um x desenhado.
Vivi e Karoo se despedem dos Chapéu de Palha

Em muitas situações, Luffy e seu bando agem, nem sempre por querer, como libertadores ou rebeldes. Isso é bastante familiar com a figura do pistoleiro errante do faroeste ou a do ronin em alguns filmes de samurai. Estes personagens, mesmo que marginais ou criminosos, acabam libertando uma população de facínoras. Aqui cito exemplos óbvios, como “O Estranho sem Nome” (1973) de Clint Eastwood , “Os Sete Samurais” (1974) ou “Yojimbo – O Guarda-Costas” (1961) de Akira Kurosawa — diretor muito influenciado pelos faroestes.

Pôster do filme estranho sem nome, nele vemos Clint segurando uma pistola e um chicote, próximo a ele o título do filme é exibido como em uma placa de madeira.
Pôster de “O Estranho sem Nome”
Poster que apresenta uma colina de fundo e, em primeiro plano, diversos personagens do filme.
Pôster de “Os Sete Samurais”

Obviamente, podemos também ver semelhanças entre “One Piece” e obras de aventura, de capa e espada, e até épicos. A cada ilha, os personagens do anime se deparam com criaturas e povos diferentes: homens-peixe, monstros marítimos, gigantes etc. Aqui podemos observar ecos de uma “Odisseia” ou um “As Viagens de Gulliver”. Até mesmo a existência de uma cidade acima das nuvens ou humanos de três metros podem estar relacionados a textos religiosos, as lendas e a eventos históricos.

Dois seres gigantescos sentado um do lado do outro, eles tem os braços cruzados e estão sorridentes. Sobre o ombro de um e na cabeça e braço do outro vemos alguns personagens bem pequenos em relação a eles. No fundo vemos uma floresta e um vulcão que solta fumaça.
Os gigantes Broggy e Dorry
Um ser azul metade homem metade tubarão baleia. Ele veste um quimono, uma capa e faz uma posição de luta;
Jinbe, homem-peixe e timoneiro dos Chapéu de Palha
Uma árvore gigantesca bem no meio de uma ilha.
A Árvore do Conhecimento, que nos remete tanto a Bíblia quanto a Biblioteca de Alexandria

Muito ainda poderia ser escrito sobre esse tema, mas me contentarei em mencionar que, por ser uma obra também de comédia, “One Piece” se relaciona muito bem com convenções desse gênero, se utilizando de gags físicas, do exagero, da repetição, dos já mencionados enganos etc. Porém estes mecanismos não são os únicos elementos que o anime compartilha com a longa linhagem do humor. Ao vermos um bando tão imperfeito, disfuncional e cômico derrotando tantos tiranos, corsários, autoridades e outros inimigos ameaçadores, somos obrigados a ver o quão tolo é o desejo destes pelo poder e pela riqueza, uma vez que são conquistas tão frágeis. Ou quando nos damos conta que os bufões podem ser mais justos, sábios e trágicos que reis, somos obrigados colocar em dúvidas certas certezas e verdades imutáveis.

A Jornada continua

Como se pode notar, Oda é muito feliz em fazer convergir em um universo consistente tantos elementos de fontes e imaginários díspares. Talvez este seja o segredo da longevidade e popularidade de “One Piece”, esconder sua complexidade sob uma aparente simplicidade. Contando com mais de 900 episódios, o anime está em andamento. No Brasil, o anime pode ser assistido na Netflix e na Crunchyroll.

Hacksmith Industries: Tornando seus sonhos em realidade

Hobbies são aquelas atividades extras em que investimos dinheiro, tempo e dedicação pelo mero prazer de fazer, sem ter retorno financeiro. São coleções de selos e moedas ou aqueles dioramas de batalhas da segunda guerra. Porém os engenheiros do canal Hacksmith Industries, elevaram essa atividade para outro nível: ao invés de maquetes, por que não construir gadgets de filmes e jogos?

Criado em 2015 pelo engenheiro canadense James Hobson, o canal começou realmente como um grande hobby de garagem. Grande na complexidade, já que seus primeiros projetos eram menores e mais portáteis, tais como: uma reprodução das garras do Wolverine, ou uma coleção de diferentes Baterangues do Batman:

Anos mais tarde os projetos cresceram, deixaram a garagem de James para serem abrigados no armazém do canal. Os desafios aumentaram mas o objetivo continuou o mesmo: a prova de que tudo, ou melhor, quase tudo é possível graças a ciência e a tecnologia. Sendo assim aqui vai um pequeno compilado de alguns dos projetos mirabolantes que James e sua empresa já realizaram:

Bem, pra começar, o canal é bastante conhecido por testar, atualizar e até usar seus projetos de cobaia para outros projetos. Um gadget da ficção que não passou longe disso foi o escudo do Capitão América. Primeiro ele foi construído em sua versão mais conhecida, com a estrela, a pintura e de quebra um eletroímã para prende-lo no braço. Porém a versão mais realista que a Hacksmith constriu foi sua versão Wakandana usado pelo herói em Guerra Infinita (2018):

Saindo do mundo dos filmes, o canal também chegou a brincar com algumas franquias de jogos, recriando armas e gadgets de Rainbow Six, Mass Effect, entre outros. Porém o game que teve mais a atenção dos engenheiros da Hacksmith com certeza foi Overwatch – no qual foram recriados quatro peças diferentes: O martelo do Reinhardt, o punho do Doomfist, o Aniquilador Endotérmico da Mei e o Canhão de Partículas da Zarya:

De longe uma das séries de vídeos mais conhecidas do canal foi a da construção de um sabre de luz real. Ao longo dos últimos quatro anos, o canal entrou em uma grande saga ao se propor o desafio de tentar reproduz tal elegante arma. O resultado disso foram algumas versões, cada uma usando uma tecnologia diferente para reproduzir o efeito das espadas de Star Wars. Porém a mais próxima da ficção e a mais cientificamente acurada foi criada somente no ano passado:

Além da criação de objetos baseados na ficção, existem alguns experimentos feitos simplesmente pelo questionamento de “por que não fazer isso?”. Entre eles estão a reprodução, igualmente forte e desproporcionalmente pequena da picape Cyberpunk da Tesla:

O canhão de bolas de basebol mais potente do mundo:

Ou quem sabe um canhão de plasma gigante:

Bem é isso, vale dar uma olhada no canal para mais conteúdos científicos e tecnológicos. E você? já teve algum gadget da ficção que você sempre quis ter na vida real? escreva nos comentários.

A “velha guarda” da crítica vai ao YouTube

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Se seu crítico da velha guarda favorito ainda não está no YouTube, prepare caneta, papel de carta e peça que ele, assim que possível, crie seu próprio canal. Brincadeiras à parte, recentemente encontrei, meio ao acaso, dois canais em que críticos experientes falam sobre aquilo que sabem melhor: cinema.

Histórias de Cinema

Inácio Araújo, se destaca entre os críticos, sempre escrevendo de forma leve e convidativa — algo que pode ser observado em seus blogs, já há muito falecidos (este e este), e nas suas críticas na Folha. Mas, agora, no “Viva Voz” que pode ser assistido no canal “Histórias de Cinema”, você poderá vê-lo e ouvi-lo dar dicas de filmes disponíveis nos mais diversos streamings. Aliás, um dado interessante, Inácio não só escreveu sobre, como também chegou a fazer cinema. Recomendo muito essa entrevista em que ele fala mais sobre isso.

Sérgio Alpendre

Imagem de uma das lives do canal do crítico, a esquerda Aloíso Corrêa e a direita Sérgio Alpendre.
Infelizmente não vai dar para colocar um vídeo aqui, mas deem uma olhada no canal que é muito bom

Em seu canal, Sérgio Alpendre vai numa direção um pouco diferente. Além de fazer vídeos mais longos, no formato de lives, ele conta com um interlocutor, Aloísio Corrêa, com quem tem ótimas bate-papos sobre cinema. No canal já se falou sobre festivais, filmes e diretores diversos. Deixo também como recomendação o blog do crítico, que apesar de não ter muita frequência de publicações, vale muito a pena estar nos seus favoritos.

Foto do de um dos críticos mais importantes da história do cinema, o francês André Bazin. Na imagem o crítico sorri, segura uma câmera portátil e tem o braço esticado para fora do enquadramento.
Uma foto aleatória do André Bazin para encerar o texto.

E é isso pessoal. Apesar de curtinha, eu queria escrever esta pílula para indicar estes dois canais para aqueles que gostam de cinema. Mais uma coisa, sei que não sou dessas coisas, mas gostaria de fazer um pedido: caso alguém conheça outros canais de críticos, deixem os nomes nos comentários.

