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Experiências mutantes entre a tela e a matéria

O evento já passou, então aqui começa uma reflexão como convite para uma conversa mais ampla. A primeira edição da NOVA bienal, que aconteceu no Museu do Amanhã entre setembro e outubro de 2023, foi um marco na cena de arte-ciência na América do Sul. Arte-ciência, assim com hífen no meio, pode ser descrita como uma vertente da arte contemporânea que faz uso da tecnologia e de noções científicas justamente para questionar e especular sobre a nossa relação com elas. A cena cultural do Rio de Janeiro, se comparada à de São Paulo, deixa a desejar na difusão de novas mídias. A NOVA bienal então ocupa uma lacuna importante, e não por acaso, ela é um novo eixo do Festival Internacional de Linguagens Eletrônicas (FILE), originado em São Paulo, que tem como missão tornar esta cena mais acessível para o grande público.

O tema desta primeira edição foi a nova estética que a o multiverso digital vem gerando. E obviamente muitos trabalhos expostos na NOVA foram experimentos em machine learning ou, como se chama mais comumente hoje, inteligência artificial. Para se obter essa formação de “inteligência”, existe efetivamente um processo de aprendizado de máquinas. O código com que os computadores computam, começa a se informar e se adaptar, integrando informações de fontes múltiplas, em velocidade avassaladora, para apresentar respostas que se aproximam de algo humanamente elaborado. Por isso especialistas preferem chamar este processo de machine learning. Esta “mente sintética”, na prática, se baseia no comportamento e conteúdo humano para simular resultados. O conteúdo, exponencialmente crescente e acessível online, é usando como ingrediente para este caldo inteligente. Enfim, seja inteligência ou não, as novas ferramentas, como as de edição de texto e de imagem por exemplo, vem encantando multidões, fomentando uma produção digital nunca antes vislumbrada. É como se as máquinas finalmente estivessem sonhando, dotadas de uma imaginação cujo input ainda é humano.

Como artista plástica, em primeiro momento eu fiquei perplexa, e um tanto irritada quando as primeiras chamadas “pinturas” geradas pelo Dall-E, Midjourney, Imagine with Meta ou PlaygroundAI começaram a se espalhar na rede. Logo depois surgiram as tendências, trends, dos (auto)retratos que simulavam pinceladas das mais variadas eras e estilos. Não foram os geradores de imagens em si que me incomodaram, mas foi o entendimento geral de que “arte” é qualquer coisa que se pareça com uma pintura. Qualquer encenação de pincelada, uma miragem, uma cópia vaga de algum poster antigo, eram tidos como uma “criação artística”. Este senso comum ignora o salto que a arte deu desde os fins do século XIX para cá, com o advento da fotografia, a invenção do cinema, da arte cinética, da cibernética, a performance, os happenings, o decolonialismo de todos os formatos que evoluíram e se libertaram das (pre)concepções da História da Arte. De qualquer forma, os geradores de texto e de imagem, com suas pinceladas numéricas, vieram para ficar. E quem sabe o Photoshop, o After Effects e outras ferramentas hoje bem conhecidas podem ter tido quase o mesmo impacto quando foram lançados há poucas décadas atrás.

O mundo inteiro no momento tenta compreender e se adaptar ao novo paradigma. Estamos de mãos dadas com nossos aparelhos. No campo acadêmico, por exemplo, as universidades passam pelo desafio de revisar textos que potencialmente foram editados com assistência de IA. E aí, como examinar o conteúdo quando se está buscando a capacidade crítica dx estudante? Em que lugar um texto escrito em parceria com o Chat GPT pode ser legitimamente aceito e quais seriam os limites para fazermos uso dessa “assistência inteligente”? Editoras de livros e festivais de literatura também vivenciam as mesmas dúvidas. Hoje inúmeras publicações escritas por geradores de texto são enviadas para examinadores. O que fazer? (Aliás, leitorxs, essa que vos escreve ainda não teve paciência para experimentar o Chat GPT; e segue escrevendo, divagando e editando, entre o proverbial bloco de notas no seu telefone e no seu laptop. Para além da proliferação assistida de texto e de imagem (inclusive 3D), temos é que continuar pensando criticamente. Se esta é a realidade de hoje, depois de passarmos pela cibernética, pelos computadores pessoais, o Adobe Suite, os avatares, a nuvem, os deep fakes, e face swaps… o avanço exponencial da tecnologia faz tudo o que conhecíamos até ontem parecer banal.

Eu tive o privilégio de participar da NOVA bienal – o contexto era mais do que ideal – Museu do Amanhã, setembro, FILE, outros artistas feras… E acima de tudo, era a minha primeira exposição no Rio. Sou carioca, mas saí do Rio em 2009 para estudar na Holanda e descobrir o meu caminho como artista plástica. Acabei ficando, me reinventando e só voltando ao Brasil anualmente para rever a família e os amigos. Meu trabalho tomou um rumo completamente inesperado, o qual explico logo mais.

A NOVA apresentava dois ambientes distintos. Um espaço interno, onde as chamadas mídias interativas foram expostas – um salão inteiro de instalações, projeções, câmeras, sensores, e filmes. O outro espaço, externo, ao ar livre, na Praça Mauá logo em frente ao Museu do Amanhã. Foi lá que eu tive a honra de expor minha escultura, Polytope, junto a outras obras que considero fantásticas. Entre elas, o Tube do coletivo Numen for use; Rope do belga Ief Spincemaille; Strandbeest do mestre Theo Jansen; e a Estrela Sensível do Estúdio Guto Requena. Este cenário a céu aberto, de esculturas interativas e quase todas analógicas, era cercado pela paisagem do porto do Rio. Os galpões, gruas e navios de um lado, e do outro, os aviões que vem e vão do Santos Dumont. A toda volta, transeuntes, vendedores ambulantes, skatistas, e todxs mais que possivelmente não iriam visitar o museu, estavam presentes. Também os sons, cheiros e conversas inusitadas da praça, contribuíam para um clima de laboratório em que o Polytope ocupou por 10 dias.

Como em todos os meus trabalhos, a interatividade e a presença do outro tem papel fundamental na experiência artística. A dimensão corporal é o que mais me instiga a criar espaços e objetos coreográficos para mover, provocar, convidar o público a sair da posição de observador para entrar num jogo como ator. Agir. Ação. Atuação. Depois de anos experimentando minhas propostas com plateias europeias, tive a oportunidade de receber o público carioca. A primeira vez do Polytope no Brasil, devo dizer, foi em São Paulo, no FILE 2018 (mais uma vez, obrigada, FILE!). Em Sampa, a experiência com a plateia brasileira já tinha sido sensacional. A grande diferença foi que em 2018 a exposição acontecia num ambiente interno, na sede da FIESP na Paulista. Lá, apesar da entrada franca, da longa duração e da incrível seleção de obras, o público visitante já conhecia minimamente o contexto do festival. Anos depois, volto ao Rio, em plena Praça Mauá. Estar em espaço público, então, ofereceu uma espontaneidade que não existe dentro de qualquer museu ou instituição. E assim, o contato do Polytope com o público foi mágico. Ainda mais com a revitalização do porto do Rio, quase como uma ilha utópica, onde o lazer mais simples não só é possível como é exuberante. Corpos em movimento, corpos em relaxamento, água de coco, patins, conversas fiadas…

Há anos atrás, quando vim estudar na Holanda em 2009, eu estava plenamente imersa nas mídias digitais. Havia me formado em arquitetura três anos antes, trabalhava em webdesign, animação digital, vídeo e alguma modelagem 3D. Tinha tudo para seguir em frente. Mas ao chegar na Holanda perdi o interesse em controlar pixels, e a produção de mais imagens me parecia cada vez mais irrelevante. Quis me reinventar. Comecei estudar a nossa relação com o movimento, na forma mais física possível, a investigar questões sensoriais, somáticas, interpessoais. Voltei ao mundo material. Talvez inconscientemente estava redescobrindo a arquitetura. Queria explorar o potencial de cada espaço e coreografar o público. Hoje o tato, o som e até os cheiros, tem a mesma importância de que a visão nos meus trabalhos. As mãos e os pés entram em ação, o pensamento emerge na pele. Quero criar aquela experiência de “ver com as mãos”, que quase nunca é permitida no contexto da exposição de arte. O corpo inteiro tem que entrar no jogo.

