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Bem-vindos a Bridgerton: A temporada de casamento está aberta!

Nesse último fim de ano, enquanto estávamos meio blasés comendo rabanada e resto da ceia, Dona Netflix junto com Shondland (produtora dirigida por Shonda Rimes) jogou uma bomba no nosso colo – a série Bridgerton. Ao escutar o burburinho que logo se instalou nas redes, corri para assistir. Meu primeiro comentário foi “não estou com condições psicológicas para lidar com esse duque”. Sabe como é? Pandemia, paqueras e sexo em baixa. Ou seja: gatilhos. Gatilhos por demais. As reações na internet não foram muito diferentes. Haja mulher querendo ser pega de jeito, viu?! Homens, por favor, acordem!!

Obviamente, toda a fantasia tem uma problemática marcante. Na minha opinião, principalmente, porque Bridgerton se coloca como uma narrativa antiopressora. E nada mais opressor que um lindo conto de fadas.

Chegando aqui, preciso fazer um alerta. Vai rolar spoiler. Não tenho como prosseguir sem apresentar alguns fatos. Mas desconfio que isso não será um problema. Pelas fofocas que ouvi, não as de Lady Whistledow, a série é a mais vista em 76 países e já computa, no momento que escrevo, exibição para 63 milhões de assinantes. O fandom também está em polvorosa, mais de 8,6 milhões de usuários do Twitter mencionaram a série em comentários. E o ícone da abelhinha, sabe o por quê dele ser referência? 🐝🐝 Pera um pouquinho que já te conto.

Bridgerton nasceu a partir de um noticiado casamento. Em 2017, Shonda Rhimes, criadora de grandes sucessos como Grey’s Anatomy e Scandall, encerrou sua parceria de mais de 15 anos com a ABC Studio e fechou contrato com a Netflix. O criador, no entanto, é Chris Van Dusen, seu grande parceiro de equipe. Ele contou em entrevista que era apaixonado pela série de livros sobre a família Bridgerton da escritora de apimentados romances de época Julia Quinn. Chris sentiu que havia algo potente ali.

A primeira temporada, assim como o primeiro livro, apresenta o debute de Daphne (Phoebe Dynevor) e seu encontro com Simon Basset (Regé Jean Page), o rico e disputado Conde de Hastings. Os arquetípicos apresentados por ambos é bem clássico. Ela: doce, recatada, pura e desesperada para encontrar um marido. Ele: lindo, sexy, pervertido e fugindo desesperadamente do casamento. Embora cada um tenha razões para isso, o questionamento que trago é se hoje os dilemas são tão diferentes. Você, homem, foge de enlaces como o diabo foge da cruz? Você, mulher, ainda sonha em casar com o príncipe encantado? E o mais importante: por que fazemos isso?

Como não havia Tinder em 1813, a alta corte inglesa fazia os jogos narcísicos, com exibição de corpos e roupas caras, nos bailes de gala. As negociações de casamento aconteciam ali. Daphne, bichinha, mesmo depois de ter sua figura elogiada pela rainha Charlotte (Golda Rosheuvel) — afinal, é a beleza que mede o valor da mulher —, estava com dificuldade de encontrar pretendentes. Seu irmão Anthony, o Visconde, começou a assustar todos e lhe reservou o mais asqueroso dos homens.

Eis que surge o plano: já que Simon não casaria e Daphne precisava ser desejada, eles resolvem fingir um lance. Dessa forma, Daphne enseja a disputa de ego masculina, atraindo olhares e Simon espanta as mães desesperadas. Se fosse hoje, com toda certeza, um coach de relacionamento poderia ter bolado esse plano perfeito. Logo em seguida ao fingido e proibido romance, adivinha o que surge? A mais linda história de amor! Blerght! 🤮🤮

Para quem assistiu, sabe que a treta foi mais profunda. O casamento acontece meio na forçação, num clima estranho. Mas na lua de mel, a paixão vem à tona. Lacre rompido, noites de amor e sexo selvagem. As coisas só começam a ficar estranhas quando Daphne entende a prática do coito interrompido do marido. Inocente, ela acreditava que Simon não podia ter filhos. Não podia ou não queria? Também, coitadinho do rapaz. Criança sofrida, sem mãe e rejeitada pelo pai violento. O típico homem probleminha. Como mulher é centro de reabilitação de homem, é isso que Daphne faz.

Para realizar seu sonho de família de comercial de margarina, ela senta com força e força a gravidez. A internet grita: estupro!! Daphne é estupradora e a série não devia mostrar isso!! Gente, é sério? Posso até ser cancelada, mas como Daphne podia estuprar se ela nem sabia o que era estupro? Como ela podia estuprar se em termos de poder ela não era a favorecida na relação? E outra, você acha que uma mulher em 1813 teria como fazer a escolha de engravidar como, teoricamente, podemos fazer hoje? Um marido daquela época respeitaria a escolha da mulher de não querer ser mãe? Fala sério! O que Daphne faz é impor sua vontade. Foi escroto? Foi. Abominável como é narrado na série. Mas estupro envolve relação de poder. Hoje até poderia ser considerado estupro. Naquela época não.

Sobre a retirada da polêmica cena que já havia gerado burburinhos no livro, não dava para simplesmente cortar. Roteiristas não devem escrever apenas o que é certo, ético. A cena é fundamental para a narrativa. Para a problemática narrativa. Não sei se já deu para perceber, mas meu desejo aqui é destruir um pouco o conto de fadas. Mesmo havendo diversos tons questionadores interessantes, não entendo onde Bridgerton colabora com a emancipação feminina.

Dentro debate racial, a presença de personagens negros inegavelmente colaboram com a diversidade nas telas. Porém eles são colocados como se não existisse preconceito, como se a história de colonização e escravização do povo africano não tivesse relevância. Dentro da licença poética, acho lindo. Amei assistir. Sou, inclusive, bastante apaixonada pela estratégia de Shonda de sempre colocar personagens negros em posição de poder sem necessariamente discutir o racismo. Ainda assim, é preciso chamar atenção para os pontos problemáticos.

Sobre o personagem interpretado por Jean Page, tem rolado críticas muito contundentes a respeito de sua hipersexualização. Tanto a reproduzida nas telas como as compartilhadas nas redes. O argumento é de que esse tipo de exposição tem sido uma tática comum para desumanizar homens e mulheres negras. Enquanto a beleza e virilidade do duque estão sendo ressaltadas, se esquece de mencionar a qualidade do trabalho do ator. De fato, no episódio 6 após o casamento, o corpo de Jean Page é muito mais exposto do que o de Phoebe Dynevor. O público alvo de série é mulheres, sabemos. São elas que devem ficar molhadinhas para esquecer a quantidade de homens uó existentes por aí. Mas precisamos sim fazer a crítica e a autocrítica.

Eu mesma tenho feito a minha porque fiquei deveras mo… apaixonada. Jean Page é muito meu tipo. Sobre sua qualidade como ator, é indiscutível. Perfeito, sem defeitos. Inclusive, ele foi escalado por ter se destacado na série For The People também produzida pela Shondaland.

O argumento dos criadores para justificar a diversidade está fundamenta no fato de que, possivelmente, a rainha Charlotte seria negra. Em uma das cenas, Lady Danbury (Adjoa Andoh) fala para Simon que eles só puderam estar ali por conta do amor. O amor que fez o rei George III (que depois fica louco) casar com a rainha Charlotte. Seria lindo se o mundo fosse tão cor-de-rosa. Mas há quilos de perversidade na nossa dura realidade. Não acha?

É em nome desse mesmo amor que Daphne e Simon reatam após o possível estupro. No baile de fechamento da temporada no castelo do casal, Daphne declara seu amor e devoção ao duque. Juntos eles vão resolver todas as questões. Que lindo! Depois disso, ele mesmo resolve gozar dentro e produzir herdeiros. Traumas curados! Mais um homem reabilitado pelas mãos de uma doce mulher. Conseguem entender como essa narrativa é destrutiva para as mulheres?

Como não li os livros, não faço muita ideia do que vai acontecer. Mas pode ser que alguns desses pontos problemáticos sejam melhorados ou aprofundados. O burburinho é de que O conde e eu, primeiro livro da série, é o mais chatinho de todos. Por isso, estou no aguardo das próximas temporadas com certa ansiedade.

Será que a irmã de Daphne, Eloise (Claudia Jessie), vai causar alguma revolução com suas ideias questionadoras? Ou será que vai seguir o script padrão e se apaixonar? No fim, eles não vendem que o amor salva tudo? Que o amor é sempre sempre é a solução? E o artista Benedict, viverá uma experiência gay? Bem que Eloise podia se apaixonar por uma mulher, tocar fogo no castelo e junto com Penelope (Nicola Coughlan) revelar toda a hipocrisia da burguesia.

Outro ponto tenso é justamente a questão de Penélope Featherington ser a fofoqueira misteriosa Lady Whistledow. Bem clichê colocar a menina preterida por conta de seu peso como a fifi de carteirinha. Pelo que pesquisei, é exatamente essa a narrativa do livro. Se eu estivesse fazendo a adaptação, possivelmente, mudaria esse fato. Netflix, me contrata!

Apesar de ter sido a chata problematizadora, achei a série bem divertida. Não se deixando levar pela ilusão dos contos de fadas, Bridgerton é um delicioso passatempo. Castelos, figurinos de época, glamour, fogos de artifício, sexo nas equinas, violentas paixões. Quem não gosta disso? A narrativa é bastante fluida e evolui rápido sem vais e vens cansativos. Assisti tudo em apenas dois dias. Shondaland e a Netflix conseguiram fazer uma obra cativante. Outro ponto alto é a trilha sonora. Nos bailes tinder da alta corte, a orquestra toca sucessos de Maroon 5, Ariana Grande, Taylor Swift, Billie Eilish, entre outros. Bem espirituoso!