Scanners: Sua Mente Pode Destruir

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O que se segue são anotações de algo não terminado. O tema, como o título sugere, é o filme “Scanners: Sua Mente Pode Destruir” (1981) de David Cronenberg. Devido a sua natureza embrionária, as ideias e reflexões que virão podem parecer um tanto desconexas ou inconclusivas, nos levando a verdadeiros becos sem saída retóricos. Mesmo assim, depois de dar voltas e voltas no mesmo lugar, preferi publicar o texto tal como está — uma forma de liberar espaço em minha mente e de por um ponto final, ainda que momentâneo, nesta questão.

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“Scanners” é um exemplar curioso na obra de David Cronenberg, apesar de muito lembrado e cultuado, não parece ser tão bem avaliado ou reconhecido quanto merece. Talvez isso se dê por sua aparente despretensão e convencionalidade, ou por ser mais comportado do que outros filmes do diretor — principalmente quando pensamos em seus trabalhos entre os anos 70 e 90. Apesar disso, ou talvez, justamente por isso, vejo tantos elementos interessantes nesse filme.

Poster clássico de Scanners, onde há um desenho do personagem Michael Ironside com os olhos totalmente brancos e com diversas veias saltando ao longo do corpo
Material publicitário de Scanners

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O cinema de Cronenberg sempre foi muito associado a dicotomia corpo-mente, e há uma boa razão para isso. Seus primeiros filmes — aqui incluo seus curtas “Transfer” (1966) e “From the Drain” (1967) — parecem transitar entre esses dois polos temáticos. Mesmo em filmes como “Calafrios” (1975) e “Enraivecida na Fúria do Sexo” (1977), em que a matéria parece dominar a mente, ainda que indiretamente, está lá — evidenciada pela sua submissão aos transtornos físicos, pela perda da razão. Mas é em “Transfer” e “From the Draim” e, principalmente, em “Stereo” (1969), que a mente humana e sua influência na forma de apreensão do mundo externo pelos indivíduos são abordados de forma mais direta. Desta forma, estes últimos estão bem mais próximos de “Scanners”.

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Em “Stereo”, aliás, há muitos elementos que reaparecerão em “Scanners”. Entre eles, os mais óbvios, como a presença de poderes telepáticos ou a reutilização de ideias ou situações similares. Porém, estas semelhanças vão além disso. Tanto no longa de 69 quanto no de 81, há uma relação entre médico/pesquisador com paciente/cobaia em que a linha divisória entre as partes são borradas. Em “Stereo” — que simula um registro em vídeo de uma pesquisa —, para melhor entender a natureza dos poderes das cobaias, os pesquisadores/terapeutas são incentivados a ter relações com os cobaias/pacientes. Já em “Scanners”, esta relação se dá de outra forma.

Cena de Scanners em que o ator Patrick McGoohan olha para alguém fora de quadro, o fundo está desfocada.
Patrick McGoohan como Dr. Paul Ruth
Stephen Lack, em uma cena de Scanners. Ele olha muito sério para alguém ou algo fora de quadro.
Stephen Lack como Cameron Vale
Michael Ironside como Darryl Revok

No caso do Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan), ele não só é pai de Cameron Vale (Stephen Lack) e Darryl Revok (Michael Ironside) como usou o efemerol, componente que causou o surgimento dos scanners, em sua própria esposa. Este é um ponto interessante, se pensarmos bem, Paul Ruth parece estar de alguma forma relacionado de uma figura recorrente no imaginário do Sci-fi e em alguns filmes do próprio Cronenberg: o do cientista maluco e megalomaníaco ou do “Prometeu moderno” — algo que é mencionado brevemente neste texto de Sergio Alpendre e em outros trabalhos dedicados a obra do cineasta. Assim, como não lembrar do Dr. Hal Raglan (Oliver Reed) em “Os Filhos do Medo” (1979), de Seth Bundler (Jeff Goldblum) em “A Mosca” (1986) ou Brian O’Blivion (Jack Creley) de “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” (1983). Nestes personagens há uma busca quase messiânica pelo futuro, pelo amanhã. Na verdade, podemos ver tais características até mesmo em um personagem como Vaughan (Elias Koteas) de “Crash – Estranhos Prazeres” (1996).

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Mas por outro lado, em “Scanners” também há Kim Obrist (Jennifer O’Neill) e sua abordagem terapêutica baseada na integração e na busca de um autoconhecimento por meio de “uma união com o todo”. Ela, como uma scanners, busca criar uma comunidade de ajuda mútua. Dessa forma, já podemos ver um quadro um pouco mais complexo daquele que se poderia supor a primeira vista. Em “Scanners” existe um “subterrâneo“, um submundo scanner, em que diversos grupos, com diferentes objetivos coexistem e, volta e meia, se confrontam.

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Em “Scanners” também se pode observar uma atmosfera de paranoia e conspiração, logo no início vemos Vale maltrapilho entrando em um Shopping em busca de restos de comida. Logo, nos é revelado que ele é dotado de poderes paranormais e em consequência disso ele é capturado por dois sujeitos misteriosos vestindo sobretudo. Nesta primeira cena do filme, em poucos minutos, nos sentimos em um terreno pantanoso. No decorrer da narrativa isso é uma constante, uma informação que obtivemos anteriormente ou são negadas, ou são substituídas por outras que virão.

Cena de Scanners em que dr. Paul Ruth de olhos fechados e com as mãos tapando os ouvidos tenta controlar seus pensamentos, atrás dele Braedon Keller aponta uma arma em direção dele
Braedon Keller (Lawrence Dane) vs. Paul Ruth

Outro elemento interessante é como este momento foi pensado pelo cineasta. Nesta cena notamos dois grupos de indivíduos muitos distintos: aqueles que conhecem e aqueles que desconhecem a existência dos scanners. Assim, há no longa uma verdade que é mantida em segredo e que só é conhecida por poucos indivíduos, ainda que de forma parcial e fragmentada.

Trecho da cena inicial de “Scanners”

Aqui fazemos um retorno a ideia de um “underground”, representado neste submundo de telepatas. Em “Scanners”, assim como em outros filmes de Cronenberg observa-se um mundo “subterrâneo” em que existem grupos, cultos, segredos ou acontecimentos que grande parte sociedade não tem conhecimento. Na verdade, se pensarmos o inconsciente, outra ideia muito presente no trabalho do cineasta, como um prolongamento desta ideia, podemos admitir que boa parte da obra do diretor gira em torno do que é oculto, secreto e desconhecido.

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Mas se há o desconhecido, há também a curiosidade e a vontade de entendê-lo e controlá-lo. Em “Scanners”, ao acidentalmente se dar conta que todas potencialidades do ser humano não foram alcançadas, uma vez que uma substância química foi capaz dotar alguns indivíduos com habilidades antes inimagináveis, inicia-se uma guerra pelo controle desse poder desconhecido. Mas há muitos “lados” e interesses envolvidos.

Darryl Revok, vilão de Scanners, em um vídeo antigo em preto e branco. Em sua testa há uma grande ferida.
Darryl Revok quando ainda era um dos pacientes do Dr. Paul Ruth

Não irei muito a fundo neste ponto. No entanto, o que vale destacar é esse ir em direção ao desconhecido não é algo exclusivo deste filme. Podemos ver isso, em maior ou menor grau, em outros filmes de Cronenberg. Mas o mais interessante é que nem sempre os protagonistas são os que originalmente empreendem esta busca. As vezes eles são vítimas desta, em outras acabam participando, meio ao acaso, sem nem ao menos compreender de fato o que tudo aquilo significa. Cameron Vale, o protagonista de “Scanners”, é um exemplo perfeito, ele parece unir os dois mundos.

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Outro ponto pacífico em relação a obra de Cronenberg são as transformações e/ou mudanças físico-psicológicas pelos quais alguns personagens passam ao longo de seus filmes. Geralmente isso se dá devido a um trauma físico ou psicológico, sejam eles acidentais ou não. No entanto, o que é praticamente certo é que uma vez que esses processos se iniciam, eles evoluem independente da vontade dos indivíduos. Uma vez afastados da “normalidade”, os personagens passam a perceber o mundo ao redor ou eles mesmo de outra forma — as vezes, inclusive, tendo sua forma de entender e apreender a realidade alterada.

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Há uma particularidade em “Scanners” que parece afastá-lo dessa ideia: Cameron desde o início sabe que não é “normal”. Suas habilidades já são de seu conhecimento, ainda que não compreendidas. No entanto, ao desenvolve-las, ao usá-las em suas investigações ou no combate a Revok, tudo o que ele acreditava como certo é posto em xeque, inclusive sua própria identidade. Algo que é levado as últimas consequências quando, após um longo embate telepático, Vale se apossa do corpo de Revok — e mais uma vez a dualidade corpo-mente é colocada em jogo, mas aqui o corpo é posto como um tipo de hardware, um suporte para a mente.