E isso aconteceu mais do que nunca na Praça Mauá. Lá estive por 10 dias, recebendo visitantes, escolas, amigos, familiares, turistas, passarinhos, o sol, o vento, a chuva. A risada das pessoas quando percebiam que não só podiam tocar, mas também eram convidadas a entrar, tirar o sapato, dançar e até mesmo usar os pés para experimentar a obra, foi um presente para mim, que acabei virando observadora da obra. Como uma estrutura ultra leve, feita de fibra de carbono, e maleável, pois suas articulações são flexíveis, o Polytope oferece que o visitante tenha um certo domínio sobre sua geometria – sete tetraedros interconectados, que dobram e se viram, se acumulam ou se deslocam, em resposta direta ao movimento impresso nele. Algumas crianças gostam de formar túneis e correr por dentro dos tetraedros. Com outros, com às vezes que me juntei, em prosas infinitas, sentávamos e ficávamos ali, dentro de tendas invisíveis. Um pai e uma menininha outra vez, ficaram um tempo construindo uma “casa” com “quarto, cozinha, sala e varanda”. Dali a pouco estavam os dois deitados, cada um no seu tetraedro. Fui perguntar e a menininha me explicou que ali era o quarto, mostrando com as mãos. Em tantos anos de exposição, eu ainda não tinha visto uma casa como aquela. Num dos últimos dias de exposição, dois skatistas Mauricio e Wesley passando por acaso pela Mauá, notaram a obra e vieram investigar suas múltiplas combinações geométricas. Passados alguns minutos, fui papear com eles e ali mesmo surgiu a oportunidade de uma pesquisa ainda mais específica. Wesley e Mauricio vislumbravam o Polytope como arquitetura-obstáculo a ser atravessado. Viam possibilidades que eu mesma, não-skatista, jamais viria. Começamos a testar, rearranjando os tetraedros, encontrando passagens, quinas, pontes, dentro da própria escultura. Depois de alguns testes, medindo altura e velocidade, Maurício saltou por dentro da obra, aterrizando em cima do skate em movimento, tudo em frações de segundo. Foi um daqueles dias de sorte, pensei, em que cabeças estranhas, juntando ideias, desvendam um novo horizonte. Também agradeço os queridos Vinícius Tamer e Yuri Cardoso pela filmagem e fotos nesse dia.

Fotos Polytope: Yuri Cardoso

Por isso que quando me deparo com os “sonhos” do Midjourney e vejo representações de ambientes que jamais serão construídos, como “obras de arte”, eu sinto falta da experiência visceral; do suor, da gana de se construir algo novo. Um de muitos exemplos que vi passando pelos feeds, foi uma série de arquiteturas infláveis colossais: templos, escadarias, colunas gregas e tantas formas clássicas vislumbradas por algum prompt desejante de experiências sensorial. No fundo, se a gente puder, a gente quer pegar, apertar, sentir, e deitar em cima daquela arquitetura fofa (fofa no sentido literal da palavra). Aliás, posso comprovar com vários infláveis que já fiz. É gostoso imaginar, mas o bom mesmo é quando a coisa é materializada, no tempo e no espaço. Espaços para serem habitados. Corpos para serem transformados. Deve ser por isso, que vou quase na direção oposta. Quanto mais virtuais, mais quero explorar como o mundo material nos afeta, mais quero criar objetos que convidam para o contato e o diálogo corporal. E com todos os desafios que isto implica. Fazer uma obra que pode ser manipulada e ocupada por todos dá muito mais trabalho, mas também traz aprendizado. Criamos mais laços, mais memória, mais profundidade. Realmente acredito no potencial do tato como expressão, linguagem, como uma outra forma de inteligência. Uma obra de arte que você segura nas mãos ou que se mexe literalmente com você, provavelmente jamais será esquecida, pois ela te toca numa camada mais profunda que a da retina.

Links:
https://ludmilarodrigues.nl
https://novabienalrio.org

Hazbin Hotel: Um musical direto do inferno

Seria um pouco presunçoso dizer que animações para adultos são a grande novidade da última década. Para aqueles que tem um pouco mais de idade, podem lembrar do Adult Swim ou até mesmo de Family Guy ainda na virada do século sendo possíveis precursores desse gênero em meios mais “mainstream“. Porém, faz sentido dizer que a classificação de “+18” ou “+16” ganhou certo valor nas produções do meio, gerando um ar meio “cult” sobre essas produções.

Nesse emaranhado de desenhos adultos, onde muitos utilizam essa liberdade como chamariz, o interessante é buscar por obras que contam uma história na qual a classificação indicativa é usada de forma criativa na essência da história. Assim, vale destacar o trabalho de Vivianne Medranno e sua produtora SpindleHorse Toons na criação da série Hazbin Hotel.

Seguimos a história de Charlie, princesa do inferno que decide abrir um empreendimento bastante inusitado. Tentando salvar as almas que ali habitam do extermínio anual que ocorre, ela monta um hotel para reabilitar os pecadores acreditando que até mesmo o mais sujo deles tem um lado bonzinho. Para tal ela conta seu grupo formado por sua parceira, Veggie e Angel Dust, um ator pornô que serve de cobaia do experimento. Depois de ser zombada por metade o inferno, sua situação começa a mudar quando Alastor, também conhecido como “Demônio do Rádio” decide de “bom grado” ajudar com a proposta do hotel.

Além do plot criativo, a história conta com um universo rico que mistura diferente gêneros e referências. Comédia, musicais e gore se juntam a roupagem ao estilo de desenho cartunesco e meio pontiagudo que foi mostrado no piloto da série, lançado de forma independente em outubro de 2019. Desde então, o episódio conquistou grande público ao redor do mundo, tendo 93 milhões de visualizações no youtube, sem contar as versões com dublagens de fãs em outras línguas. Foi graças a esse alcance que pouco menos de um ano depois de seu lançamento a produtora A24 decidiu apadrinhar o projeto para ser oficialmente finalizado e lançado.

Hazbin Hotel estreitará pela Prime Video dia 19 de Janeiro. Além do traço atualizado o desenho ganhou um reforço no seu elenco que conta com atores conhecidos do teatro musical, como: Erika Henningsen (Charlie), Stephanie Beatriz (Veggie) e Amir Talai (Alastor).

É bom destacar também que essa não é a única produção de Medrano. Helluva Boss, que se passa no mesmo universo de Hazbin, é publicada no canal da animadora (Vizziepop) desde 2019. Assistam!

“Enxurrente” de Leda Spenassato

Num mundo onde os fascistas crescem em progressão Malthusiana e psicopatas são eleitos sem muitas dificuldades, é difícil falar sério sem precisar recorrer ao dicionário de palavrões e evitar rastros de bile nas pontuações equivocadas. No entanto, por força maior, tentarei manter o prumo e o pouco de sanidade que ainda me sobra.

O livro de hoje é um exemplar perfeito da literatura denúncia. Ele passeia pisando firme na via pavimentada por clássicos como “O Cortiço” de Aluísio Azevedo e Quarto do despejo da Carolina Maria de Jesus. Ou seja, é uma obra urgente, a céu aberto. Embora ficção, retrata um problema real e coletivo, que deveria deprimir e indignar até o mais anestesiado dos leitores. Coberto por lama e raiva, apresento “Enxurrente”, romance de Leda Spenassato, que assim como o Itamar Vieira Júnior, também é Geógrafa, o que em um silogismo sem qualquer comprometimento, indica que mais geógrafos deveriam estar escrevendo no país de Milton Santos.

