Crônicas de uma vila pulsante.


Por Lauro Pontes

 

Em razão da pandemia e para não surtar passando o dia olhando para uma parede em meu escritório/consultório anexo a minha casa, decidi vir trabalhar na varanda (eu sei, white people problems, check!). Ocorre que meu imóvel tem esse espaço voltado para uma vila de casas num desnível de uns 5 metros que fazem eles ficarem escondidos da minha visão, mas que me capturam por meus ouvidos.

E essa sinfonia costura meu dia a dia, todos os dias, em minhas aulas de psicologia on line, no meu além prédio, tecendo meu cotidiano e participando, mesmo sem saber, da minha vida de uma forma muito próxima. Quero aqui poder trazer um pouco da riqueza desse voyeurismo social involuntário dessas existências sonoras vividas em seu dia-a-dia.
A vila possui 7 casas, uma do lado da outra e eu fico literalmente de frente pra elas. Numa sequência, estou mais alinhado às casas 6 e 7, como um operador de som em um concerto de música ao vivo. As casas 1, 4 e 7 estão vazias. Já que estou escrevendo em ordem, o vizinho da casa 2 eu nunca vi nem ouvi. É um mistério, simples assim e aqui termina a participação da casa 2.

A casa 3 é uma situação peculiar. Sou um agnóstico religioso e moro num bairro boêmio e sambista por natureza ancestral. A escola de samba desfila literalmente na minha porta quando ensaia semanalmente para o carnaval. Seria maravilhoso se eu gostasse. Fui forjado nas caldeiras do rock’n’roll desde a adolescência. Tenho respeito profundo pela historicidade, aprecio a beleza das letras e nas suas versões mais lentas, até posso escutar alguns standards. Acontece que esse vizinho que atende pelos berros em seu portão pelo nome (fictício) de Toninho. Ele talvez seja surdo, por que as pessoas berram em seu portão com muitos ooo’s guturais no fim de seu nome gritado com persistência até que enfim o grito cessa, sem eu saber se ele abriu o portão ou a pessoa desistiu. Mas ele tem um aspecto que quase me faz acreditar em causalidade: ele é rockeiro e talvez por essa possível surdez, escuta música muito alto. E são só os clássicos do rock nacional e internacional. Sábados matinais são brindados desde 8:30 com uma seleção que deixa o aleatório do app de música pra trás. As vezes rolam sessões de MPB também. Não acho que exista um deus na forma religiosa que desenvolvemos como humanos, mas deve haver um Deus do Rock sim e com certeza ele tem um pai. 😉

A casa 5 estava vazia e era uma paz só. Há alguns meses um casal pelo que se ouve, deve ter comprado o lugar pois uma obra Tutankhamônica reforçando toda a estrutura da casa com novas ferragens e consertando tudo, como se fossem levantar um prédio ali. Se já não bastasse há 3 anos a mangueira gigante que ocupava o terreno do fundo dessa vila tenha dado lugar a dois blocos de prédios com varandas devassadas. E esse casal é esquisito, silenciosos ao menos, mas estranhos, tem um gato de telhado que vive entrecortando essa minha tela de realidade, fazendo seu Pakour natural por onde deseja e alcança e vez ou outra flertando com minha castrada e dada gatinha Amora. Eles dão comida num dia e no outro deixam o bicho miando no lugar combinado por 3 horas até que ele desiste. Quase todo dia de manha eles limpam vassoura numa parede de tijolos vazados que joga poeira na casa 5 ao lado deles. Talvez tenha que subir meu muro para manter a privacidade, não sei, estou aguardando o andamento da obra.

Foto ilustrativa, não é a vila do texto
Foto antiga ilustrativa – não é a vila do texto.

A casa 6 e ultima habitada é minha novela das 9. Uma família inteira com uma criança com o nome fictício de João. Esse menino é pra minha trama mental o personagem principal de uma nada mole vida, (melhor do que de muitos, pior do que de muitos… enfim, a dele) de 4 anos que é um ano mais novo que meu filho. Ou seja, quando estávamos perto dos parabéns do meu eu o conheci pelos primeiros acordes do seu choro de bebe recém-nascido. Desde então venho acompanhando seu crescimento e seus aniversários dias depois do meu filho. João tem uma criação difícil. Uma mãe que parece muito jovem pelo tom de voz, pela impaciência e pela indiferença as dezenas de “mamãe” que ela ouve repetidamente e ignora (eu contei uma vez: 16 vezes seguidas até ela responder). Ele tá quase sempre em choramingos e eu vivo na eminência de me meter ou denunciar. Porém, vamos colocar de outro modo: nenhum pai ou mãe é perfeito, mas o grau de imperfeição ali tá alto demais. Mas em outros momentos parecem uma família feliz, por pior que meu relato acima tenha parecido o contrário. O Pai não mora ali, é sonoramente carinhoso com ele quando está presente. João chora quando ele vai embora e as vezes diz querer o pai quando ele não está. Talvez seja namorado da mãe que não mora junto. Avó materna é presente, bem como outras pessoas jovens, talvez primas. Parece que todos moram juntos. Os conflitos familiares são presentes, constantes, mas a palavra mais gritada é “Joãoooo!” seguido ou precedido de “sai daí”, “não faz isso”, “tira a mão daí”, “vai pra lá”, “vai ficar com ela lá”. Isso sempre muito tarde da noite, numa hora que até os adultos já deveriam estar dormindo pelo bem do seu descanso regenerador necessário. Há também muito amedrontamento, do tipo “ai tem bicho!” “vou te deixar sozinha e vou embora!” Espero que não me entendam mal: eles parecem apenas uma família brasileira média-baixa comum. São felizes, escutam música popular alta as vezes no fim de semana como manda o manual do subúrbio carioca página 71 e fazem reuniões que espero ser apenas entre eles mesmos em função do momento pandêmico para beber cerveja e comer churrasco (as vezes me alcança também o cheiro além do som). Esperando as cenas dos próximos capítulos, esperando a próxima playlist, desejando não mais haver marretas e maquinas pesadas que fazem barulhos intermitentes, enfim, vivendo minha captação de realidade possível.

