E O EVENTO LEVOU


Ilustradora convidada: Laura Pinheiro

Quando me mudei para o Rio de Janeiro, em 2013, a agenda da cidade estava agitada, com grandes eventos (e grandes promessas) marcados para os anos seguiriam: Olimpíadas, Copa do Mundo, visita do Papa. Até o Rock in Rio, que estava no auge, era um indicador de que as coisas iriam bem na Cidade Maravilhosa. Ninguém percebeu que o cancelamento do show da Lady Gaga já era um presságio de que logo mais o caos chegaria.

As diversas obras sendo feitas pela cidade contribuíam para a esperança de um futuro melhor para a Cidade Maravilhosa. No começo da década, você quase acreditava que os aluguéis caríssimos se justificavam. Os cariocas bradavam orgulhosos na hora de definir o valor mensal “é porque o Museu da Música vai ser aqui do lado”. Ou então “essa parte do Centro vai bombar com a revitalização do porto”. Mas, o amanhã chegou, e nem o próprio Museu Do Amanhã deu conta.

Quase 8 anos depois da minha vinda, nenhum dos “legados da infraestrutura” vingou. São 131 obras inacabadas espalhadas pela cidade. A Vila Olímpica foi interditada por dívidas (e não entendo porque chamam de “interdição”, sendo que antes já estava abandonada). Os vagões do BRT, que conectariam toda a malha urbana da cidade, ficam lotados 24 horas por dia — inclusive na pandemia. E até no quesito do exibicionismo para gringo nós falhamos: em 2020 a Lapa bateu recorde de bares fechados.

E, além disso, agora estamos perto das eleições municipais, o que, numa cidade purgatório da beleza e do caos, tem tudo para dar errado. Para começar, o nosso atual prefeito (que busca reeleição) estava inelegível, por corrupção, até quarta-feira passada. Mas, “abençoado” que é, conseguiu reverter isso e, agora, já tem 14% das intenções de voto. O que lhe consagra no segundo lugar da disputa.

“Pelo menos não está em primeiro” pensam os mais desavisados. Mas aqui é Rio de Janeiro, rapá! E o problema é que a posição de primeiro lugar na corrida eleitoral é ocupada por alguém também condenado por corrupção. As obras que citei no começo da crônica quase todas foram iniciadas por ele, na época que o Rio de Janeiro tinha esperança. Mas, como eu disse, hoje o carioca não tem mais um segundo de paz. E todas as obras tiveram seus custos inflacionados, muitas inclusive nem ganharam uma conclusão. Estão lá, paradas.

Deixaram elas inacabadas, para, talvez quando rolar algum próximo grande evento, o prefeito que estiver em posse encerrar alguma delas — se estiver afim. É igual aquele trabalho em grupo que ninguém quer fazer e perto do prazo de entrega alguém vai lá e termina correndo. “É, professora… O corredor da Avenida Brasil, então… Essa parte tinha ficado com o César Maia, mas aí ele ficou gripado, não conseguiu fazer, aí chegou para mim, mas eu já estava fazendo a revitalização do porto, tem como dar nota mesmo assim?” Agora o que está por vir nessa cidade nem Deus sabe. Ainda mais que vários candidatos afirmam ter o apoio d’Ele. Até mesmo a vereadora indicada pela Pastora Flordelis está indo super bem nas pesquisas. Acho que a solução por aqui vai ser encher a cidade de evento. Copa do Mundo todo ano, Olímpiadas a cada trimestre e, claro, Lady Gaga com show fixo na Lapa. Vai que numa dessas o metrô melhora!

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Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

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