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“Antônio desde que nasceu carregou consigo o pecado. Não de adão e eva, mas o pecado que cometem os homens que exploram homens como ele.” (Trecho do Livro)

Na obra, somos apresentados à dura realidade de uma miserável – e cada vez mais comum – família brasileira. Rosa é uma dona de casa por obrigação, fruto do determinismo social; Antônio, seu companheiro, é um pedreiro explorado pelo patrão; Jackson, filho mais velho, come terra para tapear a fome; Getúlio, filho do meio, sofre com episódios de epilepsia e necessita de cuidados constantes; Neném, a caçula, é uma menina que nem nome tem. Eles moram no morro da ladeira, num barraco precário construído em um lugar perigoso, última e única opção.

“Marido e mulher, um tentando proteger o outro, sem querer seguem fazendo mal aos dois”. (Trecho do Livro)

O enredo choca, mas não traz grandes novidades para quem tem empatia e ainda guarda contato com diferentes realidades. Entretanto, ainda assim, impacta pelo poder da narrativa e pela habilidade da autora. A agonia é uma grande constante, da primeira até a última página. Leda transporta o leitor para esse núcleo familiar, onde é possível vivenciar essa catástrofe diária, em que a “enxurrente” é só mais um capítulo da tragédia anunciada. No mais, o desespero de perceber ser impossível uma saída deixa até o mais insensível dos selvagens acuado.

O desconforto aumenta quando se percebe que o livro se ampara em temas que deveriam estar enterrados no passado, mas que estão hoje mais vivos do que jamais estiveram. Fome, miséria, trabalho escravo moderno. E nesse ponto, destaco o documentário da HBO “Escravidão do Século XXI” que ilustra um pouco esse aspecto. Ah, por favor, não me venha falar em meritocracia que mando-lhe logo um tapão nessa sua cara laranja. Aliás, falar em meritocracia em um país de extremos que voltou para o mapa da fome, devia ser crime inafiançável. Afinal, todo mundo sabe, ou deveria saber, que a única meritocracia que existe no Brasil é a hereditária.

Herbert de Souza - Betinho
Herbert de Souza - Betinho

Num mundo onde os fascistas crescem em progressão Malthusiana e psicopatas são eleitos sem muitas dificuldades, é difícil falar sério sem precisar recorrer ao dicionário de palavrões e evitar rastros de bile nas pontuações equivocadas. No entanto, por força maior, tentarei manter o prumo e o pouco de sanidade que ainda me sobra.

O livro de hoje é um exemplar perfeito da literatura denúncia. Ele passeia pisando firme na via pavimentada por clássicos como “O Cortiço” de Aluísio Azevedo e Quarto do despejo da Carolina Maria de Jesus. Ou seja, é uma obra urgente, a céu aberto. Embora ficção, retrata um problema real e coletivo, que deveria deprimir e indignar até o mais anestesiado dos leitores. Coberto por lama e raiva, apresento “Enxurrente”, romance de Leda Spenassato, que assim como o Itamar Vieira Júnior, também é Geógrafa, o que em um silogismo sem qualquer comprometimento, indica que mais geógrafos deveriam estar escrevendo no país de Milton Santos.

A fome esvazia qualquer debate. Não dá para falar de honra, ética, moral, virtude, consciência, espiritualização, gratidão e coisa e tal, onde há fome. Tudo se torna secundário. Qualquer discurso, debate ou tratado é inócuo e, por vezes, mendaz. Com diria Herbert de Souza, o Betinho; “Quem tem fome tem pressa”. Na boa, vocês já viram Largados e Pelados? Notaram como as pessoas se comportam quando estão famintas? E olha que ali há um cobertor, uma rede de proteção. A grande verdade é que quem tem fome tem o direito – o dever – de se revoltar! E quem não tem deveria ajudar. Enquanto não entendermos isso, o Brasil está lascado!

Ah, e quando estou falando em fome, campeão, não estou falando de dieta, de jejum intermitente, de detox fitness… Por favor, não confunda alho com caralho.

“Sirenes, buzinas, desespero, gritos, choros, trovoadas, que se confundiam no barulho ensurdecedor que vinha ninguém sabia de onde. Era o morro da ladeira trocando de lugar”. (Trecho do Livro)

Um recurso muito interessante usado na obra é a personificação da burocracia na figura da “Dona licitação”, que logo passa ser culpada pela falta de remédios, em especial o tegretol, indispensáveis ao filho do meio de Rosa. Ou seja, a autora traz oportunamente o que ocorre nos mais diversos rincões, a demonização de uma ferramenta criada com um propósito claro de transparência e impessoalidade, e que por conveniência política vira um espantalho blindando o gestor omisso. Em resumo, transfere toda responsabilidade para a malvada burocracia.

Na parte técnica, há uma consubstanciação rara entre estilo e enredo. A linguagem traz algo de caótico, misturando sonhos e devaneios, numa construção não linear que vai nos empurrando como uma verdadeira enxurrente. Há até um certo paralelismo verbal, que em um primeiro momento pode despertar um pequeno desconforto, mas, ao final, é possível enquadrá-lo na proposta original. Igualmente como a repetição proposital de palavras – e cenas – ao lado das vírgulas anárquicas, em alguns momentos, que te transportam para uma ideia de espiral, transformando o leitor em cativo de um vórtice repetitivo, sufocante e inescapável.

O livro é curto e precisa ser lido como uma enxurrente.

Avaliação: Todas as notas do nosso descaso, egoísmo e indiferença, que celebram o nosso retumbante fracasso.

Dica com Spoiler: Ao final do livro, se você também achar que faltou justiça ao Noel, o patrão desgraçado do pobre do Antônio, leia imediatamente o conto do André Sant Anna, “O importado vermelho de Noé” e veja a mágica acontecer. Beijo e de nada!

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Título: Enxurrente
Autor: Leda Spenassatto
Editora: MQP (Mais Que Palavras)
Ano: 2021

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Tem algo mais macho que morrer na guerra?

Com um partido ultraconservador no poder, a Polônia já criou mais de 80 zonas urbanas por onde LGBT’s não podem transitar. Para 89% da população do país, o LGBT é um “ser anormal” e, indo além, para 25% dos poloneses, qualquer um que não seja héterossexual deve ser exterminado. Sim, o mesmo país que teve 85% da sua população judaica assassinada pelos nazistas. Parece que não aprenderam nada nem com a Segunda Guerra, nem com sua prima Hungria.

Em dezembro do ano passado, o país (quase) vizinho, igualmente repressor com as minorias, ficou chocado ao ter um de seus principais deputados flagrado em uma orgia gay em Bruxelas, tentando fugir pela janela, acuado. O deputado, Szájer József, foi um dos criadores da bizarra “Constituição Conservadora” da Hungria e já deu diversas entrevistas alegando seu contentamento em ter dificultado a vida dos LGBT’s do país – talvez por isso ele tenha ido para Bruxelas “aglomerar”. Ou seja, além de um furador da quarentena, um hipócrita.

E o pulo do gato (ou do veado) é que, como hoje em dia esse tipo de masculinidade tóxica já respira por aparelhos, ela acaba convulsionando de ódio a cada vez que acorda. A China, por exemplo, intimidada pelas representações do homem asiático sensível (hoje comuns nas músicas coreanas e japonesas), começou a investir em programas “educacionais” para tornar meninos mais viris. O criador desse programa afirmou que “os garotos chineses não desejavam mais ser Heróis do Exército”. Afinal, tem algo mais macho que morrer na guerra?

E falando em guerra e nas disfunções da “macheza”, não tinha como não lembrar do nosso presidente, entusiasta tanto do armamentismo, quanto do ódio às diferenças. O cômico (e trágico) é que, apesar de Bolsonaro falar que preferia ter um filho morto a um filho gay, ele já deu diversas entrevistas falando que estava num “namoro” com Paulo Guedes, que sua relação era como um matrimônio e que poderia ter até divórcio (quando brigarem). Não me admira o depoimento que Michele deu dizendo que queria que o marido “tivesse mais energia dentro de casa”.

Acho que, no fundo, todo propagador e apoiador dessa perseguição à masculinidade alheia é tipo aquele valentão de filme, que no final a gente descobre que era super medroso e lidava com isso amedrontando os outros. Na própria família do nosso presidente vira e mexe temos pérolas que deixam clara essa frágil virilidade. Como Eduardo espumando de ódio no twitter depois que sua ex-namorada o chamou de Bananinha, em referência ao tamanho de seu “fuzil”. Ou então quando ele fez uma live no Instagram mandando as pessoas enfiarem a máscara no rabo.