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Os personagens de Cronenberg são enigmas, suas motivações não parecem ser tão claras. Eles agem quase como uma engrenagem em um plano maior. Isso pode ser observado em “Scanners” e, de certa forma, até em filmes mais recentes como “Mapas para as Estrelas” (2014). Nos longas do diretor, o rumo das coisas nem sempre pode ser previsto. Os personagens, guiados por suas curiosidades, parecem ser submetidos a uma sucessão de acontecimentos e descobertas.

Close nos olhos de Michael Ironside
“Nós vencemos!”

Cameron Vale, por exemplo, vai de uma lado para o outro tentado seguir os rastros de Revok, mas acaba encontrando peças de um quebra-cabeça muito mais complexo. Em boa parte do filme o protagonista está a um passo atrás de seu adversário. Lentamente, ele é conduzido para uma armadilha. Crendo ser agente, ele na verdade é um fantoche. Assim, como outros personagens de Cronenberg, ele é levado por uma rede intricada de acontecimentos.

* * *

Como dito anteriormente, estes são fragmentos de um texto não finalizado. Mas, se pensarmos nele apenas como uma tentativa de dar forma a alguns pensamentos soltos, quase como um tatear no escuro tentando encontrar algo que valha a pena, acredito ele que não é de todo mal.

Jogos para jogar junto (mesmo separado) – Parte 2

Entre amigos nem sempre tudo são flores, algumas vezes é necessário resolver os estresses e as desavenças de forma saudável: caindo na porradaria franca. Porém como essa opção não é tão socialmente aceitável, existe sempre a alternativa catártica e bem divertida dos jogos eletrônicos. Já que em um texto anterior indiquei jogos co-op que podem ser jogados juntos mesmo a distância, aqui vão alguns jogos competitivos da mesma categoria.

Feito com personagens de “bonecos de palito”, “Stick Fight” é um jogo que promete altas cenas de luta com resultados altamente questionáveis. Nele, você e seus outros 3 competidores têm que sobreviver ao máximo de mapas possíveis, num esquema de quem sobra por ultimo leva.

É um jogo infinito, cheio de possibilidades, em que, muito provavelmente, você vai pedir replay para saber de que forma você realmente perdeu. E o melhor de tudo, é o arsenal, que vai desde pistolas e fuzis conhecidos até armas que lançam cobras e um canhão de buraco negro.

Ainda no gênero de plataforma, “Brawlhalla” é um jogo que lembra muito os arcades de luta antigos no estilo de combate. Basicamente você tem que tentar derrubar seus oponentes até que as vidas deles acabem.

A grande semelhança com os jogos de lutinha está no fato de que para ganhar, você precisa fazer combinações de golpes que mandem seu oponente para fora do mapa. Além disso, você conta com várias armas que surgem para te auxiliar.

Vale citar também, que assim como o Fortnite, o jogo tem várias skins de personagens de outros universos: Rayman, Finn e Jake de Hora de Aventura (2010-2018) e até mesmo The Rock e John Cena entre vários outros.

Indo para uma mecânica mais complexa e uma aparência mais fofinha, “Gang Beasts” é um jogo com praticamente as mesmas características dos anteriores. Porém com três diferenças: não existem armas, os cenários são 3D e os personagens são flácidos.

Enquanto em outros jogos, o sangue nos olhos nos leva a cair na porrada imediatamente. Em Gang Beasts é preciso uma estratégia para tentar arrancar o adversário do lugar e jogá-lo para fora. Algo que custa tempo e raciocínio, mas que gera cenas engraçadíssimas de personagens em posições desconfortáveis.

Falando em estética fofa, “TowerFall Ascension” é um jogo que mistura estratégia e desespero a um visual pixelado. Nele, você está em uma disputa de arco e flecha com seus oponentes, em que cada tiro é um hit kill.

Além disso, cada mapa traz suas particularidades, que podem te ajudar ou desfavorecer. Há também os baús que trazem feitiços, flechas explosivas, entre outras coisas. No final, quem levar a maior quantidade de partidas ganha.

Por último e não menos desesperador, “Lethal League” é um jogo que segue o mesmo princípio da queimada. Nele, você deve deve atingir seu adversário com uma bola (semelhante a de basebol) para queimá-lo.

Porém cada vez que alguém acerta na bola, ela ganha mais velocidade, chegando a um ponto em que é impossível visualizá-la e, muito menos, atingi-la. Quem levar quatro vitórias em uma partida ganha.

Vale também dar uma olhada na sequência “Lethal League Blaze”.

E aí, o que achou? Gostou das dicas? Já conhecia algum desses jogos?

Clipes vindos direto do espaço sideral

Não, você não está no passado, nem tendo um déjà-vu. O fato de você estar lendo outra pílula minha que envolve música, videoclipes e horas gastas no YouTube é mera consciência (a.k.a falta de imaginação). No entanto, diferente do meu outro texto, a proposta é diferente. Hoje, vou indicar — ao melhor estilo MTV — clipes irados, com um pequeno detalhe: todos têm alguma relação com a ficção científica ou com o Espaço Sideral.

One More Time – Daft Punk

O clipe de “One More Time” do Daft Punk é foda. A faixa faz parte do álbum “Discovery” de 2001, que inclusive deu origem ao longa de animação “Interstella 5555″ (2003). O filme contou com a supervisão do lendário Leiji Matsumoto — criador do mangá e do anime “Patrulha Estelar”. Quando eu era mais novo, esse clipe era onipresente, não importa quando eu ligasse a TV, lá estava ele com sua animação incrível (tinha dedo da Toei, né?), seus elementos de Space Opera e seu refrão grudento. Não tinha como não assistir até o final.

I Believe in a Thing Called Love – The Darkness

Confesso que nunca conheci a fundo a banda, na verdade, esse clipe foi o único contato com ela. Mas que contato. Nada nesse clipe faz sentido, a começar do por quê diabos eles estão no Espaço? Nada disso parece se quer remeter a uma “coisa chamada amor”. No entanto, apesar (ou justamente por isso) das guitarras que soltam laser, de um alienígena furry e de toda breguice; o videoclipe de “I Believe in a Thing Called Love” do The Darkness é fascinante — embora não tenha tanta certeza se no bom sentido.

Amerika – Rammstein

Nunca entendi como o Rammstein conseguiu atingir um relativo sucesso mundial. Não que eu não curta as músicas dos caras. Mas uma banda de metal industrial, que tem seu repertório quase que totalmente cantado em alemão não parece ser a fórmula do sucesso. De qualquer forma, lembro de ver esse clipe pela primeira vez na MTV, e vou confessar, foi amor a primeira vista. Não tenho muito mais a dizer sobre. A letra, as imagens e a própria concepção do clipe de “Amerika” deixam claro sobre o que a música fala.

Faixa Bônus: Astronauta de Mármore – Nenhum de Nós

Como falar de videoclipes que se relacionam com Espaço Sideral, vida alienígena etc., e não falar do clipe “Astronauta de Mármore” do Nenhum de Nós? Essa versão nacional de “Starman” de David Bowie é surpreendentemente boa (ok, pelo menos pra mim). Embora os efeitos especiais possam estar ultrapassados (talvez até mesmo para a época), acho algumas soluções bem legais e enxergo méritos neste vídeo.

David Bowie canta em um microfone.
“Sempre estar lá, e ver ele voltar. Não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar”

Essa é uma lista bem descompromissada com alguns clipes que me marcaram ao longo da vida, seja pelos aspectos visuais, seja pelo fator diversão ou nostalgia. Enquanto buscava estes clipes pelo YouTube a fora, encontrei diversos outros que poderiam render outro texto. Quem sabe, no futuro eu faça outras listas como esta, com outras temáticas e propostas. No entanto, isso fica para outra hora (talvez).

Ouvidos pensantes: qual a relação entre som, meio ambiente e saúde mental?

As experiências de imersão nunca foram novidade para aqueles que mesmo vivendo na cidade se permitem fazer uma trilha na floresta. Esse contraste de espaços possibilita consciência a respeito daquilo que nos afeta. No caminho diante dos aromas de um ar puro e as cores da vegetação, nos deparamos com a riqueza de sonoridades. Essa experiência entorpece os sentidos de novas percepções e demonstra um corpo imerso em um espaço natural.

Para além das dualidades entre o pensamento científico e exotérico estão os indícios daqueles que por anos vivenciaram de forma sensível as percepções desses ambientes. Quem caminha na floresta claramente percebe mudanças significativas no estado psíquico. Meditar diante do som das ondas é algo usual e já durante o século XVIII era receitado por médicos que encaminhavam seus pacientes com problemas psicológicos para as chamadas terapias de banho, ministradas por clinicas localizadas próximas ao oceano, como afirma a professora Lora Fleming do European Centre for Environment and Human Health and chair of oceans.

Com o tempo a ciência avança e com ela as tecnologias que possibilitam comprovar o funcionamento do cérebro diante de circunstâncias ambientais. Afinal, há pouco mais de um século, o ser humano se entorpeceu das paisagens sonoras ruidosas e artificias geradas pelas cidades que se expandem exponencialmente.