Agora o babado da abelha, fiquei sem entender o por quê do ícone da obra ser ela. Na série o inseto aparece de forma bem discreta no primeiro e último episódio. Fuçando descobri um fato: nos livros é apresentado que o patriarca dos Bridgertons morreu de uma picada de abelha e, por isso, Anthony tem algum tipo de pânico das bundinhas listradas. Outra coisa que me deu curiosidade foi a voz de Lady Whistledow. Ela não parece bastante familiar? E é mesmo. A narradora é ninguém menos que Julie Andrews. Fãs de o Diário da Princesa por aqui?

Apesar de Bridgerton não ser uma série feminista, tem algo na narrativa importante para fazer a gente pensar. Os códigos de comportamento da nossa sociedade ainda são semelhantes aos apresentados ali. Pensa comigo: O que hoje define o valor da mulher? o que define o valor do homem? Será que nós, mulheres, ainda não estamos em prateleiras para sermos escolhidas? Será que ainda pautamos nossa vida através da necessidade dessa escolha? Moldamos nossa personalidade, corpo, estética em função dessa escolha? Mesmo sem ter consciência disso, muitas vezes, é o que fazemos.

A psicóloga Valeska Zanello descreve como o dispositivo da prateleira do amor segue sendo perverso para as mulheres. Como ele nos empurra para relações terríveis, nos transformando em vítimas fáceis de relacionamentos abusivos. A construção de que precisamos ser escolhida por um homem é, sem dúvidas, um dos fatores responsáveis pela nossa dependência emocional e a alta taxa de feminicídios. Por isso, é urgente estarmos cada vez mais conscientes disso.

Me conta, você (mesmo inconsciente) ainda espera para ser a escolhida?

Peixe que dorme sem autoestima, o alagamento leva

Um dia o rio do auto-ódio transbordou. Alagou toda a propriedade. Milhões de hectares de autoestima foram submersos naquela água turva que mais cheirava a enxofre. E, para completar meu desespero, não tinha um mísero bote salva vidas naquelas terras. As autoridades foram acionadas.

Os bombeiros do resgate psicanalítico vieram correndo. Eles usaram de suas mangueiras freudianas e dos helicópteros do bom senso para tentar resgatar o que sobrou. Porém, esses bombeiros cobravam caro. Era mais de 100 reais a sessão. Não pude continuar o resgate com eles.

Nessa altura, a mídia já estava acompanhando o caso de perto. Todos queriam ver um pouco do afogamento. As vizinhas faladeiras torciam o nariz na esperança de sair de casa e ter o privilégio de observar mais um dia de inundações. Por não chover na vida delas, elas esperavam que na minha fosse um dilúvio constante.

Cheguei a achar que precisava encontrar o ralo secreto para que toda aquela água turva escoasse. Mas, depois de dias com minhas tralhas de mergulho procurando o buraco que magicamente resolveria meus problemas, vi que ele não passava de uma ilusão. Esse alagamento não estava para peixe.

Com a estiagem, a ajuda humanitária começou a aparecer. Até as amadíssimas vizinhas vieram para fingir que ajudavam. Foi emocionante ver aquelas milhares de pessoas (e dezenas de fofoqueiras) em prol de uma causa em comum. Pena que a causa era a revitalização das terras da minha autoestima — o ato de ajudar só é lindo quando não é você o ajudado.

No começo, senti uma leve vergonha por ver aquelas várias mãos trabalhando para arar uma terra que era minha. Não queria ser um estorvo na vida de ninguém. Mas, ao ouvir que cantavam animados (desde Chico Buarque à Jojô Toddynho), percebi que eles não se importavam em trabalhar sem esperar nada em troca. Até tive medo de algum empresário paulista ver a linda cena e causar outra enchente tentando lucrar em cima do trabalho alheio. Mas as coisas correram bem e, muitos Faroestes Caboclos depois, tudo estava de volta ao normal.

Na despedida dos voluntários, me peguei pensando como manteria sozinho aquele rio imenso em seu curso natural — hoje em dia é quase impossível fazer o que os antigos gostavam de chamar de “manter as coisas no lugar”. É muito aflitivo para uma geração que muda a foto de perfil 6 vezes ao ano.

Porém, o tempo passou e, por incrível que pareça, as águas do rio não me deram mais trabalho. Talvez tenha sido a dica de um dos voluntários de plantar bosques de autoaceitação por grande parte da terra. Talvez tenha sido toda a cantoria que espantou as poderosas e densas chuvas da angústia. Mas uma coisa é certa: esse é o texto mais Paulo Coelho que eu já escrevi.

* * *

Ilustradora convidada:

Isabella Kobi

Uma carioca de 21 anos que procura expressar sua profundidade por meio do abstrato/subjetivo na arte tradicional e digital. Também exploro a fotografia conceitual e o mundo da moda.

👉  Conheça o trabalho da Isabella instagram  e portfólio.

O agnóstico mais crente que já existiu

Um amigo me chamou para a sessão com a mãe de santo que, segundo ele, cuidava de sua jornada espiritual. “Ela vai curar esse tanto de problema que você tem” disse ele (sem explicar quais os problemas). Mas, paranoico que sou, a inusitada promessa-convite me captou a atenção.

Um agnóstico de primeira riria da utópica promessa feita pelo meu amigo. Porém, infelizmente, o alto nível de insegurança que corre nas minhas veias não permite que eu entre nessa seleta e exclusiva categoria que ri de crenças alheias enquanto brinda suas não-convicções. Então, como bom agnóstico de terceira que sou, além de não acreditar em absolutamente nada, acredito, também, em absolutamente tudo.

Quem é que não quer acabar com todos os problemas? Só um youtuber de autoajuda que ficaria com medo de não ter mais sobre o que desabafar!

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” disse o príncipe Hamlet para seu amigo Horácio, numa tentativa de mostrar a ele que existem coisas no mundo que a ciência não consegue explicar. Quando era só o Hamlet falando isso, eu estava tranquilo. Não passava de um esoterismo. O problema foi que, quinhentos anos depois, o mundo estaria lotado desses Hamlets-cheios-de-crenças-e-mistérios-não-explicáveis.

Levando ao cenário de que, para os esoterismos da vida, a minha resposta fosse sempre sim. Banho de ebó, baralho cigano, yom kipur, terapia multidimensional, missa católica, mapa astral, tarô, meditação da chama violeta e alguns outros com nomes tão hindus que nem consegui gravar.

Acho que o que mais complica essa vida de eterno crente duvidoso é que nenhum desses caminhos dá soluções imediatas. Eu queria entrar na sala da mãe de santo e sair com a paz de Buda na alma. Porém, assim como nas outras tentativas, a resposta foi: calma, Gustavo, tudo leva tempo, você não pode ficar ansioso.

E, apesar de toda a minha vontade de conexão-com-o-além, nessas horas, é inevitável que na minha cabeça surjam pensamentos desconfiados. “Se nem 1% da população mundial conhece essa doutrina, por que eu vou acreditar que ela é tão poderosa?”. “Se existem esses poderes, como que o mundo está do jeito que está?”.

Porque tem isso também. A realidade não colabora. Cada dia uma nova tragédia, um novo pandemônio. Se algum dos caminhos realmente fosse tão poderoso, quem o seguiu já teria encontrado alguma solução para o ano de 2020.

Como crer no sobrenatural se nem o natural está durando?

Eu queria ter a força para bater o martelo e definir de uma vez por todas no que acredito. Ou, pelo menos, no que não acredito. Mas, só de pensar nisso, já me dá um medo de não poder mudar de opinião depois. Raul Seixas até falou que prefere ser uma metamorfose ambulante. Acho que ele não era agnóstico — e muito menos ansioso.

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Ilustrador convidado:

Matheus Quinan

Originário de Petrópolis, RJ, participa de exposições e eventos alternativos desde 2010. A obra procura explorar arquétipos, colocar pra fora e dissecar fragmentos de personalidade comuns ao artista e ao observador. Acredita que comunicação e magia são duas atividades muito próximas e que a arte é uma ferramenta capaz de alterar a realidade comum. Também é designer gráfico, o que traz a experiência diária com ferramentas de edição de imagem, uso de cores e aplicação de texturas.

👉  Conheça o trabalho do Matheus instagram e portfólio.

A vida de um barista: entre cafés e conversas

O que você diria se eu te contasse que existe um jogo onde você é um(a) barista? E que se resume a conversar com clientes e servi-los bebidas quentes? Bem chato, né? Como é esperado, eu vou contrariar suas expectativas e dizer que não, muito pelo contrário. A verdade é que o jogo é bem interessante. Para além da profissão do jogador, o estranhamento começa no universo da narrativa. Nele, um livro onde o ser humano é a única espécie “dominante” do planeta seria classificado como fantasia.

Um súcubo e um elfo em um bar
Lua e Baileys contra o mundo

É que na sociedade de Coffee Talk convivem — nem sempre de forma harmônica — humanos, seres fantásticos e visitantes de outras galáxias. No entanto, não estamos em uma Terra Média ou em uma galáxia muito distante, mas em Seattle em pleno 2020. Aqui lobisomens e vampiros, apesar das diferenças, podem ser bons amigos. Seres submarinos e orcs podem desenvolver jogos. Elfos e súcubos podem, para o horror das respectivas famílias, namorar. E um humano pode abrir um café que só funciona à noite (isso sim é, provavelmente, a coisa mais inverossímil do jogo).

