CLUBE DA LUTA


A primeira regra desse conto erótico é não falar sobre o que é este conto erótico

Você não dorme mais. Você não transa mais. Você passa horas e horas diante do celular fazendo lista de compras em sites que você não tem dinheiro pra pagar, dando matchs com pessoas que você não tem coragem de encontrar. Você não sabe bem como mudar a sua vida, mas você não quer a sua vida como ela está. Você reclama da sua vida para milhares e milhares de pessoas que não te conhecem e não dão a mínima. Elas apenas esperam seus momentos de reclamar. Você se sente uma pessoa patética, fora de forma, fora de ética, sem discurso, sem appeal, sem manha. No seu perfil você sustenta uma farsa, elaborada matematicamente, para ser engraçade, sacana, bacana, cool, espiritualizade. Pra parecer alguém desejável, palatável, consumível. Vive pensando que alguém tem que querer te comer, te amar, te divulgar, te dar dinheiro, te dar produtos gratuitos, te dar vaga na live, te fazer perguntas completamente pessoais e desimportantes. Você não quer o mundo falido dos seus pais, o mundo decrépito dos jornais, você quer endorfina injetável, transar por horas, escrever coisas que alguém reposte, receber declarações aos montes, tudo aos montes. Mas você não é essa pessoa que você finge ser na internet.     Isso te rasga por dentro.     Te dá dores no estômago, úlceras precoces. Você sabia que toda a juventude está cada vez mais doente? Porque estão se alimentando da própria merda o tempo todo, é tanto eu que você apodrece. Você é jovem, não tão jovem, mas jovem e já tem dores nas costas, enxaquecas, problemas digestivos, câimbras matinais, síndromes diversas, taquicardia ansiosa, fadiga monumental. O mundo como é te puxou as tripas e derreteu o seu cérebro. Há esperança, mas você sente que ela não está em você. Porém você finge que ela está. Mesmo quando você não sabe mais encarar o próprio espelho, mesmo quando vive constantemente com medo de ser flagrade em um ato hediondo, em algum erro imperdoável que te cuspa pra fora daquele mundo, que te cancele, apague, delete, proíba. O medo também é uma doença que cresce em você, ou talvez, mais pra uma paranoia. Política, social, afetiva. Te mantém acordade, se esforçando para estar disponível, acessível, entregue. A pressão cresce cada dia mais. Neste ano, ainda mais. Parece que você vai ser engolide. Você está paralisade, não consegue trabalhar, amar, comer, existir. Precisa de alguém coach, salvadore, cheie de heroísmo que te tire do buraco que você cavou.

Eu sou esse alguém.

Eu vim aqui pra te arrancar do buraco, sacudir você, faxinar sua mente, sacô? Você vai precisar confiar em mim. Vamos jogar primeiro algumas coisas fora. Você vai deixar sua conta de lado, a sua farsa, o motor do teu pavor inexplicável de ser você mesme. Você não vai mais ser virtualmente, pelo menos por um tempo. Você vai abandonar às moscas sua própria imagem. Você não é sua conta, nem seu extrato, nem seu outfit, nem seu @, nem seu histórico de engajamento, nem seus boletos, nem seu carma, nem a forma com que você faz skincare ou qualquer babaquice. Então você vai ter que encarar o seu corpo real, músculos, pele, gordura, ossos, sangue, muco, saliva e as ideias grotescas que habitam seu cérebro. Eu vou lhe ajudar. Me acompanhe:

Primeiro, você vai ter que cortar as unhas, escovar bem os dentes, encarar tua baba na pia junto com a espuma quando cuspir. Ver se é rala ou espessa ou pegajosa. Vai em seguida tirar sua roupa suada. Olhar seus pelos – ou a falta deles. Suas cicatrizes – ou a falta delas. E na falta delas, se preocupe: talvez você ande sendo muito cuidadose. Vai olhar suas olheiras ou manchas ou espinhas ou estrias ou celulites – ou todas as anteriores. Se tiver cabelo, você vai cortá-lo sozinhe. Porque foda-se o seu cabelo. É importante saber perdê-lo, olhá-lo caído no chão, como apenas matéria orgânica. Como suas unhas ou dentes. Tudo cai um dia. E cresce de novo. Esse é o princípio.

