ANTICRISTO


Um conto erótico digno para fechar 2020, cheio de selvageria

Todes tiveram sua cota de perdas e danos ao longo deste ano. Ao chegar em dezembro, existe uma sensação quase universal de não compreender como os meses passaram tão dolorosos e ao mesmo tempo tão rápidos. Um ano que não deveria ter sido. No entanto, o espírito festivo e esperançoso tenta encher os corações outra vez. O desejo de férias, de fugas, de se absolver de todo o cansaço e toda culpa por ter vivido condições esdrúxulas. De se endividar com os últimos presentes, os últimos ritos que possam prometer um novo ciclo, um novo começo, um punhado de paz. Os olhos na virada e na vacina, esperamos. E enquanto o tal dia da liberdade absoluta não vem, quem pode procura meios de escapar da realidade. Ele estava convencido de que depois de tanto tempo trancafiados no apartamento, a única cura possível para suas feridas estaria em retirar-se por algumas semanas na natureza. A imagem bucólica da sua infância, o gramado verde, os pés sujos de lama, passarinhos cantando, cachorros correndo, árvores e mais árvores o cercando – tudo soava como um pequeno éden do passado. Não queria mais as paredes infernais, o uso abusivo de álcool gel, a incapacidade de olhar para o céu sem precisar tomar mil e uma medidas precautórias, e acima de tudo, não suportava mais o humor mórbido que dominava sua rotina com sua esposa. Ela parecia cada dia mais indiferente, mais apática, totalmente desapaixonada pelo mundo (e por ele). Andava tão apavorada com o mundo e com toda a crueldade que avassalou suas vidas que imaginava que poderia fazer mal aceitar o convite para se meter na serra com ele. Nada poderia ser pior do que a rotina maçante que tinham. Do pior, ela pensava, não vamos transar e vamos fazer trilhas estúpidas silenciosamente. E ela poderia gostar de poder chorar a céu aberto, entre longas árvores. Então aceitou, os dois alugaram um carro e se meteram em um chalé antigo, alugado numa super promoção de um proprietário desesperado. A casa era pequena, mas cercada de um enorme terreno, de sabe lá quantos hectares. Bosques, elevações, pequenos riachos em que podiam se banhar, e enorme mata selvagem. Muito longe de todas as pessoas, do vírus, da dor. A viagem foi tranquila, na atmosfera pairava uma delicada esperança. Na medida que o carro adentrava mais e mais em estradas de terra cercadas de densas florestas, os dois se sentiam mais seguros e confortados. Havia algo mágico no ar, como se pudessem ver fadas ou gnomos ou dúzias de vaga-lumes a qualquer momento. Aquela sensação infantil suprimia por alguns minutos toda a dor, o luto, o remorso que sentiam. E então, no final de incontáveis curvas, chegaram ao novo paraíso.

A paisagem era de tirar o fôlego, pouco importava a rudeza da casa. O cerco de árvores, as montanhas no horizonte, a brisa fria e vigorosa os deixou extasiados. Ela esboçou o primeiro sorriso em meses, o que ele tomou como uma gigantesca vitória. Tiraram as malas do carro, desempoeiraram e higienizaram alguns móveis e utensílios. Uma breve garoa caía lá fora, o frio aumentava, mas tudo que ouviam era o som distante de grilos e cigarras. Em pouco tempo, se sentiram aconchegados. Espalharam casacos, livros, compras. Tentando fazer aquilo tudo ter um pouco mais suas feições. E ficaram tão acomodados que logo a sensação massacrante retornou. Primeiro veio o tédio. Ele tentou abrir um vinho, acariciar os cabelos dela, deixar que ela se deitasse em seu colo enquanto massageava seu pescoço, mas dois dias se passaram e aquele gesto parou de surtir efeito. Ele, ainda sonhando com as imagens doces da sua infância, se tornava ainda mais impaciente com o humor soturno dela pelo simples fato de se sentir profundamente traído. Estava novamente no Éden e não conseguia vivê-lo como tinha planejado. Ela, do outro lado, não conseguia conter o choro e se sentia pior ao vê-lo empurrá-la pra dentro daquele sonho a força. Como se fosse obrigada a querer rolar pela grama, nadar no riacho e se sentir satisfeita. A verdade é que desde que chegaram, pequenos infortúnios sucederam, o que ela tomava como uma espécie de presságio. Série de ninhos caídos com ovos quebrados apareciam pelas trilhas, móveis infestados de cupins caindo dentro da casa e até mesmo um episódio de uma enorme capivara morta com marcas de mordidas violentas no tronco, bem ao lado do riacho. O medo encontrava seu caminho. Então veio a irritabilidade. Os dois frustrados ao constatar que a paisagem se tornava mais um plano de fundo esquisito e mórbido para o mesmo desconforto de sempre. E aquela frustração logo se tornou pequenas farpas na língua, micro agressões sutis que escapavam durante refeições, nos passeios pela mata, antes de dormir deitados na cama. Foi nesse momento que ela começou a ter sonhos estranhos.