Freya olha irritada para o barista
Freya, escritora e agente do caos nas horas vagas

Na Steam, Coffee Talk é classificado como um romance visual, mas do tipo que você não tem muita gerência sobre os rumos da história. Nele você é um passageiro em uma viagem em que a vida de indivíduos pouco a pouco vão se entrelaçando. O jogo é um ode ao cotidiano, e é tão “vida real” que podem existir personagens que o seu santo simplesmente não bate e você passa a odiá-los sem motivo aparente. Convenhamos, não há nada mais corriqueiro do que uma antipatia desmotivada.

O alienígina Niel, vestido como um astronauta conversa com o barista
Sem dúvidas Neil é meu Toby Flenderson

Não vou me alongar pois este texto é para ser curto, por isso vou dizer que este jogo, desenvolvido pela Toge Productions, é uma bela surpresa. Tenho apenas pouco mais de duas horas de jogo, mas digo com tranquilidade que esse é meu novo jogo para relaxar. Ele é leve, divertido e muito instigante. No entanto, já deixo avisado que caso você goste de ação ou procure algo mais dinâmico, muito provavelmente Coffee Talk não seja para você… Ou talvez seja. Vai saber.

Um soldado, uma cultista e uma raposa entram no Território Lovecraft

Aviso de pequenos spoilers

Mais recentemente, no cinema e na televisão, a intertextualidade tem sido uma ferramenta bastante utilizada por roteiristas e diretores. O que a princípio era uma forma de fazer reverência a outros artistas, atualmente ocupa boa parte de obras audiovisuais: São falas que referenciam outras obras e que acrescentam algo a história (Capitão América: Guerra Civil), aparições não muito claras que servem como Easter Egg (Parasita) ou até mesmo elementos secundários que se somam ao tom e o gênero da obra (Os Mortos Não Morrem).

Montrose: “Garoto, viu como eu pulei? Jesse Owens não chega aos meus pés!” – T01E04: “A History of Violence”

Nesse contexto, é cada vez mais comum achar exemplos em obras audiovisuais, sejam eles ainda como forma de reverência ou sendo utilizadas de novas maneiras e com novos propósitos. Sempre costurando sua própria obra puxando as linhas de outras e, assim, difundindo essas como símbolos culturais. Assim a minissérie Lovecraft Country (2020), criada pela roteirista Misha Green e adaptada da obra de Matt Ruff, busca fazer da intertextualidade uma parte essencial da sua trama.

Referências literárias:

Como seu título indica, o primeiro elemento puxado para dentro do livro é o universo fantástico de H.P. Lovecraft, onde é possível encontrar: criaturas monstruosas, que testam a noção da existência humana, cultos secretos e poderes mágicos sobrenaturais. A princípio, essa mitologia parece ser a única a ser referenciada, sendo uma parte importante do conceito da trama. Porém, aos poucos o próprio livro se liga a outras obras, mas de forma mais presente, algo que o roteiro do seriado segue como um dos principais elementos de adaptação.

“A prateleira de cima estava abarrotada de livros da série do Tarzan, e a debaixo tinha a coleção completa de John Carter, assim como Carson Napier de Vênus e a série Pellucidar. As outras prateleiras tinham autores e títulos que ele conhecia, alguns dos quais pareciam muito fora de contexto naquele ambiente. […] A prateleira de baixo era o Território Lovecraft: Angernon Blackwood, Robert Bloch, August Derleth, William Hope Hodgson, Frank Belknap Long, Clark Ashton Smith, além, é claro, do próprio Lovecraft…” – Território Lovecraft, Capitulo 1: “Território Lovecraft”, página 67.

Assim, livros como “Viagem ao Centro da Terra”, “Guerra dos Mundos” e os quadrinhos da “Mulher-Maravilha” (entre vários outros) são inseridos em diferentes cenas e contextos. Ajudando a ditar o tom do seriado, trazendo elementos que enriquecem os personagens e expandindo o universo para além das linhas Lovecraftianas. Aos poucos, algumas destas obras se mostram mais presentes quanto a questão central dos episódios e servem como objeto para alguns questionamentos feitos no seriado. Dá-se o exemplo de Atticus (Jonathan Majors), ao ler “Uma Princesa de Marte”, cujo seu herói, John Carter, é um ex-soldado confederado:

Senhora: “Espera aí, você disse que o herói era um soldado confederado?”
Atticus: “Ex-confederado.”
Senhora: “Ele lutou pela escravidão. Você não pode por um ‘ex’ nisso.”
Atticus: “Histórias são como pessoas. Amá-las não as torna perfeitas, você só tenta apreciá-las, e ignorar suas falhas.”
Senhora: “Mas as falhas continuam lá.”
– T01E01: “Sundown”

Referências culturais:

Indo além da literatura, o seriado aos poucos começa a se utilizar de elementos culturais como fonte de referências. Isso já fica claro desde o terceiro episódio, “Holy Ghost”, onde a casa de Letitia Lewis (Jurnee Smollett) é assombrada por fantasmas e em certo momento se convoca uma xamã (aparentemente de religião iorubá) para realizar um ritual que possa resolver o problema. Algo que incorpora outro elemento e expande o que é considerado plausível ao sobrenatural do seriado.

Porém, um exemplo mais claro disso se dá no episódio seis, “Meet Me in Daegu”. Nele, vemos a passagem de Atticus (Johnathan Majors) pela Guerra da Coreia sob o ponto de vista de Ji-Ah (Jamie Chung). Uma enfermeira Coreana que esconde o segredo de ser uma Gumiho (ou Kumiho): uma criatura sentenciada a procurar e extrair a energia vital dos homens com quem ela se deita. É mais um elemento cultural costurado a trama e é exclusivo do seriado, já que a personagem se quer existe no livro.

Referências à história negra nos Estados Unidos:

Outra característica importada do livro e de suma importância é a referência que ambas as obras fazem a eventos históricos. A grande sacada da obra de Matt Ruff é pegar personagens negros e mostrar os desafios e situações do segregacionismo e racismo da época do Jim Crow, junto ao ocultismo do universo de Lovecraft.

“Quando olhei pela janela de manhã, vi uma multidão de umas quatrocentas, quinhentas pessoas descendo a colina, e aí elas atiraram em um negro… Eram umas oito horas quando elas chegaram ao distrito residencial e começaram a saquear as casas dos negros. Fui para o sótão quando vi que elas estavam se aproximando. Depois de botar fogo em vários lares elas entraram na nossa casa, abriram o gás, botaram uns móveis em cima e acenderam um fósforo. Assim que saíram eu desci, desliguei o gás e consegui apagar o fogo, e aí voltei para o sótão. Coisa de uma hora depois veio outro grupo. Quando viram que a casa não estava em chamas, eles entraram e tentaram botar fogo. Desci de novo e consegui apagar o fogo e voltar para o sótão uma segunda vez. A essa altura tinha tanta fumaça que decidi sair, e estava atravessando a rua na direção da fundição quando quatro camaradas me pegaram. Eles disseram ‘Ei, crioulo, onde você estava?’, e respondi que estava voltando do trabalho. E então eles falaram: ‘Bem, a gente vai matar você.’ – G.D. Butler, sobrevivente dos incêndios de Tulsa de 1921, em entrevista ao jornal The Chicago Defender, 11 de Junho de 1921”
– Citação presente no começo do capítulo seis do livro: “Casa Narrow”, página 258.

Nesse sentido seria quase um demérito se o próprio livro não se aprofundasse em acontecimentos que demarquem essas injustiças presentes na vida dos protagonistas. Porém o que faz o seriado se destacar não é só o reforço dessas questões, mas também uma participação maior de personagens e figuras da cultura afro-americana de diferentes épocas.

Hyppolita: “Eu quero dançar em Paris com Josephine Baker!” – T01E07: “I Am”

Esse é o tipo de intertextualidade que mais ocupa espaço na série. Elas vão de: referências fotográficas, em que cenas imitam fotos famosas; literárias, com escritores sendo citados e referidos de diferentes formas; e musicais com musicas anacrônicas servindo de trilha sonora em diferentes casos. Na parte da trilha, vale destacar também o papel de que alguns áudios têm em cenas chave da série. Como na cena clímax do episódio 9, “Rewind 1921”, onde os personagens acompanham os acontecimentos do Massacre de Tulsa (1921), em meio ao poema “Catch your fire” de Sonia Sanchez:

Aviso para cenas fortes

Assim, personagens importantes da história negra nos Estados Unidos como W.E.B du Bois (1868-1963) e Denmark Vesey (1767-1822), e fatos importantes como o Massacre de Tulsa (1921) e o caso de Emmet Till (1941-1955), se tornam presentes e são aprofundados no seriado. Sendo apresentados para aqueles que nunca os conheceram, homenageados e relembrados para aqueles que já sabiam de sua história e, junto das obras literárias e dos outros símbolos, são difundidos como uma parte importante da cultura.

Dessa maneira, Lovecraft Country (2020) é um ótimo exemplo de uma adaptação em que a intertextualidade é um elemento crucial. Dando um propósito a ela, e utilizando suas referências de forma certeira e objetiva.

