Se Faça de Besta, que o Jumento lhe Come


Ilustradora convidada: Yasmin Borges

Trabalhar, estudar, lavar a pia, militar no Facebook, malhar para postar “o de hoje tá pago”, comer pepino orgânico, ser mentalmente equilibrado, manter vínculos sociais e afetivos. Podia ser a vida de um de nós. Só que é a de qualquer personagem dos filmes hollywoodianos. Afinal, quem melhor para sugerir os moldes do nosso cotidiano que atores milionários?

“Basta se esforçar que você consegue” é o que mais se ouve por aí. A ideia de que dá para fazer de tudo e um pouco mais nos foi vendida sem direito de devolução. Inventaram não apenas que é possível que todo ser humano se desdobre em mil, como também que, para ser feliz, é necessário estar alinhado com esse estilo de vida semi-utópico.

Assim, a mídia vai normalizando uma de suas habilidades mais complexas: a de indicar como deveria ser o cotidiano do público. Por exemplo, aqui no Brasil, as novelas debatem os temas que consideram que sua audiência vai achar palatável, virando uma espécie de filtro do que a população vai debater naquele momento. Um sinal verde para que se discuta o assunto. “Ó, agora que estamos mostrando idosas pedindo divórcio, está ok para a terceira idade se separar”.

E muitas vezes essas mensagens do showbusiness não são só do cotidiano de um modo geral, mas também dos caminhos da nossa tão agitada política. Por exemplo, na semana em que foi divulgado que quase 7 milhões de testes de diagnóstico do novo coronavírus comprados pelo Governo Federal estão prestes a perder a validade, sem nunca terem sido usados, o jogador Pelé deu uma camisa do Santos autografada ao Presidente. Se o Rei validou a gestão do Mito, quem é o súdito que vai ousar invalidá-la?

Pelo menos enquanto alguns dão passe fora, temos outros camisas 10 que continuam em campo contra a alienação. Como Juninho Pernambucano, que fez uma denúncia à matriz do Carrefour, na França, do assassinato de homem negro em sua filial no Brasil.

E ainda tem gente que acha que arte, esportes e cultura são distrações da política, sendo que a própria escolha pela distração já é um ato político. Por mais que seja anti-político, ainda assim é uma escolha, uma decisão – o que, ironicamente, é por definição, a base da política. “Desligar a cabeça” é bom, mas desligar demais atrofia. Ou, como dizem em Maceió, se faça de besta, que o jumento lhe come.

Nessa onda da indiferença, vão sugerindo pouco a pouco como devemos nos comportar, consumir, qual família devemos constituir. E nesse último ponto até a propaganda de margarina interfere, nem a gordura hidrogenada misturada com leite deixa a gente em paz e bota lá aquela família malhada, loira, que nunca comeu uma margarina na vida, para fingir que estão super felizes em consumir uma nesga de pão banhado em Qualy. Meu medo é acordar um dia e ser multado por não ter pago “o de hoje” no espelho da BodyTech mais próxima. Será esse o próximo tema da novela das 7?

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Ilustradora convidada:

Yasmin Borges

Tenho 21 anos, sou porto-alegrense e me formei em produção audiovisual. Voltei a desenhar durante a pandemia apenas como passatempo e uma forma de distração, e no fim acabei reencontrando uma antiga paixão. Dramaticidade, cores contrastantes e cinema são aspectos influentes na composição de meus trabalhos e vida.

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