Edson Ferreira

Ao longo dos meus quase 20 anos de carreira, posso dizer que sempre produzi. Foram raros os períodos em que fiquei inerte. E mesmo nesses períodos, estava buscando novas formas de realizar. Meu primeiro trabalho foi com uma Mini-DV, que logo em seguida tive que vender, por necessidades financeiras; só me restou uma câmera fotográfica estilo cybershot, daquelas pocket. Eu não tinha outra alternativa e fiz vários experimentos com ela, sendo o maior deles um documentário de 15 minutos. Nas fases, digamos, de vacas gordas, fui selecionado em editais e consegui produzir com equipamentos profissionais. Quando vieram as incertezas da pandemia, igualmente tive que valer do jargão muito popular atualmente, o qual não aprecio muito o termo: o tal do “se reinventar“. Recordei-me de uma história que li em um blog, há mais de 10 anos, em que os personagens se falavam ininterruptamente por chamadas telefônicas, em uma espécie de loop infinito. Escrevi então um roteiro original que pudesse ser realizado tanto pela interação entre os personagens quanto por um dispositivo comum a todos: o celular. E veio a ideia do “Chamada a Cobrar”, um curta-metragem todo ambientado no universo de videochamadas.

Comecei os testes com uma das atrizes que eu já havia escolhido, para saber qual o melhor jeito de produzir. Chegamos a testar a gravação de tela pelo celular, gravando uma chamada real do WhatsApp. Os problemas começaram aí, porque o aplicativo possui ferramentas de criptografia que inibem esse tipo de procedimento. Embora eu tenha visto muito na internet que várias pessoas conseguem, não obtive sucesso. Além disso, tivemos problemas com o softwares utilizados para gravar as videochamadas. No meu caso, que tenho iPhone, já existe com recurso nativo para gravar a tela. Porém, como eu havia dito, o WhatsApp impede essa gravação (o WhatsApp inibia o áudio e só era possível gravar o vídeo). Do lado de lá, minha colega com Android, baixou vários programas para gravação de tela, mas sem sucesso. Às vezes gravava, às vezes não; às vezes só gravava o vídeo também. Nossa rotina (exaustiva) foi testar todos os gravadores de tela possíveis em todos as plataformas de videoconferência: Google Duo, Hangouts, Zoom. Nenhum deu certo. Com o Skype, a coisa começou a melhorar. Ele é o único programa que permite a gravação da chamada pelo celular. Ao final dela, um arquivo é gerado, mas com um outro problema: o arquivo gerado é de muito baixa qualidade e qualquer tentativa de melhorá-lo na pós-produção acabava trazendo mais transtornos. Eu precisava de, pelo menos, algo em HD.

Pensei, então, em usar o celular, mas para gravar um vídeo selfie (com a câmera frontal). Nesse caso, cada ator e atriz faria sua cena olhando para si mesmo, e não interagiria diretamente com seu colega de cena. Inicialmente cada um gravaria sua cena sozinho e deixaria um espaço em silêncio entre uma fala e outra. Em seguida, enviaria para o colega, que reproduziria o vídeo e gravaria com seu celular, respondendo nos espaços em silêncio. A estratégia não se revelou muito boa, porque a falta de interação com o outro é importantíssimo para quem atua. Se pra quem faz o vídeo primeiro sozinho já é estranho, receber o vídeo de outro pode se revelar mais complicado, porque a liberdade de poder falar no tempo em que se acha melhor, em que se está mais confortável, é impedida, já que a resposta tem que vir antes da próxima fala do outro. Foi então que a ideia de uma videoconferência simultânea seria a melhor saída. Ela serviria como referência do áudio. Eu faço minha cena com o celular e ouço o colega responder aos diálogos pelo Zoom.

Mais uma vez, a alternativa mirabolante trouxe outras dificuldades, quais sejam técnicas e dramatúrgicas. A referência do áudio do colega vazava na gravação de vídeo que cada um fazia com o celular. A maneira de resolver foi usar fones de ouvido. Porém, uma coisa é uma ou duas pessoas conversarem com fones; a outra seria todos. A padronização me inquietou. Nem todo mundo usa fone de ouvido em uma videochamada. Dos cinco atores, três são mulheres e de cabelos grandes. Foi fácil para elas esconderem seus fones. Dos dois homens, preferi que um, o Lino, assumisse o fone o tempo inteiro. Já eu, o outro, por ser careca, precisei igualmente assumir o fone em alguns momentos e gravar o vídeo sozinho em outros. De todo modo, funcionou bem e todos produziram seus vídeos em Full HD.

Fizemos todas as etapas de uma produção cinematográfica presencial. Em reuniões pelo Zoom, fazíamos reuniões gerais, leituras de roteiro e ensaios. A preparação de elenco acontecia pelo WhatsApp, mas sem gravar. Eram longos exercícios, em que os personagens ligavam uns para os outros e conversavam com uma abordagem livre, sem roteiro, assuntos do universo de suas vidas.

Tive o prazer de trabalhar com meu filho, estudante de cinema. Ele se encarregou da direção de fotografia, direção de arte, figurino e ainda foi o meu assistente de direção. Fez reuniões com cada um do elenco para pensar a fotografia. Era preciso levar em conta a luz adequada do ambiente da casa escolhido. Como apenas eu possuía equipamento profissional de iluminação, a luz natural foi a grande parceira de todos. Um estudo de cores determinou a paleta predominante de cada personagem, a partir, também, do que cada ator tinha de figurino disponível. Foi também pensada uma arte mínima, embora a maior parte das cenas sejam closes dos personagens.