Daí, você vai entrar em um banho frio. Que seja insuportavelmente frio, que te faça querer gritar, que te arrepie os pelos do cu ou da alma. E grite. Toscamente, violentamente, irritando e preocupando seus colegas de casa, parceires, familiares, vizinhes. Que sirva de alerta pra todes sobre o que vem a seguir. Nós vamos fazer barulho. Você vai deixar que a água aguce os seus sentidos. Que o desconforto te desperte. Não precisa fechar os olhos, se concentrar, fazer pose de pensative, apenas respire. Água batendo na nuca, nas costas, na bunda, nas coxas, nos pés. Na cabeça, no couro cabeludo, na testa, no rosto, no peito, na barriga. Você vai se ensaboar, com atenção pro toque atrás das orelhas, no pescoço, no suvaco, no umbigo, na buceta ou no pau, no cu, na parte de trás da perna, entre os dedos do pé. Eu quero você limpe. Mas sem demorar muito. Deixar que faça espuma e depois que escorra pelo ralo. Sem se secar, pingando, molhade, você vai sair do box ou da banheira ou do chuveirão. Vai se olhar assim, úmide, no espelho. Que a gente vem pro mundo tode cheie de muco, sangue, merda. É importante não se esquecer. Ao menos é só água te ensopando agora e não muco ou sangue de alguém. Você vai voltar pro teu quarto ou pra algum canto que seja seu. Em que você fique sozinhe. Em que possamos ter privacidade.

Eu vou aparecer pra você agora. Pela primeira vez. Vai ser a melhor coisa que já te aconteceu. Seus olhos vão brilhar. Seu estômago vai entrar em rebuliço. Eu sou exuberante e você me quer. Quer meu corpo, minhas curvas, meu cabelo, minha boca, meus dentes, meu tom de voz, minha confiança – ou talvez queira ser eu. É confuso e também excitante. Eu sou exatamente o que você precisa e você sabe disso ao me fitar. Mas tudo que é bom tem um custo. E eu tenho uma lição pra ensinar.

