DRUK


Um conto erótico bêbado em busca da graça

Sentam no entorno de uma mesa, as máscaras abandonadas, como num strip poker ou talvez num desarmamento. Vão tirando aos poucos todas as outras peças de roupas. Essa descrição parece mais sexual do que de fato é, pois tiram as roupas quase num gesto de amizade. Ainda não há tesão algum. “O tesão foi exilado”, pensam, mas não têm necessidade de afirmar mais nada. Gostam dessa cumplicidade que lhes livra da necessidade de dizer o óbvio. São três homens e duas mulheres, consideravelmente medianos, chegando aos 40. Se conhecem desde muito jovens e isso lhes dá também um olhar menos sério sobre a vida uns dos outros. Agora, depois da tão ansiosa vacina, adotaram o estranho hábito de se encontrar para beber completamente nus. Um gesto de extravagância de contato humano. Sentem que viveram tanto tempo mascarados que apenas a nudez crua dos paus moles nas cadeiras, das bucetas na almofada do sofá, só por esse despudor radical que podem tratar as feridas de anos de loucura e velamento do corpo. Um retorno ao nudismo como prática de vida e saúde. Mas claro que, em algum lugar, esperam pelo tesão. Não trepam mais dentro dos casamentos, não têm paciência para perseguir casos amorosos, então decidiram sentar semanalmente e beber à espera do retorno sagrado dos caralhos levantando, das bucetas úmidas, dos risos fogosos, do fogo nas entranhas. Das primeiras vezes, não funcionou. Por incrível que pareça descobriram que não bastam simplesmente os corpos, nem mesmo o álcool, nem mesmo carinhos nos cabelos para fazer aparecer o tesão. Descobriram que os paus podem até se erguer um pouco e as bucetas podem até pingar sem que o tesão realmente os tome. A excitação e o tesão são diferentes, é a primeira tese. Talvez a amizade que têm só lhes permita a excitação, indagam. Mas sabem que isso não é bem verdade. Na primeira vez, foram radicais. Bebidas e nudez, apenas. Mas a saudade era tanta que choraram mais do que pensaram que chorariam e ficaram muito melosos, amorosos e por fim patéticos. Na segunda, tentaram mais bebida e jogos de mesa. Ficaram até um pouco mais sacanas, mas muito competitivos e depois briguentos e irritadiços. Na terceira, decidiram aumentar a dose da bebida e acrescentar música. Uma escolha mais jovem e óbvia, talvez.

Este é o registro da terceira vez.

As mãos nuas segurando os copos, a música tocando no fundo. Muito extremistas, decidiram que não poderiam conversar absolutamente nada. Estavam de fato abolindo a palavra. Começaram bebendo, os ombros iam se contagiando e sacudindo devagar, os joelhos se esbarravam e bebiam mais. Cada vez se sentiam menos abatidos e estúpidos. O álcool foi escolhido pela sua premissa de droga do ego. É menos que a cocaína, mas ainda sim do ego e da ação. Uma droga pra dançar entre os outros, nus, descabelados, suados, desengonçados e duros torcendo que em algum momento a onda vá bater e poderão se sentir como se fossem os últimos bailarinos de Moscou.

No início, continuavam apenas duros, feitos de pedra, os ossos rangendo e estalando na coluna. Mas vão ganhando óleo, sendo azeitados, a carne soltando e amaciando. As coxas ganham graciosidades, os pés perdem o medo de sair e volta pro chão. Mais importante que isso, passam de dançar cada um em um canto para dançar cada vez mais próximos. Os olhos também ganham coragem e certa curiosidade em analisar como se movem os peitos, as barrigas pançudas, as bundas gordas ou magrelas. Como sacodem os diferentes paus quando dançam? Um pau no forró é diferente de um pau num trap. Uma buceta se abre mais num funk do que num tango. Qual dança tem mais afinidade com os genitais? Isso existe? Procuram. Passam por diferentes playlists e arranjos. As danças a dois também ganham espaço. A fricção das coxas, dos peitorais, das bundas, quando as barrigas se batem e roçam, quando grudam os umbigos. Riem. As mãos na cintura podem passear pelas costas, vira daqui, apoia de lá. Fazem duplas e um trio. Fazem duplas e um solo. Fazem solos livres. As mãos só se contagiam mesmo pela dança quando começam também a se agitar sozinhas contra o próprio corpo. Levantam cabelos, secam suor dos bigodes e debaixo dos peitos, acariciam o ar. Depois tornam a segurar firmes mais e mais copos. Mais bêbados. Vão até o chão e tropeçam. Se esbarram brutos, derrubam cerveja na pele. Mas tudo já está suado. As memórias também se esbarram entre os flashes, os olhos se fecham — vez ou outra — enquanto o corpo se mexe e podem sentir “aquela vez numa festa há muito tempo”, “na primeira vez que”, “na última vez com”, as luzes piscando. A vontade de gargalhar ou chorar retorna. Mas a regra é: quando transbordarem os olhos ou a garganta, dance mais. Quanto mais dançam e mais vulneráveis ficam, mais perto ainda se colocam. Mais perto ainda é sempre melhor. Os paus já um pouco duros só de baterem nas pernas, as bucetas um tanto úmidas só de roçar os lábios. Os mamilos enrijecidos em unanimidade. Mas onde o desejo aparece mesmo são nas bocas mordendo, nas línguas se agitando querendo se mostrar fora dos lábios e numa coisa, um fenômeno estranho, que percorre por debaixo das peles. Um tipo de faísca inominável que vai deixando todos cada vez mais atentos. As sobrancelhas querem participar e arqueiam e se franzem em caretas provocativas tentando traduzir os olhos. Todos os olhos piscam, uma vez ou outra, querendo aprimorar a tradução das sobrancelhas. Não se entendem e isto é ainda melhor. Começam só aí a realmente perceber o final do exílio, o desejo de movimento que finalmente dá forma a um desejo de movimento de alma específico, o retorno do próprio e único Tesão (com t maiúsculo). A respiração é mais densa, a dança exterior vai ficando com pinceladas mais sutis. O Tesão é quando não basta esbarrar as mãos, é quando os cotovelos querem grudar e ficam tocando um no outro porque isso é o mais importante. Agora é muito mais importante saber como os cotovelos amam. Depois os ombros e então, até mesmo as costas que se retraem ou abrem estufando os peitos. Estufando para parecerem ainda maiores em coragem, ainda maiores em fôlego. Mas as cruzadas de braços, os abraços, é que são as primeiras explosões.

