Peixe que dorme sem autoestima, o alagamento leva


Ilustradora convidada: Isabella Kobi

Um dia o rio do auto-ódio transbordou. Alagou toda a propriedade. Milhões de hectares de autoestima foram submersos naquela água turva que mais cheirava a enxofre. E, para completar meu desespero, não tinha um mísero bote salva vidas naquelas terras. As autoridades foram acionadas.

Os bombeiros do resgate psicanalítico vieram correndo. Eles usaram de suas mangueiras freudianas e dos helicópteros do bom senso para tentar resgatar o que sobrou. Porém, esses bombeiros cobravam caro. Era mais de 100 reais a sessão. Não pude continuar o resgate com eles.

Nessa altura, a mídia já estava acompanhando o caso de perto. Todos queriam ver um pouco do afogamento. As vizinhas faladeiras torciam o nariz na esperança de sair de casa e ter o privilégio de observar mais um dia de inundações. Por não chover na vida delas, elas esperavam que na minha fosse um dilúvio constante.

Cheguei a achar que precisava encontrar o ralo secreto para que toda aquela água turva escoasse. Mas, depois de dias com minhas tralhas de mergulho procurando o buraco que magicamente resolveria meus problemas, vi que ele não passava de uma ilusão. Esse alagamento não estava para peixe.

Com a estiagem, a ajuda humanitária começou a aparecer. Até as amadíssimas vizinhas vieram para fingir que ajudavam. Foi emocionante ver aquelas milhares de pessoas (e dezenas de fofoqueiras) em prol de uma causa em comum. Pena que a causa era a revitalização das terras da minha autoestima — o ato de ajudar só é lindo quando não é você o ajudado.

No começo, senti uma leve vergonha por ver aquelas várias mãos trabalhando para arar uma terra que era minha. Não queria ser um estorvo na vida de ninguém. Mas, ao ouvir que cantavam animados (desde Chico Buarque à Jojô Toddynho), percebi que eles não se importavam em trabalhar sem esperar nada em troca. Até tive medo de algum empresário paulista ver a linda cena e causar outra enchente tentando lucrar em cima do trabalho alheio. Mas as coisas correram bem e, muitos Faroestes Caboclos depois, tudo estava de volta ao normal.

Na despedida dos voluntários, me peguei pensando como manteria sozinho aquele rio imenso em seu curso natural — hoje em dia é quase impossível fazer o que os antigos gostavam de chamar de “manter as coisas no lugar”. É muito aflitivo para uma geração que muda a foto de perfil 6 vezes ao ano.

Porém, o tempo passou e, por incrível que pareça, as águas do rio não me deram mais trabalho. Talvez tenha sido a dica de um dos voluntários de plantar bosques de autoaceitação por grande parte da terra. Talvez tenha sido toda a cantoria que espantou as poderosas e densas chuvas da angústia. Mas uma coisa é certa: esse é o texto mais Paulo Coelho que eu já escrevi.

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Ilustradora convidada:

Isabella Kobi

Uma carioca de 21 anos que procura expressar sua profundidade por meio do abstrato/subjetivo na arte tradicional e digital. Também exploro a fotografia conceitual e o mundo da moda.

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