Até então as consequências disso diante da psique humana pouco foram aprofundadas. Mas atualmente é amplamente discutido a necessidade de cuidar da mente e a importância do contato com a natureza. Sobretudo pensemos naqueles que enfrentam questões como barreiras socioeconômicas, privação da liberdade, problemas de locomoção, ou os hospitalizados. Esses certamente não podem usufruir dos benefícios de uma caminhada na floresta. Pelo contrário, tais fatores limitantes que impedem o deslocamento de parcela da população podem resultar em consequências como distúrbios psicológicos, ansiedade, depressão e as diversas síndromes relacionadas.

‘Cathedral Pattern’ de Mark Ware – arte inspirada na natureza.

Foi pensando nisso que a equipe britânica da BSMS em colaboração com o artista audiovisual Mark Ware desenvolveram um estudo cujo objetivo foi entender como o som de fontes naturais em contraste como os de fontes artificiais afetam corpo e mente dos participantes selecionados.

Um experimento que consiste na submissão do participante a ouvir paisagens sonoras gravadas em ambientes selvagens e em ambientes urbanos. Enquanto a atividade cerebral foi medida em scanner de ressonância magnética, a atividade do sistema nervoso autônomo foi monitorada por meio de mudanças minuciosas na frequência cardíaca.

Investigações de ressonância magnética em sons naturais versus artificiais conduzidas na Universidade de Sussex. Foto © Mark Ware

Ao término do experimento uma importante confirmação foi feita pela equipe. A atividade na rede de modo padrão do cérebro – um conjunto de áreas em atividade quando estamos descansando – era diferente dependendo do som ambiente. Ou seja, ao ouvir sons naturais a conectividade do cérebro refletia um foco de atenção voltada para fora. Por outro lado, ao ouvir sons artificiais, a conectividade do cérebro refletia um foco de atenção direcionada para dentro, semelhante aos estados observados na ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e depressão. Em relação ao sistema nervoso de “relaxamento/digestivo” houve um aumento na atividade ao ouvir sons naturais em comparação com os artificiais, o que resulta em um melhor desempenho no monitoramento de tarefas que exigem atenção espacial.

Afinal, se as características do som ambiental afetam nossa saúde mental e bem-estar, como podemos levar a natureza para aqueles que não tem acesso a ela em seu cotidiano? Tais confirmações nos levam a legitimar este campo formidável da terapia do som.

Como em grande parte das perguntas da atualidade, ao “dar um google” é possível encontrar algumas respostas. Em uma busca simples a respeito de aplicativos de sons naturais encontramos diversas empresas que criaram aplicativos direcionados a terapia do som. Dentre elas temos por exemplo a Rain Sound HQ, que promete uma boa noite de sono e momentos de relaxamento com suas mais de 75 opções de ambientes chuvosos gravados ao redor do mundo, além do som de riachos e cachoeiras. Tudo isso parece se atestar com suas 4,8 estrelas em 14,6 mil avaliações na Apple store.

Esse é apenas um exemplo dentre os diversos aplicativos já desenvolvidos em torno da indústria da terapia do som. Mas, se pudermos destacar uma ferramenta como sendo a mais importante no intuito de dar acesso aos sons de ambientes naturais, essa seria o youtube. Nele podemos em uma simples busca encontrar praticamente qualquer tipo de paisagem natural. Do som das ondas do mar, ao das cachoeiras de uma floresta selvagem, ou até mesmo uma chuva com raios na cidade de Tóquio, no Japão.

Para quem se interessa pela terapia do sonora, é importante ressaltar que é preciso buscar o aplicativo ou mesmo o canal do youtube que mais se adeque aos seus ouvidos e a sua percepção do que é relaxante. Afinal, naturalmente se você tem medo do mar, o som das ondas não será tão confortante e nesse caso o melhor seria substitui-lo pela paisagem sonora de uma floresta e seus pássaros.

Contudo, nada substitui uma caminhada real nesses ambientes naturais. Afinal a tecnologia ainda não consegue reproduzir os odores da vegetação, que por sua vez também geram bem-estar e até a prevenção do câncer, como também confirmaram em seus estudos os cientistas da escola de medicina de Nippon, em Tóquio.

Percebemos com essa reflexão a importância de nosso corpo imerso em tais ambientes. Mas o que aconteceria com nós seres humanos se esses espaços desaparecessem?

Um dos maiores especialistas em sons naturais do mundo, Bernie Krause faz um importante alerta a esse respeito em seu livro “A grande Orquestra da natureza” (2013). Nele o músico e ativista ambiental relata uma vida dedicada a gravação do som de ambientes naturais e vida selvagem, que o levou a perceber que ao analisar o som da floresta entenderemos muito mais sobre a saúde daquele ecossistema.

Em um experimento realizado no verão de 1988, Krause viajou três horas e meia de São Francisco, a uma área de manejo florestal nas montanhas de Sierra Nevada, onde uma corporativa havia obtido uma concessão para iniciar a extração seletiva de madeira, para fazer a gravação da paisagem sonora antes dos procedimentos. O biólogo da empresa garantia que não ocorreria nenhum dano ao habitat, pois a companhia desenvolvera novos métodos de extração, em que poupariam as árvores Sequoias maiores e mais antigas. Como relata Krause “era um lugar sonoro e encantador”.

Gravação de antes da extração:

Gráfico demonstrando a riqueza de sons antes da extração

No verão do ano seguinte, no mesmo mês, mesmo dia e na mesma hora (por volta do amanhecer) ele refez a gravação. Relata que em um primeiro momento, na borda da floresta visualmente não parecia haver tanto impacto diante da extração. Mas bastou fazer uma caminhada adiante para perceber áreas extensas de solo exposto devido a retirada de árvores e que aparentava uma extração significativamente maior do que a combinada. A floresta havia sido destruída para retirada de madeira.

“vistos por olhos humanos tão facilmente enganáveis – ou através das lentes de uma câmera fotográfica ou de um vídeo, o lugar em um primeiro momento ainda perece selvagem e intocado, mas se uma imagem vale mais do que mil palavras, uma panorâmica acústica vale mais do que mil imagens”. – Bernie Krause, A Grande Orquestra da Natureza, 2013. 

Gravação de depois da extração:

Gráfico demonstrando a situação depois da extração

Após o processo extrativista diversos sons desapareceram, o que indica também o desaparecimento de espécies daquele ecossistema. Krause relata que retornou ao local dezenas de vezes para o monitoramento sonoro da região e que aquela paisagem sonora nunca mais fora a mesma desde a extração das árvores. Logicamente o resultado disso é um ambiente que não é mais tão potente em saúde sonora.

Além disso é urgente entendermos que a destruição de um ecossistema não é uma pauta restrita aos ambientalistas, mas de todos os seres viventes do planeta. A destruição da natureza nos leva a escassez ano após ano de ambientes que promovem a cura do corpo e da mente. Afinal, se desejamos que os espaços sonoros naturais continuem nos proporcionando saúde e bem-estar, é preciso proteger a voz da floresta.

ESTÔMAGO

Nasci com apetite voraz, de cão. Meu pai falava bem assim, que eu tinha o estômago furado, que era um saco sem fundo dos diabos, prejuízo para qualquer cozinha que me recebesse. Tinha apetite para dar e vender. Era capaz de bater três pratos ou mais por refeição. Dominava minha fome só pra não ser chamada de bicho, pra não me atracar com tudo que caía no meu prato. Evitava lambuzar a fuça, sujar as mãos. Aprendi que comer bonito é comer quase sem gosto: limpa, asséptica, silenciosa. Servir pouco, dizer satisfeita antes da hora para não fazer desfeita, fingir abundância de saciedade, negar a falta que eu tinha nas entranhas : uma luta para esconder a minha voracidade inata contra o mundo. Não sei explicar, meu jeito de conhecer a vida é pela boca. Tentei muito analista, muita gente que me cavucava fundo, dava remédio, tentava cessar esse impulso oral, que chamavam pervertido. Até que enchi o saco de me entulharem de merda e sermão, comecei a fazer de conta que era assim como todas as outras, que não fazia quase questão de colocar nada na boca, que me contentava com um pratinho honesto, um copo d ́água, que nem queria sobremesa ou só um pedacinho pequeno, charmoso. Assim ficava mais amável, mais tolerável, para uns até parecia mais moça – como se mocidade fosse essa recusa ao prazer do paladar. As pessoas gostam que a gente encha a cara, que a gente tenha apetite só na cama, mas a língua tem que ser controlada. De preferência guardada dentro da boca, pra pouca gente vê. Gostam de mulher sem dente, que come só o macio, com a garganta apertada, assim não passa ideia pra fora quase nunca. É coisa de vender fraqueza, eu sei. Hoje, eu sei melhor. Com estômago apertando, a gente vai matando o desejo.