E o triste é que exemplos como esse não são apenas da esfera pública. Acontecem em todo lugar. Na minha família por exemplo, desde que me mudei aos 17 anos, um tio me pergunta se eu estou “comendo muita b*****a” no Rio de Janeiro. Ou então meu pai, que chama os amigos de “veadões” quando quer ofendê-los na pelada de domingo. Acho que já está na hora de desligar os respiradores que mantêm essas ideias oxigenadas. Ou seria melhor fugir para Bruxelas?

* * *

Ilustrador Convidado:

Douglas Felix

Douglas Felix é ator, roteirista, comediante, apresentador e também ilustrador. Pode-se dizer que ele é quase um pato, que nada, voa e anda, mas nenhuma dessas funções com excelência. Mas pelo menos ele é um pato esforçado. Ou humilde. Ou falso-humilde, já que ele fala dele mesmo em terceira pessoa, como essa mini-bio.

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Volta às aulas em Abbott Elementary

Abbott Elementary é um dos mais novos sucessos da ABC. Lançada em dezembro de 2021, rapidamente ganhou confirmação para uma nova temporada que estrearia ainda esse ano. A série criada e estrelada pela jovem Quinta Brunson, teve uma excelente recepção do público que aguarda ansiosamente a segunda temporada.

A comédia com linguagem de mockumentary é um registro do dia-a-dia dos professores de uma escola pública de ensino fundamental, em Philadelphia, nos Estados Unidos. Ainda que se trate de uma série de humor, ela levanta debates muito importantes por estar tratando de temas como o sistema de educação pública estadunidense e a infância e juventude em realidades menos privilegiadas, além de também denunciar a politicagem/corrupção por trás de órgãos governamentais.

Barbara Howard (Sheryl Lee Ralph)
Barbara Howard (Sheryl Lee Ralph)

Bastante semelhante a The Office, Parks and Recreation e Veep, a série se dá a partir de uma linguagem de documentário se utilizando de todos os seus recursos: entrevistas, câmera dinâmica e registros cotidianos. Além de também, todos os artifícios do mockumentary como zoom exagerado para evidenciar algumas ações, movimentos brutos de câmera e, principalmente, a metalinguagem do cinema.

O elenco conta com excelentes atores mirins que brilham em alguns papéis secundários, mas os professores formam o núcleo principal com as presenças ilustres de Tyler James Williams, Janelle James e Sheryl Lee Ralph.

Não perca a reestreia de Abbott Elementary! E fique por dentro de mais notícias como essa seguindo nossas redes ou acompanhando nossa newsletter. Até a próxima!

Aceitar proteção de homem não me faz menos feminista

Essa treta com Will Smith levantou discussões de que mulheres não precisam da proteção de homens. Acho uma bobagem. Precisamos sim. Não porque não sabemos nos defender, mas porque quem nos agridem são os homens. Jada poderia ter subido no palco e dado uma tapa na cara do pseudo comediante, poderia. Mas que risco ela iria assumir? Ser agredida de volta? Ser rechaçada por todo um planeta?

Num mundo cruel como esse – principalmente para as mulheres negras – penso que a proteção de homens segue sendo necessária. Não porque eles são machões. E sim porque a todo tempo somos vítimas. Podemos ser ridicularizadas, violentadas, mortas e estupradas a cada esquina. Essa é a verdade. A mais dura verdade.

Outro dia escutei uma história de um conhecido que ficou bêbado no carnaval e acordou no outro dia no meio de um parque sozinho. Quando uma mulher poderia ter feito o mesmo sem ser agredida? Estuprada? Não temos liberdade. O nosso lugar de vulnerabilidade nessa sociedade patriarcal é gigantesco.

Por isso mesmo, quando estou entre homens, aceito cuidado e proteção sem crise. Peço para me levar até o Uber. Para caminhar comigo numa rua mais esquisita. Para estar do meu lado em qualquer situação de risco. Proteção, saibam, é muito diferente de controle. De dizer o que nós devemos ou não fazer. De domínio dos nossos corpos, desejos e vontades. Proteção é apenas cuidado. No caso de Will foi colocar limites numa situação de extrema violência com a mulher que ele ama.

Muito mais dolorido que um tapa é ridicularizar uma mulher ao vivo para todo o planeta. Violência não é caminho, fato. Mas atitudes violentas, por vezes, precisam ser respondidas à altura. Homens babacas não podem se sentir livres para fazerem o que bem entenderem com mulheres, com mulheres pretas. Esse é o ponto. E nós, mulheres, podemos e devemos nos levantar coletivamente contra esse tipo de humor imbecil e humilhante. Piada e agressão são coisas distintas.

Homens não podem se sentir livres para fazer chacota da gente. Principalmente com mulheres negras que já carregam o peso de todas as opressões do mundo. Humilhar mulheres deve parar de ser lugar comum. Temos nossos corpos, intimidades e sexualidade expostos a cada momento. Isso é um dos mais absurdos instrumentos de controle. Com esse tipo de violência homens dizem a todo tempo o que podemos ou não fazer. Como ou não podemos ser.

Penso que aos homens minimamente conscientes cabe a tarefa de nos proteger evitando que mulheres sejam violentadas entre os seus. É preciso colocar limites. Dá um chega para lá nos brothers. Parar com tanta irmandade. Pontuar o quanto é errado nos objetificar e humilhar. Por vezes, dando um tapa até. Quem não melhor que homens para colocar limites na violência que eles mesmos praticam?

Cuidamos e protegemos homens sempre. Até quando eles não merecem. Também merecemos e precisamos de cuidado. Esse também precisa ser o dever dos homens. Euzinha aqui achei o tapa necessário. Como mulher, me senti honrada.

E vocês, o que pensam disso?

“O Voo Rasante do Pombo Sem Asas” de Luís Fernando Amâncio

Engana-se quem pensa que somente ornitólogos sentem profunda admiração por pássaros. Nossos amigos alados são fonte inesgotável de inspiração para os mais variados artistas. Do famigerado pintinho amarelinho, do saudoso Gugu Liberato, até o “Black Bird” revolucionário do queridíssimo Paul McCartney. Como não amar o “Kingfisher” do genial desorelhado Van Gogh ou o papagaio José Carioca criado pelo dono da Disneylândia? Sim, porque em minha terra tem palmeiras onde cantam os sabiás, que ensinam seno A e cosseno B para a garotada do C.A.

“Meu filho, mas e na literatura?” você deve estar se perguntando. Pois bem, mamãe, na literatura o fascínio é ainda maior. Talvez pelo ciúme da liberdade de poder sair à francesa de qualquer exposição em um terraço estranho ou por puro receio de ter suas asas frágeis queimadas pelo sol. Quem não se lembra do Corvo sacana do Edgar Allan Poe, o “mockingbird” da Harper Lee, em seu assombroso “O Sol é para todos”, “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach, “A Águia e a Galinha” do teólogo Leonardo Boff, o tal Pardal de “Pulp” do Bukowski, “O Falcão Maltês” do Dashiell Hammett, e aquele bicho chato lá dos “Jogos Vorazes”? E eu não vou nem entrar no mérito do aclamado “O Peso do Pássaro Morto” da pavônica Aline Bei.

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No entanto, se você é um bom observador, com espírito justo e contrário ao especismo dissimulado, tenho certeza de que percebeu a ausência de um velho conhecido. Sim, ele mesmo, o Pombo! O sobrevivente das aves, que vive à margem da sociedade voadora e é pejorativamente conhecido como o “rato de asas”, uma expressão que busca ofender de uma só vez dois animais e destrói qualquer ponte futura de diálogo quando estivermos em uma inevitável guerra pelo domínio dos céus e dos túneis.

Porém, para juntar forças aos idosos das praças que lançam milho todos os dias para aplacar nosso descaso, Luís Fernando Amâncio amansa, com o perdão do trocadilho, nossos prováveis algozes com o seu ascendente “O Voo Rasante do Pombo Sem Asas”.

