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Takeshi Kitano: a morte como fuga e a fuga como morte

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“Seria melhor estar morto do que assustado o tempo todo.”

A fala acima é dita em “Sonatine” (1993) por Murakawa (interpretado por Takeshi Kitano, também diretor e roteirista do filme) à Miyuki (Aya Kokumai), em um momento de tranquilidade antes da tempestade. Ela reflete não só a essência do longa, mas também a de “Policial Violento” (1989), assim, como grande parte da obra de Kitano. Mas afinal, o que a frase pode significar? Aqui adentramos em um terreno pantanoso, onde as linhas entre especulações fundamentadas e interpretações delirantes se aproximam perigosamente. Porém, não há para onde fugir, já que foi esta provocação que me impulsionou a revistar o universo do diretor.

Mas voltemos ao cerne da questão: o que tem de tão essencial nesta fala? Talvez ela expresse algo como “melhor estar morte do que viver uma meia vida”. Por exemplo, No filme “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão” (filme de 1991, já abordado neste texto), Shigeru (Claude Maki) é um jovem lixeiro que encontra um sentido para sua vida no surf e na imensidão do mar — o mesmo mar que lhe serve de morada final.

Azuma e Murakawa parecem suportar uma sensação constante de tédio e cansaço. Um mal-estar de estarem levando uma vida tão decadente e brutal. Isso se reflete na maneira quase maquinal com que os personagens agem, não há lugar para emoções nem para a reflexão, apenas para a violência. Ao se darem conta da sua condição, os dois dão vazão a seus impulsos que os levam à aniquilação — seja por suas próprias mãos ou pelas de outros.

Aliás, o mar e, consequentemente, a praia estão muito presentes na filmografia de Kitano, ora como um plano de fundo, ora como um local de liberdade e felicidade — ainda que momentâneas. Em “Sonatine”, por exemplo, é em uma casa na praia — um esconderijo contra inimigos desconhecidos — que um grupo de yakuzas conseguem dar vazão a suas emoções e, parecem de fato, ter um lampejo de vida. Na verdade, como já foi mencionado neste texto de Ruy Gardnier, é neste local que ocorre um retorno a infância e as brincadeiras infantis por parte dos personagens, mesmo que estas sempre estejam associadas à morte ou autodestruição. Como o texto salienta há, assim, uma oposição bem nítida entre cidade (o mundo violento da Yakuza) e a tranquilidade aparente oferecida pelo beira-mar.

Cena do filme Sonatine. Quatro pessoas, três homens e uma mulher caminham em uma praia.
Takeshi Kitano, Aya Kokumai, Susumu Terajima e Masanobu Katsumura em uma cena de Sonatine

Eis aí um ponto, este movimento de de ir de A para B é uma constante na obra do diretor. No ato de evadir-se e de afastar-se está contida a ideia da fuga de uma realidade opressiva, ameaçadora ou simplesmente tediosa. Esta podendo se manifestar em várias formas, seja no cotidiano em uma empresa de coleta de lixo em “O Mar Mais Silencioso Daquele Verão”, seja no mundo da Yakuza em “Sonatine” e em “Policial Violente” — filme em que Kitano interpreta Azuma, um policial truculento que transita constantemente entre a legalidade e ilegalidade.

No poster Kitano veste um terno e tem o olhar sério
Pôster de Policial Violento
Poster contendo um peixe espetado em um arpão, no fundo um céu avermelhado
Pôster de Sonatine

Apesar dos três filmes mencionados trabalharem com uma sensação de desconforto em relação a existência — um certo spleen baudelairiano, em seus protagonistas —, é nos dois filmes de Yakuza do diretor que este sentimento se manifesta de forma mais intensa e cruel. Azuma e Murakawa parecem suportar uma sensação constante de tédio e cansaço. Um mal-estar de estarem levando uma vida tão decadente e brutal. Isso se reflete na maneira quase maquinal com que os personagens agem, não há lugar para emoções nem para a reflexão, apenas para a violência. Ao se darem conta da sua condição, os dois dão vazão a seus impulsos que os levam à aniquilação — seja por suas próprias mãos ou pelas de outros. Assim, ao perceberem que não poderão levar uma vida plena e livre do medo, eles se lançam a um último ato de de vingança contra aquele mundo que os aprisionou. A realidade em que viviam os embruteceu e os levou ao colapso.

Sequência final de “Sonatine” em que ocorre a autodestruição de Murakawa

Isso me leva a um terceiro ponto, em “Policial Violento” e “Sonatine”, há uma contraposição entre gerações — inclusive, esta característica do cinema de Takeshi Kitano é levantada neste texto de João Araújo, sobre o filme “Verão Feliz” (1999). Dessa forma, de uma lado temos os jovens — o policial novato no primeiro e o grupo de yakuzas recém iniciados no segundo —, que parecem ainda ter algo “pulsante” e vivo; do outro, os mais velhos e experientes, que tiveram suas forças vitais sugadas pelo meio em que estão inseridos. Dessa forma, eles parecem não ter uma força interior que os mova. Estes personagens apenas reagem (e não agem) às circunstâncias.

O personagem interpretado por Kitano anda por uma ponte em direção a câmera

o personagem de Makoto Ashikawa caminha por uma ponte em direção a câmera

Azuma e Kukuchi em momentos e situações muito distintas dos filmes

Obviamente, que estes “conflitos de gerações” desembocam em resultados distintos em cada filme. Enquanto o cadete Kikuchi (Makoto Ashikawa) se corrompe e se integra totalmente ao submundo, Ryoji (Masanobu Katsumura), o jovem yakuza de “Sonatine”, foge amedrontado ao se deparar com tanta destruição e morte. De uma forma ou de outra, querendo ou não, estes dois personagens ainda têm alguma chance. Já os interpretados por Takeshi Kitano, não. Estes estão condenados, não há outro caminho a não ser a morte.

O Pesadelo dos Porteiros

Minha mãe me criou com uma liberdade que incomodava as outras mães da escola. Para ela, estava tudo bem se eu virasse a noite jogando Mario Kart no vídeo game ou se só voltasse das festas na mesma hora que o entregador de pães saía para trabalhar. Mesmo sendo exigente com boletins e aprovações no vestibular, ela não foi o tipo de mãe que regula a quantidade de tempo que os filhos ficam na frente da tv e os obriga a fazer atividades ao ar livre. A liberdade era boa. Assistir Pokemon às 22:30h era melhor ainda.

Ela dizia que estava me criando para o mundo e, quando a questionavam sobre como ela me via no futuro, aquela loira com pouco mais de 1,50m e 300ml em cada peito afirmava categoricamente: independente. E ela não errou (nem na previsão, nem no silicone). Mudei de casa ao dezessete e, mesmo morrendo de medo do mundão louco lá fora, topei encarar a desgastante vida de universitário.

Me joguei de cabeça no Rio de Janeiro, mais especificamente em Copacabana. Aquele bairro onde os prédios são pregados um ao outro e a faixa etária deve passar os cem anos – em nenhum outro lugar você encontra supermercados e bancos com fila preferencial tão disputadas. Mas um fato muito curioso que reparei morando lá é a respeito da entrada desses vários prédios colados. Aliás, de quem fica nessa entrada: o famoso, temido e incompreendido porteiro.

Em nenhum dos apartamentos que morei em Copacabana (acredite, não foram poucos) posso falar que conheci um porteiro de bem com a vida. Principalmente os da noite. Esse grupo de trabalhadores noturnos, mais cedo ou mais tarde, acabava me vendo como o inimigo número um deles. Uma Cuba dos Estados Unidos deles. Uma Dilma da Isto É.

Provavelmente por nunca ter tido hora de ir dormir e ter sido acostumado com a vida noturna, fosse em bar ou boates, o meu horário de chegar em casa nunca foi um dos mais cedo. A diferença é que minha mãe abria a porta tranquilamente quando eu chegava em casa. Já os porteiros… Esses prefeririam me deixar refletindo sobre a vida sob o luar carioca.

Aquele deus grego Morfeu deve sentir uma certa raiva de mim por ter tirado vários deles de seus braços. Não tenho dedos para contar quantas vezes acordei esses pobres funcionários. Mas, consigo facilmente enumerar as vezes que eles sorriram pra mim ou responderam meu “boa noite”: é o mesmo número de vezes que o Brasil ganhou ouro no futebol olímpico antes de 2016. Vez ou outra alguns até balbuciavam qualquer som, mas tenho certeza que estava longe de ser uma recepção amigável.

Dá um pouco de dó pensar que eles não tem culpa da monotonia que deve ser a profissão deles. É uma questão complicada pensar que: eles não têm prazer no trabalho e, por ganharem mal, também não têm dinheiro para conseguir prazer fora dele. Talvez eles durmam tanto para sonhar com um cotidiano minimamente tragável. Mal sabia minha mãe que ao invés de “independente”, quando perguntavam o que eu seria daqui alguns anos, a melhor resposta seria “o pesadelo dos porteiros”, literalmente.

***

Ilustradora convidada:

Júlia Pissolato

Me chamo Júlia Pissolato, mas pode me chamar de Pissô. Sou estudante de artes pela UFMG e atualmente trabalho com ilustração, digital e tradicional, além de pesquisas na área da abstração. A cor é o pilar principal do meu trabalho e acredito que é a forma mais pura de expressão. Tento colocar em todos os meus processos um pouquinho de mim, trazendo um lado íntimo e único para cada obra.

👉  Conheça o trabalho da Júlia no seu instagram e no seu Behance.

A “Nova” Onda dos Podcasts

Quando se estuda moda, você aprende que ela é cíclica. Ou seja, se renova de tempos em tempos, reformulando e trazendo de volta tendências antigas. É curioso pensar que, em uma era tão digital, com produções de conteúdo aos borbotões, o formato do podcast, que não mais é do que um programa de rádio feito para a internet, tenha tido um movimento de retorno com força total, especialmente no último ano de pandemia.

Já há algum tempo, o formato vem aparecendo no mainstream. Não é à toa que o Spotify e outros streamings de música tenham uma interface bem desenvolvida para servir como plataforma para esse tipo de conteúdo. Mas agora, além de ouvir podcasts, surge no Brasil — com influência direta dos EUA, onde a “cultura podcaster” já é bem maior e amplamente difundida — uma nova tendência: assistir podcasts. O que dá ao programa de rádio uma nova roupagem com uma camada visual.

Programas como o Podpah e o Flow Podcast (e todos os outros canais abarcados pelo Flow), têm influência direta da cultura americana de podcasts, como o programa do comediante Joe Rogan — que é referência direta para ambos. Basicamente, trata-se de um programa de entrevistas onde se há maior liberdade para falar sobre diversos assuntos e tratar de variadas questões, pois não existem tantas restrições relacionadas à emissoras ou outros tipos de grandes veículos que tradicionalmente realizavam esse tipo de conteúdo (entrevistas e debates).