Nos sonhos, ela era visitada por inúmeras e diversas mulheres. Nenhuma igual a outra. Mas todas, sem exceção, lhe sussurravam coisas sujas, mostravam mãos manchadas de sangue, abriam suas bucetas peludas puxando a carne com os dedos, faziam gestos obscenos, chupavam o dedão, mostravam a língua malcriadas e algumas até mesmo dedavam o próprio cu. Apareciam em procissões, sujas de terra, fogosas, fazendo caretas. No início a assustavam muito, seu coração acelerava, tentava de toda forma mandá-las embora. Depois, com a insistência que tinham em permanecer em seus sonhos, ela começou a observá-las com mais gosto. Percebeu que além de beliscões, puxões de cabelo e pequenas mordidas, não faziam muito mal. Logo percebeu que acordava agora sempre úmida, completamente excitada e ofegante. Queria que aquelas mulheres lhe tocassem, se perguntava porque não metiam seus bizarros dedos sujos nela. Por que não apalpavam seu peito ou dedavam seu cu ou ao menos lambiam seu umbigo, como faziam umas com as outras? Levantava na cama, suada, com um tesão cavalar, sem saber o que fazer com a vontade de permanecer dormindo e sendo visitada por elas. Tentou usar daquele fogo estranho com seu marido. O acordava, beijando o seu pescoço, ou até mesmo tocando seu pau, esfregando a buceta molhada nele. Mas quando ele finalmente despertava e correspondia, ela se frustrava outra vez por não conseguir sustentar a excitação que tinha com aquelas mulheres safadas do seu sonho. Ele então metia, ainda sonolento, o pau dentro dela, apertava sua bunda, chupava seu peito, se empenhava mesmo em tentar satisfazê-la cedo pela manhã ou no meio da madrugada. Mas acabava gozando primeiro, o que a fazia virar-se de lado e anunciar que iria dormir um pouco mais. Assim, logo encontravam motivos para brigar ou se ignorar outra vez. Os dias seguiam longos e lamuriosos, ela nem queria mais sair do chalé. Ele passava mais e mais tempo metido na floresta sozinho. Como o aluguel se estendia por mais algumas semanas, os dois se habituaram a suportar as tardes infernais. E torciam secretamente, tanto ela quanto ele, que durante a noite aquele tesão misterioso culminasse em uma transa épica que magicamente resolveria seus problemas e ressuscitaria o amor doce que tiveram um dia. Mas toda noite, os mesmos sonhos e a mesma transa meio sem gosto parecia se repetir.