O cronograma de filmagem seria inicialmente de duas semanas de trabalho. Não foi fácil adequar horários, porque cada pessoa tinha sua própria rotina de vida, a luz melhor em horários diferentes e também questões de som. Alguns colegas tiveram que negociar com a família para obterem um silêncio total durante o período de set. Após muitos acertos, idas e vindas, as filmagens se estenderam por quase três semanas.

Durante cada rodagem, estávamos sempre eu, o assistente de direção/fotógrafo/diretor de arte e mais os atores (sempre dois), por uma chamada no Zoom. Fazíamos os testes finais de fotografia e partíamos para as filmagens. O protocolo era: eu dizia “roda câmera” e cada ator começava a gravar seu vídeo. Como não havia claquete, eu pedia que eles “cantassem” a sequência “cena tal, take tal”, para me ajudar na montagem depois. Rolava o “ação!”, eles davam REC e rodavam. Nos dias em que eu estava em cena, era o assistente quem assumia os protocolos. Após um take, cada ator mandava sua cena pelo WhatsApp, para um preview meu e orientações para o próximo take. Repetíamos até ficar bom. Ao final, eu pedia para que cada um me enviasse os takes que eu mais gostava pelo WeTransfer. Não usei os previews do WhatsApp, porque o aplicativo comprime a qualidade dos vídeos.

A etapa de montagem foi bem demorada. E bem difícil. Quando o take de um ator era o mesmo do outro, facilitava muito, mas havia casos em que não foi possível. Se o melhor de um era o take quatro e o do outro era o sete, era preciso uma engenharia muito grande para encaixar os diálogos no tempo certo, sem parecer falso. Um dos recursos que acabei adotando foi evitar a qualidade impecável da chamada. Eu não queria isso, porque chamadas de vídeo nem sempre são com qualidade top. Na hora da montagem, fui “piorando” alguns planos com filtros para simular efeitos de pixelização e de chamadas travando. Ainda não existem filtros específicos pra isso, então foi preciso usar a criatividade. Imagens frisadas (congeladas), simulando travamentos, tentaram dar a tônica de quase realidade. No som também adotei recursos parecidos, os quais comentarei mais abaixo.

Para tentar deixar a atmosfera mais realista, customizei as telas com layouts dos celulares de cada um dos personagens, com a indicação no topo do nível de bateria, sinal de wi-fi e o horário. O observador mais atento vai perceber que a história se passa em algumas horas e o intervalo entre uma chamada e outra não é imediato. Além disso, também simulei notificações recebidas de redes sociais, enquanto se está conversando. Por conta de direitos de imagem, não pude utilizar o logo do Instagram, então criei uma rede social fictícia e inserir easter eggs de perfis com personagens de outros filmes meus. Quem conhece meu trabalho vai perceber quem são.

O som: da mesma forma que chamadas de vídeo não tem imagens perfeitas, o áudio também não. A edição de som contou com alguns filtros para deixar a chamada mais radiofônica, sem aquela pureza de um vídeo original. O som do filme, dos diálogos, é uma mescla entre áudio original e áudio radiofônico. Isso porque, se eu adotasse tudo radiofônico, poderia comprometer um pouco audição do espectador; se deixasse tudo original, soaria falso. No desenho de som, era preciso criar uma ambientação típica de ruídos externos e que sempre estão presentes no cotidiano: uma moto passa aqui, um cachorro late lá, um carro passa pela rua e buzina. Boa parte desses efeitos foi originalmente captada na minha asa, com o Tascam: alarme do carro, buzinas, meus cachorros latindo, ou de alguém teclando no computador. O que não foi possível, veio de bancos.

A trilha sonora também foi composta e gravada toda em home office. Eu mandava os trechos que precisariam de músicas, juntamente com referências do Spotify que eu ia pesquisando. Os compositores produziam as faixas e me enviavam os resultados já mixados pelo WeTransfer.

O filme foi finalizado na razão de aspecto 9:16. Embora os smartphones e boa parte das redes sociais tenham popularizado mais o formato vertical, sua aceitação no meio cinematográfico é quase nula. São raros os festivais dedicados a filmes “em pé” e nossas TVs e telas de computador permanecerão por décadas priorizando o formato horizontal. Acabei preferindo exportar um arquivo em widescreen — 16:9 — com as pillarbox (aquelas horrorosas barras pretas nas laterais).

Impossível não destacar o mérito do elenco. Além de desempenharem suas funções na atuação, estava claro para todos eles que as responsabilidades de um set de filmagem estaria, de maneira bastante ampla, na mão de cada um. Alguns já demonstravam certa familiaridade com a tecnologia já havia, inclusive, realizado teatro remoto. Mas, cinema é outra história. Aspectos de fotografia, arte e som precisaram ser internalizados, para que houvesse maior compreensão de tudo aquilo que seria impresso nas telas. Acredito que todos saíram desse processo mais fortalecidos e um pouco mais conhecedores desse novo jeito de fazer audiovisual. Sem praticamente nenhum recurso técnico extra, desempenharam suas funções com generosidade, paciência e dedicação!

E assim o “Chamada a Cobrar” nasceu. Ele agora segue para festivais de cinema no Brasil e no exterior. Fica para todos os envolvidos um belo aprendizado de como produzir em tempos sombrios como os atuais, não apenas por conta da pandemia, mas também pelo horizonte político nefasto, que tenta a todo custo sucumbir a arte. Dedicar-me a qualquer expressão artística sempre foi um ato de resistência. Hoje, mais do que nunca.

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