Entrevista de Elon Musk para Joe Rogan

No caso desses programas, normalmente o conteúdo é consumido ao vivo, em plataformas como a Twitch ou o próprio Youtube, que chegam a alcançar milhares de espectadores — podendo atingir um público ainda maior, já que os episódios ficam disponíveis após a transmissão. O Podpah chegou a fazer uma “maratona” de entrevistas, onde ficaram 24 horas no ar, passando por mais de 10 convidados, que também participavam das entrevistas uns dos outros. Até durante a madrugada eles conseguiram manter uma audiência de mais de trinta mil pessoas.

Primeira parte da maratona de entrevistas

É possível observar a importância que esses programas tomaram na grande mídia, a partir da presença de figuras políticas em períodos eleitorais. Os podcasts alcançam um público jovem tão amplo, que se tornou interessante aos políticos irem apresentar suas campanhas nos programas. Em 2020, todos os candidatos a prefeitura de São Paulo participaram do Flow Podcast.

Entrevista de Guilherme Boulos para o Flow Podcast

Mas o universo dos podcasts não se restringe a programas de entrevistas. Aliás, muito podcasters preferem continuar apenas no bom e velho formato de aúdio. Existem podcasts que discutem política, podcasts de comédia, de contação de história, ao vivo ou gravados… Uma infinidade de possibilidades ao gosto do freguês. O “Pura Neurose”, de Ronald Rios, por exemplo, tem um formato clássico de programa de rádio com discussões de amenidades do dia-a-dia, um locutor carismático e até inserções de áudio. Tudo isso feito ao vivo, diariamente, como um bom radialista do povo. Já o “Respondendo em Voz Alta”, de Laurinha Lero, ou o “Não Inviabilize”, de Déia Freitas, são programas de comédia, gravados e editados, com uma frequência um pouco mais espaçada.

Capa do podcast de Ronald Rios no Spotify

Capa do podcast de Laurinha Lero no Spotify

Vale a pena se aventurar nesse imenso leque de opções e procurar um programa ideal para se ouvir lavando uma louça, tomando um banho ou — nesse momento — apenas contemplando a realidade do enclausuramento. Em tempos de pandemia, o que nos resta é ficar em casa ouvindo ou assistindo umpodcast.

Amor de Mãe, uma novela de Manuela Dias

Nesse mês de abril chegou ao fim a novela global Amor de Mãe (2019-2021). A acompanhei, principalmente, na reta final. Desde seu o início ouvi muitos burburinhos a respeito da trama. Do quando estava sendo inovadora. De fato, Manuela Dias escreveu uma história não convencional. Ao invés de focar numa protagonista, desenhou três. Quer dizer, quatro. Já que Camila (Jéssica Ellen) também é central na narrativa. Dentro da estrutura de roteiro, chamamos esse modelo de multitrama ou multiplot. A dramaturgia contemporânea tem utilizado com frequência essa estrutura para fugir do padrão clássico de apenas um protagonista dentro da jornada do herói.

Além dessa questão, Manuela Dias tratou de temas sociais importantíssimos. Colocou no debate a questão do racismo, da educação, do capitalismo predatório que destrói o meio ambiente e explora as pessoas, além de um monte de coisa mais. A novela, por si só, apresenta um grande potencial social transformador. Há uma cena que me marcou bastante – a da captura de Tiago (Guilherme Rodrigues), filho adotivo de Vitória (Taís Araújo), pela polícia. Ao revê-la no resumo que aconteceu antes da retomada da novela (após a pausa por conta da pandemia) lembrei imediatamente do caso dos meninos que estão desaparecidos em Belford Roxo. Não sabemos o que aconteceu com eles, não sabemos se houve “dedo” de policiais escrotos. Porém, sabemos da ausência do Estado em investigar o caso. Isso já demostra a perversidade do racismo que Manuela apresentou com delicadeza, horror e maestria.

Tiago está em um camburão
Tiago é capturado pela polícia

Embora admire profundamente o trabalho da autora, reconheça todo seu esforço dramatúrgico e também enquanto mulher para chegar onde chegou – na maior emissora de televisão do país, escrevendo para o horário nobre, num lugar onde os espaços de poder estão ocupados primordialmente por homens – preciso fazer algumas críticas ao desenho das personagens da novela. A crítica não se refere diretamente a autora e não desejo aqui desqualificar seu trabalho. Muito pelo contrário. Tenho muitos aplausos.

No podcast Calcinha Larga, Manuela se descreveu como grande obcecada. Confesso que também me reconheço nesse lugar. Para ocuparmos certas posições num mundo dominado por homens, a obsessão, o controle, o perfeccionismo, por vezes, se tornam necessários. Não só por isso. Fazer as coisas bem feitas é fonte de prazer para as mulheres. Dá paixão, tesão. Mulher tem sede por criar, trabalhar e transformar. Mesmo diante de tantas opressões.

Nesse caminho, se queremos mesmo mudar o mundo, transgredir os papéis de gênero, precisamos entender que o poder da narrativa – talvez a forma mais eficiente de mudar o mundo – está na nossa mão. Na mão das escritoras, roteiristas, dramaturgas, jornalistas, produtoras de conteúdo (o que também me incluo por aí em alguns lugares). Então, precisamos entender como podemos fazer melhor uso desse poder. Como podemos ser perspicazes e sagazes.

Na criação narrativa, de modo amplo, é preciso olhar para nossos vícios sobre a definição das características das personagens. Do desenho do papel da mulher, dos homens e dos arquétipos que ambos representamos na sociedade. As escritoras, principalmente, precisam estar muito atentas para não reproduzirem em suas obras a lógica do sistema colonial-patriarcal. Comecei esse debate no meu Instagram e continuo aqui na coluna porque acredito na importância de avançarmos. Mais uma vez reforço: não me coloco em disputa com a autora (até porque seria impossível), não quero desmerecer ou cancelar seu trabalho. Trago algumas questões ao debate porque considero essenciais.

Sei que a pandemia atrapalhou bastante a dramaturgia da obra. A forma como algumas personagens foram obrigadas a caminhar, a fechar sua jornada. Mesmo assim, algumas definições gerais são extremamente problemáticas. Elas reforçam estereótipos. O senso comum. A respeito da manutenção de estereótipos, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie debate sobre o perigo das histórias únicas, como elas reforçam uma série de violências para diversos grupos oprimidos na sociedade.

Para entrar na discussão da novela, vamos ao tema. Ao amor de mãe. Será que a forma como a novela apresenta o amor de mãe é engrandecedora para quem assiste? Ou será que ele reforça uma visão de anulação da mulher diante de sua função social estabelecida no patriarcado, a função da reprodução? Ou seja: viver o amor de mãe seria a necessidade primária das mulheres? Sua função mais importante no mundo? E o principal: mulheres só são felizes e realizadas quando são mães?

Esse papo de feminista pode parecer chato, eu sei. Apesar de constantemente reclamar das injustiças do design de Deus, a maternidade e a função biológica de gerar e parir não é um problema. O amor da maternidade pode sim ser encarado como uma coisa linda, divina. O que precisamos questionar são as estruturas sociais criadas pelo o homem. As estruturas no qual nosso potencial reprodutivo confere a eles poder e a nós opressão, submissão. Quando dizemos que a função mais importante da mulher é ser mãe, a quem isso interessa? Por isso, entendo que mística da maternidade reforçada pela novela é problemática em muitos níveis. Não nego aqui o amor de mãe, mas questiono a forma como esse amor vem sendo construído através das narrativas.

Dentro disso, me incomodou bastante a trajetória da personagem Thelma (Adriana Esteves). Eu sei que é uma novela, que precisa ter uma vilã (precisa mesmo?). Que as pessoas curtem disputas (curtem mesmo?). Porém, induzir que Thelma (Adriana Esteves) é quem é por ter um amor de mãe exagerado, por amar demais, não é algo legal. Ou que ela se tornou “louca” porque perdeu marido e filho num incêndio. Se existem mulheres como Thelma, o que não acredito muito, a razão delas serem assim não é amar demais, é uma psicopatia. Uma necessidade doentia de controle a partir da dissimulação. Acredito mais no amor como liberdade, como respeito. Estamos longe de alcançar esse amor, entendo. Mesmo assim, acredito na necessidade de buscarmos um amor enquanto prática de liberdade.

Chay Suede e Adriana Esteves em uma cena dramática.
Chay Suede e Adriana Esteves

Thelma fala ainda de um lugar retratado com frequência nas narrativas – mulher louca, descompensada, histérica. Para mim, isso é um grande gaslighting teledramatúrgico. Uma estratégia extremamente violenta com as mulheres. A quem essa construção interessa? O que ela reforça? Faça as contas: das novelas que você assistiu, tem mais homens ou mulheres no papel de vilão histérico? Puxando aqui na minha memória (não sou a maior noveleira, posso estar cometendo injustiça) só me recordo de Felix (Matheus Solano em Amor à Vida), a bicha má. Ou seja: um personagem masculino de trejeitos lidos como femininos. Em Amor de Mãe temos o Álvaro (Irandhir Santos) como outro grande vilão. Álvaro, porém, é um psicopata frio, calculista. Prioriza o dinheiro, o lucro. Não esconde que sua natureza é essa. Não simula ser quem não é. Não mata porque ama demais.

o personagem de Irandhir Santos, com um olhar ameaçador, segura um bebê
Irandhir Santos em uma cena de Amor de Mãe

Enquanto Thelma é a louca, Lurdes (Regina Casé) projeta um ideal de mulher, de amor de mãe, que não é novidade. Lurdes é o arquétipo da Virgem Maria. Um modelo a ser seguido por todas nós – a bondosa, a prestativa, a sofrida, a que perdoa, a que nunca se revolta, adoece ou surta. A super mulher. Como a novela acaba? Com Lurdes visitando Thelma, a mulher que lhe fez prisioneira, que tentou assassinar sua filha e um monte de coisa mais. Lurdes a perdoa no leito de morte porque nela não cabe ódio, só perfeição. Como isso pode ser saudável para gente? Não seria esse padrão de doçura e feminilidade que nos aprisiona a tanto tempo? Que não permite a nós o lugar de revolta no mundo?

O percurso Vitória na trama também nos diz muito perversamente qual é o lugar da mulher no mundo. Se, quando jovem, optou por não ser mãe dando seu filho a uma criminosa para poder seguir seu sonho de ser advogada de sucesso, o que aconteceu? O arrependimento, obviamente. Para alcançar a felicidade, a alternativa foi se tornar mãe e recuperar o filho rejeitado. Nesse mundo, só homens podem escolher não ser pai. Inclusive, se houvesse aborto legal e seguro aqui esse conflito poderia nem existir. A trajetória da Vitória reforça muito violentamente o estereótipo de que uma mulher só é realizada através da maternidade. Outra questão igualmente tensa é: ter carreira de sucesso, priorizar o dinheiro, significa necessariamente trabalhar para um criminoso? Que crença essa trajetória quer reforçar? A de que uma mulher não deve priorizar o sucesso profissional? Esse espaço só cabe aos homens, então?