Como dito no próprio texto, existem muitas referências a serem buscadas, assim para saber mais sobre elas, vale a pena dar uma olhada nos links:

  • Série de vídeos da Mikannn sobre o seriado com convidados especiais.
  • O próprio podcast da série em português e inglês, com debates analises e comentários sobre a série.
  • Série de vídeos do canal Heavy Spoilers sobre algumas outras referências (inglês).
  • Série de artigos do site Nerdist série de artigos com outras referencias, analises e debates sobre outros elementos da série (inglês).

ANTICRISTO

Todes tiveram sua cota de perdas e danos ao longo deste ano. Ao chegar em dezembro, existe uma sensação quase universal de não compreender como os meses passaram tão dolorosos e ao mesmo tempo tão rápidos. Um ano que não deveria ter sido. No entanto, o espírito festivo e esperançoso tenta encher os corações outra vez. O desejo de férias, de fugas, de se absolver de todo o cansaço e toda culpa por ter vivido condições esdrúxulas. De se endividar com os últimos presentes, os últimos ritos que possam prometer um novo ciclo, um novo começo, um punhado de paz. Os olhos na virada e na vacina, esperamos. E enquanto o tal dia da liberdade absoluta não vem, quem pode procura meios de escapar da realidade. Ele estava convencido de que depois de tanto tempo trancafiados no apartamento, a única cura possível para suas feridas estaria em retirar-se por algumas semanas na natureza. A imagem bucólica da sua infância, o gramado verde, os pés sujos de lama, passarinhos cantando, cachorros correndo, árvores e mais árvores o cercando – tudo soava como um pequeno éden do passado. Não queria mais as paredes infernais, o uso abusivo de álcool gel, a incapacidade de olhar para o céu sem precisar tomar mil e uma medidas precautórias, e acima de tudo, não suportava mais o humor mórbido que dominava sua rotina com sua esposa. Ela parecia cada dia mais indiferente, mais apática, totalmente desapaixonada pelo mundo (e por ele). Andava tão apavorada com o mundo e com toda a crueldade que avassalou suas vidas que imaginava que poderia fazer mal aceitar o convite para se meter na serra com ele. Nada poderia ser pior do que a rotina maçante que tinham. Do pior, ela pensava, não vamos transar e vamos fazer trilhas estúpidas silenciosamente. E ela poderia gostar de poder chorar a céu aberto, entre longas árvores. Então aceitou, os dois alugaram um carro e se meteram em um chalé antigo, alugado numa super promoção de um proprietário desesperado. A casa era pequena, mas cercada de um enorme terreno, de sabe lá quantos hectares. Bosques, elevações, pequenos riachos em que podiam se banhar, e enorme mata selvagem. Muito longe de todas as pessoas, do vírus, da dor. A viagem foi tranquila, na atmosfera pairava uma delicada esperança. Na medida que o carro adentrava mais e mais em estradas de terra cercadas de densas florestas, os dois se sentiam mais seguros e confortados. Havia algo mágico no ar, como se pudessem ver fadas ou gnomos ou dúzias de vaga-lumes a qualquer momento. Aquela sensação infantil suprimia por alguns minutos toda a dor, o luto, o remorso que sentiam. E então, no final de incontáveis curvas, chegaram ao novo paraíso.

A paisagem era de tirar o fôlego, pouco importava a rudeza da casa. O cerco de árvores, as montanhas no horizonte, a brisa fria e vigorosa os deixou extasiados. Ela esboçou o primeiro sorriso em meses, o que ele tomou como uma gigantesca vitória. Tiraram as malas do carro, desempoeiraram e higienizaram alguns móveis e utensílios. Uma breve garoa caía lá fora, o frio aumentava, mas tudo que ouviam era o som distante de grilos e cigarras. Em pouco tempo, se sentiram aconchegados. Espalharam casacos, livros, compras. Tentando fazer aquilo tudo ter um pouco mais suas feições. E ficaram tão acomodados que logo a sensação massacrante retornou. Primeiro veio o tédio. Ele tentou abrir um vinho, acariciar os cabelos dela, deixar que ela se deitasse em seu colo enquanto massageava seu pescoço, mas dois dias se passaram e aquele gesto parou de surtir efeito. Ele, ainda sonhando com as imagens doces da sua infância, se tornava ainda mais impaciente com o humor soturno dela pelo simples fato de se sentir profundamente traído. Estava novamente no Éden e não conseguia vivê-lo como tinha planejado. Ela, do outro lado, não conseguia conter o choro e se sentia pior ao vê-lo empurrá-la pra dentro daquele sonho a força. Como se fosse obrigada a querer rolar pela grama, nadar no riacho e se sentir satisfeita. A verdade é que desde que chegaram, pequenos infortúnios sucederam, o que ela tomava como uma espécie de presságio. Série de ninhos caídos com ovos quebrados apareciam pelas trilhas, móveis infestados de cupins caindo dentro da casa e até mesmo um episódio de uma enorme capivara morta com marcas de mordidas violentas no tronco, bem ao lado do riacho. O medo encontrava seu caminho. Então veio a irritabilidade. Os dois frustrados ao constatar que a paisagem se tornava mais um plano de fundo esquisito e mórbido para o mesmo desconforto de sempre. E aquela frustração logo se tornou pequenas farpas na língua, micro agressões sutis que escapavam durante refeições, nos passeios pela mata, antes de dormir deitados na cama. Foi nesse momento que ela começou a ter sonhos estranhos.

Nos sonhos, ela era visitada por inúmeras e diversas mulheres. Nenhuma igual a outra. Mas todas, sem exceção, lhe sussurravam coisas sujas, mostravam mãos manchadas de sangue, abriam suas bucetas peludas puxando a carne com os dedos, faziam gestos obscenos, chupavam o dedão, mostravam a língua malcriadas e algumas até mesmo dedavam o próprio cu. Apareciam em procissões, sujas de terra, fogosas, fazendo caretas. No início a assustavam muito, seu coração acelerava, tentava de toda forma mandá-las embora. Depois, com a insistência que tinham em permanecer em seus sonhos, ela começou a observá-las com mais gosto. Percebeu que além de beliscões, puxões de cabelo e pequenas mordidas, não faziam muito mal. Logo percebeu que acordava agora sempre úmida, completamente excitada e ofegante. Queria que aquelas mulheres lhe tocassem, se perguntava porque não metiam seus bizarros dedos sujos nela. Por que não apalpavam seu peito ou dedavam seu cu ou ao menos lambiam seu umbigo, como faziam umas com as outras? Levantava na cama, suada, com um tesão cavalar, sem saber o que fazer com a vontade de permanecer dormindo e sendo visitada por elas. Tentou usar daquele fogo estranho com seu marido. O acordava, beijando o seu pescoço, ou até mesmo tocando seu pau, esfregando a buceta molhada nele. Mas quando ele finalmente despertava e correspondia, ela se frustrava outra vez por não conseguir sustentar a excitação que tinha com aquelas mulheres safadas do seu sonho. Ele então metia, ainda sonolento, o pau dentro dela, apertava sua bunda, chupava seu peito, se empenhava mesmo em tentar satisfazê-la cedo pela manhã ou no meio da madrugada. Mas acabava gozando primeiro, o que a fazia virar-se de lado e anunciar que iria dormir um pouco mais. Assim, logo encontravam motivos para brigar ou se ignorar outra vez. Os dias seguiam longos e lamuriosos, ela nem queria mais sair do chalé. Ele passava mais e mais tempo metido na floresta sozinho. Como o aluguel se estendia por mais algumas semanas, os dois se habituaram a suportar as tardes infernais. E torciam secretamente, tanto ela quanto ele, que durante a noite aquele tesão misterioso culminasse em uma transa épica que magicamente resolveria seus problemas e ressuscitaria o amor doce que tiveram um dia. Mas toda noite, os mesmos sonhos e a mesma transa meio sem gosto parecia se repetir.

Naquela madrugada, no entanto, algo diferente aconteceu. As mulheres apareceram mais sisudas, menos lascivas. Pela primeira vez, uma delas se dirigiu diretamente a ela pedindo que abrisse a boca. Ela, em sonho, abriu – aguardando por um beijo nervoso ou pela teta enorme lhe roçar os lábios. Mas a mulher enfiou em sua boca um pedaço de carne. O cheiro era forte e podre, mas ela engoliu sem pensar duas vezes e todas as mulheres riram em uníssono. Ela acordou, no susto. Sua buceta ardia de tanto que latejava. A calcinha tão úmida que molhava a cama. Os mamilos duros feito pedra com um tesão que parecia quase doer. Sacudiu seu marido desesperada. Ele, primeiro assustado, depois lisonjeado com tamanha urgência, logo começou a beijar sua boca, seu pescoço, seus peitos. Mas tudo ainda lhe parecia pouco, frio, indigesto. Ela teve então uma nova ideia. Pegou na mão dele, pediu que a seguisse e saiu pra fora da casa.