Naquela madrugada, no entanto, algo diferente aconteceu. As mulheres apareceram mais sisudas, menos lascivas. Pela primeira vez, uma delas se dirigiu diretamente a ela pedindo que abrisse a boca. Ela, em sonho, abriu – aguardando por um beijo nervoso ou pela teta enorme lhe roçar os lábios. Mas a mulher enfiou em sua boca um pedaço de carne. O cheiro era forte e podre, mas ela engoliu sem pensar duas vezes e todas as mulheres riram em uníssono. Ela acordou, no susto. Sua buceta ardia de tanto que latejava. A calcinha tão úmida que molhava a cama. Os mamilos duros feito pedra com um tesão que parecia quase doer. Sacudiu seu marido desesperada. Ele, primeiro assustado, depois lisonjeado com tamanha urgência, logo começou a beijar sua boca, seu pescoço, seus peitos. Mas tudo ainda lhe parecia pouco, frio, indigesto. Ela teve então uma nova ideia. Pegou na mão dele, pediu que a seguisse e saiu pra fora da casa.

Ao abrir a porta, o vento gelado bateu contra os seus corpos seminus. Mas o calor que ela sentia era tão grande, que nem se importava com a baixa temperatura, nem mesmo percebia que ele estava tremendo. Continuou marchando em direção a floresta, se metendo entre as árvores no escuro da madrugada. Apenas a lua e as estrelas iluminavam uma fresta ou outra, mas à medida que avançava, mais o escuro os acolhia. Chegou então no pé de uma enorme, talvez a maior árvore que já tivessem visto na vida. Ela teve certeza. Tirou ali a camisa e a calcinha, deitando no chão entre as raízes. Ele, de início receoso, mas muito disposto em fazer o que fosse necessário para tornar aquela viagem um recomeço, tirou também suas roupas. Sentiu-se um pouco enojado em foder assim na terra, no escuro, provavelmente entre insetos ou sabe Deus o que mais. Mas logo percebeu algo de diferente. Os olhos dela pareciam brilhar de tão ensandecidos de vontade. Ela fazia caretas que nunca antes na vida havia feito e abria a buceta com os dedos, se tocando, se tremendo toda para ele. Seu pau ficou duro como uma pedra. Uma espécie de onda macabra parecia envolvê-lo. Queria comer ela. Beijava violentamente sua boca, chupava com toda força seu peito como se pudesse tirar leite. Ela gemia alto e alto, uns gemidos agudos que ele nunca havia ouvido. E as mãos dela apertavam e beliscavam sua pele, sua língua violava sua orelha, e o pau parecia que ia explodir. Metia nela como se pudesse fazer tremer a gigantesca árvore na qual se apoiava. Ela abria as pernas, mais e mais. Levantava os pés pro alto. Ele via seu cu e a terra cheia de folhas e raízes.

Da visão dela, ele parecia cada vez mais uma espécie de besta, fincando sua força dentro. Queria provocá-lo, exauri-lo. Gostava de ver os seus olhinhos surpresos, sua boca ofegante. Se masturbava friccionando freneticamente os dedos contra seu próprio grelo, enquanto ele metia. Contraia a bunda e todos os músculos, pra sentir ele melhor dentro dela. Então, olhando-o de baixo, percebeu a mata escura se mexer. Teve um calafrio e logo ouviu os grunhidos peculiares dos seus sonhos. Teve a sensação que as raízes da árvore que a cercavam começaram a lhe beliscar, como pequenas mãos safadas. Deixando roxos, depois arranhões, depois quase macias tocando seu sovaco, seu umbigo, seu cu. Se tremia toda, soltava gargalhadas pelas estranhas cócegas. Ele suando feito um louco em cima dela, em tal ponto tentou virá-la de quatro, para ser mais apoio. A bunda dela empinada pra ele, as mãos dela segurando no tronco da árvore. Foi aí, rebolando sua raba contra o quadril dele, que ela viu, com nitidez, as mulheres aparecendo em seu entorno. Soltou gemidos mais altos. Sentiu suas entranhas todas se mexendo, seguido do sangue menstrual descendo suas pernas. Ao perceber o sangue, ele se afastou. E isso foi suficiente para perceber as mulheres se aproximando. Mãos o agarrando pelas costas, duras, porém ardilosas. Enroscando no seu corpo e o puxando pra trás. O chão parecia querer ceder embaixo do seu pé, como que tentando engoli-lo. Chamou por sua esposa, que agora gargalhava ainda mais. Enquanto parecia afundar lentamente pra dentro da terra, pode observar ela de quatro sendo completamente agarrada por aquela multidão de mulheres. Via elas se enroscando, bucetas coladas uma na outra, xotas peludas roçando nas coxas, dedos por toda parte. Enfiados nos umbigos, nas orelhas, nos cus, nas xanas. Pressionando grelos. E ela brilhava, gemendo e gemendo e gargalhando. Como nunca tinha visto ela gargalhar ou gemer em toda sua vida. A terra prestes a soterrá-lo e percebeu que mesmo que gritasse, ela não lhe dava a mínima. Absorta em bocas carnudas ou magras, dentuças ou banguelas, todas beijando, lambendo, chupando. Tudo foi ficando escuro, a terra entrando em suas narinas. Sons de bichos ficando mais e mais altos em seu ouvido e um calor de fogo crescendo e crescendo. O solo era quente e parecia querer sufocá-lo, torná-lo outra coisa. Tudo foi ficando vermelho pros seus olhos. Sua infância passando em sua mente, em flashes violentos. E apesar da dor e da falta de ar, percebeu que morrer era algo tão primoroso como gozar e gemeu, um gemido grave e subterrâneo que só conhecem as pedras e raízes.