Taís Araújo quase as lágrimas abraça Guilherme Rodrigues
Taís Araújo e Guilherme Rodrigues interpretam mãe e filho em Amor de Mãe

Também quero discutir a trajetória da personagem interpretada por Jéssica Ellen. Para Camila, mulher negra, não restou outra alternativa a ser forte. Diversas tragédias aconteceram em seu percurso. A imagem de professora heroica que toma tiro, faz o discurso que está cansada, mesmo assim segue fazendo de tudo pelos seus alunos, ganha prêmio por garantir condições educacionais na pandemia, não estaria colocando nas costas dos professores uma responsabilidade que é do Estado? Garantir segurança, condições para que estudantes possam estudar, incluindo durante a pandemia, não é responsabilidade do Estado? Será que esse papel de heroico não é desumano? Será que ele não desumaniza professores, mulheres negras, e protege o Estado de suas responsabilidades? É possível professores terem saúde mental quando as condições de trabalho são essas apresentadas? Ou piores? É possível jogar nas costas dos professores a mensagem “seja como Jéssica”?

Outra coisa que me incomoda muito nas novelas – em Amor de Mãe não é diferente – é a imagem do homem banana. Enquanto o arquétipo da mulher louca está sempre presente, o do banana não falta. Danilo (Chay Suede) é um grande sem ação. Bonzinho, parado e sem brilho, embora no final tenha descoberto o cativeiro de Lurdes. Por mais que Chay Suede seja um grande gostoso, juro que não consegui sentir tesão nenhum por Danilo/Domênico. Camila merecia um homem com mais sal, você não acha?

Da mesma forma, Magno (Juliano Cazarré) fica perdido diante de uma mulher ardilosa no meio da trama. O pior, para mim, é a Sra. Unicórnio. Durval (Enrique Díaz), grande bananão, simplesmente se ausentou da criação da filha. Sumiu no mundo, retornou quando quis (se não me engano, Thelma o influenciou a se reaproximar da filha) e foi perdoado. Afinal, nesse mundo, um homem não precisa de muito para ser perdoado. A eles a segunda chance. A terceira, a quarta, ao infinito e além. Juro, fiquei com ódio da mulher e filha por terem o aceitado de volta numa boa. Assim, o núcleo acabou como uma família feliz de comercial de margarina. Afinal, não é esse modelo nosso objetivo final de vida?

Os personagens de Chay Suede e Enrique Díaz se encaram
Chay Suede e Enrique Díaz em Amor de Mãe

Diante de todas essas questões, o que acho mais chato nas novelas é essa dualidade cansativa entre o bem e o mal. A vida tem muito mais nuances. Deus e diabo, mocinha e vilã, é uma narrativa cristã. Não ajuda a gente a se olhar, a olhar para sociedade e reconhecer o que precisa ser transformado. Somos Deus e diabo ao mesmo tempo. Não adianta só colocar a culpa no outro, no vilão. Fundar mitos ou salvadores da pátria. Temos que desenvolver responsabilidade individual e coletiva. Por isso, chega de reforçar que: a mulher resta o perdão, o nordestino é antes de tudo um forte, mulher negra precisa ser guerreira, professor é herói, mulher só é feliz através da maternidade e um monte de coisa mais.

Entendo que o embate de Thelma e Lurdes aconteceu do modo que aconteceu pela necessidade de fechar a novela rapidamente por conta da pandemia. Ou, talvez, seja impossível para a autora (por mais que quisesse) abandonar essa narrativa clássica de mocinha-vilã. Como disse inicialmente, a novela tem muitos pontos fortes. Muitas escolhas narrativas a serem exaltadas. Porém, o desenho dos personagens reforçam alguns estereótipos. Contam histórias únicas sobre ser mulher, mesmo diante de diversas nuances. Narrativas transformadoras precisam sair desse lugar comum. Precisam destruir padrões. Desmantelar esses papéis sociais pré-estabelecidos.

Tenho plena consciência que não é fácil, não é simples, não é apertar um botão. Se estivesse no lugar de Manuela, não sei se conseguiria. O poder de quem produz as narrativas, quem paga a conta, além dos autores, também é decisivo. Porém, o mundo está mudando. As narrativas estão mudando. As plataformas de streamming e as séries televisivas já traçam caminhos diferentes, ainda que muitas obras sigam reproduzindo antigos padrões. Acontece que a revolução tecnológica e da comunicação tem tornado o público mais consciente sobre as lógicas de opressão. Minha avó, por exemplo, têm 83 anos e passa seu tempo maratonando séries da Netflix. Mesmo sendo formada por novelas, seu interesse teledramatúrgico se ampliou. Cada vez mais, tem ela tem mergulhado em narrativas com personagens mais densos, mais tridimensionais, que não ficam vinculados apenas a bondade ou maldade. Não acredito que o público não aceitaria mudanças. Pode haver resistência, de fato. Porém, no mundo de hoje, penso que precisamos ser um pouco menos Shakespeare e um pouco mais Tolstói e Tchekhov. Evolução ou morte! Para mim, Manuela já deu muitos passos em direção dessa necessária transformação.

E você, o que pensa disso? Gostou da novela? Ficou com raiva do final?

O Cartão Sempre Vence

Todos que são adultos no Brasil sabem que no fim de junho encerrou o prazo para a declaração do imposto de renda na receita federal. Mas aqueles que ainda estão tentando fazer parte desse maduro-grupo não sabem direito o que esse prazo significou. Resume-se que é um monte de cliques em formulários e envio de fichas para plataformas de design horroroso, e assim você está dentro do sistema. Um sistema mais nervoso que o seu próprio.

Não sei exatamente o que eu fiz naqueles cliques, nem qual será o resultado. Só espero não ser preso. Ou pior. Abocanhado pelo Leão, que, convenhamos, é uma figura nada receptiva para quem já está assustado por lidar com entidades que parecem querer te ferrar.

Leão é bravo, caça as presas. E, na cadeia alimentar da vida, não sei se um veadinho como eu está apto a correr de mais esse predador. Assim, na minha debandada da savana jurídica, tentei clicar nos botões certos e agora torço para não ir em cárcere. Foi mais um Show do Milhão Policial do que um acerto de contas com o governo — até porque a conta não fecha, não tenho ideia para onde vão meus impostos.

E não é como se eu não fosse interessado em entender de saúde financeira. Até sigo Nath Finanças no Twitter e assisti uns vídeos do Primo Rico mostrando como é importante ser rico. A vontade de ser um Lobo de Wall Street do Cerrado existe.

Mas a questão é que, quando o assunto é planejamento monetário, o máximo que me foi ensinado é que cozinhar em casa sai mais barato que pedir ifood. E isso nem foi ensinado pela família, que sempre foi fã de X-Nadir. Foi na vida de universitário, onde eu me especializei nos cursos de Miojo 2 e Tempero Sazon Avançado.

Só que, nesse caso, a prática não leva à perfeição. Nem todas as Lasanhas Sadias que comprei me ajudaram a entender as burocracias da vida fiscal no Brasil, me levando a virar um adulto com dificuldades até para lidar com um cartão que “está para vencer”.

Ele vence e eu perco? Ele vence e nós ganhamos juntos? Contra quem estamos lutando? Eu tenho que esperar ele vencer para depois derrotá-lo? A propaganda diz que o cartão é meu amigo, mas o jeito que ele tira dinheiro da minha conta mostra outra coisa. Ensinam coisas inúteis para a gente na escola, mas não ensinam a derrotar o cartão.

Talvez os corpos docentes do Brasil afora até queiram que o cartão vença. Não é possível que não haja maldade no fato deles ensinarem tudo sobre o sistema excretor dos peixes e nem ao menos citar como se declara um imposto. Eu falo como se soubesse o que é essa declaração.

E os educadores ainda têm a pachorra de dizer que a informação é a arma para combater a ignorância. Como céus eles querem que eu combata à ignorância aprendendo a usar uma batata para fazer energia? Eu não sei nem porque existe algo chamado “contracheque” e porque ele limita o próprio nome a mostrar sua posição contrária aos cheques. Aconteceu algo? Por que eles não se gostam? Ele deveria se desprender dessas amarras e procurar um nome próprio, não baseado naquilo que ele odeia.

Mas, enquanto nem ele, nem eu, nos achamos, seguimos firmes aí na luta contra cheques e leões. Agora só me resta descobrir aonde céus eu consigo as informações para domá-los. Talvez estejam no verso da embalagem de Miojo. Tenho que olhar.

* * *

Ilustrador convidado:

Pedro Rudge

Meu nome é Pedro Rudge Cesar e sou designer e ilustrador. Nasci em São Paulo mas atualmente moro em Belo Horizonte, onde estudo design na Universidade Federal de Minas Gerais.

👉  Conheça o trabalho do Pedro Rudge no seu instagram e no seu Behance.

DRUK

Sentam no entorno de uma mesa, as máscaras abandonadas, como num strip poker ou talvez num desarmamento. Vão tirando aos poucos todas as outras peças de roupas. Essa descrição parece mais sexual do que de fato é, pois tiram as roupas quase num gesto de amizade. Ainda não há tesão algum. “O tesão foi exilado”, pensam, mas não têm necessidade de afirmar mais nada. Gostam dessa cumplicidade que lhes livra da necessidade de dizer o óbvio. São três homens e duas mulheres, consideravelmente medianos, chegando aos 40. Se conhecem desde muito jovens e isso lhes dá também um olhar menos sério sobre a vida uns dos outros. Agora, depois da tão ansiosa vacina, adotaram o estranho hábito de se encontrar para beber completamente nus. Um gesto de extravagância de contato humano. Sentem que viveram tanto tempo mascarados que apenas a nudez crua dos paus moles nas cadeiras, das bucetas na almofada do sofá, só por esse despudor radical que podem tratar as feridas de anos de loucura e velamento do corpo. Um retorno ao nudismo como prática de vida e saúde. Mas claro que, em algum lugar, esperam pelo tesão. Não trepam mais dentro dos casamentos, não têm paciência para perseguir casos amorosos, então decidiram sentar semanalmente e beber à espera do retorno sagrado dos caralhos levantando, das bucetas úmidas, dos risos fogosos, do fogo nas entranhas. Das primeiras vezes, não funcionou. Por incrível que pareça descobriram que não bastam simplesmente os corpos, nem mesmo o álcool, nem mesmo carinhos nos cabelos para fazer aparecer o tesão. Descobriram que os paus podem até se erguer um pouco e as bucetas podem até pingar sem que o tesão realmente os tome. A excitação e o tesão são diferentes, é a primeira tese. Talvez a amizade que têm só lhes permita a excitação, indagam. Mas sabem que isso não é bem verdade. Na primeira vez, foram radicais. Bebidas e nudez, apenas. Mas a saudade era tanta que choraram mais do que pensaram que chorariam e ficaram muito melosos, amorosos e por fim patéticos. Na segunda, tentaram mais bebida e jogos de mesa. Ficaram até um pouco mais sacanas, mas muito competitivos e depois briguentos e irritadiços. Na terceira, decidiram aumentar a dose da bebida e acrescentar música. Uma escolha mais jovem e óbvia, talvez.