Ao abrir a porta, o vento gelado bateu contra os seus corpos seminus. Mas o calor que ela sentia era tão grande, que nem se importava com a baixa temperatura, nem mesmo percebia que ele estava tremendo. Continuou marchando em direção a floresta, se metendo entre as árvores no escuro da madrugada. Apenas a lua e as estrelas iluminavam uma fresta ou outra, mas à medida que avançava, mais o escuro os acolhia. Chegou então no pé de uma enorme, talvez a maior árvore que já tivessem visto na vida. Ela teve certeza. Tirou ali a camisa e a calcinha, deitando no chão entre as raízes. Ele, de início receoso, mas muito disposto em fazer o que fosse necessário para tornar aquela viagem um recomeço, tirou também suas roupas. Sentiu-se um pouco enojado em foder assim na terra, no escuro, provavelmente entre insetos ou sabe Deus o que mais. Mas logo percebeu algo de diferente. Os olhos dela pareciam brilhar de tão ensandecidos de vontade. Ela fazia caretas que nunca antes na vida havia feito e abria a buceta com os dedos, se tocando, se tremendo toda para ele. Seu pau ficou duro como uma pedra. Uma espécie de onda macabra parecia envolvê-lo. Queria comer ela. Beijava violentamente sua boca, chupava com toda força seu peito como se pudesse tirar leite. Ela gemia alto e alto, uns gemidos agudos que ele nunca havia ouvido. E as mãos dela apertavam e beliscavam sua pele, sua língua violava sua orelha, e o pau parecia que ia explodir. Metia nela como se pudesse fazer tremer a gigantesca árvore na qual se apoiava. Ela abria as pernas, mais e mais. Levantava os pés pro alto. Ele via seu cu e a terra cheia de folhas e raízes.

Da visão dela, ele parecia cada vez mais uma espécie de besta, fincando sua força dentro. Queria provocá-lo, exauri-lo. Gostava de ver os seus olhinhos surpresos, sua boca ofegante. Se masturbava friccionando freneticamente os dedos contra seu próprio grelo, enquanto ele metia. Contraia a bunda e todos os músculos, pra sentir ele melhor dentro dela. Então, olhando-o de baixo, percebeu a mata escura se mexer. Teve um calafrio e logo ouviu os grunhidos peculiares dos seus sonhos. Teve a sensação que as raízes da árvore que a cercavam começaram a lhe beliscar, como pequenas mãos safadas. Deixando roxos, depois arranhões, depois quase macias tocando seu sovaco, seu umbigo, seu cu. Se tremia toda, soltava gargalhadas pelas estranhas cócegas. Ele suando feito um louco em cima dela, em tal ponto tentou virá-la de quatro, para ser mais apoio. A bunda dela empinada pra ele, as mãos dela segurando no tronco da árvore. Foi aí, rebolando sua raba contra o quadril dele, que ela viu, com nitidez, as mulheres aparecendo em seu entorno. Soltou gemidos mais altos. Sentiu suas entranhas todas se mexendo, seguido do sangue menstrual descendo suas pernas. Ao perceber o sangue, ele se afastou. E isso foi suficiente para perceber as mulheres se aproximando. Mãos o agarrando pelas costas, duras, porém ardilosas. Enroscando no seu corpo e o puxando pra trás. O chão parecia querer ceder embaixo do seu pé, como que tentando engoli-lo. Chamou por sua esposa, que agora gargalhava ainda mais. Enquanto parecia afundar lentamente pra dentro da terra, pode observar ela de quatro sendo completamente agarrada por aquela multidão de mulheres. Via elas se enroscando, bucetas coladas uma na outra, xotas peludas roçando nas coxas, dedos por toda parte. Enfiados nos umbigos, nas orelhas, nos cus, nas xanas. Pressionando grelos. E ela brilhava, gemendo e gemendo e gargalhando. Como nunca tinha visto ela gargalhar ou gemer em toda sua vida. A terra prestes a soterrá-lo e percebeu que mesmo que gritasse, ela não lhe dava a mínima. Absorta em bocas carnudas ou magras, dentuças ou banguelas, todas beijando, lambendo, chupando. Tudo foi ficando escuro, a terra entrando em suas narinas. Sons de bichos ficando mais e mais altos em seu ouvido e um calor de fogo crescendo e crescendo. O solo era quente e parecia querer sufocá-lo, torná-lo outra coisa. Tudo foi ficando vermelho pros seus olhos. Sua infância passando em sua mente, em flashes violentos. E apesar da dor e da falta de ar, percebeu que morrer era algo tão primoroso como gozar e gemeu, um gemido grave e subterrâneo que só conhecem as pedras e raízes.

Do alto, sem nem perceber que ele havia desaparecido. Sem nem dar falta dele. Ela não sabia se sobreviveria a tamanho prazer tão abundante. Lambia pela primeira vez uma buceta, carnuda. Chupava o grelo, os lábios, parecia querer engoli-la. E logo aparecia outra, com uma forma nova, com um gosto novo. E a chupava, com igual vontade e curiosidade de saber como encaixaria em sua boca. Em sentir o seu cheiro. Em sentir as coxas contra seus ouvidos. Ou as bundas batendo em sua cara. E a infinidade de toques que recebia, a infinidade de beijinhos, chupadas, mordidas. Os dedos que entravam e saiam dela, do seu cu, agora aberto e pulsante, da sua buceta latejante, pelo seu clitóris inchado. Suava e suava. Quando parecia que não ia aguentar e tentava se jogar mole contra a árvore, logo se deliciava com alguma mulher encaixando nela e roçando devagarzinho. E enquanto admirava a imagem delas se adorando, entre elas, sentia sua buceta forte contra outra, que parecia tremer e roçar mais e mais frenética. Se surpreendia com como sabiam se encaixar de tantas formas, como os peitos tão diferentes batiam uns nos outros e como gritavam, sussurravam, choravam e riam. Quando pensava que era incapaz de gozar mais, sentiu todo o corpo contrair outra vez. Sentiu dedos penetrando devagar, ao mesmo tempo, no cu e na xota e duas bocas abocanhando, cada uma, um de seus peitos. As mulheres então emudeceram todas. Ouvia-se apenas o som molhado dos dedos entrando e saindo, das bocas chupando, da terra tremendo. O orgasmo parecia dilacerar seu corpo e ao mesmo tempo ecoar em todo seu entorno. A árvore se agitava, as folhas debatendo-se. Era tão bom, tão bom, que era quase como se pudesse morrer. Sentiu então o gosto de carne na boca outra vez e o mesmo rebuliço das entranhas. Todos seus fios de cabelo arrepiaram. Todos os poros abriram. O sol principiava a nascer e ela percebeu mais e mais mulheres caindo das árvores, saindo da terra. Milhares e milhares. Deitou outra vez no solo. O orgasmo não terminava. Seu coração acelerado em seu peito. Pernas em espasmos. Corpo se torcendo e contorcendo. O orgasmo persistia. Algo gelado tocou suas costas. Uma enorme cobra rasteja ao seu lado. O orgasmo persiste. Como se não fosse acabar nunca. E continua. E continua. E continua. Até não ver mais nada. E continua. Até não pensar mais nada. Ele apenas continua. Como a força por trás de todas as coisas. Continua. Tudo é calor. É como a morte. É terrível e delicioso e nunca termina.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

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A pressão de ter a idade dos pais

Minha mãe me teve quando tinha 25. Eu faço 25 mês que vem. A diferença é que, enquanto ela planejava como iria criar uma vida, eu planejo qual sabor de lasanha Sadia vou comprar à noite. Ela já estava casada, enquanto eu… Eu… Eu tô pensando se volto para o Tinder ou não.

Se bem que há 25 anos a vida era outra. Viajar era mais difícil, os aluguéis eram mais baratos e não existia nem o famigerado Tinder para ela se aventurar. O que é mais legal: ter um filho ou viajar para o Canadá? O Canadá pelo menos eu sei que não vai vomitar em mim depois de almoçar.

Vamos fazer assim: as crianças estão canceladas! A partir de agora é proibido ter filho. Os pets são os novos filhos. As plantas são os novos pets e as séries do Netflix são as novas plantas. Assim a gente tira a pressão de constituir família e ainda ajuda a não-destruição do mundo (que convenhamos já está lotado demais).

Meu filho deveria me agradecer por eu não estar tendo ele agora. É para o bem dele próprio que eu não faço isso. Imagina se ele nasce e eu levo ele no bercinho para um rave? Além de preso, eu ainda fico mal na família. Se eu tivesse uma criança em casa hoje e ela chorasse, a minha única resposta possível seria chorar de volta.

E, para ser sincero, eu nem acho que agora é a melhor época para se nascer. Como que eu vou botar uma criança no mundo num Rio de Janeiro que não tem água, que tem Crivella e Witzel, e que o Coronavírus vai chegar a qualquer momento. Eu não tenho nem coragem de sair de casa à noite, quem dirá para gerar uma vida que em 15 anos vai querer sair de casa à noite. Saudades de ser pai de um Tamagochi (e se você não sabe o que é um Tamagochi é porque você já é pai há mais de 25 anos).

A ironia é que, apesar de egoísta, a minha geração sonha em ter filhos. A maioria foca nas pesquisas que dizem que vamos morrer mais velhos que as gerações anteriores e assim calcula a prole só para depois dos 40. E o sarcasmo é que, durante esse cálculo, todos colocam na equação o fato de que se veem muito ricos no futuro. Na escola da vida, a classe favorita deles é a alta.

O medo de envelhecer pobre é real. Talvez pelas reformas políticas nos últimos anos, talvez pelas péssimas projeções de como estará o meio ambiente. Será que quando eu tiver a idade que meus pais têm hoje ainda vai existir vida na terra? E, caso exista, será que eu vou querer dar rolê com ela?

O fato é que ninguém gosta de envelhecer e, por mais que muitos achem 25 anos pouco, é o máximo que eu já cheguei na minha vida. Pelo menos eu sei que hoje os 120 são os novos 60, os 25 são os novos 13 e os 40 são… Os 40 ainda são os 40 porque os 40tões nunca mudam. Acho que vou seguir os passos do meu pai. Ele me teve com 39.

