O agnóstico mais crente que já existiu


Ilustrador convidado: Matheus Quinan

Um amigo me chamou para a sessão com a mãe de santo que, segundo ele, cuidava de sua jornada espiritual. “Ela vai curar esse tanto de problema que você tem” disse ele (sem explicar quais os problemas). Mas, paranoico que sou, a inusitada promessa-convite me captou a atenção.

Um agnóstico de primeira riria da utópica promessa feita pelo meu amigo. Porém, infelizmente, o alto nível de insegurança que corre nas minhas veias não permite que eu entre nessa seleta e exclusiva categoria que ri de crenças alheias enquanto brinda suas não-convicções. Então, como bom agnóstico de terceira que sou, além de não acreditar em absolutamente nada, acredito, também, em absolutamente tudo.

Quem é que não quer acabar com todos os problemas? Só um youtuber de autoajuda que ficaria com medo de não ter mais sobre o que desabafar!

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” disse o príncipe Hamlet para seu amigo Horácio, numa tentativa de mostrar a ele que existem coisas no mundo que a ciência não consegue explicar. Quando era só o Hamlet falando isso, eu estava tranquilo. Não passava de um esoterismo. O problema foi que, quinhentos anos depois, o mundo estaria lotado desses Hamlets-cheios-de-crenças-e-mistérios-não-explicáveis.

Levando ao cenário de que, para os esoterismos da vida, a minha resposta fosse sempre sim. Banho de ebó, baralho cigano, yom kipur, terapia multidimensional, missa católica, mapa astral, tarô, meditação da chama violeta e alguns outros com nomes tão hindus que nem consegui gravar.

Acho que o que mais complica essa vida de eterno crente duvidoso é que nenhum desses caminhos dá soluções imediatas. Eu queria entrar na sala da mãe de santo e sair com a paz de Buda na alma. Porém, assim como nas outras tentativas, a resposta foi: calma, Gustavo, tudo leva tempo, você não pode ficar ansioso.

E, apesar de toda a minha vontade de conexão-com-o-além, nessas horas, é inevitável que na minha cabeça surjam pensamentos desconfiados. “Se nem 1% da população mundial conhece essa doutrina, por que eu vou acreditar que ela é tão poderosa?”. “Se existem esses poderes, como que o mundo está do jeito que está?”.

Porque tem isso também. A realidade não colabora. Cada dia uma nova tragédia, um novo pandemônio. Se algum dos caminhos realmente fosse tão poderoso, quem o seguiu já teria encontrado alguma solução para o ano de 2020.

Como crer no sobrenatural se nem o natural está durando?

Eu queria ter a força para bater o martelo e definir de uma vez por todas no que acredito. Ou, pelo menos, no que não acredito. Mas, só de pensar nisso, já me dá um medo de não poder mudar de opinião depois. Raul Seixas até falou que prefere ser uma metamorfose ambulante. Acho que ele não era agnóstico — e muito menos ansioso.

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Ilustrador convidado:

Matheus Quinan

Originário de Petrópolis, RJ, participa de exposições e eventos alternativos desde 2010. A obra procura explorar arquétipos, colocar pra fora e dissecar fragmentos de personalidade comuns ao artista e ao observador. Acredita que comunicação e magia são duas atividades muito próximas e que a arte é uma ferramenta capaz de alterar a realidade comum. Também é designer gráfico, o que traz a experiência diária com ferramentas de edição de imagem, uso de cores e aplicação de texturas.

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