Este é o registro da terceira vez.

As mãos nuas segurando os copos, a música tocando no fundo. Muito extremistas, decidiram que não poderiam conversar absolutamente nada. Estavam de fato abolindo a palavra. Começaram bebendo, os ombros iam se contagiando e sacudindo devagar, os joelhos se esbarravam e bebiam mais. Cada vez se sentiam menos abatidos e estúpidos. O álcool foi escolhido pela sua premissa de droga do ego. É menos que a cocaína, mas ainda sim do ego e da ação. Uma droga pra dançar entre os outros, nus, descabelados, suados, desengonçados e duros torcendo que em algum momento a onda vá bater e poderão se sentir como se fossem os últimos bailarinos de Moscou.

No início, continuavam apenas duros, feitos de pedra, os ossos rangendo e estalando na coluna. Mas vão ganhando óleo, sendo azeitados, a carne soltando e amaciando. As coxas ganham graciosidades, os pés perdem o medo de sair e volta pro chão. Mais importante que isso, passam de dançar cada um em um canto para dançar cada vez mais próximos. Os olhos também ganham coragem e certa curiosidade em analisar como se movem os peitos, as barrigas pançudas, as bundas gordas ou magrelas. Como sacodem os diferentes paus quando dançam? Um pau no forró é diferente de um pau num trap. Uma buceta se abre mais num funk do que num tango. Qual dança tem mais afinidade com os genitais? Isso existe? Procuram. Passam por diferentes playlists e arranjos. As danças a dois também ganham espaço. A fricção das coxas, dos peitorais, das bundas, quando as barrigas se batem e roçam, quando grudam os umbigos. Riem. As mãos na cintura podem passear pelas costas, vira daqui, apoia de lá. Fazem duplas e um trio. Fazem duplas e um solo. Fazem solos livres. As mãos só se contagiam mesmo pela dança quando começam também a se agitar sozinhas contra o próprio corpo. Levantam cabelos, secam suor dos bigodes e debaixo dos peitos, acariciam o ar. Depois tornam a segurar firmes mais e mais copos. Mais bêbados. Vão até o chão e tropeçam. Se esbarram brutos, derrubam cerveja na pele. Mas tudo já está suado. As memórias também se esbarram entre os flashes, os olhos se fecham — vez ou outra — enquanto o corpo se mexe e podem sentir “aquela vez numa festa há muito tempo”, “na primeira vez que”, “na última vez com”, as luzes piscando. A vontade de gargalhar ou chorar retorna. Mas a regra é: quando transbordarem os olhos ou a garganta, dance mais. Quanto mais dançam e mais vulneráveis ficam, mais perto ainda se colocam. Mais perto ainda é sempre melhor. Os paus já um pouco duros só de baterem nas pernas, as bucetas um tanto úmidas só de roçar os lábios. Os mamilos enrijecidos em unanimidade. Mas onde o desejo aparece mesmo são nas bocas mordendo, nas línguas se agitando querendo se mostrar fora dos lábios e numa coisa, um fenômeno estranho, que percorre por debaixo das peles. Um tipo de faísca inominável que vai deixando todos cada vez mais atentos. As sobrancelhas querem participar e arqueiam e se franzem em caretas provocativas tentando traduzir os olhos. Todos os olhos piscam, uma vez ou outra, querendo aprimorar a tradução das sobrancelhas. Não se entendem e isto é ainda melhor. Começam só aí a realmente perceber o final do exílio, o desejo de movimento que finalmente dá forma a um desejo de movimento de alma específico, o retorno do próprio e único Tesão (com t maiúsculo). A respiração é mais densa, a dança exterior vai ficando com pinceladas mais sutis. O Tesão é quando não basta esbarrar as mãos, é quando os cotovelos querem grudar e ficam tocando um no outro porque isso é o mais importante. Agora é muito mais importante saber como os cotovelos amam. Depois os ombros e então, até mesmo as costas que se retraem ou abrem estufando os peitos. Estufando para parecerem ainda maiores em coragem, ainda maiores em fôlego. Mas as cruzadas de braços, os abraços, é que são as primeiras explosões.

Então as cabeças que apoiam no pescoço e descobrem que o sopro na pele também é pólvora. E que quem sopra direitinho faz a brasa pegar. Os lábios molhados e as línguas são a faísca que logo escapa pras bocas e ardem diferente em cada boca que entram. Para isso passam por muitas bocas até decidir qual é a boca que vão incendiar. Qual saliva realmente guarda a gasolina? Pode ser – e em algum caso é – mais de uma. Nesses casos, volta a improvisar em trio ou quartetos. Existem os dentes também que dão a pressão certa, soltam o gás. Os quadris voltam a participar, assim como os bustos. Fervem e se agitam de um lado pro outro, mais rentes ou afastando e voltando. Brincam de aquecer muito e quando quase queimam, abrem espaço. Os quadris quicam e têm aquele momento de ar, de voo antes de retornar. Os peitos depois de muito atrito com mamilos se erguem e olham pro teto por alguns segundos.

As penetrações são as segundas explosões. Quando os dedos ou os paus entram nas bucetas ou nos cus ou nas bocas e até nos umbigos e nas orelhas entram porque já precisam muito entrar. É um estado já de embriaguez em que há de se procurar abrigo. O tesão chega nesse ponto em que parece que tudo por fora é menos propício, que tudo lá fora é motivo de querer entrar fundo. Se fosse anatomicamente possível talvez se meteriam inteiros – cabeças até tornozelos – uns nos outros e umas nas outras. Entram e primeiro se contentam em ficar dentro. Dentro é sempre mais quente e molhado, parece matar a sede e acalentar os corações. Depois só dentro fica insuficiente e parece melhor entrar e sair. Como quem lembra: fora é frio, dentro é quente. Aquele jogo de criança “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”. Para levar ainda mais longe esse ressuscitar incansável, torcem mamilos, arranham costas, tapam bocas e narizes, também intercalando doer e aliviar, sentir e não sentir, morrer e viver outra vez. Parece impossível, mas fica cada vez melhor. Mais tremem, mais gemem, mais pequenas explosões parecem acontecer o tempo todo e quase estourar os tímpanos. Depois voltam a beijar e lamber bocas e rostos. Entrar e sair é cansativo e voltam a entrar e ficar. Tentam explorar diferentes formas de ficar e de receber. Quem rebola, quem sacode ou quando podem se imitar e perceber que é muito bom também fazer exatamente a mesma coisa. Os olhos também descobrem como penetrar e permanecer. Aí, nessa exaustão, preparam o último ato. Aí, depois de muito morto/vivo, depois de passar pelo mamãe e papai, pelo cachorro, pelo numérico, pelo acrobático e pelo inimaginável, sentem o corpo nessa exaustão em que tudo fica mais calmo e os movimentos ficam mais precisos, contendo só a energia realmente necessária. Aí, sentem que estão prontos para o fim do ato. Aí, sentem que já atravessaram as etapas. Aí, precisam ter mais cuidado para conseguir ouvir o que precisa ser feito. Aí então é como um transe acordado. Tudo abre para retrair, há o esforço mortal e vital de colapsar. Depois logo vem, multiplicado, ecoando em toda parte: o orgasmo, o jorro, o último voo, a dança sem órgãos, a última explosão.

Saltar, voar. Tudo fica escuro. Só depois cair de volta em si. Só depois acordar.

Só depois a ressaca, as roupas, as máscaras e partir.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

Archipel: uma constelação de criadores japoneses

O YouTube é um oceano de possibilidades a serem exploradas, e por mais que muitas vezes as correntes dos algoritmos nos leve a locais inóspitos, em outros nos leva em direção a verdadeiras descobertas. Este foi o caso do canal Archipel, uma ilha do tesouro para quem trabalha com arte ou em outras áreas criativas.

Kazutaka Kodaka, criador do jogo Danganronpa
Kazutaka Kodaka, criador do jogo Danganronpa e um dos entrevistados do
no canal.

Mas, afinal, do se trata esse tal de Archipel? Na própria descrição do canal explica que eles “criam documentários sobre artistas e criadores japoneses”. Lendo assim, não parece grande coisa. Porém ao dar uma olhada nos entrevistados você percebe que tudo é bem mais do que se possa imaginar. Os entrevistados são grandes mangakás, ilustradores, músicos, designers de jogos, cineastas e criadores japoneses. Eu ainda nem disse a melhor parte, muitos dos vídeos estão legendados em português.

Assim, você pode conhecer um pouco sobre o processo criativo e a história de Yoshitaka Amano, que “só” foi o responsável pelo design dos personagens dos jogos da franquia Final Fantasy.

Ou pode ouvir o próprio Hiroyuki Takei, o mangaká responsável por “Shaman King”, falando um pouco sobre como foi produzir a obra e como o cancelamento da série pela Shueisha, o afetou profundamente.

E pra quem curte jogar “Resident Evil”, no canal tem uma entrevista em duas partes com Shinji Mikami, o criador da série. Aliás, ao assistir essa entrevista, é interessante notar como obras de outras mídias influenciaram diretamente a idealização e concepção do primeiro jogo.

Frame de "Serial Experimets Lain", anime dirigido por Ryutaro Nakamura
“Serial Experimets Lain”, anime dirigido por Ryutaro Nakamura

Não te disse que esse canal é incrível? Nele, em uma palylist de uma série de vídeos já encerrada, chamada toco toco, encontrei uma entrevista com o character designer de “Serial Experiments Lain”, um anime muito estranho que, já no primeiro episódio, se tornou um de meus favoritos. Assim, Archipel é uma boa oportunidade para conhecer mais sobre a cultura nipônica e as suas mais variadas personalidades. Por isso, façam um favor à vocês mesmos e assistam aos vídeos desse canal.

O Meu Alívio é que Eles Ganham Mal

Apesar de ter sido cometido há 3 anos, o assédio feito por Marcius Melhem, agora ex-diretor de comédia da Globo, repercutiu em diversos veículos de comunicação nas últimas semanas. Em uma festa de comemoração do centésimo episódio do Novo Zorra, ele entrou no banheiro em que a atriz Dani Calabresa estava, a prensou contra a parede e tentou forçá-la a uma relação sexual que ela não queria.

O caso aconteceu em 2017, mas só ganhou projeção agora. A emissora conseguiu abafar o caso durante muito tempo. Deram quadros humorísticos, participações em séries e tudo mais que pudesse fazer a atriz desistir de denunciar o diretor. Inclusive, o próprio Melhem foi gravado questionando “o que mais ela queria para calar a boca”.