Ultrapassado esse longo introito, que se provará inútil já na próxima explicação, preciso avisar que não é um livro de, nem para, especialistas em bicos. (O que pra mim, é ótimo. Afinal, não tenho essa admiração toda por essas tais aves que o começo do meu texto deu a entender. Pelo contrário, em meu parco entendimento, voou é pássaro. Do morcego ao dragão. Eu sei que vai ter gente defendendo que o Dragão é réptil, mas a partir do momento em que ele sai do chão, bate suas asas, opta por voar, ele fez sua escolha, portanto, pássaro. Aliás, eu sempre considerei o dragão uma espécie de bombeiro do mundo invertido. Bem, isso é material para outro ensaio.). Fato é que esse livro não é sobre dragões, nem sobre pombos, tem apenas um canário para cumprir a cota exigida pelo “Birdperson” do Ricky and Morty, todavia, paira bem acima da média da nova literatura nacional.

Birdperson e Rick Sanchez

Nesse bando, também conhecido como antologia, são 21 contos que vão depenando o “status quo” literário, trazendo novas ideias e estruturas, mesclando narrativas longas, curtas e mínimas, os famigerados microcontos, que provam de forma inequívoca que o autor transita como um nativo nesses três mundos. Há de se destacar o humor, ora mordaz, ora mais refinado, que invariavelmente Amâncio aplica em toda sua obra, bem como o tom crítico que igualmente alterna suas versões entre o elementar e o sub-reptício.

O primeiro conto é o “Problema”, onde é possível escutar a voz do personagem tamanha é a proximidade criada com o leitor. Nesse sentido, a linguagem é precisa. Você fecha os olhos —depois de ler, claro, ou durante, se o formato for em audiobook — e consegue ouvir a voz desse desconhecido contando sua história triste e improvável, que vai te convencendo até o final, mas não sem uma surpresa desorientadora.

Em “O garçom paga a conta”, o autor apresenta uma dessas historietas intervalares, divertidíssimas, que abrem três ou mais interpretações para uma situação ordinária que alcança seu extremo. Uma peça rara que combina sobremaneira forma e conteúdo, gerando dúvidas e certezas em cada leitor.

“Cheiro de Bicho” é um dínamo, famoso nos desafios literários do Entrecontos por sua ousadia e potência. Nele, há uma sublime construção de personagem, com passado, motivação, conflito e uma inesperada virada. A realidade que choca, que constrange, que dói.

Outro grande destaque desta peculiar reunião de histórias é o “Notas sobre um linchamento” que faz uma crítica social e, em último efeito, a própria natureza humana. Portanto, o autor atira suas pedras para dentro, nos dutos sujos e escuros do nosso âmago, revelando que o líder, o detentor do poder é, na grande maioria dos casos, apenas um reflexo do ideário predominante nessa cloaca que chamamos de mundo. Ok, falando assim parece bem menos engraçado do que ele é, admito. Leia, tire suas conclusões e volte aqui para arremessar alguns pedregulhos… pois com elas construirei minha casa na árvore. (Desculpe-me, não podia perder a oportunidade de alfinetar a sabedoria coach nossa de cada dia.).

Em “Meia idade”, Luís alcança o ápice do contar, convidando para sentar-se ao seu lado e observar o protagonista com uma lente, do alto, como se a vida desse sujeito fosse um experimento em uma placa de Petri. E nesse livro são muitos os personagens pitorescos; um juiz de futebol com crise de consciência e um matador sem nenhuma sombra de remorso, feito um típico cidadão cristão de bem. O cenário, Bom Jesus do Cascalho, o que parece ser a pasárgada do Amâncio, ou melhor, Macondo, ou melhor ainda, Bacurau! Que também é um pássaro, sacou?

bacurau_kleber_mendonca_filho

“Ladrão” e “Ata de Reunião” são duas joias da metalinguagem, guiando o leitor pelas nuances da estética, que envelopa essas histórias, e pelos caminhos claudicantes da criatividade. Como praticamente em todas as partes dessa coletânea, Luís Fernando Amâncio sustenta os episódios em um binômio estilo/ideia carregado de muita força dramática, com conflitos e incidentes.

Por fim, para não dizer que não falei sobre alpiste insosso e chumbinhos desgarrados, confesso sem qualquer pudor ou arrependimento que não gostei do “Canário Rei” justamente o único conto que faz menção a um representante dos voadores. Sim, sou desses!

São 120 páginas que recomendo ingerir com mordidas rápidas e vorazes, tal qual quem devora uma torta de pombo sem pombo descrita por George R.R Martin em um de seus banquetes detalhadamente descritivos.

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

Mais vale um pombo na mão do que uma horda de cegonhas trazendo filhos de um carnaval, que já não me lembro, voando.

* * *

Capa do livro "O Voo Rasante do Pombo Sem Asas" em que se vê a silhueta preta de alguns prédios e de algumas aves que contrastam com a brancura do céu. Na capa também se lê o título do livro e o nome do autor.

Título: O Voo Rasante do Pombo Sem Asas
Autor: Luís Fernando Amâncio
Editora: Isadora Books
Ano: 2020

Compre o livro do Luís

Filmes para te fazer companhia na virada do ano

Por conta da pandemia, nesses últimos dois anos, as festas e celebrações perderam um pouco do significado. Aglomerar em família para o Natal, aniversários e ano novo se tornou arriscado e muitos (os mais responsáveis) tiveram fazer alternativas online para manter o contato mesmo estando longe. Porém, enquanto alguns ficariam chateados, outros abatidos, eu decidi aproveitar e tentar fazer algo que não conseguiria fazer num réveillon cheio de parentes: ver um filme sincronizado com a virada do ano.

Essa ideia, que provavelmente começou com uma brincadeira, basicamente consiste em assistir filmes ou ouvir alguma música que em certo momento se sincronize com o anúncio do novo ano à meia-noite. Fiz um experimento com “Star Wars IV: Uma Nova Esperança” (1977) e, como resultado, pude dar boas vindas a 2021 enquanto a Estrala da Morte explodia.

Bem, pelo menos quase. Infelizmente os rebeldes conseguiram acabar com a base espacial 1 segundo antes do relógio dar meia-noite, mas a essa altura eu estava tão bêbado que sequer ligava. Porém, mesmo com esse resultado, parei para pesquisar e descobri inúmeras outras possibilidades de filmes. Aqui vai uma pequena seleção dos mais interessantes:

Lembrando que podem existir diferenças mínimas entre as versões de streaming e as de DVD dos filmes, então se antecipe! Caso dê algum problema, não fique chateado, errar por 1 segundo faz parte.

Primeiramente, para os fãs de blockbuster e filmes de hominho, com certeza, a cena mais satisfatória e chocante para a virada de ano seria a derrota de Thanos (Josh Brolin) em Vingadores Ultimato (2019). Se você começar a ver o filme as 21h29m30s do dia 31, vai testemunhar Tony Stark (Robert Downey Jr.) acabando com seu maior inimigo e trazendo o ano novo num instalar de dedos:

Ainda falando em franquias, é possível assistir a Senhor dos Anéis e ter um ótimo fechamento de ano. Para os corajosos que quiserem encarar uma maratona dos três filmes sem pausas, começando as 1h45m da tarde, será possível presenciar Frodo (Elijah Wood) concluindo 2021 com um simples “it’s done” na hora da virada. Boa sorte pra quem for trocar o DVD ou a aba do browser.

Agora, caso você não tenha paciência e queira começar o ano de forma estilosa, se iniciar “O Grande Gatsby” (2013) as 23h29m57s receberá um brinde de ano novo do próprio Gatsby (Leonardo Dicaprio) ao som Rhapsody In Blue. Não tem como não se animar pelo ano que virá!

Para aqueles que querem começar um ano com a autoestima alta, mesmo sendo um bobalhão. Dê um play em “Bob Esponja: O Filme” (2004) as 22h47m48s, guarde seus brinquedos e pegue sua guitarra, pois a meia-noite em ponto você poderá sair cantando “Sou um Amendobobo”.