Aconteceu que eu já estava há uns anos com a fome em rédeas curtas, confinando meu prazer secreto de comer com toda a gana à circunstâncias muito privadas e celebrativas. Todos me davam como corrigida, curada, adequada. Estava perto assim de encontrar um casamento ou pacto que fizesse valer minha renúncia, quando a conheci. Sentei num pequeno boteco, o cheiro da comida, da fritura, impregnava minhas narinas. Eu segurava a saliva e virava copos de cerveja para apaziguar as vontades. Ao meu lado, um par de amigas, uns quatro rapazes. Pediram um petisco para dividir, eu contive minha vontade de gargalhar ao imaginar dividir com seis pessoas um único prato. O petisco veio, a carne acebolada brilhando, um cheiro, um cheiro assim gostoso e eu pensei que não passaria desejo num boteco qualquer, decidi que talvez fosse melhor nem provar um pedaço. Bebi mais, as pessoas beliscavam e diziam que estava mesmo bom, que devia provar. Eu já tinha certeza que estaria bom e não resisti, peguei um cadinho. A carne na boca parecia derreter, a carne na boca era de fuder. O sal, a pimenta, o tempero, a suculência, tinha uma baba, uma água gostosa que acariciava a garganta. O gemidinho saiu, fora do meu controle, um “hmm” fundo, grave, inapropriado que mal escapou da boca e as mãos já voltavam pro prato, refazendo o caminho. Nunca tinha visto antes um quase orgasmo vindo assim de um aperitivo, pensei que podia ser só fome primária, mas não conseguia conter, a cada nova garfava subia um calor no meu peito, um êxtase doido na língua. Fui comendo, de início os amigos achavam meio engraçado, depois uma das mulheres começou a cutucar o meu braço insinuando que deveríamos dividir e eu não suportei, chamei o garçom e falei: “Me vê o melhor prato da casa, aquele que o chef se orgulha de fazer. Se for salgado, aperitivo, prato feito, não me importa. Mas me vê o melhor.” O garçom abriu um sorriso pelo meu despudorado entusiasmo e disse: “É uma mulher, é A chef. Mas vou mandar sim.” Me envergonhei um pouco com o meu machismo, mas nada importava mais do que aquela fome que me despertava. Eu fiquei sóbria de tanto prazer, só embriagada de expectativa pelo que estava por vir. Era incapaz de ouvir o que quer que fosse que falavam todas as outras pessoas, pra mim – ali naquele bar – só tinha eu, o garçom e a comida.

O bendito homem voltou com uma porção de bolinho de carne seca, uma coxinha de frango, um tanto de aipim frito. “Ué, ela não soube escolher o melhor não?”, perguntei. “Ela achou que você devia provar todas essas aí, tão fresquinhas. São carro chefe da casa.”, ele respondeu. Parecia um tesão de fritura. Ele colocou na mesa, eu já fui afastando os copos, abrindo espaço. A cor era bonita e tinha uma crocância, depois vinha a maciez. O frango molhadinho, a carne temperada, o aipim era aconchego. Tudo ia desfazendo por dentro. Eu gemia, melava dedo, a boca ia ficando oleosa, aí voltei a dar uns goles na cerveja e parecia um casamento. Essa chef queria me deixar bêbada, eu senti. Tava me testando. Tava só abrindo o trabalho. Tava me fazendo gostar dela. Eu comi corajosa, era um negócio de chamar a atenção. Todo mundo me olhava, era uma cena obscena, como é obscena toda felicidade assim no meio da cidade, tão sem propósito. Não tem razão que justifique esse dom do paladar. Todo o esforço em me adaptar que tive até aqui voltava a parecer uma baboseira. O garçom me olhava meio assustado e ia na cozinha, como que para passar recado: tinha uma mulher no salão que comia de um jeito histriônico. Pensei que ia me expulsar, já me aconteceu antes. No entanto, o tempo passava, a comida chegando no fim e nada do garçom voltar. De repente ele me chega, aproxima assim do meu ouvido e diz: “A chefe pediu pra você esperar o fim de expediente que ela quer cozinhar mais e só pra você. Ela quer poder te ver comer.” Engoli seco e retruquei: “Diz pra ela então que tem que ser uma comida especial.” O garçom tornou a servir as outras pessoas. Eu fiquei lá sentada, os olhos nos ladrilhos sujos que davam pra porta da cozinha. Boteco é uma coisa imunda, vai ver o segredo dessa mulher era a maldade. Ia aguar ali de vontade pra ela acabar me servindo uma barata frita. Mas, do jeito que tinha sido todo o resto, eu até provava a barata da mulher. Aquele tempero, meu deus. Que mão ela devia ter. Eu ficava imaginando: uma mão suja assim de farinha, uma mão queimada de óleo, uma mão quente de pimenta.

A espera foi longa, longuíssima. O bar não esvaziava. Bêbado é foda, vai estendendo o expediente, vai querendo virar madrugada. Uma praga. Eu queria varrer todo mundo para fora, mas fui paciente. Nada ia amargar meu humor. Eu ainda ia conhecer aquela cozinha, eu sabia. Isso, para alguém como eu, é quase uma febre, foi me deixando quente e quieta, alucinada. Finalmente as cadeiras foram sendo empilhadas, os últimos gatos pingados sendo arrastados para fora. Existiam só os cochichos dos garçons, copos indo pra pia, álcool nas mesas, pratos batendo. Esse som fica pra mim como o anúncio de que a minha festa estava só começando. Seguiram com as despedidas, as gargalhadas, os panos sendo abandonados no balcão. Um a um, sairam primeiro os garçons. Depois, o gerente – ou dono daquela espelunca – passou me secando com os olhos numa espécie de ciúmes. “Bom apetite, puta.”, ele falou fechando as grades de ferro da porta. Eu não me ofendi, nada podia me abalar.

Sozinha no salão, ouvia poucos barulhos vindo da cozinha, minhas pernas tremiam na cadeira. Foi me batendo um nervoso, não conseguia falar nada. Será que ia falar comigo antes? Eu suava. O suor descia meu pescoço, descia pro meio dos meus peitos, debaixo dos meus peitos, minhas axilas, encharcava minha camisa. Ela demorava. Um cheiro fresco tomou o salão, cheiro de alho, coentro, cebolinha. O suadouro deu lugar a uma salivação, lambia os lábios. Era como se o cheiro pudesse mudar as cores das paredes. A luz foi ficando menos fria, os ladrilhos brancos sujos pareciam mais acolhedores. Meu estômago e minha buceta latejavam cada vez mais, eu não ia aguentar esperar, precisava chegar um pouquinho mais perto. Levantei silenciosa, como uma criança culpada, fui até a cozinha. O cheiro ia ficando mais forte e mais gostoso. Queria espiar como ela era. A porta estava entreaberta, coloquei discretamente meu rosto na fresta.

A cozinha era imunda, oleosa, mal iluminada. Mas eu só reparei nisso muito depois. Primeiro eu vi o pescoço dela, nu. O cabelo estava preso no coque, embaixo de uma touca e por isso o pescoço ficava todo exposto. Com o suor, a pele dela ali brilhava. Tinha uma pinta também. Então reparei nos braços, fortes, ágeis, mexendo uma enorme panela. As mangas arregaçadas sujas de molho, as mãos pegando um punhado de sal, de pimenta, não tinha lá grande etiqueta, os dedos estavam sujos, mas havia uma graciosidade, uma atenção. Ela também levava aquilo muito a sério. Dava pra ler no seu ritmo como isso era importante. Fiquei hipnotizada em como suas mãos grosseiras dançavam em torno das panelas. Logo percebi que era um macarrão, só que o molho tinha uma cara diferente. Para minha surpresa, ela ainda puxou uma frigideira e começou a fritar um punhado de camarões. Comer camarão num pé sujo parecia uma prova de confiança. É que tudo parecia tão bom, tão íntimo. Eu fui ficando maravilhada de tal modo que, quando vi, estava quase colada nas costas dela perto do fogão. Quase encaixada nela. Ela se assustou, virou o rosto rapidamente por cima dos ombros. Seus olhos eram grandes e fundos, foram – em um segundo – de assustados para olhos furiosos: “Eu mando aqui. Você espera eu te servir no salão”. Não era raivosa, só firme. Eu obedeci, gostei. Saí rapidamente de volta pra minha cadeira, cadeira agora batizada com a marca de suor da minha bunda.