E com todo esse escândalo à lá Harvey Weinstein na maior emissora do país, o debate sobre os abusos no meio artístico veio à tona. Tão à tona que descobri algo que não queria. Aliás, eu queria saber sim, mas fiquei triste ao descobrir: uma das minhas bandas nacionais favoritas também estava envolvida em escândalos de assédio. Desde 2016.

O nome é Francisco El Hombre. Uma banda que eu amava e que te recomendaria parar tudo e ouvir as mensagens nas músicas deles. Uma mais importante que a outra. Mas, infelizmente, é o famoso caso da casa de ferreiro, espeto de pau.

Em um papo por zoom com amigos, fui informado que dois dos cinco integrantes da banda foram acusados de assédio e abuso e, ao contrário do Marcius Melhem, o assunto não estava escondido para todos. Só eu que não sabia. Logo eu, que sempre achei que era o Descobridor dos 7 Browsers.

Passei 4 anos consumindo as músicas da banda sem imaginar que, por trás daqueles belos acordes, havia uma verdade não tão bela. E foi de partir o coração. A letra da música mais famosa deles é dedicada às mulheres. “Um homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar”. A canção “Triste, Louca ou Má” chegou a concorrer ao Grammy Latino.

E o pior é que eu os escutava com certa frequência durante todos esses anos, dando dinheiro a eles. Dava play em plataformas que remuneram a cada vez que a música é tocada, como Spotify e Youtube. A única coisa que eu não fiz enquanto fã foi ir ao show.

E aí parei para calcular: foram 4 anos ouvindo eles depois do cancelamento-geral. Então, colocando que no primeiro ano eu devia ouvir umas 20 vezes por mês, totaliza 240 plays na banda. Nos outros três anos, vamos estimar que essa média caiu para 5 vezes ao mês, o que dá 180 vezes. Totalizando aí pelo menos umas 420 reproduções.

Então eu quis averiguar: será que a minha desinformação havia gerado muito lucro para a Francisco El Hombre? Será que eu seria expulso do panteão dos canceladores do Twitter? E fui atrás dos dados dessas plataformas pelas quais os escutava e encontrei a minha indulgência.

No Brasil, a cada 1000 visualizações, um vídeo no Youtube pode ganhar valores entre 1 e 19 reais. E no Spotify, a cada 1000 reproduções, a plataforma repassa para o artista algo em torno de 20 reais. E, como disse ali em cima, os meus cliques não chegaram a um quarto disso.

Foi a primeira vez que fiquei feliz que os artistas são mal pagos no Brasil. Geralmente acho até desrespeitoso. Mas para tantos Woody Allen, Harvey Weinstein e Marcius Melhem da vida, que ficaram milionários mesmo sendo grandes abusadores, que bom que pelo menos temos casos como Francisco El Hombre que, de mim, não ganharam nem 10 reais.

* * *

Ilustradora convidada:

Ana Júlia

Estudante de Artes Visuais, em Uberlândia. Desenhista digital e amante das artes, encontrei no desenho a melhor forma de expressão. Adoro como as cores conversam entre si e busco trazer sentimento e expressividade através das ilustrações, mostrando o mais íntimo e fascinante de mim.

👉  Conheça o trabalho da Ana Júlia no seu instagram.

RUBY SPARKS

Os dedos corriam pelas teclas. Ela não podia imaginar. Era a primeira vez que se atreveu, em toda sua carreira de escritora, a escrever um romance erótico. Não sabia se a editora iria gostar ou se ia de fato publicá-lo. Primeiro se preocupou apenas em deixar as ideias descerem e não descartá-las imediatamente. Apesar do pavor de se descobrir menos Hilda Hilst e mais livro de banca de jornal. Mas escrever tinha um certo sabor como de perder a virgindade, muito diferente da sua verdadeira primeira vez tão dolorosa e envergonhada. Nessa, ela tinha o verdadeiro prazer de descobrir sobre si uma coisa nova. Era também, pra sua surpresa, a saída de um longo período de bloqueio criativo. Aquele jorro de palavras úmidas que ia se abrindo no papel era especialmente gostoso por ser a prova do retorno da sua criatividade. E ela sentia muita falta da sua criatividade. Mais do que da sua família, mais do que o sexo — que não fazia há quase um ano —, mais do que do amor. Era uma pessoa que se auto declarava “uma eremita”, convencida de que desde que estivesse criativa poderia suportar anos e anos de pandemia em perfeita solitude. Poderia suportar a morte. É assim a estúpida ilusão de alegria — bem burguesa — que sentia. Obviamente uma ilusão, afinal entre entre pensar e conseguir, sabemos, existe um abismo profundo. Quer dizer, no entanto, neste caso em particular, pensar e conseguir parecem encontrar uma trégua mágica. Mas não do modo que ela esperava. Enquanto corria os dedos no papel, tentando desesperadamente falar de um mundo, tentando retornar ao sexo pelas páginas, ali enquanto tentava, a vida lhe guardou uma surpresa. O extraordinário pode aparecer como um pequeno Deus a lhe pregar peças muito estúpidas.

No romance que escreve, uma mulher — outra, com um nome que a salvava de sensação de escrever sobre ela mesma — estava presa em seu apartamento e recebia uma encomenda por engano. Dentro da encomenda havia um vestido vermelho, algumas fotos reveladas de um homem nu, uma calcinha e um bilhete onde lia-se: ‘Você arruinou a minha vida e no processo de começar a esquecê-la, eu lhe dou essas merdas sedutoras que você deixou pra trás.” A mulher do romance recebe a encomenda e veste o vestido vermelho — que lhe serve perfeitamente — e fica feliz de brincar de ser alguém capaz de ter destruído o coração de um homem. Um homem lindo. As fotos, que ela olhava com muita vergonha, eram lindas. Ele deitado na cama entre lençóis amarelos, a mão segurando o lustroso pau, a boca entreaberta num sorriso gracioso, as coxas e pernas peludas. Ou na outra, ele com o rosto entre dois joelhos, sério, ameaçador. Ela se masturbou com o vestido e as fotos. Corria com as mãos ávidas na buceta, quando foi interrompida pela campainha. Ela caminha até a porta e ao abrir se surpreende com uma mulher. A mulher tem a cabeça raspada, brincos bonitos na orelha, olhos lindos e diz: “Gostou do meu vestido?”.

A autora segue, escreve mais algumas linhas sobre a chegada da dona de vestido, seus desdobramentos, as duas acabam se pegando, aquela coisa. Já devia estar duas páginas à frente quando toca a campainha do apartamento da escritora — sim, no seu mundo real de escritora. Pelo olho mágico vê seu porteiro deixando uma caixa na frente da porta. Ela desconfia, corre para abrir e encontra: um vestido, uma calcinha, as fotos deliciosas e o mesmo bilhete. Ela se senta diante da caixa assustada. Não consegue nem se excitar. Se pergunta se alguém anda lendo o que ela escreve e está de sacanagem com a sua cara. Depois tenta-se convencer de que é uma escrota coincidência. Mas não é possível. Se pergunta se desenvolveu algum dom de psicografar a vida. Anda de um lado pro outro, ansiosa. Olha as fotos, o homem é ainda mais lindo do que era em sua cabeça. Passam-se alguns minutos, a campainha toca outra vez. Ela treme. Espia pelo olho mágico: é a mulher de cabeça raspada. Não abre a porta. Mas a mulher insiste tocando inúmeras vezes a campainha. “Eu não vou embora! Eu sei que você está aí com meu maldito vestido!”. Num desespero, a autora foge para seu computador. Afinal, de todas as tramas que poderia escrever por que estava se metendo com um homem destruído, tentando caber em roupas de outra mulher? Apagou as linhas todas. A mulher na porta foi embora imediatamente. A escritora respira fundo e recomeça.

Neste ponto, você que me lê não vai ser capaz de acreditar, mas a autora começa a escrever sobre você. De todas as pessoas que ela poderia escolher inventar para encontrá-la, ela escolhe justamente você. Apresenta você como protagonista, suas principais e adoráveis características, seus maus hábitos, seus pequenos vícios de linguagem, seus pensamentos idiotas e também os mais brilhantes. Discorre em seguida um pouco sobre o início da sua vida, escreve sobre o seu passado — afinal, penso que o passado constitui parte da deliciosidade de uma pessoa — e ela escreve o seu. Sua família, onde você viveu na sua infância, a primeira vez que alguém lhe abraça, a música que você mais gostava, aquilo que você morria de vergonha. Depois fala da sua trajetória amorosa e sexual – ela tem uma abordagem meio freudiana – descreve tudo de sexual que considera importante para sua maturidade, assim como dá tons carinhosos para todas as pessoas que você gostou, amou, magoou, sofreu, sonhou. Gosta de pensar que você não tem dores insuperáveis ou obsessões por outro alguém. Ela não tem como saber de tudo, totalmente. E claro que ao inventar você para ela, ela inventa um “você” que poderá amá-la. Preservando parte do que considera um mistério necessário entre vocês. Não quer saber de tudo assim de supetão. Mas quer começar com uma lúdica intimidade. Uma intimidade que ela descreve antes mesmo de chegar no ponto em que você a encontra. Para ela, numa visão um pouco romântica, existe algo que antecede as paixões e o desejo, algo em comum que já estava lá e que dá a sensação ingênua de conhecer alguém e reconhecer algo. Ingênua, ela sente que quando você a encontrar vai ser como se pudesse reconhecê-la dos seus sonhos, como se todos os antigos fantasmas que habitam o mundo perdessem seu precioso tempo imortal pra sussurrar em seu ouvido: “Agora sim”.

Então, a autora, já encantada e também molhada com a imaginação que faz de você, chega – e nós chegamos – ao ponto em que escreve sobre quando você a encontra. Você lia um romance – ela escreve – onde de súbito percebeu que se tratava de história da sua vida. Queremos tanto, tantas vezes, que nossa vida saía da arte, mas de repente, você se pegou com a sua vida sendo contada na arte de alguém. Sem nenhum pudor, do contrário, com certo brilho e certa graciosidade. Era uma versão de você melhor do que – talvez – você tivesse sobre si. Quando leu sobre como ela descrevia seu corpo, as dobras, as marcas, os fios, a boca, o nariz, as orelhas, os dedos, o umbigo, até você se excitou tamanho o tesão que ela tem no olhar por você. Independente de qual o momento que você estava na sua vida, uma curiosidade safada apareceu. Como uma voz que diz: “Como é possível? O que ela sabe sobre mim que eu não sei? O que ela quer de mim?”. Você se pergunta se não é uma bobagem, pensa que muito dificilmente algo sairá disso, que talvez devesse processá-la pela forma tão cruamente fiel que ela descreve seu sexo e sua intimidade. Decide não continuar lendo. Mas a inquietação não cessa, você não consegue esquecer do que leu, dorme todas as noites pensando nisso, mesmo que nem sempre admita. Se pergunta se ela vai contar sua vida inteira, se ela sabe como termina e quando. Se é um tipo de oráculo bem vulgar e apaixonado pela pessoa que o interroga. E um oráculo que é apaixonado por você não deve servir muito como oráculo, mas ainda sim o medo da morte começa também a crescer. Abre e avança na história, mas com medo de ir direto ao final, encontra o momento que você a conhece. Lê as quatro primeiras linhas, seus olhos se enchem de lágrimas, você para e corre para procurá-la. Esquece da morte depois de ler o que ela escreveu. Procura o número da editora, pede incansavelmente o contato da autora para uma secretária com a voz rouca. Mas a secretária não lhe passa. Como você irá conhecê-la? Aquelas palavras, aquela história de vocês vai ficar lhe assombrando. Você odeia ela um pouco por ter embaralhado assim a sua vida e traçado um futuro do qual você sente que não pode se livrar. Quer escapar e, ao mesmo tempo, tem medo que nunca se realize. Você decide que prefere que ela lhe decepcione de algum modo, que ao olhar em seus olhos, não signifique nada. Mas – mesmo que para não significar nada – você precisa encontrá-la, chegar correndo. Quer descobri-la no seu escritório com o teclado e os lindos dedos que roubaram sua história, quer pegá-la no pulo escrevendo — talvez — sua morte ou algo ainda melhor. Precisa tomar de volta de alguma forma a sua narrativa.