Então as cabeças que apoiam no pescoço e descobrem que o sopro na pele também é pólvora. E que quem sopra direitinho faz a brasa pegar. Os lábios molhados e as línguas são a faísca que logo escapa pras bocas e ardem diferente em cada boca que entram. Para isso passam por muitas bocas até decidir qual é a boca que vão incendiar. Qual saliva realmente guarda a gasolina? Pode ser – e em algum caso é – mais de uma. Nesses casos, volta a improvisar em trio ou quartetos. Existem os dentes também que dão a pressão certa, soltam o gás. Os quadris voltam a participar, assim como os bustos. Fervem e se agitam de um lado pro outro, mais rentes ou afastando e voltando. Brincam de aquecer muito e quando quase queimam, abrem espaço. Os quadris quicam e têm aquele momento de ar, de voo antes de retornar. Os peitos depois de muito atrito com mamilos se erguem e olham pro teto por alguns segundos.

As penetrações são as segundas explosões. Quando os dedos ou os paus entram nas bucetas ou nos cus ou nas bocas e até nos umbigos e nas orelhas entram porque já precisam muito entrar. É um estado já de embriaguez em que há de se procurar abrigo. O tesão chega nesse ponto em que parece que tudo por fora é menos propício, que tudo lá fora é motivo de querer entrar fundo. Se fosse anatomicamente possível talvez se meteriam inteiros – cabeças até tornozelos – uns nos outros e umas nas outras. Entram e primeiro se contentam em ficar dentro. Dentro é sempre mais quente e molhado, parece matar a sede e acalentar os corações. Depois só dentro fica insuficiente e parece melhor entrar e sair. Como quem lembra: fora é frio, dentro é quente. Aquele jogo de criança “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”, “morto/vivo”. Para levar ainda mais longe esse ressuscitar incansável, torcem mamilos, arranham costas, tapam bocas e narizes, também intercalando doer e aliviar, sentir e não sentir, morrer e viver outra vez. Parece impossível, mas fica cada vez melhor. Mais tremem, mais gemem, mais pequenas explosões parecem acontecer o tempo todo e quase estourar os tímpanos. Depois voltam a beijar e lamber bocas e rostos. Entrar e sair é cansativo e voltam a entrar e ficar. Tentam explorar diferentes formas de ficar e de receber. Quem rebola, quem sacode ou quando podem se imitar e perceber que é muito bom também fazer exatamente a mesma coisa. Os olhos também descobrem como penetrar e permanecer. Aí, nessa exaustão, preparam o último ato. Aí, depois de muito morto/vivo, depois de passar pelo mamãe e papai, pelo cachorro, pelo numérico, pelo acrobático e pelo inimaginável, sentem o corpo nessa exaustão em que tudo fica mais calmo e os movimentos ficam mais precisos, contendo só a energia realmente necessária. Aí, sentem que estão prontos para o fim do ato. Aí, sentem que já atravessaram as etapas. Aí, precisam ter mais cuidado para conseguir ouvir o que precisa ser feito. Aí então é como um transe acordado. Tudo abre para retrair, há o esforço mortal e vital de colapsar. Depois logo vem, multiplicado, ecoando em toda parte: o orgasmo, o jorro, o último voo, a dança sem órgãos, a última explosão.

Saltar, voar. Tudo fica escuro. Só depois cair de volta em si. Só depois acordar.

Só depois a ressaca, as roupas, as máscaras e partir.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

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