Em cinco minutos, ouvi a porta abrir. Eu nem pude suspirar e lá estava ela, agora de frente, com o avental encardido, manchado assim como o de um pintor, as mãos com muito cuidado equilibrando uma bandeja com o divino prato. Ela caminhava com a bandeja concentrada, cerimoniosa. O prato era lindo, macarrão molhado, tinha camarão, tinha siri, uns tomates, era colorido, vivo, vibrante. Eu vibrei toda, os pelos todos em pé, a minha boca abriu mole, sedenta. Ela colocou o prato na mesa: “É um tagliatelle de siri, coisa chique. Te mostrar que entendo de paladar”. Mas eu logo reparei que não havia nenhum talher. “Eu quero te ver comendo de verdade, com a mão.” – ela continuou. Eu abri um sorriso malicioso de orelha a orelha, era tudo que eu queria. Mergulhei minha mão no prato de macarrão, os dedos sentindo o caldo do molho, o escorregadio da massa, a crosta do camarão, o macio do siri. Levei o primeiro bocado pra boca, molho respingando na cara, na minha roupa. O sabor, o gosto, transcendia tudo que eu podia imaginar. Era uma porrada de tesão, era um baque de gostoso. Eu precisei fechar os olhos um pouquinho, era quase um gozo, minha língua se pudesse tinha espasmos. A garganta toda em festa. Não tinha o que pudesse dizer, só sabia que eu queria mais. Chupei cada dedo até o talo e voltei as duas mãos pro prato. Ela, que agora parecia radiante, me interrompeu: “Calma! Agora abre as pernas e tira a calcinha.” Ela nem terminou a frase, minha calcinha já estava longe no chão. Ela ajoelhou por baixo da mesa, foi subindo a boca pelas minhas coxas, passando a língua na minha pele, até chegar na minha buceta. Então, levei mais macarrão à boca. Ela começou a me chupar. Eu não sabia se gemia de boa que era a comida, ou de boa que era boca dela. Ia mastigando devagar, o camarão explodindo crocante e macio, minha cara ficando molhada, já escorria molho do queixo pro meu peito e ela ia lambendo e beijando o clitóris, as mãos agarrando minha coxa, fazendo carinhos. Eu comia mais e mais, chupava o macarrão, me apaixonava no siri. Ela ia mais rápida, minhas coxas contraindo, me contorcia. Me sujava mais e mais, o prato quase acabando, eu quase gozando na boca dela. Ficava difícil continuar, eu gemia atordoada, comia toda atrapalhada. Até que empurrei ela com o pé: “Eu vou terminar antes o prato, só aí eu vou gozar na sua boca. Nessa mesa, mando eu.” Ela se ergueu, notei os mamilos duros tentando furar o avental, ela estava adorando. A cara toda encharcada da minha xota. Eu fui terminar o prato, fechei os olhos, ainda podia sentir ela me secando. Comi até não resta mais nada, ainda lambi os dedos e a louça toda até ficar branca como nunca. Percebi que ela se masturbava na cadeira do outro lado da mesa. Eu já estava transtornada de tesão. Puxei minha cadeira para trás, dando espaço da mesa e ela veio de quatro na minha direção. No caminho, se livrou do avental, da toca. O coque deixava escapar os fios do cabelo. Era uma visão assim bagunçada e suculenta. Ela me olhava com um brilho, uma fome, era quase assustador. Tinha um fogo nela. Podia me assar e comer, literalmente, se quisesse. Veio assim até os meus pés. Tirou cada pé de dentro do salto que eu usava. Foi chupando meus dedinhos. Depois mordeu meu calcanhar. Puta que pariu, eu gemia, virava os olhinhos. Ela foi direto pra xana, lambia e sugava. O meu orgasmo veio, veio ainda com o gosto fantástico da comida que não saía da minha boca. Tremia as pernas, os pés virando pro teto, os joelhos bambos, gemia e gemia fundo. Gozei na língua dela, ela bebia meu gozo, meu esguicho pingando pelo queixo. Eu quase caia da cadeira. Ela queria mais, subiu erguendo minha camisa, ia lambendo e provando todo meu suor, suor salgado das horas e horas naquele bar maldito esperando. Eu devia estar azeda, mas ela me saboreava até chegar nos peitos. Aquelas mãos grossas, divinas, prendadas, agarravam meu peito, apertavam, depois a boca beijava e mordia meus mamilos. Minha carne mole entre os lábios dela, tudo era denso e delicioso.

Finalmente ela chegou na minha boca e agarrei ela pelo pescoço num beijo voraz. Mordia seu lábio como que querendo um pedaço. Me afastei, peguei fôlego, colei a boca na sua orelha e sussurrei baixinho: “A minha sobremesa é você.” Coloquei ela de costas pra mim, com as mãos apoiadas na mesa. Abaixei as calças largas dela, a safada estava sem calcinha esse tempo todo. Primeiro, eu não resisti: lambi o cu dela todinho e confesso que era doce, docinho. Então cheguei com a minha mão na buceta, a xana estava molhada, latejando. Comecei masturbando devagar, ela ia aquecendo, gemendo baixinho, tímida. Eu ia tocando mais o clitóris, até o gemido engrossar, até ela ficar no ponto. Aí comecei a dedar ela. Com a mão eu ia dedando e dedando, com a cara eu continuava beijando aquele cu abençoado. Ela grunhia, a mesa balançava. Virava copo, garrafa, quase quebrava o prato. Fui metendo mais rápido, a bunda dela empinada na minha cara. Metia também minha língua no buraco doce. Ela gritava. Ia gozar. Anunciava desesperada que ia gozar. Eu pensei que ia conhecer pela primeira vez a saciedade, tolinha. Meu apetite sempre me surpreende. Fome se mata, vontade não. Descobri que tenho mesmo o dom da gula.

Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

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Betty e A Nova Geração do Skate Feminino

Esse ano, o skate foi incluído pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos de Verão e, com a conquista de duas medalhas de prata inéditas para o Brasil, o debate acerca da valorização do esporte, em especial do skate feminino, se mostrou presente e necessário. Rayssa Leal, de 13 anos, deu um espetáculo em sua estreia na competição, deixando um legado de representatividade gigantesco para meninas do mundo inteiro a quem muitas vezes o contato com o esporte é negado ou dificultado.

Infelizmente, a disparidade entre o skate feminino e o masculino é grande. Isso se dá justamente devido a uma barreira social de caráter extremamente machista, que muitas vezes impede meninas jovens de sequer começarem a praticar o esporte, quanto mais se adentrar no entendimento dos costumes. O seriado “Betty”, da HBO, trata desta e de outras questões que permeiam a presença feminina dentro da cultura skateboarding.

Kirt (Nina Moran) ensinando Indigo (Ajani Russell) a andar de skate

A série conta a história de um grupo de amigas que acaba se formando a partir da necessidade de criar uma coletividade feminina nos espaços de skate dominados por homens. As cinco protagonistas: Kirt (Nina Moran), Camille (Rachelle Vinberg), Janay (Dede Lovelace), Indigo (Ajani Russell) e Honeybear (Kabrina Adams) passam por diferentes conflitos individuais, mas sempre tendo o companheirismo como principal fio condutor de suas tramas — sem necessariamente forçar uma ideia vazia de sororidade ou empoderamento. Assim, Betty fala sobre as dificuldades dentro das relações entre mulheres, mas também sobre a maneira única que temos de cuidar umas das outras.

Honeybear (Kabrina Adams), Indigo (Ajani Russell), Camille (Rachelle Vinberg), Kirt (Nina Moran) e Janay (Dede Lovelace)

Na primeira temporada, um dos principais conflitos se dá justamente por essa questão da aceitação das meninas nesses ambientes, e da reprodução de um ideário machista pelas próprias mulheres. A segunda, mais recente, já aborda a realidade do meio do skateboard durante a pandemia. Debatendo também problemáticas ligadas a responsabilidade social e coletividade de uma maneira mais ampla.

São duas temporadas de seis episódios que valem muito a pena serem vistos e apreciados. Além de levantar, em um roteiro muito delicado, diversos debates bastante atuais, as imagens de skate são incríveis e as personagens, maravilhosas — e muito bem vestidas, diga-se de passagem. Vale a pena conferir!

Betty está disponível no HBO Max

LOST IN TRANSLATION

Tem vezes que o casamento parece um país estrangeiro, mas um país onde moramos por muitos anos e nunca nos sentimos verdadeiramente em casa. Há um esforço em se fazer entender nessa outra língua que nunca parece se encaixar em nossa boca. Logo há uma sucessão de mal entendidos, aparentemente evitáveis e, ao mesmo tempo, dificilmente superáveis que vão se amontoando em novas barreiras e fronteiras violentas. Aos poucos, nem mesmo nos reconhecemos mais em nós. Procuramos cheiros familiares, costumes que possamos nos agarrar para dizer que nos pertencem, que nos dividem, que significam algo próprio e diferente daquelas novas terras matrimoniais e o jeito estranho que tomamos dentro dela. “Esse tom de voz não é meu”, nos dizemos. Estranhamos nossa forma de vestir, de andar, de passar as mãos nos cabelos e interromper os pensamentos na boca. Uma raiva vai crescendo por tudo aquilo que parece ir criando raízes nesse exílio, tudo que nos dá a sensação de que não há como escapar, ao menos não impunemente. Por que compramos esse bilhete? O que pensávamos encontrar nessa terra prometida? Será que vamos seguir repetindo esse sonho maldito de navegadores? Ou assistimos tanto o american dream de que o sonho só se realiza far far away, longe, longe de casa? Ao final, descobrimos que é possível estar na cama do seu próprio quitinete com alguém, que parecia a viagem dourada, e perceber que nunca aterrissamos de verdade. Compartilhar a mesma solidão de um homem inglês de negócios preso no hotel em Bangladesh. Gostaríamos que tudo pudesse ser mais familiar, sem saber exatamente o que isso significa.