Estava nesse frenesi nervoso, andando de um lado para o outro, com fantasias esdrúxulas dessa mulher desconhecida com seu teclado dos infernos lhe agitando os pensamentos e começando a lhe excitar. Pensa no estereótipo da autora, viril e lasciva, diante das letras com as pernas abertas. Como se as palavras saíssem da buceta, como se a buceta controlasse os dedos, como se a sua boca estivesse sempre salivando e chamando o seu nome. O nome que guarda a ideia de você e que agora vive aprisionado na boca dela. O tesão vem como uma corrente invencível que lhes une. Você quer se tocar com aquela imagem da autora e pelo fascínio que ela tem por você. Coloca sua mão entre as suas pernas, seja pau ou buceta que a aguarde, está surpreendentemente ereto ou úmida. Pensa que se tocar pode ser, neste caso, como uma invocação, um chamado para que ela lhe encontre.

Você está se masturbando esperançosamente quando ouve alguém gritar seu nome pela janela ou quem sabe é como se seu nome despencasse do céu. Deu certo, não conhece a voz, mas sabe e sente que é a voz dela. Dito e feito, vem o reconhecimento amoroso e a sensação dos fantasmas soprando em seu ouvido: “Vá olhar! Tire as mãos daí e vá olhar!” e você olha. Ela está lá, no meio da rua, em um vestido vermelho, a máscara tapando a boca, os olhos cintilando. Ela roubou o carro pra lhe encontrar — esse é o problema de escrever a vida, você pode começar a inventar descaradamente coisas como uma escritora que rouba carros em seu vestido vermelho sedutor para raptar pra si um leitor ou leitora ou leitore — e ela fica esperando ao lado do carro roubado, parada com os cabelos soltos desgrenhados, com o rosto de quem está fugindo ou perseguindo desesperadamente algo. Você sabe o que deve fazer. Uma sensação de cumplicidade avassala você. Faz uma pequena bolsa, com algumas roupas, o que você tem – se tem – de dinheiro, o que você tem – se tem – de drogas e desce. E se pergunta: ‘O que está acontecendo com minha história? Ou melhor, com a nossa história?” – você ousa pensar.

Vai até ela no meio da rua, entra no carro, ainda não trocam nenhuma palavra. Entram apressades pra viver, como já estava escrito antes. Ela acelera e então toca com uma das mãos na sua coxa. Um gesto perigoso para quem dirige um carro. No entanto, serena, com uma das mãos ela segura sua coxa, acariciando com ternura para depois enfiar as unhas na sua perna. Você nota que ela abre um sorriso. Um sorriso luminoso, que deve ser o mesmo sorriso roubado de todas as melhores histórias que a humanidade já contou sobre paixões inesperadas, o primeiro e radiante e insuperável sorriso de amantes. Que só não é mais forte que a maldita mão na coxa, subindo lentamente, cada vez mais próxima de lhe tocar lá. Você quer perguntar onde estão indo, vê apenas o carro veloz adentrando a noite na direção de uma estrada vazia, mas – contrariando suas próprias ideias – você não diz nada, segura a mão dela e a beija docemente. Quer um cumprimento mais profano numa pandemia que beijar as mãos de uma estranha? Sim, pois em seguida chupa os dedos dela enquanto ela dirige. Um a um, chupa os preciosos dedos do talo às unhas. Procurando encontrar nos dedos dela o seu gosto. Vê as luzes dos postes iluminando seus rostos, passando feito flashes. Vê a boca dela saindo do sorriso tão radiante para um o lábio tímido tentando conter o primeiro gemido. “O primeiro gemido é o que dá o tom de tudo”, ela lhe diz. O silêncio finalmente foi rompido. O diálogo que vem a seguir se dá todo em italiano, depois em russo, depois em francês e por fim em coreano. Você não entende como fala assim tão fluentemente, nem como ela diz assim tão fluentemente tantas línguas estrangeiras — Nós, aqui e agora, já não conseguimos entender —, mas o diálogo é delicioso. Choram e riem e se estranham como amigues de infância, com a estranheza que só temos por quem mais amamos. Você se estica e beija o canto da boca dela. Sente seu lábio tocar pela primeira vez o lábio dela, ela em seguida abre a boca, você consegue pelo canto enfiar a língua. Quando as línguas se tocam, o carro para bruscamente.

Estão diante de uma enorme praia deserta que você nunca conheceu. Você não lembra quanto tempo se passou e aquele cenário deserto lhe assusta. Ninguém mais para ver ou ouvir. Até que ponto poderá saber se as coisas são reais? Pela janela do carro sentem a brisa forte e fria com cheiro de mar. O vento arrepia sua pele, não existem casacos. A escritora se vira na sua direção, segura seu rosto com as duas mãos quentes e beija sua boca. O beijo que deveria aquecer lhe arrepia ainda mais. Você diz que está com frio, ela tira o vestido vermelho e lhe entrega. Você percebe que ela estava nua o tempo todo, que dirigia todo esse tempo sem calcinha, sem nada. Vê primeiro os dois peitos agora expostos na penumbra. A lua é a única luz que vai revelando, cerimoniosa, o corpo dela. Revela como um holofote natural que passeia junto com o seu olhar. Começa descendo pelos peitos ligeiramente tortos, pela barriga com o umbigo fundo, até – finalmente – iluminar a buceta meio aberta como naquele quadro – uma buceta que poderia ser a origem, não do mundo, mas do desejo – e seu olhar segue descendo. Quer olhá-la inteira ou talvez ela queria que você a olhe inteira e por isso escreve. Por vontade própria, ou por obrigação narrativa, você segue pelas coxas relaxadas no banco, mas que contraem só com sua observação. A observação muda até mesmo os átomos e ela muda através dos seus olhos. O sangue que corre nas veias dela agora desce todo pra buceta ou sobe, se você pensar que pode ter começado pelos pezinhos delicados de unhas pintadas. Você pousa o vestido dela no banco de trás, nisso ela se ergue, meio de quatro, virada com o rosto pra você e a bunda pra janela. Seu coração acelera. Agora você é objeto de toda a atenção. Você se paralisa. O semblante dela é um tanto ameaçador como o de uma felina. Ela segura sua camisa com suas patas, ou talvez garras, se preferir mãos, e a tira devagarzinho. Mete a cabeça quase embaixo do tecido enquanto ele sobe. Vai com os lábios molhados passeando na barriga com beijos e mordidinhas. Sobe até os mamilos, os lambe também. Sente sua pele arrepiada com a ponta da língua, vai melando um pouco tudo até a camisa cair no chão do carro. Ela então vai descendo no seu corpo procurando os limites da barriga de encontro com sua roupa íntima — calcinha ou cueca, bonita ou velha, não interessa —, ela puxa com a boca e espia excitada o pau ou buceta que tanto já desejava, que tanto escreveu sobre e que agora existe diante dela. “Isso é também um tipo de milagre”, vocês pensam em uníssono. Você abaixa tudo, termina aquele strip, sente pressa. Quer logo entregar tudo, aceitar tudo. Que ela roube seu nome, que sugue suas ideias, foda-se : você quer que ela lhe chupe, agora, incansavelmente. Mesmo sem saber se este exato pensamento foi plantado por ela, mas não nos entregamos tantas vezes às ideias de outres? Pelo menos aquela era deliciosa e estava ali nua, sedenta por você. Parecia quase babar, tentando se equilibrar de um banco pro outro no carro apertado. “Me chupe”, você urge. Ela acata, apoia os braços ao lado das suas coxas no banco e desce pras suas pernas com a boca aberta. Feito uma felina mansa. Ela lhe chupa de um ângulo que você apenas vê suas costas, a bunda balançando e a praia no fundo. O mar batendo sereno na costa lhe leva para uma espécie de transe. A bunda empinada pra lua. Você passa as mãos pelas costas da autora, ela lhe suga e lambe com devoção. Você treme no banco do carro, agora tudo se tornando um tanto úmido. A brisa não dá mais conta, a atmosfera é como de uma pequena sauna. Os rostos e corpos suados, o para-brisa embaçando. Você tem a sensação de ver palavras se escrevendo pelo vidro, como versinhos sacanas de fantasmas. Ela lhe chupa agora mais ávida, com mais velocidade, tudo é molhado, a boca dela desliza, afunda, enquanto a língua dela faz carícias inimagináveis. Você sente que se continuarem nesse ritmo, você terá um orgasmo em breve. Está gemendo cada vez mais e mais alto. Mas você quer mais dela, precisa de mais do que ficar só escorrendo naquela garganta. Você puxa ela pra cima de você. Batem os joelhos, embaralham as pernas, é uma ação um tanto desengonçada, mas há ainda um charme. A cabeça dela quase bate no teto, mas ela consegue sentar em cima de você no banco. Você inclina o banco para trás a fim de ganhar mais espaço. Os peitos dela se sacodem, os cabelos dela estão quase grudados na cara de tanto suor. Você a segura pelo quadril, apertando sua bunda, ela começa a rebolar pra você. Sente a buceta quicando, se esfregando, engolindo. O suor escorrendo. Você a agarra beijando sua boca toda molhada. Morde o lábio dela, agarra com toda força, grudando seus corpos, pele com pele até ficarem quase imóveis, só sentido a pressão dos corpos encaixados. Porém o calor agora beira o insuportável, o banco quase machuca suas costas. Ela sussurra: “Vem me fuder na praia.”