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Ilustradora convidada:

Fernanda Barreto

Olá! Me chamo Fernanda Barreto, tenho 20 anos e sou formada em animação e design gráfico. Sempre fui muito apaixonada por desenhos e por estórias, e por isso hoje em dia procuro algum trabalho como ilustradora. Entre os meus amigos sou conhecida por “A maluca dos gatos”, “A Kapopera”, “A maromba” e por último e, nem por isso menos importante, também sou conhecida como “A do café”. Agradeço demais quem curtiu o meu trabalho e seria ainda mais grata se me acompanhassem lá no insta para mais artes e ilustrações da “maluca dos gatos”.

👉  Conheça o trabalho da Fernanda instagram.

Diversão Entre Nós

O jogo online “Among Us”, lançado em junho de 2018, teve seu repentino sucesso e se tornou febre durante a pandemia. Se trata basicamente de um clássico detetive (ou “cidade dorme”, dependendo de como você conhecer) feito para a esfera digital, e um pouco mais elaborado. Deve ser jogado com até 10 pessoas, que se comunicam entre si no final de cada rodada para debater e tentar descobrir quem é/são o(s) impostor(es).

Dado que não se trata de uma jogabilidade complexa ou noção apurada de videogames, o que provavelmente explica o súbito sucesso de “Among Us” é justamente o fato de reunir pessoas dentro de uma dinâmica coletiva, em um momento de isolamento em que todos estão distantes uns dos outros. Permitindo criar um espaço de lazer em grupo, ainda que afastados fisicamente. O jogo tem um mecanismo de chat mas normalmente é jogado com o Discord ou outra plataforma de ligação de voz para tornar os debates ainda mais energéticos e argumentativos.

Diferentes canais de streaming se dedicaram a promover grandes partidas de “Among Us” na Twitch durante os últimos meses, dada à proporção que o jogo tomou dentro das mídias sociais. Consumidores de conteúdo no youtube passaram a engajar massivamente em vídeos de streaming do jogo. Até mesmo celebridades de fora do universo da criação de conteúdo digital participaram de collabs jogando “Among Us”.

Tamanho foi o fenômeno na produção de conteúdo digital que alguns canais começaram até a inventar novas modalidades do jogo para seguir inovando em cima da mesma tendência. Criando partidas com novas regras e dinâmicas mais elaboradas.

“Among Us” é mais uma das ferramentas que a tecnologia aliada a criatividade pode proporcionar em um momento tão difícil como o que enfrentamos atualmente, para nos ajudar a manter uma comunicação com os amigos e a proporcionar diversão. Não surpreende que um jogo que permite a possibilidade de se reunir para um momento de lazer em grupo tenha se tornado um sucesso tão grande. E aí, bora jogar um Among?

Encontros e desencontros no submundo de Tóquio

Tokyo Godfathers (2003), de Satoshi Kon, é um filme de Natal incomum. Embora aborde um tema muito caro a esse “gênero” — a família —, seus protagonistas são completos estranhos a este universo festivo. Gin, Miyuki e Hana são três moradores de rua que formam uma família nada tradicional. O primeiro é um homem que, por causas das dívidas, deixou uma mulher e uma filha; a segunda é uma adolescente que fugiu de casa e a terceira uma mulher trans. Justamente esses três, que têm suas próprias questões familiares, acham uma bebê (que receberá o nome de Kiyoko) abandonada. Este encontro, que nas palavras de Hana é “um presente de Natal dado por Deus”, fará com que estes tenham que encarar o passado.

Aliás as palavras “passado” e “encontro” casam perfeitamente com a construção narrativa deste anime. Toda a história se passa em uma noite, e se resume a busca desses três moradores de rua pelos pais da criança. Como muitos filmes desse tipo, a jornada desses personagens parece ser pautada por encontros fortuitos (ou em alguns casos desencontros). Mas embora pareçam absurdos ou casuais, eles fazem parte de toda a lógica do universo da animação. Muitas vezes servindo para que os personagens possam enxergar a si mesmos, quase como a um reflexo no espelho.

Nesta Tóquio cruel e feia (que é o negativo da imagem de cidade ultra tecnológica e rica), uma festa de casamento pode terminar em assassinato, ou uma assassina pode no próximo plano se revelar outra coisa e no seguinte outra.

A própria bebê abandonada, que no anime muitas vezes é associado a ideia de anjo, reflete algo da vida pregressa desses personagens. Para Gin, a menina representa a filha abandonada por ele — que “coincidentemente” também se chama Kiyoko. Por outro lado, Miyuki vê na menina sua própria condição, uma criança que está distante da família. Já Hana, que a princípio parece se apegar a criança simplesmente pela sua impossibilidade de gerar um filho, se vê na criança, uma vez que foi abandonada por sua mãe biológica. Mas este se enxergar refletido em outro lugar não se limita a estes exemplos.

Cena de "Tokyo Godfathers" onde um homem de meia idade com barba, uma adolescente e uma mulher trans observam um bebê que chora
Gin, Miyuki, Hana e Kiyoko

Durante a animação, os protagonistas se encontram/reencontram consigo em outros personagens ou situações. Gin esbarra com um sem-teto ancião que parece refletir uma versão possível de seu próprio futuro. Já a adolescente, em determinado momento ficará na casa de uma família de imigrantes, uma contraparte a sua própria. Hana, por sua vez, se reencontrará com sua mãe adotiva. Estes paralelos e a multiplicidade de famílias representadas estão ligadas ao tema central do filme que, ao se utilizar desses laços familiares (que não se limitam ao sangue) e afetivos, fala sobre o perdão e o se perdoar.

Momento comovente de "Tokyo Godfathers", onde Gin observa um idoso deitado no chão, o espaço está cheio de sacos de lixo e outros objetos

Uma adolescente observa uma mulher com um bebê no colo.

Hana, uma mulher trans conversa com outra mulher trans um pouco mais velha em um bar.
Gin se encontra com o futuro possível; Miyuki com as ausências do presente e Hana com o seu passado

Outro ponto interessante de Tokyo Godfathers é que, assim como em outros filmes que se desenrolam em um curto espaço de tempo, a noite, as ruas e o submundo — dos marginalizados, dos Yakuza, dos imigrantes — parecem favorecer bastante a noção de que tudo pode acontecer. Nesta Tóquio cruel e feia (que é o negativo da imagem de cidade ultra tecnológica e rica), uma festa de casamento pode terminar em assassinato, ou uma assassina pode, no próximo plano, se revelar outra coisa e no seguinte, outra. Há um constante jogo de aparências no roteiro escrito por Keiko Nobumoto em colaboração com o diretor. As coisas se revelam de forma gradual, as vezes contradizendo o que vimos antes.

Uma boneca enrolada em uma manta em uma manjedoura.
Boneca que simboliza Jesus em uma peça natalina
Um bebê chorando abandonado em meio ao lixo em um momento chave de "Tokyo Godfathers".
Primeira aparição de Kiyoko

Obviamente existe um elemento místico (ou seria apenas o acaso?), já enunciado no plano inicial da animação. A criança perdida parece trazer aos três protagonistas sorte e proteção nesta jornada pelo wild side de Tóquio. Mas não só isso, nestes constantes encontros e desencontros, a menina também concede segundas chances a Gin, Miyuki e Hana que ficam em suspenso ao fim de “Tokyo Godfathers”.

CLUBE DA LUTA

Você não dorme mais. Você não transa mais. Você passa horas e horas diante do celular fazendo lista de compras em sites que você não tem dinheiro pra pagar, dando matchs com pessoas que você não tem coragem de encontrar. Você não sabe bem como mudar a sua vida, mas você não quer a sua vida como ela está. Você reclama da sua vida para milhares e milhares de pessoas que não te conhecem e não dão a mínima. Elas apenas esperam seus momentos de reclamar. Você se sente uma pessoa patética, fora de forma, fora de ética, sem discurso, sem appeal, sem manha. No seu perfil você sustenta uma farsa, elaborada matematicamente, para ser engraçade, sacana, bacana, cool, espiritualizade. Pra parecer alguém desejável, palatável, consumível. Vive pensando que alguém tem que querer te comer, te amar, te divulgar, te dar dinheiro, te dar produtos gratuitos, te dar vaga na live, te fazer perguntas completamente pessoais e desimportantes. Você não quer o mundo falido dos seus pais, o mundo decrépito dos jornais, você quer endorfina injetável, transar por horas, escrever coisas que alguém reposte, receber declarações aos montes, tudo aos montes. Mas você não é essa pessoa que você finge ser na internet.     Isso te rasga por dentro.     Te dá dores no estômago, úlceras precoces. Você sabia que toda a juventude está cada vez mais doente? Porque estão se alimentando da própria merda o tempo todo, é tanto eu que você apodrece. Você é jovem, não tão jovem, mas jovem e já tem dores nas costas, enxaquecas, problemas digestivos, câimbras matinais, síndromes diversas, taquicardia ansiosa, fadiga monumental. O mundo como é te puxou as tripas e derreteu o seu cérebro. Há esperança, mas você sente que ela não está em você. Porém você finge que ela está. Mesmo quando você não sabe mais encarar o próprio espelho, mesmo quando vive constantemente com medo de ser flagrade em um ato hediondo, em algum erro imperdoável que te cuspa pra fora daquele mundo, que te cancele, apague, delete, proíba. O medo também é uma doença que cresce em você, ou talvez, mais pra uma paranoia. Política, social, afetiva. Te mantém acordade, se esforçando para estar disponível, acessível, entregue. A pressão cresce cada dia mais. Neste ano, ainda mais. Parece que você vai ser engolide. Você está paralisade, não consegue trabalhar, amar, comer, existir. Precisa de alguém coach, salvadore, cheie de heroísmo que te tire do buraco que você cavou.