Do alto, sem nem perceber que ele havia desaparecido. Sem nem dar falta dele. Ela não sabia se sobreviveria a tamanho prazer tão abundante. Lambia pela primeira vez uma buceta, carnuda. Chupava o grelo, os lábios, parecia querer engoli-la. E logo aparecia outra, com uma forma nova, com um gosto novo. E a chupava, com igual vontade e curiosidade de saber como encaixaria em sua boca. Em sentir o seu cheiro. Em sentir as coxas contra seus ouvidos. Ou as bundas batendo em sua cara. E a infinidade de toques que recebia, a infinidade de beijinhos, chupadas, mordidas. Os dedos que entravam e saiam dela, do seu cu, agora aberto e pulsante, da sua buceta latejante, pelo seu clitóris inchado. Suava e suava. Quando parecia que não ia aguentar e tentava se jogar mole contra a árvore, logo se deliciava com alguma mulher encaixando nela e roçando devagarzinho. E enquanto admirava a imagem delas se adorando, entre elas, sentia sua buceta forte contra outra, que parecia tremer e roçar mais e mais frenética. Se surpreendia com como sabiam se encaixar de tantas formas, como os peitos tão diferentes batiam uns nos outros e como gritavam, sussurravam, choravam e riam. Quando pensava que era incapaz de gozar mais, sentiu todo o corpo contrair outra vez. Sentiu dedos penetrando devagar, ao mesmo tempo, no cu e na xota e duas bocas abocanhando, cada uma, um de seus peitos. As mulheres então emudeceram todas. Ouvia-se apenas o som molhado dos dedos entrando e saindo, das bocas chupando, da terra tremendo. O orgasmo parecia dilacerar seu corpo e ao mesmo tempo ecoar em todo seu entorno. A árvore se agitava, as folhas debatendo-se. Era tão bom, tão bom, que era quase como se pudesse morrer. Sentiu então o gosto de carne na boca outra vez e o mesmo rebuliço das entranhas. Todos seus fios de cabelo arrepiaram. Todos os poros abriram. O sol principiava a nascer e ela percebeu mais e mais mulheres caindo das árvores, saindo da terra. Milhares e milhares. Deitou outra vez no solo. O orgasmo não terminava. Seu coração acelerado em seu peito. Pernas em espasmos. Corpo se torcendo e contorcendo. O orgasmo persistia. Algo gelado tocou suas costas. Uma enorme cobra rasteja ao seu lado. O orgasmo persiste. Como se não fosse acabar nunca. E continua. E continua. E continua. Até não ver mais nada. E continua. Até não pensar mais nada. Ele apenas continua. Como a força por trás de todas as coisas. Continua. Tudo é calor. É como a morte. É terrível e delicioso e nunca termina.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

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