Ela se levanta e sai pelada do carro. Você sai em seguida. O vento está mais forte. Ela segura na sua mão e correm em direção a praia. O mar é calmo como uma enorme lagoa, o céu é estrelado. Ela diz que quer mergulhar na água, mas você a interrompe: “Não. Eu quero fuder com você agora.” Ela fica séria e lhe empurra na areia. Você puxa ela pelas pernas. A escritora cai ao seu lado às gargalhadas, as pernas pro alto, a buceta e o cu graciosamente virados pro céu. Você sobe sobre ela, beija os seus pés erguidos, beija também as coxas. “Você consegue pôr os pés na cabeça?”, você pergunta. “Conseguia na infância, mas com você consigo quase qualquer coisa”, ela lhe responde e coloca os pés grudados nas orelhas. Você só contempla aquela imagem por um minuto. Depois desce beijando-a até o cu. Faz cócegas, ela ri ainda mais. Você beija a bunda dela, sente as pernas relaxando e pousando nos seus ombros. Então mete os dedos em sua xota, sente a buceta toda pulsar, ela para de rir e lhe puxa pelo pescoço. Lambe sua cara e lhe dá outro beijo, agora muito apaixonado. Você deda ela devagar, tocando com o polegar no seu clitóris. Ela crava as unhas em suas costas e começa a gemer. Você a deda mais, ela passa a falar seu nome, saborear seu nome até ele começar a perder o sentido dentro da boca de gemidos dela. Você esfrega o rosto nos peitos da escritora enquanto a deda mais e mais, ela se toca. A mão dela e a sua se esbarrando, dividindo assim sua buceta molhada. Você chupa o mamilo salgado. Agora a pele dela é toda sal. Você sente o mar bater nos seus pés, mas continua. Seus joelhos se arranham na areia, mas quem se importa. Se buceta, você se encaixa entre as coxas dela para roçar xana com xana até não poder mais. Se pau, você mete nela bem devagar e firme, bem no fundo, até não aguentar mais. A maré vai subindo. Quanto mais roça e mete, mais o mar sobe lambendo pernas e bundas e costas. Mas você sabe que não irão se afogar antes do orgasmo.

Chegam naquele ponto em que talvez até para uma escritora — como ela e eu — as palavras vão se tornando desnecessárias ou até insuficientes. O prazer toma frente e domina tudo. Assalta a autoria. Fecham os olhos. Gemem e se chamam pelo nome cada vez mais baixinho. Talvez seja possível agora dar uma chance para o desconhecido. Talvez seja possível agora dar vez ao mistério, negar a descrição delirante do orgasmos que arrebata vocês — talvez porque eu também o invejo. Penso que gozar assim se parece com a paixão. Dá vontade de apenas permanecer pra saber o que vai acontecer. Mesmo que, às vezes, a gente saiba um pouco o que acontece. Ou então, me diga você quem me lê: O que esperar depois da paixão? Mas diga logo, pois de manhã vem o sol e as sirenes, vem uma raposa e os passarinhos, vem a desconfiança se alastrando como uma mancha de café na página, vem uma multidão de personagens ignorades querendo levar a autora embora dos seus braços e o pior: vem o final do conto. A tão temida pequena morte súbita. Estou tentando ao máximo adiá-la, mas é inevitável. As personagens arrancam ela pra longe, sua pele arranhada de areia. Foi você quem roubou a autora?

FIM.

* * *

Ilustradora:

Rayane Damasceno

Estudante de pintura na UFRJ, artista e pesquisadora, envolvida com experimentações de diferentes materiais dentro e fora do universo artístico e agora se envolvendo com o ramo da ilustração.

👉  Conheça o trabalho Rayane no Instagram.

(Alguns) Jogos de construção

Acho que qualquer pessoa deve ter pelo menos um tipo de jogo do qual ela não consegue largar. Podem ser jogos com mecânicas repetitivas e já batidas a lá Candy Crush e Subway Surfers ou coisas mais complexas como jogos de cartas. No meu caso, eu tenho que admitir que tenho vício em jogos de construção. Construção de cidades, estradas, linhas de trem e principalmente coisas envolvendo sistemas. Então, decidi dar algumas dicas desses jogos. Do mais complexo ao mais simples.

De longe o meu jogo favorito, o Cities é um jogo bastante aberto a possibilidades. Seu objetivo é simples: crie uma cidade. Existem varias variações de mapas e possibilidades para criar o projeto urbano dela, e não existe caminho certo para isso (mesmo se você estiver jogando o modo normal, onde os recursos são limitados).

Tudo que pode dar de errado com a sua cidade é resultado de ações suas: falta de transporte público gera trânsito, falta de energia e água contínua gera abandono das casas, falta de educação, saúde e parques gera a desvalorização da sua cidade.

Menu do serviço de agua da cidade

Enfim, são várias as possibilidades, e mesmo que você não tenha nenhuma DLC ou mod, o jogo ainda é bastante divertido. Agora caso você tenha um PC com uma configuração boa, existem uma variação enorme de adicionais, que podem expandir as possibilidades dentro do jogo.

Parte da Zona Sul do Rio feita dentro de um save do jogo com a ajuda de vários Mods e DLCs

Cities Skylines está disponível para PC e OSX (SteamEpic Games), Xbox One, Playstation 4Nintendo Switch

Como o próprio nome sugere, Satisfactory é um jogo cujo objetivo é você construir fábricas, só que um detalhe: ao contrário da vida real, o jogo tem recursos ilimitados e gera 0 poluição. Assim, não importa quantas linhas de montagem ou recursos que você use, nada acaba, nada é problema.

O grande fator viciante desse jogo é de que, além da falta de problemas, você não tem um objetivo claro (Pelo menos não até onde eu cheguei). Suas missões são sempre fabricar algum produto, e depois outro, e outro, e outro. Quanto mais complexo fica o produto mais linhas de montagem você precisa, mais recursos naturais você extrai etc. Dá pra perder horas fácil entre uma missão e outra.

Uma linha de produção “só um pouco” organizada

Satisfactory está disponível para PC (Steam e Epic Games).

Seguindo numa pegada mais simples e mais bonitinha, a ideia de Mini Metro é testar as suas habilidades de administração ao criar uma rede de linhas de metrô em uma cidade. Parece algo fácil de fazer, ligar uma estação com essa, e com aquela, e pronto. Só que tem dois detalhes bem importantes:

Fase de Nova York

Cada fase é baseada em uma cidade, com suas características e demandas diferentes. Algumas têm mais passageiros que outras, outras tem menos trens, algumas com mais rios etc.

Além disso todas as estações e recursos surgem sozinhos no mapa e de forma randômica, enquanto os recursos variam de acordo com a cidade. Criando, assim, desafios interessantes a cada fase.

Progresso da fase de São Paulo no jogo

Mini Metro está disponível para PC e OSX (Steam e Origin), Nintendo Switch, Playstation 4 e mobile (Android e IOS).

Além de linhas de metrô, por que não planejar as ruas também? Feito pela mesma produtora, Mini Motorways segue os mesmos princípios que o Mini Metro, só que com um pouco mais de complicação: ao invés de criar linhas de metrô, você cria ruas entre as casas de habitantes e seus respectivos trabalhos. Todos, também, surgindo de forma randômica.

Além disso, você tem que ter uma boa estratégia para manejar os recursos que cada cidade oferece, tais como: viadutos, sinais de transito, pontes e túneis.

Mini Motorways está disponível para iOS (pelo Apple Arcade), no PC e OSX (Steam).

Este é um jogo menos de construção e mais de administração, em PackageInc você tem que gerir uma “cadeia de produção” e distribuição de recursos. Nele você tem um armazém central e alguns hubs periféricos. Seu objetivo é ligar os prédios na cadeia para absorver o recursos.

Fase de Nova York

O desafio está em atender a demanda e não entupir as redes de transporte, pois além de absorver um recursos, cada estação gera um outro recurso que serve para outra estação. E assim, ligando estação com estação, hub com hub seu objetivo é cumprir suas tarefas e evitar o máximo de desperdício de recursos.

Fase de Tóquio

PackageInc está disponível para mobile (iOS e Android).

Posso dizer com tranquilidade que perdi (e ainda perco) horas jogando esses jogos, não é à toa que o reconheço como um vício saudável. E você, quais jogos têm sido o seu vício recentemente?

Jerry Lewis: O Falso como Forma de Atingir o Real

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Nos três filmes de Jerry Lewis citados nesse texto, a recusa ao naturalismo, a ruptura com verossimilhança e com as regras da “boa narrativa” não são só uma forma de causar o riso, mas uma recusa em seguir uma lei oculta que parece se impor aos filmes de comédia: a de que para ser “legítimo” como obra, ele deve reforçar certos “valores”, muitas vezes relacionados aos “bons e velhos costumes” ou as “boas instituições”. Isso se pode ver muito claramente em comédias convencionais atuais — não que isso as torne menos agradáveis ou engraçadas. Há sempre uma exaltação na conclusão desse tipo de filme ao casamento e a família convencional, mas sem ambiguidade, sem contradição — uma artificialidade na ideia, e não na forma. Nesse tipo de filme, não há uma visão “realista” das relações humanas, mas sua idealização. Por outro lado, há comédias que buscam outro caminho, alcançando uma ambiguidade ou incerteza, por exemplo, o amor em comédias como “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) de Billy Wilder ou “O Professor Aloprado” (1963) do próprio Jerry Lewis; ou noção de família (nem sempre biológica) em “O Garoto” (1921) de Chaplin ou em “O Terror das Mulheres” (1961), também de Jerry; fogem do convencional.

Jerry parece não querer ceder a necessidade de idealização, ele recusa terminar o seu filme com o sentimentalismo, mas sim com absurdo, o nonsense, o cômico.

Nos filmes dos três diretores citados há algum grau de ironia e malícia, assim como momentos de “distanciamento” em relação a narrativa. No entanto, enquanto em Wilder e Chaplin (excluindo os seus curtas) essas características são mais sutis e comedidos, tentando preservar alguma ilusão de realidade em seus filmes; Jerry vai muito mais longe, invertendo completamente o caminho de um certo tipo de comédia convencional — que busca pela não “artificialidade” do mundo/forma (o naturalismo e a narrativa clássica) uma ideal falso/artificial. Em “O professor Aloprado” como “O Terror das Mulheres”, ou ainda em “O Otário” (1964), o universo ficcional já de início se apresenta como falso: há o exagero em algumas atuações (geralmente na do próprio Jerry que contrasta com a dos outros atores), nas cores berrantes, nos cenários, nas roupas etc. Isso afasta totalmente o mundo dos filmes das regras do naturalismo e o aproximam do caos dos desenhos animados. Nos filmes do diretor, assim como nos cartoons, tudo é possível, já que tudo o que compõem a sua “realidade” se apresenta como artificial: mostrar um cenário como cenário, a quebra da quarta parede, o apego ao teatral etc.

São justamente esses mecanismos que permitiram Jerry Lewis se eximir de exaltar os “bons valores” em suas comédias, ao mesmo tempo que conseguiu a grande adesão do público (pelo menos até 1970, com a estreia de “Qual É o Caminho do Front?”). Porém isso teve um custo, ao abraçar a estética e a lógica caótica do desenho animado/mundo infantil, seus filmes não foram considerados artisticamente relevantes em seu país, sendo mais apreciado pela crítica europeia (que sina!) tendo um admirador em Godard, por exemplo.