Ela tinha acabado de descer as escadas do prédio, num gesto de birra adolescente. Se sentia assim, mas ao mesmo tempo sentia que, naquela batalha, até sua birra era um tipo de coragem. Algo que podia dizer ser totalmente e unicamente seu. Estava saindo fora no meio da quinta briga que tinha tido essa semana e era apenas quarta-feira. Sabia inclusive que seu papel na briga tinha sido um tanto idiota, não era nem como se saísse pela porta por estar ultrajada e sentindo-se coberta de razão ou qualquer justiça que o valha. Não, ela saía da casa tendo certeza absoluta que aquela discussão era completamente sem sentido e que seus argumentos eram maliciosos e inflados pelo rancor de ter se metido voluntariamente naquele acordo. Por ter pensado que amaria aquele homem no seu melhor e o pior. Estavam no seu melhor – a vida financeira nunca esteve tão boa, ele nunca foi tão carinhoso – e ela já tinha certeza que não podia amá-lo tanto assim, faltava algo. Até mesmo os trejeitos que ela antes considerava os mais adoráveis, agora a irritavam profundamente. O cheiro dele a enchia de asco, como poderia dizê-lo? Como assumir que tinha amarrado seu dinheiro, seus sonhos, seu corpo naquele homem com quem pensou que fundaria um novo país e, agora, apenas a metia numa nostalgia estúpida? Tinha a sensação que ele era incapaz de entendê-la e que tudo nele apenas a lembrava como já tinha sido bom ter outra vida, ser outra pessoa que não a sua esposa – aquele papel medíocre que ela mesma tinha se escalado. Descia as escadas, um pouco porque aquele gesto era uma punição ao gênio passivo de seu marido. Escancarava sua impotência em persegui-la mesmo que até a esquina. O fazia chorar e torcer as mãos, mas não ia muito além disso. Ele não estava disposto nem ao menor e menos simbólico deslocamento em direção a ela. Apenas a esperava com a certeza de que ela daria com a cara em algum muro e voltaria. Um amor imigrante e exilado, torturado pela certeza de que não tem outra casa para retornar, que está preso ali. Normalmente isso se repetia exatamente como ele previa: ela voltava humilhada e ele a recebia com braços generosos como se nada tivesse acontecido, o que a fazia se sentir ainda pior. Mas daquela vez, ela caminhou até a esquina, onde normalmente realizava que não podia abandonar assim seu casamento, e parou na banca para comprar um cigarro tentando não voltar com as mãos abanando. Especialmente hoje, ela decide puni-lo com mais alguns minutos de espera. Senta no canteiro de plantas da calçada, diante de um boteco e uma mercearia. Ela sempre quis morar naquele bairro justamente por ser muito movimentado, independente do dia da semana há um ruidoso fluxo de pessoas – isso parecia bom, parecia estar no centro de algo importante -, mas agora ela odeia o fato de estar sempre cercada de tantas testemunhas para sua amargura. Principalmente os tantos amigos do seu marido que cruzam com ela e perguntam onde ele está, falam como são um casal bonito e outras idiotices que a envergonham, expondo a sua fraqueza em romper totalmente com aquela narrativa. À eles, ela responde sempre sorrindo dócil e inventando novas desculpas para estar sozinha, patética, há poucos metros de sua casa. Foi quando, no meio das pessoas indo e vindo com sacolas e compromissos, um homem sai do boteco com o celular no ouvido. Ele parece discutir com alguém do outro lado da linha. Olhando bem, ele parece com aquele menino que fazia aquele seriado de televisão quando ela era criança. Um pedrinho de algum sítio do pica-pau amarelo ou um garoto do chiquititas que agora lhe fugia o nome. Mas tinha certeza que o tinha visto, que o reconhecia apesar de estar mais velho, precocemente grisalho e um tanto abatido. Andava de um lado pro outro, a briga não era muito eufórica, um tanto monótona, até que o olhar dele cruzou com o dela do outro lado da rua. Sem perceber, ela abriu um pequeno sorriso que desconcentrou o homem de sua ligação. Do outro lado da chamada, a esposa desse homem reclama por ele nunca conseguir terminar seus projetos e nem percebe que ele mal conseguirá terminar aquela discussão. Ele agora estava surpreendido pelo sorriso amigo da moça do outro lado da rua, a voz de sua esposa tornou a ser um ruído distante e incompreensível. Sorriu de volta, o que deu um gosto menos amargo para a mulher com seu cigarro. Era preciso um verdadeiro estranho para ela lembrar sua doçura. Aquele gesto tão ordinário parou os dois. O cigarro e a ligação ficaram em suspenso. Os dois sustentaram o olhar sorridente um pouco mais, porque sentiam saudades daquele tipo de olhar, sem saber que essa já era a cumplicidade que os unia. O homem então desligou o telefone e caminhou até ela.

Os dois ficaram sentados no canteiro, lado a lado. Nenhum dos dois conseguia dizer nada de imediato. Foi quando, em silêncio, ele ergueu a mão e tirou delicadamente o cigarro dos lábios dela levando diretamente para a sua própria boca. Uma intimidade perigosa, dividindo o cigarro com aquele homem desconhecido, mas de alguma forma havia uma tranquilidade entre os dois, uma certa familiaridade, como se já tivessem feito aquilo daquele jeito antes. Um tesão, também assim tranquilo, ia crescendo na medida que passavam o cigarro de um pro outro. Tragadas longas e cúmplices, silenciosas, mas sem nunca desviar totalmente o olhar. Observavam o formato dos lábios, a forma que o cigarro repousava na boca, a pinta na bochecha, a falha na barba, o contorno grande do nariz, o desenho da sobrancelha. Achavam cada detalhe mais amigável que o outro, como se fosse nessas minúcias onde se reconheciam mais e mais. Logo o cigarro acabou, ela quase cogitou que fumassem todo o maço para prolongar ainda mais, mas ele pousou a mão sobre a dela, interrompendo o gesto de buscar por outro. A mão dele na sua era quente e firme, tão gostosa que ela enroscou os dedos, parecia uma mão assim feita na medida da sua – se é que isso existe, sabe lá o que moldam as mãos das pessoas todas. A tranquilidade agora guardava certo assombro, era tão doce o toque que os dois se assustaram um pouco. Não o suficiente para soltar, mas o suficiente para abrir outro sorriso, um tanto envergonhado, e querer balbuciar algo. Entre nomes, que pouco importavam, ele deixou escapar: “Quer sair fora daqui?”. Os dois sabiam muito bem o que era aquele aqui, aquele antes e os dois queriam fugir, nunca pensaram que teriam a coragem e agora perceberam que tinham e estavam já longe do canteiro, caminhando de mãos dadas para qualquer outro lugar.

Enquanto caminhavam se sentiam cada vez mais perto de algo especial, de algo comum a toda aquela tranquilidade assombrosa, àquele tesão cúmplice. Pararam no primeiro motel que encontraram, nem hesitaram, queriam qualquer quarto em que pudessem se refugiar. De algum modo sentiam como se entre quatro paredes pudessem chegar mais perto ainda dessa coisa sem nome que os atraía. Dentro do quarto, rapidamente estavam sentados na cama, descalços, com as roupas amarrotadas, dividindo uma garrafa do vinho que havia no frigobar. Agora falavam animados e as vozes pareciam ecoar no quarto, soavam como que amplificadas por memórias fantasmas, tão amigáveis e entusiasmadas que davam a sensação de permear as paredes e fazer daquele quartinho fuleiro, um lugar onde podiam ser mais frouxos, genuínos. Pareciam um tanto ingênuos, mas era como aquecer uma pequena festa. No início há algo quase histriônico, risonho e barulhento, até dar lugar apenas a uma música de fundo e uma atmosfera densa assim de poucas palavras. Quando se fala a mesma língua parece que podemos ficar mais em silêncio. Dá uma vontade de chegar mais perto da pele. Ele desabotoa a camisa, revelando os pelos do peito e da barriga. Ela se livra da calça justa, expondo as coxas grossas e a calcinha de algodão. Continuam no strip manso, ele tira a calça, ela a camisa. Cueca samba-canção e sutiã de bojo branco à mostra. Roupa íntima comum, uma seminudez cotidiana que dá aos dois um súbito conforto.