Por último, para aqueles que gostam de clássicos. Assista “Se meu Apartamento Falasse” (1962) as 21h58m50s poderá fazer companhia a Fran Kubelik (Shirley Maclaine) em sua virada de ano.

Para aqueles que gostam de outros tipos de filmes ou que só querem só pelos memes. Aqui vai uma lista de outras opções que podem fazer seu ano começar com um beijo, como em “Carol” (2015), até um tapa na cara como é o caso de “Logan” (2017):

Filmes:

Star Wars: o Império Contra-Ataca (1980), Irvin Keshner – 23h26m32s – General Veers fala “Maximum Firepower”.
Homem Aranha 2 (2004), Sam Raimi – 23h53m31s – Peter fala “Pizza Time”.
Shreck (2001), Vicky Jenson, Andrew Adamson – 22h39m04s – “I’m a Believer” começa a tocar.
Homem de Ferro 3 (2013), Shane Black – 23h55m50s – A virada do ano vai acontecer tanto no filme quanto na vida real.
Thor: Ragnarok (2017), Taika Waititi – 22h11m37s – Thor volta a Asgard ao som de “Immigrant Song” do Led Zeppelin.
Os Excêntricos Tenenbaums (2001), Wes Anderson – 22h22m15s – Chas Tenembaum (Ben Stiller) diz a Royal Tenenbaum (Gene Hackman) que teve um ano difícil.
Logan (2017), James Mangold – 22h20m31s – Laura dá um soco em Logan.
De Volta para o Futuro (1985), Robert Zemeckis – 22h19m08s – Marty viaja de 1955 para 1985.
Marte ataca (1996), Tim Burton – 23h06m23s – O embaixador Marciano desintegra o congresso estadunidense.
LEGO Batman: o filme (2017), Chris McKay – 22h34m58s – Robin bota pra tocar “Wake me Up Before you Go-Go”.
Joias Brutas (2019), Josh Safdie, Ben Safdie – 23h41m48s – Howard fala “Holy Shit I’m Gonna Cum”.
Carol (2015), Todd Haynes – 22h45m32s – Carol e Therese se beijam.
Forest Gump (1994), Robert Zemeckis – 22h38m57s – Forest dá feliz ano novo para o Tenente Dan.
Duro de Matar (2004), John McTierman – 21h58m13s – Hans Gruber cai do alto do Nakatomi Plaza.
It – Capitulo Dois (2019), Andy Muschietti – 21h16m49s – Richie grafa R+E na madeira.
Rogue One: Uma História Star Wars (2016), Gareth Edwards – 21h55m13s – Um soldado rebelde grita “Launch!”.
Avatar (2009), James Cameron – 23h24m56s – Jake abre os olhos em seu corpo de Navi.
La La Land: Cantando Estações (2016), Damien Chazelle – 23h44m54s – Um estranho pula na piscina durante o numero musical de “Someone in the Crowd”.
Blade Runner: 2049 (2017), Dennis Villeneuve – 21h29m30s – K grita “God Dammit!” e chuta a cadeira.

Séries:

The Office (2005-2013), T05E14: Lecture Circuit: Part 1 – 23h57m01s – Angela joga o gato pro teto para tentar salva-lo.
The OC: Um estranho no paraíso (2003-2007), T01E14: The Countdown – 23h19m09s – Ryan e Marissa se beijam ao som de Dice de Finley Quaye.
It’s Always Sunny in Philadelphia (2005-), Glenn Howerton e Rob McElhenney, T06E13: A Very Sunny Christmas – 23h41m20s – Frank Reynolds (Danny DeVito) sai de dentro de um sofá nu.

“Pele Velha” de Giselle Fiorini Bohn

Por razões que todo homem deveria saber, a literatura mundial sempre privilegiou histórias sobre Pais e Filhos: Heitor e Príamo em Ilíada, Jesus e seu Papai no Novo Testamento, Pinóquio e Geppetto numa fábula de Florença que não me recordo o nome, “Carta ao Pai” do grande Franz Kafka, “Como Deus Manda” do Niccolò Ammaniti e, recentemente, em território nacional, Cristovão Tezza no seu atordoante “O Filho Eterno”. Mesmo os famigerados russos, Renato e Turguêniev, abusaram do óbvio e apelaram para os batidíssimos “Pais e Filhos”.

Imagem do cantor Renato Russo segurando rosas.
Renato Russo levando flores para a mãe
Imagem da capa de uma das edições nacionais de "Pais e Filhos" de Turguêniev
Turguêniev copiando a canção da Legião Urbana

Sim, eu sei que é pau, é pedra, é pai, é filho e não vou nem entrar no mérito do Espírito Santo. Mas onde estão os romances sobre Mães e Filhas? Onde estão? Escondidos, camuflados, proscritos, tombados em prateleiras de poucas Lygias e Sylvias? Pode ser. Mas, aqui não, meu irmão! Nesse “Adorei! Nota 2.”, embora Trevous, eles estão na luz. Vai ter mãe e filha, sim! E se chorar ainda vai ter avó e netinha.

A bem da verdade, em minha insuspeita opinião, a relação entre genitoras e descendentes sempre me pareceu muito mais fascinante do que a disputa protocolar de testosterona. E se você, machão, não gostou da minha simplificação, a gente pode resolver no braço. Só marcar horário e local! Enfim, como eu ia dizendo, hoje trago uma história que desenlaça uma complicada e bela relação entre duas mulheres, “Pele Velha”, romance de estreia de Giselle Forini Bohn.

Preliminarmente é crucial destacar a inspirada capa que acrescenta uma nova epiderme, com o perdão do trocadilho, por intermédio de um recurso ótico que brinca com poros e pixels, aproximação e distanciamento. O enredo, em suma, apresenta uma protagonista que recebe alguns escritos de sua genitora — verdadeiro legado — enviados um pouco antes de sua morte. A premissa, talvez a mais velha na história da humanidade, é a busca, em maior ou menor efeito, das próprias origens. No entanto, o que observamos em “Pele Velha” é a personagem principal tentando se afastar racionalmente das perguntas que buscam conclusão, do atavismo implacável que incomoda, ou seja, Giselle subverte a jornada habitual da caça ao tesouro já bem acomodada na literatura. Para tanto, ela constrói uma filha niilista, autossuficiente ao extremo (ao menos assim ela se enxerga) com um insólito rancor pela figura materna.

Todavia, após uma dilacerante luta interna, ao encarar os relatos, poemas e cartas, essa personagem começa a compreender sua mãe e, consequentemente, entender-se um pouco melhor. Ao longo das páginas entramos em uma gangorra, numa grande continência de histórias, onde o estilo das escritas dessas personagens duelam: do passado, uma mãe que discursa de modo mais polido, elegante, sensível, enquanto no presente, sua herdeira imprime um certo desespero visceral em seus riquíssimos e imparáveis fluxos de consciência.

Foto de Giselle Fiorini Bohn ao lado de seu livro "Pele Velha".
Giselle Fiorini Bohn e seu livro

Nesse sentido, é preciso abrir um parêntese (pois a autora joga na cara do leitor toda sua habilidade, alternando pessoas e estilos com muita naturalidade, contrastando um pretérito angustiante frente ao tempo corrente de muita revolta). Além disso, Giselle Fiorini Bohn se utiliza de recursos interessantes como hifens para juntar palavras e criar-uma-voz-dentro-do-próprio-perspicaz-pensar, e parágrafos em bloco e sem pontuação, com o intuito de imitar o frenesi de uma queda na qual você respira junto com o personagem ou melhor não respira até ficar roxo e cair para trás o que obviamente não aconteceu comigo mas fiquei sabendo que ocorreu com o borracheiro do meu primo na semana passada que morreu disso e colocaram Covid no seu atestado de óbito!

Por fim, mesmo eu, que sou um cro-magnon apático no que diz respeito ao lirismo da poesia, consegui me envolver no contexto e, ainda que seja duro admitir, derramei uma lágrima ou duas… mil. Pois é, quem vê barba, não vê maldição e, como diria Schopenhauer ou o Rocky Balboa, o amor é fofo, a dor é uma tragédia, o amor aumenta seu batimento cardíaco, a dor para seu coração. E, por mais que meus detratores digam o contrário, permaneço vivo e chorão!