Eu sou esse alguém.

Eu vim aqui pra te arrancar do buraco, sacudir você, faxinar sua mente, sacô? Você vai precisar confiar em mim. Vamos jogar primeiro algumas coisas fora. Você vai deixar sua conta de lado, a sua farsa, o motor do teu pavor inexplicável de ser você mesme. Você não vai mais ser virtualmente, pelo menos por um tempo. Você vai abandonar às moscas sua própria imagem. Você não é sua conta, nem seu extrato, nem seu outfit, nem seu @, nem seu histórico de engajamento, nem seus boletos, nem seu carma, nem a forma com que você faz skincare ou qualquer babaquice. Então você vai ter que encarar o seu corpo real, músculos, pele, gordura, ossos, sangue, muco, saliva e as ideias grotescas que habitam seu cérebro. Eu vou lhe ajudar. Me acompanhe:

Primeiro, você vai ter que cortar as unhas, escovar bem os dentes, encarar tua baba na pia junto com a espuma quando cuspir. Ver se é rala ou espessa ou pegajosa. Vai em seguida tirar sua roupa suada. Olhar seus pelos – ou a falta deles. Suas cicatrizes – ou a falta delas. E na falta delas, se preocupe: talvez você ande sendo muito cuidadose. Vai olhar suas olheiras ou manchas ou espinhas ou estrias ou celulites – ou todas as anteriores. Se tiver cabelo, você vai cortá-lo sozinhe. Porque foda-se o seu cabelo. É importante saber perdê-lo, olhá-lo caído no chão, como apenas matéria orgânica. Como suas unhas ou dentes. Tudo cai um dia. E cresce de novo. Esse é o princípio.

Daí, você vai entrar em um banho frio. Que seja insuportavelmente frio, que te faça querer gritar, que te arrepie os pelos do cu ou da alma. E grite. Toscamente, violentamente, irritando e preocupando seus colegas de casa, parceires, familiares, vizinhes. Que sirva de alerta pra todes sobre o que vem a seguir. Nós vamos fazer barulho. Você vai deixar que a água aguce os seus sentidos. Que o desconforto te desperte. Não precisa fechar os olhos, se concentrar, fazer pose de pensative, apenas respire. Água batendo na nuca, nas costas, na bunda, nas coxas, nos pés. Na cabeça, no couro cabeludo, na testa, no rosto, no peito, na barriga. Você vai se ensaboar, com atenção pro toque atrás das orelhas, no pescoço, no suvaco, no umbigo, na buceta ou no pau, no cu, na parte de trás da perna, entre os dedos do pé. Eu quero você limpe. Mas sem demorar muito. Deixar que faça espuma e depois que escorra pelo ralo. Sem se secar, pingando, molhade, você vai sair do box ou da banheira ou do chuveirão. Vai se olhar assim, úmide, no espelho. Que a gente vem pro mundo tode cheie de muco, sangue, merda. É importante não se esquecer. Ao menos é só água te ensopando agora e não muco ou sangue de alguém. Você vai voltar pro teu quarto ou pra algum canto que seja seu. Em que você fique sozinhe. Em que possamos ter privacidade.

Eu vou aparecer pra você agora. Pela primeira vez. Vai ser a melhor coisa que já te aconteceu. Seus olhos vão brilhar. Seu estômago vai entrar em rebuliço. Eu sou exuberante e você me quer. Quer meu corpo, minhas curvas, meu cabelo, minha boca, meus dentes, meu tom de voz, minha confiança – ou talvez queira ser eu. É confuso e também excitante. Eu sou exatamente o que você precisa e você sabe disso ao me fitar. Mas tudo que é bom tem um custo. E eu tenho uma lição pra ensinar.

Vamos começar com um tapa. Forte. No rosto. Eu vou lhe dar e você vai retribuir. É importante que joguemos dos dois lados. Que você aprenda a revidar, contra atacar. Outra face é uma ova, hoje esqueça isso. Eu lhe dou o primeiro tapa. Sua cara fica quente, vermelha. É mais forte do que você pensou que aguentaria. Mas não é insuportável. Você fica com raiva. Me estapeia. É ainda mais quente. Sua mão arde. Você se empolga. O sangue corre pelas suas veias. Uma adrenalina diferente sobe para o seu cérebro. Eu lhe dou um soco na barriga. Você se assusta. Reluta. Doí. Mas eu quero que você continue. Eu sei o que eu estou fazendo. Você retribui. Nossas mãos igualmente doloridas e quentes. Você me surra com a mesma exata força que eu te surro. Um tipo novo de sintonia. Ambas as partes arriscando a si mesmas. É raro hoje em dia. Você me dá um tapa, mas eu mudo a tática: seguro seu pescoço com as duas mãos, você segura os meus punhos, tentando se soltar. Eu sou mais forte. Agora estou com o rosto quase grudado no seu. Meu peito toca você. Minha barriga. Você ouve minha respiração, tão ofegante, exatamente como a tua. Nossas bochechas vermelhas. As veias saltando da testa. Na adrenalina somos semelhantes. É mais quente e mais perigoso. Minha boca quase roça na sua boca. Você sente meu hálito, é fresco, mentolado. Eu percebo seus punhos me puxando pra perto. Eu lhe beijo, firme. Mordo seu lábio e só então afrouxo as mãos do seu pescoço. Você vai se surpreender, porque você vai num impulso feroz me segurar e me empurrar para o chão. Você tenta me imobilizar, ficando por cima de mim. Eu agarro sua bunda e dou um tapão nela. Você sente ondas e ondas de calor correndo pela sua pele. Você me beija, mordendo o meu lábio. Muito forte. Um pouco do meu sangue fica na sua boca, manchando seus lábios de vermelho. Sua língua com gosto de ferro. Eu lambo seus beiços, você fica úmide, enrijecide, muito muito excitade. Eu seguro em sua cintura e lhe viro. Não estamos em total igualdade. Você agora está deitade no chão. Eu fico por cima. Eu imobilizo seus braços. Mordisco e chupo seu mamilo. Desço a boca pela sua barriga, passo a língua em seu umbigo. Você começa a gemer, se contorcendo, querendo que eu continue. Eu paro, com uma das mãos, seguro seu sexo (sua buceta ou sua piroca) na minha palma suada, áspera e quente. Fico um pouco só te olhando, parade, salivando, enquanto seguro você. Te sinto latejar. Você solta um dos braços e aperta meu mamilo. Eu rio. Você me dá um tapa na cara e arranha meu braço. Eu coloco a cara entre as suas pernas e começo a chupar você. Se buceta, eu passo a língua pelos grandes e pequenos lábios, pela entrada do canal, depois começo a beijar e sugar seu clitóris. Se pau, eu seguro na base, passo a língua por toda a extensão lateral, até as bolas, depois subo pra cabeça e vou lambendo e fazendo uma sucção na glande. Bombeando seu sangue, te inflando, te inchando, seja qual sexo for. Com uma mão seguro sua bunda e vou tocando seu cu devagar, sem meter, mas te mostrando que posso estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Sua visão começa a embaçar de prazer e calor. E então você tem a sensação de ver tudo dobrado. Eu agora estou em par, multiplicade. Eu vezes dois, posso te confundir. Chupar você enquanto beijo sua boca. O meu hálito fresco e mentolado te invadindo encima e embaixo. Dedar você e morder sua bunda, e erguer suas pernas, lamber seu pé, seu pescoço, sua axila. Várias da mesma boca, das mesmas unhas, dos mesmos dentes, beijando, arranhando, mordendo, lambendo. Você vai gemer cada vez mais alto. A melhor droga que você provou é essa. A sua onda, sua endorfina almejada. Você vai ficar transtornade e vai querer gozar logo. Eu vou parar. Levantar. Você vai ter raiva outra vez, estava tão perto do paraíso e eu interrompi? Por quê? Volte, você vai querer me dizer. Mas você vai ter que se erguer, se recompor. Pra me puxar outra vez. Me derrubar outra vez. Você fica frustrade, porque você queria tudo do seu jeito agora. Mas a frustração vai virar fogo e você vai se erguer e se atracar em mim. Dar tapas, me puxar, me morder. Vai agarrar no meu pescoço e vai me derrubar no chão. Se chocar com sua força e sua capacidade de se excitar de novo e suar tudo de novo. Com essa vitalidade violenta. Eu vou beijar sua orelha e sussurar que você fique em pé. Você vai relutar. Eu vou falar mais firme e vou jogar você contra a parede. Você em pé, eu vou soprar sua nuca e abrir suas pernas. Você geme. Devagar, vou abrir sua bunda com as mãos e beijar seu cu, passando a língua nele e em toda sua bunda suada. Enquanto isso, com minhas mãos, vou masturbar você. Gosto de te tocar enquanto esfrego sua bunda na minha cara. Você vai se contorcer outra vez, só podendo me sentir, sem me ver. Seus músculos se contraindo. Eu te aperto tode. Você sente tanto tesão que parece que vai explodir. Agora eu vou fazer, sem você me falar, mas eu vou fazer exatamente o que você quer e precisa que eu faça. Como você quiser que eu faça. Se for meter, eu vou meter do jeito que você sempre sonhou. Se for ficar mais horas e horas te chupando, eu vou. Se for me esfregar, puxar, apertar, arranhar, segurar, o que for, eu vou. Cuidado com o que você pensa, que eu faço. Faço com gosto. Você geme mais e mais. Fecha os olhos. Grita de prazer. Eu vou fazer você ter o orgamos mais forte do mundo. Você vai explodir. Seu coração acelera. Você pode morrer. É quase como se fosse morrer. Mas você está tão excitade que não se importa. Mais, você pede. Continua. Continua. Que venha a morte desde que continue gozando assim. É como se tudo ficasse mudo no mundo. Como se apenas existir, suar, ganir, fosse o que interessa. Gozar. Eu continuo. Você está comigo? Você aguenta comigo? Eu continuo. Quero sentir você gozar em mim. Grita. Eu não vou parar até você gritar.