Nem todo caso de amor tem formas extraordinárias. Ela deita a cabeça em seu colo, ele sente as bochechas quentes em sua perna e os cabelos quase fazem cócegas caindo por sua coxa. Passa os dedos pelas orelhas dela, acaricia seu couro cabeludo. Há certo cuidado carinhoso como se tivessem retornado de uma longa viagem. Ela vai relaxando na carícia tenra dele até quase babar sobre sua perna. Ele tenta abaixar o rosto e beijar a orelha redonda dela, a boca quente beija suavemente a orelha úmida. A respiração dele a excita. As mãos agora percorrem seu braço, um carinho que vai ficando mais firme aos poucos. Vai despertando a carne mole, acordando os músculos. Ela começa a dar beijos por sua coxa, ele vai descendo os carinhos pelas costas dela, os beijos vão ficando molhados e fortes até se tornarem pequenas mordidas. Há uma sincronicidade na pega, um reencontro de costumes. Sentem que sabem dançar aquela dança, podem dançá-la de olhos fechados. Vão se atracando com desenvoltura. Logo ele está deitado ao lado dela, logo o rosto está grudado em sua nuca, logo a bunda com a calcinha de algodão roça no seu pau. Mesmo o cu lateja como se já conhecesse o tamanho do caralho. Uma familiaridade assim, desse tipo. A mão dele toca a buceta, o silêncio dos dois dá lugar para gemidos moles, a respiração vai de funda para cada vez mais entrecortada.

Ela puxa a calcinha de lado, ele mordisca e aperta sua bunda. Já viraram na cama outra vez sem nem perceber, a língua já encontra o cu latejante. Mãos que sobem e descem, o pau permanece de pé. Ele beija e lambe o buraco, as pregas, toda a bunda. Ela aperta os próprios mamilos. Com o rosto dele afundado em suas nádegas, se sente em casa. Rebola, treme, dá risadas. Gosta como a barba roça em sua pele. Fica mais e mais molhada, ele sente os dedos encharcados quando toca outra vez a buceta. Sustenta uma masturbação assim bem lenta enquanto continua se lambuzando no cu delicioso. Gosta de sentir que ela empina mais e mais e se contorce mais e mais, conhece o gesto, gosta de reconhecer o pedido para que a penetre fundo e agora. Coloca a camisinha e deixa o lubrificante descer gelado. Enquanto a cabeça namora a entrada do buraco, ele aperta a bunda, os dedos vão massageando tudo até começar a meter, devagar. Ela geme mais e mais, ele lambe sua orelha, ela coloca a mão na própria buceta. Ele continua devagar. Poderia continuar devagar assim por horas metido na bunda dela enquanto ela se toca. Sentindo ela rebolando com seu peso sobre o corpo dela, peito com costas, cara no pescoço. O telefone toca, é como um alarme de terremoto iminente, sirene de bombardeio, anúncio de invasão. Sentem aquele pequeno lar, aquele quarto-refúgio, ameaçado outra vez pelo estrangeiro. Lembram do perigo, ou melhor, da coragem daquela utopia um tanto insegura e até ingênua. Com medo da queda do muro, do retorno ao exílio, ganham adrenalina. Ele a segura por trás, agarra firme nela, ela acelera os dedos e o rebolado. Começa a penetrá-la mais rápido. Ela geme como se não fosse mais gemer nunca. Há um brilho em celebrar assim aquele instante gentil que sabem que logo escapa, logo pode morrer lá fora e por isso é tão precioso dar tudo de si aqui e agora. Ele mete mais fundo, os dois sentem as pernas ficando trêmulas, sentem o orgasmo vindo. A esperança deve ter o gosto de gozar junto assim, deve ter cheiro de cu amado. A guerra lá fora pode não estar resolvida, a vida pode estar à beira do colapso, mas gozaram juntos, forte assim, íntimos assim. Cúmplices não, agora melhor seria chamá-los companheiros. Em alguma fantasia esse poderia ser o início do fim.

Ilustradora convidada:

Magdalena Vianna

Artista multidisciplinar com foco em cinema, teatro e artes visuais. Gosto de criar e contar histórias. 

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5 Minisséries criminais para assistir preso no sofá

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Séries criminais são programas, que apesar de medonhos e as vezes nojentos, podem ser divertidos. Porém, além desse mundo de CSIs e seus filhos não reconhecidos, mais recentemente a televisão (e o streaming) tem lançado várias minisséries do gênero bastante interessantes, tendo histórias intrigantes e envolventes com diferentes abordagens. Aqui vai uma lista de 5 delas.

Mare of Easttown (2021):

Um dos grande lançamentos desse ano, “Mare of Easttown” conta história de Mare Sheehan (Kate Winslet), uma detetive que fica responsável pela investigação do suposto assassinato de uma garota na pequena Easttown. Em meio a investigação, Mare tem que lidar com a pressão do trabalho junto a problemas familiares, frutos do suicídio do seu filho mais velho.

Apesar de se tratar de uma minissérie criminal, a grande sacada do roteiro está no tom e na mescla de gêneros. Além da tensão e do suspense, é possível notar momentos cômicos e calorosos, que nos emocionam e nos fazem ver as diferentes facetas de Mare e do restante dos personagens da série.

Mare of Easttown está disponível na HBO Max.

Inacreditável (2019):

Baseada em fatos reais, “Inacreditável” é uma minissérie criminal que segue uma estrutura bastante interessante. Revezando entre dois casos diferentes: o da jovem Marie Adler (Kaitlyn Denver), vítima de estupro e acusada de falso testemunho; e o das detetives Grace Rasmussen (Toni Collette) e Karen Duvall (Merrit Wever), duas mulheres, que alguns anos depois, se unem para investigar casos semelhantes.

Nessa estrutura, a minissérie segue a narrativa criminal ao mesmo tempo que reflete sobre como a sociedade e a polícia tratam esse tipo crime. Mostrando como uma injustiça impacta na vida de uma pessoa e como um caso desse deve ser levado — nunca suspeite da vítima.

Inacreditável está disponível na Netflix.

The Night Of (2016):

“The Night Of” põe o espectador em um ponto de vista muito peculiar. Diferentes de outras obras do gênero, a minissérie segue Nasir Khan (Riz Ahmed), um jovem nova-iorquino filho de paquistaneses que é o principal suspeito do assassinato. Porém, enquanto normalmente são levantadas suposições e motivações para o crime, aqui, desde o inicio você sabe que Nasir é inocente e que foi acusado por engano.

Seguindo essa premissa, a minissérie reflete sobre a xenofobia e as formas como o preconceito pode influenciar uma investigação. Além de mostrar como é a vida de um inocente dentro do sistema criminal, onde o psicológico é posto no limite.

The Night Of está disponível na HBO Max.

Objetos Cortantes (2018):

Adaptado do livro de mesmo nome, “Objetos Cortantes” conta a história de Camille Preaker (Amy Adams), uma jornalista atormentada, que volta a sua cidade natal para fazer um artigo sobre o assassinato de duas jovens. Em meio ao ambiente conturbado da casa de sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), a minissérie mostra os diferentes passos da investigação em meio a brigas e discussões.

Diferente das outras minisséries dessa lista, o interessante sobre “Objetos Cortantes” é a presença de cenas que brincam com a nossa atenção. Além de cenas de sonhos e de situações imaginárias, a edição e a direção da minissérie se utilizam de recursos que nos fazem duvidar tanto da estabilidade mental de Camille quanto da nossa capacidade de percepção, nos fazendo querer ver e rever os episódios, procurando por detalhes que provavelmente perdemos.

[Vale ressaltar que a série tem cenas extremamente fortes.]

Objetos Cortantes está disponível na HBO Max.

The Outsider (2020):

Já citado por aqui, “The Outsider” é uma obra que se desprende um pouco do mundano. Baseada no livro de Stephen King, a minissérie acompanha o trabalho do detetive Ralph Anderson (Ben Mendelsohn), que se vê em uma sinuca de bico quanto a um caso que investiga: seu principal suspeito, Terry Maitland (Jason Bateman), tem tantas provas a favor quanto contra sua inocência.

Nesse contexto, a minissérie usa o gênero criminal para brincar com o sobrenatural, algo típico das histórias de King. Refletindo sobre os principais pavores do homem e mostrando como devemos lidar com aquilo que é incompreendido. O resultado é uma mistura de gêneros interessante e uma trama intrigante.

The Outsider, infelizmente, não está em nenhum streaming, porém, como foi produzida pela HBO, deve ficar disponível na HBO Max em breve.

Esse post foi baseado em uma lista que pode ser encontrada no nosso Letterboxd. Não se esqueça de nos seguir por lá e no nosso Instagram para mais conteúdos sobre filmes, séries e muito mais.