Ah, miguxos, sugiro ler “Pele Velha” uma vez só!

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

Bonequinho bate palma com dificuldade, afinal não consegue levantar por completo seus braços pois está soterrado por arrependimentos de sua própria relação parental conturbada.

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Imagem de capa do livro "Pele Velha" de Giselle Fiorini Bohn . Nela vemos parte do que parece ser um rosto de uma mulher pixelado, de forma que o que vemos é um borrão mais ou menos definido.

Título: Pele Velha
Autor: Giselle Fiorini Bohn
Editora: Autopublicação
Ano: 2020

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Na Noite do Crime: entre a vida conjugal e a morte

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Frank Johnson (Ross Elliott) não é um homem de sorte. Em uma noite qualquer, enquanto passeia com seu cão, ele acaba presenciando um assassinato e tropeça em uma investigação contra um chefão do crime coordenada pelo inspetor Farris (Robert Keith). Temendo por sua vida, já que agora ele também é procurado pelo assassino, o azarado sr. Johnson foge. Sem pistas do paradeiro de sua nova testemunha, o inspetor começa a ficar a cola de Eleanor (Ann Sheridan), esposa do desaparecido. Assim, são introduzidas as peças centrais desse estranho jogo de xadrez que é “Na Noite do Crime” (1950).

Porém, esta introdução não dá conta de um traço bem interessante desta obra. Se por um lado este filme de Norman Foster é um filme de crime aos moldes noir, por outro, parece esconder sob esta face cínica e desesperadora, um drama familiar — mesmo que o sr. e sra. Johnson apenas se encontrem no final do filme. Aqui, aliás, temos um primeiro elemento fascinante deste filme, em vez de um detetive durão, um sujeito obcecado pela verdade ou um indivíduo que mergulha pouco a pouco na corrução, temos como protagonista justamente Eleanor, que irá empreender a busca por seu marido desaparecido.

Eleanor compartilha seu cinismo, astúcia e língua afiada com alguns tipos comuns do cinema noir, porém nela, ao contrário destes, não parece existir o desejo obsessivo (as raias do patológico) pela verdade. Sua busca é fundada por sua relação e história compartilhadas com seu marido, que como é comum nestes filmes, corre risco de morte e, não só pelas mãos do assassino, mas também por uma doença cardíaca.

Obviamente, não é novidade que, ao contrário das narrativas de detetive clássicas, muitas vezes um filme noir (termo bem escorregadio e detentor de muitas definições diferentes) é menos sobre a descoberta de um assassino em si, do que uma imersão nos conflitos humanos e no íntimo de indivíduos à margem da lei ou da sociedade. A obsessão, a mentira, a traição, a morte, a corrupção, a violência, a difícil diferenciação do bem e do mal; tudo isso está de alguma forma relacionada aos jogos de luz e sombras do universo noir. Em “Na Noite do Crime” não é diferente. No entanto, esta lógica se dá de uma forma curiosa. Desde as motivações da protagonista até ao modo como alguns elementos comuns neste tipo de filmes são usados.

Um corredor de um prédio. Em primeiro plano a atriz Ann Sheridan está encostada em uma porta como se estivesse receosa de entrar. Ela observa de canto de olho o personagem de Robert Keith que a observa da escada, ele está apoiado no corrimão em pose de espera.
Robert Keith e Ann Sheridan interpretam inspetor Farris e Eleanor

Primeiro, falemos da protagonista. Eleanor compartilha seu cinismo, astúcia e língua afiada com alguns tipos comuns do cinema noir, porém nela, ao contrário destes, não parece existir o desejo obsessivo (as raias do patológico) pela verdade. Sua busca é fundada por sua relação e história compartilhadas com seu marido, que como é comum nestes filmes, corre risco de morte e, não só pelas mãos do assassino, mas também por uma doença cardíaca.

Trailer do lançamento do Blu-ray/DVD restaurado

Pôster de “Na Noite do Crime”

Este último dado é importante, uma vez que esta enfermidade só é descoberta por sua esposa ao graças a sua investigação. A busca de Eleanor por seu marido, é a busca por um quase desconhecido. O mistério central do filme não é tanto a identidade do assassino — que é revelado de forma bem descompromissada e quase banal— ou a localização de Frank, mas sim, quem ele é de verdade. De certa forma, esta incompreensão é mútua. Assim como a relação de Frank com suas obras nunca terminadas, tanto ela quanto ele parecem não ter uma visão completa um do outro e de si mesmos.

Dennis O’Keefe e mais Ann Sheridan

Há, assim, uma dualidade entre a aparência e a essência. Esta lógica se dá também com Danny Leggett, personagem de Dennis O’Keefe. Este, primeiro se apresenta como um repórter de um jornal e, como tal, se propõe a ajudar Eleanor. Contudo, suas intenções são muito mais obscuras. Na verdade, este personagem não existe em “Man on the Run”, conto de Sylvia Tate que deu origem ao filme. Leggett foi uma criação de Alan Campbell e Norman Foster, uma adição bem interessante. Graças a este personagem, cria-se uma tensão e suspense que são prolongados ao limite no filme.

Os atores Ann Sheridan e Ross Elliott, os Johnson no filme

É certo, que “Na Noite do Crime” reserva muitas descobertas mais e dá margem a muitos outros pensamentos e elucubrações. Por exemplo, a recusa total aos flashbacks como forma de trazer personagens, lugares e acontecimentos do passado de Eleanor para o presente. Ou como a mise-en-scène evidencia as artimanhas, as trapaças e o jogo de gato e rato entre os personagens. Da mesma forma, se levarmos em conta que Ann Sheridan participou da produção do filme ou que os alguns dos principais atores puderam contribuir com o roteiro durantes as filmagens, podemos enxergar este filme de outra forma. Mas aí, tanto eu quanto vocês teríamos que ter algum tempo a mais.

“Até Que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema” de Ricardo Celestino

Há quem ache que o movimento Punk começou com o Supla. Sim, logo após Prefeita Marta e Senador Eduardo insistirem para que o jovem astro limpasse seu quarto. Há quem pense que exista uma relação entre o seriado consagrado pelo SBT, “Punky – A levada da breca” e o estilo materialmente desapegado dessa cultura. Há quem remonte os primeiros passos do campo estético aos famigerados penteados dos índios moicanos da América do Norte. Há, obviamente, quem acredite que eu criei todos esses sujeitos ocultos, no início do texto, apenas pra dar força argumentativa para minha análise. Fato é que jamais deixarei os fatos atrapalharem minhas resenhas. Porém, a tal verdade é que o Punk morreu quando virou manequim nas lojas de grife e pano de fundo dos clipes musicais dos anos 80. No entanto, para o bem dos topetes e das correntes cromadas, vez por outra, o Punk ressuscita como um zumbi esfomeado em busca de páginas frescas e mentes deslocadas.

“Em última análise, o autor encaixota o Punk em um mundo autoritário, visceral, pragmático, onde corpos e peças são apenas subprodutos da humanidade industrializada. Certamente, não é um livro para corações leves e mentes anestesiadas. Sobretudo para gente fofa que saúda o sol pela manhã e responde mensagens com carinhas felizes e amarelas…”

Não por outra razão, o livro de hoje restaura — bem antes do terceiro dia — tudo o que se perdeu e acrescenta uma nova dinâmica ao gênero. Resgata o barro e conecta os fios, tal qual um Gepeto Asimov do antigo testamento. Sim, Ricardo Celestino nos banqueteia com a gordura singular e proteica do “Até que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema”. Se já no título e na capa somos apresentados ao poético visceral e niilista, em suas folhas confirmamos essas expectativas.