Você goza. É quente. Quase queima. Quase dá câimbras de tão forte. Seu gozo escorre na minha cara, nos meus dedos, no meu peito. Você se sente forte, bonite, renovade. Mas está exauride. Sua visão parece lhe pregar peças. O orgasmo continua. Eu não te toco mais, mas você sente como se eu continuasse. O prazer parece virar o cômodo de cabeça pra baixo. Meu rosto fica disforme. Pareço muitas pessoas e ao mesmo tempo nenhuma delas. Eu começo a gargalhar. Você não entende. Sente arranhões no seu braço, um pequeno corte em sua boca, as mãos trêmulas. Tem vontade chorar e de gargalhar. Você quer saber quem eu sou, quer uma resposta, quer fazer tudo outra vez. Quer retomar a lição, quer saber qual o próximo clímax. Então você percebe que eu já não estou. Apenas ouve minha voz na sua cabeça, que soa exatamente como a sua própria voz. O barulho das pessoas, dos carros, das televisões, dos celulares, notificações, chamadas, tudo vibra e te atordoa. Como sirenes histéricas soando intermitentemente. Você lembra que está sozinhe, lendo as palavras sujas de alguém em uma publicação de uma revista virtual. É cuspida de volta ao mundo, de volta à sua vida. Sabendo que ela está acabando um minuto de cada vez. Que o mundo está se acabando um minuto de cada vez. E isso deveria te dar vontade de socar e quebrar coisas.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho Camila no Instagram.

E O EVENTO LEVOU

Quando me mudei para o Rio de Janeiro, em 2013, a agenda da cidade estava agitada, com grandes eventos (e grandes promessas) marcados para os anos seguiriam: Olimpíadas, Copa do Mundo, visita do Papa. Até o Rock in Rio, que estava no auge, era um indicador de que as coisas iriam bem na Cidade Maravilhosa. Ninguém percebeu que o cancelamento do show da Lady Gaga já era um presságio de que logo mais o caos chegaria.

As diversas obras sendo feitas pela cidade contribuíam para a esperança de um futuro melhor para a Cidade Maravilhosa. No começo da década, você quase acreditava que os aluguéis caríssimos se justificavam. Os cariocas bradavam orgulhosos na hora de definir o valor mensal “é porque o Museu da Música vai ser aqui do lado”. Ou então “essa parte do Centro vai bombar com a revitalização do porto”. Mas, o amanhã chegou, e nem o próprio Museu Do Amanhã deu conta.

Quase 8 anos depois da minha vinda, nenhum dos “legados da infraestrutura” vingou. São 131 obras inacabadas espalhadas pela cidade. A Vila Olímpica foi interditada por dívidas (e não entendo porque chamam de “interdição”, sendo que antes já estava abandonada). Os vagões do BRT, que conectariam toda a malha urbana da cidade, ficam lotados 24 horas por dia — inclusive na pandemia. E até no quesito do exibicionismo para gringo nós falhamos: em 2020 a Lapa bateu recorde de bares fechados.

E, além disso, agora estamos perto das eleições municipais, o que, numa cidade purgatório da beleza e do caos, tem tudo para dar errado. Para começar, o nosso atual prefeito (que busca reeleição) estava inelegível, por corrupção, até quarta-feira passada. Mas, “abençoado” que é, conseguiu reverter isso e, agora, já tem 14% das intenções de voto. O que lhe consagra no segundo lugar da disputa.

“Pelo menos não está em primeiro” pensam os mais desavisados. Mas aqui é Rio de Janeiro, rapá! E o problema é que a posição de primeiro lugar na corrida eleitoral é ocupada por alguém também condenado por corrupção. As obras que citei no começo da crônica quase todas foram iniciadas por ele, na época que o Rio de Janeiro tinha esperança. Mas, como eu disse, hoje o carioca não tem mais um segundo de paz. E todas as obras tiveram seus custos inflacionados, muitas inclusive nem ganharam uma conclusão. Estão lá, paradas.

Deixaram elas inacabadas, para, talvez quando rolar algum próximo grande evento, o prefeito que estiver em posse encerrar alguma delas — se estiver afim. É igual aquele trabalho em grupo que ninguém quer fazer e perto do prazo de entrega alguém vai lá e termina correndo. “É, professora… O corredor da Avenida Brasil, então… Essa parte tinha ficado com o César Maia, mas aí ele ficou gripado, não conseguiu fazer, aí chegou para mim, mas eu já estava fazendo a revitalização do porto, tem como dar nota mesmo assim?” Agora o que está por vir nessa cidade nem Deus sabe. Ainda mais que vários candidatos afirmam ter o apoio d’Ele. Até mesmo a vereadora indicada pela Pastora Flordelis está indo super bem nas pesquisas. Acho que a solução por aqui vai ser encher a cidade de evento. Copa do Mundo todo ano, Olímpiadas a cada trimestre e, claro, Lady Gaga com show fixo na Lapa. Vai que numa dessas o metrô melhora!

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Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

👉  Conheça o trabalho da Laura acessando o seu portfólioinstagram.

Nitrome: o seu arcade virtual

Pra muita gente da minha geração, o primeiro contato com jogos eletrônicos (tirando os de console) foi por meio dos jogos de browser. Esses eram compilados em diferentes sites, como o Miniclip, que lançavam e traziam jogos de terceiros em várias categorias e com gráficos e desenhos que hoje seriam considerados de qualidade duvidoso.

Numa das muitas vezes que acessei um site desses, acabei encontrando um padrão de joguinhos pixelados muito particulares. Joguei eles várias vezes sem notar nenhum padrão, mas depois acabei descobrindo que todos esses pertenciam ao mesmo site, a Nitrome.

A Nitrome é uma produtora de jogos, cujo site parece um árcade moderno (não tem outra forma como descrever isso). Puxando toda aquela cultura (e falta de estrutura) dos anos 1980, com gráficos pixelados e musiquinhas eletrônicas de fundo. Porém para eles não só bastava estilo, o seu grande diferencial é a criatividade que se tinha para criar jogos usando mecânicas básicas de um jogo de browser (WASD + Mouse e só). Para dar alguns exemplos:

Um jogo a lá Worms, em que piratas se enfrentam jogando bombas das mais diversas (sério tinha como usar uma gaivota que taca cocô explosivo).

Na qual o seu maior objetivo é derrubar os cavaleiros inimigos (inclusive os morcegos cavaleiros inimigos), usando guerreiros que podem sair voando pra dar de encontrão com os adversários.

Cujo seu objetivo é ser uma minhoca gigante que come humanos, simples assim.

Um jogo steampunk em que seu objetivo é construir um tanque de guerra movido a vapor que possa destruir seus inimigos.

Esses são só alguns exemplos dos quase 150 jogos feitos pela Nitrome desde sua criação em 2005. Mas quero dar destaque especial aqui a duas trilogias, das quais eu mais amei jogar:

Rubble Trouble (New York, Tokyo e Moscow):

Um jogo em que seu objetivo é fazer demolições das formas mais criativas possíveis. Tendo a possibilidade de jogar com um Godzilla mecanizado no segundo jogo (Tokyo).

Na qual você joga com vikings (que parecem pantufas) que precisam literalmente quebrar o gelo para poder salvar seus amigos. Isso claro, passando por vários problemas que cada fase nova traz.

Todos esses jogos estão disponíveis no site da Nitrome. Mas tenho uma boa e uma má notícia sobre esse assunto. Como muitos devem saber, no dia 31 de dezembro desse ano a Adobe vai descontinuar o Adobe Flash, que é o principal recurso utilizado por esses joguinhos, para rodar em browser. Porém pensando nisso a própria Nitrome está convertendo seu catálogo para HTML5. O que deve demorar um tempinho, já que são muitos jogos. Além disso, de uns tempos pra cá, a empresa tem migrado para outros meios, tendo criado e adaptado jogos para lojas de aplicativos. Sendo alguns deles:

Magic Touch:

Uma adaptação de um dos primeiros jogos do site, em que você é um mago que tem que desenhar o padrão correspondente ao balão dos cavaleiros que estão tentando invadir seu castelo pelos céus.

Leap Day:

Um jogo de “pular na hora certa” em que todo dia tem uma fase diferente (sério).

Endless Doves:

Jogo lançado tanto pro site quanto pro telefone, em que você joga com um sonâmbulo que voa e tem que coletar o maior número de pássaros possível (num estilo bem Flappy Bird).

Existem outros lançamentos para lojas de aplicativos como: Spike City, Hop Swap e uma versão nova de Ice Breaker (que mesmo sendo paga é maravilhosa). Além disso, os jogos Gunbrick Reloaded e Bomb Chicken estão presentes também nos consoles como: Nintendo Switch, PS4, e no PC via Steam.

Não se esqueçam de aproveitar o site enquanto ainda existe Adobe Flash no mundo!!!