Cena do filme “Tout Va Bien” (1972) de Jean Luc-Godard e Jean Pierre Gorin.

Quando antes disse que em “Professor Aloprado” há uma visão realista do amor, quis dizer que no filme estão presente tanto o amor, quanto o desejo, estando ora associados, ora dissociados. Julius (Jerry Lewis) está apaixonado por Stella (Stella Stevens), porém ele é inseguro e passivo (assim como seu pai), não se sente atraente ou desejável, coisas que no mundo que o cerca parecem estar associadas aos músculos, ao físico e a dominação — não é por menos que, em muitos momentos, a altura e o físico dos personagens e dos figurantes são importantes para o sentido da cena.

Julius em seu primeiro dia na academia.

Para inverter, a situação Julius — que mais que professor, é um cientista (louco) — cria uma fórmula que, assim como em “O Médico e o Monstro”, libera de dentro de si o seu lado “mal” (como o próprio Lewis o define), assim nasce Buddy Love, em uma cena que remete muito aos filmes de terror. Entre os três cria-se um triângulo amoroso, que no final, coincidentemente será resolvido em um baile, algo muito associado à transição para a vida adulta.

Buddy Love vs. Julius Kelp

Mas é na cena do beijo entre Stella e Jullius que Jerry se revela mais criativo e não convencional. Na tela aparece, no melhor estilo Looney Tunes, a frase “Isso não é tudo pessoal”. Corta para uma das aulas de Julius que é interrompida pela entrada inesperada de seus pais (a quem, em determinado momento do filme, a fórmula secreta foi confiada). Os dois vendem um tônico que permite qualquer um ser outra pessoa — o seu lado mal, só que livre de controle. Logo todos se amontoam querendo comprar um frasco. Isso com certeza já daria muito material para qualquer análise psicanalítica ou coisa do gênero, mas o filme não acaba aí. Stella puxa Julius preocupado para fora da sala, afinal, ele agora está oficialmente de licença e eles devem passar um momento a sós. Quando finalmente eles se viram para partir, vemos que Stella escondeu dois frascos. O filme, então, assinala que o lado “mal”, em doses homeopáticas, não é algo ruim. Fica claro que no contexto do filme — diferente da novela de Stevenson — o “mal” tem uma conotação bem específica e menos “maligna” ou “metafísica”.

Primeiro beijo de Julius e Stella
Stella e Julius partem para suas férias

Em “O Otário”, um comediante morre e sua staff decide criar um substituto. Obviamente o escolhido é alguém inepto e completamente inocente: Stanley Belt (Jerry Lewis), um mensageiro de hotel. Entre a equipe de assessoria, há Ellen (Ina Balin), que confia na capacidade do novo comediante. O filme segue com as tentativas frustradas desse grupo em fazer com que Stanley se torne um astro — de fato ele se torna famoso, mesmo sem sequer fazer uma apresentação. Mais para o fim do filme, ele é abandonado por toda sua equipe (infelizmente, Ellen não chega a tempo) em sua estreia televisiva. Apesar dos pesares, a apresentação é um sucesso. Depois disso, na cena final, Jerry parece se aproximar do convencionalismo, mas então ocorre a ruptura total.

Equipe que irá assessorar Stanley (John Carradine, Keenan Wynn, Phil Harris, Everett Sloane e Peter Lorre)

No momento de reconciliação (que seria reconfortante para o público), Stanley cai da janela e supostamente morre, mas logo toda a ficção é revelada. Algo parecido acontece em “O Terror das Mulheres”, onde um discurso muito comovente é interrompido por algo surreal e completamente fora da lógica do filme. Nesses dois casos as relações humanas também são complicadas: há interesses e necessidades envolvidas, mas no fim, se revelam ou se criam laços emocionais legítimos. Mas Jerry parece não querer ceder a necessidade de idealização, ele se recusa a terminar o seu filme com o sentimentalismo, mas sim com absurdo, o nonsense, o cômico.

Talvez possa se pensar nessa persistência de Jerry em não se render totalmente ao emocional em seus filmes como uma forma de cinismo, mas também se possa interpretar essa insistência como um forma de não resumir seus filmes a uma mensagem, não se resumir a dizer algo importante (embora Jerry não se exima disso); mas para mostrar basicamente que um filme não é a vida e que a vida não é um filme. Assim, a realidade é algo muito mais complexo, ambíguo e imprevisível do que um filme que, por si só, já é complexo, ambíguo e imprevisível.

Crônicas de uma vila pulsante.

  Em razão da pandemia e para não surtar passando o dia olhando para uma parede em meu escritório/consultório anexo a minha casa, decidi vir trabalhar na varanda (eu sei, white people problems, check!). Ocorre que meu imóvel tem esse espaço voltado para uma vila de casas num desnível de uns 5 metros que fazem eles ficarem escondidos da minha visão, mas que me capturam por meus ouvidos. E essa sinfonia costura meu dia a dia, todos os dias, em minhas aulas de psicologia on line, no meu além prédio, tecendo meu cotidiano e participando, mesmo sem saber, da minha vida de uma forma muito próxima. Quero aqui poder trazer um pouco da riqueza desse voyeurismo social involuntário dessas existências sonoras vividas em seu dia-a-dia. A vila possui 7 casas, uma do lado da outra e eu fico literalmente de frente pra elas. Numa sequência, estou mais alinhado às casas 6 e 7, como um operador de som em um concerto de música ao vivo. As casas 1, 4 e 7 estão vazias. Já que estou escrevendo em ordem, o vizinho da casa 2 eu nunca vi nem ouvi. É um mistério, simples assim e aqui termina a participação da casa 2. A casa 3 é uma situação peculiar. Sou um agnóstico religioso e moro num bairro boêmio e sambista por natureza ancestral. A escola de samba desfila literalmente na minha porta quando ensaia semanalmente para o carnaval. Seria maravilhoso se eu gostasse. Fui forjado nas caldeiras do rock’n’roll desde a adolescência. Tenho respeito profundo pela historicidade, aprecio a beleza das letras e nas suas versões mais lentas, até posso escutar alguns standards. Acontece que esse vizinho que atende pelos berros em seu portão pelo nome (fictício) de Toninho. Ele talvez seja surdo, por que as pessoas berram em seu portão com muitos ooo’s guturais no fim de seu nome gritado com persistência até que enfim o grito cessa, sem eu saber se ele abriu o portão ou a pessoa desistiu. Mas ele tem um aspecto que quase me faz acreditar em causalidade: ele é rockeiro e talvez por essa possível surdez, escuta música muito alto. E são só os clássicos do rock nacional e internacional. Sábados matinais são brindados desde 8:30 com uma seleção que deixa o aleatório do app de música pra trás. As vezes rolam sessões de MPB também. Não acho que exista um deus na forma religiosa que desenvolvemos como humanos, mas deve haver um Deus do Rock sim e com certeza ele tem um pai. 😉 A casa 5 estava vazia e era uma paz só. Há alguns meses um casal pelo que se ouve, deve ter comprado o lugar pois uma obra Tutankhamônica reforçando toda a estrutura da casa com novas ferragens e consertando tudo, como se fossem levantar um prédio ali. Se já não bastasse há 3 anos a mangueira gigante que ocupava o terreno do fundo dessa vila tenha dado lugar a dois blocos de prédios com varandas devassadas. E esse casal é esquisito, silenciosos ao menos, mas estranhos, tem um gato de telhado que vive entrecortando essa minha tela de realidade, fazendo seu Pakour natural por onde deseja e alcança e vez ou outra flertando com minha castrada e dada gatinha Amora. Eles dão comida num dia e no outro deixam o bicho miando no lugar combinado por 3 horas até que ele desiste. Quase todo dia de manha eles limpam vassoura numa parede de tijolos vazados que joga poeira na casa 5 ao lado deles. Talvez tenha que subir meu muro para manter a privacidade, não sei, estou aguardando o andamento da obra.
Foto ilustrativa, não é a vila do texto
Foto antiga ilustrativa – não é a vila do texto.
A casa 6 e ultima habitada é minha novela das 9. Uma família inteira com uma criança com o nome fictício de João. Esse menino é pra minha trama mental o personagem principal de uma nada mole vida, (melhor do que de muitos, pior do que de muitos… enfim, a dele) de 4 anos que é um ano mais novo que meu filho. Ou seja, quando estávamos perto dos parabéns do meu eu o conheci pelos primeiros acordes do seu choro de bebe recém-nascido. Desde então venho acompanhando seu crescimento e seus aniversários dias depois do meu filho. João tem uma criação difícil. Uma mãe que parece muito jovem pelo tom de voz, pela impaciência e pela indiferença as dezenas de “mamãe” que ela ouve repetidamente e ignora (eu contei uma vez: 16 vezes seguidas até ela responder). Ele tá quase sempre em choramingos e eu vivo na eminência de me meter ou denunciar. Porém, vamos colocar de outro modo: nenhum pai ou mãe é perfeito, mas o grau de imperfeição ali tá alto demais. Mas em outros momentos parecem uma família feliz, por pior que meu relato acima tenha parecido o contrário. O Pai não mora ali, é sonoramente carinhoso com ele quando está presente. João chora quando ele vai embora e as vezes diz querer o pai quando ele não está. Talvez seja namorado da mãe que não mora junto. Avó materna é presente, bem como outras pessoas jovens, talvez primas. Parece que todos moram juntos. Os conflitos familiares são presentes, constantes, mas a palavra mais gritada é “Joãoooo!” seguido ou precedido de “sai daí”, “não faz isso”, “tira a mão daí”, “vai pra lá”, “vai ficar com ela lá”. Isso sempre muito tarde da noite, numa hora que até os adultos já deveriam estar dormindo pelo bem do seu descanso regenerador necessário. Há também muito amedrontamento, do tipo “ai tem bicho!” “vou te deixar sozinha e vou embora!” Espero que não me entendam mal: eles parecem apenas uma família brasileira média-baixa comum. São felizes, escutam música popular alta as vezes no fim de semana como manda o manual do subúrbio carioca página 71 e fazem reuniões que espero ser apenas entre eles mesmos em função do momento pandêmico para beber cerveja e comer churrasco (as vezes me alcança também o cheiro além do som). Esperando as cenas dos próximos capítulos, esperando a próxima playlist, desejando não mais haver marretas e maquinas pesadas que fazem barulhos intermitentes, enfim, vivendo minha captação de realidade possível. Vejo mas não enxergo, capto uma realidade cotidiana através do sentido possível disponível. Talvez seja isso. Todo uso dos sentidos é feito no possível dessas instâncias que nos performam em nosso existir. Encerro dizendo que burlei a regra ao final do jogo: pedi a vizinha do terceiro andar para tirar fotos aéreas e me mandar, agora tenho som, cheiros e um olhar congelado. Big Brother pra que? Desejo uma nova árvore gigante próxima de mim…