Vejo mas não enxergo, capto uma realidade cotidiana através do sentido possível disponível. Talvez seja isso. Todo uso dos sentidos é feito no possível dessas instâncias que nos performam em nosso existir. Encerro dizendo que burlei a regra ao final do jogo: pedi a vizinha do terceiro andar para tirar fotos aéreas e me mandar, agora tenho som, cheiros e um olhar congelado. Big Brother pra que? Desejo uma nova árvore gigante próxima de mim…

11 Comentários

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Rita Portoresponder
14 de abril de 2021 em 6:47 PM

Oi Lauro, gostei bastante desse seu texto, narrativa leve, humorada, sonora, visual, gustativa, enfim… humana e também, preocupante… coitado do menino João… Desejo que possam nascer mais mangueiras à sua volta e novas crônicas da vida na vila… Sua história me fez revisitar a minha.. nasci e cresci numa vila de 16 casas, onde minha mãe ainda mora. Abraço, Rita

Hanna Jurgensresponder
14 de abril de 2021 em 7:09 PM

Muito bom!! Vontade de ler mais

Henriqueresponder
14 de abril de 2021 em 7:19 PM

Bom texto, descontraído e leve, a gata com o mesmo nome da gata do meu filho. A identificação se estende a que tipo de ação ter perante a desatenção materna, precisamos falar mais sobre a romantização da maternidade.

ERNANI M. C. FIORIresponder
15 de abril de 2021 em 8:58 AM

Lauro, bom dia. Gostei muito do teu texto… Enquanto crescem as mangueiras, nem que seja em fantasia…, tens aí neste teu pulsante e muito bem humorado conto todo um contexto onde tua especialidade se aplica maravilhosamente. Toda um bairro em análise pela ótica de um mestre em psicopatologia da infância, adolescência e até do idoso… Creio que um dia poderás também, em forma de conto inventado ou fantasiado, colocar todos em uma sala de análise em grupo e criar um diálogo que seguramente poderá ser um belo conto e até mesmo chegar a ser um romance pulsante de um mestre da analise do desenvolvimento humano… Que sigas com tua bela veia literária… Te felicito. Abraços, Ernani

Thiago Libânioresponder
15 de abril de 2021 em 4:06 PM

Obrigado por compartilhar um pouco do seu mundo. Não é todo dia que temos acesso a humanidade dos nossos professores. Um abraço

Rubens José Nery Rodriguesresponder
15 de abril de 2021 em 6:52 PM

Grato por compartilhar de forma bem humorada, mas não menos importante, observações que apesar de serem banais para muitos desavisados mostram muito do ser humano e suas facetas. Abraço

Paulo Edson Reis Jacob Nétoresponder
16 de abril de 2021 em 2:38 PM

Recordar é viver, muito bom o que escreveu. Já coloquei em alguns grupos.

LAISresponder
27 de abril de 2021 em 5:11 PM

Professor, muito legal seu texto. Super tranquilo e bem humorado. Fiquei com vontade de quero mais….

Flavia Barretoresponder
27 de abril de 2021 em 8:51 PM

Texto muito interessante, curioso e muito bem humorado. Fiquei com vontade de conhecer a vila e quem sabe também poder participar dessa BIGFAMILYHOUSE do cotidiano. Um abraço Lauro. Obrigada por compartilhar conosco!

Viviane de Castro Soaresresponder
27 de abril de 2021 em 8:58 PM

Boa noite, professor! Gostei bastante do texto e do compartilhamento sobre o local onde mora. Texto muito fluído, gostoso de ler, que fez imaginar tudo o que acontece. Fiquei preocupada com o João. 🙁 Espero que essa criança encontre o cuidado e atenção que necessita.

Daniela Vieiraresponder
2 de maio de 2021 em 4:18 PM

Adorei! Texto humano, gostoso de ler.

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