Escrito basicamente na segunda pessoa, são vários focos narrativos para montar uma insana história com pé, sem um braço, mas com boa parte da cabeça. Misturando poesia modernista e um fluxo de consciência — que deixaria ruborizada as bochechas, já rosadas, de Chuck Palahniuk — Celestino nos insere em um mundo pós-apocalíptico cruel, embora bizarramente funcional. E quando utilizo o “bizarro” por aqui, faço na melhor acepção da palavra e não como um jovem empolgado com algo trivial. Pois bem, sem qualquer pudor, o autor parte de Fernando Pessoa, passa pelo canibalismo legalizado e inteligências artificiais psicopatas, até alcançar um tratado filosófico existencial que dá sentido ao Universo esmigalhado de sua obra. Imagine se David Lynch tivesse dirigido Vingador do Futuro, hein? Ou Glauber Rocha tesourando Blade Runner? Imaginou? Ótimo, fico muito feliz com vocês seguindo minhas orientações.

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Chuck incrédulo

Mas, como tudo na vida é um escambo de partículas, agora irei responder suas perguntas, leitores. Sim, é claro que tem o genial Andy Kaufman para salvar o dia. Não, ele não lê Gatsby. Por óbvio que temos um milico-ianque histérico, um matadouro de gente, um Salvador com uma nova consubstanciação de carne, sangue e alma, e um sistema chamado “Pátria Amada”. É evidente que o protagonista mora em São Paulo, seu nome é Mário e eu me recuso a fazer piadinhas datadas como: “Que, Mário? Aquele que foi drenado pelo sistema sem chance de enrabar ninguém qualquer que fosse o lugar, armário ou não.” Não, não tem nenhum super-herói de capa nessa história, caras! Vocês precisam se acostumar com isso.

Em última análise, o autor encaixota o Punk em um mundo autoritário, visceral, pragmático, onde corpos e peças são apenas subprodutos da humanidade industrializada. Certamente, não é um livro para corações leves e mentes anestesiadas. Sobretudo para gente fofa que saúda o sol pela manhã e responde mensagens com carinhas felizes e amarelas. Não, de modo algum. É uma obra para quem respeita e teme o inevitável desconforto do amanhã caótico. “Até que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema” é um verdadeiro experimento que, em meu grandioso entendimento, deu muito certo, feito Napalm, Gás Sarin ou Agente Laranja.

Portanto, aproveite por minha conta e seu inteiro risco.

Ah, e como sei que vocês adoram quantificar o grau de satisfação em notas, bonequinhos e estrelinhas, segue meu juízo.

Avaliação: ⚡️⚡️⚡️⚡️⚡️

Muitas estrelas. Não todas. Afinal, a Galáxia é enorme.

* * *

Capa do livro "Até Que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema", onde se vê o título do livro em fontes estilizadas de cor amarelas e um braço metálico segurando um braço arrancado. O cenário parece ser um beco em que as paredes são feitas de tijolos.
Título: Até Que a Brisa da Manhã Necrose teu Sistema
Autor: Ricardo Celestino
Editora: Clube de Autores
Ano: 2021

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Retrospectiva Petter Baiestorf e o elogio ao mau gosto

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Os filmes que compõem a “Retrospectiva Petter Baiestorf” não deveriam ser assistidos por Ninguém, uma vez que Ninguém deve morrer. Então, caso você, que está lendo este texto, não se denomine Ninguém, nem se envolva diretamente com alguém que se identifique como Ninguém, recomento que assista aos curtas, médias, longas e (até) videoclipes de Baiestorf exibidos, de forma tanto digital quanto presencial, pelo MAM do Rio de Janeiro.

Petter Baiestorf em primeiro plano conversa com o operdor de câmera ao seu lado. No segundo plano, um homem careca observa os dois, com um celular em uma mão, fones de ouvido e uma das mãos a cintura.
Petter Baiestorf em ação

Mas antes de mais nada: quem diabos é Petter Baiestorf? Petter é um diretor vindo direto do subterrâneo do cinema nacional, criador da Canibal Filmes e nascido em Palmitos, Santa Catarina — cidadezinha que, sem dúvida, deve muito se orgulhar de suas obras feias, sujas, mal acabadas, blasfemas, escatológicas, pornográficas etc. Inspirado em nomes como Roger Corman, John Waters, José Mojica Marins, Sganzerla e Ivan Cardoso, Baiestorf cria um cinema anticinema cheio de energia e que tudo devora. Na verdade, para entender um pouco mais sobre sua estética e obra recomendo leiam este texto de Carlos Primati.

Um rosto de um homem visto lateralmente grita para o alto. O fundo do pôster é vermelho e as letras amarelas são em uma fonte bem "toscas".

Em primeiro plano, metade do corpo de Ninguém, personagem do filme. No segundo plano um homem meio desfocado está vestindo uma roupa feminina e uma máscara bem colorida. O fundo é preto e as letras que compõem o poster são vermelhas com o título do filme contendo uma estilização.

Pôsteres de “Ninguém Deve Morrer”

Voltemos a Retrospectiva. Na mostra você poderá assistir a pérolas do deboche como “Ninguém Deve Morrer” (2009), uma paródia aos faroestes e derivados — incluo aqui “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1968) de Glauber, que têm algumas de suas cenas reimaginadas por Petter Baiestorf.

Poster de "O Monstro Legume do Espaço" que remete aos antigos filmes de ficção científica dos anos 50. Abaixo do título do filme feito com fontes que lembram uma colagem, há o monstro do filme, um homem com uma maquiagem muito pesada , praticamente uma máscara, verde. O monstro usa uma blusa de manga longa pretas e mãos vermelhas. Ao redor deste ser há fotos daquilo que parecem ser suas vítimas e uma foto perdida de algo que parece a Morte bem distante e em corpo inteiro, na imagem a morte segura uma foice para o alto.
Pôster de “O Monstro Legume do Espaço”
Uma imagem do de parte do monstro, vemos quase seu rosto inteiro, parte de seu torso e uma de suas mãos que segura um chimarrão que ele bebe por meio de um canudo. A imagem parece ser uma foto editada dando um efeito pixelado. O fundo é vermelho e as letras presente no pôster são amarelas.
Pôster de “O Monstro Legume do Espaço 2”

Na retrospectiva você também encontrará os longas “O Monstro Legume do Espaço” (1995) e “O Monstro Legume do Espaço 2” (2006), uma bad trip, repleta de tosqueira e chorume, ao imaginário dos antigos filmes B de ficção científica dos anos 50. Aliás, você pode saber um pouco mais sobre o primeiro filme neste texto de Beatriz Saldanha.

Uma foto de bastidores de Pazucus: A Ilha Do Desarrego, em que alguém colocando uma gosma esverdeada na boca de uma ator, que está agachado em um rio ou lago. Ao fundo, na margem do Rio ou lago há plantas que nos remetem a uma floresta.
Cena dos bastidores de “Pazucus: A Ilha Do Desarrego”

Mas não só de filmes do cineasta catarinense a “Retrospectiva Petter Baiestorf” vive, podemos também assistir obras realizadas por colaboradores e pessoas próximas, como é o caso do “A Nau dos Loucos: Mergulho e Decolagem de Pazucus” (2021) documentário de Gurcius Gewdner, que mostra os bastidores de seu filme “Pazucus: A Ilha Do Desarrego” (2017). Ou você também pode assistir ao Interessante “Relembre da Carne” (2001) de Coffin Souza. Ou ainda o, surpreendentemente bem acabado, “Amor Sangue Dor” (2021) de Magnum Borini.

Uma foto de Petter Baiestorf ao lado do "monstro legume do espaço". Ao fundo pôsteres que remetem ao cinema de horror, entre eles há um pôster do Godzilla com cores entre o laranja, vermelho e amarelo.
Petter e uma de suas criaturas

Agora, corram para conhecer a obra deste iconoclasta. Vão! Não pensem, pois a A “Retrospectiva Petter Baiestorf” vai até o dia 5 de dezembro. Depois, se for o caso, vocês terão tempo de sobra para me amaldiçoar por eu ter feito vocês verem coisas que nunca mais poderão ser desvistas. Os filmes podem ser assistidos no Vimeo do museu e presencialmente na Cinemateca do MAM. Para saber mais acesse a página do evento.