Vamos começar com um tapa. Forte. No rosto. Eu vou lhe dar e você vai retribuir. É importante que joguemos dos dois lados. Que você aprenda a revidar, contra atacar. Outra face é uma ova, hoje esqueça isso. Eu lhe dou o primeiro tapa. Sua cara fica quente, vermelha. É mais forte do que você pensou que aguentaria. Mas não é insuportável. Você fica com raiva. Me estapeia. É ainda mais quente. Sua mão arde. Você se empolga. O sangue corre pelas suas veias. Uma adrenalina diferente sobe para o seu cérebro. Eu lhe dou um soco na barriga. Você se assusta. Reluta. Doí. Mas eu quero que você continue. Eu sei o que eu estou fazendo. Você retribui. Nossas mãos igualmente doloridas e quentes. Você me surra com a mesma exata força que eu te surro. Um tipo novo de sintonia. Ambas as partes arriscando a si mesmas. É raro hoje em dia. Você me dá um tapa, mas eu mudo a tática: seguro seu pescoço com as duas mãos, você segura os meus punhos, tentando se soltar. Eu sou mais forte. Agora estou com o rosto quase grudado no seu. Meu peito toca você. Minha barriga. Você ouve minha respiração, tão ofegante, exatamente como a tua. Nossas bochechas vermelhas. As veias saltando da testa. Na adrenalina somos semelhantes. É mais quente e mais perigoso. Minha boca quase roça na sua boca. Você sente meu hálito, é fresco, mentolado. Eu percebo seus punhos me puxando pra perto. Eu lhe beijo, firme. Mordo seu lábio e só então afrouxo as mãos do seu pescoço. Você vai se surpreender, porque você vai num impulso feroz me segurar e me empurrar para o chão. Você tenta me imobilizar, ficando por cima de mim. Eu agarro sua bunda e dou um tapão nela. Você sente ondas e ondas de calor correndo pela sua pele. Você me beija, mordendo o meu lábio. Muito forte. Um pouco do meu sangue fica na sua boca, manchando seus lábios de vermelho. Sua língua com gosto de ferro. Eu lambo seus beiços, você fica úmide, enrijecide, muito muito excitade. Eu seguro em sua cintura e lhe viro. Não estamos em total igualdade. Você agora está deitade no chão. Eu fico por cima. Eu imobilizo seus braços. Mordisco e chupo seu mamilo. Desço a boca pela sua barriga, passo a língua em seu umbigo. Você começa a gemer, se contorcendo, querendo que eu continue. Eu paro, com uma das mãos, seguro seu sexo (sua buceta ou sua piroca) na minha palma suada, áspera e quente. Fico um pouco só te olhando, parade, salivando, enquanto seguro você. Te sinto latejar. Você solta um dos braços e aperta meu mamilo. Eu rio. Você me dá um tapa na cara e arranha meu braço. Eu coloco a cara entre as suas pernas e começo a chupar você. Se buceta, eu passo a língua pelos grandes e pequenos lábios, pela entrada do canal, depois começo a beijar e sugar seu clitóris. Se pau, eu seguro na base, passo a língua por toda a extensão lateral, até as bolas, depois subo pra cabeça e vou lambendo e fazendo uma sucção na glande. Bombeando seu sangue, te inflando, te inchando, seja qual sexo for. Com uma mão seguro sua bunda e vou tocando seu cu devagar, sem meter, mas te mostrando que posso estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Sua visão começa a embaçar de prazer e calor. E então você tem a sensação de ver tudo dobrado. Eu agora estou em par, multiplicade. Eu vezes dois, posso te confundir. Chupar você enquanto beijo sua boca. O meu hálito fresco e mentolado te invadindo encima e embaixo. Dedar você e morder sua bunda, e erguer suas pernas, lamber seu pé, seu pescoço, sua axila. Várias da mesma boca, das mesmas unhas, dos mesmos dentes, beijando, arranhando, mordendo, lambendo. Você vai gemer cada vez mais alto. A melhor droga que você provou é essa. A sua onda, sua endorfina almejada. Você vai ficar transtornade e vai querer gozar logo. Eu vou parar. Levantar. Você vai ter raiva outra vez, estava tão perto do paraíso e eu interrompi? Por quê? Volte, você vai querer me dizer. Mas você vai ter que se erguer, se recompor. Pra me puxar outra vez. Me derrubar outra vez. Você fica frustrade, porque você queria tudo do seu jeito agora. Mas a frustração vai virar fogo e você vai se erguer e se atracar em mim. Dar tapas, me puxar, me morder. Vai agarrar no meu pescoço e vai me derrubar no chão. Se chocar com sua força e sua capacidade de se excitar de novo e suar tudo de novo. Com essa vitalidade violenta. Eu vou beijar sua orelha e sussurar que você fique em pé. Você vai relutar. Eu vou falar mais firme e vou jogar você contra a parede. Você em pé, eu vou soprar sua nuca e abrir suas pernas. Você geme. Devagar, vou abrir sua bunda com as mãos e beijar seu cu, passando a língua nele e em toda sua bunda suada. Enquanto isso, com minhas mãos, vou masturbar você. Gosto de te tocar enquanto esfrego sua bunda na minha cara. Você vai se contorcer outra vez, só podendo me sentir, sem me ver. Seus músculos se contraindo. Eu te aperto tode. Você sente tanto tesão que parece que vai explodir. Agora eu vou fazer, sem você me falar, mas eu vou fazer exatamente o que você quer e precisa que eu faça. Como você quiser que eu faça. Se for meter, eu vou meter do jeito que você sempre sonhou. Se for ficar mais horas e horas te chupando, eu vou. Se for me esfregar, puxar, apertar, arranhar, segurar, o que for, eu vou. Cuidado com o que você pensa, que eu faço. Faço com gosto. Você geme mais e mais. Fecha os olhos. Grita de prazer. Eu vou fazer você ter o orgamos mais forte do mundo. Você vai explodir. Seu coração acelera. Você pode morrer. É quase como se fosse morrer. Mas você está tão excitade que não se importa. Mais, você pede. Continua. Continua. Que venha a morte desde que continue gozando assim. É como se tudo ficasse mudo no mundo. Como se apenas existir, suar, ganir, fosse o que interessa. Gozar. Eu continuo. Você está comigo? Você aguenta comigo? Eu continuo. Quero sentir você gozar em mim. Grita. Eu não vou parar até você gritar.

Você goza. É quente. Quase queima. Quase dá câimbras de tão forte. Seu gozo escorre na minha cara, nos meus dedos, no meu peito. Você se sente forte, bonite, renovade. Mas está exauride. Sua visão parece lhe pregar peças. O orgasmo continua. Eu não te toco mais, mas você sente como se eu continuasse. O prazer parece virar o cômodo de cabeça pra baixo. Meu rosto fica disforme. Pareço muitas pessoas e ao mesmo tempo nenhuma delas. Eu começo a gargalhar. Você não entende. Sente arranhões no seu braço, um pequeno corte em sua boca, as mãos trêmulas. Tem vontade chorar e de gargalhar. Você quer saber quem eu sou, quer uma resposta, quer fazer tudo outra vez. Quer retomar a lição, quer saber qual o próximo clímax. Então você percebe que eu já não estou. Apenas ouve minha voz na sua cabeça, que soa exatamente como a sua própria voz. O barulho das pessoas, dos carros, das televisões, dos celulares, notificações, chamadas, tudo vibra e te atordoa. Como sirenes histéricas soando intermitentemente. Você lembra que está sozinhe, lendo as palavras sujas de alguém em uma publicação de uma revista virtual. É cuspida de volta ao mundo, de volta à sua vida. Sabendo que ela está acabando um minuto de cada vez. Que o mundo está se acabando um minuto de cada vez. E isso deveria te dar vontade de socar e quebrar coisas.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

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